quarta-feira, 15 de maio de 2013

De Natura Deorum (3)

A antiga mitologia criacionista tem um aspecto maternal que aparenta ir buscar as suas raízes longe, na noite dos tempos. Há conclusões simples que não devem ter escapado aos nossos antepassados, mas que de forma propositada, ou despropositada, foram ficando do foco primeiro da atenção.

Seria óbvio que o primeiro ser pensante teria saído de um útero não pensante...
Esta era uma visão materialista, mas no sentido de uma matéria, que é mater, ou seja, mãe!
Teria o modo, a forma, mas não a razão, à matéria faltaria a alma, Alma Mater.

Alma Mater (de Edvard Munch)

Há assim um culto antigo, que se confunde com o da "mãe natureza", de onde emerge a consciência humana.  Generaliza o conceito de gestação materna de cada indivíduo, a uma génese da própria espécie pensante, enquanto produto de uma Mãe Terra. 
Cada homem necessita tanto do útero materno, como a espécie humana necessitou do útero terrestre para se desenvolver. 
Na própria gestação do feto podemos ver reproduzidas fases de desenvolvimento que nos aproximam de outros animais. E isto nada tem de darwinismo... não é uma evolução despropositada, é a reprodução sequencial de um caminho de auto-consciência. A Terra não ganhou consciência da sua existência com as bactérias, nem com as plantas, nem com os dinossauros ou mastodontes, conseguiu essa consciência através de um caminho improvável que levou aos seus filhos humanos.
Porém, só quando temos a cabeça na Lua podemos dizer que a Terra não manifestou com isso a sua própria inteligência e consciência... ou será que somos tão antropocêntricos que nem nos vemos como parte integrante de toda a mater, a matéria terrena?
Bom, é verdade que os filhos, primeiro abandonando o útero materno, depois abandonando as saias da mãe, vêem-se como seres distintos da progenitora... mas no caso da espécie humana ainda mal se poderá dizer que abandonou o útero terreno.

No mesmo sentido, se todas as coisas tem por constituintes partes de uma qualquer matéria, estão inevitavelmente dentro desse enorme conjunto, dessa magna mater universal. Aí a conclusão é ainda mais radical - estamos dentro do útero de um universo mãe, que nos gerou. Creio ter sido nesse sentido global que se desenvolveu o culto da Deusa-Mãe, e foneticamente não podemos ignorar que o som "mãe" é demasiado próximo de "mãi" ou "mãia", levando ao difundido culto de Maia, enquanto divindade que ocupou esse lugar numa mitologia popular cuja tradição se perdeu na noite dos tempos (ver texto Mayday), ainda que normalmente se associe a Cibele enquanto Magna Mater.


Curiosamente, Camões no Canto 2 (56) dos Lusíadas escreve:
"manda o consagrado filho de Maia à Terra"
o que remeteria para o hermético Hermes, pelo que nalgumas versões foi corrigido para
"manda o consagrado filho de Maria à Terra"
notando que nalguma tradição gnóstica a identificação hermética de Cristo parece ter sido considerada.


De qualquer forma, o catolicismo recuperou parte dessa génese de Magna Mater no culto Mariano - é  afinal nesse ventre materno que se formará o Deus Homem, pela inevitabilidade da sua matéria humana - será a Mater que fornece a matéria da gestação.
A tradição antiga invocaria também uma Mater primordial (Gaia) de onde teriam emergido os próprios deuses criadores (Urano, Cronos, Zeus).

Se os epicurianos aceitavam a existência de deuses criadores, desligavam-nos das suas criações, colocando-os numa esfera à parte, inacessível. Isso seria tipicamente a argumentação vazia, refugiando-se numa transcendência que escaparia ao entendimento humano... ou seja, beberia na mesma fonte onde os dogmas escolásticos vieram a assentar - a inacessibilidade, que teria como resultado a negação da racionalidade, levando à panóplia niilista. A retórica levava a racionalidade a bater no obscurantismo, porque não havendo respostas para a "criação dos criadores", tudo seria afinal equivalente à ausência de resposta.

Por outro lado, a figura cristã de um Deus Homem capaz de compreender e aceitar o seu destino material, numa manifestação de potência interna perante o sofrimento infligido pela potência externa, é tipicamente uma consagração da filosofia Estóica. Não é uma simples resignação ao sacrifício, é uma aceitação de sacrifícios como meio de alcançar a sua completa compreensão, não já na matéria humana, mas no seio superior da Alma Mater.

Não há nada igual... Há apenas igualdades parciais, conceptuais, mas têm que primeiro se estabelecer pela diferença para que as possamos agrupar depois numa qualquer igualdade.
Esse é o paradigma antigo da Mater cujos filhos são diferentes, mas que os quererá agrupar numa mesma igualdade de origem... para isso precisa de um entendimento, de uma Alma, gerada no seu seio que lhe permita essa compreensão da igualdade na diferença.

São demasiadas vezes confundidos conceitos humanos com noções puramente lógicas e abstractas, mas uns têm tradução nos outros, basta compreender como.
Podemos falar numa Deusa-Mãe ao mesmo tempo que vemos isso apenas como uma mera noção abstracta que engloba todas as entidades idealizadas, puramente matemáticas, onde o tempo, o espaço, e tudo o resto são apenas qualidades particulares, distintivas, são a matéria Mater.
O estabelecimento de relações entre as diversas noções é um nível seguinte, que leva ao conceito de inteligibilidade. Não há nenhuma "vontade materna" de equidade, mas ela pode ser expressa assim, porque ilustra o absurdo duma evolução universal para um permanente desequilíbrio. Por isso, as alegorias podem bem viver em conjunto com as afirmações lógicas, desde que lhes encontremos um sentido.

A inteligibilidade do universo está sempre um passo atrás da sua contemplação, mas não tem qualquer limite, tirando os limites lógicos. As limitações lógicas são essência da própria inteligibilidade, nem sequer estamos presos a elas... simplesmente sabemos que a sua recusa leva ao vazio, ou ao caos. Ao vazio, quando aceitamos contradições, ao caos quando começamos a falar em meias verdades.
A lógica é bivalente porque a existência é una - não nos dividimos em dois seres - um que lê esta frase, e outro que não lê, por isso apenas temos uma verdade.
A dúvida pode levar a aspectos trivalentes, por incapacidade ou cisma pessoal. A incapacidade é natural, mas o cisma é diferente, é a recusa de resolubilidade da dúvida. Ou é objectiva, ou é mera obstinação, uma recusa da possibilidade de compreensão.
Acresce que, por simples constatação lógica, a inteligibilidade do universo está necessariamente contida nele, pelo que não deve ser vista como inatingível... há limitações, em particular resultantes da nossa Mater, da matéria humana onde nascemos, mas o que interessa é a predisposição.

Temos uma predisposição favorável à verdade, ou optamos por ilusões que nos remetem para falsidades?
Não faz sentido pensar que uma pedra está infeliz com a sua natureza, nem tampouco uma planta, porque não lhe reconhecemos raciocínio ou desejos. Quanto aos animais, podemos facilmente pensar que se lhes oferecermos alimentação e a companhia desejada, isso satisfará os seus "desejos".
Continuarão a pedir mais indefinidamente? Não cremos.

Porém com os humanos é diferente... pela sua natureza infinita os seus desejos nunca parecem possíveis de satisfazer. Os humanos não estão bem consigo próprios, porque tendem sempre a cair num desajuste entre o que é e o que queriam que fosse, e repetem isso sucessivamente.
A medida de infelicidade é o desajuste entre o que se quer e o que se tem. Quem não sabe o que quer, por muito que tenha, está insatisfeito e dificilmente será feliz... e obviamente há quem consiga ser razoavelmente feliz, mesmo com pouco.

Ao contrário do que é habitual pensar, a felicidade não é um problema individual, é um problema comunitário. A questão é que basta sentirmos que há alguém infeliz para sabermos que a insatisfação pessoal daquele indivíduo o pode levar a acções que nos ameacem. Nem é só isso, a simples projecção na situação de infelicidade alheia deveria provocar também um desconforto. Por isso, ninguém pode ser completamente feliz tendo consciência da infelicidade alheia na comunidade.
Quando a comunidade é global, o problema torna-se global.
Quando as orientações de felicidade da comunidade levam a desejos de protagonismo individual, quando há desequilíbrios evidentes de posses, então a comunidade está a abrir sucessivas insatisfações nos seus elementos, agravando os problemas de infelicidade em todos.
Ao contrário, uma comunidade progride muito mais se não exacerbar o protagonismo individual, porque isso deixa de constituir um desejo de afirmação do próprio perante os outros, que é o que leva a desequilíbrios insanáveis. O progresso científico faz-se pela curiosidade natural, enquanto que o desejo de sucesso apenas limita a colaboração. Por outro lado, os desequilíbrios nas posses são tolerados pelas comunidades quando há algum racional de mérito, mas qualquer manifestação exagerada ou claramente injusta leva a grandes insatisfações. Por isso, seria necessária não apenas uma mudança da lógica comunitária, mas também uma necessidade de acompanhamento introspectivo de muita gente... porque, por falta de introspecção, muita  gente nem sabe que é infeliz - procura desculpas para a sua insatisfação nos outros, ou na comunidade. E isso, é transversal... tanto ocorre na recriminação de classes baixas a altas, como vice-versa.

A questão latente é que, mesmo eliminando as circunstâncias sociais, existem desequilíbrios naturais... e se os problemas físicos, ou os medos funestos, podem ser combatidos por medicinas, filosofias ou religiões apaziguadoras, há em última análise problemas tão simples que resumem a amores não correspondidos... e esses acabam por ser fronteiras últimas de entendimento e inquietações pessoais.


Termino, com uma pequena nota sobre a equidade.
A equidade é engraçada quando a vemos espelhada num culto dos seus promotores... o destaque que se deu a alguns promotores da equidade (e não falo apenas de Marx, Lenine, Mao, etc...) foi um contra-senso com a necessária discrição que favorecia a ideia subjacente. Quando se idolatriza alguém está-se contra a própria ideia de favorecer a equidade. Por isso, por consistência, alguns dos maiores promotores da equidade devem ter sido esquecidos por opção própria.
No entanto, mesmo assim, há quem sempre leve a questão da equidade ao limite, ponderando sobre a sua possibilidade teórica. Ou seja, será ou não possível que uma Mater tenha ao mesmo tempo filhos diferentes com perspectivas de igual protagonismo?... Repare-se que isso entronca logo com a necessidade de haver um primeiro... um varão. Como equalizar o que é afinal diferente?
O número é uma das maiores capacidades equalitárias racionais - tudo o que concebemos pode ser contado, associando-lhe um número, sem distinção do que se trata... mas mesmo fazendo isso estamos a colocar uma ordem, distinguindo os números. Um será o primeiro, outro o segundo, etc... em qualquer ordem a hierarquização parece inevitável, pelas inevitáveis diferenças. Não diferenciando nada, reduzimos tudo ao mesmo, a um.
Ora, só o tempo permite a mudança da ordem. O que hoje foi primeiro, segundo, etc... poderá ter outra ordenação em nova contagem. Por isso, pela simples repetição, retirando a referência de início ou de fim, a mudança temporal permite todas as possibilidades e uma igualdade potencial...
Isto é simplesmente importante porque mostra que a hierarquização de eventos trazida pelo tempo não é definitiva, e portanto não condena ninguém a um papel secundário...


quinta-feira, 9 de maio de 2013

De Natura Deorum (2)

Uma das principais dificuldades é saber como escrever o que se sabe... Para não se ser mal entendido, há quem diga que é melhor não escrever nada do que fazer o outro incorrer numa apreciação errada.
Não é essa a minha opinião, sob pena de não escrever nada. Os mal entendidos podem sempre ser respondidos, e por isso o formato "blog" é bastante melhor do que livros, permitindo uma interacção directa na comunicação.

Quando no texto anterior referi a "impossibilidade de inteligência artificial", comentei 
"... ideia de infinito que por acaso nós temos"
... e abstive-me de adiantar mais o que ficava implícito. 
O que fica implícito? - Que nós não somos finitos, que temos uma natureza infinita.
Ora eu sei que isto, por mais lógico que seja, será difícil de engolir por todos os positivistas, materialistas, darwinistas, e companhias limitadas... explícitas ou disfarçadas.

É claro que há sempre a fácil escapatória, que é ignorar. Só que o problema das ideias é que elas não desaparecem por persistência da ignorância... e então surge o outro redil - baralhar tudo.
Há ideias, presentes desde a Antiguidade, que foram reclassificadas, complexificadas, a ponto de não se tornarem inteligíveis, ficando enredadas em confusões, misturadas convenientemente com outros assuntos.

Nesse sentido, torno as coisas ainda mais claras.
Temos consciência das nossas limitações. 
Porém, só pode saber que é limitado quem tem consciência disso. Automaticamente, por negação lógica, concebe-se a noção de ilimitado. Uma criança quando começa a saber os números, sabe que pode sempre somar um... apercebe-se de que nada impede a continuação, excepto a sua limitação de o prosseguir.
Esse talvez seja o primeiro confronto com a sua limitação, e ao mesmo tempo com a ideia de infinito... os números são infinitos. Não é nada que lhe seja transmitido pela natureza, é uma conclusão pessoal abstracta.

Os humanos criaram assim um desejo de superar as suas limitações, apenas porque concebem a ideia oposta. Não estão em paz com a sua natureza, porque sendo limitados concebem que poderiam não o ser. Essa ansiedade não se manifesta nos restantes animais... ou seja, as suas atitudes parecem conformar-se a simples requisitos da sua natureza, nomeadamente a alimentação e a reprodução. Mesmo algumas manifestações sociais dos animais parecem ter apenas como objectivo esses dois aspectos, seja em lutas territoriais ou hierarquização numa matilha.

A descoberta do DNA tornou claro que não é na genética que vamos encontrar nenhum aspecto infinito da natureza humana. Quando abordei a questão da junção dos 23 cromossomas humanos que produzem um ovo com 46 cromossomas, disse que do ponto de vista digital isso levaria a juntar duas Pens de 1Gb, para produzir um ovo de 2Gb! Nada de infinito há aí... aí só temos o aspecto finito, que nos dá a parte animal que se ajusta a esta realidade, tal como à dos restantes animais.
Conforme já disse no texto anterior, de uma estrutura finita apenas poderiam emergir noções finitas, em tempo finito. Para além da simples contradição matemática, que impede que uma noção infinita seja identificada a uma noção finita, há argumentos mais interessantes e simples.

Quando à criança é colocada perante a tarefa de contagem, ela tem consciência das suas capacidades e da tarefa em questão... as suas capacidades podemos dizer que estão no seu "eu", enquanto que a tarefa não está, é um desafio externo, cuja resposta desconhece, ficará no seu "não-eu". Automaticamente sobe um nível, porque também coloca o problema no conjunto "eu"+"não-eu", que é já maior do que o "eu" inspeccionado... passa a haver um "Eu" maiúsculo que olha para o "eu" minúsculo e para a tarefa. 
Conclui pela sua limitação... por verificar que o que é pedido transcende o "eu".
Há uma conclusão do "Eu" que remete para a limitação do "eu"... mas também deveria haver o contrário, ou seja, quem analisa é maior do que quem é analisado. Isso também remete para a noção de infinito.

Uma estrutura finita não pode fazer isto... não pode identificar-se a uma parte, e concluir pela sua limitação. Pode concluir a limitação da parte, mas não pode fazer a identificação.
Há assim vários argumentos que levam à mesma conclusão - a natureza dos humanos não é finita.

Mais que isso... é justamente a consciência da limitação que permite a concepção de infinito.
Agora, é claro, há quem insista em contar até milhões, biliões, triliões, em vez de olhar para si próprio, e concluir que é inútil esse processo de conhecimento. Para se convencer que está no caminho certo, pode persuadir ou obrigar os outros a fazer o mesmo... mas não se chega à verdade arrastando os outros para a mesma ilusão, e para os medos... afinal o maior pecador é aquele que mais invoca o perigo dos outros, por temer que sejam iguais a si.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

De Natura Deorum

A maioria das pessoas negligencia por completo a filosofia, esquecendo que acabam por ser vítimas da ética adoptada pela sociedade, da sua moral de índole filosófica, seja por vertente religiosa ou científica.

Desenvolve-se uma visão egocêntrica que chega a aspectos caricatos... qual será a ideia de pedir intervenção divina para sucesso competitivo? - uma tentativa de corromper regras e arbitragem?... para um jogo, para um emprego, para um concurso? - qual a divindade invocada para tal propósito iníquo?
Quando o próprio pede destaque, implicitamente pede menor importância para os restantes, mas isso não coíbe uma boa maioria da população a invocar essa forma de iniquidade moral religiosamente.
Não só... ao dar importância ao destaque, ao sucesso, significa dar importância a quem já tem esse sucesso. Afinal, quando o sucesso é um fim em si, há expedientes que o desligam por completo do trabalho que se pretende promover. Aliás, há pessoas cujo sucesso se baseia simplesmente nos expedientes assessórios, sem nenhum trabalho associado. Depois, é claro, a roda do "sucesso" traz "sucessores"...

À parte da simples sobrevivência saudável, não está definido nenhum topo pela natureza. Socialmente ilude-se um topo, que se alimenta do desejo que os outros sentem em chegar ao mesmo topo. Quantos mais houver a darem relevância a essa competição, mais essa competição ganhará relevância... para benefício de quem já está nesse topo, pois os outros partem sempre em circunstâncias desfavoráveis.
Faz sentido às tartarugas quererem ganhar uma corrida contra lebres? Pode fazer sentido às lebres estimularem a vontade de correr às tartarugas... porque sabem que ganham sem esforço essa competição.
Ah!... e depois haverá o mito de que um dia uma tartaruga ganhará à lebre (porque a lebre adormece). Esse mito interessa a quem? Só for às lebres, que querem manter o interesse das tartarugas pela corrida.
O que interessa afinal às tartarugas?... Creio ser óbvio que interessa perceber quem são, para depois encontrarem individualmente o caminho para o mar, e esquecerem inúteis corridas com lebres.

Ao longo dos tempos, as sociedades foram oscilando entre a sua capacidade destruidora e a capacidade criativa, movidas por ideias filosóficas que se confundem com simples ideias de competição pelo poder.
O poder uma vez alcançado acaba por se findar como objectivo... e a sua manutenção apenas adia a pergunta - para que serve esse poder?... para ser temido, ou bajulado artificialmente?

Nada disto merece muita escrita trivial, porém a ausência de espírito crítico, e as dissensões filosóficas/ religiosas, são marcantes na perturbação da vida quotidiana.
Lendo o rebate que o Padre José Agostinho Macedo tenta fazer à posição da maçonaria, "Refutação dos Princípios Metafísicos e Morais dos Pedreiros Livres Iluminados" (1816), torna-se claro que a posição filosófica da maçonaria usa alguns preceitos epicurianos... citando-o:
Neguem o que quiserem, eu sei que o Iluminismo não é mais que o Epicureismo mal entendido: com este se pretende dissolver o laço da Religião, alucinar os incautos, e procurar converter os erros do entendimento na corrupção do coração.
Portanto, quando somos influenciados por uma guerra surda entre posições filosóficas, convirá ir às bases do raciocínio filosófico.

Lendo uma introdução ao "De Natura Deorum", de Cícero, feita por H. Rackham (1933), encontramos uma síntese interessante das visões epicurianas e estóicas (a visão académica, platónica, é vista à parte):
From Aristotle onward Greek philosophy became systematic; it fell into three recognized departments, Logic, Physics and Ethics, answering the three fundamental questions of the human mind :
(1) How do I know the world ?
(2) What is the nature of the world ?
(3) The world being what it is, how am I to live in it so as to secure happiness ?
And in answer to these questions the Stoics and the Epicureans were agreed
(1) that the senses are the sole source of knowledge,
(2) that matter is the sole reality, and
(3) that happiness depends on peace of mind, undisturbed by passions, fears, and desires.
Rackham acrescenta que a diferença principal entre epicurianos e estóicos era ética. Os primeiros consideravam que a nossa vontade se deveria impor à natureza, enquanto que os estóicos consideravam que nos deveríamos submeter a ela. Isso era justificado porque os epicurianos consideravam que o divino se alheava do nosso mundo, enquanto que os estóicos consideravam que o universo era controlado por Deus, e que a mente divina se expressava no devir universal. Apesar de ambos os sistemas serem materialistas, diferiam assim substancialmente. Os estóicos eram deterministas, mas consideravam haver um livre-arbítrio na aceitação, e que a felicidade humana consistiria em usar o intelecto para a compreensão.

É-me mais simpática a posição estóica, apesar de diferença nos pontos (1) e (2).

(1) É claro que quem argumenta que os sentidos são a única fonte de conhecimento, começa logo por desprezar todo o conhecimento abstracto que é desenvolvido internamente, e que nenhum correspondente directo tem na natureza. Por exemplo, um sonho não pode ser fonte de conhecimento? Que sentidos estão aí envolvidos? Ao contrário, aquilo que podemos concluir é que há noções abstractas que existem para além da realidade física... a física pode mudar, mas as noções matemáticas estão para além da física particular.
É claro que na lógica do "sucesso", podemos encontrar os habituais "sinkers":
... que gostam da evolução da macacada. Sobre as contradições da visão materialista pura já falei, em particular, no texto "as teias ateias".
Não quer isto dizer que o que seja dito esteja completamente errado, tal como não é errado afirmar que só vemos o nosso nariz quando queremos, apesar dele estar sempre no nosso campo de visão. Mas, por obstinação, só para manter o nariz empinado, pode haver até quem negue vê-lo... e também há os mais distraídos, que procuram os óculos tendo-os colocados.
Assim, como complemento de absurdo, ganha asas a ideia de que o pensamento humano é mera mecânica... e se uma parte dele o é, não o é no desenvolvimento de ideias abstractas. Aliás, não consta que nenhuma máquina, e que eu saiba nenhum passarinho, tenha mostrado capacidade de desenvolver ideias abstractas autonomamente. Isto já para não falar de que é uma mera contradição matemática pretender-se que um processo finito deduza autonomamente a ideia de infinito... ideia de infinito que, por "mero acaso", nós temos. Aliás, é bem sabido que foi necessário considerar o infinito como axioma... por isso estes ateus são quem tem mais fé - na complexidade das máquinas e no empenho dos passarinhos.
Enfim, às vezes não sei se é má vontade, ingenuidade ou simples ignorância...

(2) Outra coisa diferente é dizer que a matéria é a única coisa que existe... depende do que se entende por "matéria". Podemos seguir uma versão semelhante às mónadas de Leibniz, pela conclusão que se retira do que escrevi no "Arquitecturas (5)". Esta "matéria" nada tem a ver com a noção habitual, ligada à realidade dos sentidos... como pretendia Demócrito e o epicurismo. A diferença não me parece significativa com o que preconizava Leibniz, e aliás creio que ele o formularia da mesma forma, tivesse conhecido a teoria de conjuntos, depois introduzida por Cantor.
A maior diferença é que Leibniz o propôs sem aparente razão, enquanto no texto que escrevi, toda a construção surge como inevitabilidade lógica. Na verdade, não se vislumbra nenhuma objecção possível a tal dedução cujos argumentos são simples, mas levam à noção de complexidade. Reforça-se por ter reencontrado argumentos similares em Leibniz... e, que é claro, tal como ele conclui, não inviabilizam a possível existência de um conceito divino.

(3) Do anterior se conclui, como Leibniz, ou os estóicos, que há uma pré-determinação. Isto parece não ser uma visão confortável para quem preza a liberdade... mas o problema do conceito de liberdade é que toma como certas muitas ofertas da natureza! Estamos demasiado habituados a controlar muitas coisas para percebermos como não dependem da nossa vontade. Em particular, só quando somos confrontados com algumas deficiências é que verificamos como era ilusória a nossa capacidade de controlo, até sobre o nosso corpo... pior, até mesmo sobre a nossa mente. Quanto a isso, os estóicos propunham ter a capacidade de compreensão de aceitar esse destino, e portanto tentar sempre viver o melhor possível com as faculdades disponíveis... não adiantaria de nada amargurar-se pelo fado.

Ninguém escolhe o corpo em que nasce. Nem o corpo físico, nem o corpo social.
Aceitam-se melhor as vicissitudes do corpo físico do que as desvantagens da posição no corpo social. É claro que faz todo o sentido procurar atenuar as maleitas que advêm dessas circunstâncias de nascimento e desenvolvimento... Claro que, para os epicurianos, perante a ideia de terminus mortal, juntamente com a ideia de divindades alheadas dos fados humanos, isso levaria a posições éticas mais libertinas.
Assim, na época Iluminista chegou-se com o Marquês de Sade, ou mesmo com Jeremy Bentham, às ideias hedonistas... a busca dos prazeres imediatos, sem grande respeito pelos concidadãos.

Esse era o grande alvo da crítica do Padre Macedo, a Maçonaria nem sempre negava a existência de Deus, mas colocava-O numa perspectiva não interventiva, o que na prática lhes permitia a ausência ética e moral... ainda que a filosofia epicuriana não preconizasse isso. Para efeitos de ordem social, criou-se então uma ilusão estratificada de objectivos, que permitiria iludir uma felicidade popular, induzindo educacionalmente os seus desejos. O dinheiro acabou por ser o sangue que iria irrigar o corpo social, e a sua fartura ou escassez iria condicionar vontades, alimentando um certo ideal hedonista de felicidade.

Do ponto de vista platónico, a imortalidade da alma tinha o contraponto ético que não levava a essa tomada de posição hedonista, de aproveitar a vida como única... enquanto que, do lado estóico, a ética se justificaria pelo respeito ao pré-determinismo resultante da intervenção divina.
Não se tratando de um período propriamente obscurantista, ou de forte imposição religiosa, não deixa de ser curioso que as filosofias gregas, mesmo materialistas, invocavam uma criação divina. Dada a diferença de posições, entre estóicos e epicurianos, não os motivaria tanto evidências de intervenção divina (afinal, elas eram negadas pelos epicurianos), mas concordariam pelas evidências de uma criação racional.

Não vemos que apresentassem nenhum sentido particular para a vida, sendo que o objectivo de felicidade, temporária ou não, encerrava o habitual desejo antropocêntrico. Basicamente, então, tal como hoje, as filosofias e éticas dominantes pareciam completamente perdidas nas próprias ilusões que alimentavam.
Bom, e depois está-se a ver no que isto foi/vai dar...
Porque há sempre quem insista em embater contra a lógica, até quem a negue, porque afinal o próprio será o objectivo primeiro e último da criação... e até tais ideias peregrinas têm que fazer sentido!
E, consegue-se que tudo encaixe, tudo faça sentido... sim, mas só mesmo com uma compreensão estóica! Porque, se o nosso conhecimento é limitado, temos uma notável capacidade de compreensão, que parecendo potencialmente quase ilimitada, também convém não abusar dela.
Será suficiente para entender o que é preciso entender... há atalhos e há trabalhos.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Nomes pelos tempos

[Augusto]
Um dia, o Saraiva de Carvalho foi propor a revolução ao Latino: 
– Mas há-de ser tudo assassinado – toda a família real.
in Memórias, Raúl Brandão (Dezembro de 1900)
[Otelo] 
Saraiva de Carvalho garante que, se soubesse como o País ia ficar, não teria realizado a revolução.

[Francisco] Sousa Tavares
"O que é um grande exemplo de lealdade Portuguesa, posto que não sei como o diga, que dos leais estão cheios os Hospitais."
(Prólogo do Tratado dos Descobrimentos ... até 1550, de António Galvão)

[Francisco] Sousa Tavares 
"Vivemos um momento histórico como talvez desde 1640 não se vive. É a libertação da pátria."

[Duarte] Pacheco Pereira
"Nesta viagem se fizeram tantas e tão grossas despesas com tão poucas naus que, por não parecer grave de ouvir e crer, o deixo de dizer pelo miúdo das quais o nosso Princípe por então não houve mais utilidade que somente ser descoberta e novamente sabida alguma parte daquela Etiopia Sob-Egipto e o princípio da Índia Inferior".
(sobre a viagem de Vasco da Gama, in Esmeraldo de Situ Orbis, c. 1510) 

[José] Pacheco Pereira
"Quanto menos se pode ou se quer falar do presente, vai-se ao útil baú das citações. Nas comemorações do 25 de Abril na Assembleia chovem citações por todo o lado: Shakespeare, Habermas, Kant, Saramago, Sophia, Arendt, e muitos mais. A Wikipedia reina. Quanto mais se cita, menos se diz".

quinta-feira, 25 de abril de 2013

... as ideias contam.

Coloco aqui uma interessante sequência de comentários que troquei com "Anónimo" no blog Delito de Opinião, que ficou num texto (sobre That cher) ... as ideias contam
Tendo convidado a que a conversa prosseguisse aqui, deixo o registo relevante, para que possa prosseguir.


sábado, 20 de abril de 2013

Man on the Moon

Há já quase dois anos coloquei aqui um vídeo polémico e interessante, um documentário da ARTE sobre a encenação da viagem à Lua em 1969, ligado à encenação que Kubrick usou no seu filme notável "2001, Odisseia no Espaço". Conforme disse à época, ainda que se tenha pretendido que o documentário fosse uma piada, nada o indicava explicitamente, e se o fosse teria o mau gosto de brincar com a morte de Vernon Walters.
A propósito do texto sobre os Macavencos, lembrei-me doutro filme de Kubrick, "Eyes Wide Shut", de 1999.  
(vídeo que faz uma análise interessante sobre o significado de cenas do filme)

Este foi o último filme de Kubrick, que morreu de ataque cardíaco, quando se preparava para entregar a versão final. O filme estreou, alguns meses depois, sendo póstumo a Kubrick, tal como o documentário da ARTE foi póstumo relativamente a Vernon Walters. Uma trágica coincidência num documentário que relatava o medo que Kubrick tinha de vir a ser assassinado.

O título do post é "Man on the Moon", o que nos levaria para outro filme de Milos Forman, sobre Andy Kaufmann, mas antes de voarmos sobre o ninho de cucos, consideramos a célebre canção dos REM, que terá dado título ao filme.

... e a canção continua:
                 If you believed they put a man on the moon, man on the moon
                 If you believe there's nothing up his sleeve, nothing is cool

Sim, se acreditámos, eles puseram um homem na Lua, se acreditamos que não há nada na manga, nada é divertido. Divertido é ver um excerto de 007 - Diamonds are Forever.
Sim, neste James Bond de 1971, o personagem aparece num cenário onde se filma uma missão lunar... algo ousado num ano em que se filmavam também as Apollo 14 e 15, supostamente em solo lunar, e não num cenário de cinema.
Com as Apollo 16 e 17, as missões lunares terminam em 1972. Sentida a falta, passados 5 anos aparece no cinema um outro filme - Capricorn One (1977), cujo enredo é exactamente uma conspiração que leva à encenação de uma viagem a Marte, numa altura em que já tinham acabado as outras lunares...
Estas duas observações encontrei-as nalguns vídeos dos "teóricos da conspiração" que acham que as imagens de homens na Lua são falsas... como por exemplo, este documentário, já bem velhinho, que passou na Fox, em 2001 (creio que antes da tragédia das torres gémeas):

Devo dizer que a minha avó também achava que o Homem não tinha ido à Lua. É claro, eu achava que era coisa cheché, própria de uma geração que tinha dificuldade em aceitar o progresso. Ela não dava justificação, e eu talvez tivesse negligenciado ela ter passado por duas guerras mundiais, ter vivido a transição em que conviveram burros e zeppelins, e ter passado pelos quarenta anos de Salazar. A minha outra avó, que nascera ainda no Séc. XIX, deixara a previsão de que o Séc. XXI seria um século em que se iria assistir a uma insanidade mental. Acho que compreendo agora o porquê.

"Man on the Moon"... é uma canção do álbum "Automatic for the People", dos REM.
Se procurarmos, vemos que REM significa também Roentgen Equivalent Man, que é uma unidade de radiação, que mede o envenenamento radioactivo. Por exemplo, 100 REM é suposto ser uma dose letal.

Acontece que a Cintura de Van Allen é um cinto, uma zona de grande radiação cósmica. Pela versão oficial, só os astronautas que viajaram até à Lua passaram essa cintura, ou seja, desde 1972 que ninguém passa!
Diz-se que os satélites que a cruzam podem medir até 2500 REM por ano, mas que os astronautas não sofreram mais que 5 REM, portanto uma dose não letal. É claro que os "teóricos da conspiração" estão convencidos que não é bem assim... que a Cintura de Van Allen é intransponível pela radiação letal, que provocaria a morte dos astronautas.

Depois, argumenta-se, quando Lindbergh fez a viagem do Atlântico, passados poucos anos havia já carreiras comerciais fazendo a ligação... o que impediria repetir as idas à Lua, feitas entre 1969 e 1972?
Por que razão ninguém lá voltou passados 40 anos?
Pois, provavelmente ninguém passou mesmo a Cintura de Van Allen, ninguém deu o "salto" (Van Halen).

De entre os planetas, só aqueles com forte campo magnético, como o caso da Terra, têm uma Cintura de Van Allen significativa. Só tem essa cintura a Terra, e depois Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno.

Ainda não tenho como completamente claro que essa cintura de partículas é o problema, ou poderá até ser o que impede que a forte radiação do Sol nos "frite"... porque, enfim, temos uma forte radiação do Sol, sim, mas é no espectro do visível. Ora, o Sol, pelas explosões nucleares, deveria emitir todo o tipo de radiação, e se a nossa atmosfera nos protege dos ultravioleta, o que é que nos protege das radiações superiores, como sejam os Raios X ou gama? Creio que poderá ser mesmo a Cintura de Van Allen.
Aliás, quando se diz que a temperatura na parte iluminada da Lua será mais de 200ºC, dará para perceber a quantidade de radiação que se medirá fora dessa cintura.

Traduzindo, isto significaria... estamos presos na Terra!
- Alguém interessado em dar notícia?
- Que tipo de reacção isto iria causar?
Ou seja, seria melhor produzir a ilusão de que não haveria limitação, permitindo ir à Lua. A ilusão de que podemos continuar a exploração espacial, ainda que esta não se faça... explicando-se por "razões económicas". Ou haverá uma notícia em falta - "a humanidade está presa na Terra"? E não sabendo bem porquê, parece que fomos presenteados ou com um escudo que nos protege, ou com um cinto que nos prende!

Se os EUA não foram à Lua, os russos não quiseram nunca denunciá-los. A filha de Van Allen relatava numa entrevista que, quando o pai comunicara a existência da cintura, em 1958, poucos meses depois foram à URSS, num clima muito amistoso, e ela sentira que havia assuntos que faziam cair aquele frio muro que dividia países pela ideologia. Houve um entendimento científico na exploração espacial, que terminou até no acoplamento Apollo-Soyuz de 1975.

Depois do fim das idas à Lua, também os russos não investiram muito mais nas explorações, e nem sequer anunciaram um enviar de sondas a outros planetas distantes, como fez a Voyager, que depois caracterizou o programa da NASA. Agora também temos a exploração espacial europeia, japonesa e chinesa (e norte-coreana?), nenhuma ousando colocar um homem na rota da Lua, nem sequer apresentando fotos inquestionáveis da presença de objectos deixados pela tripulação que saiu da Apollo.

Conclusão, passados 40 anos, americanos e russos mantiveram o mistério sobre as idas à Lua, e é espantoso que não se tenha produzido nenhuma prova inquestionável da presença humana na Lua, apesar de tantas viagens supostamente efectuadas.

24 Abril 2013

sexta-feira, 29 de março de 2013

WHC (4) Bhimbetka, Chauvet

As pinturas rupestres nas rochas de Bhimbetka, no centro da Índia, são um dos monumentos humanos classificados no World Heritage Convention (WHC) da UNESCO. Já falámos noutros 3 (Paisagem da Ilha do Pico, Villa Romana del Casale e Nemrut Dagi), este será o quarto escolhido, lembrando outras pinturas rupestres mais conhecidas, as da zona de Lascaux, de Altamira, ou ainda as da zona do Coa até ao Escoural.

Não sabemos se se trata de um outro caso isolado, mas curiosamente não há muitas pinturas rupestres que nos levem longe na memória da noite dos tempos. Para além das mais notáveis ibéricas, e especialmente do sul de França, temos alguns registos noruegueses, e estes indianos, na grande superfície euro-asiática. Há outros na América, África, Austrália, mas começaremos por falar nos registos indianos, que nos parecem menos conhecidos.

Bhimbetka (India)
A primeira imagem de Bhimbetka (Madya Pradesh, India) encontramos na página da WHC:

Sendo surpreendentes, não vemos aqui uma arte no traço como acontece em Altamira, Lascaux, ou no Coa. Estas pinturas foram datadas num período até 30 000 a.C., sendo algumas delas consideradas recentes, já dentro do período histórico, e até medieval. 
De acordo com a informação disponível na wikipedia, esta figuração que inclui invulgares imagens cavaleiros, poderá ser datada até 2000 a.C:
Fala-se ainda de representação de bisontes ou rinocerontes, como encontradas no registo europeu, mas incluindo-se ainda tigres, os felinos característicos do subcontinente indiano.

Chauvet, Lascaux, Altamira, Coa, etc.
A grande diferença face às pinturas rupestres europeias (Sul de França e Iberia) acaba por residir na espantosa precisão artística, que ainda hoje surpreende na datação, que nos remete a períodos entre 24 000 e 30 000 a.C., ou seja à época de aparecimento dos Cro-Magnon.
Os notáveis desenhos em Chauvet (sul de França) - bisontes, cavalos, rinocerontes.

"Cave of Forgotten Dreams", um filme de Werner Herzog (2010)

Chauvet será um dos conjuntos mais recentes a juntar à lista de Altamira, Lascaux, e Coa.
Remetemos para a página Arte-Coa, que inclui informação sobre outros locais nacionais (Escoural, Guadiana, Zezere, Ocreza, Fraga do Gato, Mazouco, Sabor), em Espanha (Altamira, Siega Verde, Domingo Garcia, Parpalló), e em França (Rouffignac, Lascaux, Chauvet, Cosquer).

O mais espantoso neste conjunto é que o traço artístico perfeito apareceu como característica quase inata em diversas localizações... deixando a questão de como se poderia ter perdido nalgumas civilizações muito mais avançadas, que se seguiram às tribos habitantes das cavernas.
Enfim, já falámos sobre este assunto no texto sobre a "Hera dos Cobres" (e pela sua actualidade, convirá lembrar que Chipre, a ilha sob investida dos "chiffres" da UE, deriva o nome do Cobre - Cuprus). E só por curiosidade, de Cuprus a Caprus, do Chipre ao chifre da cabra, aparece-nos uma cornucópia primitiva na paleolítica Vénus de Laussel (também Sul de França):
Cornucópia - Vénus de Laussel (~ 25 000 a.C.)
... e sobre as cornucópias de Cíbele também já nos pronunciámos.

Outros registos
O problema principal é que quando passamos para registos seguintes, notáveis, como Çatal Hüyük (~ 7000 a.C.):
... parece ter-se perdido aquele traço artístico, e vemos maiores semelhanças com o registo indiano, talvez precursor de Mohenjo-daro.
E já falámos de Gobekli-tepe um registo fora da habitual cronologia....
Ainda na zona europeia são de referir as inscrições noruguesas em Alta, embora mais recentes (~ 4000 a. C.).

Fora da zona europeia, são razoavelmente conhecidos outros registos de pinturas rupestres:



  • Serra da Capivara (Brasil), 
  • Entre os bosquímanos (África)
  • Entre os aborígenes (Australia)


  • __________________________________
    Notas adicionais [4/5/2013]

    1ª) As figuras na Serra da Capivara, encontrei-as pela primeira vez nestes posts do Portugalliae:
    que evidenciam alguma semelhança no estilo com estas pinturas indianas, dos bosquímanos, do Sahara, ou dos aborígenes.

    2ª) Este artigo pode ainda ligar com a questão da mobilidade humana, nomeadamente com a constatação de que a ligação na plataforma euro-asiática poderia ser feita, a pé, de uma ponta na Ásia à outra na Europa, em menos de um ano, por rotas seguras. 
    Acresce que a distância entre os locais ibéricos, e do sul de França, envolve distâncias que normalmente se fariam a pé no espaço de uma semana, e havendo contemporaneidade indicia tratar-se de uma mesma comunidade, ou no mínimo de comunidades que estavam em grande contacto.

    segunda-feira, 25 de março de 2013

    Hélgia (4)


    - Gostava de voltar à história do Joãozinho...
    - O quê?
    - Pode parecer estranho, mas devemos voltar a essa história. Quem a inventou, como exemplo, deixou o rapaz numa situação atroz... ferido e sem ajuda.
    - Só podes estar a gozar...
    - Não estou. 
    - Fui eu que fiz a história, e não vejo por que razão havia de continuar, ou dar-lhe outro desfecho.
    - É aí que eu quero chegar. Quem ficou confortável com esse desfecho?
    - A mim não me afecta minimamente, era uma situação hipotética.
    - Não sei até que ponto o era... ou seja, havia ou não contornos de verosimilidade?
    - Que diferença isso faz? Não tem nenhum correspondente real.
    - Será que não tem?
    - Onde queres chegar?
    - A questão é que a história é banal, mas corresponde de certa forma a um medo, a uma invocação de injustiça em situações reais. Quanto mais verosímil for uma história, maior é a possibilidade de despertar um medo real.
    - Sim, aquela e mais umas quinhentas semelhantes...
    - Correcto. A questão é - consegues combater o Leviatã gerado pelo conjunto de medos fabricados pelas diversas histórias?
    - Bom, a começar terias que começar por combater o medo gerado pela morte... ou pelo sofrimento.
    - Sim, terias que partir para noções abstractas, e não resolver pontualmente o problema deste ou daquele Joãozinho. Ao contrário do que é habitual remeter, a questão não está no personagem, na sua "culpa" para se colocar numa situação desfavorável. Isso é uma maneira de mascarar o problema...
    - Estamos de acordo, um outro enquadramento poderia levar ao mesmo tipo de "desgraça"...
    - Temos um Joãozinho a sofrer e sem ajuda... onde está o problema, o desconforto que a história induz?
    - A possibilidade de isso ocorrer a qualquer um de nós?
    - Isso, e o não-desfecho... a suspensão "ad eternum" da situação.
    - Qualquer um imaginará que ele eventualmente será encontrado, e lhe será prestada ajuda.
    - Será? Ou não há aqui ninguém quem considere que ele poderá manter-se assim durante bastante tempo, ou até morrer em consequência da não assistência?
    - O que queres dizer é que ainda que pensemos num ocasional desfecho positivo, não é com isso que vamos eliminar a eventualidade de desfecho negativo, certo?
    - Certo! 
    - E daí?
    - Daí, isso induz um medo, uma situação de injustiça, e um sentimento de revolta circunstancial, pela nossa impotência em tais situações.
    - E como pretendes inverter isso?
    - Há muito que foi criada uma compreensão adicional para lidar com esses medos. Os infortúnios na realidade terrena teriam uma compensação numa dimensão superior. Essa dimensão apareceu como necessária para satisfazer um balanço de equilíbrio emocional individual.
    - Wishful thinking...
    - Sim. Repara, um predador vai atacar uma presa para se alimentar... aquela e não outra. Precisará apenas de uma, circunstâncias aleatórias levam a uma escolha e não outra... uns podem ver fraqueza na presa atingida, mas é indiferente. Há sempre circunstâncias externas que determinam a escolha. A vítima não assume esse papel, há circunstâncias que o determinam.
    - Sim, por exemplo, os genes... sobrevivência dos mais fortes, mais aptos.
    - Certo. Vamos então por esse raciocínio típico. O objectivo seria produzir a espécie mais apta à sobrevivência?
    - Por que não?
    - Qual a lógica de constituir corpos frágeis, com uma morte programada?
    - Bom, porque isso é uma das facetas evolutivas. Geraram-se várias possibilidades. Maior longevidade não levava a evolução tão rápida... era injusto para os mais novos, em termos de competição.
    - Reparaste que usaste a noção de justiça? O que tem a justiça a ver com a evolução, com a competição?
    - Usei apenas alegoricamente. Uma espécie que se renove mais, produz mais soluções evolutivas.
    - Por outro lado, desperdiça as que já tem por simples limitação do tempo de vida.
    - Desperdiça os indivíduos, não os elementos da espécie... uns substituem os outros.
    - Sim, e o que os distingue funcionalmente, sem ser a sua adaptação genética a um contexto particular?
    - Os seus genes "vencedores" acabaram por ser resultado desse contexto, conforme disseste.
    - Ok. Podemos concluir que uma espécie de sucesso seria aquela que se adaptasse a uma maior variedade de contextos, por mais adversos?
    - Sim, a que conseguisse sobreviver na maior multiplicidade de contextos.
    - Acabou por ocorrer isso com a espécie humana... teve a capacidade de sobreviver nos mais diferentes contextos.
    - No entanto, continua frágil a uma grande multiplicidade de ameaças. Nomeadamente tem em si própria a maior ameaça.
    - Como todas as espécies de sucesso... muitas vezes evoluiram por competição interna. Eu sei onde queres chegar, mas não é apenas uma questão genética, é agora também uma questão cultural. 
    - Exacto. Para além da transmissão genética, é mais importante a questão educacional, cultural, o legado da tribo... 
    - Sim, no plano da realidade terrestre é isso que conta. Uma tribo fraca, com pruridos éticos, arrisca a extinção pura e simples.
    - Mas necessita da colaboração, porque foi essa colaboração comunitária que lhe permitiu desenvolver a sua cultura.
    - E daí? Conforme já dissemos, as elites aproveitaram-se da colaboração transparente, mas foram eficazmente opacas às massas servidoras.
    - Mas, ainda que tenham tentado algum ecletismo, não constituiram nova espécie. Aliás, se é fácil encontrar espécies animais diferentes, por simples isolamento territorial, isso não tem registo humano semelhante.
    - Não houve tempo...
    - Ok. E qual seria então a nova evolução, a qualidade extra, que determinaria a nova espécie?
    - Sei lá, isso é genético... uma melhor cognição?
    - Exacto, isso é genético. Geneticamente nós não interferimos, podemos fazer castas, mas não determinamos espécies. As informações que dispomos é que isso nem sequer tem resultado mesmo com canídeos... com trabalhadas selecções de raça.
    - E esse processo foi bem apurado, imagine-se o tempo e provável ineficácia em humanos. A contrario, a dar-se alguma alteração genética seria sobre os que sofrem mais provações, pois é aí que a melhor adaptação cognitiva, em condições muito adversas, levaria a aparecer alguém mais dotado cognitivamente.
    - Onde queres chegar?
    - Quero retirar de discussão a ilusão do "superhomem" lançada por Nietzche, e alguma filosofia de eugenia, que sabemos florescer nos cantos obscuros, nomeadamente na "engenharia genética". 
    - Porquê?
    - Porque é ridícula, em vários aspectos. Primeiro, porque há vantagens na imperfeição... e a história do Joãozinho é boa para ilustrar isso.
    - Porque o Joãozinho não teria lugar nessa sociedade?
    - Em parte. Uma sociedade que não admite erros, não percebe o que isso acarreta. Não sabe o que é a completa previsibilidade, e só por isso a procura desalmadamente.
    - Sim, quanto melhor modelarmos o exterior, mais nos identificamos com ele. Passamos a depender da imprevisibilidade dos nossos semelhantes para nos surpreendermos. Não é à toa que a sociedade humana se tornou introspectiva, e as notícias que mais nos apoquentam dizem respeito a questões sociais. As catástrofes naturais assolam uns poucos, face à quantidade afectada pelo resultante de acções humanas.
    - Onde entra aí o Joãozinho?
    - O Joãozinho entra na obstinação. Uma sociedade obstinada na individualidade não envia auxílio. Cada indivíduo saberia isso. Saberia que estava por sua conta própria, esse seria um medo induzido. Ninguém esperaria outra coisa dos seus semelhantes.
    - Exacto, ao contrário do que se faz passar, o medo nunca deve ser reportado à existência de um tipo perigoso, ou de um grupo perigoso. Mesmo que eles não existam, podem existir, e o medo estará presente. A questão que se coloca é saber se a sociedade criada gera ou não, com facilidade, indivíduos ou grupos perigosos. O medo é resultado dessa estrutura social e não dos indivíduos.
    - Pois, um dos problemas está nessa individualização. Quando se estimulam vantagens egocentricas, o indivíduo irá agir nessa lógica, numa lógica de protagonismo. Isso será sempre instável, porque vendo vantagens individuais, cada um, ou em grupo, procurarão afirmar-se comunitariamente por oposição aos outros, ou pelo menos em competição contra eles. Quanto maior for o valor dado ao ídolo, maior será a vontade de o imitar ou suplantar.
    - O sucesso é uma palavra com sucessor...
    - Sim, não pára, entra numa lógica de instabilidade social difícil de contrariar. A motivação de aperfeiçoamento deve ser inata, e feita no confronto do próprio com os seus limites. Se for vista numa lógica de confronto com adversários, esgota o seu campo de acção em alguém, e não é claro que vá além disso, porque o objectivo proposto foi alcançado.
    - Regressando, a questão mais importante na história do Joãozinho é outra... a questão mais importante é colocar a separação entre perfeição e a entrada do caos.
    - Entrada do caos?
    - Sim, num mundo ordenado, previsível, a morte poderia não colocar um fim ao triste fado do Joãozinho. Ele poderia ser levado a nova dimensão, onde de novo seria alvo de injustiça "eterna". Só o efeito compensatório da imprevisibilidade o poderia libertar de tal sina.
    - Claro, a idealização de uma eterna perfeição obriga, por lógica de raciocínio, lógica de máquina, a conceber o seu oposto, eterna imperfeição.
    - Isso. Uma idealização de bem absoluto traz obrigatoriamente, por efeito automático, uma idealização de mal absoluto. Porém, sabemos que as chances de tudo correr mal, acabam, na soma dos tempos, a compensar com as chances de tudo correr bem. No registo de probabilidades não há uma tendência a um desequilíbrio perene.
    - Ok... mas isso implica ir para dimensões superiores - divinas.
    - Sim, mas o destino do Joãozinho acaba por estar na mente dos autores da sua história. A maioria dos leitores quereria, na sequela, compensar o Joãozinho pelo seu destino nefasto. Tal como a maioria das crianças quereria que alguma vez o Calimero não fosse injustiçado. A persistência do autor na injustiça é resultado de lógicas próprias, e ainda que fosse vício torturante do autor, seria mais despertar um problema de medos. Foi-se ao limite, ao ponto de máquina, de infalibilidade e intolerância, para consistência do desfecho. Isso não é um problema humano... ou aliás, só é um problema quando os humanos querem encarnar atitudes de consistência limite, próprias das máquinas, ou de deuses infalíveis e insensíveis.
    - Aquilo que dizes, é que não é nenhuma ordem que traz o garante de justiça, mas sim o caos.
    - Sim, porque é a imprevisibilidade que leva à abstracção de justiça. Quem fizer leis acaba por contemplar a possibilidade de ser uma vítima da sua aplicação. Isso só acontece por aceitar a imprevisibilidade. É ainda a imprevisibilidade que nos faz pensar que podemos ficar no lugar do outro, que nos obriga a essa reflexão.
    - Não é só isso, ainda que haja uma justiça enquadrada na ordem, sobrepõem-se a ela as alterações aleatórias que emanam do caos. 
    - Falas da situação limite pitagórica, em que o indivíduo é um espectador do "filme da vida". Acaba por ser sujeito a um conjunto de tragédias e comédias, de forma semi-aleatória, mas que se compensariam na soma dos tempos.
    - Exacto. Com uma ordenação, uma decisão divina, não poluída por factores aleatórios, haveria almas condenadas eternamente ao bem ou ao mal. Isso levou às noções clássicas de paraíso e inferno... uma pequena experiência terrena teria estranhamente implicações irreversíveis para a eternidade. 
    - Claro, esse seria um erro de Úrano e Zeus face a Gaia. A componente aleatória não pode ser ocultada da luz. Há uma ordem que nos dá previsibilidade, mas igualmente importante é o que escapa a essa ordem, que nos oferece a imprevisibilidade. A ordem deve acima de tudo estar no nosso raciocínio para podermos enquadrar a desordem que nos é oferecida pelos "filmes da vida".
    - Caso contrário, ficaríamos máquinas alimentadas por sensações enfadonhas, previstas, que nada trariam de novo ao nosso entendimento. A surpresa é essencial na nossa essência... simplesmente somos produtos do caos e não de uma ordem simplificada. Quem encarna posições irredutíveis, aproxima-se de várias operações lógicas, previstas teoricamente, mas que pouco têm de humano. Insere-se enfadonhamente num mundo ordenado, mas ficará completamente desorientado quando o caos começar a afectar a ordem instituída, por necessidade de alguma pimenta na "alimentação".
    - Nota ainda que é algo surpreendente que o Pi, o número que define a relação com o círculo, tenha uma sequência de dígitos que é um modelo de aleatoriedade, imprevisibilidade. O círculo, modelo de equidade, equilíbrio, tem no seu número de referência uma sucessão de dígitos de cariz aleatório.
    - É assim, o Eu é convidado pelo Não-Eu para uma dança. Ficar sentado não é bem opção, a menos de isolamento, arriscando ficar agarrado a um boneco. O boneco pode até responder como queremos, não nos pisar os calos, mas saberemos mais tarde ou mais cedo que escolhemos ficar com bonecos. 
    - A cada caminho determinado num sentido, feito solitariamente pelo Eu, o Não-Eu tende a responder da mesma forma, com um caminho em sentido oposto, igualmente determinado. Nenhum entra na dança, cada um segue o seu caminho isoladamente, ou em rota de colisão. 
    - Deixa-me mandar uma piada. Se a Montanha do Não-Eu julga que pariu um rato, um rato (com grande ego) julgará que defecou uma montanha. 
    - É a relatividade, no seu sentido mais puro...
    - Saber dançar, é saber conduzir e ser conduzido no confronto da nossa vivência com os outros. Se impor uma condução torna os outros em bonecos, aceitar a completa condução dos outros levar-nos-à posição de bonecos.
    - Se estamos atados à condição material de espectadores do "filme da vida", ninguém nos pode impôr que o apreciemos. O máximo que nos pode ser exigido (digamos, por Gaia) é que o critiquemos de forma racional, sinceramente e com uma compreensão abrangente (digamos, o caminho de Maia).


    Massive Attack - Unfinished Sympathy

    quarta-feira, 20 de março de 2013

    Boa notícia

    Não é habitual comentar aqui assuntos de actualidade. No entanto, pela parte da Igreja tem havido notícias de grande importância, e seria quase desapropriado não as mencionar.
    Primeiro, a resignação de Bento XVI, a 11 de Fevereiro de 2013, um acto de consciência humana, e certamente de reflexão filosófica, que é um sinal de humildade, de vitória do espírito racional perante a formalidade da execução de um cargo. 
    Depois, a eleição do Papa Francisco, que desde a sua atribuição tem enviado vários sinais de vontade de mudança. E quando as coisas não estão bem, toda a vontade de o fazer tão rapidamente quanto possível, só pode ser saudada. 
    Foi assim, com alguma surpresa positiva, que li esta notícia no Público:
    O Papa Francisco apelou aos membros de todas as religiões e a todos aqueles que não pertencem a nenhuma Igreja para se unirem na defesa da justiça, da paz e do ambiente, e para não permitirem que o valor de uma pessoa seja reduzido “ao que essa pessoa produz e consome”.
    Francisco, eleito na semana passada como o primeiro Papa não europeu dos últimos 1300 anos, encontrou-se nesta quarta-feira não só com líderes de Igrejas cristãs não católicas (ortodoxos, anglicanos, luteranos e metodistas), mas também com judeus, muçulmanos, budistas e hindus.
    “A Igreja Católica está consciente da importância de aprofundar o respeito pela amizade entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas”
    Um bom sinal de esperança no entendimento de toda a humanidade. 

    segunda-feira, 18 de março de 2013

    Hélgia (3)


    - Portanto, a situação é a seguinte. Desenvolvemos separadamente várias linguagens, e praticamente todas levaram a conceitos abstractos semelhantes. Não exactamente iguais, porque evoluiram a partir de tradições diferentes, mas há correspondentes, há traduções.
    - E o mito de Babel? De uma língua única, que se confundiu?
    - Pois, não sei, é um pouco indiferente, depois cada um assumiu os seus partos...
    - ... ou os seus medos.
    - ... ou os seus caldeus - essa piada não está já gasta?
    - Depende do canto, das áreas, ou melhor, dos árias... do povo que se espalhou por várias áreas, levando os seus carneiros, os seus Aries. A sua castidade, a sua pirâmide de castas, remeteu outros à condição de escravos. Se havia deuses, eles quiseram imitá-los, quiseram ser invisíveis e condicionar a estrutura social pelo topo.
    - Estás-te a referir à maçonaria?
    - Será uma face mais visível dessa pirâmide de influências, que também já teve expressão nas castas da nobreza. Nobre, não obre... era esse o seu mote, até há pouco tempo era poluto a um nobre trabalhar.
    - Também na religião...
    - Sim, também aí foi e é visível. Mas se a pirâmide de Babel subiu alto, ao ponto de se não lhe ver o topo, também foi a gravidade imposta, que a fez cair. Porque quando se acumula muita massa, só lhe percebemos o peso quando o imposto for grave... e aí temos a queda dos graves.
    - Isso também tem um significado económico!
    - Tem, mas essa multiplicidade de significados foi em parte feita pelos próprios, para benefício da sua comunicação em código. Sabes, um crédito passa a dívida com a simples mudança de sinal. É só um sinal...
    - Seria grave...
    - Nem por isso. Vê os desvios que foram feitos. A etiqueta usou os nomes como etiqueta do corpo. Quis dar importância ao nome em vez de dar importância à palavra, porque lhes custava a lavra da cultura. Usou escravos (os cravos), usou servos, que precisam agora de "ser voz", de ser vós. Um simples nome serviria de chave, e não o texto. Porém a clave de sol apenas dá início à partitura, sem as notas seguintes não há música. E essas notas é que são as verdadeiras notas...
    - Sim, mas o que é então a noção hélgia? Um nome?
    - Não... é a palavra que falta.
    - O quê?
    - A questão é que não sei se falta alguma palavra para comunicarmos. Aparentemente não.
    - Mas aparecem palavras, noções novas, frequentemente, até pelos avanços tecnológicos, pelo desenvolvimento de novas teorias, etc...
    - Ok. No entanto, não é isso. É claro que se virmos um novo animal lhe devemos dar uma nova designação, o mesmo se passando com objectos, etc... A questão é do ponto de vista de conceitos abstractos, não ligados aos sentidos. Usamos uns milhares de palavras, mas também poderíamos usar apenas algumas centenas, bastaria racionalizar e evitar sinónimos. Os novos conceitos são explicados através de palavras já existentes, alguma vez precisaram de palavras inexistentes? Ou seja, há muito as línguas chegaram a um ponto de serem autossuficientes. Conseguem explicar através das palavras que já existem os novos conceitos.
    - O que queres dizer é que a partir da infância, em que aprendemos o essencial, depois basta um dicionário e uma explicação clara.
    - Isso! Agora a questão que coloquei, há bastante tempo atrás, seria a de saber se uma comunidade poderia ir mais longe. 
    - Uma comunidade?
    - Sim, sozinho não se consegue desenvolver linguagem. Precisamos dos outros para aferir se esses conceitos têm existência nalguma realidade abstracta partilhada. A realidade individual, dessa dá conta o próprio por completo. A linguagem é uma experiência comunitária e para ser explorada por completo deve envolver todos. 
    - A noção hélgia seria a palavra que faltava, ou o desenvolvimento de nova linguagem?
    - Pouco importa, provavelmente será antes a palavra que falta para indicar que não nos faltam palavras.
    - Posso-me juntar ao pessoal da lavra?
    - Claro...
    - Aquela história do vídeo com a mudança da rotação da Terra... era por causa do trânsito de Júpiter?
    - Olha, olha, ficou preocupado!
    - Vocês é que andam a apoquentar...
    - Quem? Só se for quem quer ser apoquentado, ou quem apoquenta.
    - Aquilo foi uma brincadeira... bom, ou talvez não! Depende do crédito que deres a registos antigos sobre mudança da rotação da Terra. Vê aqui este texto. Segundo indianos, gregos, mexicanos, egípcios, houve quatro mudanças do sentido da rotação da Terra. Certamente que o teu positivismo científico não foi beliscado por este negativismo místico de abelhudos maias... n'est pas?
    - Ah! Ah! Ah! 
    - Acho que ele ficou preocupado, ficou.
    - Não vejo porquê... ele tem a convicção da ordem que não se deixa poluir pelo caos. As leis todas escritas, não é? Confiança, só se for com fiança. Eh! Eh!
    - Há leis físicas, sabiam...
    - Claro que há... são a parte da previsibilidade que nos conforta. Mas também há a imprevisibilidade que nos diverte... ou apoquenta, depende da tolerância e dos medos. Se conseguisses meter o universo inteiro nas leis, em que universo se teriam escrito essas leis?
    - Não sei, mas podemos verificá-las experimentalmente.
    - Achas que por algumas coisas funcionarem hoje como um relógio, a corda não tem princípio nem fim... ou que não há desacertos?
    - Não é só isso, o empirismo dele é útil, mas não é autossuficiente. Deduz leis, mas não consegue mostrar a razão delas existirem. Mede a constante de gravitação, mas só à força de uma fé, que repudia na religião, pode dizer que aquele valor foi, é, e será constante.
    - Sim, imagina que o peso que o Sísifo teve que suportar adicionalmente foi um peso adicional no seu corpo, por simples aumento da constante de gravitação?
    - Lá estão vocês com os mitos. Nesse caso teria sido ele e todos os outros... ou os outros continuavam aos saltos na Lua?
    - Queres falar sobre a Lua? Sobre as fotos?
    - Não, vocês estão sempre a gozar, e eu nem sei o que estou aqui a fazer...
    - Não te furtarás... 
    - Mas estou-me a fartar, vou-me embora.
    - Ninguém te está a atar. Tu é que gostas de lavrar em ata (aqui dá jeito usar o novo acordo, eh! eh!).

     
    The Verve - Bitter sweet symphony

    domingo, 17 de março de 2013

    Hélgia (2)


    Sem travessão, fala-vos o narrador, um mensageiro que é usado para fazer uma ponte entre o leitor e os personagens, servindo na maioria dos casos para descrever o contexto. Há confusões entre o narrador e o autor, porque a sociedade individualizou-se, fragmentou-se numa análise caótica dos seus propósitos, da sua razão de ser, e a síntese que foi fazendo foi a da castidade dos propósitos. As castas não englobaram o todo, e nessa síntese deficiente criaram novos fragmentos, novos gastos dos castos. Se em última análise, ninguém é culpado do que é, também ninguém pode esperar passar entre os pingos da chuva sem se molhar. Resultado da crescente cultura individualista, do convívio de egocentrimos, é dada demasiada importância à autoria, esquecendo a mensagem. O narrador faz parte da mensagem, o autor desliga-se dela, acabada a obra, a menos que decida fazer reedições. O nome do autor não é mais do que uma etiqueta, que poderá servir como palavra-chave para textos similares, ou para um aprofundamento do contexto que rodeou a obra, através de críticas integradoras, ou biografias.
    Entra agora o narrador para explicar a sua inutilidade neste texto. Levado a encenação teatral, o encenador poderia simplesmente optar por colocar palavras iluminadas sobre uma parede negra, mas também teria liberdade para decidir o número de actores e atribuir-lhes as frases que quisesse. Pode, e é, em certa medida, um monólogo... mas esse contexto introspectivo, ou de simples discussão entre dois ou três personagens, seria claramente deficiente.
    Após esta pausa, reentram os personagens.

    - A figura dos biliões de gaivotas é a da expansão das ideias. As associações formaram-se automaticamente gerando todo o universo, formado por instâncias de si mesmo... porque não pode haver outra atomicidade. O átomo é todo o universo. Só que, claro, há diversos níveis de associação que geraram a complexidade.
    - O átomo é todo o tomo, todos os livros, todas as ideias, o todo...
    - Isso! Se quiseres é o A-tomo... mas também o Z-tomo.
    - Não seria Omega-tomo?... e não é uma gaivota, é outro pássaro na canção da Laurie Anderson.
    - O que é que esse detalhe muda? Para mim, a Gaia vota, e por isso escolho a gaivota.
    - Olha, olha, as abelhas Maias, ou são tarantólogas? 
    - Para ti, a conjugação do verbo ouvir na tua pessoa, é ouço, do meu osso. 
    - Já sei que me julgas serpente rastejante, sem coluna vertebral, mas afinal não foi essa que nos ofereceu o conhecimento?
    - E conhecimento sem compreensão pode ser perigoso... pode ser como colocar armas em mãos de crianças. Porque o problema é que há conhecimento científico letal à disposição de pessoal com compreensão de crianças, mas que se julgam adultos responsáveis.
    - Conclui-se que me achas mesmo serpente rastejante... eh! eh!
    - Sabes que não é isso. Se assim fosse, diria que a conjugação não era "ouço", era "ouvo", do ovo da serpente. Simplesmente os qualificativos insultuosos não trazem nada de novo. Usam-se outros de resposta, e começamos a dança. Ora, como sabes, não aprecio essa coreografia programada, mas sei que faz parte de rituais de acasalamento.
    - Ui, ui! Já estão a desatinar? Já chegaram há muito tempo?
    - Nem por isso... estamos a chagar, depois havemos de lá chegar.
    - A cura das chagas... faz parte, faz parte!
    - Estava aqui a pensar na questão dos cortes... Podemos pensar que, na mitologia grega, se Gaia representa as ideias vindas no caos universal, Úrano poderia representar a sua associação ordenada. Cronos/Saturno seria então uma opção de eliminação em linha contínua temporal. Ou seja, o corte de Cronos (o corte dos cornos... eh eh), seria uma opção pelo esquecimento do passado e imprevisibilidade do futuro.
    - Vocês falam disso como se esses deuses tivessem mesmo existido! Que tourada...
    - Ninguém disse isso, nem o contrário. Não estás a ver um boi... O que estamos a ver é que parece haver uma racionalidade profunda nos mitos antigos. Chegámos lá doutra forma, mas também com ajuda dessas ideias antigas.
    - Sim, há diversos níveis nos panteões divinos, mas há uma lógica emanescente. Mais notável, essa lógica parece ter-se codificado na linguagem, de forma algo inconsciente.
    - A começar, a que treta é que vocês chamam "Maia"?
    - Já lá vamos, estávamos ainda em Gaia, a chegar à Raia. Eu diria que Raia é a fronteira de Gaia definida pelo corte de Cronos. Raia seriam todas as ideias no presente, incluem memória do passado, e modelação do futuro, mas ambas imprecisas. É um presente que é um pré-sente, não sente tudo, mas também não é apenas uma fotografia sem movimento. O corte terá pelo menos três camadas. A do instante presente, a da memória passada, e a da modelação que pode prever algo do futuro.
    - Sim, e o corte de Cronos tem a memória, uma parte mecânica, instintiva, que modelaria o futuro, por exemplo, para efeitos de locomoção animal.
    - Mas não tem a compreensão interna das ideias...
    - Exacto, isso só vem com Zeus. Porque o corte de Cronos gera novas ideias, relacionadas com a limitação temporal. Se a ordenação de Úrano deixou fora da luz do conhecimento muitas ideias caóticas, o corte de Cronos, ao rasgar um curso do tempo, gera novas ideias, ao mesmo tempo que remete outras para o esquecimento. 
    - Pelo que entendo, há assim diversas formas de luz. Primeiro, Úrano só traz à luz o que está ordenado, depois Cronos limita a luz ao presente, que inclui a adição de memória e previsibilidade futura parcial.
    - E o que fez Cronos com as novas ideias, geradas pelo seu corte?
    - Engoliu-as!... Por isso a questão mitológica de engolir os filhos - a personificação das novas ideias que tinha criado pelo corte temporal.
    - Só com Zeus é que teremos uma inclusão dessas novas ideias, podemos ver aí uma nova luz.
    - Mas também novas trevas... já dentro do corte temporal de Cronos há umas ideias que não queremos ter, mas outras são aprazíveis. A divisão entre bem e mal começará com Zeus, vai para além do que é caos e o que é ordem, na original divisão de Úrano.
    - Não esquecer que a mãe Raia dá a Zeus, o quê? Raios...
    - Sim, o corte do tempo na posse de Zeus, será depois o do tempo atmosférico. Este ioga da joga de palavras, é lixado...
    - Resta saber se não é autoformado... porque a questão é sempre a mesma, de onde aparece a inspiração que leva ao pensamento, que leva à acção. Mesmo tratando-se de deuses pensantes, uma sua escolha teria origem nas musas, que bebem do caos a inspiração que enviam.
    - Depois há ainda a questão das dimensões espaciais... serem apenas três.
    - Antes disso, antes disso... não me responderam sobre a Maia!
    - Ok. Aliás, OK Curral... mas depois a gente brinca. Zeus aparece com Hera, e as Eras são um corte histórico, as heras apagam o registo humano, etc. Isso pelo lado grego. Pelo lado romano, temos Juno associada às nuvens, enquanto que Júpiter se mantém associado a raios e tempestades. As nuvens dão chuva, mas também tapam a luz. Ou seja, identifica-se assim mais um problema... a oclusão histórica, eventualmente pela escolha do passado "conveniente", na tal ideia de bem/mal, ou céu/inferno.
    - Sim, pela falta de compreensão, houve ideias que foram suprimidas. Foi ajustado um passado histórico que até encaixava numa certa ordem... mas Gaia não esquece os seus filhos do Caos, que caíram fora da hierarquia da ordem.
    - Maia representa assim o encaixe de tudo, o caminho para o conhecimento completo de Gaia. Será de Maia, reprimida, que nascem os humanos. Já não são deuses. Porque os deuses são imortais, não conhecem a real perspectiva da mortalidade, da finitude, essas novas ideias apareceram com os homens. Por isso, os humanos e Prometeu foram tão mal tratados... porque a solução completa não está na mão dos deuses, porque há ideias que eles já não podem ter - por exemplo, a da mortalidade.
    - Espera aí... Maia não aparece assim na mitologia.
    - Eu sei, mas quem disse que a história tinha acabado? Ainda nem falámos dos 12 signos, das 12 horas, que às 13 voltam a apontar para o 1. Não foste tu que falaste da tarantóloga? Olha, não fui eu que inventei estas coisas, apenas estou a tentar juntar as peças.
    - E por falar nisso, a da profecia dos Maias, falava especificamente no dia, ou no ano? O ano já acabou? Já lhe contaste do trânsito de Júpiter por Touro, e da passagem pela Nebulosa de Cancer, na altura do solstício de Verão de 2013?
    - Eu não ligo muito a isso, sabes bem... mas também é verdade que há uma série de coincidências que têm sido difíceis de encaixar como tal.
    - Espera lá. Estás a dizer que são os humanos que têm que resolver um problema divino?
    - Fala-lhe das dimensões... ele não está a ver o filme 4D.
    - Sobre o 4D não há muito a dizer... Cada dimensão 3D é como uma folha de papel em dimensão 4D. Um ser 4D pode fazer uns bonecos 3D para se divertir, tal como uma criança faz um boneco numa folha de papel. O problema é que em 2D não há vida, em 3D aparece... e não são animaizinhos.
    - Na perspectiva de deuses podem ser vistos como animaizinhos...
    - Ou seja, se quiseres, numa perspectiva 4D, os animaizinhos estariam num aquário 3D a serem observados, como num écran de computador. Mas vêem mesmo tudo, da mesma forma que nós vemos um boneco 2D por completo no seu interior. Ora acontece que os humanos têm a possibilidade de se verem a si próprios... para além do corpo, no campo das ideias. Porque tudo, tudo são ideias. Ou seja, pelo menos alguns humanos podem ter uma dimensão para além da material, em 3D. Deixaram de ser bonequinhos... têm a alma. E ainda que se desprenda desta parte 3D, pode ter lugar aí, na parte do raciocínio que nos permite ver a nós próprios, e que estará nessa dimensão superior, digamos 4D.
    - Estás a ver, isto enquadra aquela noção de almas que vão para o céu... escolhidas pelos que se portaram bem, ou para o inferno, para os que se portaram mal. Passamos para guerras em dimensões superiores.
    - Pois, mas eu creio que isso já foi tudo resolvido, se Gaia considerar que pelo caminho de Maia, os humanos vão finalmente ter a potencialidade de trazer luz a todas as ideias. Repara, esta questão da personificação, estou-me a borrifar para saber se é real ou não. A realidade é algo diferente do que se julga, é essencialmente uma sincronização para uma verdade. Cada um tem ideias próprias, sonhos, mas conjugam-se todos num mesmo campo, na realidade da Terra. E a questão da relatividade é uma meia-idiotice. A relatividade estabelece-se entre duas coisas, não entre múltiplas coisas. Quando há múltiplas coisas, tem que haver um sincronismo, um referencial.
    - Sim, nota que o mundo material nunca seria suficiente para encaixar e explicar o espírito humano.
    - Em nenhuma dimensão... porque as coisas não param necessariamente a 4D, 5D, ou o que for...
    - Não o vamos assustar com os mergulhos em Neptuno?
    - Que história é essa?
    - Para já é uma brincadeira... repara, grande parte das restrições foram questões parvas de medos incutidos. Se houve intervenção divina... não foi por mal. Pensa nos deuses como crianças que têem um poder, uma sabedoria, infindável, mas... não têm necessariamente superior compreensão. De acordo com as mitologias, os deuses não poderiam ser mortos, mas aprisionados. Ser aprisionado eternamente... é como ser comido vivo, mete medo. Ficariam eventualmente condenados à Montanha de Sísifo... 
    - Sim, é uma estorieta engraçada, e daí?
    - Daí, que no mundo ordenado gerado por Úrano, em Gaia, há agentes "caóticos"... os tais que não viram a luz, e que surgem como monstros, mesmo para deuses, em dimensões superiores. Repara que um ser em 3D pode ser aprisionado num aquário tal como uma formiga, que se move em 2D, pode ser limitada por um copo que a aprisiona. Isto é válido em qualquer dimensão...
    - Daí o mandamento por via do ioga - "não me atarás"... "não matarás".
    - Só para dizer que há uma sequência que sempre me intrigou. Pelo lado dos planetas, Úrano, Saturno, Júpiter, que está na ordem mitológica correcta. Acima de Úrano, temos Neptuno, o deus dos mares. Mas não é dos mares terrenos que falamos. Os problemas teriam-nos sidos colocados na Terra para que pudessemos resolver conflitos a nível superior, por causa da nossa elevada compreensão. A nossa escassa memória obrigou-nos a deduções notáveis com pouca informação. Nesse sentido a autorização para chegar à América seria como gratificação divina da resolução do problema dos mares de um Neptuno de dimensão muito superior. É o Neptuno do caos, que ficou fora da ordenação de Úrano, era esse Neptuno que Gaia exigiria que fosse conhecido.
    - Esta é uma história de várias camadas... própria do Cebolinha!
    - Já agora, digo-lhe a outra...
    - Tem mais? Vocês têm imaginação, pelo menos!
    - A seguir a Júpiter vem o quê?
    - Na aproximação à Terra, Marte.
    - Amar-te em Marte, é para depois... eh! eh! Antes disso, temos a cintura de asteróides. É como se houvesse uma repartição altamente estranha, e potencialmente ultra-instável, de corpos celestes. Pode ser um convívio pacífico de corpos celestes, ou pode descambar em carambolada marciana.
    - Sim, e pelo lado do Sol... temos Mercúrio-Hermes e Vénus-Afrodite, que anunciam a alvorada. Hermes é o mensageiro, filho de Maia, mas também foi visto como Cupido filho de Vénus, que pode ser associada a Maia.
    - Daí a mensagem...
    - Qual mensagem? Tudo isso não passam de associações mirabolantes, algumas coincidências, e muita imaginação.
    - Claro que sim!
    - Óbvio, não se está a ver?... depois falamos!
    - Ainda tem mais?


    David Guetta - Little Bad Girl feat. Taio Cruz

    sábado, 16 de março de 2013

    Hélgia (1)

    - Hélgia... seis letras que, ao que parece, nunca foram escritas.
    - Sim, e quantas letras juntas ganharam o estatuto de serem tidas como palavras?
    - Elegia, elegia é uma palavra bem conhecida.
    - Eu sei, mas não é elegia, é da noção hélgia que falamos.
    - Olha, uma tem mais de 2 milhões de ocorrências, a outra acho que nunca foi escrita na internet.
    - Esperem. Quantos estamos aqui a falar?
    - Isso importa?... acho que não!
    - O pessoal normalmente não se afasta muito do que foi feito antes... seguem o trilho na floresta de enganos.
    - Quem disse isso? Se cada um se pusesse a inventar palavras, não nos entenderíamos.
    - Pois, e quem inventou estas que usamos?
    - Já perdi a conta, quantos somos nesta conversa?
    - Estás a falar da invenção do significado, do som, ou da sua escrita?
    - Estou a falar mais sobre o significado... acho que é isso que distingue um conjunto de caracteres, ou de fonemas, de uma palavra.
    - Até porque apesar das múltiplas línguas, aparecem as mesmas palavras, ou semelhantes.
    - É pá... lavra, não vês que é cultura, é lavra a palavra.
    - Entramos na joga do ioga...
    - Quantos somos aqui, afinal?
    - Que é que isso interessa? Olha, pergunta ao autor!
    - Podemos falar com o autor? Um personagem pode falar com o autor?
    - Acho que não é conveniente... imagina o que os personagens de uma tragédia lhe queriam dizer, ou fazer!
    - Crucificá-lo? Bom, mas não apenas ao autor, também aos leitores, que os obrigam vezes sem conta a reviver esses dramas.
    - Que estupidez! Os personagens não sentem!
    - Não? De quem são os risos, as lágrimas, as emoções, que os personagens invocam no leitor? Não é algo que o leitor (ou espectador) esteja a sentir no seu corpo. O cérebro do leitor serve de "máquina" para reviver as aventuras e desventuras do personagem.
    - Percebi... e quando o leitor "encarna" no personagem as emoções não são apenas suas, são emprestadas por esse personagem, pelos seus sentimentos no enquadramento.
    - Sim, no processo de leitura o leitor reserva uma parte do seu cérebro para se colocar na posição do personagem. Desliga-se mais ou menos dele... pode colocar-se sempre na posição superior, em que tem o conhecimento dos diversos fados. Porém, quando quer interpretar o sentimento do personagem, o leitor assume as suas dores, torna-se numa sua réplica... ainda que não exactamente igual, pois o autor teria um propósito, um contexto, e diversos leitores, ou o mesmo leitor numa releitura, terão outro.
    - Continuo a achar que é uma estupidez... vejam esta história: "O Joãozinho era um rapaz infeliz, órfão, sem amigos, ia a passear pela floresta, caiu e partiu uma perna. Ficou a sofrer sem que ninguém se preocupasse com ele." Pronto, já está. Vão-me dizer que este Joãozinho existe?
    - Passou a existir... a partir do momento em que contaste essa história.
    - Ah! Eu sou o culpado da desgraça do Joãozinho... essa 'tá boa!
    - Pelo que percebi, serás tu e quem a ler a seguir. Mas o Joãozinho não será o mesmo... cada leitor terá uma imagem própria do rapaz, da floresta, etc.
    - Bom, mas acho que também tem a ver com a verosimilidade. Há histórias que nos aproximam mais da realidade do que outras. Se o Joãozinho tivesse sido atacado por um dragão perceberíamos que era uma situação de fantasia.
    - Não só. Essas situações fantásticas, hoje vistas como fantasia já foram tidas como medos reais.
    - Claro. A mensagem pode ter um propósito de incutir medos. Ao contrário, raramente vemos textos para lidar com os múltiplos medos que nos são incutidos.
    - Estamos a afastar-nos da discussão...
    - Quem disse isso?
    - Quem disse "quem disse isso?"?
    - Eh! Eh!
    - Sei lá, já se esqueceram que não temos nomes, nem sabemos quantos personagens somos?
    - Porquê?
    - Já vos disse, perguntem ao autor!
    - Mas os autores não se devem misturar com os personagens...
    - Acho que quem disse esta última foi o autor... eh eh!
    - Então, e as outras não foi?
    - Olha, olha, temos o autor entre nós! Apareceu como personagem.
    - Isso não faz sentido, se todas as frases foram escritas por ele, sempre esteve como personagem.
    - Não perceberam que as frases, as palavras, existem, independentemente de serem veículadas por um ou outro corpo? A partir do momento em que apareceu a linguagem, todas as suas combinações, todos os textos, todos os livros, ficaram potencialmente possíveis. Ou seja, já estão feitos.
    - Estás apenas a referir-te à linguagem?
    - Não, não estou.
    - Estou-te a topar... bem observado!
    - Olha, eu sinto que me estão a passar coisas ao lado.
    - Bem vindo ao clube!
    - Se é o que eu estou a pensar... grande malha da nossa Maia!
    - Tenho que ler melhor os outros textos, mas acho que estou a ver o "filme"... e que filme!
    - Não percebi nada!
    - Olha, perde aí um tempito a explicar-lhe... encontramo-nos de novo?
    - Claro, depois voltamos à conversa.

     Laurie Anderson - The Beginning of Memory

    domingo, 10 de março de 2013

    Análise, Reflexão e Síntese

    Um apontamento na sequência de um texto anterior.
    Podemos considerar três processos fundamentais na formação espontânea de conhecimento.
    A análise, que representa um corte (se quisermos entender na forma mítica, o corte adamantino de Cronos a Urano). A reflexão, que basicamente significa que há uma simetria induzida na análise (podemos ver isto na moral cristã, da reciprocidade, de que o outro e o eu são uma mesma parte de algo que os une). A síntese, que após a análise e reflexão, agrupa as novas ideias, sendo nova forma de conhecimento. Todos estes processos se sucedem, e estão sujeitos a acções intercaladas de uns e outros.
    O "conhece-te a ti mesmo" é uma análise em que o próprio "eu" está sob análise, colocando-se a um nível superior de entendimento. Por isso mesmo, pela reflexão, deve colocar-se no mesmo plano que os restantes. As conclusões que daí retira, são a síntese, que forma ideias sobre si e o que o envolve num plano superior, o que se pode entender num plano espiritual.
    Seguindo um pequeno comentário, devemos entender que a destruição é apenas uma noção abstracta, de negação da construção. A construção é a síntese, feita a partir da análise, mas essa análise, quando feita no plano de ideias nada faz desaparecer. A destruição aparece apenas como uma negação da construção, enquanto operação lógica. 
    A intensidade do que experimentamos neste processo de alternância destas três operações fundamentais, acaba por ser resultado do equilíbrio entre todas elas, sendo menos agressiva se optarmos pela chamada "via do meio", na concepção budista. É claro que se centrarmos tudo no "eu", podemos esperar uma ameaça da enorme montanha, que será o "não-eu", no sentido de Maomé, e por isso devemos defrontar os nossos medos, que não são mais do concepções abstractas, que resultam do desconhecimento dos outros, e respectiva falta de confiança.
    A maior beleza no meio deste processo que nos aparecerá como trágico, mas também feliz, é que isto é apenas uma consequência abstracta fundamental... ou seja, só será bem entendido com conhecimento, reflexão e compreensão suficientes.