quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Nebulosidades auditivas (43)

Entre 27 de Outubro e 17 de Novembro de 2005, ocorreu uma revolta generalizada nos subúrbios de grandes cidades franceses, especialmente Paris, que redundou num saldo de quase 9000 automóveis incendiados. As primeiras notícias, relacionando esses incêndios com a morte de dois jovens numa perseguição policial, foram servindo de rastilho a outros incêndios, até ao ponto em que foi assumido que haveria censura na imprensa, para evitar esse estímulo de acção-consequência.

Apesar de isso não interessar à geração anterior, às gerações seguintes compete o papel de questionar e desafiar o legado. Quando a sociedade instalada fecha portas às novas gerações, limita ou despreza a sua criatividade, o mais natural é que surjam rupturas acentuadas e o inconformismo juvenil seja captado por outras velhas causas, também inconformadas com o resultado actual.
Perante esta pressão latente, a sociedade ocidental inventou, especialmente nos últimos 50 anos, uma cultura pop, destinada a absorver como uma esponja as vontades e aspirações da malta mais nova. Trata-se de uma esponja, porque se destina a conter as nódoas num espaço cultural que não afecte o funcionamento principal da sociedade.
Um caso paradigmático disso é a música pop, que praticamente tem sido a única manifestação onde uma criatividade simples, sem necessidade de grande conhecimento, permite a composição de obras com algum impacto social. É assim que aparecem alguns movimentos musicais capazes de fazer crer aos mais novos que têm algo a dizer. e que os mais velhos os escutam.

A música seguinte, Animals, de Martin Garrix, um jovem DJ holandês, teve algum sucesso e o vídeo ilustra uma certa cultura de insatisfação juvenil, capaz de actos de simples vandalismo, simplesmente porque sim... por algum instinto animal, capaz de agregar insatisfações num acto irracional e gratuito.
Se o vandalismo ocorrido em França em 2005 poderá ser analisado à luz de uma má concepção das cidades, com guetos desfavorecidos, autênticas reservas animais onde eram colocados, etc... o ponto mais importante é que isso não é razão exclusiva, e a qualquer momento é fácil encontrar entre os jovens uma vontade de se afirmar, que poderá consistir simplesmente em destruir o legado anterior, quanto mais não seja para ganhar um espaço para si mesma. 
A situação só não é mais caótica, porque a geração mais velha tratou de assegurar processos de vigilância de tal forma invasivos e indetectáveis, que a geração mais nova vai sendo colocada num parque infantil até aos 30 ou 40 anos, e depois já é tarde demais para se armar em jovem...

Martin Garrix (Martijn Garritsen) - Animals

Ora, essa vontade de destruir ou mudar "porque sim", independentemente do legado da geração anterior ser bom ou mau, apenas para marcar uma individualidade, para marcar uma diferença face ao anterior, terá desde sempre preocupado quem procurava construir uma sociedade mais justa, para depois a ver destruída num espasmo irracional, ou pior, num espasmo justificado por raciocínios idiotas.

Uma boa metáfora deste problema é ilustrada nos ensinamentos budistas, onde é dada como tarefa ao jovem monge construir um belo jardim de pedrinhas coloridas, algo onde despende bastante tempo e paciência, para depois vir o mestre e dar um pontapé na coisa... de certa forma invertendo o processo!

Isto ilustra bem o mundo onde vivemos, onde construir é difícil, requer tempo e paciência, e onde destruir pode ser conseguido com um simples pontapé.
Invertendo as coisas deste mundo, construir seria fácil, como num passe de mágica, e destruir isso sim seria difícil, requerendo tempo e paciência.
Ou seja, o inverso deste mundo seria um mundo de magia... muito do agrado de espíritos jovens, ao estilo Harry Potter. Mas será que esse mundo de magia, de facilidade de construção, e dificuldade de destruição, seria mais benigno? 
É fácil entender que não... porque nem todo o esforço de construção tem propósitos benignos, pode tratar-se de construção de uma prisão intrincada, e sob esse aspecto, agradeceremos então que a prisão seja de fácil destruição. Também por isso, na nossa idealização de mundos de magia obtemos fadas versus bruxas, ou deuses versus demónios.
Ou seja, ainda que pretendessemos um equilíbrio no esforço de construção versus o esforço de destruição, seria antes preciso esclarecer a questão fundamental do que seria positivo ou negativo como construção... e até que isso fique esclarecido, parecerá mais sensato ser mais fácil destruir do que construir.

10 comentários:

  1. Este texto está giro, fez-me lembrar a corrente artística "futurismo". Deitar tudo abaixo e recomeçar de novo, destruir para voltar a construir. Agora não tendo nada a ver mas tendo... Pela quantidade de prédios antigos lindos que se deitam abaixo todos os anos sem deixar sequer a fachada, diria que existe por aí muita malta que ainda pensa que é nova...

    Ab

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    1. A frase do romance/filme "o Leopardo":
      «Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.»
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Giuseppe_Tomasi_di_Lampedusa

      ... tem sido usada para caracterizar esse tipo de falsas revoluções, que mostram uma grande mudança na superfície, permitindo não mexer no interior.

      Os jovens irrequietos, por exemplo hippies da geração de 60, ou punks da geração de 70, ou estavam todos muito bem arrumadinhos com empregos jeitosos na indústria musical, ou estavam esquecidos, nos anos 80. E foi assim sem surpresa que aos hippies sucederam os yuppies, pequenos magnatas do liberalismo financeiro, que em vez de fumar charros, inalavam coca.

      Os movimentos artísticos da transição para o Séc. XX eram semelhantes, mas esses nem sequer eram populares, eram mesmo versões de balão de ensaio de uma intelectualidade decadente, que se julgava revolucionária e progressista.

      O futurismo, tal como tantos outros movimentos, viviam da forma, e como tal eram uma mera moda, como são todas as coisas que vivem só do aspecto. Nos anos 80, também havia um visual futurista, que o futuro mostrou rapidamente ser apenas uma moda ridícula, baseada em filmes de ficção científica.

      Hoje temos a moda das tatuagens... e se uma tatuagem militar nos tempos de África significava alguma coisa, as tatuagens actuais são uma coisa tão ridícula, que vão deixar arrependimento durante muitos anos a quem as fez.
      E o pessoal, como carneirinhos obedientes, seguem as tendências da moda, e pensando que são todos diferentes... ficam todos iguais!
      Chega a ser uma irónica palhaçada.

      Abç

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  2. Eu percebo e em certa medida concordo com o "vazio" de algumas destas modas mas acabo por ver igualmente o outro lado.
    O aspecto positivo destas modas temporais é que acabam por abrir novos caminhos e desbravar novo terreno. Na pintura, na roupa, na música, enfim, por muito supérfluas que sejam acabam sempre por transformar o mundo ao seu redor. Se estamos inseridos numa sociedade moderna "as modas" acabam sempre por nos apanhar, quer queiramos quer não. Uns seguem modas mais propositada e intencionalmente, outros mais inconscientemente. De modo geral o que começa no "underground" acaba por influenciar o "mainstrem". Seja na rádio ou na roupa essas modas vão se fazer perceber, ainda que de modo mais "aceitável" pela população no geral. Nas tatuagens é muito difícil de distinguir quem as faz com sentido e significado dos que simplesmente queriam uma tatuagem. Assim, como é igualmente difícil distinguir aqueles que não fazem tatuagens simplesmente porque não, daqueles que não as fazem porque querem marcar a sua diferença pela sua "normalidade" e que assim acabam por cair num cliché... Ou seja, andam em rebanho mas no rebanho do lado.

    Conclusão: Esta sociedade é uma grande quinta pedagógica :)

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  3. Eh, eh... é uma "quinta" pedagógica, mas se fosse uma "sesta" pedagógica, dava para descansar melhor com o calor.

    Sim, é claro que as alterações de forma são igualmente úteis e abrem novos entendimentos, mas infelizmente tendem a não abrir o entendimento principal - que são tendências frugais e passageiras.
    A única coisa que estava a criticar era isso - a ideia de que por uma mudança de forma se alcança algo de substantivamente diferente.

    Isso foi muito marcante na pintura, na transição do Séc. XIX para o Séc. XX. Do realismo passaram ao impressionismo, ao pontilhismo, ao cubismo, ao abstraccionismo... e só no fim de esgotarem uns tantos "ismos" é que se deram conta que já não havia mais nenhum "ismo" verdadeiramente novo, e que tudo eram apenas variantes.

    Conforme venho a dizer... é preciso ter cuidado ao gastar rapidamente a nossa capacidade de conhecimento, sob pena de passarmos a ver tudo "como mais do mesmo", e chegarmos ao ponto de não ser surpreendidos por nada.

    Abç

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  4. Sim ,eu li no Alvor-Silves o seu comentário sobre por um travão no conhecimento. Claro, só pesquisamos aquilo que gostamos ou necessitamos (fora o que aprendemos porque tem de ser!) mas penso que chegar ao ponto em que sabemos tudo ao ponto de tudo se tornar aborrecido é uma ilusão ou estarmo-nos a restringir a determinado ponto em que esgotámos tudo o que poderíamos aprender sobre esse mesmo ponto. Mesmo assim acho difícil, há sempre qualquer coisa por descobrir. Acredito mais que nos possa cansar a pesquisa e o procurar saber mas matéria de aprendizagem não faltará. Depois há o outro ponto da questão que acaba por forçar a evolução... Precisamente quando achamos que nada nos surpreende eis que surge a necessidade de criar coisas novas. No meio de tanta coisa estúpida e desnecessário que apareça, irá com certeza aparecer uma ou outra que valha a pena. Se bem que acho que quanto mais sabemos e mais queremos saber, logo, mais evoluímos, mais caminhamos para a auto-destruição. Em última análise iremos perceber que os animais são mais inteligentes que nós porque sabem viver em harmonia com o Mundo e Natureza. Neste sentido dou razão ao José Manuel, sim já fomos mais inteligentes no passado.

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    1. A situação talvez seja melhor descrita colocando-se num cenário em que é colocado num infantário, e um adulto tem que regredir ao ponto de achar interessantes coisas infantis, sobre as quais já perdeu todo o interesse, e sabe ou adivinha como vão acabar.
      Mas o problema principal não é esse... o problema principal seria concluir enquanto adulto que as coisas eram todas infantis. Porque no cenário infantil, pode esperar que as crianças cresçam, mas no outro cenário é pior, porque já toda a gente cresceu, e o cenário é desesperadamente infantil... sem ver maneira de regredir o seu pensamento e voltar a achar piada a coisas infantis.

      A grande diferença entre humanos e animais é que os animais não têm um desejo insaciável... e lá está, enquanto humanos não somos capazes de anular o desejo de querer mais, e não querer apenas uma parceira sexual e uma refeição diária. Não basta isso para abanarmos a cauda!

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    2. Precisamente. Não conseguimos regredir mentalmente mas conseguimos perspectivar que essa ignorância seria uma bênção, ainda que na verdade seja apenas uma realidade meramente imaginária. Os bebés e os animais com as suas necessidades básicas satisfeitas, são felizes ou pelo menos satisfeitos, uma vez que não têm a noção de felicidade. Quanto a nós crescidos podemos sonhar com utopias, tentar até construí-las e até ter algum gozo no processo mas sim, nunca será suficiente.

      Ab

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  5. E só não digo que estou a "filo-sofá" porque já entrei ao serviço. Ehehe

    Ab

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