segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A banca abanca no virtual

Na semana passada, em vários jornais destinados a educar as massas, surgiu esta notícia:


Ora, a novidade aqui é apenas a fonte de divulgação - o Bank of America / Merryl Lynch.
E logo vieram as referências ao filme Matrix, etc.

Dizer que há 50% de probabilidade, ou não dizer nada, sobre o que não se sabe, é praticamente a mesma coisa. Afinal também há 50% de probabilidade de adivinharmos se sai "cara ou coroa", e não é por isso que sabemos qual a face que irá sair. Pode-se dizer que há 50% de uma coisa, ou do seu oposto, para dizer que não se sabe se é uma coisa ou outra.
No entanto, dito desta forma, só serve a confusão, como é habitual.

Doutra forma só serviria para atestar o nível de águas rasteiras por onde anda o pensamento moderno, e a notícia só não encalhou no disparate completo, porque alguém mais avisado acrescentou que "mesmo que vivêssemos numa simulação, não o saberíamos".
No entanto, isso não foi dito da forma mais peremptória - que é o esclarecimento do que se entende por "realidade". Porque levantar a questão de podermos viver num mundo virtual só faria sentido depois de esclarecer o que é a realidade.

Não vou entrar aqui em muitos detalhes sobre isto, porque já o escrevi várias vezes.
Convém apenas lembrar algumas coisas...
A partir do momento em que foi popularizado o CD áudio ficou clara uma coisa:
- a capacidade sensorial auditiva para distinguir sons reproduzidos digital ou analogicamente era muito pequena, para não dizer inexistente.
O mesmo problema foi ficando claro com a informação visual, com as fotografias digitais, ou com os filmes armazenados digitalmente.
Daí até à questão da "realidade virtual" é um passo não muito grande, atendendo a que cobrindo a audição e a visão (que são os nossos sentidos mais apurados), restaria cuidar de outros nervos sensoriais - como o tacto, o olfacto, ou o paladar. Portanto, não é difícil concluir que a informação que chega ao cérebro é muito limitada, e pode ser armazenada digitalmente, o que poderá em breve viabilizar uma (quase) completa simulação de realidade alternativa... se quiserem abrir essa Caixa de Pandora.

Duke Dumont - I got U (um vídeo com exemplo de realidade virtual)

Ora, supondo que o sujeito está envolvido num dispositivo de realidade virtual do qual não se consegue livrar, só acordará dessa realidade com ajuda exterior... vinda da outra realidade.
É claro que se a simulação chegasse ao fim, ou a alguma inconsistência flagrante, ele aperceber-se-ia de que se passava algo de errado... esse aspecto é por exemplo abordado no filme Vanilla Sky.



No caso do filme Matrix a passagem para a realidade é definida pela escolha entre a pílula azul e vermelha, e não foi propriamente resultado de uma reflexão de Neo, concluindo acerca das inconsistências da simulação que lhe era apresentada... foi apenas sugestão externa.
Ora, como suposta sugestão externa, a nova realidade para a qual Neo acordou, não se distingue propriamente da anterior.... e talvez o aspecto mais significativo, e que merecia uma "sequela", é Neo não se questionar sobre a realidade que lhe foi dada pela pílula. Ou seja, de que forma é que essa pílula não o teria levado para uma ilusão de protagonismo, e para uma realidade que preferiu aceitar?

Portanto, uma sequela interessante de Matrix seria colocar Neo a concluir que todas aquelas proezas não faziam sentido, e que tinha sido a própria Matrix a definir-lhe uma escolha para se colocar fora dela, e que o Oráculo e todos os restantes personagens faziam parte desse plano da Matrix.
Mas, nem é preciso isso... basta-nos notar que Neo não se apercebe que é um personagem de um filme, e que o seu sucesso na luta contra a Matrix não resulta mais do que uma orquestração de uma Máquina que é a indústria cinematográfica, onde os heróis são acarinhados.
Um outro exemplo, igualmente bom, que ilustra esse espectáculo é dado no filme "Truman Show".

Assim, tal como no velho caso do "ovo e da galinha", o problema de averiguar uma realidade é que precisa de uma outra... e se Neo teve ajuda para se colocar fora da Matrix, ninguém o ajudou a sair dessa outra realidade para a qual acordou, ou seja, os autores do filme não o fizeram descobrir que era apenas um personagem, um herói, e que só isso lhe dava poderes tão fantásticos. Talvez porque os autores do filme também precisassem de ajuda para perceber afinal se estavam numa realidade virtual ou não... e o filme não será outra coisa que não seja um plasmar dessa interrogação.

Da mesma forma, a banca que se abanca com a manipulação de uma realidade virtual, mantendo a população num cenário tão bem construído, também terá as suas interrogações de saber afinal se não estará ela própria a ser idealizada por outros construtores de cenários, numa realidade acima de si.
E o problema que lhe dizem é que mesmo que descobrisse que sim, isso não garantiria que a nova realidade descoberta, não seria ela própria apenas uma ilusão num nível superior.

E parece que as coisas não têm resposta, presos nesta teia de ser preciso estar sempre num nível superior, para poder distinguir a realidade e a ilusão no nível inferior. Só que não é bem assim... conforme temos vindo a dizer. Há mesmo coisas que é possível saber, sem qualquer dúvida. Agora, que outros não saibam ou não percebam, pois isso é um problema que me escapa, e que não me diz respeito directamente... só diria respeito indirectamente, pela influência global.
Porém, e ainda relacionado com a evidente possibilidade de simulação computacional da informação que nos chega pelos nossos sentidos, deveriam pelo menos colocar a questão óbvia... é que nem sequer por via da informação sensorial poderíamos ter noção de infinito, e quanto ao resto - já fiz o que tinha a fazer para passar a mensagem.


domingo, 11 de setembro de 2016

Quinze anos de emergência do 911

O número 911 foi escolhido como número de emergência pela AT&T em 1968, casualmente no mesmo ano em que começaram a construção da Torres Gémeas, que colapsariam no 9/11 de 2001. 

Não houve propriamente um consenso sobre o número a adoptar, e praticamente cada país foi escolhendo o seu serviço... tendo havido na União Europeia desde 1991 a decisão de optar pelo 112 (anteriormente em Portugal, o número de emergência era o 115). 
Ainda em 1999 houve a necessidade dos EUA emitirem o 911 Act que declarava o 911 como número único de emergência, dois anos antes do 9/11. Este "911 Act" nada teria a ver com o 9/11 Act, um outro Acto da peça (que depois instaurou uma espécie de lei marcial anti-terrorista).

Passados quinze anos sobre o 11 de Setembro de 2001, os eventos continuam a ser comidos pela opinião pública, conforme lhe são servidos pela comunicação social... independentemente das coisas não fazerem qualquer sentido, começando pelas próprias leis da física.
Se a população não é propriamente muito instruída cientificamente, seria de perguntar... então mas todos os académicos e professores também se calam?

Para responder a esta questão, o exemplo do Prof. Steven Jones é bastante esclarecedor:
Prof. Steven Jones on the Controlled Demolition of WTC

O Prof. Steven Jones era já conhecido na área da geofusão, pelo que teve maior impacto.
Este exemplo é interessante, começando logo pela própria confissão de Steven Jones que não se teria interessado pelo caso até 2005, quando viu as imagens da queda do WTC 7 (que normalmente é mais ignorado).
Conforme ele diz, se a explicação do fogo dos aviões ainda iludia a queda das torres gémeas WTC 1 e 2, no caso do edifício WTC 7 não tinha havido nenhum impacto que justificasse uma queda livre!
O resto é uma pequena história da sua tentativa de divulgação (que ainda teve alguma cobertura mediática), e das pressões que sofreu depois, levando finalmente a que fosse despedido da sua universidade, no ano seguinte, em 2006.

Este exemplo será característico, porque normalmente a sociedade funciona "com cada macaco no seu galho", e a estrutura de edifícios não era o galho de Steven Jones... as suas dúvidas eram de física elementar, que ensinava aos seus alunos, nomeadamente da impossibilidade da nova "teoria das panquecas", usada pela comissão científica do 9/11, para explicar o inexplicável.
Simplesmente uma das leis mais básicas da física, a da acção-reacção, não permitia que a queda da parte superior do edifício permitisse esmagar a parte inferior, sem que houvesse uma reacção no sentido oposto... o que inviabilizava que a parte superior tivesse uma queda livre, conforme visualizado em todas as imagens.
Só que, lá está... até que o exemplo mais evidente das imagens do WTC 7 lhe tivesse sugerido isso, durante os 4 anos anteriores, tal como todos os seus colegas, não se deu ao trabalho de ver sentido nas "teorias de malucos conspiracionistas". Só depois concluiu o óbvio. 

Para mim, a questão física desde o início era mais simples... se tivermos uma estrutura de palitos, e incendiarmos alguns de um lado (o lado onde bateu o avião e tinha o combustível), ninguém está à espera que caia homogeneamente na vertical. Cairia para o lado onde falharia primeiro o seu suporte de apoio.

Só há uma situação que se ajusta experimentalmente ao que foi visto na queda das Torres Gémeas, é a situação de demolição com explosivos. Já aqui falámos da teoria do russo Khazelov que envolve até o uso de uma mini-bomba nuclear no subsolo... mas neste caso a hipótese levantada é a do uso de "térmite", com base no exame microscópico da poeira levantada, um material que é usado em demolição.

Térmite é um nome estranhamente adequado em português, porque o nome é do grego "thermos", devido ao extremo calor que permite derreter metal, mas como não usamos o "th", fica praticamente idêntico ao nome latino Térmita, designando as formigas que comem madeira, e assim também podem provocar a queda estrutural de edifícios de madeira, tal como o faz a térmite. Acresce que enquanto declinação de Termo (fim), a Térmite e as Térmitas também põem um termo às estruturas.

Bom, mas voltando à teoria das panquecas... nada melhor que esta pergunta colocada num dos sites sobre o 9/11. Afinal, qual destes fogos seria capaz de fazer colapsar um edifício?
(Só) um destes edifícios colapsou devido ao fogo. É capaz de adivinhar qual foi?
Se não reparar que o último é o WTC 7, conforme está na legenda, dificilmente alguém, por muito nabo que seja em física, diria que seria o pouco fogo que se viu no WTC 7 a provocar a queda.  

Só que (após 2001) chegámos quase ao ponto que antevia Orwell no seu livro 1984, em que uma sociedade ditatorial seria capaz de fazer as pessoas contarem apenas 4 dedos na mão, sob pena de verem o quinto dedo decepado. A mera manifestação despótica de poder não conhece limites, até que a crescente loucura leva rapidamente ao seu termo. 

Repare-se que não há nenhuma associação directa entre dizer que o WTC não caíu conforme descrito pela comissão nomeada, e dizer que se tratou de um inside job nos EUA. Ainda que todos façam essa associação, ela é resultado da filosofia arruaceira - "quem não está connosco, está contra nós".

Os EUA teriam todo o interesse em investigar uma linha de acção terrorista que não tivesse apenas lançado os aviões contra as Torres, mas tivesse ainda colocado explosivos nos edifícios. 
Só que essa sofisticação terrorista revelaria uma inoperância total na vigilância, e um medo ainda maior na população, pelo que foi a própria obstinação do governo americano que quis contar a história da maneira que contou, limitando a justificação a uma impossibilidade física.
Isso é anormal, e pouco sofisticado.
Nas operações mais sofisticadas, os órgãos oficiais calam-se, deixam correr as teorias, e esperam que haja imaginação suficiente nos seus cientistas para encontrar uma explicação natural, que não os envolva na causa. Depois, basta escolher a que reúna o maior e melhor consenso, e que ao mesmo tempo os ilibe por completo. Este é o modus operandi confortável de quem se senta no poder, e tem alguma inteligência operacional.

Não foi este o caso, aqui parece que os mandantes optaram por cortar um dos seus dedos, mostrando que sendo capaz de se sacrificar daquela forma, estariam dispostos a muito pior contra os seus inimigos.

Aditamento:
Este apontamento foi concentrado no WTC, mas há detalhes mais evidentes até no que se passou no embate no Pentágono, e na queda do voo 93... situações em que praticamente os aviões desapareceram sem rasto. Uma associação de pilotos argumenta que o embate do Pentágono só é explicável por um míssil, já que seria praticamente impossível fazer um embate horizontal, seria como se estivesse a aterrar, não haver registo de embate das asas ou dos motores, ou pior, a caixa negra apontar uma altitude de 300 metros, ao embater no solo (a explicação é ser o registo de um outro voo, que fez uma rasante). E, é claro, no caso do embate no Pentágono não há corpos de passageiros, etc.
No caso do voo 93, também não foram encontrados corpos (ou como disse o médico legista chegado ao local, não havia um pingo de sangue), nem vestígios significativos do avião, excepto um buraco no solo (ou como dizia o mesmo médico, parecia que tinham aberto uma vala com um bulldozer e colocado ali lixo aeronáutico).
Portanto, nesses casos pode colocar-se até a dúvida de terem existido vítimas (há mesmo quem argumente que os passageiros do vôo 93 teriam desembarcado em Cleveland), algo que é completamente diferente do que se passou no WTC 1 e 2.
Um vídeo sobre os "jumpers" com o título
fala de explosões que nada tiveram a ver com o embate dos aviões, uma das quais, no lobby, teria ocorrido antes, e começando por mostrar o vídeo do primeiro embate, notei que nem sequer o avião aparece nessas imagens... talvez por serem de má definição, ou talvez porque, como muitos outros afirmam, nem sequer tenham existido.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Nebulosidades auditivas (43)

Entre 27 de Outubro e 17 de Novembro de 2005, ocorreu uma revolta generalizada nos subúrbios de grandes cidades franceses, especialmente Paris, que redundou num saldo de quase 9000 automóveis incendiados. As primeiras notícias, relacionando esses incêndios com a morte de dois jovens numa perseguição policial, foram servindo de rastilho a outros incêndios, até ao ponto em que foi assumido que haveria censura na imprensa, para evitar esse estímulo de acção-consequência.

Apesar de isso não interessar à geração anterior, às gerações seguintes compete o papel de questionar e desafiar o legado. Quando a sociedade instalada fecha portas às novas gerações, limita ou despreza a sua criatividade, o mais natural é que surjam rupturas acentuadas e o inconformismo juvenil seja captado por outras velhas causas, também inconformadas com o resultado actual.
Perante esta pressão latente, a sociedade ocidental inventou, especialmente nos últimos 50 anos, uma cultura pop, destinada a absorver como uma esponja as vontades e aspirações da malta mais nova. Trata-se de uma esponja, porque se destina a conter as nódoas num espaço cultural que não afecte o funcionamento principal da sociedade.
Um caso paradigmático disso é a música pop, que praticamente tem sido a única manifestação onde uma criatividade simples, sem necessidade de grande conhecimento, permite a composição de obras com algum impacto social. É assim que aparecem alguns movimentos musicais capazes de fazer crer aos mais novos que têm algo a dizer. e que os mais velhos os escutam.

A música seguinte, Animals, de Martin Garrix, um jovem DJ holandês, teve algum sucesso e o vídeo ilustra uma certa cultura de insatisfação juvenil, capaz de actos de simples vandalismo, simplesmente porque sim... por algum instinto animal, capaz de agregar insatisfações num acto irracional e gratuito.
Se o vandalismo ocorrido em França em 2005 poderá ser analisado à luz de uma má concepção das cidades, com guetos desfavorecidos, autênticas reservas animais onde eram colocados, etc... o ponto mais importante é que isso não é razão exclusiva, e a qualquer momento é fácil encontrar entre os jovens uma vontade de se afirmar, que poderá consistir simplesmente em destruir o legado anterior, quanto mais não seja para ganhar um espaço para si mesma. 
A situação só não é mais caótica, porque a geração mais velha tratou de assegurar processos de vigilância de tal forma invasivos e indetectáveis, que a geração mais nova vai sendo colocada num parque infantil até aos 30 ou 40 anos, e depois já é tarde demais para se armar em jovem...

Martin Garrix (Martijn Garritsen) - Animals

Ora, essa vontade de destruir ou mudar "porque sim", independentemente do legado da geração anterior ser bom ou mau, apenas para marcar uma individualidade, para marcar uma diferença face ao anterior, terá desde sempre preocupado quem procurava construir uma sociedade mais justa, para depois a ver destruída num espasmo irracional, ou pior, num espasmo justificado por raciocínios idiotas.

Uma boa metáfora deste problema é ilustrada nos ensinamentos budistas, onde é dada como tarefa ao jovem monge construir um belo jardim de pedrinhas coloridas, algo onde despende bastante tempo e paciência, para depois vir o mestre e dar um pontapé na coisa... de certa forma invertendo o processo!

Isto ilustra bem o mundo onde vivemos, onde construir é difícil, requer tempo e paciência, e onde destruir pode ser conseguido com um simples pontapé.
Invertendo as coisas deste mundo, construir seria fácil, como num passe de mágica, e destruir isso sim seria difícil, requerendo tempo e paciência.
Ou seja, o inverso deste mundo seria um mundo de magia... muito do agrado de espíritos jovens, ao estilo Harry Potter. Mas será que esse mundo de magia, de facilidade de construção, e dificuldade de destruição, seria mais benigno? 
É fácil entender que não... porque nem todo o esforço de construção tem propósitos benignos, pode tratar-se de construção de uma prisão intrincada, e sob esse aspecto, agradeceremos então que a prisão seja de fácil destruição. Também por isso, na nossa idealização de mundos de magia obtemos fadas versus bruxas, ou deuses versus demónios.
Ou seja, ainda que pretendessemos um equilíbrio no esforço de construção versus o esforço de destruição, seria antes preciso esclarecer a questão fundamental do que seria positivo ou negativo como construção... e até que isso fique esclarecido, parecerá mais sensato ser mais fácil destruir do que construir.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Méee (4) Ecce Echelon

Houve Julian Assange, houve Edward Snowden... mas então, e Carlos Coelho?
Para quem não se lembra do eurodeputado do PSD, deixamos aqui a sua importante iniciativa de divulgar o 112 como número de emergência europeu:

Quem observar o vídeo, pode reparar no que é dito (no instante 1:09)
No anúncio, diz-se que ligar para o 112 "funciona sem rede".
Segundo Carlos Coelho, a existência de rede é apenas um detalhe sem importância, e quando se trata de "chamadas de emergência", podemos ficar descansados, que estamos sempre ligados! Mais um pouco, e Carlos Coelho diria que nem era preciso bateria ou até telemóvel.
Qualquer desmistificador de serviço (dos muitos comentadores empregados pelas televisões, ou seja, um moço de recados para acalmar o povo), diria que se trata de um lapsus linguae, e o que se deverá entender é que o sistema de emergência funciona usando outras redes... mas não é isso que é dito! 

Porém, Carlos Coelho vai mais longe nesta questão do 112... lembrando que a 11 de Fevereiro (ou seja, 11/2) se celebra o "Dia Europeu do 112":

Quererá pois Carlos Coelho sugerir que a 11 de Setembro se comemora o "Dia Americano do 911?"
Não parecerá "politicamente incorrecto" usar a figuração do 11/2 na Europa, quando nos EUA o número de emergência 911 se liga directamente ao atentado de 11 de Setembro de 2001?

A coisa poderia ficar por aqui, e seria fácil criticar Carlos Coelho pela falta de bom senso político.
Só que Carlos Coelho não está propriamente desligado deste assunto...

Foi ele que chefiou a equipa da Comissão Europeia que investigou o programa ECHELON, onde os serviços secretos de Sua Majestade (UK, Canada, Australia, Nova Zelândia), se coordenavam com os serviços secretos da pródiga ex-colónia (EUA), para controlar todas as comunicações internacionais. 

Hoje em dia já poucos se lembram do ECHELON, e fez-se de conta que Assange ou Snowden vieram depois dar novidades... que praticamente estavam já todas escarrapachadas no relatório da Comissão chefiada por Carlos Coelho.

O relatório sobre o ECHELON é aprovado no Parlamento Europeu quando?   
- No dia 5 de Setembro de 2001, ou seja, menos de uma semana antes do 9/11.

Conforme Carlos Coelho se lamenta (texto citado em baixo), se tudo estava pronto a 5 de Setembro de 2001 para divulgar publicamente o relatório - que culpabilizaria o ECHELON de ser um efectivo esquema dos EUA espiarem o mundo inteiro, inclusive os aliados europeus. Porém, a burocracia do Parlamento Europeu achou que seria altamente desapropriado levantar essa acusação na semana seguinte, dado o clima de terror instalado a 11 de Setembro.

Portanto, o relatório sobre o ECHELON realizado pela comissão de Carlos Coelho parece que só voltou a ser mencionado em 2014, conforme se pode ver no texto assinado pelo próprio... mesmo assim um texto que passou completamente submerso e fora de qualquer menção em noticiários, principais ou secundários.
Conforme salienta Carlos Coelho, se em 2001 o controlo "já estava como estava", passados 15 anos só é de esperar que esteja muito "pior", dados os avanços tecnológicos.
Portanto, podemos ter todas as comentadeiras televisivas a fazer o "méee..." habitual, acreditando que os botões dos aparelhos (de que não entendem patavina) só fazem aquilo que mandamos fazer.
Saberão agora que o FireChat permite o envio de mensagens, mesmo quando são desligados os servidores de internet, algo que estariam antes prontos a classificar como impossível. Da mesma forma dirão que o telemóvel emitir sem rede é coisa de lunáticos de "teorias de conspiração", e enquanto moços de recados, estão assim prontos a aviar os fregueses, orgulhosos do seu papel ridículo no sistema, só por estarem dentro do balcão.

Porém, convém não esquecer que é ditado antigo dizer-se que "as paredes têm ouvidos", e nada há de novo nesta vontade de espiolhar, e na capacidade de o fazer, acima do que a população tem conhecimento. Só que uma coisa é ter ouvidos, outra coisa é ter cabeça para distinguir o ruído da melodia, e isso não se aprende mais pela evolução da tecnologia.

Segue o discurso de Carlos Coelho, publicado a 5 de Novembro de 2014:

_______________________________________________________________________
The Echelon Affair: A History of the Investigation and its significance today

I would like to Congratulate and thank the European Parliament Research Service for organising this event and for allowing me to be surrounded at this table with good friends.
There are times when the European Parliament is able to be strong enough and united enough to stand up for european values and to be ahead and not behind.
We asked ourselves a lot of questions:
  • 1- After the falling down of the Berlin wall and the end of the cold war, could the USA switch the use of IT Intelligence Network from military targets to economy spying?
  • 2- Could our allies be spying on us, undermining fair trade and honest competition and collecting a huge amount of data targeting innocent citizens, despising all the core values on Privacy and Human Rights? 
  • 3- Could a member of EU (UK) be an active part on a spy network against other European countries?
And the answer to all these question was yes.

The temporary committee worked hard and well.
We had a good team of members, a very good rapporteur - Gerhard Schmid, who was a Vice-President of the EP at the time, an experient staff led by David Lowe and the cooperation of all EP services such as STOA, that provided an excellent Study, in which we can corroborate the expertise and knowledge of Mr Duncan Cambel.

The Study in questioned has showed us that the Echelon Network (USA, UK, Canada, Australia, New Zealand) were intercepting:
  • - Telephone calls (including mobiles)
  • - fax communications
  • - e-mail messages
  • - radio communications
  • - satellite communications
  • - submarine cables
  • - optic fibre cables
According to William Sandeman (former Director of NSA and former Deputy-Director of CIA) we know that, in 1992, 22 years ago, Echelon services were able to intercept 1 million of communications each 30 minutes, that means 48 million each day!

With the evolution of technology we can imagine how many communications they can intercept nowadays.

What is happening now it is not different from what we discovered at the time. What has changed is no such more that the advance of technology, the scale of interception and the huge amount of data collected ....

Let me share 3 short stories about our temporary committee on Echelon:

1- Not all americans tried to deny what was happening:

James Woolsey, former Director of CIA, whom we met in Washington, wrote in The Wall Street Journal on 17 March 2000, and I quote "Yes, my continental European friends, we have spied on you. And it's true that we use computers to sort through data by using keywords".
And when we met him personally, he confirmed everything he had written before.

2- USA at the last time decided not to speak /receive the ECHELON European Parliament Delegation.

On the exactly same day we were departing Brussels on our way to the United States, we received the information that all the scheduled meetings had been cancelled:
  • - CIA Director
  • - NSA Director
  • - State Department
  • - Senate Select Committee on Intelligence
  • - Department of Justice
  • - Fort Meade
  • - National Intelligence Council Department of Defence
  • - Secretary for Trade Development
  • - Advocacy Centre
Meetings scheduled by the Clinton Administration were suddenly cancelled by the new Bush Administration. 
It was impossible not to conclude that they had a lot to hide...
On such a short notice, already in the States, one of the few meetings we could arrange was in Congress, at the House Permanent Select Committee on Intelligence, with Porter Goss. He was the Chairman of the special Committee assuring the control and overview of Intelligence Services. Curiously some years later the same Porter Goss would be CIA Director.

3-  Echelon Report was never published by EP

Neither the 44 Recommendation approved by the plenary. All the information is available somewhere inside the EP archives and websites. But the EP's Bureau 5 to 5 votes did not allow the publication on the Report, as it was regularly the procedure at the time.
One single and weak explanation: Our report was approved in Strasbourg 5th September 2001 one week before the terrorist attack.

EP Bureau, which took its decision after 9/11 probably decided not to hurt our american friends and ironically the first time EP gives publicity for our work is now with this initiative from the EP that I welcome and thank specially to Iolanda Mombelli and Franco Piodi.

We should not deny the facts and hide our work on behalf of our transatlantic friendship.
And the facts prove that our silence did not help to make things better.
The reality we are facing now is much worse the one we faced 14 years ago.

Thank you very much!



sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A cerca de Mesquinhos e Sacanas (2) Doce lar anjinhas

A propósito do comentário de João Ribeiro no texto anterior sobre "Mesquinhos e Sacanas", que trata da polémica sobre a origem das laranjas em Portugal, fui encontrar um esclarecimento dado por José Tavares de Macedo, em 1855. Ao bom jeito sacaninha do mesquinho, vemos que a questão passou até por distinguir laranjas "doces", de laranjas "amargas"... 
Mesmo assim, José Tavares de Macedo encontra documentação da Idade Média (1330) que mostraria o conhecimento de laranjas doces, então descritas como "limões doces como açúcar"... e se questionarmos como era conhecido o açúcar, pois isso é ainda outra história amarga, que mostra que não houve limites à imposição de restrições à humanidade, por parte de sacanas mesquinhos. 
Em particular, cita o Roteiro de Vasco da Gama, dizendo que chegados a Mombaça em 1498 teriam sido presenteados com duas almadias... "que trouxeram muitas laranjas, muito boas, melhores que as de Portugal".

Algo que parece razoavelmente inacreditável seria fazer crer nos Séculos XVIII e XIX que não haveria laranjeiras em Portugal, e que só começariam a ser cultivadas no início do Séc. XVII, havendo-as antes desde o tempo dos árabes... pelo menos!

Donde surge então esta "confusão"?
Na referida obra, publicada pela Academia de Ciências em 1885:


(pag. 123)

onde se diz a certa altura:
Foi algum tempo opinião geral, e ainda hoje é crença vulgar entre nós, que pela primeira vez veio a larangeira à Europa trazida pelos Portuguezes da China a Portugal. Confirmava-se esta crença com um passo, mal entendido, das obras ineditas de Duarte Ribeiro de Macedo [1], Acha-se hoje demonstrado o erro desta persuasão. Entre os Auctores que tem tractado desta materia é Galesio, o que, quanto nos consta, mais cabalmente, e com maior exactidão a tratou [2].
Onde o comentário [1] diz o seguinte
As palavras de Duarte Ribeiro de Macedo, a que nos referimos, são as seguintes: «D. Francisco Mascarenhas trouxe a Lisboa do anno de 1635 uma larangeira que mandou vir da China a Goa, e d'ahi para o seu jardim de Xabregas, onde a plantou. Se então soubera a producção dcsta nobre planta, e a riqueza que nella franzia á sua patria, tivera razão de cuidar que fazia um grande serviço ao Reino, talvez mais util, que o que lhe fizerão os primeiros descobridores e conquistadores do Oriente.» Obras Ineditas de D. R. de M. Lisboa 1817. p. 118-119.

Estas palavras que parecem confirmar a crença vulgar, illudirão de tal forma o estimavel Auctor da Memoria sobre a Agricultura Portugueza, impressa no vol. V. das Economicas da Academia R. das Sciencias, que "escrevendo da época decorrida desde o reinado de D. Manoel até ao do Senhor D. José" julgou poder affirmar que "as laranjas.. . começarão entre nós a cultivar-te no curso desta época. D. Francisco Mascarenhas (continua o mesmo escritor) em 1635 mandou vir da China a Goa, e daqui ao seu jardim de Xabregas as primeiras arvores de espinho que entrarão na Europa".
e onde a citação [2] é apenas a referência ao "Traité du Citrus" (Georges Galesio. Paris 1829).

José Tavares de Macedo invoca mesmo escritores árabes, para mostrar que, segundo Abu Zacaria, a laranja se cultivava em território nacional no Séc. XII, concedendo apenas que nessa altura se trataria de laranja não doce.
Acresce ainda uma referência do navegador Cadamosto (explorador associado à descoberta de Cabo Verde), que escreve uma anedota sobre a abundância de laranjas mesmo na Ilha da Madeira... tendo sido assim levadas logo no tempo da colonização.

Ora apesar deste esclarecimento ter sido dado, e bem explicado há mais de 150 anos, sem grandes margens para dúvidas, vemos que a versão que permanece ou volta a aparecer, sempre, é a mesma que existira antes - ou seja, de que as laranjas teriam vindo da China com os portugueses. 
Os sacanas são teimosos.

Nota: Tudo isto faz-me lembrar uma citação que é a atribuída a Goebbels sobre os ingleses, ou sobre a vantagem de manter uma grande mentira:

The English follow the principle that when one lies, 
it should be a big lie, and one should stick to it. 
They keep up their lies, even at the risk of looking ridiculous.

Ora, conforme temos visto desde o 11 de Setembro de 2001, quanto maior é a dimensão de uma mentira, mais dificilmente as pessoas acreditam que pode haver uma conspiração tão grande que sustenha tais mentiras, e portanto, por uma simples questão de facilidade de vivência, é mais cómodo assumir que se trata de verdade.
Em 2003 acreditavam de igual modo nas versões oficiais do 9/11, e no pretexto da Invasão do Iraque, pelas armas de destruição massiva. Passados 13 anos, aceitam as dúvidas sobre as armas iraquianas, até porque o assunto chegou a inquérito condenatório, e a conspiração ficou oficial, mas nem se admite qualquer teoria de conspiração sobre o 9/11, porque não é oficial.
Ou seja, não se aprende nada! Os mesmos continuam a acreditar apenas no que é oficial, seja num sentido de conspiração ou num sentido oposto. 
Há muitíssimo mais provas de que a versão oficial do 9/11 é um total embuste, muito mais contundentes e claras quando comparadas com as armas iraquianas... mas quando se alinha pelo coro noticioso das "telenovelas das 20h00", a que chamam "telejornais", apenas interessa o coiro oficializado. 

sábado, 13 de agosto de 2016

Língua d'Ó (A2)

Letra A (continuação)

01. aparecer ... a parecer (ver parecer: para ser) [parece que aparece, só para contar]
02. aparentar ... a parente (ver parente: par entes) [par de seres]
03. apartar ... a partir (ver partir) [separar em partes] apartes: à partes
04. apertar ... aperto: a perto (ver perto) [ficar demasiado perto]
05. apenas ... apenas ser: a pé nascer (mínimo)
06. apesar ... a pesar (ver pesar) [pesando com isso]
07. aplicar ... aplica: a pelica (usar uma pele) (ver duplica) [usar duas peles]
08. apoiar ... apoio: a poio (ver pôr) [há a poia, mas também há o poio]
09. apontar ... aponta: a ponta (ver ponta) [no sentido da ponta]
10. apostar ... aposta: a posta (ver pôr) [a parte posta... como aposta]
11. apreciar ... a pré cear (ver cear) [antes de comer a ceia]
12. aprender ... a prender (ver prender) [prender a atenção]
13. apresentar ... apresente: a presente (ver presente: pré sente) [a presentear]
14. apressar ... apressa: a pressa (ver pressa)
15. apurar ... apuro: a puro (ver puro) [ficar puro] (apuros: entre puros)
16. aquecer ... a que ser [no gelo, aquecer para ser, para não morrer]
17. aqui ... a qui (cá), aquilo [aqui-lo: trazer-lo aqui]
18. aquém ... a quem? (ver quem) [pergunta retórica, no sentido da resposta: ninguém]
19. arranjar ... a ranger (ver ranger) [mudar com algum ranger de dentes]
20. arrasar ... arraso: a raso (ver raso) deixo no solo (rás) [notando que sol é Rá]
21. arrastar ... arrasto: a rasto (ver rasto) pelo solo (rás) deixa rasto
22. arre ... a ré (ver rasto) exclamação "para trás" [arre burro de Mação... carregado de feijão]
23. arredar ... a ré dar : dar lugar atrás (ré) [fui arredado: fui à ré dado]
24. arrumar ... a rumar (ver rumar) [dar rumo às coisas]
25. assar ... assara: a sara (ver sarar) [com sentido de saber (ou sabor)]
26. assim ... a sim (ver sim) [com sentido de sim]
27. assentar ... a sentar (ver sentar
28. assustar ... assusto: a susto (ver suster
29. atacar ... ataco: a taco (dar com taco)... amassar (usar a maça, para fazer massa)
30. atentar ... atento: a tento (ver tentar)... atenção (a tensão)
31. atender ... a tender (ver tender) [que pode tender para um pedido]
32. aterrar ... aterra: a terra (ver terra) ... aterrador: a terra dor [dor de enterrar]
33. atingir ... atinge: a tinge (ver tingir) tinta ou sangue que tinge
34. atirar ... a tira (ver tirar, retirar) visando tirar ou retirar
35. atrair ... a trair (ver trair: com outra ir)
36. atrás ... a trás (ver trás) na traseira, com parte moral: a traz : traz quem fica atrás
37. atravessar ... através (ver trave, entrave) passar uma trave que barra o caminho
38. aura ... ao Rá (Sol), aurora : aura hora (ora ao Sol)
39. autor ... ao Tor (Touro, Thor)
40. autorizar ... autorizo - pelo autor do equilíbrio (iso) [em oposto: avacalhar]
41. auxiliar ... ao si liar (ligar) [auxilia, ligando a si]
42. avaliar ... avalia: a valia (ver valer) mais valia - mais que vá ligar (ver ligar)
43. avançar ... avancei: a vã sei; avanço: a vã sou [?? no sentido... vã glória: vangloriar]
44. avariar ... a variar (ver vários) [?? problemas com o que varia do normal]
45. ave ... a vê (ver ver)
46. avisar ... a visar (ver visar) ... avisei:  a vi, sei!
47. avós ... a voz (ver vós, voz) ... a vós, a voz dos avós.
48. avivar ... aviva: a viva (ver viver
49. azeite ... a sei te [??o azeite fica por cima, ou unção?]
50. azul ... a sul [sul meridional é sol ao meio-dia; e à noite, pelo azul se pode saber o sul]

Bom, a tarefa continua... haveria muitos outros óbvios, e facilmente se percebe uma separação "a-qualquer-coisa", ainda que possam funcionar apenas nalgumas conjugações verbais (uma formatação gramatical deverá ter sido posterior). 
Os menos óbvios têm as dúvidas e especulações inerentes. 
Por exemplo, já falei bastante sobre Anas e Anos, aqui deixaria apenas isto:

51. ana, anais ... a nas(cer), renascer, periódico (anas = luas) (ver nascer)
52. ano, anus ... a no(vo), a nós (ver ), a nus (ver )
      [ano solar, Ianus, por contraposição a ana, lunar, Diana, o período de 28 dias]
      [tempo solar, Dia, Rá(budo) por contraposição a Ré(gras) lunar]

Havendo muito mais, perder-se-ia mais tempo só a falar de anos e anas. 
Interessa que palavras com "nas" (cuidado ao ler rapidamente) estão ligadas ao nascimento, pelo menos todas as que usam "nas" como prefixo.
Continuo razoavelmente convicto que a língua é um produto feminino, feito por alguma genial matrona, ou bela donzela, de uma sociedade matriarcal. Afinal, não seria o cuidado materno a definir de início a linguagem da sua prole?
Essa sociedade matriarcal seria essencialmente tribal, e terá perdido, ou cedido voluntariamente, o seu poder aos homens, aquando da "revolução neolítica", pela sedentarização agrícola.
O nome que nos ficou: Amazonas... ora, aí estavam as mázonas
A mázona principal, talvez Semiramis, terá cedido o poder a Ninus, a meninos, provavelmente filhos, e não ao pretenso marido... de uma amazona. A última zona má, ou a má zona, amazona, teria sido a Cítia (parte da Rússia actual), que terá permanecido em "estado cítio", pois Tomiris ainda fez Ciro perder a cabeça.

Passando a sociedades agrícolas, patriarcais, o tempo passou a ser marcado não pela Ana (lunar), mas sim pelo Ano (solar). Os sumérios usavam Anu como deus celestial ou solar, enquanto os egípcios chamaram Rá. Os romanos teriam Jupiter (Ju-pater) ou Jove (chove), e os gregos Dia ou Zeus (céus), como divindade principal.
Na nossa língua parecem ter ficado registadas as variantes, já mencionadas. Este pequeno discurso para salientar uma observação constante. Se temos o "Sol" no céu, temos também o "solo" na terra. Se entendermos "hora" ou "ora" como "o Rá", o Sol egípcio, podemos entender "raso" (ou "rasto") como Rá só por terra. Ou ainda um Anu solar, com um anular: A nú.
Onde uma coisa liga a outra? - Na seca, num deserto, onde o sol queima o solo, arrasa colheitas, deixando a terra a nú.

É claro que, encontrando na língua portuguesa significado para sílabas básicas, o resto poderiam ser concatenações naturais e outras meras coincidências forçadas. 
No entanto, as concatenações naturais não me parecem ter origem latina, embora bebam algumas vezes da mesma fonte (na minha opinião, mais em sentido inverso), e as outras incidências são demasiadas para serem só coincidências. Mas haverá certamente coincidências, desfeitas no passado, para se reunirem no futuro.
Apenas para terminar, completando 60 palavras (120 na letra A), ficam oito bem mais dúbias:

53. analisar ... anal (periódica) iso (igualdade, una pela semelhança)
54. antre ... forma antiga de "entre" (em três) - realçando "an" como "em"
55. antro ... an (em) tro (outro), em outros (ver outro) [entre outros]
56. anel ... em elo (ver elo)
57. ar ... fonema base, vago como o ar (simples movimento ou existência)
58. arder ... ardeu: ar deu, soprou para fazer fogo [ardeu: ar que se lhe deu]
59. arte ... ar te : algo para ti, como em artigo: ar tigo (que te tem como foco).
60. árvore ... arvorar : ar vorar (alimentar de ar)


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Língua d'Ó (A1)

Letra A
(a: prefixo com o mesmo sentido da preposição a)

01. abaixar ... a baixar (ver baixam: vai chão)
02. abordar ... a bordar (ver borda, bordo)
03. acabar ... a cabo (ver cabo, cavo)
04. aceder ... a ceder (ver ceder: se der)
05. aceitar ... a ceita (ver seita)
06. acidente ... a cedente (ver ceder: se der)
06. acima ... a cima (ver cima)
07. aconselhar ... a conselho (ver conselho: com selho, com selo)
08. acontecer ... a com tecer (ver tecer: te ser)
09. acorda ... a corda  (ver corda)
10. acreditar ... a creditar (ver creditar: crê ditar, cré ditar)
11. acrescer ... a crescer (ver crescer: crês ser)
12. adequar ... ad equar, há-de ecoar (ver ecoar: eco - o mesmo)
13. adorar ... ad orar, há de orar (ver orar, horar)
14. adormecer ... a dorme ser (ver dormir)
15. afazer ... a fazer (ver fazer)
16. afectar ... a fé estar, a fé tocar
17. afiar ... a fiar (ver fiar)
18. afinar ... a fino (ver fino)
19. afirmar ... a firmar (ver firmar, firme)
20. agarrar ... a garra (ver garra)
21. agora ... a-ora, à hora
22. agradar ... a gradar, (bom grado, ver graça)
23. aguardar ... a guardar (ver guardar)
24. ali ... a li, a vi
25. aliar ... a ligar (ver ligar)
26. alinhar ... a linha (ver linha)
27. amanhã ... a manhã (ver manhã)
28. amanhar ... a manha (ver manha)
29. amigo ... a-migo, migo: foca em mim.
30. amostra ... a mostra (ver mostra)

Incluo aqui apenas 30 exemplos que vão do "AB" ao "AM", podendo dar algumas explicações adicionais:
  • Abaixam é claro, e "baixam" parece ser um "vai chão", onde o chão condiz com ir baixo. 
  • Abordar, é pelo bordo, pelas bordas. Abordar alguém não é impetuoso. Uma abordagem naval é também por uma das bordas, dos lados, do navio.
  • Acabar é o mesmo que "levar a cabo", terminar. Numa tarefa rural pode ser entendido "acabei" reduzindo "a cavei".
  • Aceder, para ver se cede. Ceder no sentido "se der", ou seja, se algo "se der" de si, então vai "ceder".
  • Aceitar, no sentido de ceder à "ceita". É um aceitar forçado por uma "ceita".
  • Acidente, pelo latim "ad cadere", um certo há-de cair, ou há-de ceder.
  • Acima, em cima, sendo "cima" mais complicado...
  • Aconselhar, onde o conselho pode ser visto "com selho". Este "selho" ou "senho" liga-se a "sé", ao centro, ou ainda à "senha" ou "selo", à chancela.
  • Acontecer, onde o "com tecer" resulta de "tecer" algo. Acontecido será algo tecido, urdido, e não teria o significado casual, mas sim de um complot.
  • Acordar, ou concordar, vêm de uma união como numa corda. (ver acordar)
  • Acreditar, onde crédito é dito pela cré (pelo giz, escrito), ou pelo crê (pela fé, pelo fiar).
  • Acrescer, onde foneticamente o crescer é um "crês ser", no sentido de que crês ou queres que será. A criança "crê ser" homem.
  • Adequar, no sentido de ficar igual, ecoar como num eco. O prefixo "equo" resultará deste "eco".
  • Adorar, onde o prefixo latim "ad" (em direcção) é um "há-de", neste caso "orar", relacionado com oração religiosa, às Hora, ao Dia (Zeus, Jove, Rá).
  • Adormecer, no sentido dormir, "a dor me ir", ou "a dor me ser", como maneira dormente de evitar a dor.
  • Afazer, onde "a fazer" se liga "a faz ser" (transforma em existir).
  • Afectar, o "c" pode mudar o sentido de a-fé-tar, para a-fé-tocar. O que "afecta" será o que "a fé toca". 
  • Afiar ou Afinar, no sentido de fazer uma ponta fina como um fio.
  • Afirmar, tornando firme, como fala de um falo que é firme antes de (v)irme.
  • Agarra, como a garra, uma garra que prende.
  • Agora, em castelhano ahora, como em a-hora, a-ora, à hora (tempo, o-Rá: o Sol).
  • Agradar, a "gradar", como em "bom grado".
  • Aguardar, a "guardar", ou "aguar-dar", guardando água ou gado.
  • Ali, no sentido de "a li", a um sítio que li, onde entendi o que vi.
  • Aliar, ter como "aliado", onde "liado" é redução de ligado.
  • Alinhar, na "linha", onde li a linha, que vi como vinha.
  • Amanhã, pois a manhã define o próximo início de dia.
  • Amanhar, usar uma manha, uma técnica.
  • Amostra, objecto que mostra.
Outros exemplos... mais dúbios, e não derivando apenas da preposição "a":

31. abrir ... aferir ... a ferir (ferir é abrir)
32. aberto ... a ver tu (tudo)
33. abrigar ... a briga (ver briga, citânia) abrigo na citânia
34. abundar ... a bom dar
35. aço ... asso - (aço é cozinhado no forno, tal como o assado) asso temperado / aço temperado
36. acção ... há que são: existem os que são, os que agem
37. acham ... a chão (ver chão) encontrar o que está no chão
38. adição ... há-de içam - juntar para içar algo
39. advertir ... há-de verter (ver verter: ver ter)
40. agir ... a gir(ar), giro, que roda sobre mesmo
41. agudo, agulha ... a "gu" (ver quo, gume, cume
42. ainda ... a ida (algo na ida)
43. ajudar ... a Ju dar (Ju - chu, chuva; Ju: Jupiter - Ju pater) dar a Jupiter.
44. ala ... a lá (alar significa também içar, ter asas, alado)
45. alcançar ... ale cansar (ver cansar) ale (ir) até cansar
46. alegria ... ale cria (ver crer) (?)
47. além ... al-em : a lá (após) em (aqui).
48. algo ... ale "gu" (ver gume) alego algo
49. alguém ... al-quem (ver quem) a lá de quem.
50. alimenta ... ali me entra (?)
51. alterar ... al-tirar (tirar algo, ver tirar)
52. alto ... além (al) de ti (tu).
53. amor ... a mor (a maior)
54. amo, ama ... ama (a má), amo (a mó, que moi) (?)
55. amarelo ... amar elo (ver elo)
56. amarrar ... a marrar, a me agarrar (ver garra)
57. ambiente ... ambi-ente, ambos (em bi) entes (ver ente: em ti)
58. ambíguo ... ambi-quo, ambos (em bi) "gu" (ver quo, cume, gume)
59. ambos ... em vós
60. ameaçar ... a me assar (ameaça de assar alguém)

Como é facilmente observável, esta tarefa é "enorme", prontamente criticável, e dificilmente justificável... mas pessoalmente muito interessante. Estão aqui alguns exemplos que encontrei, usando uma lista de palavras, obviamente muito incompleta... nem me interessa que seja completamente exaustiva, sob pena de perder qualquer ideia de a completar. 
Quem quiser experimentar, contribuir, ou criticar, esteja à vontade!

Etimologias vindas do latim ou do grego... todos podemos consultar etimologias online
Dou um exemplo com ameaçar, que supostamente virá do latim minacia (ameaça). E daí? 
Não será mais interessante ler "ameaçar" como "a me assar"?
Afinal no tempo de gregos e romanos, poderia não haver perigo canibalesco... mas e antes?
Ok. Depois pode ser criticado ler "ameaça" como "a me assa", mas "a ti assa" não ter ligação... só que não é bem assim, temos "atiçar" como redução de "a ti assar".
Isto já entra na filosofia... se for para me assar é "ameaçar", se for para te assar é só "atiçar"!
Que tal?
Em resumo, para malta "séria" que não "se ria", nunca seria nada. 
Por isso, este Língua d'Ó, conforme falado nesse "estado da arte" é um certo linguado, que não é nenhum "french kiss", e tendo aroma, ou a Roma, do passado, usará mais aromas do futuro, que não saem de nenhuma etimologia... são apenas "espíritos santos de orelha", que não habitam em livros.
Livra... não prendem um livre em livro!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A cerca de Mesquinhos e Sacanas

Indo directamente ao assunto, diz-nos Pinho Leal, acerca da freguesia de Mesquinhata (Baião):
O nome d'esta freguesia provém de "mesquinhade" - significa - povoação dos servos adstritos a certa propriedade (meskinos) que eram com razão, considerados infelizes pela sua triste posição na sociedade, que pouco se distinguia dos escravos. 
É a palavra árabe masquinat, que significa, lugar da pobreza. Deriva-se do verbo sácana, que na oitava conjugação, significa - ser pobre, indigente, necessitado, etc. 
O senhor da mesquinhata, quando a vendia, ou trocava, passava-a ao novo possuidor com os seus meskinos, ou servos de gleba. Ainda havia outra barbaridade na legislação gothica - a condição de meskino era hereditária! O filho do meskino, também o era, e todos os seus descendentes. 
Na Europa setentrional ainda há d'estes servos de gleba; mas o actual imperador da Rússia, areou contra os senhores, e tem quasi aniquilado esta bárbara e anacrónica instituição. 
Notemos porém que os nossos primeiros reis, e particularmente D. Afonso I, D. Sancho I, D. Afonso III, e mais do que nenhum, o grande rei D. Diniz, trataram de quebrar os grilhões dos meskinos, e quarctar a prepotência e extorsões dos grandes. 
Depois de D. Diniz, D. Pedro I, acabou com quasi todas as mesquinhatas, e D. João II as aboliu, de facto e direito, por uma vez.

citando o 5º Volume do Portugal Antigo e Moderno (edição de 1874, pág. 199).
Aliás esclarece mesmo com a definição:
MESKINO: portuguez antigo - o servo que trabalhava nas herdades do senhor donatário. Era synonimo de infeliz. Hoje diz-se mesquinho. É a palavra árabe masquino - pobre, mísero, indigente, etc. Deriva-se do verbo sácana — ser pobre, indigente, etc. 
Portanto, mesquinhos e sacanas eram afinal vítimas de proprietários, esses sim, claramente sacanas e mesquinhos... pelo menos até D. João II ter acabado com essa legalidade mesquinha e sacana
Interessante, a evolução de significado aplicar-se apropriadamente agora aos infelizes de alma que fazem uso da exploração humana.

Mesquinhata
Interessou-me o brasão da freguesia de Mesquinhata...
Freguesia de Mesquinhata - que, devido à mesquinhez de diversos sacanas,
foi integrada na aberração que definiu o agrupamento de antigas freguesias. 
Pinho Leal nada diz sobre o brasão de Mesquinhata, mas refere:
A João Paes, deu D. Afonso V, brazão d'armas, em 20 de abril de 1476 —  são — em campo azul, 9 laranjas, veiradas e coutra-veiradas de púrpura e ouro, em 3 palas  — elmo de aço aberto, e timbre, um pavão da sua côr. 
Laranjas
Ora, o acima escrito deixei com rascunho em 13 de Março de 2016... ou seja, há alguns meses atrás.
Não completei, muito provavelmente por falta de tempo.
Agora, fui olhar para os diversos rascunhos, e ficou-me a pergunta, por que razão interessava aquele brasão?
Já nem me lembrava, mas afinal era simples.
Era o velho problema das laranjas.
Afinal, se é suposto "as laranjas terem chegado à Europa no Séc. XVI, depois dos portugueses as terem ido buscar à China", conforme se pretende fazer passar, e ensinar; como é que D. Afonso V dá um brasão com 9 "laranjas", em 1476, no Séc. XV, quarenta anos antes da suposta chegada à China?

Conforme acabei também por fazer um postal sobre o Milho, ainda indaguei topónimos antigos com referências a "laranjas", mas sem grande sucesso.
De qualquer forma, e sem outra maior relevância, fica aqui o apontamento.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (42)

Num postal antigo - Mayday, já tinha sugerido um tema dos Dead can Dance, o grupo australiano de Lisa Gerrard. Volta à baila o álbum de 1988 com o título "o ovo da serpente" (também título de um filme de Ingmar Bergman).

Dead Can Dance (album: The Serpent's Egg)

In the Kingdom of the Blind the One-Eyed are Kings.
(No reino dos cegos, quem tem olho é rei...
... ainda que só dois olhos permitam a perspectiva)


Se estivesse, se estivesse em nosso poder,
Além do alcance do nosso orgulho escravo,
Não mais acolher descontentamentos,
Atrás da máscara, e da face oportunista.

Poderíamos receber a Responsabilidade,
Como recebemos um amigo perdido,
E reestabeleceríamos o Riso
De novo, nesta casa de bonecas.

Porque o tempo aprisionou-nos,
Na ordem dos nossos anos,
Na disciplina dos nosso modos,
E na passagem da inércia momentânea.

Podemos ver o nosso caos em movimento,
O nosso caos em movimento,
Podemos ver o nosso caos em movimento,
Vejam o nosso caos em movimento...

(... e a subsequente colisão de idiotas, 
bem versados na subtil arte da escravatura)

Dead Can Dance - The Carnival is over

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (41)

Em 12 de Setembro de 1980, o General Kenan Evran liderou um golpe de estado na Turquia, e foi depois eleito presidente do país, em 1982, onde se manteve no poder até 1989. Este foi o último assinalável golpe de estado na Turquia, até estes acontecimentos da noite de 15 de Julho de 2016.

Curiosamente, passado um ano, em Outubro de 1981, Rod Stewart (o cantor que gostaria de ter sido futebolista) lançava um dos seus maiores sucessos "Young Turks".
Young Turks - Rod Stewart (1981)

"Jovens turcos" foi uma designação muito particular na história da Turquia, que teve a ver com o movimento político no início do Séc. XX, que transformou o decadente Império Otomano num estado com uma Constituição, procurando copiar os restantes modelos europeus, e de certa forma ainda os ideais da revolução francesa.
O termo ganhou conotação com uma rebeldia impetuosa, e por vezes desmedida... afinal, é durante o governo dos "jovens turcos", que se dará o genocídio na Arménia, em 1915, para além da aliança estratégica com a Alemanha, ter levado à dissolução do império otomano após a derrota na 1ª Guerra Mundial.

É no sentido de rebeldia juvenil que a canção de Rod Stewart irá buscar o título da canção, em nada se referindo à Turquia, que estava então sob controlo dos militares, com a constituição suspensa.

De entre os diversos países de orientação muçulmana, a Turquia foi sendo vista como uma certa excepção, onde o factor religioso não influenciava muito o funcionamento laico do estado, e de certa forma isso foi sendo tomado como missão dos próprios militares, desde Ataturk.
A subida ao poder de Erdogan veio mudar essa tendência laica, passando a figurar uma tendência de regresso aos velhos valores morais religiosos. A influência dos militares foi sucessivamente questionada, pelo novo poder islâmico, a ponto do velho General Kenan Evran ter sido julgado e condenado a prisão perpétua em 2014, quando já contava 96 anos.

Tal como no Egipto ou na Argélia, é o poder ditatorial dos militares que tem evitado que estes estados de confissão islâmica tenham degenerado em repúblicas religiosas, como aconteceu no caso do Irão.
Quanto ao golpe ocorrido, ao mesmo tempo que se reuniam os representantes dos negócios estrangeiros dos EUA e Rússia (Kerry e Lavrov), levantou algumas suspeitas de anuência, para regresso a um estado laico. Após o falhanço da insurreição, coloca-se a questão de ter sido o próprio Erdogan a orquestrar um golpe fictício, com o objectivo de aumentar os seus poderes e fazer agora uma purga na administração mais laica - militares e juízes, que caíram no erro de apoiar o golpe e assim explicitarem a sua oposição. Só que as coisas nunca são simples, e a ausência de identificação clara da hierarquia que apoiou o golpe pode também indiciar que esta encenou um primeiro golpe para ver a resposta militar, aguardando para fazer um segundo golpe mais contundente... tudo dependendo da atitude que Erdogan irá adoptar. Afinal, convém não esquecer que antes do 25A também houve uma fidelíssima brigada do reumático, após o 16M.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

"2016 Nice Attack" na Wikipedia

Há certos cuidados que são de bom tom... na página da Wikipedia inglesa escreveu-se:

2016 Nice Attack

e apesar das milhares de visualizações, ninguém terá ainda reparado que a leitura "Nice Attack" é bastante sórdida, sendo claramente preferível mudar para "2016 Attack in Nice".

As informações, que neste tempo deveriam ser rápidas e fiáveis, permanecem numa quase completa nebulosidade. Inicialmente falava-se em 3 terroristas, num camião cheio de armas... Acabo de ouvir o procurador-geral e nesta altura reconhece-se que foi um único condutor, com uma pistola, sendo o restante duas ou três armas de brincar.

Depois é claro, há toda uma associação imediata ao terrorismo islâmico, feita pelo facto de se ter identificado o condutor como sendo residente em França, de origem tunisina.
Ora, o que disseram os vizinhos? (FranceInfo)
-"c'était un homme peu religieux, ne priant pas, n'allant pas à la mosquée, aimant la salsa et les gonzesses"
- "le mois dernier il avait commencé le ramadan mais ne l'avait pas terminé".
- "un homme seul et en rupture avec ses proches, notamment fâché avec sa famille en Tunisie où il n'était pas retourné depuis des années".
- "récemment divorcé ou en instance de divorce"
- "avait pris un appartement distinct de celui de sa compagne et de ses trois enfants"
- "Il joue de la salsa, fait de la musculation et fréquente des gonzesses… Pour moi, il a pété les plombs"
Portanto, um homem pouco religioso, que não ia à mesquita, e que só no último mês tinha iniciado o Ramadão... algo que não configura alguém cometido a fundo com uma organização fundamentalista islâmica. Estava sinalizado pela polícia, mas por desacatos vulgares.

Configura-se poder ter razão o vizinho que dizia - "Para mim, fundiu os fusíveis".

No entanto, não foi esse o curso que a história tomou... e não é a primeira vez que vemos este filme, de ser conveniente alinhar num enredo diferente.

Em 11 de Março de 2004, logo após os atentados de Madrid, o primeiro ministro José Maria Aznar decidiu culpar imediatamente a ETA, para evitar ser ligado a uma consequência do seu apoio à Invasão do Iraque. Realizavam-se eleições no fim de semana, e não foi considerado conveniente admitir um ataque islâmico. Esta versão foi tentada ser mantida pelo governo, nos órgãos de comunicação, durante dois dias.

Talvez se venha a estabelecer a ligação terrorista, porque o homem visitou um ou dois sites na internet, ou porque "podem" aparecer emails "comprometedores". A partir desta fase, o que fica dentro do conhecimento restrito da polícia, pode prestar-se a todo o tipo de associações, dependendo da história que se quiser passar. 
O que é certo, depois das declarações do procurador, é que nenhuma organização terrorista reivindicou o atentado, e que o homem terá agido sozinho na execução do crime.

Poderia ser isto apenas um acto singular tresloucado, antecedendo uma vontade suicida?
Seria caso único? 
- Não!
- Nem sequer é preciso considerar o caso do norueguês Anders Breivik, que tomou em sua conta 77 vidas, também invocando o Islão, mas em sentido contrário... por islamofobia. A polícia norueguesa tomou o cuidado de o apanhar vivo e o condenar. Ao contrário, e de acordo com um relato de um português, testemunha ocular, foi só depois do camião parar que a polícia chegou, e o decidiu abater, alegando troca de tiros.  

- Um outro caso ocorreu, no ano passado, curiosamente também perto de Nice, nas montanhas.
O vôo 9525 da GermanWings vitimou os 150 passageiros e tripulação, alegadamente por decisão suicida do co-piloto Andreas Lubitz.

Se o co-piloto não fosse alemão, se fosse de origem turca, ou de outra nacionalidade islâmica, se se chamasse Mohamad, ou similar, não se teria aí também associado imediatamente uma conexão terrorista?

Ora, é nesta contradição que vive a Europa do "politicamente correcto".
A Europa "politicamente correcta" critica facilmente a xenofobia alheia, mas estala o seu verniz quando apenas com base na nacionalidade de um atacante faz todo o discurso recair numa condenação terrorista.
Foi terror, mas provavelmente foi um tresloucado acto individual, sem outra conotação.

____________________
Nota (17/07/2016)
Entretanto, o Estado Islâmico (Daesh) decidiu colar-se ao atentado, reivindicando que Mohamed Bouhel teria agido sob inspiração dos seus apelos. Porém, conforme logo foi notado (euroweeklynews)
 However there are doubts as to whether DAESH is really responsible as it had failed to prepare propaganda in advance of the attack as occurred on previous occasions.
... ou seja, ao contrário de casos anteriores, o Estado Islâmico apenas esboçou uma atitude reactiva, conveniente, não mostrando conhecer o que se iria passar.
As autoridades francesas, com a reputação de rastos, pela sua incapacidade de evitar a chacina, parecem também preferír atribuir mérito a um atentado do Estado Islâmico, do que reconhecer a sua incapacidade de travar as intenções suicidas de um louco num camião.
Mesmo que Bouhel tenha alinhado à última hora no apelo do Estado Islâmico, nada muda que o atentado poderia ter sido simplesmente realizado por um louco isolado, fosse por que motivação fosse. Ter inimigos de acordo sobre uma versão da realidade, conveniente para ambos, não significa minimamente que esta esteja mais próxima da verdade.
Afinal, se um condutor inglês atropelasse um indiscriminado número de transeuntes no "Promenade des Anglais", no dia seguinte ao novo governo britânico tomar posse, isso ligar-se-ia ao Brexit?
Que ao Daesh interesse a ligação ao incidente, ainda se entende, agora que o governo francês alinhe nisso, será miopia, pois a longo prazo irá apenas favorecer expectativas terroristas, de dar sentido a vontades suicidas.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (40)



Massive Attack - Butterfly caught (100th Window, 2003)


Acherontia atropos 
(no filme Silêncio dos Inocentes, ver ainda foto Halsman)


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (39)


Paris, 10 de Julho de 2016
(Daily Mail @AFP Getty Images)

David Guetta & Sia - Titanium


terça-feira, 28 de junho de 2016

Do Grexit ao Brexit (2) - o filme

Num comentário ao postal anterior, João Ribeiro indicou um documentário da campanha do Brexit que penso ser muito instrutivo, apesar de poder ser encarado apenas como uma excelente propaganda que serviu para o voto de saída da União Europeia.
Para seleccionar a legendagem em Português clique na [roda dentada] (entre [CC] e [YouTube]).
Escolha "SubTitles" e depois "Auto-Translate", nessa lista escolha "Português". 
(É apenas uma tradução automática, mas funciona bem... ou quase sempre bem) 

Muitos de nós já viram documentários parecidos, mas isso não altera a pertinência do que é dito. Marinho e Pinto terá sido dos poucos entre nós que terá falado do escândalo do que se passava no Parlamento Europeu... mas para além de não ter prescindido das principescas regalias, no que foi duramente atacado pelos seus compagnons de route, não tornou explícita a completa inutilidade do Parlamento Europeu, que aqui é dita - ou seja, serve apenas para ratificar leis da Comissão Europeia. O parlamento não tem poder para revogar ou propor novas leis. Ou seja, é um completo teatro de fachada, destinado a subsidiar principescamente uma elite, que é mesmo financiada para nem sequer comparecer às sessões... 

O documentário é ainda ilustrativo para mostrar como o sector de pescas do UK sofreu praticamente o mesmo destino que o português - foi subsidiado o seu declínio. Mostra também como a verborreia legislativa da UE serve como forma de proteccionismo, destinada a impedir concorrência, já que novas empresas não conseguem cumprir exigências que requerem um arsenal de advogados. É dado como exemplo que há 1246 leis para o pão, e 12 653 leis para o leite... Montanhas de comida foi armazenada a apodrecer para criar a ideia de que havia falta de comida, permitindo assim aumentar o preço até 20%. Enfim, são múltiplos os exemplos, que ilustram como o Brexit foi uma decisão informada de muitos votantes conscientes, e não intoxicados com os meios de comunicação completamente controlados.

Porquê?
Essa pergunta não é respondida no filme, mas não é difícil de conjecturar.
Uma visão idealista do que seria um objectivo da elite que nos governa, é dado no filme Elysium, estreado em 2013 e que é suposto antever o futuro a 150 anos de distância... ou seja, a construção de uma Estação Espacial paradisíaca, que permite afastar a elite de toda a populaça terrestre. E se chegar à Lua coloca problemas, saindo do escudo protector da Cintura de Van Allen, a criação de uma estação espacial em órbita nem sequer se trata de ficção científica!
Elysium (2013)

O grande problema de uma elite é manter o seu estatuto, nada mais... para além de definir algumas regras inquebráveis para que a competição interna, dentro dessa elite, não a ameace. O resto é o medo da populaça - o demo.
Para esse efeito é necessário manter necessidades artificiais, crises, para manter a população entretida.
A população não pode ser eliminada, porque, por azar, precisará sempre de trabalho e especialmente de motivação para manter um arsenal de invenções e criações, que lhe garantam melhoria da qualidade de vida. Assim, apesar de haver condições para toda a humanidade poder viver já num paraíso terrestre, a competição é estimulada para os assuntos mais preocupantes... doenças, envelhecimento, longevidade, etc. Algumas das poucas coisas em que estamos sujeitos ao mesmo fado, independentemente do nascimento. Curiosamente, é praticamente certo que quanto mais isso for procurado ocorrer apenas como benefício de poucos, não ocorrerá como benefício de nenhuns... porque isso seria um passo irreversível condenatório.

A maior diferença da elite dos últimos séculos, face à aristocracia anterior, foi abrir a entrada do clube a novos membros, desde que aceitem as regras de desequilíbrio como inevitáveis. Assim, o que se pretende das políticas dos estados nada tem de racional. É uma pura questão de manter um enorme show em funcionamento, enganando 99.99% da população, que trabalhará afincadamente no meio de crises, para combater assimetrias e necessidades fabricadas.
Tudo o que vemos se destina a manter o ascendente das grandes empresas e empresários existentes, e combater energicamente a ascensão de uma nova burguesia ao topo do poder.
Essa prisão feita ao homem moderno, conforme é descrito no filme, é feita pela imposição de regras, regulamentos em cima de regulamentos, e pela criação de necessidades pelo efeito de crises artificiais. Assim, enquanto nos congratulamos com a boa decisão britânica, tal efeito irá provavelmente servir de enredo para mais uma crise financeira, que afectará mais uns tantos milhões...