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segunda-feira, 10 de março de 2014

Questão do QU

Há um problema de longa data com o C.
CE não é QUE, CI não é QUI.
Pode ser da lua crescente, ou minguante... se mente, mas está presente.
Por herança latina, o Q não aparece isolado, associa-se inevitavelmente ao U.
É esta a Questão do QU.
QU ... ME    (on/off)   CG ... 3W

A razão parece ter-se perdido no tempo... os romanos não usaram o K grego, que afinal não resistiria também ao uso como som "s" em derivados de "kine", como seja cinema ou cinemática (ainda que os ingleses usem o som "k" em kinematics).

Os romanos usavam sempre o Q associado ao U, e assim se manteve em toda a tradição ocidental.
Curiosamente, uma pequena rotação mostra uma ligação a outro par C-G, que deu para muitas variações linguísticas (... por exemplo, entre o Porto Galo e o Porto Calo).

É habitual usar hoje um símbolo "on/off" juntando "OI" denotando a opção:

  • O - zero - desligado (off)
  •  I  - um - ligado (on)

O símbolo "on/off" ficou um "Q" invertido... creio que a opção de não usar o Q normal pode ter sido puritanismo sexual, já que poderia parecer um fálico Ï inserido numa cavidade O
Com os restantes, M e E, ou 3 e W, digamos que a inserção vai mais longe, não deixando nada de fora.

Com ou sem puritanismo, a questão do QU, foi herdada de tempos romanos para a época medieval, e o "Q" é uma letra tipicamente reservada para questões... Quê? Qual? Quem? Quanto? Quando?

Podemos ver que o Q remonta a uma letra fenícia:
Qoph (fenício), Qoppa (grego). 

o Qoph aparece com grafia semelhante a um "phi" grego, e o Qoppa grego acabou abandonado em favor do kappa.

A ligação do Q ao G aparece como notória quando escrevemos caligraficamente em minúsculas as letras "q" e "g", algo que já foi claramente uma herança vinda de tempos medievais. É dito que por vezes se escreveria "eqo" para "ego", mas a regra do "qu" impediria tal tentação redutora:
In the earliest Latin inscriptions, the letters C, K and Q were all used to represent the two sounds /k/ and /ɡ/, which were not differentiated in writing. Of these, Q was used before a rounded vowel (e.g. 〈EQO〉 'ego'), K before /a/, and C elsewhere. Later, the use of C (and its variant G) replaced most usages of K and Q: Q survived only to represent /k/ when immediately followed by a /w/ sound.  
Q" Oxford English Dictionary, 2nd edition (1989) 
Qual o interesse de reportar aqui a questão do QU?
É claro que o assunto por si tem piada, como há muitas coisas que têm piada, e servem para curiosidades jocosas em redes sociais. No entanto, como (quase) tudo o que aqui coloco, o interesse vai muito para além da simples aparência imediata.
Ficou claro que "falo" não apenas na "fala".
Já tinha reportado a questão do "OU", agora reporto a questão do "QU", havendo apenas uma "perninha" I inserida no fecho O, passando a Q.

Poderia resultar tudo de invenção humana, e haveria muito tempo para elaborar perniciosamente tais malabarismos encriptados. Porém, parece-me que não... é muito mais que isso. É muito mais um problema alfaborboleto... O símbolo "on/off" só recentemente apareceu estilisticamente como um "Q" invertido, e se houvesse razões antigas seria natural que tivesse sido assim popularizado antes.

Por outro lado, há efectivamente ligações a palavras e a imagem do Qoppa lembra-nos a taça (copa) e as próprias copas das árvores... tal como o símbolo Qoph pode lembrar a chave de "cofre". Afinal o próprio processo de fecho envolve uma entrada na fechadura, onde se insere a chave, tal como o Q pode ser visto na forma "IO".

Só que, ainda que haja intenção humana na representação consciente, há um arrasto inconsciente que surge das ligações abstractas. Porque o simbolismo de chave e fechadura transcende a mera posse casual. De forma semelhante, há interpretações para além da imagem literal num tronco que ramifica em copa, ou num pé que sustenta o conteúdo da taça. Essas interpretações são, por exemplo, biológicas e estruturais.

Se liguei a questão OU a uma dualidade universo fechado/aberto com solução É, o acento passou aqui para uma entrada no fecho O... e é essa a questão QU. Biologicamente, a evolução foi feita com chaves de DNA, transportadas por cabecinhas espermatozóides, na forma de Q com rabinho nadador. De entre todas as possibilidades, apenas um levava a chave que abria o duro fecho da fechadura, formando o OVO. Até aqui a palavra "ovo" remete à simbologia de junção de dois "o" (poderia ser também "OUO"), um de cada progenitor.

Por outro lado, na imagem do tronco que deriva em copa, encontramos ainda a imagem estrutural de uma árvore que ramifica na sua descendência. Ora, se é do tronco comum da árvore que surgem nos ramos os frutos, semente para nova descendência, também é do tronco fálico que é emitida a semente para a nova descendência.
Com uma diferença considerável... cada árvore é apenas elemento masculino.
Onde está o elemento feminino na reprodução (assexuada) das plantas?
Podemos vê-lo como sendo toda a Terra.
Nesse sentido a Terra é o candidato a enorme útero por onde vagueia o sémen das plantas na Primavera. Ainda neste sentido, a Terra seria ao mesmo tempo mãe e mulher.
Quando a evolução se tornou sexuada definiu o género feminino como útero substituto, e a Terra envolveu-se na reprodução na forma das suas filhas. Primeiro, com os répteis, as filhas mantinham um papel distante, e a grande autonomia do ovo gerado deixava ainda a Terra como grande útero onde os ovos cresciam até à eclosão. A ligação de parantesco nos répteis é praticamente inexistente.
Depois, especialmente com os mamíferos, a Terra simulou um útero interno, deu a cada filha um estatuto de "pequena Terra", criando um laço único de parentesco - a forte ligação mãe-filhos. Nalguns mamíferos e nas aves essa ligação definiu um conceito familiar, extensivo ao elemento masculino.

Essa foi uma diferença brutal... os filhos não nasciam sem passado, passaram a viver com uma ligação ao passado, que cada vez se foi cimentando mais, especialmente com os hominídeos. O conceito familiar terminou com a individualidade, e começou a definir um conceito de grupo.
Esse grupo ligava ao passado, e começando apenas com a família, foi remetendo a uma estrutura mais complicada, que cada vez detinha maior herança do passado, para benefício dos jovens. Esta herança social era substancialmente diferente de outras manifestações - por exemplo, entre abelhas ou formigas, onde cada indivíduo poderia ser visto como uma parte desconexa de um ser maior - todos partilhando o mesmo material biológico.

Porém, ao definir-se esse grupo social, definiu-se uma nova estrutura animal, com aspectos monstruosos.
Quando antes um indivíduo nascia dentro da mesma espécie, estava praticamente dentro de condições semelhantes face aos outros. Porém, quando os grupos se definiram dentro da espécie humana, as condições passaram a poder ser dramaticamente diferentes... como se tratassem de espécies diferentes.
Uma criança escrava nascia como presa, enquanto o filho de um patrício nasceria como predador.

E, no entanto, apesar de tudo isto... a Terra continua a ser mãe das filhas e dos filhos. O útero materno não deixa de ser apenas parte de um útero terrestre muito maior, que define as entidades que aí sobrevivem.
É claro que há a herança reptiliana... a ideia que saímos formados de um ovo que ninguém cuidou, que somos autossuficientes. E por momentos esquecemos que o ar que respiramos é pouco mais que um líquido amniótico que nos mantém vivos dentro do útero terreno.

Por isso, convém não esquecer o significado da taça... e não há aqui nenhuma taça para os reptilianos armados em T-Rex. A taça que existe é formada por uma base sólida onde se sustém a nossa fluidez. O pé dessa taça está preso às raízes terrenas, e convirá não deixar que a fluidez de sonhos pouco consistentes arraste todo o conteúdo para fora dessa base sustentada.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Patas

Pelo meio da evolução, interessa perceber o que pode ter levado a umas soluções e não a outras.
Por estranho que possa parecer, há evidência biológica para respostas geométricas. Um caso típico é a divisão que levou aos Tetrapodes, ou seja, 4 patas, que junta todos os vertebrados terrestres e aves (incluem-se aí as asas, que saem de patas).
Os insectos, aranhas, escorpiões e crustáceos, com múltiplas patas, caem noutra parte do reino animal - os Artrópodes - a solução com número maior de patas trouxe uma curiosidade - nenhuns são vertebrados.

Talvez mais engraçada é uma grande divisão animal que separa os "Protostomas" dos "Deuterostomas"... já que há uma escolha embrionária primitiva, relativamente ao tubo digestivo:
Protostomas - Abrir primeiro a boca (artrópodes, moluscos);
Deuterostomas - Abrir primeiro o ânus (vertebrados, estrelas do mar).

O ovo fecundado começa a subdividir-se, e de alguma forma replicando a geração universal, a sucessão 1, 2, 4, 8... duplicará células aparentemente semelhantes, mas que irão ter funções muito diferentes.
Uma primeira fase do processo consiste na definição da "parede" que separa o interior do exterior... essa "parede" é a pele, representada na blástula do embrião.
No caso dos animais, devido à necessidade de alimentação, define-se logo o tubo digestivo, pela gástrula, que unirá "furos" na blástula... por um lado a boca, por outro lado o ânus.
Onde abre primeiro? - uma grande separação entre os animais é feita nesta opção. Em todos os vertebrados, o tubo digestivo abre primeiro pelo ânus... algo que é bastante diferente dos insectos, moluscos, etc... onde o tubo digestivo abre primeiro pela boca.

Esta divisão inicial centrada no tubo digestivo, mostra bem a importância vital da alimentação na constituição dos organismos primitivos. A alimentação revelará a essência atómica da vida. Comer podia ser um processo mecânico, mas vai ao fundamento químico atómico. Ou seja, a ingestão de outros organismos poderia simplesmente consistir num aproveitamento das suas células, para benefício do organismo que ingere. Qual a necessidade de destruir por completo as células da presa, se grande parte desse processo remete à construção de novas células no predador? Em certas tribos havia até a ideia de ligar a ingestão de órgãos para benefício dos mesmos órgãos... porém, como sabemos, o processo é bem mais radical e os nutrientes aproveitados estão ao nível molecular básico, até atómico. Ao predador interessam as moléculas, os átomos, ou a energia, e estruturas mais complexas da presa são completamente destruídas no fluxo pelo tubo digestivo.
Se o processo parece brutal pela redução da presa a simples nutrientes, não deixa de ser revelador de que a vida animal é independente da destruição doutras formas de vida, apenas recolhe os nutrientes dessa forma.
Uns seres vivos tornaram-se em autênticas fábricas de nutrientes para outros, sendo o caso mais paradigmático o das plantas. Mas este tipo de estrutura é suficientemente abstracta, e espelha-se até socialmente. Uma grande população serve como fábrica de nutrientes para uma elite predadora. É claro que a classificação predador e presa no processo humano remete a conceitos muito mais sofisticados do que a simples sobrevivência, ou a mera competição num determinado objectivo.

Voltando à questão embrionária.
Definido um corpo central, percebemos que há basicamente duas possibilidades - a radial e a não radial.
A opção radial não privilegia nenhuma direcção. 
Assumindo uma direcção preferencial, começaram a definir-se os corpos bilaterais, que seguiam a direcção do tubo digestivo - da boca à cauda. Portanto, foi a questão do tubo digestivo, a questão da comida que definiu essa orientação preferencial, e vemos que nos vertebrados a coluna segue exactamente essa direcção, que é também a direcção de locomoção.
Uma ameba pode ser vista como um corpo radial, onde nem sequer estão definidos membros... o número de extremidades é flexível e variável. O movimento do corpo amorfo é possível em todas as direcções, mas isso implica uma grande complexidade a programar a estrutura... só para controlar o movimento!
Assim, a complexidade do DNA nas amebas pode estar ligada justamente a uma complexidade estrutural que permite definir movimentos e formas arbitrárias. Isso deixa de acontecer quando a estrutura fica rígida, e ao indivíduo são permitidas poucas hipóteses de movimento. Por exemplo, os vertebrados tetrapodes ficaram reduzidos a deslocamentos fixos, com apenas quatro "patas".

Portanto, solução simples na codificação do movimento no DNA seria definir um número fixo de direcções. 
A solução pôde ser radial, mas com um número limitado de raios, de patas, que saem do corpo central, no caso dos artrópodes. 
No caso dos moluscos, as extremidades servem apenas a locomoção, e são o mais próximo do radial, tudo o resto fica preso ao corpo central (p.ex. tubo digestivo e olhos - que no caso de bivalves distribuem-se pela várias direcções). Dentro dos artrópodes, as aranhas têm uma solução parecida. Já os insectos desenvolveram uma solução diferente onde, das oito ramificações saídas do corpo central, uma das extremidades definiu a cabeça para onde migram os olhos e cérebro, e a outra extremidade tomou funções digestivas e reprodutivas, ficando as restantes 6 para as patas. Mais do que as aranhas que têm até 8 olhos, os insectos adquiriram uma direcção preferencial, com dois olhos, e estabeleceu-se uma bilateralidade não vertebrada. 

Os vertebrados começaram por definir o tubo digestivo como direcção, como no caso dos peixes, onde o número de membros não estaria completamente definido, e de soluções com múltiplas barbatanas, chegámos aos peixes pulmonados, tetrapodes, de onde se pensa terem surgido os vertebrados terrestres.
Esses vertebrados terrestres definiram 6 componentes onde, para além das quatro patas, uma das componentes definiria uma "pouco útil" cauda, e uma essencial cabeça.
Hominídeos e humanos dispensaram o prolongamento na cauda, o cócix limita o "six", reduzindo a 5 as componentes que também são replicadas nos dígitos (5 dedos). Ainda assim, do ponto de vista geométrico, o "macaco que perde a cauda" é um passo menos surpreendente do que o das cobras... que dispensaram as 4 patas, aparecendo como uma variante de tetrapode com uma única direcção preferencial, enquanto as aves evoluíram duas das suas patas em asas. 
O caso das aves é especialmente paradigmático porque apesar da significativa redução de direcções, a sofisticação do controlo das asas permite complexos movimentos de voo. Seria já a nível de um cérebro evoluído que se processaria o controlo de movimentos, não passando pela codificação directa no DNA. Por muito rápido e inerente que seja o processo, pode fazer sentido dizer que as aves aprendem a voar, e que alguns mamíferos aprendem a andar... algo que não se verifica com répteis.

Este ponto final é especialmente importante... a reprodução diversificada pela combinação de genes atingiria um certo limite crítico ao remeter codificações ao cérebro. A sofisticação do cérebro avançaria mais rapidamente do que a codificação genética. O contexto na formação do cérebro do indivíduo iria ultrapassar a vantagem da codificação genética incorporada pelo parentesco biológico.
Chegados esse ponto, a menos de transformação genética "mágica", o cérebro de indivíduos semelhantes passa a ser muito mais funcional pelo contexto educacional do que por resultado do património genético. As variações genéticas só a curso de inúmeras gerações poderiam ser eficazes, enquanto um cérebro flexível rapidamente se adaptaria a novos contextos... foi esse o caso humano.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Alfaborboleto

Sei que algumas das coisas que aqui escrevo parecem estranhas, julgadas mais fabulosas do que ligadas à realidade desvendada pelos olhos... e por isso é também aconselhado ver o que as borboletas nos trazem aos olhos, sem ser figurativamente. 
Neste caso um alfabeto borboleta!

Kjell Bloch Sandved, um fotógrafo de borboletas compilou padrões nas asas de borboletas, que se parecem bastante com números e letras do nosso alfabeto:
Padrões alfanuméricos em asas de borboletas (imagem em io9.com)

É claro que haverá quem diga que se trata de coincidência, de pareidolia, como quando uma mancha ou uma nuvem nos lembra uma cara, uma região... mas não vale a pena discutir sobre isso.
As imagens estão aí, e há muitas outras que Sandved recolheu desde 1960, publicou na revista do Smithsonian, e apresenta no seu site:


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Herança genética - o reino das amebas

Um dos mitos que deve ter caído da cadeira do preconceito genético terá sido saber-se que a maior sequência genética não está entre os seres humanos.

Se olharmos para a herança genética que passa de progenitores para descendentes, a actual liderança destacada vai para uma Ameba, com menos de meio milímetro, de nome Polychaos dubium:
A ameba Polychaos dubium tem a maior sequência genética (encyclopedia of life)

O genoma desta ameba é 200 vezes superior ao dos humanos, e apesar do seu tamanho insignificante, tem algumas particularidades notáveis. Entre essas particularidades estão cristais de forma bipiramidal que guarda em si, ou uma notável capacidade de alterar a sua forma, criando protuberâncias - chamadas pseudopodes ou pseudo-pés. Esta ameba pode ser encontrada na Europa ou América do Norte, em locais de água doce, alimentando-se de algas...

Vemos aqui um claro exemplo de como a complexidade pode ter outras formas. Se o genoma do homem (3.2 Gb) cabe bem numa pequena Pen de 4 Gb, o desta senhora ameba precisa de um disco com mais de 500 Gb, para armazenar 670 Gb.

Tratando-se de um ser unicelular, não indicia haver um processo de meta-conhecimento.
É uma alternativa evolutiva em que parece não haver colaboração com outras células.
Enquanto no caso de animais multicelulares cada célula individual é apenas uma contributo para uma forma de vida agregada, de onde resulta um conhecimento superior  (através da interacção, confiança na dependência, que coloca decisões nos múltiplos neurónios de um cérebro), neste caso a solução é individual. 

Seres multicelulares
Mesmo do ponto de vista de seres multicelulares, o genoma humano fica bastante atrás de dois casos conhecidos, que têm genomas pelo menos 40 vezes superiores.
No caso de plantas, o recorde de 150 Gb está actualmente numa espécie de lírio, denominada Paris Japonica, encontrada com outros lírios no Monte Haku:
Paris Japonica, lírio com o maior genoma entre os multicelulares

Outros lírios mais vulgares, como a fritillaria assyriaca ou uva vulpis, chegam a ter 130 Gb, rivalizando com o maior genoma encontrado num animal vertebrado:
- Trata-se do Peixe Pulmonado Protopterus aethiopicus, com também 130 Gb, e que pode ser encontrado no Rio Nilo:
O peixe pulmonado tem o maior genoma entre os animais multicelulares

Sobre o lírio não conheço nada em especial que justifique tão pesada herança - talvez um nariz mais apurado consiga perceber alguma subtileza no aroma produzido. 
Já o peixe pulmonado é notável por conseguir respirar ar, estando numa categoria particular dos Tetrapodes - ou seja, animais com quatro patas, levando-o ao antecessor vertebrado de onde terão partido a maioria dos animais terrestres - quando saíram da água (época Devoniana), por conseguirem respirar directamente ar, podendo gerar os anfíbios.

Cadeia informativa
O genoma, ainda mal compreendido, pode ter informação redundante. Em seres microscópicos parece haver uma relação mais clara entre a sua complexidade e o comprimento da cadeia genética, no caso de seres macroscópicos isso não é tão evidente... até porque haverá diversos níveis de redundância.

Os seres multicelulares começam por ter 100 Mb e como vemos podem ser até 1500 vezes mais longos, enquanto os mais pequenos animais unicelulares começam nos 20 Mb e podem ser até 33 000 vezes mais longos no seu genoma. Ou seja, a variação entre os seres unicelulares é bem maior, permitindo a existência de animais com complexidade mais pequena.

Se o vertebrado com o maior genoma encontrado é um peixe que respira ar, o mais pequeno é um peixe vulgar - uma espécie de peixe-balão de aquário, chamado Tetraodon nigroviridis, e com 385 Mb tem o seu genoma com apenas um tamanho 9 vezes inferior ao dos humanos. Algumas formigas têm mesmo um genoma superior ao deste peixe (formiga-de-fogo).
Estas contas simples colocam os humanos num patamar pequeno ao nível do tamanho do genoma... são apenas 9 vezes maiores que o peixe-balão, e 40 vezes menores que o peixe pulmonado.

Se outras contas fossem necessárias, parece claro que a novidade humana não se deu pelo tamanho da herança genética. Os factores externos pesaram de sobremaneira na definição dos animais superiores, e o registo de herança genética foi reduzido a um nível muito pequeno - ninguém nasce ensinado - se isso contar para alguma coisa é para uma ameba!

Estamos habituados a que o esquema de interdependência celular tenha levado aos maiores organismos, e que os organismos unicelulares pouco mais sirvam do que acessórios... contudo os próprios organismos unicelulares podem organizar-se em colónias - como é o caso das bactérias, dos fungos, etc.
Não é completamente claro que estes seres separados não deixem de actuar em conjunto. Ainda que não se perceba nenhuma comunicação detectável entre si, como entre formigas, ou entre abelhas numa colmeia, há alguns aspectos em que denotam mais do que uma coordenação acidental.
Quando começamos a ver as coisas numa perspectiva de organismos desconexos, mas em que o propósito pode ser conexo e desconhecido, então estes seres unicelulares, que optaram por não depender de outras células, têm uma dimensão planetária cuja massa total é gigantesca e por reciprocidade oposta faz o conjunto de todos os outros seres parecer uma ameba ao pé de si!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Eva, Evo e Ovo (1)

Começamos com um interessante gráfico com a árvore de evolução filogenética :
Árvore evolucionária ou filogenética - com datações por registo fóssil (L. Eisenberg, 2008, daqui)

Há uma grande diferença entre evolução e a teoria darwinista (de selecção natural) que se desenvolveu.
Para efeitos da evolução animal humana nem precisamos de registos fósseis, ela torna-se praticamente evidente no traço comum do desenvolvimento embrionário, começando pelo ovo, pela mórula, blástula e gástrula, comuns a todos os animais, e que depois mantém algumas semelhanças visíveis mesmo em fases posteriores:
Comparação do desenvolvimento embrionário 
(peixe, salamandra, tartaruga, pinto, coelho, homem)  [daqui]

A evolução está presente desde a junção do ovo no útero materno, na sequência de divisões celulares que formam o embrião. A recuperação de fósseis, e as árvores evolucionárias, ou o mais recente projecto de sequenciação do genoma, apenas confirmam um aparente percurso semelhante entre o homem e restantes espécies animais. A parte genética vai mais longe, colocando ancestralidade numa mesma célula eucariota, ou ligando até todos os organismos vivos a uma bactéria primeva (LUA - last universal ancestor).

"Evo" prefixo de "evolução" remete-nos a uma primordial "Eva"... uma vez ateado o fogo da vida, num primevo organismo, a chama não mais parou a propagação, recordando no ovo a sua forma ancestral.
O Ovo reflecte uma ancestral célula Eva, foco da chama propagada por Evo... isto é, pela evolução.

O texto poderia agora complicar-se em múltiplas direcções.
Primeira... em que célula está o organismo?
Podemos tentar seguir a célula que se irá dividir para formar o cérebro, mas a questão é que o próprio cérebro não será mais que um aglomerado de células individualizadas, por exemplo neurónios. Para além disso, sabemos que muitos neurónios, e restantes células podem desaparecer por completo e isso não afectará a individualidade do organismo superior.
Analise-se o que acabamos de dizer... "organismo superior". Há um paradigma complicado aqui.
Individualmente cada célula não faz a mais pálida ideia do que é esse organismo superior.
O organismo superior define-se pela comunicação e interacção das células individuais, mas cada uma delas "não saberá" como contribui para a estrutura superior.

Já usei aqui uma comparação com a estrutura de um corpo social. Uma sociedade pode ser vista como uma estrutura em que cada indivíduo é uma célula. Os nomes acabam por revelar essa influência... fala-se em corpos sociais, órgãos de gestão, como se fosse uma réplica de funcionamento de um organismo vivo. Porém, se isso poderia fazer algum sentido, não é o habitual, pois a individualidade sobrepõe-se à ideia de corpo. Assim, o funcionamento do corpo social tende a ser uma ramificação de poderes individuais.
Curiosamente, se há uma leitura do conjunto, mais uma vez ela parece escapar aos indivíduos, entretidos nas suas interacções com objectivos particulares...

Passarei a algo mais genérico, e de consequências muito mais profundas:
- Numa estrutura não estão no mesmo nível os nodos e as suas ligações.
Ou mais intuitivamente, uma coisa são os pilares, outra coisa é a ponte que se forma entre eles.
Pode argumentar-se que as ligações não existem sem os nodos, ou que a ponte não tem sustentação sem os pilares... mas é um profundo erro "materialista"!

Os organismos complexos resultam da interacção de muitos biliões de células, e algumas das formas de vida nem se considera que pertencem ao próprio - caso das bactérias na flora intestinal.
Grande parte da análise científica reduz todos os animais a potenciais montes-de-esterco, pois nada mais restaria do que uma massa fertilizante, alimento para nova vida.
Porém, o organismo complexo é muito mais do que a soma da acção das células, resulta das pontes que se estabelecem entre elas... o que está num nível diferente do individualismo celular.

Por outro lado, os indivíduos têm as suas ambições isoladas, mas ao longo dos tempos emerge a tal evolução que negligencia os indivíduos privilegiando a informação genética propagada pela espécie. Tal como as células se ligam para formar corpos, pela morte programada dos próprios corpos pouco parece mais interessar do que a simples informação genética, transportada pelas "sementes". O grande mastodonte, o belo pavão, ou o esperto macaco, não passariam afinais de variações de DNA, ou ainda, guardar-se-iam apenas em grandes números codificados em base 4 (A, C, G, T).

O indivíduo não está em nenhuma célula isolada... apesar de resultar de divisões sucessivas, perdeu-se a ideia de "célula original"... não há nenhuma "célula rainha"! As células têm diferenças, funções diferentes, mas trabalham na lógica do mesmo organismo. No final da formação do embrião, as divisões levam umas para os pés, outras para a cabeça, mas carregam o mesmo material genético.
Por isso, ao contrário da comparação que se pretendeu fazer com os corpos sociais, não se sente nenhuma individualização, para uma célula ser rainha, ou para umas tantas serem mais nobres que outras.
Naturalmente cada uma assume o seu papel dentro do organismo, e se há rebelião celular, trata-se de uma manifestação cancerígena... curiosamente de células que, parecendo ser individualmente imortais, vão replicar-se sem limites invadindo a estrutura original. Acabam por morrer por colapso da estrutura que invadiram na lógica do interesse da célula individual, que é cega relativamente ao organismo conjunto. A sua aparente imortalidade é afinal uma morte precipitada pela ausência de cognição da célula individual para além de si mesma. Quando se dá a vitória dessa lógica individual no organismo, dá-se imediatamente a sua derrota, pela falência da própria estrutura.

Como disse, este tema poderia seguir múltiplas direcções... se escrevesse sem restrições, acho que tão depressa não pararia, tantos seriam os pontos importantes. Para já, invoco apenas mais uma direcção.

Segunda...  que ligações há entre as células?
Conforme vemos os organismos, as células ligam-se fisicamente umas às outras, por proximidade espacial... mas não só! As células de diferentes organismos nem sempre são benvindas, como ocorre em problemas imunitários resultantes dos transplantes. Aliás, as células mais selectas em termos de recusa de "colagens externas" serão as células da pele (os transplantes de pele usam-se até que a outra seja rejeitada).
Porém, esse é apenas um mecanismo de ligação.
Nesta lógica de corpo, as células têm um sucesso individual limitado, o que interessa será o conjunto.
Esta ideia passou para animais que usam estruturas sociais, como o caso das abelhas.
Ao que parece há vários elementos do DNA das abelhas que mostram mais semelhanças com vertebrados (mamíferos, humanos) do que com insectos... talvez reflectindo o aspecto socializante da espécie.
A lógica das obreiras trabalharem para a preservação do DNA da rainha foi uma filosofia aristocrata humana, tipicamente medieval. Do ponto de vista puramente animal é algo que faz sentido... se a ideia é preservar o código genético, e o povo se revê geneticamente no líder, então trata-se de uma forma de eugenia.

Porém, é preciso ser objectivo no que está em questão... o sucesso das espécies acabou por reflectir uma adequação entre a acção-cognição dos indivíduos num certo contexto. Se havia um jogo, quem ditava uma boa parte das regras era a própria Terra, pelas circunstâncias particulares do planeta. Uma outra grande parte seria ditada pela imensidão de pequenos organismos capazes de afectar o planeta a nível global... as bactérias (incluindo as arquéias) e até os vírus.
Estarão estes micro-organismos descoordenados? Afinal, se houve bactérias que passaram a células e se organizaram em corpos enormes, outras houve que mantiveram a velha tradição unicelular. Apesar dos muitos antibióticos, as bactérias são metade da massa de vida terrestre, e 25 vezes superior à massa dos animais... sendo usadas pelos próprios animais na sua flora intestinal.
Não se pode falar em descoordenação, porque até o seu ritmo de reprodução tem alguma auto-regulação... sob pena de invadirem em pouco tempo todo o espaço terrestre, sendo diversificadas na forma de obter energia, usando directamente a luz nalguns casos (halobactérias). Ou seja, se houver uma coordenação menos previsível de bactérias, estas podem alterar as condições de vida no planeta em pouco tempo, até pelo papel que desempenham em ciclos do oxigénio, nitrogénio ou carbono. Aliás, as próprias mitocôndrias, fonte de energia em todas as células animais, podem ser vistas como "bactérias domesticadas" que controlam a própria longevidade celular.
Por isso, não será de negligenciar uma massa de vida que é metade da existente... e que mantém o ciclo da vida nalgum equilíbrio programado, que vai para além do interesse individual do próprio organismo.

No processo evolutivo que levou à constituição de organismos complexos cuja cognição se ajustou a diversas condicionantes, inclusivamente à competição entre si. Portanto a cognição evoluiu não apenas para a adequação aos processos físicos básicos... Nessa primeira fase a sobrevivência não envolveria a ameaça de outros organismos. Os animais serão os primeiros a desenvolver a capacidade de aniquilar os competidores, numa segunda fase, desenvolvendo um sistema cognitivo neuronal. Mesmo assim os animais reduziriam essa competição contra os diferentes, de outra espécie. A terceira fase, mais letal, ocorrerá com os humanos, elevando a fasquia, ao ponto se aniquilarem uns aos outros, dentro da mesma espécie.
Bom, e do ponto de vista cognitivo, o que exigiria isto?
- Nada mais, nada menos, do que se verem a si próprios como inimigos.
A cognição passava para a fasquia seguinte - exigia uma reflexão, um ver no semelhante o próprio inimigo, e ao mesmo tempo exigiria o compreender-se a si próprio.
Portanto há um claro nexo nestas três fases:
(i) Seres vivos que se alimentam de nutrientes - a cognição será mais uma programação genética, visando interagir e entender os processos físicos. Não exigia entenderem outros seres vivos.
(ii) Animais - alimentam-se de seres vivos de outras espécies - a cognição evolui contra outras cognições+acções de outras espécies. Precisam de entender outros seres vivos, matando-os para sobrevivência, mas foi evitada a aniquilação dentro da própria espécie.
(iii) Humanos - a cognição teve que evoluir ainda mais, já que o mais bem sucedido entre os animais passaria a ter inimigos letais agora dentro da sua própria espécie... o humano era inimigo de si próprio, o humano tinha que se conhecer a si próprio, para conhecer os seus semelhantes.

Isto tem o aspecto dramático de ser a própria violência humana contra os semelhantes que vai despoletar a sua inteligência, porque a necessidade de modelar o comportamento de outros humanos implicaria pensar naquilo que o outro iria fazer na sua situação. Obrigaria a olhar-se a si mesmo, para poder prever a acção dos outros que o ameaçavam.

Bom, dir-se-ia que falta uma quarta fase, uma vez completado o olhar em si mesmo... ou seja, o olhar acima de si, olhar o desconhecido - ver para além dos seus olhos, ver um universo para além do que lhe é literalmente apresentado. Isso corresponde a desenvolver nova percepção... porque se há novo teste, ele será claro - o desconhecido. A imprevisibilidade apresenta-se sem se apresentar, e tem que ser detectada nas entrelinhas, e resolvida, antes que comprometa a sobrevivência dos próprios... isto é claro, se resistirem a não se auto-aniquilarem.