quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Eutanásia

Apareceram de novo discussões públicas sobre a eutanásia, que poderá ser alvo de referendo ou legislação próxima
A palavra tem raízes gregas de eu+thanatos, ou seja boa+morte. É curioso que o elemento "nato", referente ao nascimento, apareça na palavra morte "thanato", tal como é entender "eu" como "bom".

O que se entende por "boa morte", tem muito a ver com os entendimentos pessoal e comunitário.
Aparentemente ninguém pede para nascer, mas há quem peça para morrer.

Se o próprio tem a faculdade de escolher, o pedido pode parecer não fazer sentido, mas certamente faz em casos extremos. O problema tem abordagens simplistas, que consistem essencialmente em atender a súplicas desesperadas, ou então na recusa peremptória em decidir pela morte doutrem.

Deixo aqui o meu entendimento pessoal.
Para se falar de morte, convém entender a oposição, a vida.
A vida é uma experiência comunitária, começando pela sua origem, que resulta normalmente do entendimento entre duas pessoas de sexos opostos. Logo aqui entra a diferença entre o plano natural, e o plano humano, que o tende a distorcer. Mas não vou dissertar agora sobre isso, até porque a criação do ovo resulta de três intervenientes - os elementos masculino e feminino, e o "acaso".

Interessa que a criação de vida humana não é uma decisão unilateral, não é autogénese, pressupõe a existência de entendimento a dois, e mais que isso, pressupõe entendimento numa comunidade funcional onde o nascituro se irá desenvolver. 
A simples conclusão que quero sublinhar é que o indivíduo não nasce sem alguma comunidade funcional que o envolva. Por muito atroz que seja essa comunidade, o indivíduo só nasce se há alguém que tolere a vida nela. 
Por exemplo, os filhos de escravos nasciam, não apenas porque alguns dos escravos toleravam a condição, mas também porque os seus "senhores" toleravam (e fomentavam) essa forma de vida em comunidade. A comunidade era até certo ponto funcional, e soube pelo menos evoluir da condição de escravidão a uma condição de dependência financeira, razoavelmente mais pacífica.

Um principal objectivo do indivíduo é avaliar o mundo em que nasceu.
Se todos os humanos concluíssem que a vida neste mundo não valia a pena, pois a sua melhor decisão seria, pelo menos, não trazer novos filhos ao mundo. Um suicídio colectivo, ou um absoluto desinteresse na paternidade, corresponderia de igual modo ao fim da humanidade.

A comunidade humana teve assim motivos para criar uma sociedade onde viver fosse um prazer, e não apenas um sacrifício persistente. A natureza foi-se encarregando de criar algumas das situações mais atrozes para a sobrevivência humana, algo a que comunidade humana conseguiu responder com sucesso, em muitos casos. Mas, por seu lado, a sociedade juntou ainda mais situações atrozes, mais dificuldades para a vivência. No computo geral, podemos dizer que atingimos uma qualidade de vida razoável, ou mesmo boa, para a maioria da população. Praticamente a natureza foi controlada, ao ponto de se garantir subsistência, e alguma qualidade de vida material, para a esmagadora maioria da população.  A maior parte dos problemas reside essencialmente num despique constante, que tende a infernizar uma vivência, sobretudo devido às orientações enganosas, que tendem a privilegiar uma competição, na maioria das vezes inútil, face às possibilidades de colaboração.

A natureza continuará implacável nas limitações que pode impor como simples doenças ou acidentes, e é nesse ponto que surge a maioria das situações de "eutanásia". 
A medicina parece não ter problemas morais em receitar tratamentos que podem ser autênticas torturas, ou até situações de humilhação. O "paciente", e o nome é bem escolhido, tem que aceitar ser cortado, lançado, amputado, violado na sua intimidade, etc... porque tudo isso é para o seu bem, o que (em última análise) os médicos encaram como "sobrevivência", ou regresso ao "estado anterior". Houve reticências em apoiar cirurgias plásticas, se não visassem um regresso ao "estado anterior", quando visavam uma mudança, uma opção pessoal. 

Portanto, a prática médica convive bem com situações que se assemelham a tortura ou até a prisão perpétua, mas tem dificuldade em atender à vontade do paciente - seja ela qual for, e não apenas nos casos em que solicita o término da tortura. Isso é perfeitamente compreensível, porque se a medicina continuar a visar o regresso ao estado anterior, é claro que a sobrevivência é mais próxima do que a morte... e o paciente é apenas isso - um paciente, que se deve sujeitar às capacidades e técnicas médicas existentes (podendo até ser convencido a servir de cobaia). 
Convém notar que a prática médica segue mais um código de aceitação interna, e o envolvimento emocional com o estado do paciente é desaconselhado. Por isso, ou a medicina muda a sua filosofia interna, ou não é uma questão médica que se coloca no "problema da eutanásia". Enquanto a medicina continuar com uma filosofia de "mecânicos do corpo humano", procuro sempre manter uma distância de segurança do bisturi e do talhante.

Passamos ao problema jurídico, começando por notar que o suicídio já foi proibido, ainda que essa legislação fosse algo ridícula pela sua inaplicabilidade em caso de sucesso. De alguma forma, à sociedade não convém aceitar o seu falhanço... porque a desistência deste mundo, significa que não se dá valor ao mundo a que sociedade dá valor. É uma avaliação negativa da qual a sociedade não pode recorrer.
Nesse sentido, desde religiões a práticas morais, o suicídio sempre foi colocado como um egoísmo, um desrespeito pelos seus entes queridos, etc. Algo especialmente caricato, como se esses não estivessem a ser egoístas, menosprezando o sofrimento alheio.
Mais do que isso, a religião chegou a valorizar o sofrimento, prometendo depois recompensas na "vida eterna"! É claro que esta filosofia do sofrimento, de "o que arde cura", era especialmente indicada para que os "pacientes" aceitassem todo o despotismo sem sequer esboçar um protesto...

Ora, a avaliação que cada indivíduo faz do mundo que o envolve, só piorará se nem sequer desse mundo se poder libertar. Uma coisa é entrar numa câmara de horrores, algo muito diferente é nem sequer poder sair dela. Por isso, a sociedade só piora a sua avaliação, condenando a uma tortura de sobrevivência, quem prefere libertar-se dela. Nem é só uma questão de egocentrismo social, é uma questão de completo autismo, uma prática de tortura medieval, baseada em preconceitos religiosos.

Dito isto, nem médicos, nem ninguém, deve ser obrigado a provocar a morte alheia. Esse passo deve ser tomado pelo próprio, mas com acesso a todos os meios que o permitam fazer sem sofrimento. Quando isso não é possível pelo próprio, simplesmente os médicos, ou outros, devem afastar-se de manter uma vida que não pediu para ser mantida. Vendo-se incapazes de contrariar os acontecimentos, devem deixar correr o processo natural, assegurando apenas o mínimo de dor possível.

Finalmente, do ponto de vista religioso, é absolutamente contraditório que uma divindade boa preconize o mal, mesmo que o sofrimento alheio seja temporário. 
Há sim um ponto importante a ter em conta "quando se vai desta para melhor"... é que nada garante que se vá para "algo melhor", e por isso parece ser boa recomendação que se tolere algum sofrimento. É que a este mundo não estaremos presos para sempre, mas nada garante que tenhamos a faculdade de desaparecer do próximo... e a vida eterna só me parece ser um paraíso para quem se libertou dos infernos que se criam em si mesmo.

No entanto, e como não quero acabar o texto com uma perspectiva assustadora, devo dizer que o propósito de divindades benévolas não é salvar os "bons", deixando os "maus" nos seus infernos... não há nenhumas "salvações" pela metade. As divindades benévolas, se necessário, e quando for tempo disso, descem ao ponto mais baixo dos infernos, e tentam até arrancar daí o belzebú mais retorcido. 
Infelizmente, a Terra teve a capacidade de criar em si demónios tão finórios, que conseguiram iludir a todos, passando afinal por deuses salvadores.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Nebulosidades auditivas (52)

Ficaria melhor colocar o original dos Xutos e Pontapés com o Zé Pedro, mas prefiro esta versão, com a voz da Teresa Salgueiro, que foi presença habitual nas rádios em Março de 2013, até porque pensei colocá-la aqui nessa altura.

Homem do Leme - Xutos & Pontapés (Cerco, 1985) - versão com Tim e Teresa Salgueiro.
Sozinho na noite, um barco ruma, para onde vai? Uma luz no escuro, brilha a direito, ofusca as demais! E mais que uma onda, mais que uma maré... tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé. Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade, vai quem já nada teme, vai o homem do leme! «E uma vontade de rir, nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder» (...) No fundo do mar, jazem os outros, os que lá ficaram; em dias cinzentos, descanso eterno lá encontraram (...) No fundo horizonte, sopra o murmúrio, para onde vai? No fundo do tempo, foge o futuro, é tarde demais...
Esta canção tornou-se um símbolo da banda, um hino que certamente muitos associaram a uma determinação, ou obstinação, "contra tudo, e contra todos". Quando se perpetua som e palavras, a vida não foi "sempre a perder"... 

sábado, 2 de dezembro de 2017

O teatro de fantoches jornalístico

Por mero acaso, vi numa destas madrugadas um programa da série "Toda a verdade", sobre um massacre em Odessa (Ucrânia), há 3 anos, no dia 2 de Maio de 2014. Os vídeos eram bastante significativos e impressionantes. 
Após o incêndio da "Casa do Sindicato", por activistas pró-ucranianos, morreram 46 pró-russos que aí se tinham refugiado. Em resultado do incêndio, as pessoas morreram queimadas, sufocadas, ou atiraram-se do edifício em chamas... e padecendo de ferimentos graves, eram ainda espancadas no solo, por activistas do cerco.

O "jornalismo internacional", mais preocupado então com a passagem da Crimeia para controlo russo, ignorou este massacre... já que era "do lado errado" da estorieta anti-russa que queriam vender (e que incluiu depois o incidente do avião MAS 17).

Podemos ler esse outro lado da história, aqui:
  • Odessa, o massacre que a imprensa não viu: «Depois de enfrentamentos, iniciados após uma partida de futebol, grupos favoráveis ao governo golpista de Kiev cercaram dezenas de manifestantes contrários, que tinham se refugiado no prédio da Central Sindical, e provocaram um incêndio criminoso usando coquetéis molotov. Os extremistas impediram a saída das pessoas -espancando as que tentavam fugir- enquanto incendiavam as dependências do sindicato como pode ser visto nos videos divulgados na internet pelos próprios autores da chacina. O resultado foi de 46 pessoas assassinadas, muitas das quais morreram sufocadas pela fumaça, outras queimadas e ainda houve as que se atiraram ao vazio tentando fugir das chamas. Isto constitui, sem sombras de dúvidas, um massacre. No entanto a mídia ocidental, que atua como um mero canal de propaganda de EUA e da OTAN, sempre pronta para divulgar justificativas para guerras e intervenções “humanitárias”, não viu este massacre.» 
  • Odessa slaughter: How vicious mob burnt anti-govt activists alive: «Many of those who managed to escape the fire were then brutally beaten by armed men, believed to be from the ultra-nationalist Right Sector group, who had the building under siege.»
Após o alegado massacre de população judia, também chamado «Massacre de Odessa», que clamou milhares de vítimas em 1941, sob responsabilidade nazi, foi com símbolos nazis que estes nacionalistas ucranianos realizaram mais um massacre em Odessa... um porto no Mar Negro, que era crucial manter sob controlo ucraniano, apesar da população ser maioritariamente de origem russa.

Enquanto na Ucrânia, o interesse era manter a independência da região, que pertencera ao império soviético, pouco interessando a população do lado oriental (que era maioritariamente russa), agora no caso catalão, não interessa a independência, mas sim preservar a integridade espanhola... 

Quanto ao lado para onde pende a atenção jornalística, este cartoon será bastante significativo:


domingo, 12 de novembro de 2017

O panteão e as pantominas

Na perspectiva do capitalismo em que "tudo tem um preço, basta saber qual é..." o Panteão Nacional está oferecido a 3000 euros de aluguer. Se forem 200 convidados, sairá apenas mais 15 euros a cada um, um pequeno extra que sairá mais barato do que pedir uma vinhaça razoável, num restaurante normal. Ao que parece, o preço praticado subiu para 5000 euros, mas mesmo assim, nada que tivesse incomodado muito.
A polémica surgiu este fim de semana, depois de se saber que a "feira da moda", o circo do Web Summit, tinha usado o espaço para organizar um "jantar de fundadores", nesta sexta-feira. No entanto, o espaço já tinha servido para um jantar de trabalhadores da NAV (empresa de navegação aérea), e talvez até pudesse ter servido para qualquer outra agremiação, de clubes de futebol a matraquilhos, lembrando que o túmulo do grande Eusébio apadrinharia a refeição. 


A divulgação desta notícia, e o pequeno escândalo subsequente, apanhou os actores governativos desprevenidos (talvez por inveja), no meio de uma legislação que visava arrecadar uns cobres, alugando espaços públicos "engraçados"... e pouco ligando à suposta "dignidade dos monumentos".
Quem conhece a prática nacional, sabe que quando a legislação prevê uma excepção "excepcional" ou alguma autorização "ultra-especial" (ministro ou similar), isso significa que a lei é inexistente, para a "malta certa", que obviamente arranja as autorizações.
No entanto, desta vez a indignação chegou tarde, já que o espaçado consagrado, tanto albergou o lançamento de um livro de Harry Potter, como um jantar de trabalhadores. 
Tal como o nome Sagres, tanto é sinónimo de uma cervejola, como remete ao Promontório Sacro, colocado como símbolo de partida dos descobrimentos. Tudo isso depende de considerar algo como intemporalmente sagrado, ou como consagrado ao interesse ocasional. Ora, como a república tendeu a dessacralizar tudo, e mais agora, consagrada ao interesse do capital monetário, o resultado de completo desrespeito da memória, seria expectável.

Nem interessa muito a ocorrência dar-se no meio de um circo de pantomineiros, que pouco mais fazem do que dar a cara por ideias banais, umas melhores que outras... simplesmente o seu circo está agora tanto na moda, que um jantar da mulher barbuda com trapezistas, palhaços e domadores de leões, não iria passar despercebido.

sábado, 11 de novembro de 2017

Conspiração das "conspirações"

Surgiu há poucos dias a cómica notícia de que a Rússia estaria por detrás da crise catalã, favorecendo notícias pró-independência, para destabilizar a Espanha e a Europa:

(The Telegraph, 9/11/2017)

Passando 100 anos sobre a revolução bolchevique, a Rússia de Putin passou agora a ser o alvo das pseudo-conspirações que os media alimentam, algumas tão rebuscadas que não tinham chegado ainda ao ponto de ser conjecturadas por nenhum mais ousado "teórico da conspiração" (... que, ao contrário dos media procuram dados mais credíveis para as suas histórias).

Esta ousada teoria, alinha com outra - de que Trump tinha sido eleito, por via de ataques cibernéticos vindos da Rússia, algo que a CIA veio a conjecturar, depois da eleição de Trump ser inevitável.

Nestes links podemos ver que as coisas não correm agora bem para o anterior establishment da CIA, e a única resposta que os media dão, claro está, é invocar a lógica de velhos westerns, com bons e maus da fita, onde os maus são "Trump e aliados", e os bons são os contrários, onde se incluem.
Os media, apesar de Trump se manter no poder há um ano, sem nenhum incidente especial, mantêm a narrativa de que Trump não deverá finalizar o mandato, divulgando quaisquer sondagens de baixa de popularidade, ilustrando ainda tudo isso com notícias mais risíveis e bacocas do que as bacoradas de Trump. Entretanto, apesar de todos os esforços, as coisas nem sempre correm mal a Trump, e a visita ao sudeste asiático tem corrido a seu favor - Trump in Asia: They love him in Vietnam.

Mais curiosa é esta persistência em procurar uma "razão comum" que englobe tudo o que corre "menos bem" à velha "nova ordem mundial", que agora tentam remeter à Rússia. Aliás, na sua luta contra as "teorias da conspiração", já tinham sistematicamente alinhado numa teoria da conspiração - classificando-a como anormalidade, deficiência, ou até fruto de agenda conjunta. Na sua paranóia de controlo, procurando uma credibilidade perdida em novas gerações, acabam por alimentar uma teoria de conspiração contra os "teóricos da conspiração", sendo claro que já alimentavam múltiplas teorias de conspiração falsas, com o intuito de descredibilizar as verdadeiras.

Voltando à Catalunha, a presidente do parlamento catalão, Carme Forcadell, tendo pago a fiança de 150 mil euros, acabou por ser libertada...
Carme Forcadell, acusada de sedição, à frente das barras da prisão.

Libertações sob fiança, que incluiram a exigência judicial de não prosseguir "actividades políticas no futuro"... um apontamento judicial, talvez para não deixar dúvidas sobre o carácter político das prisões. Espanha prescinde da separação de poderes, quando usa tribunais para prender por razões políticas. Perante a impassividade mundial, os catalães continuam condenados a respeitar todos os símbolos da unidade espanhola, ou melhor, da nova forma de "inquisição espanhola"... pois afinal, após 40 anos sem franquismo, já estariam com muitas saudades!


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Arde Portugal

15/16 de Outubro de 2017 - vaga de incêndios nacional ( com pelo menos 6 mortos, 36 mortos)

Há um poder em Portugal que usa o fogo como meio de combate... muito provavelmente em ambos os sentidos - tanto promove o seu combate como provoca o seu início.
Quer queiramos, quer não, essa é a explicação evidente de como surgem mais de 500 ignições num dia, em quase todo o país a norte do Tejo, num dia de Outubro, quente, mas nem por isso mais quente que tantos outros dias nos meses anteriores. 
Que a investigação policial e judicial continue a tudo remeter para calendas gregas, e não procure uma causa única para uma coordenação de tantos focos de incêndio isolados, indicia que esse poder submerso tem muito mais poder do que aparenta.
Que o assunto tenha chegado a este ponto de desespero, pode mostrar que esse poder, está a ser acossado mais do que nunca tinha sido antes... A partir deste ponto não é só a "protecção civil" que se revela como uma subestrutura partidária sem qualquer nexo, são as próprias organizações de bombeiros que falham persistentemente. 
No ponto actual, não é difícil concluir que a única estrutura social que funciona contra os incêndios, é a solidariedade das populações, e a ajuda de bombeiros, guardas, etc, parece essencialmente pontual, e mais eficaz quando actuam fora da cadeia de comando.


Adenda (um dia depois) 17/10/2017, 3h00 :
Este texto é escrito na madrugada seguinte, com mais 30 vítimas contabilizadas, e cuja totalidade irá provavelmente passar as 40 vítimas, dado o número de feridos graves e sobretudo os 7 desaparecidos, podendo aproximar-se de 45.
Alguma chuva terá entretanto caído, e os incêndios terão tendência a terminar. No dia de ontem, quando escrevi este texto, eram 6 as vítimas mortais, mas tudo indicava que a contagem seria semelhante, ou pior... à de Pedrogão, porque o problema estava espalhado por vários distritos - Leiria, Aveiro, Coimbra, Viseu, Guarda, Braga, etc. Pior, com tal dispersão, as populações ficaram praticamente sozinhas a combater os incêndios nas suas aldeias. Pior, já não eram apenas aldeias - em Tondela, Gouveia, Oliveira do Hospital, etc. o fogo tinha tocado os limites das vilas, e cercava diversas auto-estradas, nomeadamente a A17 e A25, com relatos assustadores.
O ponto principal do governo era já a protecção da "protecção civil", e nada augurava nada de bom, conforme se viu.

Tão estranho quanto é estranho, não vermos os bascos acompanharem a luta dos catalães, vemos os galegos na rua a protestarem contra a inoperância do governo galego num incêndio que tomou 4 vítimas, e os portugueses silenciosos perante dois incêndios que, na totalidade, já tomaram mais de 100 vítimas mortais. A protecção governamental está assegurada, e quem pense que estas manifestações surgem do nada... ainda acredita na geração espontânea, e também na geração espontânea de incêndios!

sábado, 14 de outubro de 2017

2049, Los Angeles, duplicado

Fui ver a nova versão do Blade Runner, colocada em 2049, em Los Angeles.

Acontece que o número 2049 em Los Angeles está associado a um grande empreendimento feito em 1975, as Century Plaza Towers com os números 2029 e 2049 do Century Park...
São uma cópia menor das torres gémeas do World Trade Center, de Nova Iorque, inauguradas dois anos depois, em Los Angeles, pelo mesmo arquitecto - M. Yamasaki, mas com menos de metade da altura das irmãs nova-iorquinas, feitas em 1973.
2049 Century Plaza Towers, Los Angeles

Como a moda de erguer duas torres iguais foi tão repetida, ao ponto de se tornar maçadora, sinalizo apenas que os filmes Blade Runner são da Warner Bros e não da 20th Century Fox, dona dos terrenos da Century City, onde se encontra empreendimento (que agora é 21st Century Fox, com sede em Manhattan, também numas torres gémeas...)

Quanto ao filme, e não querendo fazer aqui nenhum spoiler, é bastante mais enfadonho que o primeiro da série, chegando a parecer um filme intelectual francês ou russo, com quase 3 horas.
Denis Villeneuve, canadiano, tinha realizado já o "Homem Duplicado" (uma adaptação do romance de Saramago), ou o "Primeiro Encontro" (ou "A Chegada", The Arrival), ambos bastante mais conseguidos, na minha opinião.
Aqui o ponto centra-se na validade das memórias dos replicantes, mas o assunto é mal explorado, talvez por falta de um bom argumento, como era o de Philip K. Dick.
O ponto é que a validade das memórias é remetida para a memória dos outros, sobrepondo-se à memória do próprio, apenas porque sim!
No caso do filme original, o ponto fulcral do argumento era a memória do próprio ser questionada por ser conhecida dos outros, da corporação Tyrell, mas também Philip K. Dick não entrou no assunto desse conhecimento poder resultar doutra forma. Numa sociedade cada vez mais vigilante, onde todo o percurso e conversas são registadas, não será difícil saber quais são as memórias mais significativas de cada um (em vários casos, basta ler o seu facebook), e argumentar que tais memórias são implantadas, fazendo o próprio duvidar do que experienciou.
Tal como no assunto do Homem Duplicado, quem expor demasiado a sua vida, ao ponto de tornar o seu interior como exterior público, no limite corre o risco de ser questionado ou duplicado. Afinal, quando os pensamentos mais íntimos, são partilhados com amigos ou psicólogos, deixam de ser íntimos, e passam a ser propriedade "pública". Num outro sentido, que Saramago não explorou, acontece o mesmo, ainda mais facilmente, sobre a pessoa que se fecha em demasia... porque conhecendo-se pouco, sem dificuldade a sua escassa parte pública poderá ser duplicada por qualquer outro replicante. À parte a questão das memórias, o filme pisa praticamente os mesmos passos do anterior, faltando-lhe muito de original.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Nebulosidades auditivas (51)

The missing boy... Ainda antes de 1992, para os Jogos Olímpicos que iriam decorrer em Barcelona, juntaram-se Freddie Mercury e Montserrat Caballé, num par improvável que juntava um dos mais famosos cantores pop, vocalista dos Queen, e a reconhecida soprano de ópera - foi há 30 anos, em Outubro de 1987.
Como Freddie Mercury morreu em Novembro de 1991, não foi possível a performance do duo na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, passando apenas o vídeo. O som mantém-se impressionante, e este vídeo mostra bem as chamadas Torres "gémeas" venezianas, de que já falámos.


As montanhas de Montserrat... O nome "Montserrat" é tipicamente catalão, devido a uma formação montanhosa com o aspecto de dentes de uma serra, o que impressiona um visitante que chega de carro, vindo de Andorra, como foi o meu caso em 1993.

As montanhas de Montserrat, perto de Barcelona.

O nome é popular também pelo Mosteiro de Santa Maria de Montserrat, sendo associado à lenda arturiana do Santo Graal, e contendo uma imagem icónica de Virgem negra, cuja história é muito semelhante à história que também encontramos no Círio da Nazaré - uma escultura que teria chegado à Hispânia vinda de Jerusalém, e que foi escondida em Montserrat em 718, aquando da invasão muçulmana. Em 11 de Setembro de 1881, por via desta imagem, o papa consagrou Santa Maria de Montserrat como padroeira da Catalunha, tendo por isso ficado Maria de Montserrat um nome comum entre as mulheres. catalãs. Reporta-se que já em tempos romanos, seria um local dedicado ao culto de Vénus.

Em 1493, num ano em que Fernando de Aragão e Isabel de Castela formalizavam a união entre os dois reinos ibéricos, Colombo na sua segunda viagem caribenha encontrou uma ilha que designou justamente Montserrat, em homenagem à Virgem Maria de Montserrat.

O Mercúrio de Almadén... pelo lado de Mercury, neste dueto comercial, surge uma das minas mais antigas do mundo, e o maior jazigo mundial para a extracção de mercúrio, que se situa em Castela, na cidade de Almadén, e é um dos patrimónios UNESCO.

domingo, 1 de outubro de 2017

Votos para a Catalunha

Uma coisa é um tribunal espanhol declarar ilegal o referendo que pergunta:
- Quer que a Catalunha seja um estado independente na forma de uma república?
... outra coisa completamente diferente é o estado espanhol proceder, num desenquadramento total da democracia, inclusivé com repressão policial, ao tentar evitar que as pessoas se dirijam a escolas, e outros locais, simplesmente para colocar um papel numa urna.

Os primeiros confrontos da manhã, já são fotografias partilhadas na comunicação social:
Confrontos da polícia com votantes, na manhã de 1 de Outubro, Barcelona (imagens)

Há formas mais e menos inteligentes de actuar...
De uma forma ou de outra, este referendo na Catalunha tomou os noticiários como primeira página internacional, e já se tinham realizado outros referendos com propósito análogo (em 2014), que tinham passado completamente despercebidos. Assim, o governo catalão terá conseguido um eco ímpar para o seu propósito - marcar a independência catalã como um dos temas correntes mais importantes da política internacional.

Os votos não precisam de ser contados para sabermos o resultado - o voto na independência será esmagador, até porque quem não quer a independência provavelmente nem sequer irá votar, porque não dá significado, nem concorda com o referendo. 
Também não é díficil saber quem está a favor (ou seja, mais as famílias de origem catalã), e quem está contra (ou seja, mais as famílias com origem noutras regiões de Espanha)... o que irá dividir ainda mais a sociedade na Catalunha. 
Resta apenas saber se o nível de participação será suficiente para se poderem tirar conclusões... ou seja, se o número de votos "sim" se aproximará da metade da população votante da Catalunha. É neste campo que Madrid tentou fechar, e condicionar a votação, o que dará armas retóricas aos independentistas, mesmo se tal não acontecer.

O que poderia ter feito Madrid? 
- Haveria múltiplas possibilidades, uma das quais, a mais simples de todas - realizar um referendo a nível nacional ao mesmo tempo! 
Ao invés de serem apenas os catalães chamados a decidir sobre a sua independência, todos os espanhóis teriam oportunidade de o fazer. Os espanhóis, em vez de ficarem em casa impotentes a assistir às imagens conturbadas do referendo catalão, teriam oportunidade de se pronunciar contra a independência catalã, dando força à decisão de Madrid, e diminuindo a importância do resultado exclusivo da Catalunha. Seria uma arma política que Madrid poderia usar... assim, o governo madrileno ficará sozinho nas suas decisões.

Convirá notar que nada parece preparado para um esboço de independência catalã - começando logo pelo simples facto da polícia local catalã - os "Moços de Esquadra", ficar ameaçada judicialmente de desobediência ao estado espanhol, por não reprimir o acto eleitoral, como o fez a polícia nacional.
Como a Catalunha não possui uma constituição ou tribunais independentes do centralismo espanhol, vê-se dependente dessa legislação, e da imposição dela, feita pela polícia nacional... que até outra notícia, tem liberdade de acção na Catalunha. Isto para não falar no exército... já que o único existe é o exército espanhol.
Numa situação destas, o estado espanhol procurará cada vez mais evitar protagonismo de catalães, bascos ou mesmo galegos, na hierarquia do funcionalismo público, e tentará fechar-se cada vez mais num protagonismo castelhano. Por outro lado, na Catalunha, todos os lugares públicos terão a mesma tendência, de protagonismo externo, por influência de Madrid, e de protagonismo interno, por influência de Barcelona. A sociedade espanhola tenderá a dividir-se e a desconfiar mais de si mesma.

Por isso, seria pouco mais do que retórica, se fosse feita uma declaração de independência unilateral, quando no território catalão o único poder de força física e legal é controlado por Madrid... e os responsáveis catalães tendem a ficar a falar sózinhos, se não seguirem por uma via mais radical, ou serão decepcionantes e irão passar por fracos, ou até traidores, mesmo que consigam algum acordo vantajoso negociado com Madrid.

_________________________
Resultados: (3h00, 2/10/2017)
Os resultados foram conhecidos já no início do dia seguinte, mostrando que os votantes não atingiram a metade dos eleitores catalães: 2,020 milhões de votos "sim" num total de 2,242 milhões de votantes... o que deu uma esperada maioria esmagadora de 90%, mas sendo apenas 42% dos 5,343 milhões votantes potenciais, levará a que o resultado não seja considerado suficientemente vinculativo - por quem quiser alinhar por esse argumento.
Como bastaria juntar a este valor meio milhão de votantes "não" para manter uma esmagadora maioria, e assim obter o quórum para metade dos votos do colégio eleitoral, o governo catalão poderá argumentar que estes votos são suficientes para concluir... e tudo se resume a um agremiar de vontades dentro da sociedade catalã, para efectivar passos seguintes, sendo claro que já ninguém na Catalunha duvida da vontade clara de independência... seja essa vontade mostrada com um cravo vermelho ou não.
Os argumentos de "legalidade" invocados por Espanha, e pela maioria dos estados europeus, que procuram lavar as mãos do problema, rondam a imbecilidade política. A legalidade resulta de leis, aprovadas por políticos, e só são consideradas leis universais as resultantes da "declaração dos direitos do homem" - e se houve alguma violação desses direitos fundamentais foi feita por um impedimento policial de cariz violento, com quase 900 feridos, visando impedir uma votação.
O resultado poderia ser ilegal à luz castelhana, mas isso deveria apenas significar a inutilidade da votação, e nunca o impedimento da sua realização. O governo de Madrid misturou tudo na sua imbecilidade.
A constituição espanhola... é, como o nome indica, "espanhola"! Pouco importa que também tenha sido aprovada na Catalunha, porque nunca foi opção referendada ficar ou sair de Espanha.
O problema é a simples não identificação dos catalães com o estado espanhol, castelhano, algo que tem o sentido mais profundo enraízado numa cultura e língua diferentes, algo que os portugueses melhor que ninguém deveriam entender.
Neste momento a Catalunha pode ser considerada violentada pelos castelhanos de Madrid. Continuará a ser indiferente aos espanhóis dizerem que os catalães puseram os pés fora da legalidade espanhola, porque os catalães já há muito que estão com a cabeça fora de Espanha.

A Espanha continuará a insistir na indissolução de um casamento medieval de 1493, argumentando que o divórcio é proibido pela constituição, mas já há muito que perdeu o amor da Catalunha, e não é certamente com vergastadas policiais que o conseguirá, e também duvido muito que neste momento "presentes caros" resolvam o problema... até porque tem outras consortes (País Basco, Galiza e Andaluzia), que aguardam o desfecho deste episódio do mau humor do violento esposo castelhano.


sábado, 30 de setembro de 2017

Nebulosidades auditivas (50)

"Amigos em Portugal" foi um álbum lançado pelos Durutti Column em 1983, pela Fundação Atlântica, uma editora que seguia a linha da Factory Records, dos Joy Division, em Manchester, e que também era a editora de Viny Reilly. Aliás, Viny Reilly vai editar a música "Missing boy" em memória de Ian Curtis, cujo suicídio marcou toda uma geração. A canção fazia parte do álbum LC, de 1981, de que ainda tenho o vinil...
"Missing boy" - Durutti Column, 1981.

O nome Durutti Column era suficientemente estranho, e dizia respeito à coluna militar catalã de Durruti, sendo Buenaventura Durruti um dos líderes do movimento Anarquista que teve vida curta, morrendo em 1936, no contexto da 2ª República Espanhola, que terminou com a invasão das tropas de Franco.