quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

The Ego has landed

13 de Setembro de 1999... para quem não sabe, a Lua deixou a órbita terrestre, e navega pelo espaço.
Essa antevisão de futuro aparece agora como lembrança do passado.

Espaço 1999 foi uma série de culto dos anos 70, produção de 1973-74, da ITV inglesa e da RAI italiana, estreou em 1975 (em Portugal em 1977, creio).
Nos Pinewood Studios, onde Kubrick tinha realizado o "2001 Odisseia no Espaço", Gerry e Sylvia Anderson iriam produzir uma "série de culto" dos anos 70 e seguintes, depois de se terem estreado com UFO, uma série sobre abdução para efeitos de transplantes de órgãos (trama depois abordada de forma notável no filme de 2005, "A Ilha").

Nesta produção europeia, havia uma significativa evolução de cenários futuristas, relegando quase para fantasia grosseira a anterior, e mais famosa série, Star Trek (1966-69).
Martin Landau (John Koenig), Barbara Bain (Helena Russell)
com os produtores Gerry e Sylvia Anderson.  

É claro que o tempo não perdoa, e as calças boca-de-sino típicas dos anos 70 marcam um desses aspectos de antevisão de moda falhada. 
Porém o mais interessante é relembrar como algumas concepções mudaram muito na passagem entre os anos 70 e 80, sendo mais impressionante o conceito de computador. Quando não vivemos a época é difícil perceber a mudança de mentalidades, e quando a vivemos esquecemo-nos facilmente.
Um computador antes de 1980 era uma caixa com luzes coloridas ou com fitas magnéticas. 
A entrada e saída era feita com cartões e papelinhos. Nos episódios de Espaço 1999 não temos nenhum écran de computador, temos sim écrans televisivos. Quando muito, os computadores falavam (caso de HAL em 2001), ou então mandavam recadinhos em papel... nada de écrans. E isto era suposto ser normal.
Quando nos anos 1970 apareceram os primeiros relógios digitais, ou calculadoras, que hoje custam 1 euro, foi uma novidade imensa. Só quando em 1980 apareceu o primeiro Sinclair e pouco depois o ZX Spectrum, é que o público percebeu que o écran da televisão podia ser usado para leitura de computador. Os walkie-talkies eram aquilo que mais se aproximava de um telemóvel, mas a ideia de ter um pequeno aparelho móvel de comunicação (como os do Capt. Kirk), era mesmo ficção. Poder ver a cara do outro num pequeno écran, como no caso dos comunicadores da Base Alfa, era ainda muito futurista. 
Por um lado olhamos para trás e vemos como estavam distantes dos nossos olhos tecnologias que se vieram a impor como naturais - mas só foram vistas como naturais, simples, depois de explicitadas. No entanto as ideias eram conhecidas de quase todas as pessoas ligadas ao meio.
Sou daqueles que não viu grande interesse na internet, mas essa ideia existia. Logo com os ZX Spectrum o pessoal podia passar programas com um telefone e gravador... A questão era a dissociação com o aspecto comercial. Não liguei à internet, mas passados 5 anos já tinha feito um "facebook" para comunicar com os amigos. Era algo muito simples de fazer, muita gente o fez, e o facto da ideia ter sido apenas popularizada 10 anos depois, dando protagonismo a um qualquer miúdo, é apenas um conto de fadas de Hollywood. 
No entanto, se computadores e telemóveis pareciam coisas complicadas nos anos 70, mas naturais nos anos 80, a possibilidade de ter uma Base Alfa na Lua em 1999, era algo perfeitamente aceite como possível nos anos 70, e já vista como improvável nos anos 80. 

Em 1973-74, estávamos ainda em rescaldo do programa lunar Apollo, e o nome "Águias" dado às naves, seria influência do módulo lunar "Eagle", registada na célebre frase da Apollo XI: 
"The Eagle has landed
(curiosamente também nome do último filme de Sturges, 1976, que invoca um duplo de Churchill).

A guiar o Águia estava Alan, guia australiano, e a guiar a reflexão científica estava o Prof. Victor Bergman, isto na 1ª série, já que na 2ª série (1976) entraria a célebre Maya, com a faculdade da metamorfose.

Águia e Maya já teriam há muito justificado esta menção a 1999, noutra altura até mais apropriada, e tendo em atenção este episódio "Another Time, Another Place", a colisão de dois universos representados na Lua, poderia ter sido tema há dois meses atrás, ou há mais de dois anos atrás (na imagem que a guia pousou uma águia com água pelo bico).

As coincidências são para ser tratadas como empatia entre observador e observado, com culpas e desculpas remetidas a ambos. 
Retomamos aqui o artigo sobre o Soma, citando A. Sramana sobre essa bebida:
Astrologicamente, Soma é o regente invisível da Lua, que representa também o símbolo da ilusão, da Deusa Maya. Soma é o Deus misterioso que desperta a natureza mística e oculta da humanidade.
(...) Hoje em dia essas plantas são chamadas enteógenas, que significa: capaz de suscitar a experiência de Deus em si mesmo. (...) O seu uso desperta na consciência a sensação inefável de fazer parte da
Totalidade. Esta não é uma abstração e sim uma verdade que se encontra nas camadas mais profundas do nosso ser.
Se há psicotrópicos que levam ao mais íntimo confronto do Ego consigo, com a totalidade, etc... o que é certo é que essas imagens íntimas podem servir de inspiração a muita arte, religião, filosofia e ciência.
Não é a mesma coisa transmitir depois essa informação à população por palavras, por quadros, por música... pode-se tentar sugerir, mas é completamente diferente, até que o outro sinta o mesmo.
As ideias são colocadas à porta, mas não é nada claro que o receptor abra essa porta para as recolher, porque simplesmente pode nem se aperceber que há ali uma porta.

Falta o clique... e esse clique pode ocorrer no final de um episódio do Espaço 1999 (pois!), no final de um filme, pela leitura de um livro, etc. Por isso, o efeito de inspiração introspectiva que o Soma desperta poderá ser obtido doutras formas, beneficiando de forma indirecta da inspiração de outros.
Passar do cinema à simulação de realidades virtuais é tentação à condução de realidades feitas por outros, e não é o caminho do próprio.
Beneficiará mais em "ví-deos", colocando-se a meio caminho, entre a sua percepção e o convite alheio.
Porque a visão é estereoscópica, e deu-os olhos, um olhar interior, e um olhar exterior. Vi-são dual. Se há convite à união ou totalidade, conforme é dito, isso é um erro - porque não se pode igualar o que é distinto... dois não podem ser um, efectivamente. Só o podem ser como ideia potencial, sempre inacabada, sempre incompleta.

Era hábito na primeira série de Espaço 1999 abordar de forma simples temas com um complexo significado filosófico. Poderíamos ver facilmente alusões à "alegoria da caverna" platónica, ao problema da imortalidade, etc... Os produtores cinematográficos e televisivos, desde a estreia da Twilight Zone, em 1959, empenharam-se em desafiar à reflexão filosófica.

Numa modelação simplificada, quando somos forçados a esquecer átomos, moléculas, etc... todo um complexo caos, que parte do universo decide que as bolas do Euromilhões saem para o Fulano X e não para o Y? Um grão de poeira, um sopro de ar, basta isso para alterar dramaticamente a vida, a muitos quilómetros de distância?
Onde ficariam os milhões de universos alternativos, onde calha a combinação Y e não a X?
Ora, cada micro-evento destes passa-se 25 vezes a cada segundo, e de entre as múltiplas alternativas, sabemos que estamos presos a uma única versão. Em parte é decisão nossa, no sentido em que sabemos justificar escassas acções conscientes, mas isso é uma minúscula parte, quando comparamos com tudo aquilo que nos escapa por completo.

Neste episódio Another Time, Another Place, vemos o confronto entre duas versões alternativas do universo, mas a questão é o que determina uma versão e não outra qualquer?
Por muito que melhoremos a modelação, teremos que ter afastados o nosso melhor modelo da realidade que presenciamos?

A minha perspectiva acerca disso é muito simples...
Teremos o maior caos possível dentro da mínima ordem.
A ordem será a necessária para que tudo seja explicável, e o caos será o suficiente para que não seja possível fazer isso completamente em tempo algum.
As razões já foram aqui apresentadas.
Por isso, e como os processos físicos vão sendo condicionados, pouco a pouco, com o nosso conhecimento da verosimilidade, o maior factor caótico de instabilidade não virá da natureza, respeitando os seus propósitos implícitos.
A maior instabilidade estará no pensamento. Ou seja, curiosamente a tendência parecerá ser permitir o maior número de pensamentos alternativos, sem que essa divergência condicione uma convergência saudável, mínima.

Do ponto vista informativo, de um universo que cria informação constante, não apenas por criar... interessa criar o maior número de observáveis distintos, e o maior número de observadores que interpretem consistentemente o resultado... procurando relações a um nível cada vez superior.
O nihilismo avançou com a ideia caótica de que tudo era equivalente, tudo era indiferente. Isso é uma influência de um mundo de sonhos sem referência de realidade. Só que até os sonhos precisam de uma realidade para existirem... até a noção de vazio precisa de alguém que a pense.
Para haver verdade só pode existir um universo.
Havendo dois ou mais universos, seria possível ser num e não-ser noutro. Havendo só um, isso é contraditório. É a unicidade universal que determina a contradição.
As outras ramificações da árvore de possibilidades são apenas ideias, sonhos, fora deste tempo, deste universo.

To be or not to be... ou como escrevi levemente há uns tempos:
1 01 A? - One or not one, hey?
2 02 B? - To or not to be?
3 03 C? - Tree or not tree, see?
4 04 D? - For or not for thee?
Gimme 5!

A alternativa OU, está explícita geometricamente nas letras O e U.
O - é o universo fechado.
U - é o universo aberto.

O fecho do universo num aquário é uma possibilidade impossível.
A capacidade reprodutiva é conceptualmente imparável a qualquer tempo. Se o universo fosse um aquário com um peixinho laranja, automaticamente haveria um universo superior com uma infinidade de aquários com peixinhos laranja, e depois com peixinhos de todas as cores e feitios, etc...
O universo que é único é o universo aberto, que acolheu a árvore de possibilidades sem se fechar, engolindo tudo no único acordo possível, que equilibra as bifurcações dos ramos com as das raízes.
É para esse acordo que acordamos.
Com a ligação conjuntiva E vemos É 3.
O U ... E 3 ... W M
(símbolo de Touro, Mercúrio+) (oito) (símbolo de infinito) 

Nestes símbolos, sim bolas ou bolos, vemos como a geometria das letras tem co-reias de ligação, e só mencionamos as mais evidentes (p.ex. outras S Z 2 5).
Por isso, as somo e assumo que sumo e soma podem ter outros significados, inclusive somar e sumir.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Nebulosidades auditivas (8)


In the beginning there was the 0 1 bit.

Kraftwerk - Computer Love

8 bit makes a byte

IIO - Rapture

1 MeGA-byte

Jamiroquai - Cosmic Girl

TeRa-byte or MeGA-baite

Neneh Cherry, Yassou N'Dour - 7 Seconds

0 TeRa-byte

Massive Attack - Teardrop

the beat

Massive Attack - Angel

let there be beat
Faithless - God is a DJ

(0,1) beat

Faithless - We come 1


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sumo

Sendo a Soma uma bebida na tradição hindú, algo comparável à Ambrosia grega, na sua versão mais superlativa remeteria ao Sumo. 
A palavra sumo passou a designar indistintamente uma bebida, mas também o topo de uma hierarquia.
O caso religioso mais conhecido é o do Sumo Pontífice, fazendo hoje um ano que Bento XVI abdicou dessa função. Há um ano, o tema neste blog acabara de ser outro... o Abraçadabra, e se alguma relação se estabelecia com bebidas, era com o leite de cabra, Almateia, ou com pequenas cabras, que como diminuitivo de capri, passavam a capelas. Já se sabe que o "ch" desviou-se do "c" qual chapelada, e no francês e inglês temos "chapelles" e "chapels".

Já aqui vimos que o prefixo "su" indicara o superlativo, como o monte Sumero se sobreporia ao anterior monte Mero, central na cosmologia budista e antes na hindú.
Também no Xintoísmo o Sumo tornou-se uma palavra importante, ligada a evocações de lutas de deuses transportadas para o círculo terrestre, ou seja o ringue, chamado dohyo, onde há quatro direcções associadas a cores e espíritos (norte-negro-tartaruga, oeste-branco-tigre, sul-pássaro-vermelho, este-dragão-azul). 
Como vemos, dragões azuis e águias vermelhas, não serão novidade... ainda que o pássaro possa ser fénix, e o tigre ser o unicórnio Qilin.

Vem isto a propósito de um texto sobre a bebida "Soma", referida num comentário de Maria da Fonte, e que transcrevemos mais abaixo (xamanismoancestral.com.br).
A ligação ao transcendente tanto se poderia manifestar directamente com os alucinogénios, como a bebida Soma, como doutra forma mais indirecta... através da casualidade no resultado de um jogo. Os lutadores, e espectadores de Sumo, batem palmas, de forma a atrair a atenção dos deuses no combate e assim poderem prescrutar alguma intenção pelo resultado. Quando um lutador menos favorito saísse vitorioso de um combate, era provável que se pudesse inferir daí uma intervenção superior.
Havia assim um convite a que os deuses, ou espíritos, se pudessem manifestar no círculo da realidade terrestre... da única forma possível efectivamente - ou seja, através da interpretação da improbabilidade como não sendo algo casual, sendo sim causal.
Esta é assim uma visão mitológica muito próxima da que era usada também pelos gregos, atribuindo personificações e consciência a acontecimentos que vemos como casuais, e que já referimos nalguns textos anteriores. É completamente distinta da visão alternativa, sugerida por visões... que ora transporta para a profundidade da ligação da consciência ao universo, ora transporta para visões inspiradas, que libertariam um génio criador, de temas com mais ou menos futuro! 
Essa última faceta está muito bem descrita nas linhas que se seguem, e que passamos a citar:

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Popper, the failure man

Uma das grandes influências filosóficas do Séc. XX, para o bem e para o mal, está expressa nalgumas ideias de Karl Popper. No que diz respeito à ciência, instituiu uma ideia de necessidade de possível falsificação da teoria, para poder ser considerada científica. Se a ideia do caminho era a verdade, isto abriu portas escancaradas à mentira.
(imagem daqui)

O início do Séc. XX foi um tempo complicado, em que a ciência abria à população uma catadupa de nova informação. E creio que muita era mesmo nova, não era uma simples repiscagem de coisas conhecidas há muito e escondidas nos armários.
Como objectivo de utilitarismo, importava acabar com teorias místicas, e distinguir o que era do domínio da crendice, do que poderia ser usado em benefício de uma sociedade produtiva. Interessava dar relevo à ciência e acabar de vez com teorias criacionistas, religiosas, que procuravam igual credibilidade, entretanto perdida.
As ideias de Popper assentaram que nem uma luva na instrumentalização utilitária da sociedade.

À partida, o raciocínio invocado parece ter o sentido matemático da "prova por contradição" - se chegamos a uma contradição é porque uma das hipóteses está errada.
Só que não é isso que Popper quis dizer:

... o que Popper exigiu à ciência foi uma rasteira a si própria. 
Não havia cá lugar a afirmações categóricas, quem fazia uma teoria tinha que abrir porta à possibilidade de falsificação da sua teoria. Portanto o réu tinha que apresentar defesa mostrando ao acusador uma porta para rebater o que dizia. Isto era, ou não era, o paraíso dos inquisidores instituídos? 
Ou seja, por definição nunca haveria nada certo... o paraíso do niilismo, do caos, do conhecimento vazio. Muita gente ficou muito contente, porque a "realidade aceite", volátil, essa sabiam manobrá-la bem.

No entanto, estas ideias de Popper acabaram por esmorecer, pela evidência. Tudo o que seria evidente, não era falsificável, deixando de o ser. Por exemplo, a própria ideia darwinista de "sobrevivência dos mais aptos" estaria em causa, sendo uma tautologia... se sobrevivessem os menos aptos, é porque a aptidão tinha sido mal definida.
Mas havia um maior problema... a matemática não encaixava, e ainda hoje não é bem vista como ciência, por ser impossível falsificá-la. Ficou de fora, tal como já tinha ficado fora dos prémios Nobel. 
Os magos nunca gostaram de ter esse pilar de certezas, e usaram de múltiplos estratagemas para lidar com essa componente indispensável, alicerce total da ciência, que era ao mesmo tempo incómoda, por não admitir truques de magia. Foram assim instituídos os habituais faróis de navegação, que prenderiam a atenção dos navegantes, não querendo que os batéis isolados saíssem da rota dos complicados problemas inúteis, que eram úteis ao utilitarismo social de manter o rebanho produtivo.

Portanto, a ciência enquanto jogo aberto contra o casino que esconde o fiel da roleta, esse tinha um destino de lucro infindável. A roleta seriam os burros que andariam às voltas, sem perceberem que não havia nenhum caminho - o objectivo era apenas tirar água do poço.
Les jeux sont faits... game over!

sábado, 25 de janeiro de 2014

Nebulosidades auditivas (7)

Das profundezas de Gaia surgem as especiarias, neste caso Moloko, uma cantora inglesa com alguns sucessos passados. A música pop, especialmente neste último meio século, tornou evidente uma aguda voz do futuro que doutra forma seria abafada pela gravidade do passado. 
Os gostos cindiram gerações, tornando claro como havia harmonias para uns que eram desarmonias para outros. 
As Musas tocavam na frequência do próprio e em frequências de outros, vistas como caóticas.  
A Terra respirava o seu poder implícito, expirando o passado e inspirando o presente com o futuro. 
A orquestra começara a tocar, e se a Ordem explorava os Molucos, o lucro das ora especiarias, ora drogas, libertava o caos silenciado. 
Este mundo já não seria só de velhos... só juntando a ordem do passado e o caos do futuro poderia entender-se a poesia da vida neste presente, o presente da vida.
Até no prolongado silêncio, ou na mais estúpida molokeira há informação relevante, porque o relevo caótico não é ditado pela percepção do passado, é sim determinante para garantir uma sanidade futura.
Há muito que a Terra nos fala, simplesmente não ouvimos, porque o eu não vê que o não-eu é o todo restante, que tem a potência de se poder exprimir na voz de qualquer um, desde o guru encartado ao passarinho de Nicolas Maduro
Se Úrano rejeitou o caos de Gaia, ele nunca deixou de existir, como parte integrante de uma sanidade futura, mal compreendida por ser insanidade presente.
Moloko - Forever More (live)

What if I drown in this sea of devotion 
Just a stone left unturned 
My need is deep 
Wide endless oceans 
Feel it furious 
The fire burns on 

 Let there be love 
Everlasting 
And it will live eternally 
Will we receive without ever asking? 
I'm just curious 

 Got to find me somebody 
But there's nobody 
To love me 
And it's driving me crazy 
There's nobody to love me

 Somebody tell me 
How could there be nobody 
To love me 
And it's driving me crazy 
There's nobody to love me

 Somebody tell me 
How could there be nobody 
Nobody to love me 
And this life is so empty 
There's nobody to love me 

 Endless tears 
Forever joy 
To feel most every feeling 
Forever more

 And it's driving me crazy 
There's nobody to love me 
Anybody could love me

 Somebody to hold my hand 
Someone who understands 
Somebody to help me write 
The poetry of life

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Saltando o título

Skippy the Bush kangaroo

Quem não se lembra? - Arranjava sempre maneira de ajudar...

Nota: "Skip lava mais branco" foi referência posterior - nesta época nem se falava em máquinas de lavar roupa suja:
Kangaroo Court (Capital Cities)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Comadres

Faz um mês que a China anunciou a chegada à Lua...
Um escandinavo reagiria de sangue quente, mas um bom portuga, com o conhecido carácter gélido, dá tempo ao tempo, e portanto, um mês depois, vejamos então as imagens (ainda que não haja muito para mostrar).
Começamos pela emissão distribuída pela chinesa CCTV

[vídeo alternativo - original suprimido]

Para além de fotos dúbias, parecia ter animação de má qualidade?
Tinha mesmo.
A coisa estava tão mal feita desde a animação, às fotos do solo não terem nenhuma periodicidade (nem se ver nada de especial), que houve um reconhecimento da simulação. Não se deixam de ouvir as palmas, ao vivo, e de ter sido isto que passou nas televisões internacionais.

É claro, as comadres têm boas relações - o que é positivo para a paz - e assim vemos que até o rover chinês deixa as já habituais pegadas no solo "lunar":
(as rochas e o solo não se parecem muito com os da NASA)

Portanto, há alguma coordenação e o problema é do observador e não do observado.
Quem não aceita, só tem que aceitar, e mais nada, que a harmonia é muito bonita.

Porém, as comadres nem sempre controlam os filhotes, que devem ser consistentes, e aparece quem questione as coisas:

Aliás, já há algum tempo que se colocava em causa o programa espacial chinês, até porque se viam bolhinhas de ar sair dos capacetes dos astronautas, sugerindo que estavam num meio aquoso:

O vídeo seguinte, original, fala por si (estamos habituados a outra qualidade vinda de Hollywood), mas destacamos, por exemplo, a bolinha de ar que sai do capacete da direita, ao minuto 3:05 do vídeo:


E, pronto, não há muito mais a dizer... the show must go on.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Cataratas à vista

À vista dos que viam um "aquecimento global", aparecem as cataratas.
Neste caso, as Cataratas do Niágara, geladas... segundo a Euronews, pela primeira vez neste milénio, ou seja, desde 2000, altura em que começou a divulgar-se muito a ideia de "aquecimento global".
O frio extremo que se faz sentir nos Estados Unidos e Canadá gelou parte das Cataratas do Niágara. É a primeira vez este milénio que ocorre um fenómeno deste género nesta fronteira natural entre os dois países.
Entretanto já se fala em vórtice polar, designação reservada aos vórtices dos pólos norte e sul... a menos que o pólo norte tenha migrado para os EUA.
A coisa promete conversa, já que há pessoal que, nem com o nariz congelado, deixará de manter a sua tese do "aquecimento global". 
É claro que estes fenómenos são singulares, significam pouco, exactamente como significavam pouco as conclusões anteriores. 
O problema é só a casmurrice, pura casmurrice perante evidências, porque há intuitos diversos, que servem muitos serviços.


Nota (21.12.2019): Os links da Euronews mudaram, as páginas ficaram inactivas, e aqui acompanhei essa mudança.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Levitar sonoro

Num vídeo que chegou à caixa de comentários do blog alvor-silves, de uma conferência de Michael Tellinger, acerca de estruturas na África do Sul:

... começa por falar-se do som e de algumas propriedades.

1) É colocada a questão de ultrassons permitirem aquecer água... 
Qual é a novidade?
Há certas coisas que me espantam sempre, e uma delas é não se fazer uma simples consulta à internet.
Antigamente poderia aceitar-se alguma falta de informação, mas com o Google, Wikipedia, Youtube, houve milhares e milhares de pessoas que colmataram voluntariamente essa falta informativa. 
Há quem insista em não pesquisar... tudo bem, pode não ser fácil sempre, nem sempre as palavras chave funcionam. Mas vejamos este caso, que já conhecia. 
Tentamos "Ultrasound heating", o tema em questão, e zás:
onde se lê:
The first large scale application of ultrasound was around World War II. Sonar systems were being built and used to navigate submarines. It was realized that the high intensity ultrasound waves that they were using were heating and killing fish. This led to research in tissue heating and healing effects. Since the 1940s, ultrasound has been used by physical and occupational therapists for therapeutic effects.
Portanto, de facto, desde 1940 que se sabe que os ultrassons permitem aquecer água... não há nenhum conhecimento secreto. Pelo contrário, há terapias a serem desenvolvidas, usando o aquecimento dos ultrassons, e aplicam-se na próstata e outros tumores.
Por isso, estas coisas deixam-me espantado pelo orador e a passividade da assistência.
Tudo o resto vai do estilo conferência TED "bate-punho", até chegar ao lado místico, para apimentar.
Este é só um exemplo, que até é razoável até certa altura... depois perde-se a paciência!
Há tópicos que chamam a atenção... Atlântida, Pirâmides, Maias, Incas, Stonehenge, etc. junta-se tudo com ETs, Anunaki, etc., e temos 90% dos vídeos deste género no youtube.

Temos vantagens e desvantagens nisto. As vantagens são que no meio de tanta desinformação acaba por haver informação relevante, mesmo. As desvantagens é que a maioria das pessoas não conseguirá distinguir o trigo do joio... Isso também se passa comigo, como é óbvio, mas por isso mesmo é importante partilhar e trocar opiniões e informações.

2) Outra questão diferente, e esta é mais pertinente, é a da levitação por ultrassons.
Felizmente aqui o orador fez pesquisa no Youtube e partilha um vídeo ilustrativo, mas há muito outros, com experiências reais em laboratório. Deixo aqui mais um:

E neste assunto, faz todo o sentido a associação a velho conhecimento.
Temos um exemplo rudimentar com uma tigela tibetana:
... não será muito espectacular, mas dá para ver que a ideia estava presente no Tibete, um sítio aliás bem popularizado pela "levitação". Talvez não chegasse ao ponto de levantar monges, mas talvez fosse suficientemente impressionante para criar esse mito.

Portanto, mesmo no meio de uma conferência especulativa, acabamos por ser alertados para ideias a que não tínhamos dado relevo... seja porque fazem parte do discurso, seja porque o discurso nos levou a pensar nelas. A informação tem esse aspecto sugestivo, que não é menos importante.

Soar e suar
Não suava quem soava bem... o aspecto do trabalho físico versus intelectual esteve sempre em causa - uns soavam ordens e os outros suavam trabalhos, nem sempre suaves, nem sempre na sua vez.
O soar chega a confundir-se com o ser, quando soo que sou.
O som passou a ser o meio de comunicação privilegiado por uma boa parte dos animais, em particular mamíferos e aves.
Para vós, a voz, o vocal. No bucal estava a foz de um sopro de cordas, onde a língua servia uma língua, e no agir, uma linguagem inspirada no acordo fonético. Esse acordo serviria a ligação social.

O som permitiu a arte, mas é pura matemática... uma expressão em que se nota como a simplicidade da base pode levar a uma enorme complexidade no resultado. Com apenas sete notas musicais se escreveram partituras que nos tocaram desde os tempos mais infantis...

O que se ouve dessa criança passada que fez sonhos? - Dó de ser ré de mim, que faz sol lá em si, dó se o acordo desperta dor.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

UFA UFA

Começou cedo a época 2014 dos UFOs... duas notícias no "grande noticiário":


Aeroporto de Bremen cancelou voos durante a tarde de hoje, devido a OVNI...

Conforme diz a notícia da Euronews:
The airport said the UFO showed up on its radar several times between 16h30 and 21h30 local time. Police, who scrambled a helicopter to investigate, admit they still don’t know what the object was. The incident cancelled a flight from Frankfurt, while another from Munich was diverted to Hanover. A similar incident in Saxony on Sunday turned out to be a remote-controlled model airship.
... e a questão é que cada vez mais há a possibilidade popular de fazer aparelhos voadores de controlo remoto - ou seja "drones". Ou isso, ou o ovni de Bremen pode ter vindo tratar da reparação do clone de uma dirigente alemã, depois de um acidente de ski... é só escolher a melhor história! 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Patas

Pelo meio da evolução, interessa perceber o que pode ter levado a umas soluções e não a outras.
Por estranho que possa parecer, há evidência biológica para respostas geométricas. Um caso típico é a divisão que levou aos Tetrapodes, ou seja, 4 patas, que junta todos os vertebrados terrestres e aves (incluem-se aí as asas, que saem de patas).
Os insectos, aranhas, escorpiões e crustáceos, com múltiplas patas, caem noutra parte do reino animal - os Artrópodes - a solução com número maior de patas trouxe uma curiosidade - nenhuns são vertebrados.

Talvez mais engraçada é uma grande divisão animal que separa os "Protostomas" dos "Deuterostomas"... já que há uma escolha embrionária primitiva, relativamente ao tubo digestivo:
Protostomas - Abrir primeiro a boca (artrópodes, moluscos);
Deuterostomas - Abrir primeiro o ânus (vertebrados, estrelas do mar).

O ovo fecundado começa a subdividir-se, e de alguma forma replicando a geração universal, a sucessão 1, 2, 4, 8... duplicará células aparentemente semelhantes, mas que irão ter funções muito diferentes.
Uma primeira fase do processo consiste na definição da "parede" que separa o interior do exterior... essa "parede" é a pele, representada na blástula do embrião.
No caso dos animais, devido à necessidade de alimentação, define-se logo o tubo digestivo, pela gástrula, que unirá "furos" na blástula... por um lado a boca, por outro lado o ânus.
Onde abre primeiro? - uma grande separação entre os animais é feita nesta opção. Em todos os vertebrados, o tubo digestivo abre primeiro pelo ânus... algo que é bastante diferente dos insectos, moluscos, etc... onde o tubo digestivo abre primeiro pela boca.

Esta divisão inicial centrada no tubo digestivo, mostra bem a importância vital da alimentação na constituição dos organismos primitivos. A alimentação revelará a essência atómica da vida. Comer podia ser um processo mecânico, mas vai ao fundamento químico atómico. Ou seja, a ingestão de outros organismos poderia simplesmente consistir num aproveitamento das suas células, para benefício do organismo que ingere. Qual a necessidade de destruir por completo as células da presa, se grande parte desse processo remete à construção de novas células no predador? Em certas tribos havia até a ideia de ligar a ingestão de órgãos para benefício dos mesmos órgãos... porém, como sabemos, o processo é bem mais radical e os nutrientes aproveitados estão ao nível molecular básico, até atómico. Ao predador interessam as moléculas, os átomos, ou a energia, e estruturas mais complexas da presa são completamente destruídas no fluxo pelo tubo digestivo.
Se o processo parece brutal pela redução da presa a simples nutrientes, não deixa de ser revelador de que a vida animal é independente da destruição doutras formas de vida, apenas recolhe os nutrientes dessa forma.
Uns seres vivos tornaram-se em autênticas fábricas de nutrientes para outros, sendo o caso mais paradigmático o das plantas. Mas este tipo de estrutura é suficientemente abstracta, e espelha-se até socialmente. Uma grande população serve como fábrica de nutrientes para uma elite predadora. É claro que a classificação predador e presa no processo humano remete a conceitos muito mais sofisticados do que a simples sobrevivência, ou a mera competição num determinado objectivo.

Voltando à questão embrionária.
Definido um corpo central, percebemos que há basicamente duas possibilidades - a radial e a não radial.
A opção radial não privilegia nenhuma direcção. 
Assumindo uma direcção preferencial, começaram a definir-se os corpos bilaterais, que seguiam a direcção do tubo digestivo - da boca à cauda. Portanto, foi a questão do tubo digestivo, a questão da comida que definiu essa orientação preferencial, e vemos que nos vertebrados a coluna segue exactamente essa direcção, que é também a direcção de locomoção.
Uma ameba pode ser vista como um corpo radial, onde nem sequer estão definidos membros... o número de extremidades é flexível e variável. O movimento do corpo amorfo é possível em todas as direcções, mas isso implica uma grande complexidade a programar a estrutura... só para controlar o movimento!
Assim, a complexidade do DNA nas amebas pode estar ligada justamente a uma complexidade estrutural que permite definir movimentos e formas arbitrárias. Isso deixa de acontecer quando a estrutura fica rígida, e ao indivíduo são permitidas poucas hipóteses de movimento. Por exemplo, os vertebrados tetrapodes ficaram reduzidos a deslocamentos fixos, com apenas quatro "patas".

Portanto, solução simples na codificação do movimento no DNA seria definir um número fixo de direcções. 
A solução pôde ser radial, mas com um número limitado de raios, de patas, que saem do corpo central, no caso dos artrópodes. 
No caso dos moluscos, as extremidades servem apenas a locomoção, e são o mais próximo do radial, tudo o resto fica preso ao corpo central (p.ex. tubo digestivo e olhos - que no caso de bivalves distribuem-se pela várias direcções). Dentro dos artrópodes, as aranhas têm uma solução parecida. Já os insectos desenvolveram uma solução diferente onde, das oito ramificações saídas do corpo central, uma das extremidades definiu a cabeça para onde migram os olhos e cérebro, e a outra extremidade tomou funções digestivas e reprodutivas, ficando as restantes 6 para as patas. Mais do que as aranhas que têm até 8 olhos, os insectos adquiriram uma direcção preferencial, com dois olhos, e estabeleceu-se uma bilateralidade não vertebrada. 

Os vertebrados começaram por definir o tubo digestivo como direcção, como no caso dos peixes, onde o número de membros não estaria completamente definido, e de soluções com múltiplas barbatanas, chegámos aos peixes pulmonados, tetrapodes, de onde se pensa terem surgido os vertebrados terrestres.
Esses vertebrados terrestres definiram 6 componentes onde, para além das quatro patas, uma das componentes definiria uma "pouco útil" cauda, e uma essencial cabeça.
Hominídeos e humanos dispensaram o prolongamento na cauda, o cócix limita o "six", reduzindo a 5 as componentes que também são replicadas nos dígitos (5 dedos). Ainda assim, do ponto de vista geométrico, o "macaco que perde a cauda" é um passo menos surpreendente do que o das cobras... que dispensaram as 4 patas, aparecendo como uma variante de tetrapode com uma única direcção preferencial, enquanto as aves evoluíram duas das suas patas em asas. 
O caso das aves é especialmente paradigmático porque apesar da significativa redução de direcções, a sofisticação do controlo das asas permite complexos movimentos de voo. Seria já a nível de um cérebro evoluído que se processaria o controlo de movimentos, não passando pela codificação directa no DNA. Por muito rápido e inerente que seja o processo, pode fazer sentido dizer que as aves aprendem a voar, e que alguns mamíferos aprendem a andar... algo que não se verifica com répteis.

Este ponto final é especialmente importante... a reprodução diversificada pela combinação de genes atingiria um certo limite crítico ao remeter codificações ao cérebro. A sofisticação do cérebro avançaria mais rapidamente do que a codificação genética. O contexto na formação do cérebro do indivíduo iria ultrapassar a vantagem da codificação genética incorporada pelo parentesco biológico.
Chegados esse ponto, a menos de transformação genética "mágica", o cérebro de indivíduos semelhantes passa a ser muito mais funcional pelo contexto educacional do que por resultado do património genético. As variações genéticas só a curso de inúmeras gerações poderiam ser eficazes, enquanto um cérebro flexível rapidamente se adaptaria a novos contextos... foi esse o caso humano.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Planeamentos a milhões de anos

A precipitação da vida moderna levou-nos a um planeamento cada vez mais precipitado relativamente ao previsível futuro. O resultado prático é uma atabalhoada vivência num mundo caótico de referências cada vez mais efémeras. Gera-se um infindável novelo de informações que demorariam séculos a analisar, mas como servem apenas um ou dois objectivos conhecidos, ligados a valores triviais, são malha de arrasto na busca de um certo pescado, vitimando milhões de peixes só pela brutalidade do processo. Qual é o pescado procurado? Pois, esse é o maior drama... os armadores da rede nem sequer sabem o que procuram. Procuram, porque nunca souberam fazer outra coisa, e como subproduto de peixaria, vendem o que apanham. 

Para a maioria das pessoas fazer planos para a semana seguinte começa a ser complicado, e já se vê como perspectiva lírica fazer planos a vários anos. Pela análise objectiva da sua esperança de vida, o maior planeamento que se faz diz respeito à velhice. E portanto, pela condição mortal, uma idealização termina no máximo em planeamento a décadas de distância. 
No entanto, por estranho que pareça, uma significativa parte da população, sendo religiosa, aceita uma eternidade... Bom, e então quais são os planos para esse gozo de eternidade? Silêncio completo...
Decorre da mesma deriva religiosa que haverá tutores para lidar com esse fado interminável. Como qualquer conto infantil, parece ainda terminar com a frase "e viveram felizes para sempre"!
Na perspectiva bíblica, falando de um universo reduzido a menos de 6000 anos, parece haver uma experiência que atingiu apogeus "humanos" em idades pré-diluvianas que chegariam quase 1000 anos, como foi o caso de Adão. Mesmo assim, planeamentos a milhares ou milhões de anos, são basicamente coisa de crianças, quando se trata de pensar numa eternidade.
Ora, para além da evolução tecnológica, a vivência humana parece tornar-se algo repetitiva ao fim de algumas décadas. Há sempre um conjunto de idiotas que faz as mesmas idiotices, parecendo eternas crianças traquinas, entretidas em formatos diferentes das mesmas brincadeiras infantis.
Essas brincadeiras são as mesmas há milhares de anos, e muitas vezes resumem-se à insegurança e vontade de protagonismo da criança embutida no corpo adulto. Uma criança que quer ser centro de atenções, mas que ao mesmo tempo vive apavorada pelo isolamento e por monstros imaginários. 
O eventual papão debaixo da cama passa depois a ser um eventual terrorista na vizinhança. As ameaças nunca acabam, porque é óbvio que o principal monstro que enfrenta é uma espiral de medos embutida na sua cabecinha. 
O principal inimigo é o próprio, na incompreensão que tem de si mesmo. Até que aprenda a viver consigo, nunca conseguirá viver com outros. Se for um crápula, concebe implicitamente que possa trocar de papéis, e teme ser vítima do despotismo que impõe aos outros. Se não for ele que controla, questionará o controlo por outrém, a bem da equidade. A equidade só lhe interessa quando é descriminado, e normalmente é remetida contra quem tem mais e não a favor de quem tem menos. Os refúgios habituais da criança são o clube de amigos, ou a figura de pai compreensivo. O pai compreensivo, ou a mãe protectora, passam à figuração divina, ou ainda à simples figura do apadrinhanço profissional. Tendo segurança e equidade, questionará a liberdade, que afinal o condiciona a respeitar segurança e equidade. Até que cresça para entender a contradição que encerra na cabeça, será um elefante numa loja de porcelana.
Portanto, a esmagadora maioria dos adultos são efectivas crianças que nunca reflectiram, que procuram uma realização condicionando os outros aos seus medos e desejos, evitando o confronto com o outro "eu", que sempre os condicionará pelo outro lado do espelho.
Bom, e o que faz um adulto num mundo de crianças? Espera que cresçam, com a paciência de quem sabe que o tempo não se acaba amanhã, nem daqui a um milhão de anos.
Talking Heads - Heaven.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Alfaborboleto

Sei que algumas das coisas que aqui escrevo parecem estranhas, julgadas mais fabulosas do que ligadas à realidade desvendada pelos olhos... e por isso é também aconselhado ver o que as borboletas nos trazem aos olhos, sem ser figurativamente. 
Neste caso um alfabeto borboleta!

Kjell Bloch Sandved, um fotógrafo de borboletas compilou padrões nas asas de borboletas, que se parecem bastante com números e letras do nosso alfabeto:
Padrões alfanuméricos em asas de borboletas (imagem em io9.com)

É claro que haverá quem diga que se trata de coincidência, de pareidolia, como quando uma mancha ou uma nuvem nos lembra uma cara, uma região... mas não vale a pena discutir sobre isso.
As imagens estão aí, e há muitas outras que Sandved recolheu desde 1960, publicou na revista do Smithsonian, e apresenta no seu site:


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Nebulosidades auditivas (6)

Normalmente tendemos a ver as coisas de forma linear, ou na forma de um plano traçado. Quando os homens partiram rumo ao horizonte, precisaram que a terra se vergasse sob forma circular para perceberem que tinham chegado ao mesmo ponto de onde tinham partido. Mas nem todos encontram essa memória, porque houve uma cedência na nossa natureza... dispomos de dois olhos para encarar o futuro conjugando perspectivas diferentes, e não de um olho para a frente e outro para trás! O que deixámos para trás vemos através de um olhar numa memória difusa. Um olhar unidireccional, algo desaconselhável numa perspectiva de competição animal, porque desprotegia a retaguarda, era compensado com alguma segurança da memória do caminho. 
Quando vogamos num mar circular, é difícil estabelecer uma ordem absoluta. As posições são relativas, e se há quem se julgue à frente, é porque pode nem dar conta das voltas que tem de atraso. E a paisagem até pode ser semelhante, e quem vê para trás e para a frente, iludido pela curvatura, não vê ninguém à sua frente, e vai debitando marcas deixadas para reavivar um mapa inscrito na memória colectiva perdida. E podemos ir por esse trilho, já calcorreado, guiados por alguma ideia do que já fomos, mas saberemos que o nosso olhar não é o mesmo. E essa é uma grande diferença... se tivermos perdido a memória, será novo, e pouco interessa que nos digam que não é. O dejá vu é uma ideia de quem está a ver de novo, e ainda que já tenha visto... não é nenhuma repetição - serve a uma nova compreensão. Se a repetição não é notada é indiferente para si, e se é notada não é nenhuma repetição total, é apenas parcial (já que pelo menos a ideia de repetição será nova ao próprio).

A nossa razão assenta sobre raízes que estabelecem um nexo causal, que do passado projecta um futuro, como uma árvore que encontra na terra a sua sustentação, mas emerge num futuro procurando uma fonte de luz. Sem sustentação sólida vogaria num vento de caos, onde seria tão provável uma realidade ou outra qualquer, por isso são as raízes comuns que nos prendem à mesma terra. Acabamos por estar entrelaçados numa malha complexa em que a fonte de luz é a própria estrutura que nos sustenta a existência diversificada... mais uma vez num misto de linearidade e circularidade, mas circularidade em espiral crescente, juntando sempre novas manifestações do já existente.

O caminho nesta estrutura não deixa de ser frágil, parecendo o voo errante de uma borboleta, sujeita a ser esmagada pelas rodas do tempo, de um passado e de um futuro que se unem no presente. Entram aqui dois aspectos, por um lado a estrutura física que se quer com raízes sólidas, e por outro lado a estrutura mental que se quer livre no voo. 
Já referimos a citação de Alexander Pope sobre Sporus, "a butterfly on a wheel", mas também é de referir a menção a Santa Catarina de Alexandria, como "butterfly on a will", e é nesse quadro que trazemos duas canções separadas por algumas décadas, mas que parecem remeter para uma mesma mensagem.
The Mission - Butterfly on a Wheel

Katy Perry - Wide Awake

A bicicleta final de Katherine parece uma forma harmoniosa de conjugar rodas que antes serviram para esmagar borboletas.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Hélgia (6)

- As associações podem ser interpretadas de múltiplas formas. Afinal o que dá mais consistência a umas coisas que a outras? Associações básicas, como o número, são como rocha. Cria-se uma estrutura perene onde assentam outras estruturas... por exemplo, as relações entre os números, por exemplo, simbolizadas pelas operações aritméticas, como soma, multiplicação, etc.
- Sim, há uma grande diferença entre um simples ver, um estabelecer de relação básica entre o observador e o observado. Sem um nexo consistente, as ideias são líquidas, não precisam de obedecer a nenhuma estrutura ou nexo sólido. Um observador estruturado encara as palavras com uma determinada ordem entre as letras... não é a mesma coisa escrever "neo", "noe", "eno", "one", apesar de serem apenas 3 letras. No entanto para um observador mais "líquido", a ordem interessa menos. Há ali 3 letras, e podem aparecer da forma que se quiser, que tudo parece a mesma coisa. É com uma troca de letras que se fazem muitos códigos entre crianças.
- No mundo de crianças há muitas ideias formadas, que são meras observações, mas que por simples relações lógicas, induzem em contraponto a um ideal positivo, um outro ideal negativo. Quando tudo é permitido podemos moldar barro da forma que quisermos, mas isso induz imediatamente a ideia do que resta...
- Exacto, e é esse problema, que se acumula com o tempo... os restos!
- Ao formarmos uma ideia estruturada, ela começa a ganhar a consistência de uma espinha, de coluna solidificada, a que se agregam as diversas ideias "líquidas" que polvilham o nosso imaginário. Se essas ideias são comuns a diferentes observadores, então estabelece-se uma ponte, um acordo entre esses observadores, que lhe dá consistência de "terra comum".
- No entanto, há uma parte criativa que produz ideias pessoais, que não têm assento nessa "terra comum", nesse acordo... onde ficam então essas ideias? Num "céu de ideias"... eh eh?
- Bom, essas estruturas mentais não deixaram de existir, nem deixaram de estar presentes nas mentes, ainda que temporariamente, talvez guardadas nalguma memória... em fantasias comuns de histórias relatadas numa comunidade em tempos remotos. Simplesmente, a realidade aparece como aquilo que não podemos deixar de ver, enquanto que os sonhos são aquilo que vemos numa interpretação dos nossos pensamentos.
- Uma criança pode fazer um boneco, um amigo imaginário, um reflexo de si mesma... desenvolvendo estruturas semelhantes de pensamento, mas que não interagem no mesmo universo. Quando as comunidades são similares, até mesmo os amigos imaginários podem ter analogias entre as diversas crianças. Porém, enquanto os adultos são confrontados com a interacção directa com a realidade, os outros processos aparecem como velhos sonhos de criança, que ganharam caminho próprio, e só incomodam o desenrolar livre dos sonhos quando a realidade se intromete no caminho. 
- A realidade é o acordo mínimo entre os diversos sonhos dos indivíduos, e em último caso pode remeter-se à lógica mais básica. O indivíduo objectivo recusa essa dupla personalidade, que lhe apresenta um sonho sem nexo. O resto, a realidade, alicerçou-se em ideias estruturadas, onde tudo tem uma razão, um caminho, que foi o que ficou depois de todos os sonhos impossíveis.
- De alguma forma, foi como uma espinha matemática, reflectida em nexos físicos consistentes, que ganharam espaço de realidade, depois de esgotada toda a matéria ilusória dos sonhos. Terminados os medos dos sonhos, pela sua falta de substância de realidades, falta-lhes espaço de impor a sua existência, excepto como uma parte integrante da mesma realidade. E é claro que a falta de nexo lógico, de estrutura razoável subjacente aos sonhos individuais, só os torna admissíveis num espaço de realidade comum com uma fragilidade própria da inconsistência ocasional.
- Num mundo idealizado por sonhos caóticos, tudo é vago, pouco perene, e fica implícita uma divisão para o que não interessa... há um mundo mitológico, algo infantil, por um lado, e uma estrutura que se solidificou, que sobreviveu pela lógica da existência do resto.
- Tal como os números primos são o resto das construções básicas da aritmética?
- Exacto, uma coisa é pensar que todos os números estão pelo menos agrupados com 2 elementos numa multiplicação, outra coisa é deixá-los de lado... no entanto, eles não desaparecem. 
- Sim, não são multiplicação reprodutiva de dois anteriores, existem como resto desse processo... mas têm direito a essa existência, por exclusão lógica do processo multiplicativo. Não são vistos como ordem, são desconsiderados até que seja inevitável a sua emergência... e o necessário estudo, por força da sua existência como realidade que se impõe.
- Depois, como é óbvio há sempre várias camadas entrelaçadas, no reflexo sobre si mesmo. Qualquer ideia gerada, é vista num nível acima como ideia do olho, em vez de ser ideia do cérebro. Por sua vez, em camada ainda superior, isso é entendido, de novo colocado para visão, num processo que não tem fim... e que é de alguma maneira bem retratado na mitologia nórdica pela figura de Loki.
- Porém uma coisa completamente diferente é o processo algo maquinal de apresentar ideias de forma fotográfica... algo típico da função de memorização, que é de certa forma independente da função de compreensão, destinada a estabelecer uma árvore de ideias com raízes sólidas.
- Sim, há uma clara distinção entre um simples saber, que pode ser visto como folhas, mas que não é árvore sem os ramos que a estruturam.
- A relação entre as ideias são o tronco, que é visível, gerando novas folhas, num outro nível, e a comunicação que se estabeleceu numa realidade entre os diversos outros, mas que fazem parte da mesma estrutura acaba por estar algo bloqueada, por diversos processos comunicacionais, entre os quais pela memória. No entanto essas ideias mais leves, de que se fazem os sonhos, sobem e podem ser partilhadas por conexões no mesmo imaginário, levando a eventuais alucinações se não houver recusa da sua plausibilidade pela comunidade "acordada".
- A estrutura lógica, matemática, acaba por ser a última rocha, o tronco onde assenta a estrutura.
- Não só matemática, mas também filosófica, que entronca na noção de existência ter observadores que recusam a anulação... em última análise, ainda que se forçasse um colapso da memória, seria apenas uma desestruturação, um cair de folhas, mas o tronco da estrutura estaria pronto para o inverno, pronto a renascer com novas folhas, com base na matemática já desenvolvida.
- A lógica acaba assim por ser o último reduto da existência?
- Sim, e também da não existência... por complementaridade.
- Mas isso não é algo contraditório?
- Não, a realidade é a fronteira que determina o contacto entre os dois universos.
- A realidade avança na direcção do imaginário, com base nas realidades passadas. Se ignorarmos as realidades passadas, a memória, então poderíamos entrar num caos, e perder a base da estrutura que nos definiu.
- Mas não perderíamos a estrutura... porque existiu sem contradição.
- Sim, mas pelo outro lado, onde a contradição é possível, não há propriamente restrições... e o vento de ideias acaba por permitir a imaginação, que pode encontrar novo espaço para se solidificar como novas raízes, desde que se estabeleçam as relações para isso.
- Bom, e sejam consistentes... ou senão serão "arte".
- O processo matemático assemelha-se a uma máquina, e pode usar-se essa figuração, levando a crer que há alguma "máquina com controlo a governar", a ponto do visualizar de novas estruturas, uma alteração do inicial, remeter para uma ideia de tempo pela modificação inerente e inevitável. Um simples "passeio" pelas alterações da estrutura remete a essa ilusão, tal como podemos ver um mundo 3D como tendo camadas de observação 2D sobrepostas
- Aliás, as nossas letras acabam por ter curiosamente uma estrutura que pode revelar observações superiores, com significados desse tipo:
- Revela-se uma cisão que não é equivalente, partindo de O inicial.
Por um lado há uma parte que se fecha num D, e uma estrutura que fica aberta num C, que receberá tudo o que fica de fora. Equivalentemente podemos ver uma estrutura superior, um céu sobre uma terra plana, que tende a ficar piramidal no A, mais uma vez deixando um universo U de fora. Numa fase seguinte, temos a perspectiva de junção de D que leva a um B, ou alternativamente os dois C levam a um E, enquanto estrutura aberta, e por simetria a um 3, que podem unir num 8. Ortogonalmente, temos uma sobreposição W e M que corresponde ao símbolo típico de infinito (ou da banda de möbius).
- Não se vê nada de AAA nem de BBB... talvez os correctores financeiros se refiram mais à música dos ABBA, ou devessem rever as notações mais para 888, havendo a hipótese WWW com XXX... eh eh! Então e a seguir?
- A seguir podemos ver como estas coisas se unem entrelaçadas, como no DNA, ou ainda nos cromossomas. O Y é tipicamente masculino e representa uma bifurcação, unida por um passado comum, ou alternativamente haverá um X (ou H) de corte de Cronos, mas que têm que pelo menos unir-se num ponto comum. Caso contrário seriam disjuntos como dois II que nunca influenciariam um e o outro. Esta união também poderia ser vista como um duplo S, um SS, ou S2, no sentido de formar um 8, ao estilo fecho Zip... seria um ZZ visto como Z5, dois caminhos seguindo entrelaçados em atacadores.
- Vocês só podem estar a gozar falando disso!...
- Claro que sim. Mas as relações não deixam de estar lá, se as quisermos ver... e há sempre quem atribua importância a estas coisas, talvez por receberem informações privilegiadas!
- Mas qual é a ideia afinal?
- A ideia é que o universo se constrói em cima de si próprio, e inevitavelmente houve um passado que  influenciará o futuro, mas também o nosso futuro determina a capacidade de investigar e recuperar esse passado. Mas tudo isto é muito mais de simples folclore individual, porque ao existir cada um condiciona-se a si próprio e aos outros.
- Bom, tudo isso me parece embrulhado num ovo caótico serpenteante.
- Mas não somos feitos da consolidação de um caldo cultural caótico?

Panjabi MC - Mundian To Bach Ke