domingo, 26 de abril de 2020

Nebulosidades auditivas (80)

Valete (2017) Rap consciente

terça-feira, 21 de abril de 2020

Nebulosidades auditivas (79)

Depois de ser promotor dos Sex Pistols, Malcom McLaren desenvolveu alguns trabalhos individuais, começando com este "Buffalo Gals", que fez algum sucesso em 1982, fazendo aparecer o som Hip-Hop electrónico, quando ainda era recente. Os restantes trabalhos posteriores tiveram pouco impacto, talvez exceptuando uma versão pop de Madama Butterfly (un bel di vedremo).

Malcolm McLaren (1982) Buffalo Gals

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Covide 19

Covide, em Terras do Bouro, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, é uma pequena povoação, que dá nome a uma freguesia desse concelho.

No meio do parque, surge uma placa no meio de um trilho, que indica 19 Km para Covide. 
Essa placa não teria qualquer importância até há uns meses atrás, quando a OMS decidiu nomear a doença associada ao novo corona-vírus como Covid-19.
A placa Covide 19 (imagem), e uma imagem da povoação Covide.

Poderia não haver mais nada a acrescentar, para além da coincidência, do nome, do número e até o boneco circular do veado lembra a corºnea do vírus. Nada tem de especial a povoação mais próxima de Covide ser Freitas, porque a Srª da Graça está a uns 60 Km de distância. Seria um pouco estranho pensar-se em algo muito intrincado para justificar qualquer relação entre umas coisas e as outras.

Porém, um detalhe interessante é a referência ao nome do trilho "Cidade da Calcedónia".
Esta referência a Calcedónia, que parece completamente despropositada aparecer no Minho, seria razão para justificar uma menção ao assunto, por si só.

Calcedónia era uma cidade do outro lado de Bizâncio, passando o Estreito do Bósforo, e tal como Bizâncio, Calcedónia era remetida a uma fundação mítica no Séc. VII a.C. 

Ficou conhecido o Concílio de Calcedónia, que reafirmou Jesus Cristo na condição de pessoa única, e igualmente enquanto Deus e Homem... um dogma que provocou algumas cisões, nas igrejas ortodoxas orientais, especialmente tendo em atenção a referência os evangelhos de Mateus e Marcos que citam a frase de Jesus: "Deus, Deus, porque me abandonaste?".

Segundo informação do trilho, a designação que reporta a Calcedónia vem de eruditos portugueses do Séc. XVI, que teriam associado ali a vinda dos Argonautas e a fundação da cidade (que ao que parece seria um povoado romano). 
Veja-se o trilho da Cidade da Calcedónia, que curiosamente, começa em Covide... onde? 
- No Largo do Calvário. Apenas mais uma coincidência.

Se quisermos entrar ainda por esse lado, veja-se o episódio de Hermano Saraiva (A Alma e a Gente série IV - 51), que faz referência à tradição local da "Toalha de Água às Mãos".

Num site de trekking encontramos diversas fotografias, em particular esta foto da fenda da Fraga da Calcedónia, que é bastante ilustrativa da dimensão que as pedras do Gerês, em particular dos blocos que definem esta fenda.

Para finalizar, são ainda interessantes as moedas associadas à cidade de Calcedónia (que é agora um bairro de Istambul).
Porque o Bósforo teria o nome como origem bois (Bós) e passagem (poro), em grego, aparecendo nas moedas da Bitínia que referem a cidade, a designação KAΛX que é um prefixo "calc" semelhante ao que encontramos em Cálculo, e cuja origem latina remete para pedras, ou seja, para a sua contagem... Ainda que as pedras, cálculos, não fossem supostamente tão grandes quanto as que encontramos na Peneda-Gerês...
Tetradracma Calcedónio (Bitínia), circa 370 a.C.














Nota: No Portugal Antigo e Moderno, Pinho Leal deixa estas palavras sobre Calcedónia e Covide.
CALCEDONIA— cidade antiga de que falam Strabão, Plínio, Pomponio Mella e outros, a qual, segundo eles, existiu na parte septentrional da Lusitânia; mas cujo sitio certo se ignora. (Vide Covide.) Passava por esta cidade a via militar romana chamada Geira. (Vide Geira.) 
COVÍDE — freguesia, Minho, comarca de Villa Verde, concelho de Terras de Bouro, (extincta comarca de Pico de Regalados) 30 kilometros a NO de Braga, 385 ao N. de Lisboa, 90 fogos. Em 1707 tinha 73 fogos. Orago Santa Marinha. Arcebispado e distrito administrativo de Braga. Era antigamente deste mesmo concelho, mas da comarca de Viana. Situada entre serras, próximo do Zêzere. (...)Tinha antigamente o privilegio de se não fazerem aqui soldados, com a obrigação de guardarem à sua custa a Portela do Homem, das invasões dos galegos. 
Sobre um cabeço a E. da bacia onde está situada a povoação, existem as ruínas de uma atalaia dos antigos lusitanos, ou de um castro romano. É tradição que foi aqui a antiga cidade de Cálcedonia (outros dizem que esta cidade foi a 12 kilometros ao N., já em terreno da Galiza). Este sitio não podia conter mais do que uma fortaleza. Há ainda por estes sítios restos de marcos milliares e vestígios da via militar romana chamada Geira. Em Sá ha um cruzeiro feito de um marco miliar, sem inscripção. Tem a data de 1736, provavelmente quando fizeram o cruzeiro. 
No lugar da igreja está outro cruzeiro, coberto de zinco, e assente sobre uma coluna que foi padrão romano. A inscripção não se pôde ler, por estar enterrada a parte que a contém. 
A pequena distancia a E. de Covide, está a capela de Santa Eufemia, e junto a ela um penedinho de forma esferoidal, para o qual se sobe por alguns degraus de cantaria e dominado por uma pequeaa cruz de granito. Chama-se Penedo da Santa, ou Penedo de Santa Eufemia. Nele se vêem vestígios de muitas pegadas de um pé delicado. É tradição que fugindo Santa Eufemia à perseguição de seu pai, governador romano de Braga, vagueara por estas serras e que fazendo oração sobre este penedo, aí deixou gravados os sinais de seus pés. Na aldeia de Covide apareceu pelos anos de 1855, em uma escavação, um forno, construído de tijolo. 
Esta freguesia está situada em um pequeno vale, ao S. do Gerez, É terra fria e húmida no inverno; mas tem bons prados artificiais e naturais. Produz muito milho, linho e centeio, alguma castanha e pouco mau vinho verde. Cria bastante gado bovino, da raça de Barroso. (...)

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Bicho de contas

Há um indicador que tem as contas actualizadas do número de infectados pelo corona-vírus registados até à corrente data:

e que mostra de forma razoável como a propagação da epidemia está a ficar controlada na maioria dos países que decretaram medidas de contenção, mesmo que haja um panorama algo descontrolado a nível mundial:
 
Após um rápido crescimento que se deveu à situação na China, o número estabilizou ligeiramente, até à propagação na Europa, e depois na América, que fez disparar este número, de novo. É de esperar que uma situação deste género volte a ocorrer, nos diversos países que ainda não têm a situação sob controlo, e por isso podemos estimar que mais que no final de Abril possam existir 10 milhões de infectados, e em Maio poderemos contar com perto de um milhão de mortos. Não me parece expectável que a pandemia passe o mês de Maio, em todo o mundo.
Como a contabilização será deficiente em muitos casos, isso poderá não ser imediatamente reflectido.

Os casos exemplares de contenção foram os imediatamente afectados - Coreia e Japão.
A Coreia do Sul tem uma curva (logarítmica) quase constante desde 8 de Março (desde essa altura o número de novos casos é residual, entre 100 e 200 casos diários):
Como habitual nestes casos, a progressão é inicialmente exponencial - isso todos referem, mas depois sofre uma curvatura gaussiana (disso ninguém fala...) tendendo a estabilizar ou diminuir, consoante o sucesso na contenção ou cura. Nestes gráficos do worldometers.info não são contabilizadas as curas, porque aí veríamos a curva descer - aliás dos ~ 10 mil infectados, restam 4 mil não curados, na Coreia.

Este mesmo tipo de curva (logarítmica) pode ser visto no caso português:

mas como as medidas de contenção foram tomadas tardiamente (quando comparado com a Coreia), o crescimento prolongou-se no tempo - na Coreia demorou 3 semanas a contenção e estabilização, em Portugal já passou um mês desde o 1º caso, mas só há medidas restritivas há 2 semanas. 

Foi por esta razão, porque este tipo de fenómenos tem um comportamento que dentro de certos parâmetros pode ser algo previsível que, num postal de 22 de Março, quando ainda haviam apenas 1600 casos em Portugal, fiz a seguinte previsão:

Os pontos a vermelho são os valores que se conheciam, e os pontos a azul são os que se verificaram depois. Ou seja, os valores seguiram dentro de uma das curvas expectáveis para o crescimento.
Por exemplo, disse que os valores a 31 de Março seriam ~ 8500, e foram 8250 anunciados no dia 1 de Abril. Na realidade, há duas semanas atrás, pareceu-me que a curva poderia ser ainda mais acentuada, na pior estimativa (curva a preto), e não tinha visto o caso de sucesso coreano.
Não se tratou de acertar por acertar, nem há qualquer interesse neste "acerto", é pouco relevante que a DGS não actualize bem as bases de dados, ou que faltem milhares de testes. Neste tipo de análises, o que interessa é perceber a tendência, e essa é mais ou menos estanque à divulgação... até ao momento em que a política começa a torturar os números, e esses números não correspondam a nada de real.

Parece-me plausível que possamos antecipar o pico dos casos para uma data anterior ~ 10 de Abril, com um número de casos em Portugal perto dos 15 mil. Não será um pico, porque o número de recuperados (registados) é ainda pequeno.

Percebe-se talvez melhor a questão dos japoneses em não quererem comprometer a realização dos Jogos Olímpicos em 2020, porque foram eficazes a conter a epidemia (têm menos de 3 mil casos), e provavelmente entenderam que os restantes poderiam fazer o mesmo... isto claro, se tivessem feito o mesmo controlo de entradas de estrangeiros, ou de pessoal em viagem. Coisas básicas que a DGS ou a OMS tardaram a perceber ou exigir, por incompetência, ou outra competência... 

A Espanha vai ultrapassar a Itália em número de infectados, pois a situação italiana já está quase estanque, mas também deverá estabilizar por volta da Páscoa, não devendo atingir os 200 mil infectados. A situação italiana pode considerar-se praticamente estanque, neste domingo deverá atingir o topo (inferior a 130 mil), começando a estabilizar (ou seja, depois terá variações com menos de mil novos infectados por dia).

Mesmo no caso dos EUA, que aparece agora como principal foco, e algo descontrolado, com efeito a situação está a começar a inverter-se, e poderá mesmo não chegar aos 500 mil infectados com tendência a abrandar, na semana depois da Páscoa... e Trump poderá dizer que a situação estará controlada antes de Maio, com um número de mortos muitas vezes inferior ao que pensou.

Bom, mas tudo isto são previsões numéricas, sujeitas aos diversos imponderáveis, que podem transformar uma tendência noutra bem diferente. Estas contas são básicas e podem ser feitas por qualquer um com alguns conhecimentos de matemática na universidade. Uma análise mais detalhada nem sempre dá melhores resultados... porque os imponderáveis são imponderáveis.
No entanto, começando a bater certo sistematicamente, é natural que se usem como objecto orientador, e sempre são melhores do que estimativas vindas do nada, e tomadas ao sabor do vento, conforme as que habitualmente ouvimos.
Uma coisa a averiguar será a de saber se este bicho é um bicho de contas certas, ou não.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Nebulosidades auditivas (78)

  • Missa Corona Spinea de John Taverner (c.1490-1545)
  • Cocteau Twins - Throughout the Dark Months of April and May (1986)
  • New Order - Power, Corruption and Lies (1983)

quinta-feira, 26 de março de 2020

O vírus da coroa

É debatido se os vírus se podem considerar ou não como uma forma de vida.
A opinião mais comum é a de que não se trata de vida, normalmente porque não têm as propriedades celulares - não se reproduzem sozinhos, nem têm metabolismo próprio.

No entanto, tal como cucos, são bastante competentes a parasitar células, usando os processos celulares reprodutivos para se multiplicarem em quantidades assombrosas.
Com que propósito?
- Aparentemente, nenhum...
Imagem de corona-vírus em microscópio electrónico.

É razoavelmente diferente pensar em termos das consequências, ou seja, das doenças que são geradas por esse parasitismo, ou pensar em termos de propósitos. O que o vírus beneficia do processo de infecção é um nada, se exceptuarmos a sua reprodução. Só que nesse aspecto também não difere muito da própria célula infectada.

Comparação das dimensões e visibilidade em microscópio.
(Abaixo de 400 nanómetros, comprimento da luz violeta, já não é possível ver...)

Em termos de dimensões, o vírus será como uma carraça, encarando a célula com a dimensão do corpo humano. Só que a comparação da dimensão das pequenas células pulmonares, com o próprio corpo, será como comparar um homem com o distrito de Lisboa. Ou seja, se encararmos os vírus com a dimensão de carraças, grosso modo, o nosso corpo teria a dimensão do distrito de Lisboa.

Nas imagens de microscopia electrónica, estando fora do visível, 
abaixo do violeta, as cores apresentadas nas imagens são falsas.

O modo de actuação dos vírus seria análogo a ter a carraça a entrar no corpo e a usá-lo para se reproduzir em milhares de carraças, destruindo-o em poucas horas. Isso aplicado às células pulmonares resulta na destruição das células dos alvéolos, responsáveis pela respiração. As pessoas infectadas, ao serem afectadas na respiração, naturalmente tossem, expelindo no processo os vírus para a atmosfera, com a natural probabilidade de cair em cima de outra pessoa.
Ao que parece estes corona-vírus aguentam-se algumas horas no ar, e eventualmente até 3 dias em superfícies metálicas. Com o tempo, e temperatura, vão-se degradando, perdendo a sua capacidade. Ou seja, é no contacto próximo e imediato que o vírus retém a sua funcionalidade nefasta.

Se a funcionalidade das células se pode resumir a executar determinadas funções essenciais à sobrevivência de um determinado corpo, a funcionalidade dos vírus não parece aparentar a sobrevivência de nenhum corpo ou entidade... aliás, pelo efeito que tem nos corpos infectados, podendo levar à sua morte, o demasiado sucesso do vírus acaba por levar à sua própria destruição, pela morte do hospedeiro, ou seja, o indivíduo afectado.

No entanto, se encararmos o vírus como um agente da natureza, os seus efeitos podem ser entendidos nesse contexto mais vasto. Assim, dessa forma, tal como as células funcionam visando o normal funcionamento do corpo, também os vírus podem visar um normal funcionamento da natureza.

Neste caso os vírus actuam de uma forma especialmente efectiva, com um único propósito destruidor das espécies afectadas. Não se tratando aqui de colocar uma cabeça na natureza, escolhendo um alvo, mas é razoavelmente claro que a eliminação de certas espécies pode favorecer outras.
No caso concreto, este é um vírus de "coroas", não tanto por afectar também cabeças coroadas (e.g. o príncipe monegasco Alberto, ou Carlos, filho de Isabel II), mas mais por afectar especialmente "coroas" com uma certa idade.
Claramente não se trata de um propósito da natureza em atacar mais velhos para favorecer mais novos, mas é inevitável que a existência deste vírus é responsabilidade do mesmo universo criador que nos formou. Não interessa se assumiu a forma criativa nalgum laboratório secreto, ou nalgum exagero noticioso, interessa que o seu aparecimento não deve ser visto como casual, mesmo que os propósitos mais concretos nos escapem actualmente.


Nota adicional: (29.03.2020)
Seguindo a sugestão de José Manuel Oliveira, fica o link e vídeo ilustrativo da actuação do vírus:


domingo, 23 de fevereiro de 2020

Nebulosidades auditivas (77)

Do tempo em que a modernidade atingia um dos seus picos, em 1977, a disco-music recebia diversos temas icónicos, em particular dos Bee Gees, no filme Saturday Night Fever... de tal forma, que apesar de se localizar predominantemente entre 1975-79, ainda hoje o disco passa por música dos anos 80... 
Do final dos anos 70 até ao início dos anos 2000, as discotecas foram o ponto de encontro de todos os jovens, até que na década de 2010, as discotecas foram desaparecendo, e agora será mais moda de jovens passados, entretanto divorciados.

Giorgio Moroder com Donna Summer, ou Grace Jones, traziam sonoridades bastante diferentes do habitual, marcadas pelo uso de sintetizadores, de uma música electrónica que tinha começado nos anos 60, mas que seria uma especial marca dos anos 80. Estes temas parecem ainda hoje ter uma sonoridade que ficou por explorar.
1977 - Donna Summer - I feel love

1977- Grace Jone - La vie en rose

Pela mesma altura surgiam os exageros algo grotescos como os dos Sex Pistols, e a razão era simples... surgiam porque podiam!
Tal como a pintura ao fazer a sua evolução abstracta, chegou ao ponto de fazer aparecer um Quadrado Negro, por Malevich (1915), também a "música" com Yves Klein, ou com John Cage (1952), decidiu apresentar uma peça com 4'33'' de silêncio.
Por isso nada mais natural do que em 1975 aparecerem uns Sex Pistols elevando o ruído desafinado de guitarras estridentes ao estatuto de música.
São bizarrias que nem piada chegam a ter por serem demasiado óbvias, mas no entanto fazem delícias de intelectuais toscos, talvez por reflectirem o caos ou vazio das suas próprias mentes.
Também tivémos João César Monteiro, com o seu filme negro (literalmente) "Branca de Neve", com a devida "graça" de ter sido financiado pelo estado com quase 1 milhão de euros. Ou mais recente o grotesco livro em branco de Simove, que já teria sido usado com mais piada em 1880 para ilustrar os feitos de um general, candidato à presidência americana.

Interessa que a comunidade depressa entendeu que sem uma mínima melodia, não havia música pop, e após o punk, dificilmente se poderia fazer pior, o que permitiu uma panóplia de estilos musicais no início dos anos 80. Para entendermos que o punk manteve adeptos incondicionais até 1986, basta ver o caso dos Sigue Sigue Sputnik que tiveram uma publicidade exagerada, anunciados como precursores da música que se ouviria no Séc. XXI...
Claro que nisto só acreditaria quem fosse mesmo muito jovem.

Para comparação, fica um tema dos Chemical Brothers, saído no ano passado, e que de certa forma ilustra como voltamos a estar próximo da música disco.


2019 - Chemical Brothers - Got to keep on


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Trampa contra Trump

Um dos episódios mais caricatos da história americana recente foi a tentativa de Joe Biden, em conjunto com o seu partido democrata, promoverem o impeachment de Donald Trump.
Primeiro, porque a história começa por comprometer a própria família Biden, em que o pai tenta um arranjinho para o filho na Ucrânia, usando para esse efeito o próprio Obama. Essa circunstância, de si, mereceria uma investigação aprofundada, sobre presidentes e vice-presidentes, a procurarem aproveitar-se da fragilidade económica de um país europeu. 
Depois, quando a Ucrânia se procurava finalmente livrar do Biden filho, contando com o óbvio auxílio de Trump, os democratas acabam em desespero virar a história ao contrário, acusando Trump de lhes estragar o arranjinho... como se tal coisa não fosse mais do que corrigir a lógica corrupta subjacente às negociatas e aproveitamento das famílias políticas... e aqui não há grande distinção entre democratas e republicanos.

Trump, tem sido alvo preferencial de uma imprensa internacional, que é completamente controlada pelo sector que apoia agora os democratas, e que se identifica a um certo sector judaico. 
Tem sido ridicularizado até ao tutano (em boa parte, por sua própria culpa), mas acabou por fazer as coisas virarem-se a seu favor, e esmagou os democratas na votação do Senado, onde os republicanos em peso apoiaram Trump (exceptuando Mitt Romney).
Já se tinha percebido com Dilma Rousseff que pseudo-motivos de justiça iriam agora servir para colocar em causa os presidentes eleitos, especialmente quando estes não estão nas boas-graças...

Este episódio ridículo que os democratas promoveram, divulgando massivamente pela imprensa internacional, e quase sem contraditório visível, foi agora coroado pela actuação de uma barbie-doll em fase terminal. Nancy Pelosi, que parece uma boneca com discurso em fita gravada, serviu o show de péssimo guião e actores, rasgando o discurso de Trump, sobre o Estado da União.


Provavelmente Nancy foi mal aconselhada, como já tinha sido durante todo o tempo do impeachment, onde disse pouco mais que barbaridades. Se fez aquilo sem ter sido aconselhada, então o caso é mais sério, pois normalmente os actores não devem pretender ser argumentistas.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

E-xit

Brexit (British exit) or E-xit (European exit)?

Celebrado como se tivesse terminado uma guerra com a União Europeia, a Inglaterra entrou com esperança no dia 1 de Fevereiro, quebrando as ligações com Bruxelas, e abrindo desde já o seu espaço comercial natural - E.U.A., Canadá, Austrália, etc...




_______________
Nota (03.02.2020):
José Manuel Oliveira sugere o vídeo de intervenções de Neil Farage, que são bastante ácidas, corroendo o politicamente correcto bruxelense:

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Snowmaggedon (8)

Repetindo o que disse o ano passado: "Todos os invernos é a mesma coisa... o tempo esquece-se que está sob alterações climáticas, tendo em bastidores um "aquecimento global"...

Este tópico Snowmaggedon está aqui todos os Janeiros desde 2014, para as notícias de temperaturas baixas, sendo assim contraponto à empolada informação sobre temperaturas altas, motivadora da campanha contra um certo "aquecimento global", depois chamado "alterações climáticas".

Desta vez, a notícia aparece no Público com este mesmo nome:

Fonte congelada na cidade Victoria, parlamento da Columbia Britânica

A cidade de St. John na Terra Nova foi especialmente fustigada, tendo este nevão batido recordes no Canadá, já de si um país habituado à neve. 

Convém aqui lembrar também o que foi notícia em Janeiro, o grande incêndio na Austrália, esse mais ajustado à narrativa da moda. Acontece também que os incêndios no verão australiano, são quase tão frequentes quanto os nossos, ou os californianos. 
Fica aqui um registo comparativo dos mais famosos incêndios australianos:

Não é preciso investigar muito para concluir que em 1974/75 a área ardida foi substancialmente maior, 6 vezes mais, e os incêndios deste ano ficam em 7º lugar nessa contagem australiana de metros quadrados ardidos. Quanto ao número de vítimas, os incêndios de 2009 continuam a deter o pior registo, ficando este ano no 6º pior registo. 
Nada disto diminui o peso que cada calamidade tem, especialmente para os envolvidos.
No entanto, é sempre conveniente relativizar as coisas na campanha de desinformação (em curso).
Isto, é claro, independentemente de serem louváveis todas as iniciativas de baixar as emissões de poluentes, e também ser louvável o empenho dos governos francês e alemão em salvar o planeta, ou melhor, renovar a sua produção automóvel, agora com o epíteto "verde" ou eléctrica.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Irão ou não irão

Numa altura em que o conflito entre os EUA e Irão se acentuou após a execução do general Soleimani, em 3 de Janeiro, as 56 mortes por esmagamento no seu funeral no dia 7, e o abate do avião ucraniano no voo PS-752, no dia 8, com 176 vítimas (82 das quais iraniana) mostraram como, em situação de conflito, é fácil disparar sobre o próprio pé. 

Os gritos de vingança iraniana, com a êxtase fúnebre e o lançamento de rockets sobre as bases americanas no Iraque, tiveram um custo de 138 vidas iranianas, e zero vidas americanas. Todos os erros são imputáveis directamente aos próprios iranianos, que agora assim o admitem. 
Além disso, este erro deixou Teerão numa posição internacional muito frágil, com um medo latente de voos civis sobre o território.

Acresce que está a ser alimentada uma onda de protestos interna contra o próprio governo, devido ao encobrimento governamental, que durou alguns dias, até reconhecessem o próprio erro.

Parecerá até um golpe de judo, em que a força do adversário é usada contra si mesmo.
Terá sido assim? 
Haverá alguém na CIA a fechar a operação "tiro no pé"? 
- Poderá ser que sim, poderá ser que não, mas Trump ainda assim não se livra de algumas críticas canadianas (Canadian CEO says the United States shares blame for Iran plane crash). 
Não que Trump tenha propriamente um registo de bombardeamento de cidades, ao contrário dos seus antecessores (Clinton, Bush ou Obama), mas simplesmente porque esse modus operandi é assumido na política americana, e a execução ou assassinato de Soleimani, não difere do modelo de justiça dos velhos westerns.

Finalmente este abate de avião civil no Irão, segue um velho caso, ocorrido em 1988, quando um porta-aviões americano abateu um avião civil iraniano, o voo IR-655, com a morte dos 290 ocupantes. 
Curiosamente, esse caso tornou evidente como a imprensa ocidental era enviesada a reportar os erros:
- A capa da Newsweek clamava "murder in the air" no caso do voo KAL-007, abatido em 1983 pelos russos, enquanto no caso do IR-655, apenas se perguntava "why it happened".

Mas, a questão é que mesmo que os EUA tivessem condicionado os iranianos a cometer o erro de abaterem um avião civil, seria algo tão vil, que admiti-lo, mesmo nos corredores de Langley, seria um outro tiro no pé.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Nobody expects... the ECJ

Uma novela que continuamos a seguir com interesse é a "Crise Catalã".
Depois do último postal a este propósito:
há uma novidade interessante.

Não se trata da abstenção dos catalães para viabilizarem o governo de Sanchez, pois isso foi mais noticiado. Parece claro que Sanchez e os catalães se terão entendido de alguma forma para conseguir esse apoio, ainda não se sabe como, mas aguardamos.

A notícia surpresa, para os espanhóis, foi a decisão do Tribunal de Justiça Europeu (ECJ - European Court of Justice) que deu finalmente provimento à tomada de posse de Puigdemont, Comín e Junqueras, enquanto deputados do Parlamento Europeu.
Estes tinham sido eleitos em 26 de Maio de 2019, mas impedidos de tomar o seu lugar em Bruxelas, alegadamente por não terem jurado a constituição espanhola. 

Puigdemont e Comín já foram acreditados pelo Parlamento Europeu, e até tiraram uma selfie da praxe:
Euronews - Puigdemont e Comín visivelmente satisfeitos na chegada ao Parlamento Europeu.

O problema é que o tribunal espanhol não deu autorização para libertação de Junqueras, que deveria comparecer à próxima sessão de 13 de Janeiro. 

Ora, como isto viola a imunidade parlamentar, a que tem direito, o Parlamento Europeu solicitou a sua libertação ao supremo tribunal espanhol, e aguarda-se desfecho até segunda-feira.

Para os espanhóis descalçarem esta bota sem perder a face, o melhor seria Sanchez conceder um perdão aos catalães presos, algo que parece poder ter pernas para andar, dada a abstenção catalã. 
Doutra forma, será um descrédito institucional... ou das instituições europeias, ou das espanholas.
Mas, enfim, isso também não surpreenderia ninguém.

_______________
Nota (21.01.2020):
O lado espanhol reiterou a posição, e foi o lado do Parlamento Europeu que perdeu a face, retirando a Junqueras a possibilidade de ser eurodeputado. Como o Parlamento Europeu nunca foi mais do que uma instituição de fachada, digamos que o seu presidente David Sassoli, seria o lado mais fácil de ceder.
Para mostrar alguma coerência, o Parlamento Europeu irá agora indagar se retira ou não a imunidade parlamentar a Puigdemont e Comin... Entretanto, em tentativa de desespero, surgiu hoje um pedido de integração de Junqueras, assinado essencialmente pelo grupo parlamentar "verde", como pode ser consultado num jornal catalão:
The decision of the President of the European Parliament to declare, against the ruling of the CJEU, the  withdrawal  of  the  mandate  of  Mr  Junqueras  without  a  decision  of  the  Parliament  to  waive  his immunity is also regrettable. This undermines the sovereignty of the Chamber and its ability to decide on the immunity of its Members. 
The denial of political rights is an alarming precedent that violates the principles and values that inspire the European project. Therefore, the signatories of this letter ask the European Parliament to defend the institution by protecting the immunity of Mr Junqueras as a Member, opposing the announcement of termination of his mandate and verifying his credentials in the upcoming vote. Only the  European Parliament, if it so deems appropriate, can lift the immunity of one of its Members.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Cair de Maduro (3) ou de podre?

Os dramaturgos da imprensa vaticinavam que a Venezuela morreria de fome em Maio, se não chegasse ajuda internacional (que aliás só seria possível com Guaido).

Entretanto os meses passam, e a fome também terá passado, porque praticamente Guaido desapareceu das nossas notícias. 
Quando escrevi o último postal sobre o assunto, as notícias eram diárias e abriam os noticiários:


Depois a imprensa tem o condão de esquecer por completo os assuntos que "não interessam", até porque o povão também tem memória curta. 
A vantagem de fazer compilações do ano passado, é que estes assuntos vêm à baila.
Poderia querer saber se os venezuelanos já tinham papel-higiénico, ou continuariam a usar a imprensa internacional para higiene pessoal.

Fui ver o que tinha acontecido com Guaidó:
Guaido apanhado num escândalo de corrupção (Dezembro 2019)
Ou seja, o "Obama venezuelano", o míssil Tele-Guiado, Guaido foi apanhado num escândalo de corrupção, sendo acusado pelos próprios apoiantes. 
Perante a necessidade de ser reeleito neste domingo (5 de Janeiro de 2020), no cargo da assembleia nacional, é natural que haja alguma expectativa de perceber se Guaido será ou não substituído na presidência desse órgão.

Para Nicolas Maduro, a eleição é absolutamente secundária porque ele tratou de criar uma outra assembleia, tornando aquela inoperante. Haverá novas eleições parlamentares, mas parece que Trump perdeu todo o interesse em Guaido, ou aguarda o momento para uma ulterior eleição presidencial.

A Venezuela estará provavelmente numa crise semelhante à que estava, com a diferença que por enquanto não temos as notícias em forma de novela dramática, como tivemos há uns meses atrás.

De certo que os virtuosos argumentistas que alimentam as notícias internacionais, que vão para o ar em forma de novela às 20h00, por via dos telejornais, arranjaram novos heróis e bandidos para alimentar o pagode. 
Apenas não sabemos quando virá aí nova enxurrada dramática. Temos apenas alguns episódios pontuais, como um falhado ataque a quartel:
Ora este postal, como os anteriores, pouco tem a ver com Maduro ou com Guaido, que são apenas dois elementos de um jogo político internacional. Este postal tem a ver com o total descrédito que nos merece a nossa imprensa, cheia de "fact-checking" ou "polígrafos" da treta. 

Poderia dizer-se que nunca a imprensa esteve tão mal, mas isso seria tão errado quanto achar que essa imprensa alguma vez desempenhou o seu papel de forma minimamente independente. A libertação de recursos - em que cada cidadão seria um possível emissor noticioso - esquece sempre o pequeno problema de que estamos num mundo com 6 mil milhões de pessoas. Ora, ninguém consegue dar atenção a 6 mil pessoas, e isso corresponderia apenas a um representante por milhão...


Nota posterior (07.01.2020):
Guaido pede novos protestos, após ser reeleito (tendo sido inicialmente impedido de entrar na assembleia nacional, com Parra no seu lugar)
https://www.france24.com/en/20200107-venezuela-s-reelected-parliament-speaker-calls-for-protests

domingo, 22 de dezembro de 2019

Apanhados do Clima (3)

Um dos tópicos mais frequentes da nossa desinformação é a tanga climática.
Tanga climática, porque nas antigas previsões dos especialistas para 2020, deveríamos estar com primavera no inverno, sendo neve e chuva uma coisa rara.

Mesmo não ligando à Pirralha de serviço (ou Pipi ralha), para quem as tempestades do Atlântico são brincadeiras dos mares do sul, tendo o bom augúrio de não se cruzar com a depressão da Elsa, vieram os ventos lembrar às ventas que deveríamos estar em período decretado de seca extrema, ou coisa do género. Senão, recordemos as notícias de Outubro e Novembro: 

7 Out 2019


5 Nov 2019 


As notícias de Novembro surgiam já depois das chuvas do final de Outubro, que se prolongaram praticamente por todo o mês de Novembro e continuaram em Dezembro.
Mesmo assim ainda se leriam títulos como "Os efeitos devastadores da seca no Algarve"  já que não conseguiam arranjar outra seca para alimentar a seca de notícias. Enfim, era como se o Algarve e o Alentejo fossem afinal regiões conhecidas pela abundante chuva.

Não se pense que a Elsa trouxe água suficiente para afogar as mágoas. 
Nada disso, a infindável ladaínha da seca está aí para ficar: "Últimas chuvas que foram parar às barragens dão para menos de um mês de consumo de água no Algarve".

Mesmo que a quase totalidade do país esteja a braços com barragens a rebentar pelas costuras, obrigadas a fazer constantes descargas (caso de Crestuma, que fez transbordar o Douro, ou o caso de Ribeiradio que provocou inundações em Águeda), o problema é que afinal a Elsa ainda não encheu por completo o Alqueva, ou outras barragens algarvias.

Correio da Manhã - em consequência da tempestade Elsa:
"Inundações na Maia deixam EN14 alagada e intransitável"

Assim, sem surpresa, tal como no ano passado, depois da vinda do Leslie em Outubro, chegou a Primavera e os artistas falaram de novo em "seca extrema", mantendo a mesma desavergonhada postura, mesmo que lhes caia um nevão, logo de seguida, como aconteceu em Abril.

Nada disto é de estranhar, porque não há qualquer vergonha, e uma característica de estado de sítio ditatorial é ordenar que a mentira passe por verdade. Não faltará um esperto que venha dizer, na lógica da cebola das "alterações climáticas", que afinal a inundação apenas confirma a seca.

sábado, 9 de novembro de 2019

Nebulosidades auditivas (76)

Em Novembro de 1979, os Pink Floyd lançaram o duplo álbum "The Wall".


Em Novembro de 1989, dez anos depois, caía o "Berlin Wall" - o muro de Berlim.

Em 1990 (21 de Julho) Roger Waters organizou o esperado concerto icónico, que relacionava um muro com o outro. Icónica era também a ausência dos Pink Floyd no conjunto de artistas convidados por Waters. Se o muro de Berlim tinha caído, o muro de Waters, entre si e os restantes elementos da banda, esteve bem presente no concerto de 1990.

Deixo três vídeos ilustrativos do filme "The Wall" (1982), de temas representativos do álbum e do filme.
Another brick in the wall

Comfortably numb

Run like hell

A queda do Muro de Berlim foi um momento marcante ao ponto de ser muito badalado o livro de Fukuyama - The End of History and the Last Man, que veria o desaparecimento da tensão da Guerra Fria como um desfecho e advento de uma nova era. 

Claro que logo de seguida, apareceria a era de Wall Street, e dos mercados financeiros, reguladores de uma economia globalizada. O atentado de 2001 foi um marco do início do novo milénio.

Wall Street tinha o nome derivado de uma muralha exterior protectora, desenhada pelos holandeses na ilha de Manhattan, num mapa de 1660 da Nova Amsterdão: 
Plano de Nova Amsterdão com a muralha de Wall Sreet à direita.

O muro de Wall Street caíu e desapareceu, apenas ficando como ilustrativo nome da rua, onde está a Bolsa de Nova Iorque, e à volta da qual está o distrito financeiro (que incluía o World Trade Center).
No entanto as muralhas financeiras aí sediadas mostraram resistir aos abalos especulativos.

Como curiosidade adicional, resta acrescentar que o nome em latim para Nova Iorque é
NOVA EBORACA
nome que era usado em moedas, dobrões de ouro, de 1787:
Unum e Pluribus (1787) Excelsior - Nova Eboraca - Columbia

Este nome resulta de York, em Inglaterra ser denominada Eboraca (ou Eboracum), na sua designação latina. York é ainda a cidade onde o imperador romano Constantino foi aclamado como tal, pelos seus apoiantes, em 306, ocupando o lugar do pai na tetrarquia romana, até ficar como imperador único.

A única curiosidade é a semelhança com o nome de Évora, que era Ebora, provavelmente porque como York, originasse de um mesmo nome "eborense", de raiz celta. 
Tendo caído Nova Amsterdão para os ingleses, ficou Nova Iorque, Nova Eboraca, honrando o buraco que desse muro ficou.