quinta-feira, 12 de julho de 2018

O futuro do passado

Antes de uma pequena ausência de 3 ou 4 semanas, deixo aqui um texto.

Existem moedas ditas "janiformes" que representam o deus Jano, ou Janus, que dá nome a Janeiro, e que tem duas cabeças - uma olhando o passado (cabeça mais nova) e outra olhando o futuro (cabeça mais velha). Simboliza assim a transição entre anos, entre o ano velho e o ano novo, entre o passado e o futuro, e por isso é natural a sua colocação como o primeiro mês do ano novo. 
Na tradição celta, a divindade Lugo era representada por três cabeças, talvez considerando a face voltada a nós, como sendo a face presente.
Moeda janiforme, supostamente da cidade de Tarsus (c. 400 a.C.)

A nossa compreensão habitual leva-nos a considerar que o passado influencia o futuro, e normalmente não há compreensão para a influência no outro sentido...
Por isso, em jeito de tema de férias, deixo à consideração algumas linhas.

Não vou falar do passado que está na nossa memória, mas sim do passado histórico que nos chega através de registos escritos, e conclusões científicas.

Convém lembrar que antes do estabelecimento da Ciência como método válido, as informações ou conclusões acerca do nosso passado resultavam exclusivamente de histórias... na melhor das hipóteses, de documentos ou monumentos históricos. Assim, até ao Séc. XVIII, o passado era basicamente o informado pela fiabilidade desses documentos, sendo tomada a Bíblia como o mais fiável de todos. Foi basicamente o método científico que alterou toda a percepção do passado, indo ao ponto, que até aí seria escandaloso, de contestar a própria Bíblia.

Portanto, o que sabemos do passado depende de forma significativa do futuro. 
Uma evolução científica poderá chegar ao ponto de sabermos exactamente o que ocorreu no passado?
A minha resposta será sim... se a ciência em causa for fidedigna.
O problema é que a credibilidade da comunidade científica, quando se rege por outros interesses, tem tanta, ou até menos validade, que a credibilidade dos mitos, das religiões, e de tantas outras historietas que nos foram sendo impigidas.

Há com efeito dois tipos de Ciência.
- Uma é a Ciência comunitária, que ainda que possa estar cheia de boas intenções, é essencialmente vendida, ou oferecida, como uma crendice igual a tantas outras. Em vez de devermos acreditar nos padres, bispos, etc., devemos acreditar no que dizem os cientistas, mesmo que a população não tenha o mínimo de formação para ser crítica relativamente aos factos, ou pseudo-factos.
- Outra é a Ciência individual, que é algo completamente diferente, e basicamente ausente como disciplina instituída. Ou seja, raramente foi dado ao indivíduo o privilégio de ter acesso facilitado à Ciência, e de poder por si mesmo chegar às mesmas conclusões. Dá muito trabalho, e crê-se ser um desperdício de recursos, tempo, e dinheiro.

A Ciência comunitária continuará a fazer o seu percurso, colocando comunidades dominantes com acesso privilegiado aos recursos. No entanto, irá basear-se sempre numa questão de fé... de fé nos cientistas, nos seus bons intuitos, na sua honestidade, etc. Em suma, irá colocar a fé nalguns homens, sem pecados, moralmente incorruptíveis, agindo para o bem, em nome da humanidade... Claro que, mais tarde ou mais cedo, saberemos onde essa fé vai levar - ao mesmo ponto onde levaram as outras.

A internet permitiu uma difusão do conhecimento sem precedentes, tornando basicamente acessível o conhecimento científico à maioria da população. A falta de maior conhecimento resulta de um misto de desinteresse, ou desmotivação, para coisas complicadas, por parte da maioria dos cidadãos, juntamente com um interesse silencioso em manter as coisas nesse ponto.
Mas a questão não se trata de tornar cada um num cientista de vanguarda, está praticamente na diferença entre acreditar nas imagens da NASA dos satélites de Júpiter, ou pegar num telescópio e vê-los. O problema começa por ser que a esmagadora maioria das pessoas nem tão pouco seria capaz de identificar Júpiter no céu. Mas isso não é apenas um problema da sociedade, é ainda uma disposição do indivíduo em não considerar a actividade como interessante ou relevante.

Sendo claro que a Ciência comunitária evoluirá sempre à frente da Ciência individual, uma não pode anular a outra, sob pena de se colocar toda em risco.

Interessa que as hipóteses alternativas que se colocam em História muito se devem à oclusão, condicionamento de dados e processos, à maioria dos cidadãos. A maioria dos historiadores conformam-se à posição de simples burocratas, que chancelam certos documentos ou teorias como verdadeiras, e outras como falsas, na maioria dos casos "porque sim"... nem sequer se preocupando com a total palhaçada de contradições que apresentam, porque nem têm que ser lógicos, nem sequer têm que ter bom senso. Têm apenas que se conformar à função burocrática instituída.

Aquilo que era considerado como dados indiscutíveis há 500 anos atrás, arregimentava a Bíblia e os seus crentes. Hoje não é considerado Ciência, mas a questão é saber se aquilo que é hoje indiscutível pela Ciência comunitária, não estará também em risco de cair pelos seus pés de barro, sendo claro que a História foi baseada numa geopolítica de interesses locais, circunstanciais, que se foram cimentando como interesses mesquinhos.

Quando a análise histórica é feita com essas lentes distorcidas, é claro que o que vemos são apenas sombras do passado, coloridas em tons cor-de-rosa e negros, dependendo da perspectiva.

Não há dúvida que o futuro, assumindo uma evolução, caminhará no sentido de eliminar todos esses traços difusos e confusos, mas teremos a certeza que serão repostos por traços claros artificiais, pintados por uma Ciência artística, ao estilo da NASA, ou que serão repostos por traços genuínos?
É nesse ponto que será imprescindível a evolução da Ciência individual, livre, para que não fique sujeita à fé em ídolos dourados, agora pintados como "grandes cientistas", que cimentam uma nova religião comunitária.

Tudo isto parece um "wishful thinking", mas é mais que isso.
Todo o avanço científico, uma vez presente, tanto determina o futuro, como também clarifica o passado. É indiferente terem sido bem ou mal classificadas as datações pelo processo do Carbono 14. O que interessa é que a descoberta do decaimento radioactivo condicionou o passado para um nível de certeza, quando antes estava num nível de incerteza. Haveria milhares de possibilidades que seriam possíveis sem essa descoberta, que passaram a ser impossíveis pela descoberta.
O futuro condicionou o passado. 
A cada progresso científico que façamos, mais ficará determinado o passado. 
Chegará ao ponto em que as ouviremos as paredes falar, contar histórias que se julgavam para sempre confinadas, e perdidas no tempo. Será inútil caminhar no outro sentido, a menos que se pretenda deixar a pegada no local do crime.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

As moedas de Cartago e de Cirene encontradas na ilha do Corvo em 1749

Há mais de um mês, MBP deixou aqui num comentário um link para o seguinte artigo:


referindo, bem, a dificuldade de reportar que o DNA encontrado apontava para uma ligação directa a Portugal. Não deixam de ser antecessores europeus, ou ibéricos, mas o autor do estudo dizia a certa altura:
"most closely matches that of the sequence of a particular modern day individual from Portugal".

Como fenícios e cartagineses andaram pela península ibérica, tal não seria propriamente uma grande novidade, mas é complicado porque se tratava da primeira análise completa do haplogrupo mitocondrial (... first complete mitochondrial genome of a 2500-year-old Phoenician dubbed the "Young Man of Byrsa"). Portanto dir-se-ia que foi azar... até porque por volta de 500 a.C. não é conhecida grande presença cartaginesa, ou fenícia, que se concentrou posteriormente (uns 3 séculos depois) pela região de Cadiz, e na região do Algarve e Alentejo. 

No entanto, se atendermos ao que dizia Bernardo de Brito, havia grande colaboração entre os habitantes da península ibérica e os fenícios, ao ponto dos ibéricos terem ido ajudar nos cercos da cidade de Tiro, quer por Nabucodonosor, quer por Alexandre Magno.

Dado o material encontrado, será de considerar um pouco mais que isso... e pensar que as cidades fenícias, ou mesmo cartaginesas ou cirenaicas, fossem cidades fundadas, ou largamente participadas, por uma comunidade ibérica. Afinal a posição da cidade de Cadiz seria muito mais estratégica no controlo da navegação no Mediterrâneo, do que as cidades fenícias, que pouco mais seriam que praças-forte no meio de território "inimigo", dada a pressão constante que sofriam por mesopotâmicos, egípcios, ou hititas.

Acresce a isto a estranha descoberta de moedas que terá ocorrido em 1749 na ilha do Corvo, que é descrita da seguinte forma (cf. Moedas fenícias no Corvo - Enciclopedia Açores XXI):
Em 1761, o numismata suéco Johann Frans Podolyn relata o seguinte: "No mês de Novembro de 1749, após alguns dias de ventos tempestuosos de oeste, que puseram a descoberto parte dos alicerces de um edifício em ruínas na costa da Ilha do Corvo, apareceu uma vasilha de barro negro, quebrada que continha um grande número de moedas, as quais, juntamente com a vasilha, foram levadas a um convento" [ seria o Convento de São Boaventura, em Santa Cruz das Flores? ], "onde as moedas foram repartidas por pessoas curiosas residentes na ilha. Algumas dessas moedas foram enviadas para Lisboa e dali mais tarde remetidas ao padre Enrique Flórez, em Madrid. O número de moedas contidas na vasilha não se conhece e nem quantas foram mandadas de Lisboa, mas a Madrid chegaram 9 (nove) moedas. ... O padre Flórez fez-me presente destas moedas quando estive em Madrid em 1761, e disse-me que no todo do achado havia apenas moedas destas nove variedades." (Achados Arqueológicos nos Açores, José Agostinho, em Açoreana, Vol. 4, fasc. 1, 1946, pág. 101-2 - O padre Enrique Flórez de Setién y Huidobro, (1701-1773), foi um conhecido historiador e numismata espanhol que pertenceu em vida à Ordem de Santo Agostinho.)
Num artigo da APIA encontra-se a seguinte imagem dessas moedas: 
:

Notamos que as imagens condizem com o tipo de moedas cartaginesas, algumas evidenciando um cavalo, conforme uma que aqui já tinhamos colocado. As moedas também seriam de Cirene (ou Curana), uma cidade grega perto de Tripoli na Líbia.
Xéquel de Cartago com um cavalo.

Já tinhamos falado da estátua equestre do "Cavaleiro do Corvo", e tendo ontem abordado o tema Mustang (sobre os cavalos americanos), surge à interrogação a razão do uso do cavalo como símbolo, por parte dos fenícios ou cartagineses. Aliás, se Aníbal ficou conhecido na História, foi por conduzir um exército com uma forte componente de elefantes, através dos Alpes, até Roma.
Parece um pouco estranho que um povo, conhecido especialmente pela sua capacidade naval, usasse o cavalo como símbolo. No caso de Cartago, dada a ligação que Virgílio estabeleceu entre Eneias e Dido, poderia referir esse elo perdido com Tróia? 

Por outro lado, haveria a possibilidade real dos fenícios ou cartagineses terem efectuado viagens transatlânticas, a que Humboldt deu especial crédito, tendo reconhecido os achados na ilha do Corvo - a estátua e as moedas. Ora, conforme mencionámos no texto sobre o Mustang, não é de excluir uma possibilidade comercial fenícia de importação de superiores raças de cavalos, que as velas e o vento Zéfiro permitiam ligar à América.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nebulosidades auditivas (62)

Porque todos os outros têm ouvidos a menos. (António Sérgio, Som da Frente, Rádio Comercial)

Faleceu hoje Ricardo Camacho, um dos principais elementos dos Sétima Legião, e produtor de vários outros projectos (António Variações, Xutos e Pontapés, etc.)

No princípio dos anos 80, quando começavam a aparecer as bandas rock nacionais em catadupa, os Sétima Legião foram o principal projecto alternativo, com uma sonoridade claramente influenciada pelos Joy Division / New Order, mas indo também buscar influências tradicionais - neste tema a gaita de foles e o bombo. Essas influências tradicionais seriam depois exploradas pelos Madredeus, que alcançaram um significativo sucesso internacional.

"Pois que Deus assim o quis" - Sétima Legião - do álbum "A um deus desconhecido".
(concerto 30 anos - 2012, Coliseu de Lisboa)

Talvez porque o ponto fraco dos Sétima Legião fosse o vocalista (um caso em que usar a palavra cantor seria um manifesto exagero), Ricardo Camacho apontou como favorito este tema instrumental.
Logo a seguir, podemos ver Ricardo Camacho dedicar o tema "Glória" a António Sérgio, falecido uns anos antes. Para benefício do ouvinte, fica a voz em versão de estúdio.

Glória - Sétima Legião - A um deus desconhecido (1982)
A morte não te há-de matar, nem sorte haverá de eu viver, sem amar sem te ter, sem saber se rezar
Amor oxalá seja amar, ter prazer sem poder nem sequer te tocar
Os deuses não te hão-de levar, sem que eu der a mão p'ra ser par, sermos dois a partir, e depois a voltar
Não vais-me deixar sem o céu, ser o chão onde vão se deitar os mortais
E a Glória será não esquecer, memória de tanto te querer, sem razão meu amor, com paixão sem morrer
Talvez ao luar, possas ver o olhar, que lembrar fez nascer Português

domingo, 24 de junho de 2018

Anais de Contige - a senhora dos anéis

Numa altura em que começam os incêndios e se fala sempre da desmesurada proliferação do eucalipto em Portugal, raramente se fala do eucalipto de Contige:

O eucalipto de Contige (imagem em Ruralea.pt)

O eucalipto de Contige é famoso pela sua desproporcionada dimensão, especialmente pelos 12 metros em perímetro, junto ao solo, já que em altura terá "apenas" 43 metros.

A pergunta surge naturalmente... que idade terá uma árvore com aquela dimensão?
É aqui que as coisas se tornam engraçadas!

Segundo a historieta que li em vários lados, aqui ou em wikipedia - Contige, a árvore teria existência na altura de um casamento de famílias locais no século XIX. Diz-se ainda “aquando da construção da estrada, e da expropriação do terreno, a monumentalidade deste exemplar terá contribuído para a sua salvaguarda, não tendo por isso sido cortada”.

Porém, ao mesmo tempo, como se as duas coisas não fossem contraditórias, diz-se também:
Localizado à beira da antiga EN 229, no cruzamento da estrada municipal que liga ao centro de Contige, esta árvore, cuja plantação remonta, segundo aquela universidade [de Aveiro], “provavelmente, a 1878, quando se abriu a Estrada das Donárias, é um dos maiores eucaliptos classificados até ao momento em Portugal” sendo mesmo “recordista com 11 m de perímetro à altura do peito”.
O artigo termina referindo que a Universidade de Aveiro dá 139 anos, e o ICNF dá 126 anos.

Não se nota nada de estranho? 
Releiam-se as citações que coloquei.
Por um lado "a monumentalidade do exemplar" evitou que fosse cortada aquando da inauguração da estrada, por outro lado "a sua plantação remonta a 1878,  abertura da Estrada das Donárias".

Em que ficamos, já existia e era monumental em 1878, ou foi plantada em 1878?
Com erros deste tipo, chumbava muita gente em provas de leitura da 4ª classe... porém é perfeitamente aceitável que os peritos da Universidade de Aveiro, ou do ICNF, achem que esta datação é a única admissível.

O problema é que se a árvore já fosse grande em 1878, e tivesse digamos 100 anos, nessa altura, isso remeteria a plantação para 1778... e nessa altura a Austrália tinha acabado de ser descoberta, e ainda não havia oficialmente eucaliptos na Europa (cuja plantação começou aí após 1820).

Então que idade tem a árvore?
Bom, se estivéssemos noutra época, as coisas seriam bastante mais complicadas, eu teria que ir pedir a agrónomos que me dessem uma estimativa do crescimento dos eucaliptos, etc, etc. Iriam enredar-me numa retórica bacoca, e só serviria para me chatear - e isto acontece com amigos ou não.
Nos dias que correm, porém, não demora mais do que ser persistente.

O eucalipto de Contige terá entre 340 e 370 anos.
Pois, é um senhor problema para a historiografia nacional e mundial.

O que se terá passado?
Bom, provavelmente após a restauração da independência, em 1640, os portugueses voltaram à Austrália, numa altura em que por lá andavam também os holandeses, a fazer de conta que só exploravam o lado ocidental, e deixando o lado oriental intocável. 
No entanto, por essa altura, em 1642, Abel Tasman declarou a Tasmânia, ilha a sul da Austrália, que ficou com o seu nome. Terminaram as explorações por mais 120 anos, onde se fez de conta que a Austrália não existia, até Cook e Sandwich trazerem esses pratos para cima da mesa. 

A espécie do eucalipto de Contige parece-me ser a nativa da Tasmânia, a tal ilha descoberta há 376 anos. Assim, poderíamos pensar que algum senhor de Contige embarcou com Abel Tasman, e trouxe uma semente que plantou na sua terra natal. Porém, não me parece que tenha sido isso. Simplesmente, os portugueses iam com alguma frequência a Timor, e à Austrália, e não deixaram de trazer eucaliptos. Esses eucaliptos não eram autorizados ser plantados, mas creio que terá havido excepções, que passaram ao lado dos oficiais responsáveis, e os eucaliptos crescem bem.

O problema só terá sido detectado em 1878, quando a árvore já teria uns 7 a 8 metros de perímetro, ou seja, já era um belo colosso, e ainda que a Junta das Estradas tivesse pensado em eliminar o mal pela raiz, fazendo passar a estrada a direito contra a árvore, a resistência da população ao corte terá obrigado a fazer um "S" na estrada, evitando o seu corte.

Como saber a datação do eucalipto sem fazer uma extracção dos seus anéis?
Acontece que o crescimento dos anéis tem uma média, que não muda muito, e andei à procura de saber qual seria o quociente no caso do eucalipto, até que encontrei uma página simples, feita à medida do interessado, escrita por Teo Spangler:
onde ela refere um processo simplificado - e naturalmente sujeito a erros - que consiste em determinar o diâmetro do tronco da árvore à altura do peito (DBH- diameter at breast height). Curiosamente, usando centímetros, isso dá logo uma estimativa da idade:
For a rough estimate, use the diameter of the tree's trunk in centimeters. The number is an approximation of the years the tree has been alive. For example, a eucalyptus with a diameter of 30 centimeters at breast height is approximately 30 years old.
Se usarmos, o perímetro de 11 metros, isso dá 350 cm de diâmetro, e portanto 350 anos de idade, como estimativa grosseira. 
Claro que o céptico militante, preferirá acreditar na história do ICNF ou da Univ. Aveiro, porque não exige pensar, exige apenas acreditar nos "peritos". E na dúvida, aceita ser enrolado uma e outra vez, descansando no conforto de pertencer à opinião autorizada da maioria instituída.
Por uma questão higiénica, e por respeito ao ensino primário, deixo uma versão alternativa.
Só por curiosidade final, faço notar que de acordo com Teo Spangler (que se baseou em estudos universitários documentados), para uma idade de 130 anos, o diâmetro da árvore deveria ser 1 metro e 30 cm, e o seu perímetro 4 metros (e não 11). Mas o que interessa isso para o ICNF?

Especialmente, espero que a árvore, que está nos anais de Contige nunca precise de ver cortados os anéis. Porque alguém - propositadamente ou não, deixou essa prova da presença portuguesa na Austrália, e quem quiser ver vê, quem não quiser, basta-lhe continuar a fechar os olhos.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Costumes em brandos lumes

Muito cedo, na adolescência, cheguei à conclusão que a única forma de ser livre nesta choldra, era desenvolver capacidades individuais de completa autonomia. Em termos simplificados, se o mundo me tentasse lixar, eu teria a capacidade de lixar o mundo, de forma equivalente. 
Digamos, uma forma equilibrada de justiça... 

O que eu sabia, é que seria incomportável viver num mundo injusto, sem ter possibilidade de retaliar a injustiças. Também antevia que a sociedade me iria apanhar na sua rede confortável, e ficaria igual a todos os outros, presos na apatia da sua impotência individual. Só que antevia que essa impotência me iria destruir por dentro... bom, e não será fácil para ninguém viver com ela.

Este texto é assim dedicado a todos os vis vermes que (tal como eu) acabam por fechar os olhos às injustiças em seu redor.

Outdoor - grafitti - sobre a prisão de Maria de Lurdes

Há coisa de ano e meio escrevi este texto:
... sobre a notícia de uma investigadora - Maria de Lurdes - que tinha sido condenada a 3 anos de prisão efectiva, por difamação da justiça.

Começo por notar que a Google tem o condão de ignorar este post, mesmo na busca lateral reduzida a este blog. É admirável essa particularidade de reconhecer que o título do post está no Índice, mas não conseguir encontrar a página...

Agora que passa um ano e meio, metade da pena cumprida, os advogados de Maria de Lurdes tentaram o pedido de liberdade condicional... e foi indeferido. É assim provável que Maria de Lurdes tenha que ficar os 3 anos presa, sujeita aos mimos inerentes (consta ter sido já espancada pelas companheiras). 

A TVI foi praticamente a única televisão, e o Correio da Manhã o único jornal, a reportarem o caso.
No programa Governo Sombra, de 16/10/2016, Ricardo Araújo Pereira e Carlos Vaz Marques, ao minuto 47:30, diziam o seguinte:

CVM: Porque é que o Ricardo Araújo Pereira se declara caladinho? Está em blackout?
RAP: Não estou em blackout, mas há quem esteja... do ponto de vista da liberdade de expressão, e devo dizer que esta questão é excelente. Porque o Estado Português aqui não pode ser condenado, como já foi 3 vezes este ano pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, porque a senhora já deixou prescrever esse prazo. Portanto, o estado português não vai poder ser punido. O que acontece é o seguinte...
CM: Quer contar o caso de uma senhora condenada a 3 anos de cadeia efectiva...
RAP: Exacto... Três anos de prisão efectiva.
CM: Vai mesmo para a pildra!
RAP: Já está, já está na cadeia.
CM: ... por ter chamado nomes feios ao ex-ministro Manuel Maria Carrilho
RAP: Não, não, por ter posto Manuel Maria Carrilho em tribunal, e ter perdido esse processo, e ter injuriado representantes da justiça, e tal...
Por injúrias, esta senhora tem 3 anos de prisão efectiva.
Eu gostava de recordar que em 2013 há um jovem que violou na ciclovia da Póvoa uma senhora. Levou 3 anos e meio de prisão efectiva. Ah! E o tribunal disse que ele tinha agido com bastante intensidade dolosa. Portanto, violação, 3 anos e meio. Mandar umas bocas a umas pessoas do tribunal, 3 anos. Acho que é mesmo assim. Bravo! Sou favorável a esta sentença.

Num outro programa de Fátima Lopes, "A tarde é sua", assistimos ao diálogo com o advogado Pedro Proença, bem mais veemente, e menos jocoso:

FL: Não há nada que ainda possa fazer... nenhum recurso?
PP: Agora esta senhora, infelizmente, está nas mãos do sistema prisional, e terá que ser o sistema prisional a dizer a um juiz de execução de penas que esta senhora, cumprido que esteja, meio da pena, ou dois terços da pena...
FL: ... se se porta bem!
PP: Se se porta bem, pode sair em precárias, ou em liberdade condicional. 
Não há volta a dar a isto. 
Esta senhora não quis ser considerada louca, com toda a legitimidade. 
Resposta: foi presa! Foi presa.
Eu volto a dizer, eu como cidadão, neste país, sinto-me profundamente preocupado.
Porque infelizmente, isto é um sinal claro, Fátima... de que quem ousa neste país, tentar lutar pelos seus direitos e manifestar indignação, relativamente a coisas que estão mal neste país... 
Quem ousa enfrentar os poderes instituídos é cilindrado, é cilindrado! E isto é um convite claro a uma cidadania passiva.
Querem, desculpem a expressão, que nós todos sejamos carneirinhos?!

Na RTP ou SIC nem sequer foi dado como notícia, nem em qualquer outro jornal sem ser o Correio da Manhã. Ainda passei por um grupo do Facebook:


que é praticamente o único que mantém notícias sobre o assunto. Em tudo o resto, caiu no absoluto silêncio desde Novembro de 2016, mesmo recolhidas 10 mil assinaturas, o dobro do necessário para levar o assunto ao parlamento nacional.

Excepção feita ao inimitável José Manuel Coelho, ele próprio, mesmo sendo deputado, com acusações contra si de difamação, e que não deixou de levar o assunto para o parlamento da Madeira:

Na imagem, exibindo a figura da presidiária Maria de Lurdes.

A figura do poder judicial deve ser ridicularizada pelo povo, pois nada tem de libertário, e é o último garante do exercício do poder absoluto por uma elite organizada, um gang, que detém esse poder.
Claro que tem o aspecto de justiça vulgar, e como tal dá uma ideia de justiça... ao condenar criminosos, ao arbitrar conflitos, etc... 

No entanto, na prática, não há nenhum regulador para o exercício da justiça, que se transforma no último garante do despotismo irracional. Claro que podemos ver o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, a condenar o Estado em avultadas verbas, por erros judiciais, como aconteceu recentemente no escândalo da Casa Pia... e será ainda pior, se esse tribunal der razão a Carlos Cruz. 
Mas não é por uma instância superior funcionar melhor, que todos os prejuízos das instâncias inferiores se corrigem. 
Na realidade, toda a panóplia de recursos foi justamente inventada para que houvesse sempre possibilidade de escape para uma elite, que age como inimputável. Inimputável porque nunca lhe é imputada nenhuma pena, e inimputável porque assume a sua mentalidade infantil.

O papel do juiz, no sistema judicial, chega a ser risível, porque na maioria dos casos limita-se a decidir sobre a qual de duas partes dá razão. Não interessa se há argumentos inconstitucionais, não interessa se há direitos ou deveres ignorados - se os advogados não os colocam, não existem, não são considerados. 

Quando a maçonaria ascendeu ao poder, trazia uma judiaria consigo, o engodo judicial.
Nem sequer é de estranhar a raiz do nome ser a mesma.
Aparentemente, todos se sujeitavam à mesma lei, e todos eram iguais perante ela... exceptuando as excepções, que, é claro, passaram a ser regra.
Graças aos estratagemas de recursos sucessivos, só por muito azar uma decisão inconveniente iria chegar ao topo sem passar por um grupo muito restrito de magistrados.
O magistério sempre ficou maior que o ministério, porque o ministro era impedido de fazer o que os magistrados declarassem ilegal.

É por isso que, passado um ano sobre os primeiros incêndios de 2017, tudo está na mesma... porque o poder não mudou. Tudo está diferente, porque não tendo mudado, sabe que não poderá agir da mesma forma, sob pena de abusar do caos que traz consigo.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Desafinações visuais (4) - Avatar, Surrogates

Surrogates (os "Substitutos") e Avatar são ambos filmes do final de 2009, abordando praticamente o mesmo assunto, mas em histórias razoavelmente distintas. O primeiro é um filme da Disney, o segundo um filme de James Cameron.

Em Portugal, sendo um lançado no final de Outubro e o outro em Dezembro (de 2009), ao contrário de uma espampanante publicidade de Avatar, o filme Surrogates teve praticamente publicidade nula, e eu só dei conta da sua existência passados alguns anos.
Para não variar, Avatar é considerado como mais um filme referência de Cameron, e o outro teve críticas normalmente severas. Felizmente, e de um modo geral, as pessoas habituaram-se a ligar pouco mais do que nada à opinião dos críticos, mas dificilmente podem ver filmes que não sabem estar em cena, já para não falar da esmagadora maioria da produção, que nem sequer chega ao circuito de distribuição.

Ambos os filmes tratam de avatares, ou substitutos...
A grande diferença é que Surrogates tem uma ideia perigosa, e Avatar tem uma ideia trivial.
Por isso, seria natural evitar falar em Surrogates.

Os substitutos em Surrogates representam uma efectiva possibilidade de evolução da sociedade, que poderá pretender-se ser acessível apenas a uma elite. Actualmente, o que temos é ainda o plano de uma vida "real", mas que já entra online para assumir vivências alternativas (por exemplo, o execrável Second Life, ou outros jogos MMPORPG).
No filme, as coisas invertiam-se... os robots passavam a interagir na realidade, e todas as pessoas que os controlavam estavam reguardadas em quartos, praticamente sem contacto entre si, a não ser através dos robots substitutos, avatares de si mesmos.
Surrogates ("Os substitutos") 2009 - trailer

Avatar é uma história cor-de-rosa, com grandes efeitos especiais, onde um soldado paraplégico tem oportunidade de se tornar num salvador de um mundo de ficção, e é pouco mais que isso.

Avatar - 2009 - trailer

Enquanto os robots existentes autonomamente pouco mais conseguem do que caminhar atabalhoadamente, é muito mais possível termos um controlo efectivo e surpreendente em máquinas de qualquer dimensão. Ou seja, tal como hoje temos drones a substituir aviões de combate, não é difícil pensar em soldados de aço, quase indestrutíveis, a serem comandados à distância, sem o perigo da presença em combate. Será como pensar num Iron Man, mas obviamente sem a necessidade de estar alguém dentro do fato, podendo estar a milhares de quilómetros na segurança de um bunker. É claro, não falamos de um ou dois, falamos de muitos milhares de combatentes destes, que tornam qualquer combate contra humanos, num simples extermínio.

É por isso que a ideia de Surrogates é perigosa...
Ninguém espera cruzar-se na rua com autómatos indestrutíveis, comandados à distância sabe-se lá por quem... Sendo praticamente indestrutíveis, tornariam ridículas quaisquer tentativas policiais de os deterem. Ninguém espera acordar para um tipo de terrorismo, que seria verdadeiramente terrorismo, caso os detentores dessa tecnologia estivessem em parte incerta, inacessíveis.
A situação já é bastante incómoda com os drones brinquedos, que têm a vantagem de terem uma bateria de longevidade reduzida, e são guiados com alcance de curta distância. No entanto, basta pensar que a bateria passava a durar horas, e que o alcance de controlo passava a ser possível a quilómetros, para podermos ter drones brincalhões a entrar sorrateiramente em cerimónias oficiais. E isto é suficientemente incómodo, sem pensar que poderiam trazer bombas, ou outro material menos inofensivo.
O futuro está aí, e não é por não se falar do assunto, que ele desaparece... resta o conforto de se pensar que quem quis ter responsabilidade de coordenar os destinos da humanidade, sabe o que está a fazer, e se contenta em bisbilhotar a nossa privacidade para evitar males maiores.

Finalmente, convém notar que esta posição de controlo à distância sobre avatares é a mesma que nós temos sobre o nosso corpo, sendo ele próprio visto como um avatar.


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Nebulosidades auditivas (61)

Acontece, mais frequentemente do que seria expectável... apagam-se as luzes dos candeeiros da rua quando passam os transeuntes.
Não é caso de um candeeiro particular, nem de nenhuma cidade em particular. 
Acontece tanto, que a pessoa pode ser levada a pensar que tem alguma interferência com o sistema, ou até que alguém está a gozar consigo. Há quem não ligue, ou nem se aperceba do assunto, mas o fenómeno está espalhado, conforme podemos ver neste artigo (e comentários a ele):

IO9 - por Esther Inglis Arkell

ou ainda, neste vídeo. A explicação que encontramos no artigo, é totalmente insuficiente, aplicável talvez num ou noutro caso. Não se tratam de lâmpadas de sódio que estão em fim de vida, e começam a falhar intermitentemente, por vezes estão mesmo associadas ao simples passar do transeunte, ou não estão associadas a coisa nenhuma. Aliás, sempre me lembro de haver um ou outro candeeiro onde isto ocorria. A razão pela qual se mantem este tipo de lâmpadas de sódio, e não se passa para LED, como todos somos aconselhados a fazer em nossas casas... com tanta preocupação energética, pois é uma outra incógnita interessante, espalhada pelo mundo!

Durante vários anos, o candeeiro do lado esquerdo da minha casa, tinha a candura de apagar quase sempre que eu chegava à varanda, depois voltava a acender, apagando de novo, etc... depois o da rua nas traseiras começou a fazer a mesma coisa. Creio que no final do ano passado isso acabou, até que neste mês começou a falhar o da frente do lado direito. Enquanto escrevia isto, apagou várias vezes, enquanto ia à varanda fumar. Houve outro no início da rua, que se apagava quando alguém passava, mas depois ficou bom! Noutra cidade, onde costumo passar fins-de-semana, o mesmo tipo de ocorrência com um candeeiro em frente, e com dois na praça ao lado. A minha mulher faz o esforço de não achar nada disto estranho.
Uma outra ocorrência bizarra - nunca me lembro de ver tantas gaivotas em certas cidades - não costeiras, quanto aconteceu nos últimos anos. Aliás, antes havia o ditado "gaivotas em terra, tempestade no mar"... Perguntei sobre isto, e disseram-me que era devido às lixeiras (... como se não existissem lixeiras antes)! 
Bom, mas o que é certo é que as gaivotas já disputavam o território com os pombos, e menos polidas que estes roubavam comida das esplanadas de forma espalhafatosa. Uma gaivota pousava sistematicamente em cima do candeeiro do lado esquerdo. Quando deixava o carro por baixo, tinha um presente. Numa outra casa, a quase 10 Km da costa, pousavam no telhado, e não havia noite que não ouvisse o seu constante grasnar. Agora, subitamente, de um ano para o outro, ou foram todas exterminadas, ou acabou a tempestade no mar... porque já não as vejo.

Do tempo em que as coisas começaram a ficar estranhas, ou em que passei a dar outra atenção à sua estranheza, fica uma canção dos Keane:

Keane (2009) Everybody's Changing

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Berlenga - VAR e BAR

Num comentário de MBP, surgiu a indicação para um texto sobre a etimologia da Berlenga, publicado por António Augusto Batalha Gouveia, em 1975, no jornal "A Voz do Mar", numa rúbrica intitulada  a "História esquecida das palavras", dedicado à origem do topónimo "Berlenga":


Como a transcrição do texto do jornal está com inúmeros erros, que comprometem seriamente a leitura, que é aliás uma leitura interessante, deixo aqui o texto já corrigido.
Após isso incluo alguns comentários sobre este assunto, nomeadamente sobre a existência do forte, ou palácio, das Berlengas ao tempo de D. Afonso Henriques, e ainda sobre "BAR", uma sílaba de prefixo, que deve ser ligada a "VAR" (... mas não enquanto abreviatura de videoárbitro!)

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BERLENGA

O escrivão da esquadra flamenga e saxónica dos cruzados que auxiliaram D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa aos mouros, Osberno ou Osborne, descreve nestes termos a chegada dos navios a Peniche vindos do Porto (1143):
«No dia seguinte aportámos com felicidade à ilha de Peniche, distante do continente oitocentos passos. Abunda esta ilha em veados e coelhos; também se encontra nela a planta do alcaçuz. Os tírios chamaram-na Eritreia e os cartagineses Gadir, que quer dizer «sebe», porque para além dela já não há mais terra; por isso se diz o extremo limite do mundo conhecido. Junto dela há ainda duas ilhas a qual o vulgo chama Berlengas, corrupção de Baleares, e numa delas existe um palácio de maravilhosa arquitectura com muitos alojamentos de arrecadação, o qual, segundo dizem, serviu outrora de agradabilíssimo retiro particular de certo rei.» 
Admitindo a existência de um ou outro leitor de «A Voz do Mar» interessado nestes assuntos vou, tão resumidamente quanto o permite a clareza, proceder à investigação etimológica dos nomes atrás transcritos começando pelo nesónimo Berlenga.

A procura dos étimos dos nomes não pode deixar de tomar em consideração os doutos princípios enunciados pelo reputado etimologista francês Turgot, os quais se podem sintetizar nestas três alíneas:
a) Procurar o étimo na língua indígena a fim de se adquirir o conhecimento da derivação.
b) Reencontrar a raiz achada através do derivado produzido pela alteração fonética;
c) Reencontrar o sentido determinado pelas mudanças semânticas.

Deste modo, e através de raciocínios apoiados em dados linguísticos bem determinados, chegar-se-á ao reconhecimento dos «fósseis» linguísticos e sua significação.

Ao falar dos antigos habitantes de Peniche o cruzado Osborne refere apenas dois povos, aliás, originários da mesma etnia: os tírios e os cartagineses ou, como também são conhecidos, os fenícios e os púnicos.

Na realidade, os exames antropométricos realizados em naturais de Peniche corroboram aquela informação porquanto neles foram detectadas características somáticas afins daqueles antigos povos (General João de Almeida, Relação das Estações Arqueológicas do Continente). É pois baseado na área linguística a que tais povos pertenciam que irei pesquisar o nesónimo Berlenga que o supracitado escrivão diz, equivocadamente, ser corrupção do nome Baleares.

O nome Berlenga aglutina os dois elementos lexicais aramaico-cananeus Bar e Laha significativos, respectivamente, de «filho» e «deus». Anotarei, por mera curiosidade, que o país a que se dá hoje o nome de Síria era outrora conhecido por Túria, Tyria e Tíria e daí o chamar-se indiferentemente sírio ou tírio ao povo que habitava a estreita faixa de terra situada entre os contrafortes do Anti-Líbano e o litoral mediterrânico.

Síria ou Túria (literalmente «terra dos touros ou dos deuses») era pois aquele pequeno país cuja principal cidade, Turo, Tyro ou Tiro, deu o nome à região. Tiro, à semelhança de Peniche, era igualmente uma ilha fortificada.

Alinharei seguidamente algumas considerações relativas aos supracitados temas Bar e Laha. Na obra, a todos os títulos notável de Adolphe Lods, Israel, das Origens até Meados do Século VII a.C., pág. 316, aquele autor refere alguns teónimos dos panteões fenício-palestinianos onde entra o elemento Bar: Baraté (filho da deusa Até), Bargôs (filho de Qôs), Bardesdn (filho do deus do rio Daisdn) e, repare-se, Barlaha (filho de Deus).

A voz bar apresenta-se saturada de significação religiosa por remontar a sua origem lexical àquela fase cultural em que o homem concebeu as águas marinhas como a fonte de todas as formas de vida inclusivé a própria. Para os arameus a palavra bar enterrava o conceito de «filho primogénito», tendo os árabes perpetuado no seu léxico amesina palavra (grafada bahr) como denominação do mar.

Os antigos cretenses ornamentavam a sua olaria com diversos motivos marinhos dentro os quais sobressaía o polvo. Porque este molusco como decoração dos vasos sagrados utilizados nas libações às divindades? Porque o polvo representava para aquele indómito povo, que antes de qualquer outro dominou o Mediterrâneo, o primogénito divino, isto é, o «filho», (bar) da «água» (Nu ou Na em egípcio).

Foi da junção das vozes bar e na que se formou o basco barna e o latim e português perna. A dicção polvo vem, como se sabe, do grego polypous que naquela língua queria dizer «de muitos pés». Este ser marinho, por ter oito pernas foi pelos gregos chamado oktôpous (oito pés), nome que transitou para o inglês sob a grafia octopus.

Segundo Philon de Biblos, Bahturo, Baeturo ou Baetulos era um dos grandes deuses fenicios, «filho do Céu e da Terra, irmão de El, de Dagon e de Atlas. Ora é deste nome Baeturo ou Baetulos que derivou o grego Bartolomaios - literalmente, «filho» (bar) do «deus» (turo) «grande» (de maios) — donde o actual antropónimo português Bartolomeu.

Na escultura e pintura religiosa do Antigo Egipto as divindades apresentam-se, por vezes, sentadas com as pernas cruzadas. Acontece que em grego os senhores ou deuses do Olimpo eram chamados Kurios, palavra entrada no latim para denominar, quer a «perna» (crus) quer a «cruz» (crux) que com ela se fazia.

No próximo artigo irei investigar o tema Laha que, como acima disse, é o nome árabe de «deus».


BATALHA GOUVEIA
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_____________________________________________________ (imagens do artigo)


O Forte de S. João Baptista, em Berlenga (etimologia)

Forte ou Palácio das Berlengas?
Segundo a descrição citada de Osborne, já existia na Berlenga "um palácio de maravilhosa arquitectura com muitos alojamentos de arrecadação", e esta descrição antecede em quase 400 anos, a possível instalação de monges jerónimos, feita em 1513, com o auxílio da Rainha D. Leonor, no reinado do seu irmão, D. Manuel.

Uma adaptação para forte foi feita no decurso da Guerra da Restauração, por D. João IV, onde serviu uma resistência heróica de 30 soldados, comandados pelo cabo Avelar Pessoa, na Batalha das Berlengas em 1666, contra uma numerosa força invasora espanhola.

Ainda no reinado de D. Sebastião foi edificado ou terminado o Forte de Peniche.
Ora, as típicas guaritas de soldados estão presentes no Forte de Peniche, assim como estão na Torre de Belém, e em praticamente todas as fortalezas portuguesas da época, do Séc. XVI ao XVIII.
Onde estão essas guaritas no Forte das Berlengas?

O que se vemos, sim, são múltiplas janelas, talvez indicando "muitos alojamentos de arrecadação", e vemos uma estrutura arquitectónica que não se assemelha a mais nada que se veja em Portugal, ou até mesmo fora de Portugal.
Não se questiona que o forte tenha sido parcialmente destruído, e reconstruído, mas aparenta ter sido sempre preservada alguma traça original.

Essa traça original leva-nos para ambientes mediterrânicos, talvez de origem árabe, talvez ainda mais remotamente, de origem fenícia ou púnica. Nota-se ainda, bem marcada, uma linha horizontal, à mesma altura em toda a fortaleza, e se fosse uma possível altura máxima de água, estamos a falar de perto de 8 metros de diferença. No entanto, o mais natural é ter sido construída com uma altura de água semelhante à de hoje, e convém dizer-se, que é uma construção notável.

Seja como for, dando crédito ao cruzado inglês, conforme é dado, então existiu ali um "Palácio das Berlengas", durante a presença árabe, e talvez mesmo muito antes disso, podendo ter origem púnica, ou mesmo nacional, na primitiva Lusitânia dos Turdúlos.

BAR ou VAR?
Há uns anos atrás, num comentário, e num texto "Aletheia" deixei comentários sobre o prefixo "bar", que significa "filho", conforme é mencionado por Batalha Gouveia. Parece-me estranho que Batalha Gouveia, nos múltiplos exemplos que deu para o prefixo "bar", não tenha invocado "barão", ou mesmo "varão", que significa o primogénito masculino... e dispenso repetir os argumentos, mas acrescento que o "varão" era o primeiro de "vários", e a "vara" era um cajado para conduzir a "vara", que não sendo porcos, numa versão menos antropófaga, seria de carneiros (como vara de Aarão). O mesmo pode ser dito para um "barão" à frente da "barra", notando ainda que o primeiro homem era natural ser filho, ser "bar", ser "barro".

Concordando com o etimologista em várias menções, como a semelhança entre Síria e Túria (e recordando aqui como a "Atouguia" poderá vir da "A Touria"), não sigo a sua derivação de Berlenga da forma "Bar-laha", preferindo manter as razões que invoquei na etimologia sobre a Berlenga.

domingo, 6 de maio de 2018

Nebulosidades auditivas (60)

O filho de Afrodite é Eros, mais conhecido por Cupido, enquanto filho de Vénus, na vertente romana.
Aphrodite's Child foi o nome da banda de Vangelis e Demis Roussos, que faria um considerável sucesso entre 1968 e 1972. Esse nome foi escolhido pelo representante da Mercury Records, e a ligação entre Mercúrio e Vénus, é próxima... ainda que Mercúrio ou Hermes, tenham maternidade em Maia (na vertente romana ou grega).

Com a Grécia mergulhada na Ditadura dos Coronéis, em 1967, a caminho de Londres, Vangelis (Evangelis) e Demis (Artemios) ficaram retidos em Paris, apanhados pelo Maio de 1968, de que se comemoram agora 50 anos.
O seu primeiro sucesso, "Rain and Tears" (uma adaptação de um tema barroco do Séc. XVII do compositor alemão Pachelbel), tornou-se um sucesso ligado aos protestos de 1968, segundo Demis Roussos, porque "rain and tears" lembrava aos jovens o gás lacrimogéneo usado pela polícia.

Aphrodite's Child - Rain and Tears (1968)

Face à figura magra que aparece no vídeo, pode não ser fácil reconhecer Demis Roussos, sendo mais volumosa a presença de Vangelis no teclado (de óculos escuros).
Ambos tiveram um sucesso enorme. Especialmente Vangelis, já que Demis Roussos, tendo um sucesso estrondoso na sua carreira a solo nos anos 70, não se adaptou bem à dinastia song que reinaria a partir dos anos 80. Fora desses circuitos mais juvenis, Demis Roussos tornou-se numa estrela incomparável para a geração de 40/50, eclipsando o circuito que distribuía então a música francesa e italiana - e que dominava uma certa distribuição discográfica europeia (neste caso a Philips).

Demis Roussos - Forever and Ever

Não era difícil ouvir dizer que a sua voz era "divina", de tal forma as musas do monte rodopiante deixaram ali a sua marca. Mas, a partir dos anos 80 e 90, já praticamente só repetia os seus sucessos dos anos 70, e os delicados trinados que as musas lhe tinham deixado já não entravam numa cultura musical onde a bateria dominava.

Nesse aspecto, foi Vangelis muito mais bem sucedido, não porque abusasse da batida... aliás quer um, quer outro, não desdenharam a herança das puras melodias, mas especialmente porque se soube enquadrar bem no circuito anglo-saxónico, especialmente em bandas sonoras que lhe valeram prémios em Hollywood, nomeadamente o Óscar com "Chariots of Fire" (e o que é esse filme, sem a música?)...
Figura muito mais discreta do que espalhafatosa, ao contrário de Demis, aparece num vídeo da sua colaboração com o vocalista dos Yes, Jon Anderson. O álbum The friends of Mr. Cairo é um exemplo menos conhecido da genialidade de Vangelis.
Jon & Vangelis - The friends of Mr. Cairo (1981) - [versão completa aqui]

Mr. Cairo era um personagem secundário do filme The Maltese Falcon, com Humphrey Bogart, de que já falámos a propósito de Malta e Santelmo.

Mas, mesmo para os personagens mais abençoados pelas musas, Mercúrio pode ser hermético na divulgação do seu trabalho, e se Demis Roussos já nos deixou, Vangelis continua a produzir, ainda que não tenha necessariamente a divulgação que se esperaria, e que é tão bem gerida pelos mercadores dos nossos ouvidos.
Fica aqui o seu último trabalho de 2016, de nome Rosetta, a propósito da missão da ESA, que redundou no "estrondoso" sucesso de que aqui falámos (aliás ainda hoje deveríamos estar extasiados com as imagens que transmite do calhau onde caíu).

Vangelis (2016) Rosetta Mission - Origins

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Busíris de Isócrates

Busíris é uma das oratórias de Isócrates.
Isócrates, que conheceu Sócrates, dedicou-se à retórica, sendo apelidado "Pai da Retórica".
Qual é o Busíris em questão?

Diodoro Sículo coloca Busíris como fundador da linha dos faraós do Egipto, que reinavam em Tebas. Mas, além disso aparecia num contexto mítico mais alargado, envolvendo Osíris e Hércules. Por exemplo, Bernardo de Brito toma-o como rei da Fenícia, numa aliança que os Lomínios produziram no sentido de se verem livres de Osíris. 
 
Vasos gregos, que ilustram Hércules matando Busíris.

Esta oratória de Isócrates é dedicada, não tanto à história, mas sim ao bom uso da retórica, numa situação que se afigurava complicada - defender o tirano Busíris, que passava por ter morto convidados para jantar, e deles ter feito refeição. 
A cargo da defesa do tirano, Isócrates inventa um personagem, Polícrates, no intuito de mostrar como a sua retórica, e não a de Polícrates, permitiriam uma melhor defesa do sujeito.

O busílis na defesa de Busíris, é que todos sabiam perfeitamente os crimes de que estava acusado, e para Isócrates não valia a pena estar a encontrar justificações artificiais para esses crimes. 
Na sua opinião, o uso da retórica era mais eficaz focando nas virtudes de Busíris, que Isócrates chega a argumentar como fundador da civilização egípcia.

Seria o equivalente de termos um antigo dirigente acusado de corrupção, e os seus advogados estarem mais entretidos em argumentar a sua inocência - algo em que ninguém acreditaria, ao invés de procurarem argumentar que, sem a sua direcção iluminada, o país se teria afundado numa crise. Bom, no caso de Busíris parecia ser mais fácil a Isócrates argumentar pelos aspectos positivos.

Poderá pensar-se que estou a falar de Sócrates e não de Isócrates (ver por exemplo: "O Galo de Sócrates" e "Abade Faria - é do mundo dantes"), mas aí a retórica tem já outra escola, onde uma linha de defesa é o contra-ataque. Ou seja, divertir do assunto em questão, atacar os acusadores, invertendo os papéis de vítimas e criminosos. 

Manobrar a retórica foi uma arte política com sucesso, quando os políticos ainda conseguiam inventar estórias razoáveis, com que iludiam os votantes. Dispensado isso, descuidando na argumentação, na conversa necessária para vender gato por lebre, a arte política resume-se a uma simples tirania de imposição do status quo. As pessoas já sabem que é gato, os políticos pouco tentam iludir, e simplesmente tentarão convencer, no futuro, que lebres foram um mito.

Este texto é sobretudo sobre Busíris e Busílis.
Na minha opinião são a mesma palavra, tal como já se escreveu "simpres" em vez de "simples", ou "blando" em vez de "brando", etc.
Leio a etimologia oficial de "busílis", e enfim...
Na minha opinião, a expressão foi usada de forma erudita, referindo-se à oratória "Busíris" de Isócrates. 
O busílis da questão, seria o uso oportunista da retórica, para iludir verdade num julgamento.
A retórica da falsidade ganhou muito mais adeptos e argumentos ao longo do tempo. 
A verdade passa por ser uma descrição tão honorável quanto a mentira, tendo a verdade a desvantagem de não poder usar da imaginação para poder ser embelezada e colorida com as cores da moda.