sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Na terra das rendas

Uma situação razoavelmente ideal é obter uma renda, de preferência que não tenha término, e dê para passar aos descendentes, de forma a acomodar toda a família.
Não estou a falar daquelas rendas que as avós faziam e gostavam de pendurar em cima da TV, ou que passavam aos netos como recordação. Estou mais a falar das rendas que os avôs conseguiam e passavam aos descendentes com desafogo. Num caso mais conhecido, temos uma família com mais de 500 descendentes, que foi vivendo desafogadamente à conta de rendas em cima de um banco, por obra e graça do Espírito Santo. A obra foi sentida na crise financeira recente, e a graça está no sentido de humor aviltante que a piolhagem parasita gosta de exibir sem pudor.

Para entendermos melhor o complexo jogo das rendas, nada melhor que ser ilustrado pelas rendas de bilros. Aliás, o assunto voltou a estar na moda, porque a Câmara de Peniche vai fazendo uns festivais em que os jogos de rendas combinam com vestidos, mais ou menos desafogados:
No caso das vilas piscatórias, os homens faziam redes e as mulheres faziam rendas
Se o objectivo das redes é facilmente perceptível, imitando o velho esquema aracnídeo da teia, aplicado ao pescado; no caso das rendas, a arte parecia ter utilidade desconhecida, apesar da complexidade que podia envolver. A teia da mulher prendada, não sei se seria suficientemente cativante, mas poderá ter conseguido apanhar os seus peixes.

O assunto das rendas existe desde tempos medievais, e garantia aos senhores das terras prender na sua teia uma boa parte de "peixe fresco", que consistia num imposto aos arrendatários. Como estas coisas passavam hereditariamente, uns habituaram-se a receber, e outros a pagar. A posição de quem recebia as rendas era extremamente confortável... porque basicamente pouco mais faziam que nada, para receber uma parte considerável de tudo o que era produzido na sua terra.
O problema de quem pagava, é que gostaria de estar na posição inversa... e lamentava a malfadada sorte do nascimento o ter colocado na posição de presa e não de predador.

Assim, ao surgirem as primeiras ideias libertadoras da servidão feudal, não seria difícil encontrar peixe que estivesse pelo fim das redes que o prendiam à lógica servil... mas com um ligeiro detalhe de aracnídeo velho - novas teias havia para enlaçar, e mais transparentes que as anteriores!
Por isso, se a nobreza foi sucessivamente perdendo direitos adquiridos, desde há duzentos anos, conseguiu manter as rendas, à conta de outras redes, as redes de contactos, e de uma máquina legisladora especialmente eficaz.

A princípio usou-se o simples esquema da "comenda", e eram vários os comendadores, que mantinham a renda assegurada com esse expediente. Era melhor, porque já nem tinham que defender terrenos, ou ser hábeis na arte da guerra, bastava terem direito à comenda... e foram muitos os comendadores. Os peixinhos cresciam animados com a ideia de que já não precisavam de pagar renda ao senhor feudal, e viam o pagar um imposto ao estado como dever nacional, ou o pagar renda a um senhorio como dever natural de propriedade. Continuavam a pagar ao senhores, mas como o faziam através do estado, ou através de alguma lógica, pareceu-lhes que a vassalagem terminara.

Com a sofisticação legislativa, alguns pormenores foram acertados.
Fugindo sempre à desigualdade inicial, mas tentando dar a entender que se promovia uma igualdade de tratamento, apareceram as "pensões". Fruto de grande pensar, certamente, considerou-se que um velho trabalhador receber de volta descontos, era uma "pensão"... tal como seria uma "pensão" uma comenda dada pelo estado. Assim, tanto passaram a ser vistos como pensionistas os pobres que recebiam um parco valor descontado, como os deputados que recebiam uma graciosa "pensão" por terem passado pela Assembleia. 
E lá vem o sentido de humor aviltante, sempre que os pobres reclamassem o aumento de pensões, isso gratificava mais generosamente outros pensionistas, que já não usavam necessariamente o nome de comendadores.

Bom, mas isso, é claro, seria apenas uma fatia pequena do bolo.
A grandes comendas resultariam de vantajosos negócios que privados fizessem com o estado, chegando-se ao ponto de inventar as "parcerias público-privadas", onde o sector público tomou conta do prejuízo, garantindo ao sector privado um lucro quase eterno, sem qualquer risco associado.
Foi assim fácil ver gente sem cheta, receber crédito de bancos públicos, para comprar bancos públicos. Foi fácil ver o estado declarar-se sem dinheiro para uma obra, mas depois financiar um grupo, para executar essa mesma obra, por maior valor, etc... uma paródia saloia.
Fizeram-se assim pontes, auto-estradas, etc... com rendas garantidas para dezenas de anos, e em que os investidores entravam com cacau zero, ou o que é equivalente, com cacau inventado, ou pedido emprestado, até à própria banca do estado. O mesmo se passou com televisões, empresas de telemóveis, etc. Num ápice, o estado foi-se tornando incompetente para tudo, para poder fomentar a passagem para o sector privado, onde basicamente os serviços ficariam a ser os mesmos, mas a preço mais elevado. Elemento essencial para esta mudança, um movimento sindical indecoroso, que pouco mais fez do que arruinar o estado, com exigências ridículas ou extravagantes.

Surge aqui o episódio da tragédia do incêndio de Pedrogão Grande.
Um dos grupos que conseguiu do estado uma choruda renda quase vitalícia foi justamente o ligado ao SIRESP, que se financiara com dinheiro fictício associado ao BPN, que todos tivémos que pagar por maior desconto nos nossos impostos. Como o grupo Galilei, saiu incólume desse incêndio processual, e continuou a operar como pessoa de bem, também o SIRESP manteve todas as características inatas:
- total desadequação ao propósito, falha completa na estratégia do sistema,
- um contrato chorudo para um sistema inoperante,
- cláusulas leoninas que o ilibavam de qualquer responsabilidade, etc, etc...
Ou seja, temos uma renda de bilros mal trabalhada, mas que serviu para dar aspecto de vestido, até que todos vissem que o governo seguia nú.
Como se a pouca vergonha não fosse suficiente, os inteligentes desta tourada, ainda tiveram o desplante aviltante de dizer que o sistema era bom, precisava era de mais financiamento por parte do estado, se pretendesse ser mais eficaz. Visava-se, claro está, usar um expediente de chico-espertice, para arregimentar ainda mais cobres para a banha da cobra.

Vão saindo relatórios, aqui e ali, que para além de mostrarem uma total inoperância da Protecção Civil, e cumplicidade de boa parte dos intervenientes, mostram o completo caos governativo, que nem sequer tinha publicada uma lista oficial de vítimas (argumentando para isso, um inexplicável "segredo de justiça"). 
O relatório desejado, não é difícil de imaginar, basta que sejam compradas as vontades de o assinar... e dirá o mais conveniente para todos - ou seja, que o incêndio foi excepcional, ninguém poderia prever o que iria ocorrer, todos fizeram o melhor, dentro das possibilidades, e as vítimas ou familiares serão indemnizados. Claro, isto se não forem também multados... como aconteceu com a MEO que exigiu pagamento por cessação do contrato a uma vítima morta
Para o SIRESP é que a história parece difícil de sair, já que as denúncias de mau funcionamento eram constantes, continuam a ocorrer sistematicamente, e por muito boa vontade que alguns trabalhadores tenham de colmatar as múltiplas deficiências, o problema original é que se tratava apenas de uma renda trabalhada para garantir rendimento à conta de pouco mais que nada. 
Como Costa ficou agarrado à contratação do sistema, esperam que não os deixe cair, para não cair com eles... mas por muita falta de vergonha, esquemas de corrupção, benefícios de silêncio, e cumplicidades, que existam, também há outro lado - de oposição, com outros clientes para as mesmas rendas - provavelmente com sistemas inovadores, que garantidamente funcionarão... desde que novas rendas, novas comendas, venham a ser contratadas.

O sistema que funciona é muito simples, com a devida rede de contactos, os contratos são sempre vantajosos, garantindo rendas de qualidade. A rede de contactos encarrega-se de proclamar que os escolhidos, ainda antes de serem escolhidos, são os melhores. Assim, a renda por muito frágil que tenha os seus fios, conta com os múltiplos nós da rede, para se aguentar e proclamar a sua perene saúde... tudo isto funciona, é claro, até ao momento de contacto com a realidade nefasta.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Mergulhando em Inis Mór

Uma das piscinas "naturais" mais espectaculares do mundo situa-se na Irlanda, nas ilhas Aran, em Inis Mór, e é conhecida como "Worm Hole", ou "Serpent's Liar".

A piscina "Worm Hole" situada na ilha Inis Mór (ou Inishmore), na Irlanda.

Apesar da sua forma rectangular, quase perfeita, a sua formação é atribuída a processos naturais, que desgastaram a paisagem cársica. Ainda que haja claras marcas naturais que podem justificar quebras rectangulares, a precisão dos contornos perpendiculares deixa a suspeita que nem tudo poderá ter resultado de intervenção natural.

O sítio não fazia parte dos roteiros turísticos mais conhecidos, pelo menos até a Red Bull ter aí colocado uma das suas provas do circuito Cliff Diving, permitindo como habitualmente alguns voos de mergulho notáveis:
Vídeo da Red Bull sobre o circuito de mergulho, no penhasco de Inis Mór em 2017.

Porém, a paisagem de Inis Mór é mais curiosa, e não se resume a esta suposta piscina natural. Também aí encontramos registos de antiga ocupação humana, nomeadamente na mesma ilha de Iris Mór, há um conjunto de construções denominadas "Seven Churches". Este nome lembra a mítica referência às Sete Cidades, presente nos Açores em nome de lagoa, e referente a possíveis viagens americanas de São Brandão, constantes da mitologia irlandesa da Idade Média, a que não estará desligada a própria nomenclatura do condado de Mayo, a que pertenceram estas ilhas. Também a data destas construções é referente aos séculos VII ou VIII, tendo havido um posterior abandono, por volta do Séc. XII ou XIII.
Ruínas de "Seven Churches", em Inis Mór.

A nível da paisagem, os penhascos que caem sobre o Atlântico são capazes de atrair os mais destemidos trepadores, apresentando autênticas pranchas de salto, como é exemplo duma prancha rochosa, conhecida como "The Roof", que se estendia por 6 metros acima do precípio, e onde foi tirada a fotografia seguinte (com o trepador Sean Marnane suspenso):
"The Roof" em Iris Mór, com um trepador suspenso sobre o abismo.

terça-feira, 25 de julho de 2017

É só fumaça...

Numa das declarações mais emblemáticas do Verão quente de 1975, Pinheiro de Azevedo procurou acalmar a população perante uma pequena explosão, dizendo "o povo é sereno"... ou "é só fumaça".

Passado mais de um mês sobre os trágicos acontecimentos do incêndio de Pedrógão Grande, sem qualquer resultado de investigação, sem qualquer acção significativa, e com a persistência sucessiva de falhas no sistema de comunicações "SIRESP", o governo e o status quo, munidos de uma forte campanha publicitária, procuraram ao máximo abafar quaisquer reacções ao caso.

A questão chegou ao ridículo de se não conhecer uma lista das vítimas da tragédia, porque explica a ministra: 
- "a lista de vítimas não é secreta mas consta de um processo judicial em segredo de justiça"
Chegamos assim ao desplante da novilíngua, onde é o que não é secreto, é segredo.
O famoso "segredo de justiça" serve assim para encapsular todo o secretismo que se pretenda ocultar, bastando invocar interesse de um qualquer processo, e ignorando qualquer interesse público na sua divulgação.

Entretanto houve quem tivesse feito contas diferentes, elevando o número de vítimas a mais de 80, tendo em conta mortes "indirectas". 
«Uma posição que surge depois de o Jornal i divulgar uma lista que já inclui mais de 80 mortos, dos quais 73 estarão confirmados pelas famílias com nomes completos, localidade e local da morte.»

O detalhe algo sinistro é que a contabilidade terá ignorado (pelo menos) uma vítima que, fugindo do incêndio, foi vítima de acidente... da mesma forma que assim se poderiam ignorar as vítimas que saltaram das torres gémeas no 11 de Setembro. 

O secretismo da lista pode parecer um detalhe, mas seria uma forma da população não ter certezas sobre o número total. Individualmente cada família pode fazer uma contabilidade das vítimas que conhecia, mas não de todas vítimas que pereceram no incêndio. Se tal lista fosse pública, cada família poderia reportar as faltas dessa lista... assim, simplesmente não sabe se entre as 64 vítimas estão a ser contadas as suas perdas, por mais que lhe digam que sim, dirão o mesmo a todos.
Sem este trabalho jornalístico, não seria possível uma compilação das vítimas, conforme feita pelo Jornal i, que terá confirmado 73 vítimas entre os familiares. 

António Costa, é claro, está metido neste fumo até aos cabelos, começando pelo seu papel na efectiva contratação milionária de um sistema completamente inoperante, denominado "SIRESP", e nesta gestão da situação pode bem proclamar que "é só fumaça", que não será por isso que as vítimas desaparecem. Bem podem argumentar que estão a respeitar a memória das vítimas pelo silêncio, sabendo que as famílias estão reféns da distribuição de subsídios... 
Pode procurar-se a névoa do fumo para encobrir o desastre, mas a percepção generalizada da população tenderá a ser de total desconfiança na governação, e esse incêndio consumirá como vítima não apenas a autoridade do estado, mas o próprio status quo vigente, que se procura refugiar em realidades alternativas, esperando que o fumo vá ainda dissipando a indignação.

sábado, 24 de junho de 2017

As chamas e as chamadas

Um amigo brasileiro disse-me um dia: "não é possível distinguir a corrupção da incompetência".
A frase deixou-me momentaneamente surpreendido, porque em Portugal há o hábito de culpabilizar a corrupção e desculpar a incompetência. Ele simplesmente acrescentou que no Brasil a situação tinha atingido tais proporções, que tinha ficado claro que era impossível distinguir uma coisa da outra. 
Os sujeitos que entregam 500 milhões de euros do estado, em troca de um sistema de comunicações de emergência cujas chamadas dependem das chamas (do fogo queimar ou não os postes de ligação), mesmo que se tentem fazer passar por idiotas, nunca poderiam deixar de ser acusados de corrupção. 
Mesmo que os idiotas mostrem que não usufruíram de nenhuma compensação, e que nem passaram a ter amigos a emprestar-lhes milhões de euros, um idiota é corrupto ao aceitar tomar decisões contra a mais básica evidência, por muito que invoque pareceres de "peritos", contra o interesse do estado.
Tais idiotas teriam alguma competência, talvez, para ajudar a limpar as matas...

Porém seria injusto isolar o contexto, e não ver o panorama global.
Uma parte do panorama global é mais ou menos ilustrado no filme Goodfellas (1990):

... onde, depois da introdução dos membros do gang, se explicita a filosofia subjacente:
For us to live any other way was nuts. To us, those goody-good people who worked shitty jobs for paychecks and took the subway to work every day and worried about their bills were dead. I mean they were suckers. They had no balls. If we wanted something, we just took it. If anyone complained twice they got hit so bad, believe me, they never complained again.
E é basicamente isto que temos! Os actores de confiança não são muitos... não pela falta de candidatos, mas muito mais pela falta de confiança, e porque o bolo ficaria pequeno sendo dividido com demasiados.
Usando nomes dos "wiseguys", o Nicky Eyes tanto poderia ser secretário de estado da saúde, como depois ser nomeado para administrador de uma construtora civil. O Fat Andy poderia ser CEO de uma empresa nutricionista, depois ministro do desporto, e de seguida regressar à mesma empresa, garantindo pelo meio contratos de alimentação às federações desportivas, etc.

No meio de tal compadrio, e opulência vista de fora, os rapazitos sonham um dia pertencer à pandilha. E entrando, ficam demasiado emocionados com a admissão, para questionar o funcionamento. Se lhes derem um papel para assinar, eles assinam... todos sabem disso, afinal é assim que funciona, e pronto. E os rapazitos contam com apoio, com os pareceres certos, com prémios, se alinharem, porque a malta os apoiará se a coisa der para o torto... mas também devem saber que podem ser sacrificados se a coisa der para o muito torto.

Não se trata aqui de estabelecer quaisquer relações directas com aristocracias, maçonarias, judiarias, máfias ou partidos. O compadrio funciona habitualmente, quando se subentende uma relação de confiança suficientemente grande e estável entre os membros. Por isso, durante muito tempo, a aristocracia que se aproveitava do povo, tentava manter e fortalecer relações familiares, a bem da união do grupo. Quem detinha o poder podia fazer tudo, e os restantes, a populaça, eram apenas vistos como imbecis, alimárias, enredados pela obediência à teia social. O sistema tendia a preservar-se e perpetuar-se, porque as famílias que já estavam instaladas usufruíam da vantagem de deterem o poder, beneficiando por isso da deferência dos restantes. As aparentemente profundas revoluções sociais, em pouco afectaram as relações de poder já existentes, numa lógica "do mudar tudo, para tudo ficar na mesma".

Tal como os sicilianos nos demonstraram, a partir do Séc. XIX, este tipo de controlo local pode ter ramificações globais, instalando-se na imigração que partiu para os EUA durante esse século. 
Mas esse é apenas um exemplo, que estabelece um poder paralelo ao estado, sendo visto como ilegal, e desafiando o poder da lei italiana. Num nível mais sofisticado, a actuação não é ilegal, já que seriam os próprios a fazer a lei à sua medida.

Mesmo assim, dificilmente o topo da cadeia de poder termina em alguém conhecido. O poder sendo visível, revela o alvo, preferindo por isso esconder-se em bastidores de influência, e usar actores conhecidos para aparecerem em sua substituição. Ou seja, organizações mais ou menos conhecidas, como a maçonaria, com os seus rituais e fantasias, servem apenas como uma porta de entrada para um mundo menos visível. Não encerram nada de substancialmente misterioso, nas suas tradições anacrónicas. As tradições, os rituais, as cerimónias, servem muito mais para manter uma aura misteriosa que remete a um poder maior, vindo de tempos imemoriais. Celebrações de mascarilhas, que lembram os tempos dos druidas, não servem para reunir grupos operacionais, mas podem servir para fidelizar os membros, e fazer entender que há poderes maiores, que os ultrapassam.
Uma operacionalidade efectiva, nos tempos que correm, assenta muito mais no campo das comunicações, e será entre grupos de hackers que se recrutam operacionais que permitem implementar políticas, e controlar a informação. Será também entre grupos de marketing e publicitários que se procuram definir programações e manipulações de opinião. Uma associação como a maçonaria serve muito mais para juntar diversas competências distintas dentro de um mesmo contexto, dentro de um mesmo grupo, facilitando o contacto operacional. 

Bom, e tudo isto para quê? - Basicamente, para definir um grupo com controlo sobre a restante população que pode, dentro de poucas restrições, fazer basicamente tudo o que entender. 
Claro que uns utilizam a estrutura para proveito próprio, e esse será o grande aliciante... mas o pretexto será definir o rumo da civilização ocidental, para a manter com predominância global.
Portanto, por um lado, haverá as guerras entre famílias para partilha do bolo, mas o ponto que deixará as cisões mais profundas será na definição do rumo a seguir... coisa que tem gestão simples, no processo de manter tudo como está, ou até em regredir, e que será muito mais complicado na definição de alguma evolução social, como aconteceu desde os Descobrimentos, e em especial na transformação liberal que ocorreu especialmente a partir do Séc. XIX, até à 2ª Guerra Mundial, ao libertar a maioria dos cidadãos da prisão feudal.

O equilíbrio pretendido será manter uma pequena percentagem de predadores para um enorme número de presas. Mas esse sistema só seria estável se a natureza de uns e outros não fosse flexível à mudança. No caso de predadores e presas é a própria natureza que define a condição do corpo, ao passo que a condição da mente sofre mutações apreciáveis, e não há propriamente um problema de estômago em passar de presa a predador, o único estômago que muda é o da disposição moral para perder os escrúpulos. 

domingo, 18 de junho de 2017

A tragédia florestal agravada

Com temperaturas anormalmente quentes para Junho, o incêndio que se estendeu pelos três concelhos orientais do distrito de Leiria - Figueiró dos Vinhos, Pedrogão Grande e até Castanheira de Pêra, teve já um número de vítimas inaudito - 19 mortos (que entretanto passaram a 24), tendo 16 vítimas perecido nas viaturas, no troço do IC8 entre Figueiró dos Vinhos e Pedrogão Grande. 
O presidente da câmara de Pedrogão avançava desde logo uma estimativa muito pior, devido à falta de contacto com aldeias apanhadas no percurso do incêndio, podendo a tragédia atingir dimensões de catástrofe nacional, com o desaparecimento de povoações.
 

A situação de 16 vítimas serem meros automobilistas, apanhados na passagem do fogo por uma grande via de comunicação, mostra que a situação saiu completamente fora do controlo dos responsáveis pela Protecção Civil, Bombeiros, GNR, etc... 
Independentemente da presença no local do secretário de estado, da ministra, e até do presidente da república, não se pode falar em "dificuldade de acesso" ao IC8, pelo menos precavendo que estivesse interrompida a circulação perante a proximidade da passagem do incêndio.
A concentração dos meios de socorro ter ficado a cargo do comando da Protecção Civil (com meios tecnológicos sem par, face a décadas anteriores), em nada parece ter aumentado a eficácia do combate a incêndios... e cada vez mais se refere o negócio do eucalipto, o negócio dos incêndios, e o negócio do seu combate por meios aéreos privados, tornando Portugal num país onde se constata arder mais floresta do que no resto da Europa:

No entanto, apesar destas constatações, uma conjugação do empenho dos bombeiros, do voluntariado, de uma capacidade de lutar em circunstâncias adversas, e de alguma sorte, tinham evitado até aqui um pior cenário... A tudo isto se juntou uma certa resignação das populações ao fado sazonal dos incêndios, que se presumem ser, na sua maior parte, resultado de acção criminosa. Ou então, no habitual processo de remeter a culpa para o cidadão - pela falta de cuidado na limpeza do mato.
Tudo isto pressupunha até aqui... um número de vítimas pequeno, quase sempre bombeiros, e onde com sorte se conseguiam salvar as casas e os civis. Todos esses pressupostos foram hoje abalados.

Com a barragem do Cabril anexa a Pedrogão Grande, nem sequer se poderia falar de dificuldade em abastecer meios aéreos para o combate ao incêndio... se os houvesse, e se não estivessem apenas alguns contratados para um Verão, que ainda nem começou!
Se é um escândalo mundial, Donald Trump não reconhecer o perigo de "aquecimento global", não será maior escândalo esperar que a época de incêndios tenha início em data fixa, esquecendo até os avisos de subida térmica, em particular nesta semana?

Quando a presidência da república tenta minimizar a imagem governativa, fazendo crer que pouco mais poderia ser feito... reconhece uma completa incompetência para agir diligentemente perante uma ameaça sistemática e generalizada, que se verifica todos os anos, e que só foi diferente agora no resultado em número de vítimas.
A responsabilidade deixa de ser de quem coordena os meios ao dispor, e parece passar a ser das populações que vivem em "zonas de risco", e agora até "circulam em risco" (como o inqualificável presidente dos bombeiros tentou descartar). Chega-se ao ponto mínimo do governo, que é o desgoverno, acomodando-se em palavras de lamento e remetendo o desfecho para "situações excepcionais". 
Escusado será pensar que o que é excepcional é a convivência, todos os anos, com incêndios que chegam a consumir metade da área ardida na UE, e que a inoperância governativa em resolver o assunto nem tão pouco pode ser classificada como mera corrupção passiva, é um assunto de completa inoperância da defesa nacional, onde as forças armadas nem cuidam da integridade e segurança da população em território nacional.
A simples constatação que emerge desta tragédia, é que circular, mesmo nas maiores estradas nacionais, passou a ter o risco acrescido de ser apanhado por um incêndio, quando a estratégia nacional de combate a incêndios parece ser uma conformação com um "deixa arder".


Aditamento (às 22h00)
Como todo o país acabou por saber, ao longo do dia, o número de vítimas foi aumentando até se cifrar em 61 mortos e 62 feridos, em especial devido às 30 vítimas apanhadas pelo fogo na EN236.

A atribuição do fogo ter origem natural, numa "trovoada seca", não deixa ninguém mais descansado, pelo contrário... o incêndio foi declarado às 14h00 e só no final da noite, passadas 8 horas, a protecção civil deu conta da dimensão da tragédia. Durante esse espaço de tempo, a reacção dos meios, perante a "rapidez" dos acontecimentos, foi de uma lentidão trágica. Simplesmente as pessoas ficaram cercadas por chamas, fugiram sem ter nenhuma informação, sem terem nenhum apoio, sem saber se iam numa direcção pior ou melhor. Tudo foi deixado ao acaso... e continua a tentar-se fazer passar a ideia de que foi feito o melhor possível - talvez tenha sido o melhor, dentro da incompetência, que continua a funcionar hoje com lógicas de processos usados há 50 anos. Pior que isso, até com simples rádios de pilhas, seria possível manter as pessoas informadas, sobre a evolução dos incêndios, sobre as estradas que estariam ou não sob ameaça... mas isso seria num estado em que a informação não fosse tratada como um segredo vedado à população!
O resultado de se conseguirem cunhas para empregos e cargos políticos na função pública, não se vê nas suas consequências imediatas, é medido pela inoperacionalidade efectiva, por não se poder contar com nada, nem com ninguém, nas situações de emergência. 
Evitando assumir incompetência, a situação adquire outros nomes - imprevisibilidade, excepcionalidade, etc, etc.

Nota adicional (23-06-2017)
As informações iniciais apontavam para o troço da IC8, só depois se passou a falar exclusivamente da EN-236-1. 
De acordo com testemunhos vistos, a situação foi tão singular que a GNR desviou condutores do IC8, que tinha vedado (devido ao incêndio), para a EN-236-1, levando-os a enfrentar uma situação tenebrosa, de onde 47 não escaparam vivos. 
O número de crianças mortas e feridas é significativo, mas os registos de fatalidades falam apenas de 64 mortos e 247 feridos, deixando praticamente claro que a ausência de comunicações do sistema SIRESP, que durou ali praticamente um dia, terá sido a principal razão da desinformação entre os diversos agentes no terreno, elevando o número de vítimas para valores nunca antes registados.
Que o sistema SIRESP funciona muito pior que uma rede de telemóveis, e tinha sido mais uma negociata da politiquice nacional, envolvendo o BPN, está documentado numa antiga reportagem da TVI de Ana Leal:
e envolverá uma boa parte dos políticos do regime, não escapando o primeiro-ministro António Costa, que enquanto ministro de Sócrates, foi quem o introduziu no Estado. 
Pode ver-se na reportagem como os Açores, usando da sua autonomia regional, prescindiram de tal elefante branco, que ao usar cabos de transmissão fica inoperante em qualquer incêndio que consuma os postes e os fios. Vê-se na entrevista o secretário de estado a procurar coagir o governo dos Açores a adoptar o sistema, responsabilizando-o em caso de inoperância, numa calamidade. Pois bem, a inoperância em caso de calamidade ocorreu diversas vezes com o SIRESP, e onde fica a responsabilidade? 
A factura da corrupção BPN, já foi paga em milhares de milhões de euros, chegou agora ao ponto de ser cobrada em dezenas de vidas humanas, e esta sociedade domesticada, mais dócil que um cabrito pascal, continuará passiva?
Parece que sim. Falhando o F de Fátima, por ausência de milagre para as vítimas, devem rezar os políticos ao CR7 para que funcione agora o F do futebol, naquele campeonato lá pelas bandas da Rússia, enquanto o pessoal não esquece. 


sábado, 17 de junho de 2017

O incêndio de Londres

O incêndio ocorrido na madrugada de 14 de Junho, na Torre Grenfell, em Londres, é mais uma situação de grande tragédia que ocorre numa Inglaterra especialmente afectada nestes últimos dois meses.
Perante as imagens da rápida propagação do grande incêndio, que afectou a torre de 24 andares, houve quem questionasse se o prédio iria resistir estruturalmente, talvez por influência de informação errónea, propagandeada como causa de colapsos de estruturas de ferro - e relembramos o assunto do 9/11 que já tratámos. No entanto, mesmo com chamas de proporções gigantescas, consumindo o prédio durante quase 20 horas, também este prédio não cedeu estruturalmente.
Incêndio da Torre Grenfell em Londres (14/06/2017) após 3 ou 4 horas do início. 

De novo, os responsáveis tentaram conter a informação e minimizar a estimativa do número de mortos, inicialmente apontando para 17, depois para 30, reconhecendo só dois dias depois que o destino dos "desaparecidos", não deveria ser dissociado duma contagem final do número de vítimas mortais, ultrapassando uma centena.

Independentemente de considerações sobre a qualidade do novo revestimento, que actuou como um pavio incendiário, tudo indica que o maior número de vítimas ocorreu entre as pessoas que confiaram nas instruções da polícia, aguardando o socorro no seu apartamento, sem procurar escapar quando o incêndio podia ainda permitir uma descida, que salvou os restantes sobreviventes, mesmo dos últimos andares. 
A polícia terá seguido o manual de instruções de emergência para o edifício, sem cuidar que os pressupostos eram verificados. Apesar do prédio ter sido inspeccionado pelos bombeiros na semana anterior, estas inspecções de rotina são muitas vezes uma burocracia de assinaturas.
Facilmente as pessoas depositam a sua confiança no sistema, tanto mais quanto é complicada essa burocracia, fazendo-as crer num grande cuidado e controlo profissional. Essa confiança na polícia foi aqui testada ao ponto de irem contra o bom senso, que seria abandonar o edifício rapidamente. 

Certamente que haverá responsabilidades apuradas a posteriori, mas o sistema não quererá reconhecer responsabilidades a priori - ou seja, que os habitantes deveriam obedecer às instruções policiais, sem questionar a sua lógica, quando o bom senso indicava um caminho oposto - o caminho de se porem a salvo do progresso das chamas.

O Grande Incêndio de Londres em 1666 mudou por completo a percepção da sociedade inglesa, levando a grandes transformações na sua organização. Tratando-se este de um incêndio restrito, e reduzido a um prédio, não deixa de mostrar falhas graves, aplicáveis a tantos outros edifícios do mesmo tipo, que simplesmente não permitem o socorro a vítimas encurraladas em andares superiores, até porque as maiores escadas de bombeiros chegam apenas até 10 andares, quando outros meios não são viáveis.

terça-feira, 6 de junho de 2017

A bala da lei

É bastante mais provável alguém ser morto por um polícia do que por um terrorista... 

Esta foi a conclusão de um estudo nos EUA, que contou por base em registos oficiais, 8882 mortes pela polícia americana (supostamente mais de metade desnecessária), à data (2016) e desde o 11 de Setembro. A média ronda as 1000 mortes por ano, o que levou a que um analista tivesse dito em 2012 que era 8 vezes mais provável ser morto por um polícia, do que por um terrorista. Ou como, Snowden terá dito, era mais provável morrer pela polícia, ou até pela queda na banheira, do que por um terrorista.
No entanto, as mudanças para leis que infernizaram a vida dos cidadãos exigia um argumento persistente de medo, e uma forma eficaz de o passar - os jornais e as televisões.

No passado sábado, as televisões (SIC-N, RTP-3) interromperam a programação habitual para iniciar em directo a transmissão de mais um episódio da série de "terror". Começou a história por ser um atropelamento com feridos, e antes de qualquer notícia de mortes ou esfaqueamentos, logo toda a programação parou... o que é especialmente caricato em Portugal, que nunca teve qualquer registo terrorista, e onde o atropelamento mortal é uma tragédia constante das nossas estradas. Simplesmente foi dado o aviso noticioso internacional de que aquele caso era para reportar, e as televisões cumpriram imediatamente o seu papel obediente.

É notável que a posteriori, passados quase 3 dias sobre o incidente, contadas 7 vítimas mortais (para além dos 3 atacantes), apenas se conhece a identidade de duas delas - uma noiva canadiana atropelada, e um francês esfaqueado (ver por exemplo, Who are the victims of the London attack?). Procurei saber ontem, e os vários artigos que vi, que falavam das vítimas, faziam praticamente o mesmo - davam a história da noiva com detalhe, e ignoravam por completo o que se tinha passado com os restantes, enrolando a notícia com factóides. 

Ora, não me parece que seja muito difícil distinguir, em poucas horas, entre quem foi atropelado e quem foi esfaqueado, mas não havia informação acerca da causa da morte das restantes vítimas.
Ao contrário, havia a informação de que a polícia tinha feito uma vítima com um tiro na cabeça, e de que os agentes policiais tinham descarregado as armas sobre o local do ataque, havendo 18 feridos ainda em estado grave, sem ser especificada a causa.
Parece haver algum embaraço policial em identificar "quem foi vítima do quê"... mas é fácil distinguir ferimentos de balas, de facas, ou atropelamentos... quando os atacantes apenas teriam facas. Ao manter tudo em segredo, com cumplicidade de não inquirição pelos órgãos de informação, seria de questionar se a maior parte das vítimas não poderá ter sido causada pela própria intervenção policial... independentemente do tiroteio (relatado pela própria polícia como "tiroteio sem precedentes") ter sido mais ou menos justificado.
Não encontrei nada num sentido ou noutro, mas passando o período de 48 horas em que o caso é notícia de primeira página, entra-se numa selecção noticiosa ainda maior do que será sabido, e do que ficará por saber... e parece que este caso tem todo o aspecto de ir deixar muita coisa por saber.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

FFF

O tripleto Fátima, Fado e Futebol, fazia os auspícios do sucesso nacional nos anos 60.
Em particular, em 13 de Maio de 1967, na altura das comemorações dos 50 anos de Fátima, ocorre a primeira visita de um Papa a Portugal, por outro lado, no Futebol, o sucesso da selecção de 1966 com o 3º lugar no campeonato do mundo, ou as vitórias do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, emparelhavam com o Fado, no sucesso internacional de Amália Rodrigues, nas digressões de 1966 e 68, que incluíram a França e os Estados Unidos.
Também havia o Hóquei em Patins, mas como Portugal e Espanha partilhavam sucessivamente os títulos mundiais, foi modalidade que nem sequer conseguiu obter o estatuto olímpico. Os países ibéricos não percebiam que não lhes seria outorgada mais nenhuma divisão do mundo, em nenhuma modalidade. Digamos que não tiveram o bom senso de deixar à França e Inglaterra obter uns sucessivos campeonatos, para integrar a lista do elenco olímpico, e só depois dessa integração autorizada é que manifestariam a sua supremacia...

Bom, mas este tripleto FFF, voltou a ocorrer a 13 de Maio de 2017, numa altura em que eu estava por outras paragens do oriente, onde o assunto passou completamente despercebido. 
Se a visita do Papa Francisco na comemoração dos 100 anos de Fátima estava prevista, já a vitória do Festival da Eurovisão foi uma completa surpresa, a que se juntou o inédito quarto campeonato consecutivo do Benfica, um ano depois de Portugal ter vencido o Campeonato Europeu... tanto mais que o treinador benfiquista iniciou o seu sucesso no clube de Fátima, e Rui Vitória sagrou-se campeão vencendo o Vitória, o clube de que era treinador antes de ser contratado pelo Benfica. Para completar a coisa, o intérprete da canção vencedora, sendo Salvador, tinha o nome apropriado à mensagem de Fátima.

Se na comemoração dos 50 anos, a invocação do FFF tinha o problema de Portugal não ter ganho nenhuma competição, e em especial o Festival da Eurovisão, que era coisa na altura tão desejável quanto um campeonato de futebol, nesta comemoração dos 100 anos, foi o tripleto completo, ao ponto de coincidir a satisfação no mesmo dia, para os cristãos benfiquistas.

A junção dos 3 eventos nesse sábado de 13 de Maio, não sendo milagre, deu todos os ares de parecer ser uma revelação do 3º segredo, não fosse conhecerem-se os arranjinhos do Festival da Eurovisão, e em não muito menor escala, do futebol nacional e internacional.

Para quem apreciar, fica aqui a comparação entre 1967 e 2017:
Eduardo Nascimento - "O vento mudou" (12º lugar, Eurovisão, 1967) 

Salvador Sobral - "Amar pelos dois" (1º lugar, Eurovisão, 2017)

No final, na performance do vencedor, Salvador convida a irmã, e diz no meio da canção (5:25):
"Um abraço para Portugal!.... isto estava tudo comprado, na verdade!" 
... ou, menos ironicamente, como Luísa Sobral referia em 2011, 

... ou como é salientado na wikipedia: «This was Portugal's first win – and first top five placing – in 53 years of participation, the longest winless run by a country in Eurovision history.» 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Pré visões de Fátima

Comemora-se em 1917 o centenário de Fátima, mas também o centenário da revolução bolchevique em 25 de Outubro, e da tomada de poder por Sidónio Pais em 12 de Dezembro. 
Mas, antes disso, mais marcante em Portugal terá sido o envio do Corpo Expedicionário para a 1ª Guerra Mundial, que pouco depois de chegar tem uma baixa, em Abril de 1917 - o soldado António Gouveia Curado, o único a fazer a capa na Ilustração Portugueza (revista associada ao jornal Século) a 14 de Maio de 1917.
Ilustração Portugueza  capa em 14 de Maio de 1917.

Como é óbvio, a data 13 de Maio de 1917 só teria importância depois de se espalhar a notícia das aparições de Fátima, e só constará de referências (algo jocosas) na revista Ilustração Portugueza (na parte Século Cómico) em Outubro de 1917.
"A aparição da Virgem" - Notícia do Século Cómico - 22 de Outubro de 1917

Reportagem na Ilustração Portugueza de 29 de Outubro:

Curiosamente, no entanto, houve anúncios em jornais que anteviram a data 13 de Maio de 1917.
O Diário de Notícias, ao comemorar-se o centenário, noticiou de novo o assunto.
A 10 de Março de 1917 (dois meses antes) aparecia no espaço publicitário um muito pequeno anúncio com o número "13 5 917" (13-5-917) dizendo:
135917 
Não esqueças o dia feliz em que findará o nosso martírio. 
A guerra que nos fazem terminará. A. e C."

O Diário de Notícias publicou a notícia referindo o anúncio:

Não se trata propriamente de uma novidade, mas não tinha visto o anúncio em particular. 
Aliás, este anúncio foi repetido em outros jornais (Jornal de Notícias, Primeiro de Janeiro, Liberdade), insistindo no dia 13 de Maio, e no tema do final da guerra. 
O anúncio foi enviado por uma sociedade espírita, onde A. corresponderia a um certo "António" - elemento do Porto que envia para os jornais dessa cidade, e o C. corresponderia ao cantor Carlos Calderon, que estará ainda ligado à fundação da Sociedade Portuguesa de Autores. Esta informação é dada pelo Diário de Notícias, na sua investigação sobre o assunto.

Outra notícia, que aparece no Jornal de Notícias, é publicada justamente na edição de 13 de Maio (no dia das primeiras aparições), e diz o seguinte:
________________________________
A guerra e o espiritismo 
Revelação sensacional
Recebemos ontem um postal cujo texto passamos a reproduzir:
   Porto, 11 de Maio de 1917
   Srs. Redactores
   Foi participada pelos Espíritos a diversos grupos espíritas que no dia treze do corrente há de dar-se um facto a respeito da guerra que impressionará fortemente toda a gente.
  Tenho a honra de me subscrever Espírita e dedicado propagandista da verdade - António.


Acresce uma mensagem assinada por uma Stella Matutina (estrela matutina - Vénus), metade escrita em reflexo, dizendo "Sempre a vosso lado tereis os vossos amigos que guiarão os vossos passos e vos auxiliarão na vossa tarefa. Ego sum Charitas" e outra parte dizendo "A luz brilhante da Estrela Matutina vos alumiará o caminho. Stella Matutina"

Coincidência ou não?
Pode pensar-se no descontentamento crescente na sociedade portuguesa, devido ao envio de forças militares em Fevereiro de 1917 para a frente de batalha comandada pelos ingleses. 
Esse descontentamento foi um dos motivos para a revolução liderada por Sidónio Pais, que ocorreria em Dezembro de 1917, e que instalou uma "segunda república", permitindo a eleição directa do presidente da república.
No início de 1917 os sectores mais religiosos portugueses estavam fartos de uma perseguição sofrida com a implantação republicana, e poderiam ter sido estes a apoiar e financiar um golpe de estado interno.

É tese antiga que todo o contexto das aparições de Fátima poderá ter sido encenado por movimentos religiosos, ligados à Igreja Católica, ainda que não oficialmente... tendo em vista um recuperar do sentimento religioso da população, levando a uma mudança de regime - que ocorreu de facto nesse ano, e a revolta de Sidónio terá tido grande apoio popular.
Se tal coisa foi preparada nos bastidores, pois será de considerar que a data de 13 de Maio circulasse, e pudesse fazer parte de previsões "espíritas", ao ponto de figurar como notícia em jornais.

A substituição de Lúcia
Dos "três pastorinhos" associados às aparições, apenas sobreviveu Lúcia. Se a Igreja Católica não se associou ao fenómeno no início, mais tarde, especialmente após a mudança de regime com a instauração do Estado Novo em 1926, veio a associar-se de forma clara às peregrinações a Fátima, cada vez em maior escala, na construção de um sumptuoso santuário.
Fotografia de Lúcia dos Santos (nos anos 40)

Lúcia foi colocada sob reclusão quase total, tendo praticamente contacto nulo com o resto da sociedade, e sendo as suas visitas alvo até de decisão papal. Acontece que há uma clara mudança do rosto que aparece nas fotografias antes e depois de 1960 (altura do Concílio do Vaticano II).
Isso tem levado a teses de que houve uma substituição, por possível morte da Lúcia original, antes de 1960 - veja-se por exemplo o site www.igrejacatolica.org/irma-lucia-impostora

Mas não haverá grandes dúvidas que estamos na presença de uma mudança de identidade. Os rostos da Lúcia original e da Lúcia posterior, apesar de exibirem alguma semelhança genérica, são mesmo muito diferentes, e a sósia não foi bem escolhida. Uma análise detalhada pode encontrar-se aqui:

 ... mas é especialmente fácil verificar que as bocas são completamente diferentes. A Lúcia original tinha um lábio inferior saliente, que nada tem a ver com os lábios praticamente inexistentes da substituta encontrada. Diria mais que isso, estamos a falar de pessoas que seriam de índoles diferentes... e se é possível olhar para o retrato da Lúcia anterior, e ver aí até alguma bondade latente, tal parece falhar por completo no rosto substituto.

Fátima acabou por servir durante um século turbulento a inúmeras especulações. Apesar de Lúcia ter sido retirada para um convento em Tuy, não se lhe conhecem previsões sobre o morticínio espanhol na guerra cívil, e as previsões da segunda guerra mundial são algo adaptadas às circunstâncias.
As referências ao comunismo, ocorrem apenas numa visão de Lúcia em 1929. É ainda significativo referir que houve visões anteriores de um "anjo", reportadas aos anos de 1915 e 1916, mas só as do ano de 1917 mereceram referência especial posterior, por incluírem a Virgem.

terça-feira, 25 de abril de 2017

A revolução do dia de São Marcos

Há poucas semanas, morreu um dos capitães envolvidos no 16 de Março de 1974... tratava-se do capitão Virgílio Varela, e conforme consta da notícia da sua morte, ficando então preso, o próprio foi avisado que em breve estaria livre:
"No dia 9 de abril, na prisão, veio um soldado oferecer-se para me cortar o cabelo. Achei estranho, não era habitual. Sentei-me na cadeira e o barbeiro sussurrou-me ao ouvido: 'O compadre do meu capitão diz que vai jantar consigo no dia dos seus anos'. O meu compadre era o capitão Alberto Ferreira e sabia bem o dia dos meus anos: 27 de abril", afirmou.
A coluna das Caldas avançou para Lisboa, a 16 de Março, tal como a coluna de Santarém, depois veio a avançar para Lisboa no dia 25 de Abril, liderada por Salgueiro Maia, possibilitando o jantar aos compadres no dia 27, conforme prometido.
Agora, há uma diferença assinalável, que creio ter passado desapercebida aos promotores do golpe das Caldas - o dia de São Marcos, padroeiro de Veneza, era a 25 de Abril.

A sublevação das Caldas pode ter sido uma precipitação de oficiais que não terão entendido que o golpe caseiro estava a ser urdido, com calma e ponderação, muito fora das suas fronteiras. Uma coisa teria sido a não participação e demissão de Spínola e Costa Gomes, no dia 15 de Março, após a convocação da "Brigada do Reumático" (ver cronologia), outra coisa eram planos feitos a longo termo.
Assim, as forças saídas das Caldas, sem ninguém a acompanhar o golpe, voltam para trás, para o quartel, onde assumem uma posição defensiva...

... até à rendição negociada entre o brigadeiro Serrano e os majores Casanova e Monge, o que levaria à prisão cerca de 200 insurrectos:
Imagens do livro "Portugal en revolución" (1977) de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso.

Bom, mas talvez uma melhor descrição dos preparativos que se faziam nos bastidores, e que levaram a que revolução estivesse planeada para Abril, e não pudesse ocorrer em Março, possa ser entendida pela descrição feita na revista espanhola "Gaceta Ilustrada" em Maio de 1974 (transcrição retirada daqui):
“Discretamente, ao amanhecer do dia 25 de Abril, as unidades militares da NATO, chegadas no dia anterior ao porto de Lisboa, deixam o Tejo com rumo ao Atlântico e regressam às suas bases. Trata-se de navios, incluindo submarinos, de alguns dos onze países atlânticos que deveriam tomar parte no grande exercício aeronaval “Dawn Patrol 74”, programado para o dia 26, no Mediterrâneo e na costa atlântica, com operações submarinas, de defesa aérea e de assalto de forças inimigas. Aviões ingleses e norte-americanos, destacados para as manobras, encontram-se estacionados na base do Montijo, a trinta quilómetros de Lisboa. Mas um pouco antes da Junta derivada do golpe anunciar a mudança de regime, através da televisão, as manobras atlânticas foram anuladas: os navios portugueses que estavam no alto mar puderam assim voltar ao Tejo e ancorar pacificamente em frente a Lisboa. Às quatro horas da tarde, o comando da Marinha estava em condições de proclamar a sua adesão à Junta de Salvação Nacional.
  Esta foi uma das muitas manobras secretas, ocorridas nos bastidores, que acompanharam a queda do regime de Caetano. Nos dez dias que precederam o golpe ocorreram outros factos determinantes que agora estamos em condições de revelar. Estes factos provam que o Golpe de Estado conseguira o seu objetivo antes da noite do 25 de Abril; do mesmo modo mostram quais eram os apoios internacionais de que gozava o general Spínola.”
  “No plano internacional, o general Spínola volta a reativar os contactos internacionais que já tinha solicitado, quando conjuntamente com Caetano pensava em reformas.”
  “Nos primeiros dias de Abril, os seus pontos de contacto nas capitais mais importantes do Ocidente obtêm as mesmas respostas. Os financeiros: “Sim, seria bem-vinda uma solução política do problema colonial português”; os políticos: “Sim, uma liberalização controlada do regime português facilitaria a sua integração na Europa.”
  “Em Roma, monsenhor Pereira Gomes, chefe da ala liberal da igreja portuguesa, defende o plano de Spínola, perante o cardeal Villot. Pereira recebe estímulo do Santo Padre, muito preocupado quanto à paz e bem-estar dos seus filhos africanos. A tensão entre o Vaticano e Lisboa por causa das atrocidades de guerra em Moçambique e da expulsão dos missionários deu os seus frutos
.”
Portanto, vemos que para além da presença de grandes forças da NATO, as negociações envolviam o seu aspecto ecuménico, com o Vaticano dando a benção revolucionária.
Outro aspecto, é ainda a reunião do grupo Bilderberg, que dará a benção dos cravos, e da finança internacional:  
"Resta apenas o problema da NATO: Spínola promove o contacto com o próprio Secretário da Nato, Joseph Luns, [através] de um dos seus amigos da Finança — o Director dos Estaleiros Navais Portugueses, Lisnave, Thorsten Anderson — que participa em Megève, França (de 19 a 21 de Abril) numa misteriosa reunião de importantes homens da política, da diplomacia e do mundo dos negócios internacionais reunidos num igualmente misterioso clube: o Clube de Bilderberg. 
De 19 a 21 de Abril, Megève é zona vigiada pela polícia francesa como se o visitante fosse um Chefe de Estado. De facto, no Hotel Mont Arbois, propriedade de Edmond Rothschild, reúne-se a flor e a nata da política e das Finanças ocidentais. A reunião é discreta, à porta fechada: os jornalistas não falarão dela; mas é ali que será decidido o destino do mundo ocidental. Desde 1954, e do dia da primeira reunião no Hotel Bilderberg, na cidade holandesa de Oosterbeek, sob a presidência do Príncipe Bernardo da Holanda, que os homens mais influentes do Ocidente se reúnem anualmente para estudar a situação 'política e financeira e estudar ou aprovar programas para o futuro'.
Bastam os nomes dos participantes daquele ano na reunião do Clube para que possa compreender-se a sua importância. São os seguintes: Nelson Rockefeller, Governador do Estado de Nova York; Frederick Dant, Secretário Norte-Americano do Comércio; General Andrew Goodpaster, Comandante das Forças Aliadas na Europa; Denis Healey, Ministro da Fazenda inglês; Joseph Luns, Secretário Geral da NATO; Richard Foren, Presidente da General Electric na Europa; Helmut Schmidt, Ministro da Fazenda alemão, actualmente chanceler, após a demissão de Brandt; Franz Joseph Strauss, definido como homem de negócios alemão; Joseph Abs, Presidente do Deutsche Bank; Guido Carli, Governador do Banco de Itália; Giovanni Agnelli, Presidente da Fiat; Eugénio Cefis, Presidente da Montedison e além destes Thorsten Anderson, homem de negócios português que sonda Joseph Luns sobre as possíveis reacções da NATO perante a possível mudança de regime em Lisboa.
A resposta de Luns, certamente positiva, vem a ser confirmada pelo comportamento, já citado no início, dos navios da NATO defronte da capital portuguesa durante as primeiras horas do golpe de Estado. A sua presença actuou como um silencioso dissuasor contra quem, entre os generais ultras, tivesse tentado opor resistência a Spínola. Os generais sabem da presença dos navios e sabem muito bem interpretar a sua saída de Lisboa na madrugada de 25 de Abril. É evidente que a NATO julga saber quem são os iniciadores do movimento, conhece o seu programa e aprova-o. A reunião do Clube de Bilderberg cumpriu os seus objectivos e neste momento Spínola tem o caminho livre
".
No livro "Os planos Bilderberg para Portugal", Rui Pedro Antunes dá a este episódio o nome:
- "Nem Abril escapou a Bilderberg" (pág. 176)

... mas sejamos claros, é óbvio que nada terá havido de muito significativo decidido em Megève, França, 5 dias antes da revolução ocorrer. Há muito que estava planeada a passagem da NATO por Lisboa, e a única questão seria ter o "ok" definitivo à operação... o resto seria a festa de flores.
Por isso, até o soldado que cortou o cabelo ao capitão Virgílio Varela, sabia a 9 de Abril que a revolução tinha já a data marcada - que seria o dia de São Marcos, tão caro aos banqueiros venezianos.

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Nota adicional (28 de Abril de 2017):
Festa del bocolo (do botão de rosa vermelha) - Veneza, 25 de Abril de 2014

Acerca do dia 25 de Abril, de cravos, papoilas, bilderberg, etc... ver também: