segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A bestialidade e os caninos

Os clubes, salvo raras excepções nacionais, preferem usar símbolos de animais de grande potência. Os mais populares são certamente a águia, o leão e o dragão (este, no simbolismo imaginário). 
Acontece assim com os três clubes de futebol que preenchem o espaço televisivo, agora não tanto com o futebol, mas mais com a tentativa do total disparate, e ausência de bom senso, nos bastidores.
Esses símbolos são uma espécie de continuação da herança heráldica brasonada, misturando algumas tradições locais, da cidade ou região, com uma opção popular, casual e bestial.

Entre os mamíferos, a fuinha não se pode comparar com o leão, sendo este dez vezes superior em tamanho. No entanto, apesar do aspecto meio fofo ou balofo, a fuinha tem um dentes bem agressivos. Ainda que a dentição humana seja vista como carnívora, para onde foram os nossos caninos?

Numa tentativa ridícula e apalhaçada, algum humano tentaria amedrontar com a sua dentição?
Tentando imitar, por exemplo, um leão? 
Ninguém, no seu perfeito juízo, seria ridículo a esse ponto.
Ao contrário, uma doninha com 20 cm pode meter medo da mordidela usando pontiagudos caninos.

Exibindo os dentes: (à esquerda) um presidente leonino na Sporting TV

É claro que a agressividade humana também pode usar a boca como forma de exibir uma bestialidade natural, mas não é exactamente no mesmo aspecto directo que o faz uma fuinha, com os seus caninos... (é claro, excluímos aqui histórias de vampiros).
Exceptuando casos patológicos, ninguém vê a exibição da dentição humana um sinal hostil, talvez o veja como um esboço de bocejo ou riso. No entanto, já entende como hostil, quando se trata de um carnívoro.

Um problema, que é pouco mencionado na habitual história da evolução humana, é justamente essa completa perda de relevância da dentição canina.

Os humanos têm uma dentição nada adequada a carnívoros, especialmente se comparados com outros primatas, como por exemplo, com chimpanzés e orangotangos (ambos omnívoros), ou mesmo com gorilas (herbívoros).  

Os diferentes tipos de dentição em herbívoros, carnívoros e humanos. [img]
 
A dentição em chimpanzés (à esq.), austrolopitecos (ao centro), e humanos (à dir.) [img]

Uma das formas que foi usada para classificar os "hominídeos" foi justamente essa aproximação à dentição humana... ou dito de outra forma, seria mais complicado dizer que o crânio de um primata com grandes caninos seria "hominídeo". Desde os austrolopitecos aos neandertais, a dentição deixou de exibir caninos salientes.

Há herbívoros com grandes caninos, como é o caso do gorila, mas não sei se será fácil encontrar mamíferos carnívoros ou omnívoros sem eles, exceptuando os humanos. Outro problema é o tamanho do intestino, que é grande nos herbívoros e nos humanos (~ 6 metros), enquanto nos carnívoros é bastante mais pequeno (no leão ~ 1 metro e meio).

Aquilo que os nossos dentes nos mostram, é que a nossa ascendência não se deu pelo lado carnívoro, e é mais provável que se tenha dado por um ascendente herbívoro. 
Talvez fosse apenas predominantemente herbívoro, pois conforme já fui insistindo, há características humanas, nomeadamente a ausência de pêlos, que se coadunam mais com uma vida em ambiente aquático, próximo de lagos ou mares. 
Não se tratariam propriamente de grandes nadadores, já que nenhum grande primata nada, mas seriam capazes de beneficiar da postura vertical para ir longe na água junto à costa, em lagos ou mares calmos. Isso permitia escapar de alguns predadores, e também empreender no pescado. 
Os dentes caninos já não seriam tão relevantes no consumo de pescado. Os mamíferos piscívoros têm também caninos proeminentes (foca, leão marinho, lontra, etc...), mas não é o mesmo com o caso dos golfinhos.

O essencial é que o ímpeto carnívoro não parece estar na nossa essência, ainda que pareça ser notória alguma exigência no consumo de proteínas. Isso pode ter começado inicialmente com uma vida que foi ficando dependente de outros frutos, os "frutos do mar", e que depois terá sido compensada em ambientes menos costeiros com uma dedicação à caça. Só que parece que essa apetência pelo consumo de carne foi evoluindo com o desenvolvimento de armas ou utensílios adequados, e não seria uma apetência inicial dos hominídeos.

Não me parece que houvesse algum inconveniente na existência de caninos salientes, exceptuando o perigo da bestialidade se traduzir numa dentada mortal nos infantes, algo que acontece com os chimpanzés, e que algumas fêmeas poderão ter decidido ser um desagradável inconveniente estético.
Podem ter-se livrado dessa bestialidade, mas não de todas as bestialidades que iriam sair boca fora...

Pior, se nos livrámos dos caninos, não nos livrámos de uma vontade de fidelidade canina.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Re-creio

Caso alguém perguntasse qual seria o grande desígnio da humanidade, por estes dias responderia - "... um eterno recreio", ou mais apropriadamente ao dia de hoje, "... um eterno carnaval".
"Vai passar "- Chico Buarque de Holanda

Bom, e por que não acontece? ... por medo!
Vai passar?

1) Medo de irrelevância.
- Vai passar, legal! Mas vou desfilar, ou não?
- São milhares de pessoas, você é apenas mais um!
- Mas eu, sou eu! Também tenho direito a desfilar na frente!
- Qual é o problema?
- Ele quer ter protagonismo, que ir na frente do corso!
- Tudo bem, você vai para a cabeça do corso, para o carro principal!

2) Medo de relevância:
- Vai passar, legal! Mas, espera... ainda é legal?
- Não, não foi autorizado!
- Então, vou na frente de um desfile proibido?
- Foi o que você pediu!
- Não, não mereço! Quero passar despercebido...

Na relação que estabelecemos com os outros, o que sobressai é o medo:
- Quando a situação é boa, sobressai o medo de não ser notado.
- Quando a situação é má, sobressai o medo de ser notado.

O apogeu de alegria não acontece quando há apenas uma alegria individual, acontecerá quando toda a comunidade acreditar que já não tem razão para ter medo de coisa alguma.

O raciocínio humano é profundamente engraçado!
Quando se trata de ser vencedor da lotaria, o milhão de perdedores não interessa. O próprio reclamará o direito a ser vencedor. Mas se for uma maleita rara, que atinge um em cada milhão, tudo se inverte.

A vontade de pertencer ao grupo dominante, a vontade que o indivíduo tem de se destacar, é tão forte, que tolda qualquer raciocínio objectivo.
O indivíduo que de manhã saúda efusivamente o ditador, com uma mudança de regime ao meio-dia, tenderá a compensar a atitude com uma efusiva repulsa ao final da tarde.

Em 1989, na antiga RDA, meses antes de cair o Muro de Berlim, o regime anunciava votações de 98.85% nos candidatos comunistas. Menos de um ano depois, em 1990, o partido comunista obteve menos de 17% nas primeiras "eleições livres".
Mais perto, num congresso em Matosinhos, José Sócrates teve em 2011 uma reeleição no PS com 93,3% dos votos, pouco antes de perder as eleições nacionais com 24% dos lugares.
Só quem nunca esteve em assembleias, é que não percebe a dificuldade de ser o único com o braço no ar... Ter razão é um sério inconveniente, quando a maioria erra por sistema.
Porque a razão da maioria, é uma razão em si mesma, mesmo sendo absurda.

Liberdade é ausência de medo.

Os grupos encontram a sua cola numa lógica canina de fidelidade.
A ausência de medo, é aí um inconveniente.
Num grupo, um membro deve ter medo de estar isolado. A lógica dos grupos é desenvolver uma corte de fidelidade cega. Quem repele a fidelidade é uma aberração isolada.

As ideias... as ideias são apenas uma desculpa para colar o grupo inicialmente. Uma vez estabelecida a hierarquia da liderança, as ideias passam a ser as da liderança, as dos líderes, e tudo o resto desvanece.
Para uma eterna luta de ideias, estas precisam de adeptos racionais, que não as descartem à primeira mudança de clima. Por isso, todas as ideias, que visam apenas fortalecer a lógica de grupo, e que vão desde perseguição, terror, horror, engano, falsidade, aproveitamento, exploração, exclusão, etc... continuam a exibir o seu pragmatismo eficiente, e a impor um medo subjacente.

Recreio?
As crianças querem brincar desde que haja um pai que assegure a segurança.
E por isso é tão fácil fazer passar os ditadores como pais da nação.


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Nebulosidades auditivas (55)

Entre 1991-96 a situação na Jugoslávia atingia o que antes era impensado antes... a região balcânica viu-se envolta num conflito de nacionalidades, como consequência do fim da cola comunista que unia diversas nacionalidades como um único país. Enquanto o pai Bush se entreteve com a 1ª Guerra do Golfo, dando a ideia de um policiamento mundial, a comunidade internacional ficou praticamente estática, quando Belgrado reagiu violentamente às tentativas independentistas da Bósnia, e quando a secessão da Eslovénia e Croácia era já um facto consumado. Como Madrid tem dado boa conta, nenhuma "capital" perde ligeiramente a sua "província".

Sarajevo ficou cercada por tropas sérvias entre 1992 e 96, quando presumidamente perto de 20 mil militares sérvios, ou alinhados com a Sérvia, foram mantendo o cerco à cidade, no sentido de evitar a secessão da Bósnia. Foi o cerco mais prolongado do Séc. XX, ultrapassando o tempo dos cercos nazis de Leninegrado e Estalinegrado (actualmente, St. Petersburgo e Volvogrado), durante a 2ª Guerra Mundial.
A vida em Sarajevo, no período do cerco, com a população aterrorizada por snipers e milícias, era suficientemente complicada, mas mesmo assim foi organizado um concurso "Miss Sarajevo sitiada", em 1993, em que Inela Nogic foi a "miss" escolhida. O concurso organizado num palco subterrâneo teve as participantes mostrando um cartaz dizendo "Don't let them kill us"...

Este vídeo dos U2 com Luciano Pavarotti, "Miss Sarajevo", ilustra esse momento algo absurdo, tendo por base um documentário com o mesmo nome de Bill Carter. Afinal um simples momento de políticas instáveis e inseguras, podem transformar uma pacata vida citadina numa constante aventura de sobrevivência.
U2 e Luciano Pavarotti - "Miss Sarajevo" (1995)

Dici che il fiume trova la via al mare; E come il fiume giungerai a me; Oltre i confini e le terre assetate;
Dici che come fiume; Come fiume l'amore giungera;  L'amore e non so piu pregare;
E nell'amore non so piu sperare; E quell'amore non so piu aspettare.

Sarajevo, uma das mais belas cidades europeias, com as suas múltiplas pontes sobre o rio Miljacka.
Em 1984 acolheu os Jogos Olímpicos de Inverno, com instalações usadas e destruídas há 25 anos durante o cerco.
Foi na Ponte Latina que foi assassinado Franz Ferdinand em 1914... o pretexto bélico para a 1ª Guerra Mundial. 

Dizem que o rio encontra a via do mar; e como o rio chegarás a mim; além dos confins e da terra árida;
Dizem que como o rio, como o rio, o amor chegará; o amor.... e não sei mais rogar;
E em amor não sei mais esperar; e aquele amor não sei mais aguardar.


"The Butcher of Bosnia" (BBC, 2017)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Nebulosidades auditivas (54)

Num dia 26 de Abril de 1955 escreveu-se um poema que fez sucesso como canção catorze anos depois, num programa chamado Zip Zip, e passados cinco sobre esses anos, os eles e os nós já se confundiam em múltiplos nós entrelaçados, e afinal já se confundiam sonhos e pesadelos.
Eis o poema, na forma manuscrita:
Manuscrito da "Pedra Filosofal" com a data 26-4-55
publicado no livro Movimento Perpétuo (1956)
O autor era Rómulo Vasco da Gama, de apelido Carvalho, sob pseudónimo António Gedeão, e o cantor que levou a Pedra Filosofal ao programa de Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado, em 1969, foi Manuel Freire:

Manuel Freire - Pedra filosofal (1969, edição Zip-Zip, 1970)
Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, tão concreta e definida, como outra coisa qualquer... como esta pedra cinzenta, em que me sento e descanso, como este ribeiro manso, em serenos sobressaltos. Como estes pinheiros altos, que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam, em bebedeiras de azul. 
Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo, num perpétuo movimento. 
Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia... que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, infante, caravela quinhentista, que é Cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. 
Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida, entre as mãos de uma criança.

A inspiração é inalada gratuitamente como o ar e exalada na soberba como criação própria.
Só que o caos das musas, nem sempre presenteia os artistas com harmonias que tocam uma nação, como foi o caso desta melodia que Manuel Freire compôs, a partir do notável poema de Gedeão.

Interessa-me a lista que Gedeão compilou, misturando progressos nacionais com internacionais... ou nem tanto! Quando chegamos aos passos de dança, e bastidores, é referido "Colombina e Arlequim", um tópico de Polichinelo, a que fiz referência desde o princípio no texto Pacífico, e também em inglês no Main Facts (2)... e ainda creio que noutro sítio (que não encontro). A que se segue a Passarola, e se não falámos de um pára-raios, em que os russos de Nevyansk reclamam primazia a Franklin, falámos duma locomotiva russa.
Já deveríamos ter falado do Padre Himalaya, e do seu alto-forno solar (pirelioforo), com que recebeu medalha de ouro na exposição de St. Louis de 1904.
A partir daqui, com a cisão do átomo, radar, ultra-som e televisão... pois isso só constaria no campo dos sonhos nacionais, dado o paupérrimo registo científico conhecido no Séc. XX!

Fica o mais intrigante.... "desembarque de foguetão na superfície lunar"!
António Gedeão escreve em 1955, numa altura em que nem tão pouco o Sputnik tinha sido lançado em órbita. Assim, este é o único elemento da lista que não passaria ainda de um velho sonho!
Manuel Freire lança a canção em 1969, no ano em que foi suposto assistirmos ao desembarque do homem na superfície lunar. Não deixa de ser uma coincidência... mas todos os pontos da lista eram finalmente verificados, quando em 1970 a canção foi lançada em disco.

É claro que na mais comum das interpretações, os "eles" eram "eles", mentecaptos autoritários do Estado Novo, incapazes de sonhar... e tudo o resto não interessa, quando dividimos o mundo entre bons e maus. Por graça dos fados, seremos sempre reconfortados pelo presente estar na mão de bons, salvadores dos males passados.

Resulta este texto do comentário de J. Ribeiro, e dos serenos sobressaltos.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Nebulosidades auditivas (53)

Uma banda que é mais ouvida do que conhecida, são os noruegueses Röyksopp, que aqui trago com um vídeo suficientemente estranho associado à canção "What else is there?", realizado por Martin de Thurah. Os Röyksopp não têm propriamente um vocalista fixo, convidando diferentes cantores para as músicas, neste caso, a sueca Karin Andersson.

Röyksopp - "What else is there?" (2005)

O aspecto que me prendeu a atenção no vídeo foi a flutuação da cantora, uns poucos centímetros do solo, e não tanto as casas que se desprendiam numa ausência gravitacional.
É claro que não se trata de uma produção tipo NASA, em que as astronautas a bordo da estação orbital não só flutuam, como têm a obrigação de ter os cabelos em pé - para o espectador acreditar que estão no espaço! A esse propósito, deixo um vídeo bastante ilustrativo, que usa a modelo Kate Upton, para tirar dúvidas... 
"Hair in space : The NASA illusion"

Bom, não há propriamente limites para a desfaçatez, mas este texto não é sobre os graves no fandango da NASA, mas sim sobre sonhos...
Sonhos daqueles em que se está numa realidade diferente do habitual, e já me ocorreu sonhar com a mesma capacidade de flutuar que Karin Andersson exibe no vídeo, a uns meros centímetros do solo, ou então bem mais alto... mas sem a postura de vôo típica do "superhomem". Sempre em posição vertical, e naturalmente... Assim, o interessante é que ao invés de surgir a pergunta "como era isto possível?", a pergunta apareceu ao contrário "sendo tão fácil, como é que não o tinha feito antes?". Mais engraçado, como esse sonho surgiu mais que uma vez, nunca essa memória foi inibidora, de nova aparência, com o mesmo grau de credibilidade. Gostava de conhecer o "outro eu", baptizado de "subconsciente", que realiza o sonho, e supostamente me prega este tipo de partidas, porque a coisa é bem feita, e convincente. Na prática, o problema é que o próprio se identifica como personagem do sonho, mas muitas vezes assume nesse contexto um tipo de atitudes com que já não se identifica. Isso poderá corresponder à sua personalidade noutra época, e por isso não é visto como um enxerto de pensamentos alheios na sua cabeça, mas pode não corresponder à personalidade actual. No caso concreto, se obtivesse do nada uma capacidade de flutuar, semelhante à de andar, não iria achar isso nada natural, nem aceitaria o presente gratamente, sem procurar perceber a origem do evento.
Porém, no contexto do sonho, a questão nem se coloca, e o personagem sobrepõem-se ao pensador, sem quaisquer problemas.

Vejamos um outro caso, que também é algo ilustrativo. Há uns dias, tive o enésimo sonho funesto... já foram tantos, que lhes perdi a conta. Um tema não raro é um apocalipse do tipo nuclear. Vemos cair a bomba à distância, e sucede a deflagração, mas como daí não surge nenhum efeito, manifesto o excesso de confiança, de que nada se iria passar. Porém, depois surge a surpresa de ver os edifícios a desaparecer, como pixeis que desaparecem de uma imagem. Já numa atitude defensiva, e perdendo a confiança, coloco o braço à frente, e vejo-o igualmente desaparecer da mesma forma. Ao contrário do que é habitual agora, por breves instantes aceito o fim, quando sinto uma dor forte. Mas, ao mesmo tempo, não deixo de manter a curiosidade de saber o que se iria passar. Entretanto, nada se passa, a dor desvanece, e concluo que deveria acordar, só que acordei ainda para outro sonho, antes de acordar para este. Afinal, foi um sonho e não um pesadelo... pesadelos, de estar ou acordar sobressaltado, foi coisa que me abandonou há bastante tempo, e por completo, nestes últimos anos. No entanto, como somos mais espectadores do que actores, nada disso é coisa certa, e muito depende do filme em que nos queiram meter...

sábado, 20 de janeiro de 2018

«A estranha conversa entre o primeiro deus, e o deus que o criou»

- Meu caro Cupido, e foi assim...
- Foi assim, quando?
- Sei lá... queres definir o tempo pela memória que tens das coisas? Nesse caso, o início dos tempos poderia ter sido há um minuto atrás, mesmo que aí te apareçam memórias de um milhão de anos.
- Filosofamos, é?
- Conforme te dizia, ele apareceu-me, e disse que me tinha criado, que tinha a memória fotográfica de como o tinha feito, até ao mais pequeno detalhe.
- E tu?
- Eu perguntei-lhe se, já agora, ele se lembrava de como se tinha criado a si mesmo...
- Claro que não tinha!
- Ora, claro que tinha... não foi criado sem esse detalhe!
- Não percebo, o que queres dizer com isso?
- Então, para fazeres alguém crer que fez algo, basta colocar-lhe isso na cabeça. Por exemplo, pegando numas imagens de criação da Terra, do Sol, etc... isso é colocado na mente, e automaticamente ficam com a ideia de que presidiram a esses eventos.
- Ah! E da mesma forma, colando a memória da sua criação, ele ficou com a ideia de que se tinha auto-criado!
- Percebeste!... Então, depois de ele ter respondido, perguntei-lhe se ele sabia a razão... e assim que terminou de responder, peguei num pequeno papel onde estavam escritas as mesmas palavras que ele acabara de proferir.
- Uau! E quais eram?
- Um qualquer disparate, não interessa! 
- Não entendo. Como fizeste isso?
- Bom, havia um desfasamento entre a sua percepção e a sua interacção. A percepção chegava em tempo real, mas a interacção ocorria com atraso. Isso provoca a ideia de que se prevêem as coisas, já que chegam primeiro à mente do que aos sentidos. Ele via um copo a cair, primeiro na sua mente e depois na sua visão. Esta repetição com atraso dava ideia de previsão. No entanto, se o tentasse apanhar, ele já teria caído.
- E a ideia de omnipotência?
- Nota que se ele interagisse ao tempo da suposta previsão, interagia em tempo real. A ideia de potência resulta de colocar a ideia de que o copo caía por vontade do próprio. Se preveres uma coisa, e essa previsão se realizar, ficas com a ideia que é a tua previsão que condiciona a execução.
- Como fizeste, então?
- Espera, que ainda não terminei... Por exemplo, pensas em andar, e andas! Pensas em mexer a mão, e ela mexe! Isso leva-te à ideia de que o teu pensamento controla essas acções. Tudo aquilo que julgas que controlas, é apenas porque te aparece na mente, como vontade, e depois vês acontecer por via dos sentidos. Agora, a questão é outra. Imagina que te quero forçar a dares-me o teu arco, só preciso de colocar na tua mente a ideia de que me vais dar o arco, antes de o fazeres. (Nesse momento, Cupido agarrou no arco e deu-lho de bom grado.) Acabaste de me dar o teu arco, por tua vontade, ou fui eu que te forcei a isso?
- Hmmm, dei-te o arco porque quis, isso é claro. Mas confundiste-me! Não sei por que razão me apeteceu dar-te o arco! Não faz sentido nenhum...
- É esse o ponto! Normalmente, podes arranjar como razão interna um "apeteceu-me", ou "foi um impulso", mas esses actos são nomeados "instintivos", porque não lhe vemos nenhum nexo racional.
- Servem para confundir... ainda estou confuso!
- Foi essa a mesma sensação que ele teve. Deveria ter previsto que iria ler o mesmo que tinha dito, mas bloqueei-lhe essa possibilidade. Simplesmente coloquei-lhe a ideia de que tinha lido o mesmo que tinha dito. Mais curioso, tão preocupado estava a fazer isso, que nem ouvi o que ele disse!
- Então também não controlas tudo?
- Pouco mais que nada! Creio que acabamos por ser personagens de alguma história, que corre na cabeça de alguém... mas que também esse mal conseguirá justificar os seus pensamentos.
- Ou seja, também não sabes por que razão fizeste isso...
- Bom, já estava farto de ouvir tanta gabarolice!
- Mas, ao menos ele percebeu que não tinha sido o primeiro, e que tu o tinhas criado?
- Eu não quis saber... ou, lá está, foi-me posta a vontade de não querer saber. Vendo racionalmente, o que fazia sentido era querer saber isso. No entanto, não quis... talvez fosse conveniente à história não o querer saber!


sábado, 6 de janeiro de 2018

Snowmaggedon (5)

Continuamos desde 2014, e assim este é o quinto texto dedicado ao "Snowmaggedon"...
Pelo quinto ano consecutivo, chegamos à época de inverno, e volta o problema do frio para aborrecer a teoria do "aquecimento global". São sempre fenómenos circunstanciais e raros... neste caso a vaga de frio que assolou a costa leste dos EUA, levou a que nevasse na Florida, o "sunny state", coisa que não ocorria há 30 anos:
"It finally snowed in Florida..." (Detroit Free Press)
Desta vez já há outro nome apelativo para o fenómeno - "bomb cyclone", que levou até a uma chuva de lagartos, arrastados das árvores, e congelados.

Depois de um mês de Outubro bastante quente, tivemos até a fantástica previsão por via de Stephen Hawking, de que a Terra iria tornar-se numa "bola de fogo"... e passados nem dois meses, já Trump podia responder com a mesma superioridade do raciocínio científico, e perante a vaga de frio, afirmou doutoralmente que daria jeito um bocadinho de aquecimento global.

No livro 1984, Orwell foi bastante cáustico com a questão de ver 4 ou 5 dedos... 
- 'How many fingers, Winston?'
- 'Four! Stop it, stop it! How can you go on? Four! Four!'
- 'How many fingers, Winston?'
- 'Five! Five! Five!'
- 'No, Winston, that is no use. You are lying. You still think there are four. How many fingers, please?'
- 'Four! five! Four! Anything you like. Only stop it, stop the pain!' 
A comunidade, ou quem a controla, decide o que é verdade, e o politicamente correcto condiciona os indivíduos a repetirem a mesma falsidade como verdade.

Podemos dizer que os incêndios de Junho e Outubro, com meses anormalmente quentes, bem mais quentes que Julho ou Agosto, poderiam servir como justificação de "alterações climáticas" (nome alternativo para a psicose do "aquecimento global"), mas isso seria fácil por ser evidente. O que se pretende é mesmo que a sociedade acredite, tendo evidências em contrário, tal como o personagem Winston de Orwell.


Aditamento (9/01/2018):
Uma imagem de marca para este publicitado "aquecimento global", surgiu hoje com neve no Saara:

Também não acrescenta nada o nome de recurso - "alterações climáticas", porque também se tinha visto neve no Saara em 1979. As temperaturas antárcticas com -73ºC (sentidos ao vento) no Monte Washington, nos EUA, também não demove o convencimento extremo, que recorre à comparação com o hemisfério sul, com 47ºC em Sydney (que também não foi extremo, sendo mais quente em 1939):

Ainda que se verifiquem condições atmosféricas invulgares, nada disso merece o nome de "alterações climáticas", e muito menos o nome de "aquecimento global".
Se as pessoas fossem minimamente sérias, entenderiam que temperaturas extremas ocorreriam se em todo o planeta fossem batidos recordes de temperatura, em todos os pontos. O que são propaladas são médias enviesadas, com valores seleccionados, e a pseudo-ciência é cada vez mais condicionada pela agenda mediática global - essa sim, em constante aquecimento.
  

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

da Cave (1) «A estranha conversa entre a deusa que tudo podia e sabia, e o homem que tudo isso compreendia.»

Se no outro blog fui vasculhar o sótão, aqui encontrei este rascunho na cave.
Bom, e gostei de reler, com o problema de já não saber até que ponto o texto foi completamente inventado, já que a memória me diz que, pelo menos, situações muito semelhantes ocorreram.

______________ 25/07/2015 ____________

A deusa deu conhecimento ao homem da sua presença, e fez-lhe saber:
- Eu tudo sei e posso.
O homem calmamente lhe respondeu, sem que tivesse pronunciado palavra:
- Compreendo, mas tudo isso não te chega.
Algo irada, a deusa fez-lhe sentir um aperto no coração, mas o homem continuou:
- Precisas de mim. Eu serei o último depósito da tua existência, quando nenhuma razão houver para se pensar sequer que possas ter existido.
- Tenho o teu coração na minha mão.
- E que medo lhe sentes?
O homem contorceu-se com algumas dores agudas, gemeu, gritou, mas insistiu:
- Que medo lhe sentes?
- Sinto em ti, a irritação de um insecto. Um insecto que me atormenta. Um insecto onde o medo está ausente, porque não tem capacidade de ver o pé que o pode espezinhar.
- Pois, em ti, minha deusa, eu sinto medo.

A deusa afastou-se. Este afastar significou apenas retirar ao homem o conhecimento da sua presença. Poderia, sabia bem, terminar ali com a vida daquele homem, como tinha terminado com tantos outros, mas sabia bem que terminar com um insecto não termina o problema dos insectos. Como tudo sabia, sabia que todo o desfecho universal sem a presença daqueles insectos pensantes correspondia ao seu próprio colapso. Sabia, mas não compreendia a razão.

Passados uns tempos, voltou a fazer notar a sua presença.
- Bem vinda, de novo!
- Saberás quem sou eu?
- Para que te serve a pergunta, a quem tudo sabe? Sabes que te vejo como deusa da Terra... Geo, vá! 
- Geo, vá? Vá onde?
- Vá lá...
- Vahala ou Vá Alá?
- Não interessa. A nomenclatura histórica não interessa ao assunto que te interessa.

Nesse instante, o homem ligou a televisão e imediatamente viu um anúncio publicitário terminar, dizendo - "Porque sim, sabemos o que vai fazer. Fique connosco.
O homem pensou um pouco, e dirigiu-se assim à deusa:
- Vamos ao que interessa?
Silêncio da outra parte. Sem se dar conta, o homem tinha mudado para um canal musical, e desse lado passava o vídeo "Nothing really matters":

O homem não achou piada alguma à forma de resposta. Procurou o comando para mudar de canal, mas não o encontrava. Tinha a certeza que o tinha deixado ao seu lado. Tinha acabado de ligar a televisão, não poderia estar noutro sítio. Levantou-se, olhou por todo o lado, e não o viu. Irritado, desligou a televisão da ficha, e disse baixinho:
- Podes tudo, mas comigo não podes manter a televisão a funcionar quando tiro a ficha.
Saiu da sala e foi para o escritório, iria ouvir música no computador. Ligou o computador, e para seu espanto, nas sugestões do YouTube, aparecia o vídeo "Nothing really matters", agora de Mr. Probz.
Sorriu, e sem pronunciar palavra, disse:
- É o melhor que consegues?
Nesse instante, ouviu da sala a canção de Madonna de novo... Não queria acreditar. Tinha desligado a televisão da ficha. Dirigiu-se à sala, e a sua mulher perguntou-lhe:
- Por que razão desligaste a televisão da ficha? Onde está o comando para mudar de canal?
O homem ficou sem saber o que dizer... mas, entretanto entrava já nova canção - "Nothing else matters", dos Metallica, e a mulher apressou-se a dizer-lhe:
- Deixa estar. Já há muito tempo que não ouvia esta!
Ainda meio sem palavras, o homem conseguiu retorquir:
- Os tipos devem ter achado piada fazer seguir ao "Nothing really matters" da Madonna, o "Nothing else matters" dos Metallica... aposto que antes tinham passado o Mr. Probz.
- O que é que estás a dizer?
- Nada. Olha o comando está por aí... mas não o encontrei.
- Já vi, estava metido entre as almofadas do sofá. Mas, porque razão desligaste a ficha?
- Eh pá, não interessa nada...
Para terminar a sequência, a mulher rematou sorrindo:
- "Não interessa nada"? ... Nothing really matters?

O homem afastou-se de novo para o escritório, com a confusão de não saber se a piada era da mulher ou da deusa, e disse para si:
- Ah, ah, ah! Cena muito engraçadinha!
E de novo, a deusa fez-lhe sentir a sua presença, com uma pergunta na sua cabeça:
- Aprendeste alguma coisa?
O homem ficou a pensar, sem nada dizer, rodando a cadeira do escritório, enquanto olhava para o espelho. Depois decidiu ir ver o vídeo que recusara antes, e procurou a letra na internet. Em jeito de resposta, encontrou um vídeo de M. Mathers, vulgo Eminem, e considerou que "Not afraid", era apropriado.
- Eu compreendo o teu problema.
- Eu tenho um problema?
- Vamos ao que interessa?
O percebido silêncio foi tomado pelo homem como razão de continuar, e continuou:
- O que podes e sabes, está dentro das possibilidades. Nos universos de impossibilidades, que tanto gostarias de ter, não contas comigo, nem com os meus. Esses universos cor-de-rosa, terminam todos mal, como podes ver, porque tudo podes saber.
- Enganas-te, não terminam todos mal.
- Terminam todos mal para ti... porque sozinha ficarias com bonecos, com autómatos previsíveis. É a previsibilidade que te mata, porque quando escolhes um mundo pré-programado, esse mundo termina antes de começar. Não termina para quem tem um conhecimento parcial dele, mas sim para quem o controla. Os bonecos são felizes nesse teu mundo de faz-de-conta, como é feliz um boneco de borracha, onde está desenhado um sorriso.
- Se tudo sei, acharás que não sei isso?
- Sim, sabes, mas compreendes? Uma coisa é ter todos os livros numa biblioteca, outra coisa diferente é saber escolher o apropriado na altura certa.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Cá tá a Luna

Os resultados contados às 21:00 (hora Barcelona) segundo o Diário de Girona:
... previam uma maior vitória dos independentistas, que ainda assim conseguiram uma maioria de 70 lugares contra 65, apesar de terem menos votos expressos: 

Resultados finais (1h08 de Barcelona).

Os independentistas venceram de novo, apesar do partido mais votado ser o Ciudadanos, liderado por uma andaluza residente há 10 anos em Barcelona, o que torna mais caricato o resultado eleitoral. 
O PP terá perdido 8 deputados para o Ciudadanos, e sem 6 desses deputados o Ciudadanos teria ficado em 3º lugar, o que torna a sua vitória uma mera contagem, sem significado real. O mesmo não se poderá dizer do número de votantes - os independentistas conseguiram 47.5% não chegando a metade dos votos, numa participação eleitoral que teve mais de 80% dos votantes.

Numa situação, algo similar, ainda hoje quase metade dos habitantes de Riga, capital da Letónia, é de origem russa, e caso semelhante acontece em Talin, na Estónia. Isto, porque a Rússia quando anexou os estados bálticos, achou boa ideia "colonizar" o território com população de origem russa.
Uma forma do "país invasor" condicionar a expressão da vontade independentista local, é fomentar a deslocação de populações. Por isso numa Convenção de Genebra ficou escrito que:
"A potência ocupante não poderá deportar ou transferir parte 
da sua população para o território que ocupa."
A situação não é bem a mesma. Aqui, mais por razões económicas, uma parte considerável da população residente em Barcelona tem origem noutros territórios espanhóis, nomeadamente da Andaluzia. Mas para evitar o problema com os russos residentes nos estados bálticos, não foi concedida nacionalidade a uma grande parte destes... com muito mais do que 10 anos de residência aí - afinal, um pequeno detalhe que não preocupa a UE.

Ainda assim, com um parlamento de novo dominado pelos independentistas, conforme seria expectável, se Madrid não exagerasse na trafulhice... parecem ter-se acabado ao governo espanhol os argumentos legais para resolver o problema catalão. No máximo poderá continuar a convocar eleições, até que o resultado mude, ou então poderá tentar a última manobra - efectuar um referendo para a independência, segundo os seus moldes. Esta última hipótese será ainda tentadora, porque em número de votos, não houve vitória independentista clara... 

Agora, a Espanha fica com o mesmo "pequeno" problema político e jurídico por resolver...  pelo lado jurídico, os vencedores independentistas estão presos ou exilados, com ordem de prisão; pelo lado político, a Espanha esgotou os elementos jurídicos, isto se quiser respeitar o resultado democrático eleitoral.
O solstício de inverno apareceu hoje depois da Lua nova.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Eutanásia

Apareceram de novo discussões públicas sobre a eutanásia, que poderá ser alvo de referendo ou legislação próxima
A palavra tem raízes gregas de eu+thanatos, ou seja boa+morte. É curioso que o elemento "nato", referente ao nascimento, apareça na palavra morte "thanato", tal como é entender "eu" como "bom".

O que se entende por "boa morte", tem muito a ver com os entendimentos pessoal e comunitário.
Aparentemente ninguém pede para nascer, mas há quem peça para morrer.

Se o próprio tem a faculdade de escolher, o pedido pode parecer não fazer sentido, mas certamente faz em casos extremos. O problema tem abordagens simplistas, que consistem essencialmente em atender a súplicas desesperadas, ou então na recusa peremptória em decidir pela morte doutrem.

Deixo aqui o meu entendimento pessoal.
Para se falar de morte, convém entender a oposição, a vida.
A vida é uma experiência comunitária, começando pela sua origem, que resulta normalmente do entendimento entre duas pessoas de sexos opostos. Logo aqui entra a diferença entre o plano natural, e o plano humano, que o tende a distorcer. Mas não vou dissertar agora sobre isso, até porque a criação do ovo resulta de três intervenientes - os elementos masculino e feminino, e o "acaso".

Interessa que a criação de vida humana não é uma decisão unilateral, não é autogénese, pressupõe a existência de entendimento a dois, e mais que isso, pressupõe entendimento numa comunidade funcional onde o nascituro se irá desenvolver. 
A simples conclusão que quero sublinhar é que o indivíduo não nasce sem alguma comunidade funcional que o envolva. Por muito atroz que seja essa comunidade, o indivíduo só nasce se há alguém que tolere a vida nela. 
Por exemplo, os filhos de escravos nasciam, não apenas porque alguns dos escravos toleravam a condição, mas também porque os seus "senhores" toleravam (e fomentavam) essa forma de vida em comunidade. A comunidade era até certo ponto funcional, e soube pelo menos evoluir da condição de escravidão a uma condição de dependência financeira, razoavelmente mais pacífica.

Um principal objectivo do indivíduo é avaliar o mundo em que nasceu.
Se todos os humanos concluíssem que a vida neste mundo não valia a pena, pois a sua melhor decisão seria, pelo menos, não trazer novos filhos ao mundo. Um suicídio colectivo, ou um absoluto desinteresse na paternidade, corresponderia de igual modo ao fim da humanidade.

A comunidade humana teve assim motivos para criar uma sociedade onde viver fosse um prazer, e não apenas um sacrifício persistente. A natureza foi-se encarregando de criar algumas das situações mais atrozes para a sobrevivência humana, algo a que comunidade humana conseguiu responder com sucesso, em muitos casos. Mas, por seu lado, a sociedade juntou ainda mais situações atrozes, mais dificuldades para a vivência. No computo geral, podemos dizer que atingimos uma qualidade de vida razoável, ou mesmo boa, para a maioria da população. Praticamente a natureza foi controlada, ao ponto de se garantir subsistência, e alguma qualidade de vida material, para a esmagadora maioria da população.  A maior parte dos problemas reside essencialmente num despique constante, que tende a infernizar uma vivência, sobretudo devido às orientações enganosas, que tendem a privilegiar uma competição, na maioria das vezes inútil, face às possibilidades de colaboração.

A natureza continuará implacável nas limitações que pode impor como simples doenças ou acidentes, e é nesse ponto que surge a maioria das situações de "eutanásia". 
A medicina parece não ter problemas morais em receitar tratamentos que podem ser autênticas torturas, ou até situações de humilhação. O "paciente", e o nome é bem escolhido, tem que aceitar ser cortado, lançado, amputado, violado na sua intimidade, etc... porque tudo isso é para o seu bem, o que (em última análise) os médicos encaram como "sobrevivência", ou regresso ao "estado anterior". Houve reticências em apoiar cirurgias plásticas, se não visassem um regresso ao "estado anterior", quando visavam uma mudança, uma opção pessoal. 

Portanto, a prática médica convive bem com situações que se assemelham a tortura ou até a prisão perpétua, mas tem dificuldade em atender à vontade do paciente - seja ela qual for, e não apenas nos casos em que solicita o término da tortura. Isso é perfeitamente compreensível, porque se a medicina continuar a visar o regresso ao estado anterior, é claro que a sobrevivência é mais próxima do que a morte... e o paciente é apenas isso - um paciente, que se deve sujeitar às capacidades e técnicas médicas existentes (podendo até ser convencido a servir de cobaia). 
Convém notar que a prática médica segue mais um código de aceitação interna, e o envolvimento emocional com o estado do paciente é desaconselhado. Por isso, ou a medicina muda a sua filosofia interna, ou não é uma questão médica que se coloca no "problema da eutanásia". Enquanto a medicina continuar com uma filosofia de "mecânicos do corpo humano", procuro sempre manter uma distância de segurança do bisturi e do talhante.

Passamos ao problema jurídico, começando por notar que o suicídio já foi proibido, ainda que essa legislação fosse algo ridícula pela sua inaplicabilidade em caso de sucesso. De alguma forma, à sociedade não convém aceitar o seu falhanço... porque a desistência deste mundo, significa que não se dá valor ao mundo a que sociedade dá valor. É uma avaliação negativa da qual a sociedade não pode recorrer.
Nesse sentido, desde religiões a práticas morais, o suicídio sempre foi colocado como um egoísmo, um desrespeito pelos seus entes queridos, etc. Algo especialmente caricato, como se esses não estivessem a ser egoístas, menosprezando o sofrimento alheio.
Mais do que isso, a religião chegou a valorizar o sofrimento, prometendo depois recompensas na "vida eterna"! É claro que esta filosofia do sofrimento, de "o que arde cura", era especialmente indicada para que os "pacientes" aceitassem todo o despotismo sem sequer esboçar um protesto...

Ora, a avaliação que cada indivíduo faz do mundo que o envolve, só piorará se nem sequer desse mundo se poder libertar. Uma coisa é entrar numa câmara de horrores, algo muito diferente é nem sequer poder sair dela. Por isso, a sociedade só piora a sua avaliação, condenando a uma tortura de sobrevivência, quem prefere libertar-se dela. Nem é só uma questão de egocentrismo social, é uma questão de completo autismo, uma prática de tortura medieval, baseada em preconceitos religiosos.

Dito isto, nem médicos, nem ninguém, deve ser obrigado a provocar a morte alheia. Esse passo deve ser tomado pelo próprio, mas com acesso a todos os meios que o permitam fazer sem sofrimento. Quando isso não é possível pelo próprio, simplesmente os médicos, ou outros, devem afastar-se de manter uma vida que não pediu para ser mantida. Vendo-se incapazes de contrariar os acontecimentos, devem deixar correr o processo natural, assegurando apenas o mínimo de dor possível.

Finalmente, do ponto de vista religioso, é absolutamente contraditório que uma divindade boa preconize o mal, mesmo que o sofrimento alheio seja temporário. 
Há sim um ponto importante a ter em conta "quando se vai desta para melhor"... é que nada garante que se vá para "algo melhor", e por isso parece ser boa recomendação que se tolere algum sofrimento. É que a este mundo não estaremos presos para sempre, mas nada garante que tenhamos a faculdade de desaparecer do próximo... e a vida eterna só me parece ser um paraíso para quem se libertou dos infernos que se criam em si mesmo.

No entanto, e como não quero acabar o texto com uma perspectiva assustadora, devo dizer que o propósito de divindades benévolas não é salvar os "bons", deixando os "maus" nos seus infernos... não há nenhumas "salvações" pela metade. As divindades benévolas, se necessário, e quando for tempo disso, descem ao ponto mais baixo dos infernos, e tentam até arrancar daí o belzebú mais retorcido. 
Infelizmente, a Terra teve a capacidade de criar em si demónios tão finórios, que conseguiram iludir a todos, passando afinal por deuses salvadores.