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domingo, 26 de agosto de 2018

Desafinações visuais (5)

"Now you see me"... foi um interessante filme sobre magia e mágicos lançado em 2013.
 
"Now you see me" (2013) e a cena com o truque inicial.

Começando por notar que a cena do truque inicial, que é um velho clássico, resulta também na maioria dos espectadores do filme que vão escolher a mesma carta que a menina (... and now you don't).

Há sempre quem simpatize com ideias de "magia" ou "milagres", que levados ao extremo, remetem para universos de ilusão, de total fracasso. 

Não é difícil saber de casos de pessoas que foram dadas como mortas e recuperaram na morgue (ou no caixão, como acontecia por vezes no Séc. XIX). Esses casos de "Lázaros" modernos não são associados a um nenhum curador, ou a nenhum milagre sobrenatural. Acontecem! 
Também não é difícil saber de ilusionistas que caminham sobre a água, como foi o caso de Dynamo, que em 2011 apareceu a caminhar sobre o rio Tamisa, em Londres. Transformar água em vinho, pode até ser visto como mera curiosidade científica, para além da sua execução mais credível por mágicos profissionais.

Truques de levitação eram apresentados na Índia aos caminhantes, e são exibidos hoje nas ruas diversos truques de levitação, ou outros, sem que isso impressione muito os transeuntes, ou sem que as pessoas vejam ali magos com um poder sobrenatural. Simplesmente sabem que se trata de algum truque, mesmo que não percebam imediatamente qual é.

Um caso típico de levitação na rua ...

Na imagem que aqui apresentamos podemos ver a fotografia de um homem que está em levitação, ou pelo menos essa é a sensação que podemos ter, até que com um simples dedo se tape a sombra que está no chão. Será que teríamos a mesma sensação se desde o início do texto estivessemos a falar de solos com manchas de água? O contexto que circunda qualquer acontecimento é de sobremaneira importante para a conclusão que retiramos de um mesmo facto. Como normalmente o contexto de cada pessoa é diferente, grande parte dos ilusionismos, artimanhas, ou enganos, passam por conduzir a pessoa para o contexto desejado, de onde depois a conclusão será natural, ou naturalmente errada.

À excepção de charlatões, os mágicos identificam os seus truques como meras ilusões, o que lhes afastou um fascínio perigoso que poderiam explorar perversamente, como tantos outros fazem.
Pior, nalguns casos explicam mesmo em que consistem os truques, e aí todo o fascínio desaparece. Dou um exemplo - quando vi que o truque de atirar facas contra uma pessoa presa, a rodar num disco, consistia em fazer saltar facas que estavam espetadas atrás do disco, acabou por ser uma certa desilusão, destruindo a ilusão de infância...

Tal como crianças, a maioria das pessoas não se importa de ser enganada por mágicos, porque o espaço de diversão está bem definido, e os mágicos têm normalmente o bom tom de não ofender ou gozar com alguém no palco.
Com as crianças deve também definir-se bem o tempo de brincadeira, sob pena de não entenderem quando o adulto está ou não pronto para brincar, ou o que é e o que não é brincadeira.

É razoavelmente frequente não ver essas fronteira entre a "seriedade" e o "faz de conta" bem estabelecidas, o que leva a uma confusão entre a ilusão e realidade. Não só, faz com que não se distinga a diferença entre brincar e gozar.
O gozar ocorre quando a brincadeira se coloca apenas de um lado.
Hoje mistura-se "bullying" com "gozo", sendo que o "gozo" é tolerado, porque mesmo que as vítimas  não achem piada à brincadeira de que são alvo, acha-se que tudo não passam de brincadeiras.
A leviandade com que é tratada esta matéria resulta de uma tradição de infantilidade que passa para os adultos, que também acham normal exercerem uma superioridade assente em esquemas sobre a ignorância ou boa fé alheia.

É responsabilidade dos adultos, que vem do seu maior conhecimento, informar as crianças da diferença entre ilusão e realidade. Quando mantêm uma ilusão fora disso, como o caso do mito das prendas do "Pai Natal", não se deve prolongar excessivamente no tempo; esclarecendo o assunto como uma praxe tradicional, única e irrepetível. Caso contrário, perdida a confiança numa mentira, dificilmente será restabelecida.

Isto para referir que a Igreja Católica há muito que deveria ter uma atitude responsável para com o seu rebanho, que chega a tratar com uma infantilidade que mete dó.
Que foi praticante de um bullying atroz durante a sua adolescência (séc. XII a XVIII), pois para isso basta lembrar uma outra palavra - inquisição.
Mas cresceu, e deveria ter uma teologia suficientemente adulta para banir o uso de infantilidades, o que parece algo difícil de reconhecer. Talvez creia na infantilidade como forma fácil de congregar fiéis, mas esse facilitismo tem competidores que não se importam de usar magia charlatã, publicidade, e outros meios mercantis, como forma de angariar vontades.

Para um observador externo, o que mais impressiona é todo o tempo perdido em estudos teológicos que deram em nada, ou ficaram fechados numa douta gaveta, enquanto se vai mantendo um enrolo de dois mil anos, que nem sequer impressiona pelos números de magia, cuja única diferença face aos actuais é a sua veracidade ser uma questão de fé.

No embate entre "mundo material" e "mundo espiritual", a Igreja Católica aparece como uma fraca força de outros tempos, procurando manter elos frágeis a uma tradição que a arrastou até ao Séc. XXI. Os seus padres, que vão se refugiando nos velhos textos como leitura de alegorias, vão ficando perdidos nas antigas contradições próprias, como se o tempo tivesse parado na Idade Média, sem dar respostas que façam sentido aos seus fiéis. Vai restando a fé... como se tudo o resto não fosse também uma outra fé.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Desafinações visuais (4) - Avatar, Surrogates

Surrogates (os "Substitutos") e Avatar são ambos filmes do final de 2009, abordando praticamente o mesmo assunto, mas em histórias razoavelmente distintas. O primeiro é um filme da Disney, o segundo um filme de James Cameron.

Em Portugal, sendo um lançado no final de Outubro e o outro em Dezembro (de 2009), ao contrário de uma espampanante publicidade de Avatar, o filme Surrogates teve praticamente publicidade nula, e eu só dei conta da sua existência passados alguns anos.
Para não variar, Avatar é considerado como mais um filme referência de Cameron, e o outro teve críticas normalmente severas. Felizmente, e de um modo geral, as pessoas habituaram-se a ligar pouco mais do que nada à opinião dos críticos, mas dificilmente podem ver filmes que não sabem estar em cena, já para não falar da esmagadora maioria da produção, que nem sequer chega ao circuito de distribuição.

Ambos os filmes tratam de avatares, ou substitutos...
A grande diferença é que Surrogates tem uma ideia perigosa, e Avatar tem uma ideia trivial.
Por isso, seria natural evitar falar em Surrogates.

Os substitutos em Surrogates representam uma efectiva possibilidade de evolução da sociedade, que poderá pretender-se ser acessível apenas a uma elite. Actualmente, o que temos é ainda o plano de uma vida "real", mas que já entra online para assumir vivências alternativas (por exemplo, o execrável Second Life, ou outros jogos MMPORPG).
No filme, as coisas invertiam-se... os robots passavam a interagir na realidade, e todas as pessoas que os controlavam estavam reguardadas em quartos, praticamente sem contacto entre si, a não ser através dos robots substitutos, avatares de si mesmos.
Surrogates ("Os substitutos") 2009 - trailer

Avatar é uma história cor-de-rosa, com grandes efeitos especiais, onde um soldado paraplégico tem oportunidade de se tornar num salvador de um mundo de ficção, e é pouco mais que isso.

Avatar - 2009 - trailer

Enquanto os robots existentes autonomamente pouco mais conseguem do que caminhar atabalhoadamente, é muito mais possível termos um controlo efectivo e surpreendente em máquinas de qualquer dimensão. Ou seja, tal como hoje temos drones a substituir aviões de combate, não é difícil pensar em soldados de aço, quase indestrutíveis, a serem comandados à distância, sem o perigo da presença em combate. Será como pensar num Iron Man, mas obviamente sem a necessidade de estar alguém dentro do fato, podendo estar a milhares de quilómetros na segurança de um bunker. É claro, não falamos de um ou dois, falamos de muitos milhares de combatentes destes, que tornam qualquer combate contra humanos, num simples extermínio.

É por isso que a ideia de Surrogates é perigosa...
Ninguém espera cruzar-se na rua com autómatos indestrutíveis, comandados à distância sabe-se lá por quem... Sendo praticamente indestrutíveis, tornariam ridículas quaisquer tentativas policiais de os deterem. Ninguém espera acordar para um tipo de terrorismo, que seria verdadeiramente terrorismo, caso os detentores dessa tecnologia estivessem em parte incerta, inacessíveis.
A situação já é bastante incómoda com os drones brinquedos, que têm a vantagem de terem uma bateria de longevidade reduzida, e são guiados com alcance de curta distância. No entanto, basta pensar que a bateria passava a durar horas, e que o alcance de controlo passava a ser possível a quilómetros, para podermos ter drones brincalhões a entrar sorrateiramente em cerimónias oficiais. E isto é suficientemente incómodo, sem pensar que poderiam trazer bombas, ou outro material menos inofensivo.
O futuro está aí, e não é por não se falar do assunto, que ele desaparece... resta o conforto de se pensar que quem quis ter responsabilidade de coordenar os destinos da humanidade, sabe o que está a fazer, e se contenta em bisbilhotar a nossa privacidade para evitar males maiores.

Finalmente, convém notar que esta posição de controlo à distância sobre avatares é a mesma que nós temos sobre o nosso corpo, sendo ele próprio visto como um avatar.


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Desafinações visuais (3)

"An Occurrence at Owl Creek Bridge" é uma curiosa história de Ambrose Bierce, escrita em 1890.
O enredo passa-se na Guerra Civil Americana, onde aliás Bierce também combateu, e assenta basicamente num momento de execução por enforcamento. O homem parece escapar, porque a corda à volta do pescoço parte, conseguindo finalmente regressar à sua quinta... mas quando se prepara para abraçar a sua mulher, sente uma pancada no pescoço, e invade-o a escuridão. O autor revela então que a pancada era a da corda a partir o pescoço, e todo o enredo anterior do livro, após "a corda se partir à volta do pescoço", era uma ilusão da consciência, em negação do fim inevitável.

Algo semelhante está no enredo do filme "BZ, Viagem Alucinante" (no original "Jacob's Ladder").

BZ Viagem Alucinante (1990) - Jacob's Ladder

A razão de mencionar este assunto:
Um laboratório suíço negou que a substância, denominada BZ, utilizada para envenenar o ex-espião russo, Sergei Skripal e a filha Yulia no Reino Unido tenha sido produzida na Rússia. A conclusão surgiu através da análise de amostras previamente enviadas pelo Reino Unido.        (Artigo no Correio da Manhã)
Também podemos ver que está em curso um remake de Jacob's Ladder, iniciado em 2016, e previsto estrear em 2018... bom, se é que não tivemos já uma ante-estreia!

O filme de 1990 é alucinante (conforme a oportuna tradução portuguesa fez transparecer), e com as coisas a 30 anos de distância, o filme foi para mim marcante, já que não percebi bem como saí quase ileso de um acidente letal à época, e a perspectiva filosófica do filme era desconfortável.

A substância BZ é uma droga com efeitos psíquicos funestos, tendo sido "alegadamente" usada pelos russos na resposta ao ataque terrorista num teatro de Moscovo, em 2002, e tendo resultado na morte dos terroristas... e também de muitos reféns. Portanto, por esse lado, os russos não ficaram mais salvaguardados do seu uso.
No entanto, o uso reportado no filme era o uso experimental no sentido de aumentar a agressividade para combate dos soldados americanos na Guerra do Vietname. O seu uso experimental pela CIA, entre 1955-75 foi atestado por documentos entretanto desclassificados. Por este lado, também não há inocentes, mas há a vontade infindável de lhes ir dando todos os descontos e contos.

No sentido explicado pelo Major-General Carlos Branco, constituindo-se a Rússia como alvo a abater, pela política externa norte-americana (... e aliados), faltariam pretextos para agravar a tensão, fizessem pouco ou nenhum sentido. As false flag operations precisam apenas de cavalgar um pretexto, nem precisam que este seja bom. Sendo claramente falso, vê-se mais nitidamente a fidelidade incondicional dos aliados, sendo independente da solidez do pretexto.
O caso do espião Skripal foi um, e o alegado enésimo ataque químico na Síria, outro... e as coisas não tendem a diminuir. Até porque, não tendo tido nenhum resultado prático, testaram a obediência das suas nações vassalas. À medida que as alegações do caso Skripal, ou da Síria, vão ficando mais absurdas ou estapafúrdias, os ingleses pensam agora em calar a RT (a televisão russa), e as notícias desaparecem, como se nada tivesse acontecido. Entretanto, a filha de Skripal já está fora do hospital, e os russos alegam que o coma induzido foi desnecessário, propositado para a notícia conveniente...

Uma vontade, que tem estado bastante clara, seria arranjar um pretexto para boicotar o Mundial de Futebol, a realizar em 2018 na Rússia. Uma oportunidade de Putin fazer o seu show internacional, algo que incomoda especialmente o lado politicamente correcto ocidental, a quem estragou o espectáculo degradante que Ieltsin proporcionava à festa do fim soviético.

Para se entender melhor o problema do Mundial de Futebol de 2018, sugerimos:
até porque a contra-resposta russa foi logo inquirir sobre a ida à Lua... ou melhor, alegada ida à Lua.
Digamos que, Portugal boicotar o Mundial de 2018, basicamente o último em que Ronaldo poderá jogar em condições, seria impensável. Há que perceber as razões profundas da diplomacia internacional.

Quem estiver mais atento às explorações espaciais, poderá anda reparar que o fim do Space Shuttle, em 2011, tornou o cosmódromo de Baikonur o único ponto de ligação com a Estação Espacial Internacional, e os astronautas americanos têm que fazer uma visita à Rússia (ou Cazaquistão), se quiserem brincar no espaço. Esta suspensão foi, mais ou menos, pela mesma altura que Obama anunciou Marte como objectivo para 2037 (... para Trump - daqui a 3 anos!). Isto, para não falar dos planos detalhados que a NASA anunciou em 2004, que incluíam uma estação lunar a construir de 2012 a 2020 (sim, faltam menos de dois anos para concluir)!

Claro que a situação é ignorada, tentada passar como se nada existisse, porque não existe nada... ou seja, o programa espacial americano terá sido suspenso por completo, algo que desagradará de forma incontornável aos americanos, mas que poderá ter o contraponto vantajoso da não revelação de provas sobre a não ida à Lua em 1969-73.

Big Bang Theory - episódio em que Howard sai de Baikonur, em direcção à Estação Espacial.

Claro que o que seria mesmo impensável.... seria Putin anunciar a chegada dos russos à Lua, porque entretanto já poderá haver tecnologia suficiente para o fazer (sem a realização cinematográfica de Stanley Kubrick).

domingo, 11 de março de 2018

Desafinações visuais (2)

Os tempos seguintes ao 25 de Abril de 74 foram curiosos, porque nos apresentaram uma versão diferente das coisas. Quem nasceu com a exploração espacial, não deixou de ser bastante influenciado pelo assunto, e pior, a partir de 1973, ficou frustrado, porque terminaram as missões Apollo.

Astronautas eram americanos, porque os russos eram Cosmonautas.
Só percebi a subtil diferença no título, quando fui perder o meu tempo numa publicitada exposição sobre a "história da cosmonáutica". 
Nessa história em filme, os astronautas não existiam... só havia cosmonautas (russos), como Yuri Gagarine e Valentina Tereshkova. Não me lembro se era falado sobre a ida russa à Lua, que foi feita em missão não tripulada, mas certo foi que de Neil Armstrong ou Buzz Aldrin, não se ouviu falar, nem das missões Apollo. 
Não percebi qual foi a ideia (do PCP, certamente o patrocinador do evento, por via da URSS), mas ao ver a manipulação descarada, não esqueci o golpe. Poderiam até ter dito que as explorações americanas eram uma treta, e que o homem nunca tinha ido à Lua, etc... Mas não! Simplesmente ignoravam a exploração espacial americana, que sabiam ser a única publicitada antes do 25 de Abril.

O aparecimento dos Space Shuttle em 1981, fez-me seguir em directo novas transmissões, ouvindo os ignotos comentários de Eurico da Fonseca... um dos pseudo-especialistas, tal como depois aconteceu com Carvalho Rodrigues. A televisão sempre teve o dom de escolher os piores, para os maquilhar como melhores. Cada frase que diziam, era "cada tiro, cada melro", dificilmente acertavam uma que fosse. Não havia dúvida que eram os melhores agentes para uma política de desinformação.

Bom, mas o Space Shuttle foi uma boa jogada publicitária da NASA... durante os anos 80 ainda se pensou que a razão da suspensão do programa Apollo tinha sido a mudança de filosofia na aeronáutica, pois fazia algum sentido a lógica do "vai-e-vem". Claro que nos anos 90 já não era convincente... e a partir daí foi sempre a piorar, até restar hoje como uma questão de fé. 
Mas, isso é outra história, de que falei várias vezes, e da última vez aqui:

Vamos então concretamente ao assunto deste post.
Nesse texto estava uma referência a "uma série em que as naves espaciais levantavam do mar"...
Não fazia ideia de quando tinha passado na RTP1, mas fazendo uma pesquisa um pouco mais atenta pelo Google, cheguei finalmente ao "Raumpatrouille Orion":

Raumpatrouille Orion (1966) - série de ficção científica alemã.

Depois é possível verificar neste site, que o título português foi "As fantásticas aventuras da Nave Órion", e passou na RTP1 em 1977.
Tudo o que me lembrava, passados mais de 40 anos (mas seria indiferente há 20 anos atrás), basicamente reduzia-se ao remoinho do mar, de onde a nave espacial saía:

A série era filmada ainda a preto e branco, mas isso não serve para disfarçar os péssimos efeitos especiais que tinham sido usados então.
Que ideia tinham então os adolescentes desses maus efeitos especiais?
- Nenhuma...

Era basicamente esse ponto que gostava de salientar!
Aquilo que nos parecia "bem feito" à época, passado algum tempo depois, chega a parecer ridículo!

Ficámos mais espertos?... ou éramos menos sensíveis?

Podemos dizer que era um problema de idade, mas a questão é que estas séries eram também apreciadas por "malta mais velha", que igualmente não detectava nenhuma anormalidade.
Mais, podemos verificar o mesmo com outros filmes que foram produzidos posteriormente, onde os efeitos especiais até ganharam prémios na altura, e que hoje vemos com deficiências notórias (por exemplo, o Total Recall de 1990, que ganhou o óscar de melhores efeitos visuais).

Aquilo que me parece que se passa, é simples... ganhámos muito maior sensibilidade!
Ficámos muito mais "esquisitos", ao passar de televisões com má definição, para televisores HD, e agora UHD 4K, etc...
Qualquer coisa que antes era uma "perturbaçãozinha", passou a ser uma "enorme perturbação", porque a política comercial agressiva tornou-nos mais exigentes, e queremos perfeição no detalhe.
Por isso, é um exercício curioso ver esses filmes de ficção científica antigos, com os olhos actuais.
Sm, ficámos mais sensíveis e exigentes... e talvez mais espertos, por isso.

Não será à toa que "se perderam" os originais dos filmes das "alegadas idas à Lua"... e que foram feitas novas versões com "melhor qualidade", ou seja, para não serem notados eventuais problemas!
De qualquer forma, nota-se que em "2001, Odisseia no Espaço", os problemas de tecnologia do filme não são propriamente uma falha de qualidade na resolução, talvez porque Stanley Kubrick tivesse uma sensibilidade mais ajustada ao nosso tempo, do que ao tempo em que viveu.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Desafinações visuais (1)

Não fazia a mínima ideia do nome do filme, sabia apenas que era espanhol, e que o tinha visto quando ainda era "criança"... e que me meteu um daqueles medos, que não se esquecem!

O filme é de 1972, mas não sei quando a RTP o passou. Deve ter sido em 1974, ou depois, porque não me parece que fizesse parte de nenhuma programação aconselhada a menores, em tempos mais conservadores.
"La Cabina" (1972), um filme de Antonio Mercero.

Sei que vi o filme sózinho, a seguir ao jantar, pois com alguma sorte o filme foi curto, e sei que ainda fiz um esforço para que ninguém viesse e ficasse na sala. Ou seja, apesar de não augurar muito para um filme espanhol, fiquei determinado a ver o filme até ao fim... bom, e que final! Não foi à toa que recebeu diversos prémios internacionais, inclusive um Emmy em 1973.

Não querendo fazer um spoiler, porque a maioria das pessoas não viu o filme, interessa que a situação bizarra vai ter um final ainda mais bizarro, e o que causou maior medo, ou incómodo, foi a ausência de nexo explicativo.
....
Uma vantagem dos tempos actuais é justamente permitir reencontrar o filme, a mais de 40 anos de diferença. E é um bom teste à memória, para ver a diferença, entre o que tinha memorizado e o que estava de facto no filme. Por exemplo, não me lembrava minimamente da cara do actor. Praticamente, tudo o que tinha na memória, era a situação de um sujeito que, sem razão aparente, fica preso na cabine telefónica; que diversas pessoas o tentam ajudar (não me lembrava que ele também fora gozado), sem qualquer sucesso; e que finalmente vai parar ao armazém onde estavam os restantes na mesma situação. Lembrava bem a imagem cadavérica, que agora me pareceu um boneco mal feito, e lembrava o desespero do indivíduo. Já não me lembrava da cena final, com a instalação de nova cabine...

O aspecto principal do filme é a aparente ausência de causa plausível para os acontecimentos.
Não há propriamente a apresentação de um vilão que conceba o macabro esquema.
Apesar da anormalidade, tudo funciona com uma certa naturalidade, onde os empregados são indiferentes ao destino dos capturados pela cabine, e são apenas peças de uma aparelhagem mecânica. O desespero da situação culmina com a antecipação do destino, vendo os semelhantes mortos e esquecidos nas cabines, num grande armazém.
É claro que o filme teria a possibilidade de terminar bem... bastava fazer chegar a família, e fazer crer que tudo não passara de uma "brincadeira" organizada.

Porém, o propósito era chocar o espectador, provavelmente numa alegoria ao que acontecia num regime ditatorial, como era ainda a Espanha de Franco, em 1972.
Afinal, numa ditadura bastava ser detido como opositor - pela cabine... e depois de uma fase em que se tentava libertar, com ajuda de uns, e gozo de outros, acabaria levado para uma prisão onde seria vetado ao esquecimento (a mais famosa em Espanha seria a prisão panóptica de Carabanchel), ou acabaria morto e desaparecido (caso das ditaduras chilena e argentina).


No entanto, enquanto nos regimes ditatoriais há normalmente uma figura que concentra as culpas (em Espanha foi Franco), neste filme a culpa não tem alvo identificado, e depois haveria um outro filme canadiano de 1997 que seguiria o mesmo tipo de enredo - chamava-se "o Cubo".