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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nebulosidades Auditivas (10)

The ancient sages said: 
"do not despise the snake for having no horns, for who is to say it will not become a dragon?"
So, may one just man become an army. 
Li Chung, o Justiceiro (The Water Margin)

Nearly a thousand years ago in ancient China, at the time of the Sung dynasty, there was a cruel and corrupt government. These men riding are outlaws - heroes - who have been driven to live in the Water Margins of Liang Shan Po, far to the south of the capital city. Each fights tyranny with a price on his head, in a world very different from our own. The story starts in legend even then - for our heroes, it was said, were perhaps the souls reborn of other, earlier knights...

Sandokan
Houve um tempo em que foi criada uma cultura comum em Portugal. A monolítica RTP impunha isso.
Poderia ver-se ou não televisão, mas quem via, via o mesmo. Desde 1957 até 1992 foi assim, e o que "dava na televisão" era uma cultura comum, só perturbada pela recepção satélite, já muito no final dos anos 80 (por exemplo, a Eurosport só começa em 1989).
Se o monolitismo era uma desvantagem, foi criada uma base cultural comum.
Passaria pela cabeça de alguém o vizinho nunca ter ouvido falar de Sandokan, o Tigre da Malásia?
Kabir Bedi, o actor indiano de Bollywood escolhido pela RAI para Sandokan.

Há pouco tempo falava-se da Irlanda como "Tigre Celta", dado o seu florescimento económico, antes do colapso de 2009... mas para uma geração, o Tigre era da Malásia, e era Sandokan, o personagem de Emilio Salgari, pirata de barcos e não de aviões, reavivado pela RAI numa série com imenso sucesso popular.

Hoje em dia, o Sandokan poderia dar no AXN, na Fox, ou num dos múltiplos canais de cabo... cada qual vê o que quer, o que é bom, mas perde-se a ligação aos outros, por via de uma cultura comum.

Lagardère
Essa cultura comum criava expressões que ainda hoje se usam, por exemplo - "foi feito à Lagardère".
A série francesa, com o espadachim Lagardère, foi um exemplo de grande sucesso que talhou expressões dificilmente entendíveis pelas novas gerações. Percebem, pelo contexto... 
Porém, se a expressão se mantiver, será que daqui a umas décadas não é mais natural o nome ser associado a Jean Luc Lagardère, industrial da empresa militar Matra, que "subiu à Lagardère" e morreu estranhamente, quando se investigavam ligações ao 9/11. Ou entre nós, será associado a Lagarde do FMI?
As associações são assim um entendimento comum, próprio de uma época, e nem sempre passado do passado para um presente. Podem facilmente prestar-se a confusões, mas também essas confusões podem ser meias verdades. Se alguém disser que a referência a Lagardère é de uma peça "O Corcunda" (Bossu) de Paul Féval (1858), está certo, mas não será compreendido por quem sabe que a ligação vem da série passada na RTP no início dos anos 70, e desconhece que essa série se inspirava por sua vez nos folhetins de Paul Féval.
Ilustração do romance "Bossu", com Lagardère.

Por isso, haverá muitas associações que aqui escrevo que podem ser consideradas à Lagardère... ou seja, um conhecimento parcial da conexão não pode inibir outro tipo de conexões. Não há conhecimento para as refutar, e por isso não devem ser consideradas como certas ou erradas, uma tentação simplista inquisidora, mas devem ser simplesmente vistas pelo nexo que podem exibir.

Nexo do Ó
Dou o exemplo com a própria palavra "nexo"...
A etimologia conhecida é interessante e está aqui, remete a nexum, de ligar ou atar, e remete ainda ao nó, nodus, que teria raiz indo-europeia em "ned", com o mesmo significado de atar.
Isso é uma explicação, muito boa. 
Porém, ao olhar para "n-exo" vejo imediatamente a negação de "exo", do exterior.
Assim, à Lagardère, faço a associação de que "nexo" nega o externo... invoca uma ligação interna, do próprio, do grupo, da comunidade. 
Uma não anula a outra, aliás complementam-se.
Quando se invoca o externo, desconhecido, não se produz nenhum nexo. O nexo é interno para poder ser explicado aos outros, e não se resumir a uma experiência individual, que envolve o inexplicável.
Plicar é pôr entre plicas, entre pregas, enquanto explicar é atirar fora essas plicas.
Por isso há uma diferença entre pregar e explicar. Num caso pretende-se cravar com um prego, enquanto no outro se tiram os pregos da palavra e se procura abri-la à compreensão.
Mais, o "n" não deve ser associado apenas à negação, foi usado na contracção, por exemplo "em o" passou a "no". Assim, o nexo está no exterior, é a nossa construção do exterior, mas é feita de dentro para fora... sob pena de nos colocarmos nós de fora.

Por outro lado, quando temos "nós" e não "nodos", vemos que a raiz indo-europeia passou entre nós mais para "nódoa". Somos nós, mas não estamos atados. A primeira pessoa do plural é nós, mas a primeira pessoa do singular não é nó... isso seria uma nódoa.
A nossa língua é tão primeva que aponta o simples Ó como sinónimo da gravidez (caso das invocações à Nossa Senhora do Ó). O nó do cordão umbilical, fim do Ó, terá sido o primeiro NÓ, e os que tinham esse cordão umbilical atado, saídos do ÓS, eram os NÓS. 
Por isso cada um dos nós ficou solto... mas tem um útero comum - a Terra, que delegou uma parte do crescimento num útero das suas filhas mães, até que estivessem prontos para o universo-terrestre, ou seja um U-Terra, u-tera, utero... E se a Terra armazenou Gigabytes de informação no DNA, acima disso temos os Terabytes - e esses Terra-bytes informativos já não estão no DNA, estão em nós - nos nós saídos dos Ós, que não se fecharam num O e começaram a definir o U pela linguagem. 
As borboletas parece que já sabem disso.

Li Chung
Bom, mas alongo-me sempre.
Voltamos a Li Chung.
Não perdia um episódio... e apesar de já não me lembrar de nenhum, a música de Masuru Sato ainda me tocou, e por isso fica classificada mais pelo lado sonoro.
Também não tinha esquecido as figuras algo atrozes, dos textos antigos chineses, que mostravam temíveis barbudos, vistos na introdução. Lembrei-me disso, pela referência que o José Manuel fez à figura peluda que aparece num prato de D. Manuel, sobre os povos do mundo:
... não sei se o barrete é frígio, ou se tem apenas dois dedos, ou se está a fazer um sinal, hoje muito corrente, e que representa vulgarmente "uns cornos". A existência de homens peludos não é estranha, é muito mais estranho não termos pêlos! Sobre isso já falei, remetendo a possível ligação às ilhas oceânicas. Os haplogrupos parentes do R, ou seja N, O, Q, são mais imberbes que os europeus... o que pode indiciar a tal mistura que se foi dar na Europa.

A história reportada a Li Chung é da Dinastia Song, que tanto passa por ter um florescimento cultural na sua capital Kaifeng, ao longo dos séculos X a XIII, como depois sofre uma degradação acentuada, pelo poder que os funcionários burocratas exerciam localmente, fora do controlo central.
É aí que entra Li Chung e os 108 espíritos rebeldes que vão ficar à margem, na margem do rio Lian Shan Po. A história de "Water Margin" faz parte de 4 contos essenciais da literatura chinesa, mas a série televisiva é de origem nipónica, ainda que filmada na China.

Há um ponto importante, pois podemos ver que esse florescimento da Dinastia Song tem um toque hindú, budista. Mais, atraiu muçulmanos (havia mesquita em Kaifeng) e atraiu judeus (havia sinagoga em Kaifeng). Por isso, muitos séculos antes dos descobrimentos, as comunidades judaicas e muçulmanas iam da China a Portugal. O pretenso afastamento oriente-ocidente não seria mais do que uma imposição que servia intermediários. Apesar do desenvolvimento técnico, nomeadamente em armas de fogo, com a invenção da pólvora, a Dinastia Song é travada pelos burocratas e pelos cavaleiros mongóis de Genghis e Kublai Khan... e é nessa altura que recebe Marco Polo, vindo de Veneza.

O que me interessa mais é que como adolescente me identificava perfeitamente com os heróis de uma cultura estranha, que deixava de ser estranha por essa abertura cultural que se deu nos anos 70. Já não havia índios e cowboys da infância, apenas chineses, mas havia uns maus e outros bons... e nada tinha a ver com a cultura, pois isso eram valores humanos universais. Simples.

Kung Fu
Houve uma abertura a oriente, passavam a ser moda as artes marciais, Bruce Lee foi um ídolo de uma geração, e houve também uma série marcante - Kung Fu.
Kung Fu (com David Carradine) - (Kung Fu Tao)

Em Kung Fu, muitos poderiam fixar-se nas cenas marciais, e certamente esse era um lado popular, mas também alguma sabedoria oriental dos monges de Shaolin ficava ao alcance da população.
Uma filosofia que ao invés de se esconder em intragáveis definições feitas nas universidades ocidentais, procurava despertar questões complexas de forma simples.
Não sei se ficou alguma coisa, mas revendo o vídeo parece-me que sim...

Um último detalhe, e que é importante, quando se começa a prestar atenção aos detalhes da natureza que, conforme é dito pelos monges de Shaolin, exibe harmonia. Quanto mais se entendem as harmonias, os detalhes, tudo começa a parecer relacionar-se... e pode parecer bom conseguir ouvir o inaudível, mas também é bom o silêncio. Por isso, em certas alturas, já tive que ouvir música em línguas desconhecidas, simplesmente porque é preciso desligar as conexões. O simples silêncio não serve porque nos remete aos nossos pensamentos, é mesmo preciso o caos exterior para que se recupere o necessário silêncio interior.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Questão do QU

Há um problema de longa data com o C.
CE não é QUE, CI não é QUI.
Pode ser da lua crescente, ou minguante... se mente, mas está presente.
Por herança latina, o Q não aparece isolado, associa-se inevitavelmente ao U.
É esta a Questão do QU.
QU ... ME    (on/off)   CG ... 3W

A razão parece ter-se perdido no tempo... os romanos não usaram o K grego, que afinal não resistiria também ao uso como som "s" em derivados de "kine", como seja cinema ou cinemática (ainda que os ingleses usem o som "k" em kinematics).

Os romanos usavam sempre o Q associado ao U, e assim se manteve em toda a tradição ocidental.
Curiosamente, uma pequena rotação mostra uma ligação a outro par C-G, que deu para muitas variações linguísticas (... por exemplo, entre o Porto Galo e o Porto Calo).

É habitual usar hoje um símbolo "on/off" juntando "OI" denotando a opção:

  • O - zero - desligado (off)
  •  I  - um - ligado (on)

O símbolo "on/off" ficou um "Q" invertido... creio que a opção de não usar o Q normal pode ter sido puritanismo sexual, já que poderia parecer um fálico Ï inserido numa cavidade O
Com os restantes, M e E, ou 3 e W, digamos que a inserção vai mais longe, não deixando nada de fora.

Com ou sem puritanismo, a questão do QU, foi herdada de tempos romanos para a época medieval, e o "Q" é uma letra tipicamente reservada para questões... Quê? Qual? Quem? Quanto? Quando?

Podemos ver que o Q remonta a uma letra fenícia:
Qoph (fenício), Qoppa (grego). 

o Qoph aparece com grafia semelhante a um "phi" grego, e o Qoppa grego acabou abandonado em favor do kappa.

A ligação do Q ao G aparece como notória quando escrevemos caligraficamente em minúsculas as letras "q" e "g", algo que já foi claramente uma herança vinda de tempos medievais. É dito que por vezes se escreveria "eqo" para "ego", mas a regra do "qu" impediria tal tentação redutora:
In the earliest Latin inscriptions, the letters C, K and Q were all used to represent the two sounds /k/ and /ɡ/, which were not differentiated in writing. Of these, Q was used before a rounded vowel (e.g. 〈EQO〉 'ego'), K before /a/, and C elsewhere. Later, the use of C (and its variant G) replaced most usages of K and Q: Q survived only to represent /k/ when immediately followed by a /w/ sound.  
Q" Oxford English Dictionary, 2nd edition (1989) 
Qual o interesse de reportar aqui a questão do QU?
É claro que o assunto por si tem piada, como há muitas coisas que têm piada, e servem para curiosidades jocosas em redes sociais. No entanto, como (quase) tudo o que aqui coloco, o interesse vai muito para além da simples aparência imediata.
Ficou claro que "falo" não apenas na "fala".
Já tinha reportado a questão do "OU", agora reporto a questão do "QU", havendo apenas uma "perninha" I inserida no fecho O, passando a Q.

Poderia resultar tudo de invenção humana, e haveria muito tempo para elaborar perniciosamente tais malabarismos encriptados. Porém, parece-me que não... é muito mais que isso. É muito mais um problema alfaborboleto... O símbolo "on/off" só recentemente apareceu estilisticamente como um "Q" invertido, e se houvesse razões antigas seria natural que tivesse sido assim popularizado antes.

Por outro lado, há efectivamente ligações a palavras e a imagem do Qoppa lembra-nos a taça (copa) e as próprias copas das árvores... tal como o símbolo Qoph pode lembrar a chave de "cofre". Afinal o próprio processo de fecho envolve uma entrada na fechadura, onde se insere a chave, tal como o Q pode ser visto na forma "IO".

Só que, ainda que haja intenção humana na representação consciente, há um arrasto inconsciente que surge das ligações abstractas. Porque o simbolismo de chave e fechadura transcende a mera posse casual. De forma semelhante, há interpretações para além da imagem literal num tronco que ramifica em copa, ou num pé que sustenta o conteúdo da taça. Essas interpretações são, por exemplo, biológicas e estruturais.

Se liguei a questão OU a uma dualidade universo fechado/aberto com solução É, o acento passou aqui para uma entrada no fecho O... e é essa a questão QU. Biologicamente, a evolução foi feita com chaves de DNA, transportadas por cabecinhas espermatozóides, na forma de Q com rabinho nadador. De entre todas as possibilidades, apenas um levava a chave que abria o duro fecho da fechadura, formando o OVO. Até aqui a palavra "ovo" remete à simbologia de junção de dois "o" (poderia ser também "OUO"), um de cada progenitor.

Por outro lado, na imagem do tronco que deriva em copa, encontramos ainda a imagem estrutural de uma árvore que ramifica na sua descendência. Ora, se é do tronco comum da árvore que surgem nos ramos os frutos, semente para nova descendência, também é do tronco fálico que é emitida a semente para a nova descendência.
Com uma diferença considerável... cada árvore é apenas elemento masculino.
Onde está o elemento feminino na reprodução (assexuada) das plantas?
Podemos vê-lo como sendo toda a Terra.
Nesse sentido a Terra é o candidato a enorme útero por onde vagueia o sémen das plantas na Primavera. Ainda neste sentido, a Terra seria ao mesmo tempo mãe e mulher.
Quando a evolução se tornou sexuada definiu o género feminino como útero substituto, e a Terra envolveu-se na reprodução na forma das suas filhas. Primeiro, com os répteis, as filhas mantinham um papel distante, e a grande autonomia do ovo gerado deixava ainda a Terra como grande útero onde os ovos cresciam até à eclosão. A ligação de parantesco nos répteis é praticamente inexistente.
Depois, especialmente com os mamíferos, a Terra simulou um útero interno, deu a cada filha um estatuto de "pequena Terra", criando um laço único de parentesco - a forte ligação mãe-filhos. Nalguns mamíferos e nas aves essa ligação definiu um conceito familiar, extensivo ao elemento masculino.

Essa foi uma diferença brutal... os filhos não nasciam sem passado, passaram a viver com uma ligação ao passado, que cada vez se foi cimentando mais, especialmente com os hominídeos. O conceito familiar terminou com a individualidade, e começou a definir um conceito de grupo.
Esse grupo ligava ao passado, e começando apenas com a família, foi remetendo a uma estrutura mais complicada, que cada vez detinha maior herança do passado, para benefício dos jovens. Esta herança social era substancialmente diferente de outras manifestações - por exemplo, entre abelhas ou formigas, onde cada indivíduo poderia ser visto como uma parte desconexa de um ser maior - todos partilhando o mesmo material biológico.

Porém, ao definir-se esse grupo social, definiu-se uma nova estrutura animal, com aspectos monstruosos.
Quando antes um indivíduo nascia dentro da mesma espécie, estava praticamente dentro de condições semelhantes face aos outros. Porém, quando os grupos se definiram dentro da espécie humana, as condições passaram a poder ser dramaticamente diferentes... como se tratassem de espécies diferentes.
Uma criança escrava nascia como presa, enquanto o filho de um patrício nasceria como predador.

E, no entanto, apesar de tudo isto... a Terra continua a ser mãe das filhas e dos filhos. O útero materno não deixa de ser apenas parte de um útero terrestre muito maior, que define as entidades que aí sobrevivem.
É claro que há a herança reptiliana... a ideia que saímos formados de um ovo que ninguém cuidou, que somos autossuficientes. E por momentos esquecemos que o ar que respiramos é pouco mais que um líquido amniótico que nos mantém vivos dentro do útero terreno.

Por isso, convém não esquecer o significado da taça... e não há aqui nenhuma taça para os reptilianos armados em T-Rex. A taça que existe é formada por uma base sólida onde se sustém a nossa fluidez. O pé dessa taça está preso às raízes terrenas, e convirá não deixar que a fluidez de sonhos pouco consistentes arraste todo o conteúdo para fora dessa base sustentada.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

The Ego has landed

13 de Setembro de 1999... para quem não sabe, a Lua deixou a órbita terrestre, e navega pelo espaço.
Essa antevisão de futuro aparece agora como lembrança do passado.

Espaço 1999 foi uma série de culto dos anos 70, produção de 1973-74, da ITV inglesa e da RAI italiana, estreou em 1975 (em Portugal em 1977, creio).
Nos Pinewood Studios, onde Kubrick tinha realizado o "2001 Odisseia no Espaço", Gerry e Sylvia Anderson iriam produzir uma "série de culto" dos anos 70 e seguintes, depois de se terem estreado com UFO, uma série sobre abdução para efeitos de transplantes de órgãos (trama depois abordada de forma notável no filme de 2005, "A Ilha").

Nesta produção europeia, havia uma significativa evolução de cenários futuristas, relegando quase para fantasia grosseira a anterior, e mais famosa série, Star Trek (1966-69).
Martin Landau (John Koenig), Barbara Bain (Helena Russell)
com os produtores Gerry e Sylvia Anderson.  

É claro que o tempo não perdoa, e as calças boca-de-sino típicas dos anos 70 marcam um desses aspectos de antevisão de moda falhada. 
Porém o mais interessante é relembrar como algumas concepções mudaram muito na passagem entre os anos 70 e 80, sendo mais impressionante o conceito de computador. Quando não vivemos a época é difícil perceber a mudança de mentalidades, e quando a vivemos esquecemo-nos facilmente.
Um computador antes de 1980 era uma caixa com luzes coloridas ou com fitas magnéticas. 
A entrada e saída era feita com cartões e papelinhos. Nos episódios de Espaço 1999 não temos nenhum écran de computador, temos sim écrans televisivos. Quando muito, os computadores falavam (caso de HAL em 2001), ou então mandavam recadinhos em papel... nada de écrans. E isto era suposto ser normal.
Quando nos anos 1970 apareceram os primeiros relógios digitais, ou calculadoras, que hoje custam 1 euro, foi uma novidade imensa. Só quando em 1980 apareceu o primeiro Sinclair e pouco depois o ZX Spectrum, é que o público percebeu que o écran da televisão podia ser usado para leitura de computador. Os walkie-talkies eram aquilo que mais se aproximava de um telemóvel, mas a ideia de ter um pequeno aparelho móvel de comunicação (como os do Capt. Kirk), era mesmo ficção. Poder ver a cara do outro num pequeno écran, como no caso dos comunicadores da Base Alfa, era ainda muito futurista. 
Por um lado olhamos para trás e vemos como estavam distantes dos nossos olhos tecnologias que se vieram a impor como naturais - mas só foram vistas como naturais, simples, depois de explicitadas. No entanto as ideias eram conhecidas de quase todas as pessoas ligadas ao meio.
Sou daqueles que não viu grande interesse na internet, mas essa ideia existia. Logo com os ZX Spectrum o pessoal podia passar programas com um telefone e gravador... A questão era a dissociação com o aspecto comercial. Não liguei à internet, mas passados 5 anos já tinha feito um "facebook" para comunicar com os amigos. Era algo muito simples de fazer, muita gente o fez, e o facto da ideia ter sido apenas popularizada 10 anos depois, dando protagonismo a um qualquer miúdo, é apenas um conto de fadas de Hollywood. 
No entanto, se computadores e telemóveis pareciam coisas complicadas nos anos 70, mas naturais nos anos 80, a possibilidade de ter uma Base Alfa na Lua em 1999, era algo perfeitamente aceite como possível nos anos 70, e já vista como improvável nos anos 80. 

Em 1973-74, estávamos ainda em rescaldo do programa lunar Apollo, e o nome "Águias" dado às naves, seria influência do módulo lunar "Eagle", registada na célebre frase da Apollo XI: 
"The Eagle has landed
(curiosamente também nome do último filme de Sturges, 1976, que invoca um duplo de Churchill).

A guiar o Águia estava Alan, guia australiano, e a guiar a reflexão científica estava o Prof. Victor Bergman, isto na 1ª série, já que na 2ª série (1976) entraria a célebre Maya, com a faculdade da metamorfose.

Águia e Maya já teriam há muito justificado esta menção a 1999, noutra altura até mais apropriada, e tendo em atenção este episódio "Another Time, Another Place", a colisão de dois universos representados na Lua, poderia ter sido tema há dois meses atrás, ou há mais de dois anos atrás (na imagem que a guia pousou uma águia com água pelo bico).

As coincidências são para ser tratadas como empatia entre observador e observado, com culpas e desculpas remetidas a ambos. 
Retomamos aqui o artigo sobre o Soma, citando A. Sramana sobre essa bebida:
Astrologicamente, Soma é o regente invisível da Lua, que representa também o símbolo da ilusão, da Deusa Maya. Soma é o Deus misterioso que desperta a natureza mística e oculta da humanidade.
(...) Hoje em dia essas plantas são chamadas enteógenas, que significa: capaz de suscitar a experiência de Deus em si mesmo. (...) O seu uso desperta na consciência a sensação inefável de fazer parte da
Totalidade. Esta não é uma abstração e sim uma verdade que se encontra nas camadas mais profundas do nosso ser.
Se há psicotrópicos que levam ao mais íntimo confronto do Ego consigo, com a totalidade, etc... o que é certo é que essas imagens íntimas podem servir de inspiração a muita arte, religião, filosofia e ciência.
Não é a mesma coisa transmitir depois essa informação à população por palavras, por quadros, por música... pode-se tentar sugerir, mas é completamente diferente, até que o outro sinta o mesmo.
As ideias são colocadas à porta, mas não é nada claro que o receptor abra essa porta para as recolher, porque simplesmente pode nem se aperceber que há ali uma porta.

Falta o clique... e esse clique pode ocorrer no final de um episódio do Espaço 1999 (pois!), no final de um filme, pela leitura de um livro, etc. Por isso, o efeito de inspiração introspectiva que o Soma desperta poderá ser obtido doutras formas, beneficiando de forma indirecta da inspiração de outros.
Passar do cinema à simulação de realidades virtuais é tentação à condução de realidades feitas por outros, e não é o caminho do próprio.
Beneficiará mais em "ví-deos", colocando-se a meio caminho, entre a sua percepção e o convite alheio.
Porque a visão é estereoscópica, e deu-os olhos, um olhar interior, e um olhar exterior. Vi-são dual. Se há convite à união ou totalidade, conforme é dito, isso é um erro - porque não se pode igualar o que é distinto... dois não podem ser um, efectivamente. Só o podem ser como ideia potencial, sempre inacabada, sempre incompleta.

Era hábito na primeira série de Espaço 1999 abordar de forma simples temas com um complexo significado filosófico. Poderíamos ver facilmente alusões à "alegoria da caverna" platónica, ao problema da imortalidade, etc... Os produtores cinematográficos e televisivos, desde a estreia da Twilight Zone, em 1959, empenharam-se em desafiar à reflexão filosófica.

Numa modelação simplificada, quando somos forçados a esquecer átomos, moléculas, etc... todo um complexo caos, que parte do universo decide que as bolas do Euromilhões saem para o Fulano X e não para o Y? Um grão de poeira, um sopro de ar, basta isso para alterar dramaticamente a vida, a muitos quilómetros de distância?
Onde ficariam os milhões de universos alternativos, onde calha a combinação Y e não a X?
Ora, cada micro-evento destes passa-se 25 vezes a cada segundo, e de entre as múltiplas alternativas, sabemos que estamos presos a uma única versão. Em parte é decisão nossa, no sentido em que sabemos justificar escassas acções conscientes, mas isso é uma minúscula parte, quando comparamos com tudo aquilo que nos escapa por completo.

Neste episódio Another Time, Another Place, vemos o confronto entre duas versões alternativas do universo, mas a questão é o que determina uma versão e não outra qualquer?
Por muito que melhoremos a modelação, teremos que ter afastados o nosso melhor modelo da realidade que presenciamos?

A minha perspectiva acerca disso é muito simples...
Teremos o maior caos possível dentro da mínima ordem.
A ordem será a necessária para que tudo seja explicável, e o caos será o suficiente para que não seja possível fazer isso completamente em tempo algum.
As razões já foram aqui apresentadas.
Por isso, e como os processos físicos vão sendo condicionados, pouco a pouco, com o nosso conhecimento da verosimilidade, o maior factor caótico de instabilidade não virá da natureza, respeitando os seus propósitos implícitos.
A maior instabilidade estará no pensamento. Ou seja, curiosamente a tendência parecerá ser permitir o maior número de pensamentos alternativos, sem que essa divergência condicione uma convergência saudável, mínima.

Do ponto vista informativo, de um universo que cria informação constante, não apenas por criar... interessa criar o maior número de observáveis distintos, e o maior número de observadores que interpretem consistentemente o resultado... procurando relações a um nível cada vez superior.
O nihilismo avançou com a ideia caótica de que tudo era equivalente, tudo era indiferente. Isso é uma influência de um mundo de sonhos sem referência de realidade. Só que até os sonhos precisam de uma realidade para existirem... até a noção de vazio precisa de alguém que a pense.
Para haver verdade só pode existir um universo.
Havendo dois ou mais universos, seria possível ser num e não-ser noutro. Havendo só um, isso é contraditório. É a unicidade universal que determina a contradição.
As outras ramificações da árvore de possibilidades são apenas ideias, sonhos, fora deste tempo, deste universo.

To be or not to be... ou como escrevi levemente há uns tempos:
1 01 A? - One or not one, hey?
2 02 B? - To or not to be?
3 03 C? - Tree or not tree, see?
4 04 D? - For or not for thee?
Gimme 5!

A alternativa OU, está explícita geometricamente nas letras O e U.
O - é o universo fechado.
U - é o universo aberto.

O fecho do universo num aquário é uma possibilidade impossível.
A capacidade reprodutiva é conceptualmente imparável a qualquer tempo. Se o universo fosse um aquário com um peixinho laranja, automaticamente haveria um universo superior com uma infinidade de aquários com peixinhos laranja, e depois com peixinhos de todas as cores e feitios, etc...
O universo que é único é o universo aberto, que acolheu a árvore de possibilidades sem se fechar, engolindo tudo no único acordo possível, que equilibra as bifurcações dos ramos com as das raízes.
É para esse acordo que acordamos.
Com a ligação conjuntiva E vemos É 3.
O U ... E 3 ... W M
(símbolo de Touro, Mercúrio+) (oito) (símbolo de infinito) 

Nestes símbolos, sim bolas ou bolos, vemos como a geometria das letras tem co-reias de ligação, e só mencionamos as mais evidentes (p.ex. outras S Z 2 5).
Por isso, as somo e assumo que sumo e soma podem ter outros significados, inclusive somar e sumir.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Patas

Pelo meio da evolução, interessa perceber o que pode ter levado a umas soluções e não a outras.
Por estranho que possa parecer, há evidência biológica para respostas geométricas. Um caso típico é a divisão que levou aos Tetrapodes, ou seja, 4 patas, que junta todos os vertebrados terrestres e aves (incluem-se aí as asas, que saem de patas).
Os insectos, aranhas, escorpiões e crustáceos, com múltiplas patas, caem noutra parte do reino animal - os Artrópodes - a solução com número maior de patas trouxe uma curiosidade - nenhuns são vertebrados.

Talvez mais engraçada é uma grande divisão animal que separa os "Protostomas" dos "Deuterostomas"... já que há uma escolha embrionária primitiva, relativamente ao tubo digestivo:
Protostomas - Abrir primeiro a boca (artrópodes, moluscos);
Deuterostomas - Abrir primeiro o ânus (vertebrados, estrelas do mar).

O ovo fecundado começa a subdividir-se, e de alguma forma replicando a geração universal, a sucessão 1, 2, 4, 8... duplicará células aparentemente semelhantes, mas que irão ter funções muito diferentes.
Uma primeira fase do processo consiste na definição da "parede" que separa o interior do exterior... essa "parede" é a pele, representada na blástula do embrião.
No caso dos animais, devido à necessidade de alimentação, define-se logo o tubo digestivo, pela gástrula, que unirá "furos" na blástula... por um lado a boca, por outro lado o ânus.
Onde abre primeiro? - uma grande separação entre os animais é feita nesta opção. Em todos os vertebrados, o tubo digestivo abre primeiro pelo ânus... algo que é bastante diferente dos insectos, moluscos, etc... onde o tubo digestivo abre primeiro pela boca.

Esta divisão inicial centrada no tubo digestivo, mostra bem a importância vital da alimentação na constituição dos organismos primitivos. A alimentação revelará a essência atómica da vida. Comer podia ser um processo mecânico, mas vai ao fundamento químico atómico. Ou seja, a ingestão de outros organismos poderia simplesmente consistir num aproveitamento das suas células, para benefício do organismo que ingere. Qual a necessidade de destruir por completo as células da presa, se grande parte desse processo remete à construção de novas células no predador? Em certas tribos havia até a ideia de ligar a ingestão de órgãos para benefício dos mesmos órgãos... porém, como sabemos, o processo é bem mais radical e os nutrientes aproveitados estão ao nível molecular básico, até atómico. Ao predador interessam as moléculas, os átomos, ou a energia, e estruturas mais complexas da presa são completamente destruídas no fluxo pelo tubo digestivo.
Se o processo parece brutal pela redução da presa a simples nutrientes, não deixa de ser revelador de que a vida animal é independente da destruição doutras formas de vida, apenas recolhe os nutrientes dessa forma.
Uns seres vivos tornaram-se em autênticas fábricas de nutrientes para outros, sendo o caso mais paradigmático o das plantas. Mas este tipo de estrutura é suficientemente abstracta, e espelha-se até socialmente. Uma grande população serve como fábrica de nutrientes para uma elite predadora. É claro que a classificação predador e presa no processo humano remete a conceitos muito mais sofisticados do que a simples sobrevivência, ou a mera competição num determinado objectivo.

Voltando à questão embrionária.
Definido um corpo central, percebemos que há basicamente duas possibilidades - a radial e a não radial.
A opção radial não privilegia nenhuma direcção. 
Assumindo uma direcção preferencial, começaram a definir-se os corpos bilaterais, que seguiam a direcção do tubo digestivo - da boca à cauda. Portanto, foi a questão do tubo digestivo, a questão da comida que definiu essa orientação preferencial, e vemos que nos vertebrados a coluna segue exactamente essa direcção, que é também a direcção de locomoção.
Uma ameba pode ser vista como um corpo radial, onde nem sequer estão definidos membros... o número de extremidades é flexível e variável. O movimento do corpo amorfo é possível em todas as direcções, mas isso implica uma grande complexidade a programar a estrutura... só para controlar o movimento!
Assim, a complexidade do DNA nas amebas pode estar ligada justamente a uma complexidade estrutural que permite definir movimentos e formas arbitrárias. Isso deixa de acontecer quando a estrutura fica rígida, e ao indivíduo são permitidas poucas hipóteses de movimento. Por exemplo, os vertebrados tetrapodes ficaram reduzidos a deslocamentos fixos, com apenas quatro "patas".

Portanto, solução simples na codificação do movimento no DNA seria definir um número fixo de direcções. 
A solução pôde ser radial, mas com um número limitado de raios, de patas, que saem do corpo central, no caso dos artrópodes. 
No caso dos moluscos, as extremidades servem apenas a locomoção, e são o mais próximo do radial, tudo o resto fica preso ao corpo central (p.ex. tubo digestivo e olhos - que no caso de bivalves distribuem-se pela várias direcções). Dentro dos artrópodes, as aranhas têm uma solução parecida. Já os insectos desenvolveram uma solução diferente onde, das oito ramificações saídas do corpo central, uma das extremidades definiu a cabeça para onde migram os olhos e cérebro, e a outra extremidade tomou funções digestivas e reprodutivas, ficando as restantes 6 para as patas. Mais do que as aranhas que têm até 8 olhos, os insectos adquiriram uma direcção preferencial, com dois olhos, e estabeleceu-se uma bilateralidade não vertebrada. 

Os vertebrados começaram por definir o tubo digestivo como direcção, como no caso dos peixes, onde o número de membros não estaria completamente definido, e de soluções com múltiplas barbatanas, chegámos aos peixes pulmonados, tetrapodes, de onde se pensa terem surgido os vertebrados terrestres.
Esses vertebrados terrestres definiram 6 componentes onde, para além das quatro patas, uma das componentes definiria uma "pouco útil" cauda, e uma essencial cabeça.
Hominídeos e humanos dispensaram o prolongamento na cauda, o cócix limita o "six", reduzindo a 5 as componentes que também são replicadas nos dígitos (5 dedos). Ainda assim, do ponto de vista geométrico, o "macaco que perde a cauda" é um passo menos surpreendente do que o das cobras... que dispensaram as 4 patas, aparecendo como uma variante de tetrapode com uma única direcção preferencial, enquanto as aves evoluíram duas das suas patas em asas. 
O caso das aves é especialmente paradigmático porque apesar da significativa redução de direcções, a sofisticação do controlo das asas permite complexos movimentos de voo. Seria já a nível de um cérebro evoluído que se processaria o controlo de movimentos, não passando pela codificação directa no DNA. Por muito rápido e inerente que seja o processo, pode fazer sentido dizer que as aves aprendem a voar, e que alguns mamíferos aprendem a andar... algo que não se verifica com répteis.

Este ponto final é especialmente importante... a reprodução diversificada pela combinação de genes atingiria um certo limite crítico ao remeter codificações ao cérebro. A sofisticação do cérebro avançaria mais rapidamente do que a codificação genética. O contexto na formação do cérebro do indivíduo iria ultrapassar a vantagem da codificação genética incorporada pelo parentesco biológico.
Chegados esse ponto, a menos de transformação genética "mágica", o cérebro de indivíduos semelhantes passa a ser muito mais funcional pelo contexto educacional do que por resultado do património genético. As variações genéticas só a curso de inúmeras gerações poderiam ser eficazes, enquanto um cérebro flexível rapidamente se adaptaria a novos contextos... foi esse o caso humano.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Planeamentos a milhões de anos

A precipitação da vida moderna levou-nos a um planeamento cada vez mais precipitado relativamente ao previsível futuro. O resultado prático é uma atabalhoada vivência num mundo caótico de referências cada vez mais efémeras. Gera-se um infindável novelo de informações que demorariam séculos a analisar, mas como servem apenas um ou dois objectivos conhecidos, ligados a valores triviais, são malha de arrasto na busca de um certo pescado, vitimando milhões de peixes só pela brutalidade do processo. Qual é o pescado procurado? Pois, esse é o maior drama... os armadores da rede nem sequer sabem o que procuram. Procuram, porque nunca souberam fazer outra coisa, e como subproduto de peixaria, vendem o que apanham. 

Para a maioria das pessoas fazer planos para a semana seguinte começa a ser complicado, e já se vê como perspectiva lírica fazer planos a vários anos. Pela análise objectiva da sua esperança de vida, o maior planeamento que se faz diz respeito à velhice. E portanto, pela condição mortal, uma idealização termina no máximo em planeamento a décadas de distância. 
No entanto, por estranho que pareça, uma significativa parte da população, sendo religiosa, aceita uma eternidade... Bom, e então quais são os planos para esse gozo de eternidade? Silêncio completo...
Decorre da mesma deriva religiosa que haverá tutores para lidar com esse fado interminável. Como qualquer conto infantil, parece ainda terminar com a frase "e viveram felizes para sempre"!
Na perspectiva bíblica, falando de um universo reduzido a menos de 6000 anos, parece haver uma experiência que atingiu apogeus "humanos" em idades pré-diluvianas que chegariam quase 1000 anos, como foi o caso de Adão. Mesmo assim, planeamentos a milhares ou milhões de anos, são basicamente coisa de crianças, quando se trata de pensar numa eternidade.
Ora, para além da evolução tecnológica, a vivência humana parece tornar-se algo repetitiva ao fim de algumas décadas. Há sempre um conjunto de idiotas que faz as mesmas idiotices, parecendo eternas crianças traquinas, entretidas em formatos diferentes das mesmas brincadeiras infantis.
Essas brincadeiras são as mesmas há milhares de anos, e muitas vezes resumem-se à insegurança e vontade de protagonismo da criança embutida no corpo adulto. Uma criança que quer ser centro de atenções, mas que ao mesmo tempo vive apavorada pelo isolamento e por monstros imaginários. 
O eventual papão debaixo da cama passa depois a ser um eventual terrorista na vizinhança. As ameaças nunca acabam, porque é óbvio que o principal monstro que enfrenta é uma espiral de medos embutida na sua cabecinha. 
O principal inimigo é o próprio, na incompreensão que tem de si mesmo. Até que aprenda a viver consigo, nunca conseguirá viver com outros. Se for um crápula, concebe implicitamente que possa trocar de papéis, e teme ser vítima do despotismo que impõe aos outros. Se não for ele que controla, questionará o controlo por outrém, a bem da equidade. A equidade só lhe interessa quando é descriminado, e normalmente é remetida contra quem tem mais e não a favor de quem tem menos. Os refúgios habituais da criança são o clube de amigos, ou a figura de pai compreensivo. O pai compreensivo, ou a mãe protectora, passam à figuração divina, ou ainda à simples figura do apadrinhanço profissional. Tendo segurança e equidade, questionará a liberdade, que afinal o condiciona a respeitar segurança e equidade. Até que cresça para entender a contradição que encerra na cabeça, será um elefante numa loja de porcelana.
Portanto, a esmagadora maioria dos adultos são efectivas crianças que nunca reflectiram, que procuram uma realização condicionando os outros aos seus medos e desejos, evitando o confronto com o outro "eu", que sempre os condicionará pelo outro lado do espelho.
Bom, e o que faz um adulto num mundo de crianças? Espera que cresçam, com a paciência de quem sabe que o tempo não se acaba amanhã, nem daqui a um milhão de anos.
Talking Heads - Heaven.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Nebulosidades auditivas (6)

Normalmente tendemos a ver as coisas de forma linear, ou na forma de um plano traçado. Quando os homens partiram rumo ao horizonte, precisaram que a terra se vergasse sob forma circular para perceberem que tinham chegado ao mesmo ponto de onde tinham partido. Mas nem todos encontram essa memória, porque houve uma cedência na nossa natureza... dispomos de dois olhos para encarar o futuro conjugando perspectivas diferentes, e não de um olho para a frente e outro para trás! O que deixámos para trás vemos através de um olhar numa memória difusa. Um olhar unidireccional, algo desaconselhável numa perspectiva de competição animal, porque desprotegia a retaguarda, era compensado com alguma segurança da memória do caminho. 
Quando vogamos num mar circular, é difícil estabelecer uma ordem absoluta. As posições são relativas, e se há quem se julgue à frente, é porque pode nem dar conta das voltas que tem de atraso. E a paisagem até pode ser semelhante, e quem vê para trás e para a frente, iludido pela curvatura, não vê ninguém à sua frente, e vai debitando marcas deixadas para reavivar um mapa inscrito na memória colectiva perdida. E podemos ir por esse trilho, já calcorreado, guiados por alguma ideia do que já fomos, mas saberemos que o nosso olhar não é o mesmo. E essa é uma grande diferença... se tivermos perdido a memória, será novo, e pouco interessa que nos digam que não é. O dejá vu é uma ideia de quem está a ver de novo, e ainda que já tenha visto... não é nenhuma repetição - serve a uma nova compreensão. Se a repetição não é notada é indiferente para si, e se é notada não é nenhuma repetição total, é apenas parcial (já que pelo menos a ideia de repetição será nova ao próprio).

A nossa razão assenta sobre raízes que estabelecem um nexo causal, que do passado projecta um futuro, como uma árvore que encontra na terra a sua sustentação, mas emerge num futuro procurando uma fonte de luz. Sem sustentação sólida vogaria num vento de caos, onde seria tão provável uma realidade ou outra qualquer, por isso são as raízes comuns que nos prendem à mesma terra. Acabamos por estar entrelaçados numa malha complexa em que a fonte de luz é a própria estrutura que nos sustenta a existência diversificada... mais uma vez num misto de linearidade e circularidade, mas circularidade em espiral crescente, juntando sempre novas manifestações do já existente.

O caminho nesta estrutura não deixa de ser frágil, parecendo o voo errante de uma borboleta, sujeita a ser esmagada pelas rodas do tempo, de um passado e de um futuro que se unem no presente. Entram aqui dois aspectos, por um lado a estrutura física que se quer com raízes sólidas, e por outro lado a estrutura mental que se quer livre no voo. 
Já referimos a citação de Alexander Pope sobre Sporus, "a butterfly on a wheel", mas também é de referir a menção a Santa Catarina de Alexandria, como "butterfly on a will", e é nesse quadro que trazemos duas canções separadas por algumas décadas, mas que parecem remeter para uma mesma mensagem.
The Mission - Butterfly on a Wheel

Katy Perry - Wide Awake

A bicicleta final de Katherine parece uma forma harmoniosa de conjugar rodas que antes serviram para esmagar borboletas.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Hélgia (6)

- As associações podem ser interpretadas de múltiplas formas. Afinal o que dá mais consistência a umas coisas que a outras? Associações básicas, como o número, são como rocha. Cria-se uma estrutura perene onde assentam outras estruturas... por exemplo, as relações entre os números, por exemplo, simbolizadas pelas operações aritméticas, como soma, multiplicação, etc.
- Sim, há uma grande diferença entre um simples ver, um estabelecer de relação básica entre o observador e o observado. Sem um nexo consistente, as ideias são líquidas, não precisam de obedecer a nenhuma estrutura ou nexo sólido. Um observador estruturado encara as palavras com uma determinada ordem entre as letras... não é a mesma coisa escrever "neo", "noe", "eno", "one", apesar de serem apenas 3 letras. No entanto para um observador mais "líquido", a ordem interessa menos. Há ali 3 letras, e podem aparecer da forma que se quiser, que tudo parece a mesma coisa. É com uma troca de letras que se fazem muitos códigos entre crianças.
- No mundo de crianças há muitas ideias formadas, que são meras observações, mas que por simples relações lógicas, induzem em contraponto a um ideal positivo, um outro ideal negativo. Quando tudo é permitido podemos moldar barro da forma que quisermos, mas isso induz imediatamente a ideia do que resta...
- Exacto, e é esse problema, que se acumula com o tempo... os restos!
- Ao formarmos uma ideia estruturada, ela começa a ganhar a consistência de uma espinha, de coluna solidificada, a que se agregam as diversas ideias "líquidas" que polvilham o nosso imaginário. Se essas ideias são comuns a diferentes observadores, então estabelece-se uma ponte, um acordo entre esses observadores, que lhe dá consistência de "terra comum".
- No entanto, há uma parte criativa que produz ideias pessoais, que não têm assento nessa "terra comum", nesse acordo... onde ficam então essas ideias? Num "céu de ideias"... eh eh?
- Bom, essas estruturas mentais não deixaram de existir, nem deixaram de estar presentes nas mentes, ainda que temporariamente, talvez guardadas nalguma memória... em fantasias comuns de histórias relatadas numa comunidade em tempos remotos. Simplesmente, a realidade aparece como aquilo que não podemos deixar de ver, enquanto que os sonhos são aquilo que vemos numa interpretação dos nossos pensamentos.
- Uma criança pode fazer um boneco, um amigo imaginário, um reflexo de si mesma... desenvolvendo estruturas semelhantes de pensamento, mas que não interagem no mesmo universo. Quando as comunidades são similares, até mesmo os amigos imaginários podem ter analogias entre as diversas crianças. Porém, enquanto os adultos são confrontados com a interacção directa com a realidade, os outros processos aparecem como velhos sonhos de criança, que ganharam caminho próprio, e só incomodam o desenrolar livre dos sonhos quando a realidade se intromete no caminho. 
- A realidade é o acordo mínimo entre os diversos sonhos dos indivíduos, e em último caso pode remeter-se à lógica mais básica. O indivíduo objectivo recusa essa dupla personalidade, que lhe apresenta um sonho sem nexo. O resto, a realidade, alicerçou-se em ideias estruturadas, onde tudo tem uma razão, um caminho, que foi o que ficou depois de todos os sonhos impossíveis.
- De alguma forma, foi como uma espinha matemática, reflectida em nexos físicos consistentes, que ganharam espaço de realidade, depois de esgotada toda a matéria ilusória dos sonhos. Terminados os medos dos sonhos, pela sua falta de substância de realidades, falta-lhes espaço de impor a sua existência, excepto como uma parte integrante da mesma realidade. E é claro que a falta de nexo lógico, de estrutura razoável subjacente aos sonhos individuais, só os torna admissíveis num espaço de realidade comum com uma fragilidade própria da inconsistência ocasional.
- Num mundo idealizado por sonhos caóticos, tudo é vago, pouco perene, e fica implícita uma divisão para o que não interessa... há um mundo mitológico, algo infantil, por um lado, e uma estrutura que se solidificou, que sobreviveu pela lógica da existência do resto.
- Tal como os números primos são o resto das construções básicas da aritmética?
- Exacto, uma coisa é pensar que todos os números estão pelo menos agrupados com 2 elementos numa multiplicação, outra coisa é deixá-los de lado... no entanto, eles não desaparecem. 
- Sim, não são multiplicação reprodutiva de dois anteriores, existem como resto desse processo... mas têm direito a essa existência, por exclusão lógica do processo multiplicativo. Não são vistos como ordem, são desconsiderados até que seja inevitável a sua emergência... e o necessário estudo, por força da sua existência como realidade que se impõe.
- Depois, como é óbvio há sempre várias camadas entrelaçadas, no reflexo sobre si mesmo. Qualquer ideia gerada, é vista num nível acima como ideia do olho, em vez de ser ideia do cérebro. Por sua vez, em camada ainda superior, isso é entendido, de novo colocado para visão, num processo que não tem fim... e que é de alguma maneira bem retratado na mitologia nórdica pela figura de Loki.
- Porém uma coisa completamente diferente é o processo algo maquinal de apresentar ideias de forma fotográfica... algo típico da função de memorização, que é de certa forma independente da função de compreensão, destinada a estabelecer uma árvore de ideias com raízes sólidas.
- Sim, há uma clara distinção entre um simples saber, que pode ser visto como folhas, mas que não é árvore sem os ramos que a estruturam.
- A relação entre as ideias são o tronco, que é visível, gerando novas folhas, num outro nível, e a comunicação que se estabeleceu numa realidade entre os diversos outros, mas que fazem parte da mesma estrutura acaba por estar algo bloqueada, por diversos processos comunicacionais, entre os quais pela memória. No entanto essas ideias mais leves, de que se fazem os sonhos, sobem e podem ser partilhadas por conexões no mesmo imaginário, levando a eventuais alucinações se não houver recusa da sua plausibilidade pela comunidade "acordada".
- A estrutura lógica, matemática, acaba por ser a última rocha, o tronco onde assenta a estrutura.
- Não só matemática, mas também filosófica, que entronca na noção de existência ter observadores que recusam a anulação... em última análise, ainda que se forçasse um colapso da memória, seria apenas uma desestruturação, um cair de folhas, mas o tronco da estrutura estaria pronto para o inverno, pronto a renascer com novas folhas, com base na matemática já desenvolvida.
- A lógica acaba assim por ser o último reduto da existência?
- Sim, e também da não existência... por complementaridade.
- Mas isso não é algo contraditório?
- Não, a realidade é a fronteira que determina o contacto entre os dois universos.
- A realidade avança na direcção do imaginário, com base nas realidades passadas. Se ignorarmos as realidades passadas, a memória, então poderíamos entrar num caos, e perder a base da estrutura que nos definiu.
- Mas não perderíamos a estrutura... porque existiu sem contradição.
- Sim, mas pelo outro lado, onde a contradição é possível, não há propriamente restrições... e o vento de ideias acaba por permitir a imaginação, que pode encontrar novo espaço para se solidificar como novas raízes, desde que se estabeleçam as relações para isso.
- Bom, e sejam consistentes... ou senão serão "arte".
- O processo matemático assemelha-se a uma máquina, e pode usar-se essa figuração, levando a crer que há alguma "máquina com controlo a governar", a ponto do visualizar de novas estruturas, uma alteração do inicial, remeter para uma ideia de tempo pela modificação inerente e inevitável. Um simples "passeio" pelas alterações da estrutura remete a essa ilusão, tal como podemos ver um mundo 3D como tendo camadas de observação 2D sobrepostas
- Aliás, as nossas letras acabam por ter curiosamente uma estrutura que pode revelar observações superiores, com significados desse tipo:
- Revela-se uma cisão que não é equivalente, partindo de O inicial.
Por um lado há uma parte que se fecha num D, e uma estrutura que fica aberta num C, que receberá tudo o que fica de fora. Equivalentemente podemos ver uma estrutura superior, um céu sobre uma terra plana, que tende a ficar piramidal no A, mais uma vez deixando um universo U de fora. Numa fase seguinte, temos a perspectiva de junção de D que leva a um B, ou alternativamente os dois C levam a um E, enquanto estrutura aberta, e por simetria a um 3, que podem unir num 8. Ortogonalmente, temos uma sobreposição W e M que corresponde ao símbolo típico de infinito (ou da banda de möbius).
- Não se vê nada de AAA nem de BBB... talvez os correctores financeiros se refiram mais à música dos ABBA, ou devessem rever as notações mais para 888, havendo a hipótese WWW com XXX... eh eh! Então e a seguir?
- A seguir podemos ver como estas coisas se unem entrelaçadas, como no DNA, ou ainda nos cromossomas. O Y é tipicamente masculino e representa uma bifurcação, unida por um passado comum, ou alternativamente haverá um X (ou H) de corte de Cronos, mas que têm que pelo menos unir-se num ponto comum. Caso contrário seriam disjuntos como dois II que nunca influenciariam um e o outro. Esta união também poderia ser vista como um duplo S, um SS, ou S2, no sentido de formar um 8, ao estilo fecho Zip... seria um ZZ visto como Z5, dois caminhos seguindo entrelaçados em atacadores.
- Vocês só podem estar a gozar falando disso!...
- Claro que sim. Mas as relações não deixam de estar lá, se as quisermos ver... e há sempre quem atribua importância a estas coisas, talvez por receberem informações privilegiadas!
- Mas qual é a ideia afinal?
- A ideia é que o universo se constrói em cima de si próprio, e inevitavelmente houve um passado que  influenciará o futuro, mas também o nosso futuro determina a capacidade de investigar e recuperar esse passado. Mas tudo isto é muito mais de simples folclore individual, porque ao existir cada um condiciona-se a si próprio e aos outros.
- Bom, tudo isso me parece embrulhado num ovo caótico serpenteante.
- Mas não somos feitos da consolidação de um caldo cultural caótico?

Panjabi MC - Mundian To Bach Ke

sábado, 30 de novembro de 2013

Hélgia (5)

- Como pode estar o universo congelado, se presenciamos o tempo a passar?
- Porque entrou em ciclo.
- Sim, ou seja, repete-se indefinidamente, automaticamente, pela inevitável geração diferenciada. De certa forma, foi estabelecendo processos automáticos, invariantes em diversas dimensões, e depois em todas as dimensões.
- Há um processo inicial em que a máquina se forma, digamos um tempo zero, porque aí não haveria tempo como o concebemos. Uma vez formado...
- Acorda!
- ... isso, a máquina acorda. "Acorda no seu funcionamento", é uma boa expressão, e a corda do relógio começou a trabalhar.
- Aquilo que vemos é então apenas uma dessas repetições?
- É uma das múltiplas possibilidades, mas as outras são disjuntas desta. Ou seja, dividiu-se pela lógica, não poderia existir ao mesmo tempo, em simultâneo dois universos diferentes, por isso o tempo acaba por ser a separação lógica que permite a unicidade.
- Mas há intersecções, ou completa disjunção?
- Estamos na intersecção de tudo, o universo é tudo, mas ao mesmo tempo é individualidade. Para o indivíduo manifesta-se em tempos diferentes, que acabam por ser as repetições... digamos, primeiro forma-se um contínuo "espacial" (e coloco entre aspas, porque é um espaço de instantes, que transcende o espaço físico, será mais um espaço de ideias), e estando congelado esse espaço, começa a repetir-se.
- Mas por que estamos nesta repetição?
- Cada um tem a sua... se fossemos todos completamente iguais éramos apenas um.
- E somos... sim, juntos todos os eus. Só que isso é acima de todos os tempos, e por isso o invariante está estabelecido nos tempos.
- Parece uma corda vibrante, que definiu as frequências em que dá música. Como se cada um de nós fosse uma melodia tocada para a eternidade. A corda... eh eh!
- Mas é uma melodia tocada em todas as línguas, é uma questão de ser descoberta por cada um, por cada comunidade, em conjunto... porque a intersecção é o acordo, a realidade, a orquestra. Mesmo que queiramos perceber a melodia que nos calhou, não devemos ignorar que todas as melodias se intersectam... e o confronto foi mais um desacerto inicial antes de todos começarem a tocar em conjunto.
- Com essa visão global, não sentes que isso deixa pouco para saber?
- Isso é ter uma visão muito limitada do universo... eh eh!
- Isto é apenas uma perspectiva, que tem lugar pela consistência. Haverá outras perspectivas, e outras consistências. Num mundo perfeito todos têm razão, e só não lhes damos razão porque ainda não percebemos como encaixa o seu ponto de vista. E é isso mesmo, cada um tem um ponto de vista do universo, e podemos partilhar esse ponto de vista com linguagens. A linguagem, no seu abstracto, foi o que restou da intersecção de todos os universos.
- Mas já há várias coisas a encaixar... eu acho que sim.
- Temos muito tempo!
- Pois... e eu não tenho pressa de saber tudo. Falta é mais harmonia na orquestra, porque cada um tem pressa de pôr o seu instrumento a funcionar.
- Tem uma certa ironia, porque por um lado é como se o universo, Deus, tivesse desaparecido... o que daria razão aos que negam, mas por outro lado é como se tivesse reencarnado em cada um de nós obrigando-nos a ver a sua obra, e ao fazer isso obriga-nos a reencontrá-lo em cada instante. E será na nossa harmonia que se reencontrará por completo. Como se tivesse perdido a memória, mas essa memória está à nossa frente para ser relembrada. Por isso caminho de encontro ao conhecimento universal, pode também ser visto como um caminho infinito de reencontro com Deus, com todos, com tudo o que é, sem deixar nada para trás.
- É um reencontro com nós próprios, com o nosso sentido, porque no fundo, cada um é uma parte do todo.
- Exacto, e por isso o caminho de encontro a si próprio é importante, mas não é apenas para olhar para si... senão afunda, fecha-se em si mesmo, é um caminho para o interior mas a olhar para o exterior, para o outro, que é apenas uma outra manifestação de nós próprios.
- Há uma igualdade, mas é mais que uma mera igualdade, não é apenas "iso", é paraíso. É isso?
- Devemos evitar ver tudo como igual, porque uma pedra não é igual a uma planta. Cada ser ajusta a sua existência ao que é, e não vale a pena estar a projectar-nos em tudo, porque isso é querer igualar o que é diferente. Devemos procurar semelhanças, no sentido da abstracção equalitária, mas não deixar de aceitar diferenças que são naturais.
- Sim, por exemplo, um dos problemas de consciência seria a questão de entrarmos em ciclo de repetição infinita. Só que quem se apercebe disso é o observador externo, não é o próprio. O próprio entrou num universo consistente à sua maneira. Por isso seria algo estranho procurar despertar uma pedra para uma consciência que não pode ter. A nossa projecção nos outros tem limites, sob pena de nos querermos reduzir à sua dimensão.
- Mais alguma pergunta?
- Mas afinal quem é que estava aqui?
- Não interessa... interessa que as palavras estão, para quem as entender.

Amor Electro - A máquina acordou.

domingo, 24 de novembro de 2013

Nebulosidades auditivas (4)

Um dos primeiros discos que comprei...

Living by numbers, New Musik (1980), From A to B

Living by numbers
Adding to history
And living by numbers
I guess was always meant to be
Living by numbers
Living by numbers now
We've been living a long time
Counted out in the rows of files
Such a digital lifetime
It's been by numbers all the while
Living by numbers
Living by numbers now
You count the days but does it
All add up to you
Does it all add up to you why we're
Living by numbers now
So you're living by numbers
And numbers you answer to
You can count all the nubmers
You bet that someone's counting you
Living by numbers
Living by numbers now
Living by numbers
Living by numbers now

They don't want your name
They don't want your name
They don't want your name
They don't want your name
Just your number

Does it all add up to you? Não, o nosso número não é 1, nem 3. 
You bet that someone's couting you... e isso aplica-se ao "someone" também. 
Just your number... e o número da nossa geometria é π = 3.1415926535... 
É quanto liga um diâmetro unitário ao perímetro de um círculo perfeito. 
É engraçado que a letra grega pi, π faz lembrar uma construção de anta ou dólmen.
A transcendência de π foi provada, e há recordes para determinar o maior número de dígitos, em ordens que pouco mais são que deixar máquinas a correr, pois é-nos impossível olhar para a lista de números. Servem para estatísticas, e uma das estatísticas tem revelado que esses dígitos aparecem como aleatórios, apesar de serem bem determináveis. São poucos os resultados qualitativos que podemos tirar, e tudo o resto é mera observação passageira, muito limitada, porque face ao infinito qualquer finito é igualmente distante. E ainda que houvesse quem todos os dígitos visse, não veria a infinidade de associações qualitativas, e se ainda assim tudo visse... então nada mais tinha para ver, e reduzia-se a um todo fechado. Esse todo fechado é unitário, é 1, o ciclo fecha-se, e tudo começa de novo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Herança genética - o reino das amebas

Um dos mitos que deve ter caído da cadeira do preconceito genético terá sido saber-se que a maior sequência genética não está entre os seres humanos.

Se olharmos para a herança genética que passa de progenitores para descendentes, a actual liderança destacada vai para uma Ameba, com menos de meio milímetro, de nome Polychaos dubium:
A ameba Polychaos dubium tem a maior sequência genética (encyclopedia of life)

O genoma desta ameba é 200 vezes superior ao dos humanos, e apesar do seu tamanho insignificante, tem algumas particularidades notáveis. Entre essas particularidades estão cristais de forma bipiramidal que guarda em si, ou uma notável capacidade de alterar a sua forma, criando protuberâncias - chamadas pseudopodes ou pseudo-pés. Esta ameba pode ser encontrada na Europa ou América do Norte, em locais de água doce, alimentando-se de algas...

Vemos aqui um claro exemplo de como a complexidade pode ter outras formas. Se o genoma do homem (3.2 Gb) cabe bem numa pequena Pen de 4 Gb, o desta senhora ameba precisa de um disco com mais de 500 Gb, para armazenar 670 Gb.

Tratando-se de um ser unicelular, não indicia haver um processo de meta-conhecimento.
É uma alternativa evolutiva em que parece não haver colaboração com outras células.
Enquanto no caso de animais multicelulares cada célula individual é apenas uma contributo para uma forma de vida agregada, de onde resulta um conhecimento superior  (através da interacção, confiança na dependência, que coloca decisões nos múltiplos neurónios de um cérebro), neste caso a solução é individual. 

Seres multicelulares
Mesmo do ponto de vista de seres multicelulares, o genoma humano fica bastante atrás de dois casos conhecidos, que têm genomas pelo menos 40 vezes superiores.
No caso de plantas, o recorde de 150 Gb está actualmente numa espécie de lírio, denominada Paris Japonica, encontrada com outros lírios no Monte Haku:
Paris Japonica, lírio com o maior genoma entre os multicelulares

Outros lírios mais vulgares, como a fritillaria assyriaca ou uva vulpis, chegam a ter 130 Gb, rivalizando com o maior genoma encontrado num animal vertebrado:
- Trata-se do Peixe Pulmonado Protopterus aethiopicus, com também 130 Gb, e que pode ser encontrado no Rio Nilo:
O peixe pulmonado tem o maior genoma entre os animais multicelulares

Sobre o lírio não conheço nada em especial que justifique tão pesada herança - talvez um nariz mais apurado consiga perceber alguma subtileza no aroma produzido. 
Já o peixe pulmonado é notável por conseguir respirar ar, estando numa categoria particular dos Tetrapodes - ou seja, animais com quatro patas, levando-o ao antecessor vertebrado de onde terão partido a maioria dos animais terrestres - quando saíram da água (época Devoniana), por conseguirem respirar directamente ar, podendo gerar os anfíbios.

Cadeia informativa
O genoma, ainda mal compreendido, pode ter informação redundante. Em seres microscópicos parece haver uma relação mais clara entre a sua complexidade e o comprimento da cadeia genética, no caso de seres macroscópicos isso não é tão evidente... até porque haverá diversos níveis de redundância.

Os seres multicelulares começam por ter 100 Mb e como vemos podem ser até 1500 vezes mais longos, enquanto os mais pequenos animais unicelulares começam nos 20 Mb e podem ser até 33 000 vezes mais longos no seu genoma. Ou seja, a variação entre os seres unicelulares é bem maior, permitindo a existência de animais com complexidade mais pequena.

Se o vertebrado com o maior genoma encontrado é um peixe que respira ar, o mais pequeno é um peixe vulgar - uma espécie de peixe-balão de aquário, chamado Tetraodon nigroviridis, e com 385 Mb tem o seu genoma com apenas um tamanho 9 vezes inferior ao dos humanos. Algumas formigas têm mesmo um genoma superior ao deste peixe (formiga-de-fogo).
Estas contas simples colocam os humanos num patamar pequeno ao nível do tamanho do genoma... são apenas 9 vezes maiores que o peixe-balão, e 40 vezes menores que o peixe pulmonado.

Se outras contas fossem necessárias, parece claro que a novidade humana não se deu pelo tamanho da herança genética. Os factores externos pesaram de sobremaneira na definição dos animais superiores, e o registo de herança genética foi reduzido a um nível muito pequeno - ninguém nasce ensinado - se isso contar para alguma coisa é para uma ameba!

Estamos habituados a que o esquema de interdependência celular tenha levado aos maiores organismos, e que os organismos unicelulares pouco mais sirvam do que acessórios... contudo os próprios organismos unicelulares podem organizar-se em colónias - como é o caso das bactérias, dos fungos, etc.
Não é completamente claro que estes seres separados não deixem de actuar em conjunto. Ainda que não se perceba nenhuma comunicação detectável entre si, como entre formigas, ou entre abelhas numa colmeia, há alguns aspectos em que denotam mais do que uma coordenação acidental.
Quando começamos a ver as coisas numa perspectiva de organismos desconexos, mas em que o propósito pode ser conexo e desconhecido, então estes seres unicelulares, que optaram por não depender de outras células, têm uma dimensão planetária cuja massa total é gigantesca e por reciprocidade oposta faz o conjunto de todos os outros seres parecer uma ameba ao pé de si!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Verdade ou Consequência

O chamado "verdade ou consequência" era um dos jogos mais parvos que se jogava na infância/ adolescência. Não creio que se possa considerar um jogo popular... as suas origens parecem remontar ao princípio do Séc. XVIII, enquadrando-se bem num certo treino de mentalidade cortesã doentia, onde se exercitava o espírito de grupo, ou melhor, de matilha.
Afinal, procurava-se ou a exposição de uma verdade embaraçosa ou o embaraço de uma actividade compensatória, tomando-se como equivalentes. Servia como uma espécie de treino para um mundo perverso sem alternativas agradáveis... O eventual interesse só resultaria de grande cumplicidade entre os promotores, ou remetendo para alvo de ridículo os novos convidados, externos ao grupo de interesse. Todas estas características são típicas de uma corte mordaz, cujo objecto é a própria corte, o galanteio, a sedução com os mais diversos atractivos fugazes.
Picasso - bacanal... por estranho que pareça, os quadros ilustrativos de festas, 
remetem normalmente para os devaneios mitológicos de Baco.

A burguesia dos Séc. XIX e XX, sendo seduzida pelo fausto aristocrata faria facilmente o papel ridículo de novos convidados, acabando por transmitir cedo aos seus petizes as perversidades que iriam experimentar... por sua vez, estes petizes, por via destes jogos, acabaram por difundir o processo à restante população.
Bom, mas este texto não é sobre as frustrações duma burguesia que julgou poder ser feliz com devaneios hedonistas dependentes dum privar privado. Afinal, o seu maior fascínio - o isolamento parcial (o grupo privado, no sentido elitista), esbarraria com o maior temor - o isolamento total (a rejeição por esse grupo). Tal como no jogo dos petizes, as mecânicas de grupo decidiriam entre o gozar e o ser gozado.

Este texto é sobre a verdade que pode haver na "consequência".

O encadeamento de factos, no sentido causa-efeito, é uma visão do observador limitado, circunscrito pela dimensão temporal. É um problema de modelação animal, já que uma previsão adequada actua no sentido de salvaguarda da sobrevivência - o animal melhor capaz de antecipar acontecimentos, mais probabilidade terá de os aproveitar em seu favor. As frases normalmente terminam aqui. É suposto entender-se o que é "em seu favor"... porém, raramente o próprio questiona os seus interesses. Habituou-se a saber quais são, e não indaga a origem, porque são esses, ou se fazem sentido.
Se o sujeito considerar que são os seus ímpetos irracionais, nem adianta procurar a origem - voga simplesmente num caos que não quer compreender. Se considerar que são os seus desejos racionais, tem que lhes procurar origem e fundamento... algo a que não basta o diz-que-disse dos outros. Aí está sujeito ao mesmo fado que qualquer desgraçado isolado. Não se estando a bater contra ninguém, a posição alheia é praticamente irrelevante, e só é interessante quando concorre na resolução do problema.

Os deuses eram crianças... A inimputabilidade de actos gera irresponsabilidade e inconsequência. Na mitologia greco-romana para evitar a constatação dessa acção inconsequente, mesmo Zeus sofria agruras em resultado das suas decisões. O Olimpo só não era uma brincadeira pouco digna de relevo, porque se introduziram limitações e imputabilidade aos deuses pelas suas acções. Sem essa penalização, a figura dos deuses pareceria a de crianças... e mesmo assim pouco se livravam duma imagem adolescente.

Sem a iminência de contrariedades, sem desconhecimento, o que nos motivaria à reflexão, ao pensamento profundo? O nosso carácter circunspecto, adulto, provém de um medo de consequências. A nossa responsabilidade resulta de uma associação entre as nossas acções e o seu eventual resultado. Essa responsabilidade será tanto maior quanto mais considerarmos que influenciamos o mundo que nos rodeia. Se a certa altura cada acto nosso pesasse de sobremaneira nesse contexto, tanto mais tomaríamos cuidado com todos os detalhes, tornando a vivência num fardo incomportável. Só a inimputabilidade compensa o acréscimo de responsabilidade... e por isso quanto maior é a potência responsável, mais tenta cuidar de ser inimputável. É nessa fase que começa a ser inconsequente, irresponsável, já que o resultado dos actos não parece pesar sobre si. Porém, uma coisa são as dimensões que antevemos, outras são as que nos escapam... e por isso a potência nunca parece ser suficientemente grande para garantir a inimputabilidade, bastando para isso haver o mais pequeno ser que escapa ao controlo total.

Todas estas noções caem na relação causa-efeito. Todas estas noções resultam de uma vivência do tempo como uma entidade ambígua, que permite previsibilidade nalguns actos, mas não deixa de trazer uma associada imprevisibilidade. A previsibilidade deu-nos um pensamento não caótico, e a imprevisibilidade deu-nos um pensamento interminável... a ausência de ambos os aspectos remeteria à loucura.

Qual foi a causa da fama de Hércules, senão o efeito que ela teve?
Perante trabalhos em que improvavelmente sobreviveria, a sua sobrevivência com sucesso ditou o registo.
Por isso, quando Héracles é elevado ao panteão de divindade, é pela improbabilidade do feito, como se o universo tivesse decidido o resultado antes dele acontecer. Isso só é atestado após os acontecimentos, é um privilégio decorativo dos poetas, pois os escritos não se sujeitam à ordem temporal.
O herói era antes de o ser, porque afinal era filho de Zeus... mas a paternidade divina só foi atestada após a vivência humana singular. Antes disso seria visto como um igual pelos outros.

Há associações entre acontecimentos que são convenientes, pois ao aproveitarem a ordem no mundo não-caótico servem a vivência futura pela previsão, e disso é feita a ciência. Bebendo no passado podemos prever uma parte do futuro... mas apenas uma parte dele. Sobre o imprevisível parece que nada se poderia dizer, mas não é assim - podemos compreender o imprevisível sem o prever. A previsão seria logicamente impossível, por definição, mas a compreensão não conhece limitação... e é pelo menos fácil compreender que o imprevisível nos é necessário.

A consequência vai mais além do que a ordem temporal vivenciada. Não é apenas um produto do passado, é um produto do conjunto - passado e futuro, que se revela no presente. Esse é um nexo que vai para além dos tempos, determina e revela a própria noção de tempo. Por isso, a verdade não é um assunto do passado, é também um assunto do futuro... e é essa verdade futura que faz surgir o passado como consequência. Do ponto de vista do pensador, há um tempo de raciocínio que é independente do tempo presenciado e a consequência é uma noção do passado para o futuro, na compreensão. Porém, libertando-se desse aspecto da compreensão do observador, a consequência não está presa a nenhuma ordem temporal. A existência de um passado que justifique o presente é um nexo necessário à própria existência, sob pena dela se manifestar como infundada pelo pensamento que a contempla. E é esse nexo de existência que remete o futuro como causa do passado. O passado não é suficiente para o nexo existencial, já que o passado poderia remeter para qualquer existência, ou até para a não-existência absoluta. Só depois de se cumprir no futuro completo é que a consciência despertou e renasceu para se contemplar, podendo então ver o futuro como um passado inconsciente.