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terça-feira, 30 de julho de 2013

Propaganda

Poucos meses antes de morrer, Edgar Allan Poe, um ícone da literatura americana, publicou um dos seus poemas mais conhecidos:

Dream within a dream (Edgar Allan Poe, 1849)
Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow
- You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand
- How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
Este poema foi incluído numa canção dos Propaganda - uma banda alemã dos anos 80
Propaganda - Dream within a dream 

... e o tema de "sonhos dentro de sonhos" foi explorado no filme "Inception" ("A Origem") de Christopher Nolan, lançado há três anos, em 2010. 

A tradução para português de "inception" como "origem" parece estranha, mas a própria palavra inglesa teria um significado desligado de memórias, conforme se verifica neste dicionário, e tem de facto etimologia latina que liga a "origem", ou o que seria mais apropriado "começo" ou "iniciação". 
A ligação da palavra "inception" ao implante de memórias teve origem no filme de Nolan (talvez fizesse parte de alguma "iniciação" do realizador noutras "andanças").

Tal como as memórias no filme, o termo "implantou-se", e hoje é usado em ciência... conforme se pode ver na mais recente pesquisa de Tonegawa (Nobel de Medicina, 1987):

(artigo na semana passada no Guardian, e no Público)

Talvez a primeira falsa memória em humanos seja a própria palavra "incepção"... pois dentro de alguns anos ninguém suspeitará que o termo nem sequer se aplicava a memórias, e só os mais curiosos encontrarão a "origem" da etimologia. Há "malta" que gosta de fazer piadas de puro malte connosco...

Adiante... o que liga estes temas? 
Várias coisas, apesar de um aparecer num poema do Séc. XIX, recuperado numa canção dos anos 80, outro num filme de há 3 anos, e outro numa investigação científica publicada na semana passada.
A principal razão para escrever este texto são os "Propaganda" - a canção... que ainda gosto de ouvir repetidamente, nada mais diz que o poema, e o poema também será algo ambíguo no seu propósito.

O poema de Edgar Allan Poe surge no contexto da filosofia idealista alemã e o tema da "realidade dos sonhos", ou "da realidade ser um sonho", foi algo que teve a sua repiscagem filosófica nessa época, mas que remete aos primevos pensadores gregos ou à tradição asceta indiana. 
Falar-se em "sonho dentro do sonho", em vez de "sonho", seria uma eventual novidade no poema de Poe... e no filme de Nolan vai chegar-se ao ponto de encadear mais uns níveis de "sonhos dentro de sonhos". 
Quem já teve a experiência de se beliscar num sonho, para acordar, e ao acordar continuar afinal a sonhar? Já me aconteceu, e isso não tem especial importância, mostra apenas como a nossa noção de realidade se adapta apenas ao presente, à percepção e classificação de memórias no presente.

Porém, há um ponto importantíssimo, e que não quero deixar de mencionar, sob pena de me esquecer de fazê-lo noutra ocasião... Todo o contexto pode ser modificado, e sendo colocados perante uma poderosa ilusão, há algo que não muda - as nossas convicções mais profundas. Quando bem cimentadas no "ser" têm a força de recusar e eclipsar todo um cenário inconsistente, remetendo-o a uma memória de um sonho. Existimos num contexto porque aceitamos a sua lógica, o resto é uma luta entre a lógica que temos e uma "lógica externa" que se quer impor, condicionando tudo o que nos rodeia. Se a nossa lógica tiver uma determinação e fundamentação irrevogável, tudo o resto colapsa, como um castelo de cartas... (aqui aparecem aqueles avisos "... não tente isto em casa!"). 
Porque, quando foi aberta a "Caixa de Pandora", o gigantesco caos ficou sempre a um pequeno passo de se impor, e o passado e o futuro mostrarão que só a resolução e determinação permitiram o delinear da única ordem possível, em que existissem seres não triviais. A única coisa que obsta a que um caos faça sentido é uma mente que o recuse consistentemente... Afinal, mentes que aceitassem ilusões e fabricações convidariam à entrada de cenários e realidades alternativas, que apenas teriam rumado a um caos perdido numa possibilidade inconsistente. Se Gaia exigiu a sua manifestação, digamos que Úrano viu-se obrigado a enquadrar essa manifestação na única malha (ou Maia) retorcida que aceitaria uma lógica universal consistente. Sendo isto alegórico, é também literal. Num romance queirosiano, isto corresponderia a uma família em que o avô educou a neta de forma a que um seu bisneto fosse um referencial de estabilidade no meio da disfuncionalidade familiar... mas com uma adição ao estilo de Poe, o espírito do avô tentaria ocupar o lugar do bisneto, e falharia na tentativa, porque afinal o seu sucesso educativo eliminaria o espaço possível para aberrações - digamos, uma vingança da avó!

No filme "Inception", para além da questão de "sonhos dentro de sonhos", aparece a questão de implantação de "falsas" memórias. Nesse filme abusa-se do significado de "sonho", porque se os personagens sabem que estão dentro de uma realidade fictícia, então não é um sonho. Num sonho vulgar, se a pessoa se apercebe que está a sonhar é porque acordou... Por outro lado, a ideia de sonho partilhado por várias pessoas (através de um "transpod") é algo que remete mais para uma ficção de realidade virtual. Assim, a única coisa que liga o filme aos sonhos é a forma de produzir a realidade virtual, que não é tecnológica, resulta de domínio cerebral do sonho. Alternativamente encontramos o filme "eXistenZ" de Cronenberg, que explorava um enredo similar, mas no contexto de percepção alterada por "vídeo-jogos futuristas":

Bom, é no contexto semi-científico, que liga a fabricação de sonhos ao cérebro, que se visou o implante de falsas "memórias" em ratinhos. Coloco "memória" entre aspas, porque afinal se Tonegawa mostrou alguma coisa, foi uma associação de estímulos. Como se alguém que tivesse um fígado susceptível a sumo de laranja, seria natural que a mesma reacção se verificasse no transplantado... ainda que o novo dono não soubesse dessa susceptibilidade. Assim, o cérebro dos ratinhos sujeitos a um estímulo de neurónios que ligava a um choque eléctrico é natural que tivesse processado a mesma reacção imediata.
Daí até falar-se em "memórias"... vai aquele passo que dá muito jeito para financiamento de projectos e investigação, muito jeito para o prestígio do cientista, mas que tem menos a ver com ciência. Aliás, "reacções imediatas" nada têm a ver com memórias, são simples estímulos directos, mecânicos, tal como o braço recolhe perante uma chapa quente... nem sequer será o mesmo do que uma reacção pavloviana.

Podemos falar dos limites éticos, quer na utilização de animais para experiências aberrantes, quer no propósito de estudar a implantação de memórias em cérebros animais... sabe-se lá com que propósito futuro!
A Caixa de Pandora está aberta e convidam-se os gatos a este tipo de curiosidades. Curiosamente, os próprios cientistas comportam-se aqui como gatinhos facilmente manipuláveis com os estímulos do reconhecimento e prestígio comunitário. Para isso basta uma máquina poderosa, a que se chamou "Propaganda", essa sim uma verdadeira máquina implantadora de associações que visa "brincar" com a nossa memória e raciocínio:
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P-Machinery - Propaganda

Motor - power - force - motion - drive - motor - force - motion - drive 
Motor - force - motion - drive - power - force - motion - drive 
- Propaganda -
On joyless lanes we walk in lines - a calm but steady flow.
Accompanied by loud commands - our strength is running low.
Another hope feeds another dream - another truth - installed by the machine.
A secret wish - the marrying of lies. Today comes true what common sense denies.
Rotating wheels are destiny - in flame the city lies.
Machines call out for followers far out into the night. The calls of the machines drowning in the steam.
Another hope feeds another dream - another truth - installed by the machine.
A secret wish - the marrying of lies. Today comes true what common sense denies.
The calls of the machines drowning in the steam.
On joyless lanes we walk in lines - a calm but steady flow. Our strength is running low.
Another hope - another dream - another truth - installed by the machine 
- installed by the machine.

Quando Orwell lança a data 1984 para a implantação de um mundo distópico, estaria a referir-se a uma vitória do sistema soviético? 
A Apple é lançada em 1984, e Steve Jobs vê-se na obrigação de esclarecer que o propósito da companhia seria contra o mundo distópico centralizador de informação... e, no entanto, a Apple distinguiu-se da Microsoft por pretender centralizar a produção de conteúdos.
No início dos anos 80 assiste-se a uma "explosão musical", que deixou marcas para essa geração... as músicas eram apelativas, e quanto às letras? Que mensagens procuravam passar?
Seria inocente o tema True dos "Spandau Ballet", quando o ballet que se passava na Prisão de Spandau era ter apenas um prisioneiro, Rudolf Hess, incomunicável, o nazi que tentara negociar a paz em 1941... Acresce a polémica que Bernard Sumner dos "New Order", teria afirmado "You all forgot Rudolf Hess", quando acusaram a banda de promover o nazismo... 
Isto serve apenas para referir que, no meio musical não imperava apenas o diletantismo, e que houve uma tentativa de passar mensagens para a geração mais nova.

Que "casamento de mentiras" invocavam aqui os Propaganda, numa altura em que Gorbashov iniciaria a ascenção que o levaria a introduzir a Perestroika e a queda do muro? Que "máquinas" instalariam uma nova esperança, um novo sonho, uma nova verdade... afinal não sucederia à PeresTroika uma Troika que se iria impor na nova ordem europeia, arrumada a questão da queda do Muro de Berlim?
Afinal, a ordem para soltar os "monstros financeiros" deu-se exactamente no início dos anos 80, por Thatcher e Reagan, fazendo florescer os "yuppies" da finança (designação por contraponto aos "hippies"). Esse mundo da finança foi desregulado com o objectivo de criar desequilíbrios económicos profundos, que levaram ao colapso das transacções da URSS. Só que os "monstros financeiros" continuaram soltos depois disso, como bem sabemos... e tomaram conta descaradamente das máquinas dos Estados soberanos.
Se na altura destas músicas dos "Propaganda" antever uma sociedade distópica, em que o poder estaria centralizado em poucos, e em que os cidadãos formariam filas impotentemente, corresponderia ver uma vitória do sistema comunista, o "casamento de mentiras" tinha uma ideia diferente.
A implantação de memórias e vontades seria orquestrada pela propaganda, a vitória do sistema distópico seria feita pela capitalismo e não pelo comunismo... porque num caso os dirigentes ficam invisíveis, enquanto que no outro caso eram facilmente identificáveis.
Tudo foi preparado para a queda do muro em 1989, e os esbirros dos pentagramas contavam com algo que não veio a suceder... porque eles têm a agenda marcada, que cumprem escrupulosamente, mas esquecem que está desactualizada, porque o "observador" que habita as suas mentes dedicadas não pode sair... devido a compromissos com a consistência da realidade, que não conseguiu ultrapassar.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Os véus e as velas

Há uma boa quantidade de invenções que são tidas como modernas, mas que não têm nenhuma razão especial para não existirem desde remotos tempos, pelo menos desde a Antiguidade.

Como um desses casos encontramos os "veículos de vela terrestres":
Simon Stevin (1649)
Hendrik Gerritsz (1637)

Um artigo da wikipedia apresenta referências que remetem a originalidade aos Chineses, a Xiao Yi, no Séc. VI d.C., constantes na representação de atlas de Ortelius, Mercator, J. Speed...
Nas grandes extensões planas, este transporte poderia ter utilidade, ainda que limitada. O veículo desenhado por Simon Stevin acabou por ser mesmo construído e usado pelo Príncipe Maurício de Oranje como veículo de entretimento... tal como hoje tais veículos são usados em desporto:

Bicicletas...
Se estas imagens correspondem a uma realidade confirmada, o mesmo já não se passa com algumas imagens fabricadas de bicicletas, que se pretenderam associar à época medieval. 
No entanto, nada seria mais plausível... a tecnologia de um monociclo, bicicleta, ou de um triciclo, esteve disponível para poder ser usada praticamente desde que há rodas... o maior problema seria a existência de estradas compatíveis com o esforço. A bicicleta acabou por se popularizar com o advento das estradas de macadame, depois de McAdam, e após a derrota de Napoleão em Waterloo.
Essa observação é feita num livro de 1867, de Velox (um pseudónimo), sob o título "Velocipedes, bicycles, and tricycles: how to make and how to use them":
Like the coach, they [chariots] were of rude workmanship; but the mind that designed and constructed them probably dreamed of some mode of dispensing with the cattle necessary to move them. Even then canoes moved on the face of the waters and ships on the sea; and it is more than probable that a similar motive power was looked for land.
É natural que um escritor do Séc.XIX se interrogasse sobre a razão do invento aparecer tardiamente, em 1819, já que seria natural o homem procurar usar a roda mesmo sem recurso a animais, como acontecia com as canoas nos rios, e os veleiros no mar. 
Simplesmente o génio humano estava preso na garrafa, e só teve autorização para sair no Séc. XIX, quando subitamente todas as invenções pareciam ser possíveis e naturais. Mesmo assim, Velox consegue encontrar um registo francês de um triciclo, de Blanchard (1779), quarenta anos anterior ao registo habitual:

Também seria natural invocar simples brincadeira de crianças, que tiveram diversas variações... ao meu tempo consistiam em fazer carrinhos de rolamentos, que perigosamente desciam a grande velocidade as colinas. Para esse tipo de coisas, bastavam rodas e colinas suaves... dois factores disponíveis desde os tempos mais primevos.

O bloqueio mental percebe-se lendo alguns textos cristãos. Uma roda dentro de outra roda era associada a uma visão do profeta Ezequiel, e como o Padre António Vieira explicava haveria votos associados a rodas. A duas rodas, o voto de pobreza e castidade, e depois às outras duas votos de obediência. Este género de associações prestavam-se a interpretações proibitivas.

Relógio fora do tempo
Terminamos este pequeno apontamento com um pequeno mistério, que apesar de pouco divulgado, parece ser fidedigno, e nada vi que o desmentisse... 

Trata-se de um relógio do início do Séc. XX, que seria tão miniaturizado que poderia ser usado como anel, mas foi encontrado numa sepultura Ming que deveria estar fechada desde o Séc. XVII. 
Portanto, tal como a máquina de Anticitera é um achado de relógio fora do tempo e lugar.

O pequeníssimo relógio terá "Suiça" escrito nas traseiras (não sei em que língua). Tanto pode revelar que o túmulo foi visitado incognitamente no início do Séc. XX, como revelar uma tecnologia suiça já capaz de produzir peças miniaturizadas por volta de 1600 d.C. Há ainda quem seja logo aliciado para teorias de viagens no tempo... neste caso seria uma viagem passada (c.1900) ao passado (c.1600)!

O mais natural é uma eventual visita "anónima" que deixou aquele vestígio incómodo. Porém, os véus que caíram sobre o progresso tecnológico também nos podem fazer supor que nada impediria que no Séc. XVII houvesse tecnologia capaz de produzir tal proeza, que um imperador Ming não resistiu em levar para o seu túmulo.

Não parecendo ser este o caso, é natural aparecerem cada vez mais registos dúbios, que se verificam serem falsos. Basta uns tantos para descredibilizar tudo o que não tenha a "chancela oficial". Por isso, é mais seguro procurar registos que nos foram chegando do passado, do que seguir novas descobertas publicitadas nas redes sociais, que podem ser resultado de simples tentativa ocasional de conduzir opiniões. Essas novas descobertas podem aparecer como promissoras e certificadas, para depois serem rapidamente descredibilizadas. Os registos do passado têm a vantagem de já terem sofrido a resistência dos tempos, mantendo o seu mistério.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Trânsito de Vénus

Tem sido habitualmente especulado sobre alinhamentos em 2012, em particular em 21 de Dezembro de 2012... porém convém notar que nada de notável está previsto para essa data.
Acontecem alguns alinhamentos interessantes em 2012, sim, mas antes de Dezembro...
A mais notável efeméride será o trânsito de Vénus (pelo Sol), que ocorrerá em 6/6/12... já que só se voltará a repetir no próximo século, em 2117 e 2125.

Independentemente de se acreditar ou não que os alinhamentos planetários têm alguma influência física, eles tiveram e têm uma influência humana, no sentido em que houve e há quem altere o seu comportamento devido a eles. A astronomia teve sempre uma componente astrológica desde o momento em que alguém associou uma efeméride planetária a um acontecimento humano. 

Na pseudo-mitologia para o ano 2012 está um propalado início do calendário Maia. 
Só se começou a falar disso depois de passar a previsão apocalíptica de 2000... ainda que uma eventual Odisseia espacial de 2001, pode ter ocorrido como pseudo-Ilíada de 2001 sobre as Torraltas. 
As Torres Altas de Tróia, as duas Torraltas de Tróia, ou que duas torres altas?
lol ... havendo desde 2001 quem veja neste símbolo lots-of-laughs.

Calendário Chinês
Um outro calendário antigo é o chinês, cuja origem tem sido fonte de especulação e dúvida. Supõe-se que teria tido início num antigo alinhamento notável dos 5 planetas visíveis, juntamente com Sol e Lua. 
Em 1993 dois astrónomos do JPL-NASA, K. Pang e J. Bangert sugeriram que isso pode ter acontecido em 1953 a.C., o que dá um 3965 anos passados, ainda assim diferente do valor actual 4709 anos lunares, se atendermos a que isso corresponderia a ~ 4564 anos solares, ou seja uma diferença superior a 500 anos para essa hipótese. No entanto, K. Pang encontrou uma passagem num texto antigo de Hong Fan Zhuan (Séc. I a. C), que dizia:  
"The Ancient Zhuanxu calendar (invented in about 2000 B.C.) began at dawn, in the beginning of spring, when the sun, new moon and five planets gathered in the constellation Yingshi (Pegasus.)"  
Por isso, há alguma sustentação nessa hipótese de início do calendário por alinhamento na constelação de Pegasus ou Peixes, numa madrugada equinocial por volta de 2000 a.C. De qualquer forma, os cálculos usados hoje são sempre especulativos, até pela falta de informação sobre a inclinação do eixo da Terra, ou pela simples admissão de que nada teria mudado em 4000 anos.

É importante notar ainda que os chineses chamariam ao velho calendário lunar Yin, enquanto o calendário solar seria o Yang, na célebre dualidade oriental Yin/Yang (aqui Lua/Sol) expressa no símbolo


Trânsito de Vénus
Os trânsitos de Vénus pelo Sol foram importantes para definir as distâncias planetárias, mas também tiveram o seu papel de astrologia política... para isso basta notar que em 1769 é justamente Cook que irá ao Taiti fazer as medições astronómicas.
Independentemente do significado astronómico, há aqui um significado político, sendo Cook a regressar ao Pacífico "nunca antes navegado" para marcar o evento à escala planetária.

A última vez que o trânsito ocorreu foi em 8/6/2004... antes disto tinha sido em 1769 e no Séc. XIX (9/12/1874 e 6/12/1882), e depois de 2012 só voltará a ocorrer no Séc. XXII (11/12/2117 e 8/12/2125). Não ocorreu nenhuma vez durante o Séc. XX. [Consultar a lista com os trânsitos de Vénus previstos pela NASA]

Em 2012 de novo Vénus irá aparecer como um pequeno ponto negro à frente do Sol, visível ao nascer do Sol nesse dia, na zona do Pacífico. Esta passagem demora 6 horas, sendo visível onde ocorrer o pôr/nascer do Sol, entre as 22h da noite e 4h da manhã - no caso de Portugal não será visível!
Agora, em Abril, ainda é possível ver Vénus bem alto no céu, ao pôr do Sol, mas rapidamente irá descer e aproximar-se do Sol poente, nesse dia 6/6/12 passará de estrela da tarde (Hesper) a estrela da manhã (Lucifer, Phosphorus), como acontece periodicamente, com a única diferença que desta vez passa mesmo em frente do Sol nesse percurso - o chamado trânsito.

Segunda Lua - Cruithne
É dito que os "antigos" teriam visto Vénus como uma segunda Lua, pela intensidade do seu brilho, que resulta de ser o corpo celeste de grandes dimensões que mais se aproxima da Terra, excluindo a Lua.
Já Julio Verne (no livro "Da Terra à Lua") conjecturava sobre a existência de uma "pequena segunda Lua":

"Is it possible!" exclaimed Michel Ardan; "the Earth then has two moons like Neptune?"
"Yes, my friends, two moons, though it passes generally for having only one; but this second moon is so small, and its speed so great, that the inhabitants of the Earth cannot see it."

Recentemente foram descobertos pequenos corpos que podem ser vistos como "segundas Luas" da Terra, sendo muito pequenos. Um deles é o Asteróide 3753-Cruithne (de 5 km de diâmetro)

que apesar de não orbitar à volta da Terra, acaba por fazê-lo de forma aparente. Por outro lado, em 2010 descobriu-se um asteróide ainda mais pequeno (300 metros) 2010-TK7 que partilha a mesma órbita terrestre, numa posição que lhe permite não ser atraído nem pela Terra nem pelo Sol. É chamado asteróide-troiano, já que se encontra dissimuladamente na mesma zona orbital, num ponto lagrangiano. Estas zonas orbitais - pontos lagrangianos - podem ser usadas como entradas em "auto-estradas planetárias".

Julio Verne pensava noutro tipo de segunda Lua, mas estes objectos servem para analogia da sua "antecipação". Convém notar que não seria completamente impossível haver uma segunda Lua escondida à visão da Terra... bastaria que estivesse ocultada atrás da primeira, seguindo a mesma órbita a distância quase fixa - e para efeitos de ocultação visual, até poderia ser uma segunda Terra! Mecanicamente não seria impossível ter um conjunto de três corpos sincronizados... até no sentido em que a Lua seria o seu centro de massa! Essa hipótese só seria afastada pelas medições exactas da distância da Terra ao Sol, mas daria certamente para interessantes obras de ficção científica... não exactamente no sentido de universos paralelos, como está actualmente na moda (ver p. ex. o filme Another Earth), mas mais no sentido de universos colonizados...

Venus Express e Hubble
Já aqui tinha feito referência à inexplicável ausência de imagens espaciais de Vénus... afinal o planeta mais próximo é aquele de que temos menos imagens (pelo menos dos 5 visíveis a olho nú)!
A Venus Express, sonda da ESA (Agência Espacial Europeia), acabou por revelar algumas imagens melhores, mas ainda assim pouco diferentes das obtidas pelo telescópio Hubble:
 

Vénus: Imagem da ESA (esq.) e Imagem do Hubble (dir.)
... as cores são "falsas" pois são na zona ultravioleta...
... parece ser complicado tirar fotos normais....

São ainda curiosas as imagens de Marte vindas do Hubble, por exemplo:

diz-se que a imagem pode ir do infra-vermelho ao ultra-violeta... ou seja pode ser, ou é, uma imagem obtida com cores reais. Sobre o significado dessas cores azuladas e das nuvens, é interessante ler esta descrição. e ver a imagem da Viking. Na linha menos colorida surgiram outras imagens, com mais definição, mas talvez mais confusão... que vão desviando o olhar dos nossos telescópios.


Outras efemérides em 2012
A configuração aqui mencionada de conjunção entre Vénus, Júpiter e a Lua, irá ser semelhante, mas pela manhã, neste Verão. Vénus irá aproximar-se de novo de Júpiter, que se antecipará... de estrela à tarde, passará a estrela da manhã na transição do dia 13 de Maio de 2012. Ambas serão estrelas da manhã depois do dia 6 de Junho, e em 18 de Junho teremos pela manhã uma lua minguante, seguida de Vénus e Júpiter, um pouco mais acima do horizonte. De forma igualmente interessante será o aspecto da manhã, um mês depois, por volta de 15 de Julho, ou mesmo depois, por volta de 13 de Agosto.

(Não serão visíveis em Portugal: o eclipse anular do Sol a 20 de Maio, o eclipse total do Sol a 13 de Novembro, e o eclipse parcial da Lua a 4 de Junho).

Mais notável será a conjunção (de 1 grau apenas) entre Saturno e Vénus, que ocorre a 27 Novembro, ao mesmo tempo que um eclipse lunar de penumbra será visível no dia seguinte (mesmo na Europa).
A conjunção próxima de dois planetas já foi usada como explicação para a Estrela de Belém, associando a uma conjunção de Júpiter e Saturno no ano 7 a.C. que esteve a 1 grau de distância.
Nesse aspecto, como Vénus é mais brilhante que Jupiter, a prevista para 27 de Novembro de 2012 será mais notável, até porque a Lua também participa ficando sob a penumbra terrestre no dia seguinte.

Estes são os últimos registos de efemérides previstas para 2012 e nenhuma tem o aspecto de "conjunção extraordinária". Curiosamente a data de 21 de Dezembro, mas de 2020... essa sim aparece com uma conjunção notável de Jupiter e Saturno, que ficarão quase como estrela-dupla, separados por apenas um décimo de grau.

Tudo o resto sobre 2012, mais do que astrologia, faz muito parte do folclore financeiro, que vende produtos, vende sonhos, oculta o que importa, e divulga as necessárias distracções para desviar atenções.
Apocalipse significará "revelação"... e isso sim contribuiria para uma mudança de mentalidades - a única revolução que interessaria... recolocar o homem no seu devido lugar, no seu papel único de inteligência, em relação de honestidade e verdade com os seus semelhantes.
Porém, ao contrário, o que vamos vendo é uma reposição do homem nos seus instintos mais primários de índole animal, na linha da selecção natural... sobreviver ou usar a inteligência para se tornar num animal superior (o melhor da vizinhança) ou numa espécie superior (pertence a uma elite)!
Esse é um caminho sem destino e sem fim... conforme já referi, para além da inteligência, há apenas inteligência. Só a farsa alimenta uma ilusão evolutiva, com níveis, classes ou castas... e mesmo os mais crentes parecem esquecer o detalhe da criação - fomos feitos à imagem de Deus - e certamente isso não se referia ao aspecto físico!... Tudo o resto é uma questão de tempo, e equilíbrio... só teme a morte quem não pensou nos detalhes pouco simpáticos da eternidade. Por isso, Saturno pode ter cedido de bom grado o papel divinal ao filho Júpiter, e ter decidido viver com os humanos no Lácio... mas é ele enquanto Cronos que define a linha temporal - um simples corte de Úrano.

quinta-feira, 29 de março de 2012

a pena sobre a pena

Sobre o extinto Mosteiro de Nª Srª da Pena (Sintra) citamos o Arquivo da Torre do Tombo:
  • Em 1503, foi fundado por iniciativa do rei D. Manuel, sucedendo a uma capela ou ermida edificada no alto da Serra de Sintra, dedicada a Nossa Senhora, entregando-a aos monges hieronomitas. As obras de construção, projectadas pelo arquitecto italiano João Potassi, tiveram início em 1503, e oito anos depois estavam concluídas. 
  • Em 1513, a comunidade era composta por dezoito frades. 
  • Em 1755, o mosteiro sofreu ruína devido ao terramoto, e reduzido a 5 monges. 
  • O mosteiro já estava desabitado aquando da extinção das ordens religiosas. 
A Ordem de São Jerónimo recebe dupla atenção no apogeu dos Descobrimentos, este notável Mosteiro de Nª Srª da Pena e é claro o monumental Mosteiro dos Jerónimos.
Não é completamente claro qual era a extensão da ruína provocada pelo Terramoto de 1755, especialmente não é visível nas estampas do Séc. XIX anteriores à sua destruição e construção do Palácio da Pena.
O monumental Mosteiro de Nª Srª da Pena 
antes da substituição pelo Palácio da Pena.
(W. Burnett, c.1834, Bibl. Nacional)

O consenso que se gerou na substituição pelo novo Palácio parece ter feito esquecer a pena que caiu sobre a Pena, e acrescenta-se que uma parte da capela antiga foi inclusa na nova construção. É sempre algo curioso que no meio de tanta serra e tanto espaço, a construção de um novo edifício seja feita exactamente por cima do anterior.

Nas estampas de Burnett de 1834 é ainda possível ver este mosteiro ao fundo, ao mesmo tempo que mostra as ruínas da velha capela do Castelo dos Mouros (talvez seja a capela de S. Pedro ... e as colunas de capitéis coríntios sugerem outras moiras!)

Com o movimento liberal e a extinção das ordens religiosas em 1834, o último grito Jerónimo talvez tenha sido colocado ao líder da resistência Apache.

Ligando ao postal anterior... é claro que por estes últimos dias a Lua andou a passear entre Júpiter e Vénus:
A Lua entre Vénus (acima) e Júpiter (abaixo), 
nos dias 25 e 26 de Março de 2012.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Lua, Jupiter, Venus e Pleiades

Só talvez os mais distraídos não terão reparado na singular conjunção dos astros nocturnos mais brilhantes, que tem sido visível nestes últimos dias (final de Fevereiro), logo após o pôr-do-sol.
Deixo aqui uma imagem tirada às 19h20m em Sintra, no dia 26 de Fevereiro:
O Palácio da Pena, Vénus, a Lua crescente, e mais acima Júpiter. (26/02/2012)

Fala-se muito de conjunções, alinhamentos, etc... mas raramente são tão visíveis e singulares como acontece nesta altura. A órbita de Júpiter demora mais de 11 anos, enquanto que a de Vénus é inferior a 8 meses, e Vénus pelo facto de ser um planeta interno, está sempre próximo do Sol, quer como "estrela da manhã" - Lucifer, ou como "estrela da tarde" - Hespero. Assim, no decurso da sua órbita Júpiter ao fim de uma década aproxima-se visualmente de Vénus... seja pela manhã, seja pela tarde. Acontece que agora isto coincide ainda com uma Lua próxima em fase de quarto crescente, e voltará a repetir-se em Março...

Aquilo que vimos neste sábado (25/02) e domingo (26/02) foi praticamente isto:
 
25 e 26 de Fevereiro de 2012

... depois a Lua afasta-se, e Jupiter e Venus aproximam-se bastante sendo que nesta altura as Pleiades estão perto do Sol, dado estarmos próximo de entrar no signo de Touro. 
A 12 de Março de 2012 vai dar-se essa maior aproximação que será curiosa pois parecerá Júpiter e Vénus como estrela dupla bem brilhante. 

 
12 de Março de 2012

Mais interessante, é que daqui a um mês a Lua regressa... e por volta de 25 de Março, devemos ver isto:
25 de Março de 2012

Um pequeno alinhamento notável com Vénus (e Pleiades) posicionado na direcção do crescente lunar, e com Júpiter a seu lado. 

Pegamos agora no símbolo de Sintra:
para encontrar uma imagem tipicamente associada a origens mouras... um crescente com uma estrela acima!
Bom, serão mais dois crescentes com duas estrelas... mas se podemos ter duas estrelas vistas como sendo Júpiter e Vénus, já é mais complicado ter duas luas em crescente! 
É claro que estas representações lunares são mais frequentes em bandeiras de países islâmicos (ver Mauritânia e Turquemenistão, por exemplo), mas encontram-se ainda em tradições de brasões de vilas portuguesas, como no caso de Sintra.

Não deixa de ser curioso, se pensarmos que há algum propósito em guardar religiosamente estes símbolos que apontam para um crescente lunar e uma estrela, e ainda a persistência em usar calendários lunares, nos países islâmicos, ou mesmo orientais - entrámos no ano do Dragão em 23 de Janeiro de 2012.

A data de 25 de Março é ainda curiosa, já que marcaria a criação de Adão, de acordo com o venerável Beda, sendo que o início do universo era apontado por este para 18 de Março. Aliás o dia 1 de Abril é considerado "dia de mentira", porque houve uma transformação do calendário que passou o início do ano para 1 de Janeiro, e dessa forma o correspondente a 25 de Dezembro seria exactamente 25 de Março!

Durante este mês de Março aparecerá ainda Mercúrio... este ainda mais próximo do Sol do que Vénus, e os outros planetas visíveis - Marte e Saturno, são ainda visíveis - Marte em simultâneo com os restantes (mas em lado oposto), enquanto que Saturno, aparece mais tarde, estando há muito colado à estrela Spica:
Tra la spica e la man, qual muro è messo!  (ver aqui)

Há obviamente quem não ligue nenhuma a esta questão estelar, e quem ligue em demasia...
Em certa objectividade científica é suposto não haver qualquer influência planetária nos homens, e porém há alguns detalhes que mostram não ser bem assim. O período lunar de 28 dias está demasiado próximo de um ciclo menstrual para ser desconsiderado como mera casualidade lunar... e se a influência da Lua é demasiado óbvia para que não deva ser ignorada, no caso dos planetas pareceria que nada os distinguiria de outras estrelas para merecerem distinção não astronómica.

Porém, todos sabemos, desde muito cedo que as estrelas cintilam e os planetas não...
Ora, isso nada tem a ver com as estrelas ou com os planetas... tem a ver directamente connosco.
Fossem os nossos globos oculares maiores e as estrelas não cintilariam - seriam pontos de luz semelhantes a qualquer planeta. É a reduzida dimensão dos nossos olhos que impede visualizar correctamente as estrelas mais distantes... é essa limitação que nos permite identificar facilmente os planetas, pela particularidade das restantes estrelas cintilarem na nossa visão. 
Pode ser obviamente casual esta relação entre a nossa capacidade visual e a distinção estrela/planeta... mas se fosse um pouco melhor ambos não cintilariam, e fosse um pouco pior todos cintilariam. 
Casualmente, ou não, acabámos por ficar num meio termo que sempre nos permitiu identificar os 5 planetas (Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno) das restantes estrelas, sem que se percebesse nenhum interesse prático para tal dom...





quarta-feira, 22 de junho de 2011

Milho a milhas

Num post antigo do Portugalliae, era apresentado um vídeo de Gunnar Thompson sobre a evidência da existência de milho entre os egípcios:


Não estão aqui em causa os argumentos de Thompson, e seria bom que houvesse imagens em vez de desenhos, mas é óbvio que ele se baseou em imagens reais e tenha decidido não usar material sujeito a direitos de autor. Apesar de estar na internet desde 2009, este vídeo revelador teve menos de 500 visitas, o que mostra bem que não basta divulgar, é preciso que a máquina de divulgação o autorize.

Se admitirmos que o milho é originário da América, isso significaria uma prova da presença egípcia nas américas... essa é uma linha de raciocínio possível, mas desconheço como se pode provar que só havia milho na América, e que daí chegou ao resto do mundo.

O nosso propósito aqui é ligeiramente diferente... numa tradução do livro "Sobre as Faculdades Naturais" de Galeno, feita em 1916 por A. J. Brock, encontramos a seguinte peça:
Or shall we also furnish our argument with the illustration afforded by corn? For those who refuse to admit that anything is attracted by anything else, will, I imagine, be here proved more ignorant regarding Nature than the very peasants. When, for my own part, I first learned of what happens, I was surprised, and felt anxious to see it with my own eyes. Afterwards, when experience also had confirmed its truth, I sought long among the various sects for an explanation, and, with the exception of that which gave the first place to attraction, I could find none which even approached plausibility, all the others being ridiculous and obviously quite untenable.
A palavra corn tem uma tradução que é milho... ou seja o tradutor aceitava que Galeno no Séc. II falava de milho, que segundo consta hoje só seria descoberto na América! Mas a descrição é mais elucidativa:
What happens, then, is the following. When our peasants are bringing corn from the country into the city in wagons, and wish to filch some away without being detected, they fill earthen jars with water and stand them among the corn; the corn then draws the moisture into itself through the jar and acquires additional bulk and weight, but the fact is never detected by the onlookers unless someone who knew about the trick before makes a more careful inspection. Yet, if you care to set down the same vessel in the very hot sun, you will find the daily loss to be very little indeed. Thus corn has a greater power than extreme solar heat of drawing to itself the moisture in its neighbourhood. Thus the theory that the water is carried towards the rarefied part of the air surrounding us (particularly when that is distinctly warm) is utter nonsense; for although it is much more rarefied there than it is amongst the corn, yet it does not take up a tenth part of the moisture which the corn does.
Ou seja, fala-se no Séc. II, concretamente no transporte de milho em vagões pelos camponeses e na propriedade do milho inchar... que é observada em várias coisas (em particular no processo das pipocas).
Não seria acidente o milho inchar, o propósito era aumentar o seu peso para que os camponeses pudessem ficar com algum para seu proveito, sem ser detectado entre pesagens, conforme Galeno explica. O objectivo de Galeno era apenas mostrar um princípio de atracção que ilustrava com a capacidade do milho inchar - "atraindo" o que o circundava.

Este não é o único texto em que vemos referências ao milho.
Por exemplo, na parte sobre a Hispania, na tradução de 1903 de Estrabo diz-se o seguinte:

Large quantities of corn and wine are exported from Turdetania, 
besides much oil, which is of the first quality;


Ou seja, é possível ler que o milho viria da Turdetania (e outras partes da Hispania e Aquitania).

Fica assim claro que no início do Séc. XX não havia a noção de que fosse algo estranho admitir que havia cultura de milho na Antiguidade... as traduções fazem-no com alguma naturalidade. Por isso, é de admitir que só no decurso do Séc. XX houve a fixação de que o milho seria exclusividade americana até aos descobrimentos!

Se o milho é originário das Américas, pois nesse caso ficam mais claras as viagens oceânicas na Antiguidade, caso ainda fosse necessária essa prova adicional... Porém, o que deve ter acontecido é que a cultura do milho na Europa durante a Idade Média, ou desapareceu pelas alterações climáticas, ou foi mesmo proibida (o que é mais natural, talvez até pelo artifício de enganar as pesagens relatado por Galeno).
O milho terá sido então reencontrado e autorizado no decurso das "descobertas", mas tanto pode ter tido a sua origem nas Américas, como pode ter sido levado para a América na Antiguidade.
Mas a questão da "prioridade dos descobrimentos" é o primeiro milho dado aos pardais, o que interessa é a questão da proibição, quem a implementou e por que razões?...

_____________________
NOTA IMPORTANTE [03/06/2013]
No século XIX era habitual usar-se a palavra "corn" para grão distinguindo "maize corn" para milho.
Actualmente a designação "corn" é usada para milho... portanto uma boa parte deste texto desfaz-se nesse equívoco de linguagem. Por isso algumas palavras aparecem agora cortadas, e o texto passou a cinzento... não está todo invalidado porque ainda tem como base a referência de Gunnar Thompson.

domingo, 22 de maio de 2011

Tiahuanaco liliputiano

Num recente documentário (sugerido no facebook de Maria da Fonte) fui surpreendido pelas dimensões especialmente reduzidas do que se vê hoje nas portas de Tiahuanaco.

nada fazia suspeitar que as dimensões do monumento sejam afinal estas:

O "great monolithic gate-way" conforme designado por Squier, será agora uma porta de dimensões reduzidas, onde um turista terá dificuldade em caber.
Na ilustração de Squier houve o cuidado de colocar pessoas para uma comparação das dimensões.
Já tinhamos referido que a porta estava separada, e que teria sido recolocada... porém não suspeitámos que a recolocação afectasse também as dimensões do monumento! Não são muito comuns as imagens com pessoas posando na porta do monumento... que parece uma grande porta para liliputianos!

Ou seja, tudo leva a suspeitar que em Tiahuanaco podemos estar em presença de uma réplica de dimensões reduzidas - o original, esse poderá estar algures nalguma colecção privada, destinada a olhos seleccionados.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Romanas Maiúsculas

Sabemos que os gregos usavam letras maiúsculas (... ou será majúsculas?!) e minúsculas.
No entanto, o que nos chegou dos romanos aparece sempre escrito em maiúsculas... as minúsculas que usamos são essencialmente fabrico posterior, de influência gótica.
Analisando algumas interessantes imagens de inscrições romana em Pompéia, podemos ver uma diversidade de escrita corrente, algumas da qual dificilmente legíveis para leigos.
É perfeitamente natural que houvesse uma variedade de caligrafia popular, para além do standard majúsculo que nos chegou.

A informação relevante sobre este assunto vi-a num vídeo de David Icke, que a certa altura faz uma observação notável... Toda a correspondência que nos é dirigida pelos bancos, e outras empresas, aparece sempre escrita com o nosso nome e endereço em maiúsculas.
Ou seja, temos correspondência dirigida assim:
      FULANO BELTRANO
      RUA DA AVENIDA, 33 
e não na forma como a escrevemos habitualmente
      Fulano Beltrano
      Rua da Avenida, 33

Isto passaria por ser acidental, se não fosse sistemático... e a explicação de Icke é interessante. Somos tratados não enquanto pessoas, mas enquanto empresas unipessoais... bens sujeitos a transacção.

A este detalhe junto a herança romana, com a sua ausência institucional de minúsculas. Algo que foi mantido ainda durante todo o período medieval. As inscrições que vemos em igrejas, ou epitáfios, adoptaram sempre a forma maiúscula, mesmo muito depois da queda do império romano. Afinal, o latim manteve-se instucionalmente como língua oficial durante a Idade Média.

Como aditamento curioso, reparamos muitas vezes nas caixas de comentários de jornais, e outros, em comentários escritos em maiúsculas... que passam por serem feitos por pessoas com vontade de se exprimir efusivamente com o Caps Lock ligado. Porém, o conteúdo dos comentários é muito semelhante, usa clichés típicos, e faz suspeitar que se tratam de comentários institucionais, patrocionados pela inteligência de serviço.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Nebulosidades auditivas

 
Kate Bush - Cloudbusting

I still dream of Organon...
What it made it special, made it dangerous...

On top of the world, looking over the edge, you could see them coming,
You looked too small, to be a threat to the men in power...
I hid my yo-yo in the garden, I can't hide you from the government...

Oh God daddy, I won't forget
It´s you and me, daddy!
Every time it rains, you're here in my head,
Like the sun coming out, like your son is coming out

I just know that something good is going to happen
and I don't know when... but just saying it could even make it happen

Your son is coming out, your sun is coming out.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Brasões de Armas

"Brasões de Armas das duas gerações que há no mundo"

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Maria da Fonte - brasão da revolta popular 
Póvoa do Lanhoso, a 22 de Março de 1846

 PM NP : Provincia do Minho Nossa Polónia

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cabeza y cola del dragon

Segundo o Diccionario nuevo y completo de las lenguas española é inglesa... (Madrid, 1797)
Dragon's head and tail : The two nodes of the moon. Cabeza y cola del dragon, los dos nodos de la luna, ó los puntos de la interseccion de la orbita de la luna con la eclíptica. (pag. 368)


Os dois nodos correspondem à intersecção da órbita lunar com a eclíptica (o aparente percurso solar no céu, que tem 23º inclinação face ao equador celeste), e por isso são os pontos de referência para eclipses lunares. Na astronomia antiga, astrologia, de influência chinesa, persa ou indiana, a cabeça do dragão (nodo ascendente) era representada a engolir o sol (no caso de lua nova, em caso de lua cheia o eclipse será lunar e não solar). Há um período de 18.6 anos associado à repetição da posição dos nodos.
cf. circa71 - conto chinês sobre eclipse em 2316 a.C. dragão verde tenta engolir o sol. 

A referência ao nome Cola do Dragão, em mapas antigos, onde também aparecia muitas vezes a eclíptica (como é o caso da esfera armilar adoptada no final do séc. XV), onde a Cauda Draconis representava o Sul (e a Caput Draconis , o Norte), pode ainda ser uma justificação adicional para o nome visto nesse mapa antigo que o Infante D. Pedro teria oferecido ao irmão, Infante D. Henrique.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gliese 581-g

A descoberta de um planeta Gliese 581-g, com características semelhantes à da Terra, dificilmente pode ser considerado como um sinal de grande probabilidade de vida inteligente. Digamos que já a hipótese de ter vida seria tão provável quanto a da sua existência em Vénus ou Marte... sendo que pouco se saberia acerca destes planetas que são normalmente detectados por perturbações orbitais das estrelas (neste caso da estrela Gliese_581 da constelação de Balança(Libra)), e não propriamente por observação directa...
Arte representando o sistema solar de Gliese 581 e seus planetas.

A recente notícia surpreendente é porém outra:
- R. Bhathal disse que detectou em 2008 uma emissão de luz invulgar vinda desse planeta (ver notícia aqui ou aqui), o que adensou as suspeitas de se tratar de uma emissão não natural, e a presença de uma civilização avançada.
A estrela Gliese 581 na constelação de Libra

sábado, 11 de setembro de 2010

Alucinações físicas

S. Hawking decidiu invadir o domínio religioso, talvez por falta de utilidade dos inúmeros disparates que sempre foi proferindo, a partir da não menos disparatada teoria do Big-Bang... Resta-lhe a utilidade de questionar a utilidade de Deus na ciência, e das Teogonias, aproveitando um mercado literário crente na fama do físico, desconhecedor ora de Física, ora de Teogonias.
Todos os liliputianos têm direito a uma cosmogonia até serem esmagados pelos pés de Gulliver. É sempre interessante quando apesar das inconsistências teóricas, a observação feita do planeta Terra (pequeno no espaço, mas provido destas iluminárias) é suficiente para explicar o Universo... e mais além, certamente!

Como qualquer simples positivista, Hawking tenta usar um ou dois martelos para pregar no deserto de ideias. A ideia da "Criação Espontânea" para o Universo, faz lembrar uma velha ideia medieval para o aparecimento de larvas. Os fundamentos são os mesmos, as ideias também - magister dixit.
Para quê estudar filosofia, se o positivismo de Hawking satisfaz os físicos?
Em termos de crendice, Hawking acaba de se igualar a qualquer religioso... com a diferença de usar equações matemáticas, que não se adaptam ao modelo que sustenta.
Hawking é ainda mais divertido, admite que Deus pode existir, mas que não é necessário para a nossa compreensão do Universo... será de perguntar "afinal, que ideia tem Hawking de Deus"? - Será a de um colega de faculdade, ou falará de Gus O'Donnell (G.O.D), o chefe do funcionalismo público britânico:
G.O.D. : Gus O'Donnell

A matéria negra, que invadiu a mente de Hawking, e que alastrou pelos físicos, está a fazer regressar a Física aos tempos da alquimia. O preocupante é que os meios são maiores, e as experiências inconscientes podem levar a ocorrências um pouco mais graves... Quando se pensa em experiências que levem a "buracos negros", percebe-se que a Física está à solta... procurando recriar competências divinas, em cérebros com competências adequadas aos mais básicos primatas.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Asteróides RX30 e RF12

Os asteróides RX30-2010 e RF12-2010 passaram ontem próximo da Terra, a uma distância inferior à da Lua. A surpresa maior talvez seja o facto de o evento ter sido simultâneo, e noticiado no próprio dia, 8 de Setembro de 2010...
Na imagem o asteróide Eros (Cintura de Asteróides)
Em 2007 foi lançada uma missão da NASA que enviou a sonda DAWN de encontro à Cintura de Asteróides, começando pelo terceiro maior asteróide - Vesta (deusa do fogo sagrado, das vestais), em 2011, e que prosseguirá até ao maior asteróide Ceres (deusa da agricultura, de onde vem a palavra cereal), que também é considerado um planeta anão.

O facto mais interessante sobre estas denominações é a antiga curiosa sequência:
- Urano, Saturno, Júpiter
relacionada com a ordem mitológica da Teogonia greco-romana.
O Úrano primordial foi destituído pelo filho,o titã Saturno/Cronos, ceifando-o da genitália que gerou Vénus/Afrodite.
(G. Vasari - mutilação de Urano por Saturno)

Por sua vez, Saturno foi destituído pelo filho Júpiter/Zeus, e a ordem planetária foi assim respeitada... de forma interessante, pois na possível sequência seguinte não aparece nenhum grande planeta - aparece sim a Cintura de Asteróides, que precede Marte. Ao invés de um corpo singular, uma multitude democrática de pequenos corpos celestiais, segue-se ao imponente e quase-estelar Júpiter. 
Apesar do domínio de Júpiter, que escapou de ser devorado pelo pai Saturno, o culto romano de Saturno é notável. Saturno é tanto de sinistro, quanto associado a um reinado numa era de ouro terrena, pré-idade-do-ferro, onde os homens eram livres, iguais, e felizes. 
As Saturnálias, festas em honra de Saturno, precederam a noção de Carnaval... ao invocar essa Idade de Ouro, verifica-se um ponto comum em diversos mitos referentes a esse Paraíso Perdido.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Marcas em Marte (1)

O Google Earth permite uma visualização do solo marciano, baseado na colagem de várias imagens retiradas em órbita pelas missões espaciais a Marte (tal como faz com a Lua).
Há imagens razoavelmente conhecidas, como a "Face", numa zona denominada Cydonia. Claramente, é possível reconhecer padrões antropomórficos de formas não relacionadas, e isso depende até da iluminação e sombras.
No entanto, próximo dessa zona, no "Labirinto de Cydonia", e usando imagens de "infravermelho diurno", é-nos revelado isto:
(clicar nas imagens para aumentar) 
Para além das zonas a negro, que claramente indicando ausência de informação, surgem linhas verticais que se desvanecem. Estas linhas, de tão perfeitas, apenas poderiam ser resultado de algum erro na visualização, resultado talvez de colagens. No entanto, se aumentarmos um pouco a imagem identificamos as zonas de colagem das imagens (que colocámos a azul claro):
... conclui-se que o problema destas linhas perfeitas, que atravessam estas imagens da paisagem marciana, fica por esclarecer!
Poderia ser um problema nas fotografias de infravermelho?...
Seguimos para as fotografias do visível... há duas zonas que aparecem demasiado iluminadas (sobre-exposição?). Numa das quais, numa área denominada "Hellas", onde também encontrámos traços que parecem quase linhas rectas (mas não são linhas rectas), aproximadamente a meio da imagem seguinte (em direcção quase horizontal):
Finalmente, próximo da outra zona, numa região denominada "Hellespontus Montes", e precisamente onde terá aterrado a sonda Marte 2 da USSR (1971), encontramos outras linhas rectas:
Estas linhas diagonais paralelas estão bem circunscritas a uma parte da fotografia, já que devido a uma "não boa" colagem com o restante, é perfeitamente identificável. Neste caso verifica-se ainda que as linhas são interrompidas pela presença da elevação (sendo ausentes nas zonas branca e preta, que assim cortam as linhas).
A sonda soviética foi dada como perdida, nunca tendo emitido nenhuma informação.
Não deixa de ser interessante notar, que tal como no caso da batimetria oceânica, também no planeta Marte encontramos estas estes aparentes sulcos rectilíneos no solo.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Pleiades (3)

Nas Caldas de Óbidos, actualmente chamadas Caldas da Rainha, foram construídos 3 chafarizes invocando as 7 Pleiades, mas de forma curiosa. Há um identificado com a primeira Pleiade, outro com a segunda, e finalmente um outro agrupando as restantes 5 Pleiades - o denominado Chafariz das Cinco Bicas:

A sua construção no reinado de D. João V, em 1749, destinou-se ao abastecimento de água à localidade, onde o rei, tal como D. João II, D. Sebastião e D. Carlos I fizeram vários desenvolvimentos. Fica por explicar esta estranha separação 7=1+1+5, mas está talvez esteja relacionada com uma tríplice fonte de Mercúrio, para além da habitual presença do 5 na tradição portuguesa.

Mercúrio nasceu na Arcádia, no Monte Cyllene (ninfa da montanha), e foi banhado numa fonte tríplice pelas ninfas do Feneu. Mercúrio ficou conhecido por algumas travessuras na sua juventude, nomeadamente com o sol Apolo, ficando com a sua vara de ouro, por troca com uma flauta, e com os seu bois, por troca com uma lira que inventou. Enquanto menasageiro, está ainda associado a ter trazido de Tebas o renascido Baco para as ninfas de Nisa, por ordem de Jove.

Durante o tempo dos descobrimentos, é referida pelo Cardeal Saraiva, a procura de minas de mercúrio pelos portugueses, encontrando-se ainda registos incas das minas de mercúrio de Huancavelica (Villa Rica de Oro).

Está ainda por explicar qual o interesse intenso que havia em explorar minas de Mercúrio naquela época...

Acerca do deus Mercúrio, referimos o poema de Ovídio (*)


Agora tu, de Atlante illustre neto,
belo filho, que a Pleiade mais bela
n'esses montes da Arcádia há dado a Jove;
tu, que pões guerra ou paz a teu arbítrio
entre os cumes do Olympo, entre os do Averno;
tu, que os ares alípede transcorres;
tu a quem lira, a quem palestra prazem,
e por quem a eloquência ao homem veio.



Referimos ainda que Mercúrio passa ocasionalmente pelas Pleiades, havendo várias efemérides astronómicas relacionadas (ver por exemplo aqui)

(Parte 3 de 7)

(*) Informação adicional sobre o deus Mercúrio:
Archivo Pittoresco (1862): http://books.google.pt/books?id=zddGAAAAMAAJ