domingo, 27 de setembro de 2020

Exposição de horrores

A exposição humana é um dos mais graves sintomas de falta de empatia, e de certa forma evidencia um completo desrespeito moral subjacente. Entre 2015-16, foi super-propagandeada a exposição "Real Bodies" na Cordoaria Nacional. Aliás, era já a segunda vez que aparecia, com o característico mau gosto da ("Bodies: The Exhibition"), e com o mesmo jeito de uma propaganda manipuladora da pior espécie. 

Pareceu-me que alguém tinha conseguido ganhar uma aposta... de conseguir fazer passar pelo mundo, no Séc. XXI, uma profanação da dignidade humana, como se vivêssemos antes do Séc XIX.
Ou, como é costume dizer "foi uma boa aposta"... para os carniceiros.

Real Bodies - uma exposição que nunca deveria ter existido!

A profanação de cadáveres é crime, punido severamente por lei. 
Bom, mas só há crime quando há julgamento, e foi tudo bem cuidado para que não houvesse o mínimo sussurro em sinal contrário. Encontrei uma notícia de um certo Dr. David Nicholl, que parece ter feito um protesto solitário, acusando a exposição de usar cadáveres de prisioneiros chineses torturados:

(Daily Mail, 2010)

O que é que isso interessa? Nada, porque o importante é o interesse científico, blá, blá, blá...
Pior, conseguiu-se levar escolas inteiras, àquele horror pseudo-científico, talvez com o intuito de dar cabo da empatia humana... porque foram poucos os que minimamente pensaram nas pessoas que estiveram naqueles corpos e estavam ali expostas como bonecos. 

Em vez de usarem plastinação, modelos de borracha ou plástico poderiam fazer o mesmo efeito. Mas as criancinhas foram ao mesmo tempo instruídas de que o plástico faz mal ao planeta. Não tem problema nenhum plastinizar presos, a bem sociedade, que alegres e felizes se ofereciam como voluntários. Afinal, também os nossos órgãos podem servir para qualquer interesse mórbido, chamado científico...

Neste regime de características soviéticas, ou nazis, o bem individual é desprezado, e o cidadão pode até ver-se privado de respirar livremente. Outra aposta ganha! 

A corte ficou atenta e o sultão disse: "Viram como consegui obrigar toda a gente, desde o simples pedreiro, ao mais ilustre pedreiro livre, todos, a serem obrigados a tirar cintos e sapatos?". A corte, vendo o que se passava em todos os aeroportos, aplaudiu em unanimidade, e disse em júbilo: "Aposta ganha!". O sultão extasiado consigo mesmo, disse: "Vá, avancem com mais apostas, qualquer uma! Eu ganho!". Então, alguém da corte disse: "As mulheres são proibidas de usar o véu, aposto um bilião de dólares em como não consegue pôr todas as cristãs com o rosto coberto." O sultão sentiu-se desafiado, e disse aos restantes: "Cubro essa aposta, e a dos que quiserem juntar-se a ela." Olhando para o ar incrédulo, acrescentou: "Farei isso, não apenas com mulheres. Homens cristãos também são punidos e passarão a usar um véu a cobrir a face." 

Após a França ter banido o véu islâmico, em 2010, a situação que alastrou a toda a Europa colocou em causa muitas leis que foram aprovadas, banindo o uso de máscaras, não apenas com intuito religioso, mas também com o objectivo de identificar manifestantes.

Além disso, com uma máscara posta, já se pode simular a voz sem grandes problemas. 
Anteriormente, era extensivamente usado o caso do pequeno auricular, em que qualquer burro pode parecer um doutor, bastando para isso ter auxílio de assessores, que segredam as respostas ao ouvido.
Com uma máscara posta, pode até pôr-se o homem só a mexer a boca, que o som será controlado em estúdio, e não se correm riscos.

Usava-se como exemplo de repressão e ridículo do Estado Novo, a proibição de beijos em público. Com a instalação do Estado Higiénico, o beijo passou a ser um atentado à saúde pública... mas, tal como no caso da exposição de horrores, o que interesse é manipular a informação, passando-a a crença.


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Erro de gramar com gramáticos

Existe um portal semi-académico chamado Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, que é uma iniciativa interessante, no sentido do esclarecimento de eventuais dúvidas de escrita, mas que estando ligado à novilíngua do pseudo-Acordo de 1990, tem os efeitos e defeitos expectáveis, e outros... 

Apesar de ir criticar o referido portal, a que nunca recorri, devo notar que há boas respostas, algumas excelentes, bem como outras, piores que medíocres. Mas, no computo geral, é um bom "portal".

Na escrita, há de facto erros visíveis, mas outros destinam-se somente a ganha-pão institucional.

Se escrever "à de facto" é um erro, escrever "sómente" é apenas estilo. Se é estilo fora-de-moda, ou não, é indiferente. Que aos petizes se ensine uma só forma, acho apropriado, mas que se diga que um estilo está "errado" só por estar fora-de-moda, só interessa mesmo a quem não tem mais nada para fazer.

O ponto principal e único, é que a língua deve servir à comunicação, e não à profissão. 
Normalizar é importante, mas isso não deve ser confundido com corrigir "erros".
Podemos pensar se devemos usar "à" ou "há", e isso pode levar a erros, porque o nosso raciocínio está adaptado à forma vocal e não à forma escrita. E a razão é simples, aprendemos primeiro a falar, e só depois a escrever. É muito mais raro ver erros no discurso falado do que no discurso escrito. A maior parte dos "erros" apontados aparece na escrita.

Vou comentar "erros" de exemplos de erros do "Glossário de Erros" que começa com a letra "A".

  • "A personagem". Pretendeu-se copiar o tratamento de "a pessoa", mas não pegou! Ninguém diz "o pessoa", mas é prática assente dizer-se "o personagem". Já será menos normalizado dizer "os personagens", excepto se forem todos masculinos, já que o normal, sendo o género indefinido, será "a personagem" e "as personagens". Os links que aí se remetem mostram uma total confusão dos "burocratas de serviço", que ora concordam, ora discordam.
  • "Acerca". Dizem que não é "àcerca"... e é claro que se normalizou "acerca", mas apenas por simplificação. A origem da palavra resulta de estar "a cercar", de estar à cerca, à volta, de um assunto. Não é erro escrever-se "àcerca" é apenas uma questão de estilo fora-de-moda.
  • "Açoriano". Dizem que não é "açoreano"... porque se convencionou usar a ligação com "i", mas isso é apenas isso, uma pretensa convenção imposta, que não se nota no discurso falado. Aqui é especialmente engraçado ver-se que a língua falada pode alterar a escrita... mas o uso habitual escrito, esse não pode mudar a escrita. Se isto faz algum sentido, vou ali e já venho. Seja como for existem empresas que ainda usam a forma antiga como a "Açoreana Seguros
  • "Aderência". Não é a mesma palavra que "adesão", certo, mas é sinónimo, a menos de miopia grave. Restringir noções abstractas a uma aplicação restrita é miopia, ou em situação mais grave, cegueira. Poderia ser útil fazer a distinção entre aderência à estrada e adesão a um ideal, mas não é! Apenas limita a visão de que o significado abstracto é o mesmo.
  • "ADN"... e não DNA? Habitualmente ADN pode significar ácido desoxirribonucleico, mas a forma DNA sem qualquer menção, refere-se à mesma noção em inglês. Não tem as palavras inglesas associadas, por isso nunca pode estar errado referi-la, nem se pode argumentar que três letras DNA "estão em inglês". Quando se usa a menção a ecrã LCD ou ecrã LED, ninguém vai falar num ecrã ECL ou num ecrã DEL, porque o vendedor nem saberia do que estavam a falar, nem imaginando que tinham traduzido as iniciais para a ordem portuguesa. Quando estamos sob pressão de uma tecnologia que é alheia, é bom não inventar em demasia. Num sentido e no outro. Poderia ter-se usado a tempo "mercadologia" para "marketing", mas actualmente deve-se tomar a palavra inglesa, na pronúncia inglesa, pondo eventualmente em itálico, se se der ao trabalhing. Isto porque a selva de jargão inglês entrou sem pedir licensing:
  • "Aero". Diz-se que é um prefixo que nunca se usa com hífen, e as regras para utilização de hífen são inúmeras... Mais uma vez é uma completa perda de tempo meter aqui regras ou dar-lhes atenção. Quem escreve deve ter em atenção se o receptor entende. Ao escrever "aero-porto", está obviamente a sugerir algo diferente de um "aeroporto", mas se escrever "aero-transportado" ou "aerotransportado" é naturalmente entendido da mesma forma. Não há erro nenhum, é apenas uma questão de estilo, se escrever "aero-transportado".
  • "Afim". Nota-se que é diferente de "a fim". Neste caso há efectivamente um erro, e ao escrever "Foi a fim disso."  ou "Foi afim disso.", deve ter em atenção pode substituir "a fim" por "com a finalidade"; e "afim" por "próximo" ou "similar" (no sentido em que duas coisas que visam o mesmo fim, podem ser consideradas semelhantes, afins).
  • "Alcoolemia". Diz-se que não é "alcoolémia", e isto é uma mera tentativa educacional, contrariando o princípio "acordês" da língua seguir a sua sonoridade. 
  • "Além-" e "Aquém-". Dizem que estes prefixos devem ser acentuados, o que é um delírio fascinante, atendendo a que se achou bem retirar o acento a "pára". Continua de seguida:
  • "Antepor"... e não "Antepôr", porque aqui já quiseram tirar o acento. É indiferente, porque não há risco de confusão, mas fica melhor com a ligação a "pôr". Poderia escrever-se até ante-pôr, porque significa efectivamente "pôr antes". 
  • "Anti-" remete para regras sobre os hífens que servem para pouco mais que nada. A única regra que tem algum sentido é a de que, tratando-se de uma só palavra, deve ser ligada por hífen. Por exemplo "Sexta-Feira" é diferente de "Sexta Feira", porque separando estamos a referir uma feira que foi a sexta. Não é incorrecto escrever "cor de laranja" ou "cor-de-laranja", ainda que possa ser diferente o sentido, já que escrevendo separadamente referimos a cor do fruto, enquanto ligado por hífens remete a uma cor... que é a mesma. Simplesmente, não é muito ortodoxo escrever "é cor de rosa", querendo dizer "é da cor da rosa", por isso deverá escrever-se "é cor-de-rosa".
  • "Aparte"... sendo diferente de "à parte", provoca mais confusão junto que à parte. Porque "aparte" tanto significa uma conjugação do verbo "apartar", como "dizer um aparte", aqui a melhor solução seria escrever "à-parte", que tornaria tudo mais claro, porque o que se pretende dizer é mesmo que foi algo "à parte", uma parte quebrada do discurso. Simplesmente como a palavra ganhou um substância por si,  deveria concatenar-se com hífen.
  • "Árctico"... foi substituído por "Ártico", e por ignorância até acho bem. Não conheço qualquer razão de jeito para manter, pois não traz confusão e tinha "c" a mais. Há uma só razão menor, que é os ingleses continuarem a escrever "Arctic". Na onda "acordês", até o acento está a mais...
  • "Assessor"... que não se escreve "Acessor", e aqui a pergunta que se deve fazer é porquê? Por que razão se deve escrever "assessorar" e não "acessorar", já que claramente todas as noções estão ligadas ao acesso. É daqueles "erros" que só parecem vir da arte de fazer errar os outros. 
Praticamente estes são todos os erros aí listados para a letra "A", os outros 3 ou 4 são irrelevantes. 
Uma simples inspecção mostra que há tantos ou mais erros nos consultores do que nos consultados, e portanto ainda que possam servir para pôr ordem no galinheiro, só segue estas indicações quem quiser fazer de cordeiro obediente, ou tiver que o fazer, para não se chatear.

Se alguém ainda tiver dúvidas como um certo poder global actua rápido e se consolida como uma lapa, é ver como o "pseudo-acordo ortográfico" foi tão rapidamente adoptado, não apenas pelos serviços estatais, que a isso foram obrigados, mas por todas as empresas e meios de comunicação privados. As vozes contra o "acordo" apesar de serem muitas e importantes, nunca conseguiram fazer uma voz suficientemente forte contra a voz do sistema. O máximo que conseguiram foi que se tolerasse a escrita no formato anterior. Escusado será dizer que quando foram chamados, os que se prestaram a defender o acordo, eram afinal ilustres desconhecidos, com pouco ou nada para dizer... mas nem por isso a trampa institucional é posta no lugar devido, ou pelo menos, é reciclada... porque já tem 35 anos, muito mais que a revisão de 1973 e perto de atingir a idade de vigência do acordo de 1945.

O que esta malta parece perceber da mecânica e lógica intrínseca à língua portuguesa... pois isso escuso de dizer, parece ser mesmo pouco, e para não dizer nada, digo nada.

sábado, 12 de setembro de 2020

Nebulosidades auditivas (87)

Houve diversos domingos sangrentos, inclusive na Irlanda do Norte, mas os 14 mortos em Belfast (1972) soaram alto dez anos depois na voz de Bono e dos U2. Ainda que esta tivesse sido uma composição simples dos U2, foi também a menos politicamente correcta, pois o conflito com o IRA durou até 1994. 
O problema do enclave britânico em solo irlandês ainda hoje se interpõe nas negociações finais do Brexit.


U2 - Sunday Bloody Sunday

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Ditadura Viral

Enquanto continuam novas medidas sanitárias para os próximos tempos, e como em qualquer ditadura, o povo aguarda impotente as medidas que lhe serão impostas. Por sorte, ou não, este corona-vírus é muitíssimo menos letal e perigoso do que se pensava no início.

Falamos de quê? Da covid-19, do corona-vírus, ou da OMS-DGS?
Tudo está misturado, fala-se em infectados por covid-19, que deveria ser a doença e não o vírus. 
A OMS mandou uma série de patacoadas que a DGS acolheu de braços abertos, e continua...

O número de pessoas internadas com a doença, onde foi detectada a presença de corona-vírus, bem como outras possíveis doenças, em Portugal, é muito reduzido. Chegou a ter 1300 hospitalizados, com 270 em cuidados intensivos (UCI), o que mesmo assim não era muito, e em Agosto desceu para menos de 400 hospitalizados com 40 deles em UCI, conforme foi publicado no Jornal de Negócios:


Os assintomáticos não são doentes covid-19, são uma doença estatística pulverizando o medo de contágio, que ainda assim parece menor do que inicialmente previsto. Os cálculos do factor Rsão contas de aprendizes de estatística, e os valores que têm sido mandados desde Maio são completamente enviesados pelo critério que é usado para fazer testes, passando a lixo estatístico.

Mas esta situação é melhor vista em termos dos gráficos de mortalidade absoluta, usando os dados disponíveis pelo Ministério da Saúde, onde praticamente essa linha de mortalidade não se destaca  face a anos anteriores (no gráfico 2012-amarelo, 2018-verde, como exemplos). Se agora o gráfico a preto foi maior em Julho (e não terá sido só devido à covid-19), foi menor em Fevereiro, e não teve nenhum grande pico, como o aconteceu em Agosto de 2018... algo que passou despercebido.


Morrem, em Portugal, uma média de 110 mil pessoas por ano, e relativamente à covid-19 não estamos tão pouco em 2 mil óbitos, pelo que a taxa de mortalidade associada à doença tende a ficar na casa dos 2%, que incide na quase totalidade em pessoas com mais de 75 anos... e parece que se esperava que subitamente as pessoas tivessem passado a ser imortais! 

O pânico inicial era sensato, acreditando no que vinha de Itália, de Espanha, e depois dos EUA.
Deveriam ter-se usado máscaras mais cedo, não fosse isso crime/burrice da OMS e da DGS, cujos "cientistas" ou "especialistas" já deveriam estar, especialmente dirigentes, no olho da rua.
O "obviamente anti-máscara" passa a "obviamente pró-máscara", nunca mostrando os responsáveis da OMS-DGS vir com ela nas suas conferências de imprensa, mas impondo-a a todos, inclusive a Trump!

Quem repete uma coisa e o seu contrário, sem nada mudar, não são cientistas, são simples fraudes.

E depois temos diversas pérolas que ficam para a posterioridade psico-analítica:
- O vírus não gosta de transportes públicos apinhados, nem de fábricas. Por isso aí funciona tudo como dantes, e mete-se a máscara para assustar o vírus, já que nem servia para mais nada.
- O vírus não gosta de creches, mas adora frequentar universidades, ou bares nocturnos.
- O vírus gosta de futebol, não gosta de praia, gosta mais ou menos da festa do Avante, do Livro, de cinema, etc.

Assim, ou temos um vírus com personalidade jovem, visando apenas estes, ou temos uma cambada de políticos usando técnicos para corromper informação à grande e à francesa, ou seja, para obrigar a um determinado comportamento da população, que é tratada como bestas de trabalho. 

Tudo isto à conta de reduzir a propagação de uma gripe complicada, que será apenas uma das mais pequenas múltiplas causas de morte em Portugal?

Convém notar que mais de 80% das mortes em Portugal ocorrem acima dos 70 anos.
Os números que a covid-19 apresenta colocam-na numa 15ª causa de morte.
Que meios sanitários excepcionais são colocados, para evitar as outras 14 causas de morte?
Devem os nossos idosos ficar preocupados só com uma e esquecer as outras 14?
E que tal falar no aumento do número de suícidios?
- Pode ter duplicado? A notícia fala em aumento de 200% no Reino Unido, e assim basta vir a ser 199%, para esta nova praga do pseudo-fact-checking dizer que afinal era tudo mentira.

Todo o assunto serviu uma fonte de medo, que destruiu o contexto familiar mais alargado, deixando as famílias reduzidas ao seu núcleo principal, em muitos casos deixando a pessoa sozinha.
Se isto visa um plano de domínio global, ou paroquial (no caso português), com imposição de novos estados de calamidade, ou emergência, com desvios de divisas (dívidas) de estados, ganhos financeiros por certos chico-espertos, mais ou menos farmacêuticos, pois isso terá os seus custos.

No essencial, o próprio teste da covid-19 é uma invasão, tocando na fronteira com o cérebro... e mesmo que se esclareça que isso não danifica, o que de facto não parece fazer, pergunta-se a razão de manter isto, e não desenvolver outro tipo de testes. Esperemos que o próximo vírus em produção não exija um outro tipo de invasão do nosso corpo, porque pelo nariz já somos violados sem apelo.

Interessa que neste novo estado sanitário-policial, imposto de forma viral, o cidadão tem poucos ou nenhuns argumentos para resistir à própria invasão do seu corpo. O corpo não é do indivíduo, passa a ser da comunidade!
As vacinas correm o risco de se tornarem obrigatórias, especialmente para quem trabalha, e quem recusar isto arrisca à outra doença da sociedade, a tortura no estado judicial.

Poderia dizer-se que o sistema político representativo terá certamente gente a defender os interesses da população, mas basta olhar para o discurso monocórdico e politicamente correcto, de todas as bancadas, para vermos que esse politicamente correcto se impõe acima do resto.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Velez de la Gomera

Espanha mantém territórios em Marrocos, sendo o caso mais conhecido o de Ceuta, mas estende-se a Melilla, e outras minúsculas possessões, entre as quais o ilhéu de Velez de la Gomera:

A situação torna-se mais estranha, porque até 1930 não havia ligação a terra, conforme se pode ver numa foto de 1920:

Em 1930 ocorreu um sismo que deslocou terras, de forma que a fronteira actual é definida na areia que une o penedo a terra. Digamos que a natureza decidiu adicionar um pedaço de terra ao problema, que levou ao incidente de 2012 em que um grupo de sete marroquinos irrompeu pelo território, tendo sido quatro deles presos. 
Coisa insignificante, comparado com o incidente de 2002, do ilhéu Perejil:
onde Marrocos enviou 6 militares para definir uma base, e a Espanha respondeu, após falhanço de negociações, com uma invasão de 28 unidades de comandos, apoiadas pela marinha e força aérea.  Os militares foram presos e substituídas pela presença da Legião Espanhola. 
Depois de mediação americana, o ilhéu voltou a ser abandonado, sendo reclamado por ambos.

O estado actual das possessões espanholas em Marrocos, ditas "plazas de soberania" é este:
... e talvez mereça também algum relevo de construção, os ilhéus de Alhucemas.

Ajuda de D. Sebastião (Velez de la Gomera)
A conquista do penedo de Velez de la Gomera, apesar de parecer insignificante, envolveu a ajuda de D. Sebastião a Filipe II, enviando o almirante Francisco Barreto, que fora antes governador da Índia, numa força expedicionária do vice-rei da Catalunha, que teria no total 93 galés e 60 barcos de apoio.
Esta informação está num interessante livro de David Gonçalves de Azevedo:
Epithome Historico de Portugal publicado no Maranhão (Brasil, 1855).

Esse socorro foi tão bem recebido por Filipe II, que este não tardou a vir instalar-se em Portugal... 
Bom, e continua... 
Apesar desta concepção espanhola de que ilhas encostadas a Marrocos são historicamente suas, ainda hoje os presidentes da república portugueses têm que ir visitar as Ilhas Selvagens, descobertas por Diogo Gomes em 1438, para evitar pretensões como as que foram entregues na ONU em 2014, para aumento da área marítima espanhola, argumentando que se tratavam apenas de rochas desabitadas, mais perto das Canárias do que da Madeira... o que ainda levou a um posto permanente com elementos da polícia marítima.

Bom, e se Ceuta acabou por ficar em mãos espanholas, por vontade do governador em 1640, e D. Afonso VI acabou por ter de reconhecer essa posse em 1668. Poderá até admitir-se que os espanhóis usem Ceuta como termómetro do ambiente marroquino, tal como os ingleses usam Gibraltar como termómetro do ambiente hispânico. Mas, as restantes micro-possessões espanholas em território de Marrocos, são apenas um amostra do carácter espanhol, que obviamente não terá nunca intenção de devolver Olivença... nem mesmo se Gibraltar viesse a ser restituída.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Nebuosidades auditivas (86)

Por falta congénita de marca automóvel, os portugueses estiveram sempre afastados de triunfos nas grandes competições motorizadas, excluindo participações meritórias, como as de Pedro Lamy, que conseguiu estar numa equipa vencedora de Le Mans. Recentemente num escalão de Fórmula 1, mas para carros eléctricos, António Félix da Costa sagrou-se campeão mundial em 2019/20.

No entanto, a primeira vitória num grande prémio, no escalão principal, neste caso de motas, ocorreu no passado domingo, no Moto GP da Áustria, por Miguel Oliveira. Foi também a primeira vitória de uma equipa que estava há mais de 20 anos na competição, a Tech3 equipa secundária da KTM.
Não foi apenas a vitória, foi a forma como ele a conseguiu, ultrapassando na curva antes da meta, os dois que lutavam pelo primeiro lugar. A última volta é espectacular, e está bem comentada neste vídeo:
Momento em que Miguel Oliveira ultrapassa Miller (que, no limite da pista, afastava Pol, e pensava garantir a vitória).


À falta de melhor ilustração auditiva, fica o tema Spitfire destes Prodigy...

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Sítios (2)

Na ilha de Baffin, Canadá, há duas formações rochosas que sobressaem por serem precipícios extremos. Terá sido por essas paragens que os Corte Real desapareceram em 1502-03... não que tivessem vistos as montanhas, mas provavelmente sendo vítimas de naufrágios nessas paragens setentrionais. O monte Thor e o monte Asgard dão continuação ao tema Sítios.
Monte Thor, com uma inclinação de 105º tem uma queda vertical de 1250 metros. (imagem)

A parede vertical do Monte Thor foi escalada em 1985, e em 2012 em escalada livre. A forma como se impõe sobre um vale em U, esculpido por um glaciar, é notável.

Ainda na ilha de Baffin, surge o Monte Asgard, ambos com nomes da mitologia nórdica, que tem um duplo pico cortado.
Monte Asgard, com o duplo pico cortado, onde foi filmada uma cena de 007 - The spy who loved me.

Em 1978, os produtores de 007, escolheram aí fazer um salto de esqui, que termina com a abertura de um pára-quedas com a bandeira inglesa. O duplo Rick Sylvester fez de 007 na cena do salto, que não mostra toda a espectacularidade do cenário, devido ao contexto da cena ser de perseguição.



Cena do filme de 007 - The spy who loved me, salto do topo do monte Asgard, protagonizado pelo duplo Rick Sylvester.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Nebulosidades auditivas (85)

Após a explosão com contornos de pequena explosão nuclear, ocorrida em Beirute ontem, e atendendo ao histórico de violência e destruição que afectou aquela região no conflito israelo-árabe, será de repetir um refrão dos Human League (1984): I must be dreaming, this can't be true.

The Human League - The Lebanon (1984)

O Líbano chegou a ser um centro financeiro promissor, e era entendido como "Suiça do Médio Oriente", antes de ser dilacerado por uma prolongada guerra civil entre 1975 e 1990 que se prolongava apesar de estar presente uma força simbólica da ONU. Entre a Síria e Israel, o Líbano via-se com um palco de conflitos que decorriam em segundo plano. Os conflitos na fronteira sul do Líbano, com Israel, prolongaram-se até 2000, e em 2006 ainda foi palco do conflito entre o movimento sírio Hezbollah e o estado de Israel. Como se isso não bastasse, desde 2011, sofreu consequências da guerra civil que afectou a Síria. 

A explosão que ocorreu a 4 de Agosto, poderá não ter sido mais do que um funesto acidente, no armazenamento de fertilizantes perigosos, que explodiram abruptamente, após incêndio incontrolado, conforme mostra o vídeo seguinte:

  RAW VIDEO: Beirut blast caught on camera - (Sky News)
Beirut explosion, Lebanon 2020, video captured from different people phones (vídeo retirado)

No entanto, o aspecto da rápida propagação da onda de choque, que terá viajado perto da velocidade do som, é muito semelhante à destruição causada por bombas atómicas, sendo impressionante e surpreendente a velocidade de destruição, para quem estava a presenciar o incêndio à distância.
É claro que neste caso não houve efeitos radioactivos, mas há também bombas deste tipo (chamadas bombas limpas, por não quebrarem as convenções internacionais), que podem causar milhares de vítimas (e não apenas duas centenas mortos, como é reportado para este caso).

Não se vê nenhum interesse numa explosão deste tipo, de nenhuma parte, mesmo tendo em conta a mentalidade retorcida e disruptiva dos israelitas. Mas, essa possibilidade não irá sair do imaginário colectivo dos libaneses, dado o historial entre vizinhos do norte e do sul.
As guerras no Séc. XXI têm tendência a manifestar-se como fenómenos acidentais ou naturais, seja sob ameaça ou possibilidade de concretização efectiva, porque vivem de uma mistificação dos próprios em descartar responsabilidades, e dos opostos em acicatar medos, ao mesmo tempo que acusam uma subjacente incompetência.
Por isso, dados os processos publicitários que dominam as correntes de opinião, a maioria das guerras são quase sempre mais eficazes usando a economia e o descontentamento na população, e só mesmo nos casos mais persistentes é que envolvem a necessidade de acção física.
Neste caso, mesmo que não estejam apuradas as causas do incêndio inicial, tudo se afigura para uma simples incúria no armazenamento de nitrato de amónio, confiscado a um navio russo em 2013.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Teogonia (2) Falo na Pedra ou no Carvalho?

Recupero aqui a tradução da Teogonia, de que só fiz a parte inicial, em texto anterior. A ideia seria continuar, e falando de Hércules, não me parece má ideia rever um dos textos mais marcantes da mitologia ocidental.
A base da tradução são os textos na Perseus Digital Library, da Tufts University, que têm uma excelente compilação de textos clássicos, com a tradução e os originais. É usada aí a tradução de 1914, feita por Hugh Evelyn-White:
Convém notar que os links estão apenas para as primeiras linhas... depois é preciso seguir os cartões.
No total são 1003 linhas, em verso, que darão aproximadamente 500 linhas em português, em prosa.
Creio que dividindo isto em 3 partes, isto se faz de forma pouco complicada.

Recupero e mudo parte da tradução que fiz das primeiras 60 linhas, talvez as mais complicadas, porque me afastei consideravelmente da versão literal inglesa, procurando mais o significado do que o significante, uma vez que Hesíodo se apresentava como pastor de carneiros... mas a espécie de carneirada que ali pastou seria outra. Continuar por essa via, demoraria muito mais tempo, e não me parece justificar-se nas linhas seguintes. Ainda assim, e por via das dúvidas, olhei para a versão grega na transcrição. 

Os nomes das divindades gregas são palavras com um significado concreto. 
Que Úrano é o Céu, Gaia é a Terra, Cronos é o Tempo, Ponto é o Mar, são quase consensos.
Zeus é literalmente Dia ou Dio, e opto por deixar assim, e se tem um significado de onde surgirá Deus (numa alteração de letras escreveu-se Theos), interessa-me aqui ver o Dia como filho do Tempo, e não Zeus como filho de Cronos.
Igualmente, Hera é Era, porque o H remete apenas para um E maiúsculo, e literalmente escreve-se Era, fazendo igualmente mais sentido ver Era como filha do Tempo, do que Hera filha de Cronos.

Apolo aparece como Arco do Sol, porque esse era um significado. A quase todas as divindades se podem associar ideias, especialmente às mais antigas, e assim é natural que a Discórdia (Eris) gere como filhos a Luta, a Batalha, a Dor, a Labuta, etc...
Esse é um aspecto interessante, que contém uma opinião político-filosófica de Hesíodo, ou melhor, de quem, com ele, foi erguendo esta mitologia. O tradutor inglês procura fazer algumas conversões dos nomes em palavras, mas outras deixa ficar, avisando que também teriam significado.

Depois, há detalhes, em vez de «Olímpico Zeus», direi «O'limpo Dia», porque carrega um sentido... da mesma forma que quando escrevo: - "Falo na Pedra ou no Carvalho?", seria mais literal "Porquê tudo isto acerca de carvalho ou pedra?", para a expressão grega referindo irrelevância na discussão. 
Conforme a figura ilustra (e referi antes) há o "falo", há a "pedra", e há o "carvalho", e não é irrelevante que haja entre eles um ponto comum, no contexto da mitologia primitiva.

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Teogonia - Hesíodo (Séc. VIII a.C.)

[1 - 62]

Cantemos com as Musas do Monte Rodopiante, de grande e divino rodopiar, e que, com pés suaves, dançam em redor da Fonte Iodina, altar do Dia, o potente filho do Tempo.
Quando banham os seus ternos corpos nos permissivos rios, ou na fonte profunda, atingem o mais alto rodopiar, movendo-se em rápidos passos.
Assim se erguem e emergem da noite, e pelo véu da espessa neblina saúdam o Dia quando desponta. Saúdam a Era de Argúcia apoiada em ouro, a Ave de acutilante olhar, o Luar e o Arco do Sol que dispara os primeiros raios.

Saúdam o Mar que envolve e abala a Terra, veneram o Temer, o Amor de olhos doces, a Jovialidade duradoura, o belo Crepúsculo, o Esquecimento, a Ferida e o Tempo conselheiro. A Alvorada, com o grande Sol e a brilhante Lua, também são saudadas, tal como a Terra, o grande Oceano, a escura Noite, e toda a raça de entidades imortais.

Certo dia, quando Hesíodo pastoreava os seus carneiros, nas encostas do sagrado Monte Rodopiante, as Musas, filhas d'O limpo Dia, ensinaram a bela canção:
- Pastores silvestres: Vis infâmias, ventres balofos, sabemos alimentar, tal como falsidades por verdades passar, mas ensinando, sabemos a verdade desvelar.

Assim disseram as filhas do grande Dia, dando-me um bastão e uma coroa de louros, segredando em voz divina as coisas que antes foram e serão, falando da raça dos deuses, do princípio ao fim.
- Falo na pedra ou no carvalho?

"Alla ti e moi tauta peri drun e peri petren?" 
- irrelevância - divagar sobre a pedra e o carvalho?

Venham com as musas que alegram o espírito d'O limpo Dia com palavras que foram, são e serão.

Assim corre o fluxo doce das suas bocas, ressoando e alegrando a morada gelada de Zeus e dos imortais do Olimpo. Elas, com a sua voz imortal celebram em canção o Início, saindo os deuses da Terra e do Céu. Depois falam de Zeus, pai de deuses e homens, e de como ele é excelente entre os deuses. Cantam da raça de Homens e Gigantes, e as Musas filhas da égide do Dia, alegram o coração d'O limpo Dia.

Entre as Danadas, a Memória, que reina nas colinas Libertadoras, gerou a união com o filho do Tempo, em esquecimento de males e repouso de lamento. Pois, durante nove noites esteve o Dia consigo, entrando no sagrado leito, longe dos imortais. E, quando o ano passou, e as estações se formaram do desvanecer dos meses e dos dias contados, ela gerou nove filhas, em harmonia de pensamento, cujos corações estão em canção, e cujo espírito é livre, como o topo d'O limpo nevado.

[63 - 103]

Aqui estão os seus reluzentes palcos, belos lares, e atrás Graças e Desejo vivem deliciados.
E elas, através dos seus lábios, com uma voz amável, cantam as leis de todos e dos bons caminhos imortais, proferindo a sua amável voz. Indo para O'limpo, deliciando-se com a voz em cânticos celestes, a negra Terra ressoou sob seus pés um som encantador que se ergueu enquanto iam ao encontro do pai.

O Dia reinava no Céu, dominando os trovões e raios brilhantes, quando venceu pela força o seu pai Tempo, distribuindo de maneira justa entre os imortais as suas porções e privilégios. Estas coisas as musas que moram n'O limpo cantaram, as nove filhas geradas pelo grande Dia:
- Clio, Euterpe, Tália, Melpomene, Terpsicore, Erato, Polímnia, Urânia e Calíope, que é a primeira entre elas, pois ela ajuda os príncipes reverentes:
- quem, entre os príncipes nutridos pelo Céu, as filhas do grande Dia honram no seu nascimento, derramando sobre a sua língua orvalho doce, dos seus lábios irão fluir palavras graciosas.
Todos o olham, enquanto ele resolve disputas com julgamentos de verdade: e, falando com certeza, termina com sabedoria mesmo grandes brigas.

Portanto, existem príncipes sábios de coração, porque, quando as pessoas estão desorientadas nas assembleias, eles dirigem o assunto com facilidade, convencendo-as com palavras gentis. E quando eles passam por uma reunião, cumprimentam-nos como aos deuses, em gentil reverência, sendo notáveis entre os reunidos - esse é o dom sagrado das musas para os homens.

Pois é através das Musas e do distante Arco de Sol que existem cantores e harpistas na terra; mas os príncipes são do Dia, e feliz é aquele a quem as Musas amam: doces discursos fluem da sua boca. Pois, embora um homem tenha lamento e tristeza na sua alma recém-perturbada e viva com pavor porque seu coração está angustiado, ainda assim, quando um cantor, servo das Musas, canta os feitos gloriosos de homens antigos, e dos abençoados deuses que habitam O'limpo, ele imediatamente esquece a carga e as suas tristezas, pois os dons das deusas logo as afastam.

[104 - 138]

Saudações, filhas do Dia!
Concedam uma adorável canção e celebrem a raça sagrada dos deuses imortais que para sempre serão, aqueles que nasceram da Terra e do Céu estrelado e da Noite sombria; e aqueles que o Mar salgado criou.

Digam como surgiram os primeiros deuses e a terra, os rios e o mar ilimitado com seu furioso furacão, e as estrelas cintilantes com o amplo céu acima, e os deuses que nasceram deles, dadores do bem das coisas, e como dividiram suas riquezas, e como compartilharam as honras entre si, e também como, no início, tomaram muitas vezes O'limpo.
Essas coisas me declaram desde o princípio, musas que moram na casa d'O limpo, e digam-me quais delas surgiram primeiro.

Na verdade, a princípio o Caos veio a existir, e logo a Terra de grandes seios, o alicerce sempre seguro de todos os imortais, que sustenta os picos d'O limpo nevado, escurece o Tártaro (submundo) nas profundezas da Terra de largos caminhos; e o Amor (Eros), o mais justo entre os deuses imortais, que enerva os membros, e que dentro de si supera a mente e os sábios conselhos de todos os deuses e homens.

Do Caos surgiu a Escuridão (Erebus) e a negra Noite; e da Noite nasceram o Éter e os Dias (Hemera), concebidos em união amorosa com a Escuridão. A Terra primeiro gerou o Céu estrelado, igual a si mesma, para cobri-la por todos os lados e para ser um lugar de certeza permanente para os deuses abençoados. E produziu longas colinas, assombrações graciosas da deusa Ninfa que habita entre os vales das colinas. Ela também gerava as inférteis profundezas com o furioso Mar, mas aí sem doce união de amor.
Depois a Terra deitou-se com o Céu e gerou o Oceano, Coios, Crius, Hiperião e Japeto, rodopiantes, Teia e Raia, Témis e Mnemosine e Foebe, coroada a ouro, e a adorável Tétis. Depois deles nasceu o Tempo (Cronos), o astuto, mais novo e mais terrível de seus filhos, que odiava a luxúria do seu pai.

[139 - 172]

E, novamente, a Terra gerou os Ciclopes, pesados arrogantes, Trovão (Brontes) e Relâmpago (Asterope), e o convencido Argos, que deu ao Dia (Zeus) o trovão e lhe fez o relâmpago. Eram em tudo como os deuses, mas tinham apenas um olho no meio das suas cabeças, sendo chamados Ciclopes por essa razão. Entre os seus trabalhos estavam o poder e a força das maquinações.

E, de novo, três outros filhos nasceram da Terra e do Céu, grandes e pesados sem par, Cotos, Briareos e Gies, presunçosas crianças. Dos seus ombros brotavam cem braços, para que não fossem abordados, e cinquenta cabeças cresceram dos ombros, sobre os fortes membros de cada um, sendo irresistível a força que estava nestas suas grandes formas.

Pois todos os filhos que nasceram da Terra e do Céu, estes foram os mais terríveis e foram odiados pelo próprio pai desde o início. E o Céu costumava escondê-los a todos num lugar secreto da Terra, assim que nasciam, não permitindo que subissem à Luz. Ele regozijou-se com estas más acções, mas a vasta Terra gemeu mexida por dentro, e pensou num ardiloso e maligno plano.

A partir daí, ela fez o cinzento material com que formou uma grande foice, contando um plano aos seus queridos filhos. E ela falou, acarinhando-os, irritada com seu coração:
- “Meus filhos, gerados de um pai pecador, se me obedecerem, devemos punir o vil ultraje do vosso pai, pois foi ele quem primeiro pensou em fazer coisas vergonhosas.”
Assim o disse, mas o medo tomou conta de todos, e nenhum deles pronunciou uma palavra.
No entanto, o grande Tempo, astuto, tomou coragem e respondeu à sua querida mãe:
- "Mãe, vou-me comprometer a fazer essa acção, pois não reverencio nosso pai, de má reputação, pois foi ele quem primeiro pensou em fazer coisas vergonhosas."

[173 - 206]

Ele falou e a vasta Terra muito se regozijou em espírito, escondendo-o numa emboscada, e colocando nas suas mãos a foice, revelou-lhe a trama.
Assim o Céu, trazendo a noite e desejando amor, veio-se sobre a Terra, espalhando-se todo sobre ela. Então o Tempo, da sua emboscada estendeu a mão esquerda e pela direita pegou na grande e longa foice de dentes de tubarão, e rapidamente cortou os genitais do seu pai e jogando-os fora, atrás de si.

E não em vão caíram da sua mão, pois todas as gotas sangrentas jorraram na Terra, e à medida que as estações se moviam, ela gerou as fortes Fúrias e os grandes Gigantes de armaduras brilhantes, segurando longas lanças nas mãos, e as ninfas a quem chamam Melíades sobre a terra ilimitada.

Assim que cortou os genitais com a adamantina foice e os lançou da terra firme para o mar revolto, eles foram arrastados por um longo tempo, e uma espuma branca se espalhou em redor da carne imortal, da qual cresceu uma donzela. Primeiro, ela se aproximou da sagrada Citera, e dali foi para Chipre, surgindo à luz uma deusa terrível e adorável, nascendo erva sob seus pés bem torneados. 
Deuses e homens chamam Afrodite à deusa nascida da espuma, e ricamente coroada Cítera, porque ela cresceu entre a espuma, Cítera porque alcançou Cítera, Ciprogenes porque nasceu na ondulação em Chipre, e Filomedes porque surgiu dos genitais do pai. 

E com ela foi o Amor (Eros), e o Desejo (Himeros) seguiu-a desde o nascimento até entrar na assembleia dos deuses. Esta honra teve ela desde o princípio, parte que lhe é atribuída entre homens e deuses imortais - os suspiros das donzelas, os sorrisos e enganos com doce deleite, o amor e a graciosidade.

[207 - 239]

Aos seus filhos, proclamou-se Grande Céu, mas reprovando-os costumava chamá-los Titãs (tensões), pois dizia que se esforçavam e faziam presunçosamente acções temerosas, mas que a vingança viria depois. E a Noite gerou a odiosa Desgraça, o negro Destino e a Morte, formando o Dormir e a tribo dos Sonhos.

De novo, a deusa Noite, apesar de não ter ficado com ninguém, gerou a Culpa e a Dor, e as Hespérides, que guardam as ricas maçãs douradas e as árvores de fruto além do glorioso Oceano. Ela também gerou os Destinos, e os cruéis e vingativos, Cloto e Lacáse e Atropos, que dão aos homens, desde o nascimento, tanto o mal quanto o bem, perseguindo as suas transgressões e as dos deuses; e essas deusas nunca cessam a sua temerosa raiva até que punam o pecador com pena dolorosa. 

A mortífera Noite também concebeu Nemesis (indignação) para afligir os homens mortais e, depois dela, a Fraude e a Amizade, a odiosa Idade e a Discórdia, de coração empedernido. Porém, a lamentável Discórdia gerou a dolorosa Labuta, o Esquecimento, a Fome, o choro da Dor, e também a Luta, a Batalha, o Assassinato, o Homicídio, a Briga, a Falsa Palavra, a Disputa, a Ilegalidade e a Ruína, todas de uma natureza, e o Juramento, que mais incomoda os homens quando alguém voluntariamente faz juramento falso. 

E o Mar gerou Nereu, o mais velho dos seus filhos, que é verdadeiro e não mente, os homens chamam-no Velho, porque ele é confiável e gentil, não esquecendo as leis da justiça, tem pensamentos justos e bondosos. Gerou ainda o grande Taumante, o orgulhoso Fórcis, acasalando com a Terra, bem como Ceto, de lindo rosto, e Euríbia de coração de pedra.


[240 - 269]

De Nereus e de Doris do cabelo doirado, filha do Oceano de fluxo inalcançável, nasceram filhas, adoradas entre as deusas: Ploto, Eucrante, Sao, Anfitrite, Eudora, Tétis, Galena, Glaucia, Címotoe, Espeio, Toe e a adorável Hália, e Pasitea, Erato, Eunice de braços rosados, a graciosa Melite, Eulimene, Eulimene, Agave, Doto, Proto, Ferusa, Dinamene, Nesaea, Actaea, Protomedea, Doris Panopea, Galatea, a adorável Hipotoe, Hiponoe de braços rosados, e Cimódoce que, com Cimatolege e Anfitrite, acalmam facilmente as ondas no mar tenebroso e as rajadas de ventos furiosos, Cimo, Eione, a coroada Alimede, Glauconome afeiçoada ao riso, Pontoporia, Leiagore, Evagore, Laomedia, Poulunoe, Autonoe, Lusianassa, Evarne, amáveis ​​de aspecto e sem mancha de forma, e Psámate de figura encantadora e a divina Menipe, Neso, Eupompe, Temisto, Pronoe, e Nemertes que tem a natureza do seu pai imortal. 

Essas cinquenta filhas nasceram do irrepreensível Nereu, habilidoso em excelentes artifícios. Taumaste casou com Electra, filha do Oceano profundo, que lhe deu a rápida Íris e as Hárpias de longos cabelos, Aelo (súbita tempestade) e Ocupetes (rápido vôo) que em suas asas acompanham o ritmo das rajadas de vento e dos pássaros, reagindo instantaneamente.


[270 - 303]

E novamente, Ceto gerou de Fórcis as Graias de rosto claro, irmãs grisalhas desde o nascimento; e tanto os deuses imortais quanto os homens terrenos as chamam Graias, o bem vestido Penfredo, Enio de túnica cor de açafrão, as Górgonas que moram além do glorioso Oceano, na terra fronteiriça em direcção à Noite, onde estão as Hespérides de clara voz, Esteno, Euríale e Medusa que sofreu um destino lamentável: Medusa era mortal, mas as outras duas eram eternas e não envelheciam. Com ela se deitou o Moreno (Poseidon) num prado macio entre as flores da primavera. E quando Perseu cortou sua cabeça, surgiram o grande Crisaor e o cavalo Pégaso, assim chamado porque nasceu perto das nascentes do Oceano; e aqueloutro porque segurava uma lâmina de ouro nas mãos. Agora Pégaso voou para longe, deixou a Terra, mãe dos rebanhos, e chegou aos deuses imortais: morando na casa do Dia (Zeus) e levando, ao sábio Dia, o trovão e o raio. 

Porém Crisaor uniu-se apaixonadamente a Calirroe, filha do glorioso Oceano, e gerou Gerião de três cabeças. Ele, o poderoso Héracles matou em Eritéia (ilha vermelha), rodeada de mar, pelos seus bois trémulos naquele dia, dia em que dirigia os bois de sobrancelhas largas para a sagrada Tirinto, e atravessando o vau do Oceano, matou Ortos e Eurítio, o pastor na penumbra que saía do Oceano glorioso. Numa caverna oca gerou ela (Ceto) outro monstro, irresistível, em nada semelhante a homens mortais nem a deuses imortais, até a deusa temia Equidna, que é metade de uma ninfa com olhos brilhantes e rosto claro, e metade enorme cobra, grande e horrível, com pele manchada, comendo carne crua sob as partes secretas da Terra sagrada. Ali tem uma caverna no fundo, sob rocha oca, longe dos deuses imortais e dos homens mortais. Lá, os deuses lhe designaram uma moradia gloriosa - guardando Arima debaixo de terra; sombria Equidna, uma ninfa que não morre nem nunca envelhece.

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Note-se esta última parte, onde também Hesíodo vai colocar Crisaor como pai de Gerião, de 3 cabeças, ou dos 3 Geriões. A "terra fronteiriça em direcção à noite" seria a paragem mais ocidental, normalmente a Ibéria, a costa de Portugal. Provavelmente Eritéia seria o Algarve, com o nível do mar mais elevado. O vau do Oceano seria o estreito de Gibraltar.
Hesíodo remete Medusa para estas paragens, e convém lembrar que do género das medusas temos a caravela portuguesa. Assim, resultado da sua morte aparece Crisaor e Pégaso, nascendo perto das "nascentes do Oceano", o que seria natural, dada a fama dos cavalos ibéricos, nascidos do vento.
As Hespérides, filhas de Atlas, sempre estiveram associadas a ilhas ocidentais (Açores ou Caraíbas), tal como Atlas associado aos montes do Atlas em Marrocos. As Górgonas passaram por ser as ilhas de Cabo Verde.
A vinda de Perseu a paragens ocidentais pode juntar-se ao registo das mapalias, de persas que fizeram parte do exército de Hércules:
Nas fileiras estavam Medos, Persas, Arménios, que tinham ido de barco até África, e acabaram por se estabelecer junto ao mar. Os persas ficaram junto ao Oceano Atlântico (em África), fazendo habitações com os cascos invertidos dos barcos...




terça-feira, 21 de julho de 2020

Corte Real - Descobridor da América (Avenida da Liberdade)

A notícia está no jornal Diabo, de 2018, por Vasco Callixto, mas será uma surpresa para muitos, para tantos como eu que passaram por lá e nunca repararam. Aliás, nem sequer encontrei uma fotografia apropriada para ilustrar o assunto, mas segue temporariamente esta, que é ilustrativa:

João Vaz Corte Real - Descobridor da América

Em 1932, há 88 anos, a Câmara de Lisboa decidiu assumir que João Vaz Corte Real tinha descoberto a América em 1472. Transcrevo a notícia do jornal, porque é suficientemente esclarecedora:
Há quase um século que na principal avenida de Lisboa se presta uma justa homenagem a um navegador português que então se considerou o descobridor da América em 1472. O seu nome e o seu feito foram gravados no empedrado de um dos talhões da Avenida da Liberdade, situado entre as esquinas da Rua das Pretas e o antigo cinema Tivoli.
Quantos passantes já se detiveram a ler aquelas inscrições e a pensar para si no seu significado? Será de crer numa minoria; passa-se e nem se repara no chão que se pisa. Mas há 86 anos, que agora se completarão nos dias 2 e 3 de Julho de 1932, uns tantos, orgulhosos dos feitos de antanho, decidiram homenagear João Vaz Corte Real (1420-1496) no dia comemorativo do falecimento do antigo donatário da capitania de Angra do Heroísmo. E esta homenagem venceu o tempo. Talvez, precisamente, por ser uma minoria que nela tem reparado.O que se lê no empedrado da Avenida da Liberdade, em Lisboa?
As seguintes inscrições:
João Vaz Corte Real – Descobridor da América – Descoberta da América 1472 
Gaspar Corte Real 1500 – Miguel Corte Real 1502 – Canadá – Terra Nova – Groenlândia Homenagem à América Setentrional – Câmara Municipal de Lisboa MCMXXXII

Acrescento um pequeno detalhe informativo.
No Cap. VIII do 6º livro Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso é dito o seguinte
E como homens antigos afirmam, despois deste Jácome de Bruges, atrás dito, primeiro capitão de toda a ilha Terceira, dividiu-se a capitania em duas, sc., na de Angra, da parte do sul, e na da Praia, do norte, porque, estando sem capitão, vieram ter a ela dois homens fidalgos, por nome, um deles, João Vaz Corte-Real, e outro, Álvaro Martins Homem, os quais vinham da Terra do Bacalhau, que por mandado de el-rei foram descobrir, e, informados como a ilha estava, se foram ao reino, onde o (sic) pediram de mercê por seus serviços à infanta Dona Breatis, mulher do infante Dom Fernando e mãe do duque Dom Diogo, das treições, e sua titor, a qual lhe fez mercê dela, e ambos a partiram pelo meio e lograram, e possuíram seus descendentes, até ficar a parte da Praia sem herdeiro, que foi a que coube a Álvaro Martins Homem, por seu bisneto Antão Martins Homem não ter herdeiro.
Em 1932, estando no início o Estado Novo, ainda se poderiam ter iniciativas destas, o que é um escândalo já se sabe, porque nada tem de politicamente correcto. Esta e outras informações sobre João Vaz Corte-Real deram a certeza de ficar gravada na calçada alfacinha a descoberta 20 anos antes de Colombo.
Terá aguentado na calçada até aos dias de hoje, conforme foi dito, porque quase ninguém repara.... e levantar o chão poderia provocar outros levantamentos inconvenientes!

terça-feira, 14 de julho de 2020

Nebulosidades auditivas (84)

A censura politicamente correcta, implantou-se com o fim do Muro de Berlim, portanto faz agora 30 anos. É fácil perceber porquê... porque antes disso, condicionar a liberdade de expressão seria identificado com uma política comunista soviética. Alguém diria "se queres censurar, vai para a Rússia...", e a censura prévia de opiniões era mandada para um certo Tártaro ditatorial.

Com o fim da URSS, perderam-se algumas facilidades argumentativas... e caiu-se no sonho de que não existia e nem existiria censura no mundo ocidental, protegido por uma panaceia contra todos os males, a que chamava "democracia".

O mundo ocidental orgulhava-se e passeava com autoridade a superioridade moral ser um baluarte da liberdade de expressão e de opinião, o que não seria bem assim, mas enfim... Na Europa, e especialmente em Inglaterra, chegou-se a um extremo que vagueava entre liberdade artística e incitamento à violência.

Se em 1986 os Smiths lançavam o álbum "The Queen is Dead", Morrissey já em carreira a solo, vai mais longe, e para Thatcher, apresenta o tema "Margaret in the guillotine" (1988), assim:
The kind people have a wonderful dream, Margaret in the guillotine.
Cause people like you, make me feel so tired.... When will you die?
And people like you, make me feel so old inside... Please die!
And kind people, do not shelter this dream, make it real... make the dream real.
No final, remata com o som da guilhotina a cair...

Morrissey - Margaret on the guillotine (1988) Viva Hate album.

Scottish Maiden
Morrissey terá sido "entrevistado" pela Scotland Yard, e pouco mais que nada se passou... houve certamente gente escandalizada, e a opinião de Morrissey não mudou muito, mesmo quando Thatcher morreu em 2013.

Já agora, em dia da tomada da Bastilha, e a propósito da guilhotina, uma invenção pseudo-francesa, essa "invenção" tem diversos antecedentes, entre os quais:

- a "donzela escocesa" (Scottish Maiden) - figura ao lado, que terá ceifado ~ 150 vítimas entre 1564 e 1710.

- o "Halifax gibbet" que funcionou de 1286 a 1650, também reclamando aproximadamente uma centena de vítimas.

O nome do médico maçon Guillotin fica-lhe mais justamente associado, já que só a Revolução Francesa conseguiu a proeza de cortar aproximadamente 40 mil cabeças em pouco mais que um ano (1793-94), havendo tentativas burocráticas, politicamente correctas, para reduzir este número.

Aliás os franceses estavam tão apegados à tradição que só em 1981 aboliram o seu uso (em 1977 ocorreu o último guilhotinamento).
Estas ideias despóticas como as de Robespierre, são difíceis de tirar de certas cabecinhas, para quem a guilhotina é aplicável apenas em cabeças alheias, havendo uma atracção fatal que pede a sua.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Discos voadores

Que foram construídos discos voadores, e que há filmagens dos seus vôos perto do solo, disso não devem restar grandes dúvidas, depois de se verem as filmagens do projecto da canadiana AVRO, que construiu um Avrocar em 1953.
Depois, o financiamento findou, apesar do ministro canadiano dizer que o aparelho voava a 2400 Km/h e conseguia subir na vertical. Em 1960-61, os EUA retomaram o projecto, apenas para o abandonar, deixando o aparelho em exposição histórica
Avrocar no Museu da USAF em Dayton, Ohio

Alguns testes estão filmados, provando apenas o conceito, de forma muito limitada, com o aparelho a mover-se a pouco mais que 40 Km/h, e isto serviria para justificar o abandono do projecto:

Avrocar Continuation Test Program and Terrain Test Program, 06/01/1960 - 06/14/1961

Convém aqui referir que estes aparelhos usavam uma tecnologia que incorporava o efeito de Coanda.

Henri Coanda foi um engenheiro romeno que praticamente inventou o conceito de aviões sem hélice, que apresentou em Paris, em 1910.
Com o desenvolvimento de um jacto propulsor, Coanda trabalhou ainda num projecto para o Grã-Duque da Rússia, na construção em 1910 de um trenó propulsionado por um jacto (ver figura em baixo).

Depois disso, e com a 2ª Guerra Mundial, trabalhou com os ingleses, mas também com os alemães (o que não deve ter sido muito bem visto), na construção de aparelhos a jacto.

As invenções de Henri Coanda em 1910: o avião e o trenó, ambos propulsionados por jacto.

Tentou que lhe fosse creditada a invenção do sistema a jacto, quando apareceram posteriormente esses aparelhos, mas não sendo inglês, francês, alemão ou italiano, teve apenas esse crédito no reconhecimento dado pelo estado romeno, tendo o aeroporto de Bucareste o seu nome.

Ora, conforme já aqui falámos:


houve o projectos nazi Haunebu que visava a construção de discos voadores:
 

Colocamos ao lado direito uma as primeiras imagens de discos voadores (New Jersey, 1952), para que se veja como coincidiam razoavelmente com o aspecto das naves nazis.

Com efeito, antes da 2ª Guerra Mundial eram praticamente inexistentes quaisquer fenómenos OVNI.
Havia situações estranhas, como sempre houve... mas nada que comparasse com a vaga de avistamentos que se seguiu. Num dos primeiros casos, na Suécia em 1946, os serviços militares pensaram que seria já a URSS que tinha desenvolvido o projecto nazi Haunebu. E de lado a lado, as desconfianças iam quase sempre para o rival, até que começou a ganhar peso a hipótese ET.

Por exemplo, se virmos o depoimento do ministro canadiano Paul Hellyer:
... e atendendo a que diz que há 2 extraterrestres que trabalham com o governo dos EUA, sem se rir, numa audiência oficial; torna-se num testemunho difícil de ignorar por alguém que foi ministro da defesa, e dos transportes, entre 1963 e 1969. Vai mais longe e fala nas organizações responsáveis, por aquilo a que se chama Deep State:
Well, Senator, you were talking about a military unta, well in my opinion that is true, but I have broadened and deepened the definition to Cabal, and the Cabal comprises members of the three sisters. The Council on Foreign Relations, The Bilderbergers, and The Tri-Lateral Commission, The International Banking Cartel, The Oil Cartel, members of various Intelligence organizations, and select members of the military unta. Together, have become a shadow government of not only the United States, but of much of the Western World. [a entrevista por escrito, aqui]
Concretiza mais avançando o nome de David Rockefeller que, segundo Daniel Estulin, teria agradecido numa reunião Bilderberg aos principais jornais, cujos directores tinham ajudado a manter tudo off the record, para a preparação de um governo mundial, liderado pelos banqueiros.

Numa outra entrevista à RT em 2014, dizia haver quatro espécies de ET's que visitavam o planeta há milhares de anos, e que apenas tinham revelado a presença após o perigo nuclear, evidente com a explosão da bomba atómica.
Ora, aqui fica tudo um pouco confuso... porque se foram os aliens que ajudaram na tecnologia avançada, então quem ajudou nas bombas atómicas e nucleares?

Ora, para quem acompanha o desenvolvimento tecnológico, a maior admiração não será tanto o desenvolvimento que aconteceu depois da 2ª Grande Guerra, mas sim o grande salto de conhecimento que se deu na transição de 1900. A partir daí, à excepção da miniaturização de componentes, o avanço foi até moderado... atendendo a que passámos de milhares para milhões de pessoas muito qualificadas.
Até ao aparecimento dos primeiros Sinclair/Spectrum, no início de 1980, a tecnologia que estava ao alcance do comum cidadão era simples, mesmo básica nalguns casos...
Exceptuando aparelhos de TV, e sistemas de som sofisticados, qualquer jeitoso resolvia uma avaria sozinho, e os melhores informados sabiam exactamente como funcionava tudo, não lhe passando pela cabeça nenhuma teoria OVNI para explicar a tecnologia envolvida.

Com o desenvolvimento dos computadores, a tecnologia complicou-se um pouco, mas quem perceba como funciona um sistema computacional, verá que nada há de transcendente... excepto uma incrível capacidade de aumentar a velocidade de processamento e capacidade de armazenamento, a níveis impensáveis anteriormente. Mas, quem perceba de produção software, sabe que os sistemas actuais herdaram erros grosseiros ou vícios de concepção passada, do género "bug do ano 2000", que ainda hoje atormentam programadores.

Não acho estranho não conhecermos mais detalhes da concepção dos processadores, porque isso acabaram por ser segredos comerciais, que marcam uma enorme diferença competitiva.

Em suma, creio que Paul Hellyer sabia do que falava, especialmente no que dizia respeito ao plano de governo mundial único, definido pelo sistema financeiro. Quanto à parte OVNI, poderia servir apenas de despiste, ou então deveria ser suficientemente sincero para revelar que a própria empresa canadiana AVRO tinha fabricado os seus próprios discos voadores...

Como daqui a alguns tempos, várias ideias arriscam a aparecer por aí, passando por serem novidade... através da comunicação social super-manipulada, quando são coisas antigas, deixo mais alguns exemplos:

Aerocycle - Lackner HZ1 (1954)

Flying Platform mid 1950's

Aero-X Hoverbike (Ford) (2016) Outra versão moderna

Já não falo aqui dos aparelhos voadores de propulsão humana, remetendo para as páginas em português que fiz na wikipedia:
Apenas saliento que o recorde é ainda do ciclista grego que pedalou de Creta até Santorini (115 Km):

Portanto, antes de se pensar nas limitações da criatividade humana, é bom não esquecer que o génio tem que continuar contido na garrafa, porque há quem assim o determine e queira. 
Poderá haver razões de segurança, mas há ainda as desvantagens das mais descaradas ocultações.

domingo, 21 de junho de 2020

Nebulosidades auditivas (83)

Em Março de 2013 trouxe aqui dois vídeos.
  • Massive Attack - Unfinished Sympathy (1991)
  • The Verve - Bitter Sweet Symphony (1997)
Associei-os da forma óbvia que estão associados. Os Verve fizeram em Londres uma contra-parte do vídeo dos Massive Attack que tinha sido filmado em Los Angeles.
Ambos os vídeos se tornaram clássicos, e é assim quase obrigatório, juntar um ao outro.

Foi um ano complicado, e o contexto em que os vídeos aqui foram trazidos é pessoal, mas interessará deixar escrito o que não escrevi, uma vez que provavelmente nem sequer passará pela cabeça de ninguém, vê-lo desta forma.

Shara Nelson, a cantora que os Massive Attack trouxeram para esta faixa, caiu bem para um monólogo de Gaia... sim, estou a falar da mítica deusa do panteão greco-romano.

O vídeo começa com duas esferas a rolar numa mão, e todo o vídeo, filmado sem edição, irá ter apenas duas personagens. Quem canta, e quem escuta! - Gaia e Cronos nas esferas da acção.
Tudo o resto são estilosos canídeos cegos, pseudo-Cerberus, pseudo-cérebros, que nada vêem.
Gaia, fazendo o filme molda o universo que apresenta a mensagem.
Cronos, quem vê, domina o tempo da acção.


Nada mais interessa, porque cada detalhe que ali está são os próprios que o colocaram.
As esferas geraram um aparente mundo caótico, um Caos, de onde sai Gaia/Terra, com uma ordem e direcção bem definidas. Ao virar, logo se vê (0:38) Daddy G nome apropriado para um pai, Urano/Céu, que mostra montras, monstras, ao filho (Cronos). Gaia começa a cantar...
I know that I've imagined love before, and how it could be with you.
Really hurt me, baby, really cut me, baby... How can you have a day without a night?
You're the book that I have opened, and now I've got to know much more.
Resume-se aqui o problema de Gaia, atormentada pela impossibilidade de ver o seu interior, onde Urano escondera os seus filhos disformes, Ciclopes. Gaia sofre como um olho que não consegue ver dentro de si. Cronos tem a possibilidade de um corte temporal, facultado por Gaia, com que dilacera a ordem de Urano, fazendo nascer Afrodite.
A ordem temporal permite um futuro, mas nesse corte condena o passado à escuridão.
Daí a pergunta repetida - como pode haver um dia sem noite?
The curiousness of your potential kiss, has got my mind and body aching...
Really hurt me, baby, really cut me, baby...How can you have a day without a night?
You're the book that I have opened, and now I've got to know much more.
No cruzamento sai Daddy G, e entra 3D (2:15, ao telefone) que seguirá Shara até ao fim, enquanto indiferente ao contexto, ela repete:
Like a soul without a mind, in a body without a heart, I'm missing every part!
A estrutura universal sente a alma, mas não o nexo, sente o corpo, mas não o seu motor.
Zeus, filho de Cronos, irá remeter o próprio pai ao passado, com a ajuda de Gaia.
Gaia abriu o livro do tempo com Cronos, mas este lhe não revelou respostas.

O vídeo de Billie Walsh não será sobre nada disto. Interessou a dificuldade técnica de conseguir a acção com uma única filmagem e sem edição. Mantém uma notável sincronia com o ritmo da canção, e com o ritmo da cidade que desperta, fabricado o momento com a realidade matinal quotidiana (é manhã, porque as sombras são alongadas). Para além de documentar o quotidiano de um bairro hispânico, apresenta o drama amoroso da personagem principal, que assim está alheada do que se passa em seu redor. A típica trivialidade intelectual que, como um zero cheio de ricocós, não deixa de ser um zero, mas não deixa de ter os ricocós. 

Segue-se o vídeo-resposta de W. Stern, que sendo posterior, parece menos sofisticado e cuidado.
Ao contrário de Gaia, que evita naturalmente o contacto com os mortais, este Hermes, manifestação expectável de Cronos, tem também um caminho bem definido, e ao não evitar o confronto com quem o perturba, torna a obsessão no caminho que toma como superlativa à direcção que segue.

Os Verve usaram aqui uma melodia que pertencia aos Rolling Stones, e por isso vão sofrer diversos processos que reduzem além do aceitável a efectiva contribuição decisiva que tiveram no tema.

O caminho que começa, qual tiro de partida, ensaiado com uma cuidada descuidada travessia da rua, é ilustrado com a reacção incrédula dos transeuntes perante a obstinação de Ashcroft em imitar a certeza num caminho que corta quem se lhe atravessa, ao ponto de saltar um pequeno carro, mas vendo-se o descuido de colocar à espera (2:30) a rapariga que procurará exibir-se (2:38). 
A contrariedade no caminho de Ashcroft será o Jaguar, que o força a parar e a ver-se a si mesmo na reflexão, quando perscruta o seu interior. O sentido final ocorre na junção dos restantes elementos da banda, já que todo o sentido é na oposição ao vídeo anterior, enquanto bando de banda.
Cause it's a bittersweet symphony this life
Trying to make ends meet, (trying to find somebody) then you die.
I'll take you down the only road I've ever been down
You know the one that takes you to the places where all the veins meet.
...
No change, I can't change, I can't change, I can't change,
But I'm here in my mold, I am here in my mold.
But I'm a million different people from one day to the next
I can't change my mold, no, no, no...
...
Well I never pray, but tonight I'm on my knees.
I need to hear some sounds that recognize the pain in me.
I let the melody shine, let it cleanse my mind, I feel free now.
But the airwaves are clean and there's nobody singing to me now.
Em 2013 inverti a ordem, mas a ordem é mesmo esta.
Quando Gaia canta, já viu a esperada resposta que Cronos lhe dará depois, na forma de Hermes.
Por isso mesmo, as perguntas mantinham-se.
As partes de Gaia espalham-se pelos tempos, e a sua integridade foi tanto maior enquanto o futuro foi projecção antecipada do passado. A cantoria de Ashcroft já a ouvira mil vezes a tantos outros bardos consumidos pelos seus tormentos, procurando um caminho que levasse à reunião de todos os veios. Nenhum desconforto alheio a faria parar, enquanto carregasse em si a íntegra dos desconfortos. 
O que talvez não antecipasse é que a solução do seu problema passaria pela sua dissolução, e daí um lamento que perdurará no eco dos tempos:
Like a soul without a mind, in a body without a heart, I'm missing every part!
O que Hermes explica é que, reduzido à condição humana, não pode evitar o confronto, e o primeiro tombo será o dela, ensimesmada, e alheia ao caminho alheio. Hermes tanto salta por cima da maquinação com que lhe bloqueou o caminho, como a reduz à insignificância a sua tentativa de exibição/sedução. Todos protestaram, riram ou ignoraram, mas nem mesmo a paragem em que se confrontou consigo mesmo, o tirou desse caminho em que, como molde, serve por igual a milhões de pessoas diferentes, em tempos diferentes.

O que Cronos explicou, através de Hermes, e que no final fez Gaia virar a sua direcção, foi que a igualdade não é possível ao mesmo tempo, mas quando o tempo muda, colocando o opressor no lugar do oprimido, pois aí o opressor perde o pio da cantoria, e passará a ter outro cuidado futuro.