segunda-feira, 23 de junho de 2014

Nebulosidades Auditivas (16)



Under Control
Calvin Harris & Alesso (singer: Hurts)
http://www.azlyrics.com/lyrics/alesso/undercontrol.html

I might be anyone
A lone fool out in the sun
Your heartbeat of solid gold
I love you, you'll never know

When the daylight comes you feel so cold,
You know
I'm too afraid of my heart to let you go

Waiting for the fire to light
Feeling like we could do right
Be the one that makes tonight
'Cause freedom is a lonely road
We're under control

We're under control

Oui. Qui? Pedia...

Normalmente evito confrontos sobre os quais já antecipei os desfechos possíveis, e em que o mais provável é ser apenas uma enorme perda de tempo.
No entanto, havia uma situação que pedia esse esclarecimento, na prática... a Wikipedia.

A Wikipedia ficou um projecto de imenso valor, que ajuda bastante na pesquisa de informação, aliado ao motor de busca da Google.
Muito bem, mas nem tudo é um mar de rosas, e é sabido que Wikipedia, assim como disponibiliza, também tritura informação. Por razões válidas, justifica-se um certo controlo dos conteúdos que são adicionados ou subtraídos. 
A Wikipedia adoptou assim uma política de citações por fontes fidedignas. O "fidedignas" é ambíguo, mas o que interessa é que a Wikipedia tenta remeter tudo para as revistas, jornais, etc... para as publicações clássicas, onde já há um longo controlo instituído. 
Assim, se as pessoas têm ideia de que há algum fórum de discussão racional... podem mudar de ideias.
Era isso que a Wiki... pedia. Pedia que eu pelo menos por uma vez tentasse.
Tendo lido o comentário do José Manuel, sobre os seus fados na Wikipedia, aproveitei o fim-de-semana para fazer essa tentativa. 

Para esse efeito, escolhi um tema que não era opinativo, mas que poderia ser "quente". Não iria usar citações, e iria avaliar se havia alguma réstia de discussão racional, sem ser com o argumento "Magister dixit"... neste caso "Magister non dixit"!
Tratava-se do tema da Inteligência Artificial, sobre o qual já escrevi várias vezes. Tratava-se de usar um simples argumento matemático, até aritmético, de que uma máquina finita não pode pensar no infinito.
Dito assim, seria algo gratuito, mas cuidei de justificar adequadamente, conforme vi ser feito noutros artigos sobre matemática na Wikipedia, com uma chamada prova por absurdo. 

Eis como ficou a inserção que coloquei, na Wikipedia em inglês:

Infinity Paradox on Artificial Intelligence
A finite device can never generate the notion of infinity.
Therefore the notion of infinity is impossible to be acquired by a computer or by any other device that can only produce a finite set of results in a finite lapse of time.
This is a simple mathematical paradox, as the combinations from a finite set S are in the finite power set 2S. This applies either to computer states or neuron states. If the notion of infinity could be obtained from some finite combination this would mean that infinity would be equivalent to that finite sequence, which is obviously a contradiction.
Thus, infinity and other abstract notions have to be pre-acquired in any finite device.

Passado pouco tempo foi retirado.
(Curiosamente no artigo de AI na Wikipedia em português, aguentou-se (*))
Como não sou de me ficar nestas situações... coloquei de novo, e fui perguntar a Flyer22 a razão da supressão. Lá veio o choradinho da "citação que faltava". Apareceu mais um sueco à festa, CFCF estudante de ciências cognitivas, também a retirar com o mesmo argumento, e finalmente como apoio aos outros, apareceu um xerife - NeilN, que ostentava esta bela estrela:
Estrela de "platina" - Master Editor da Wikipedia.

Isto acaba por funcionar como um jogo de crianças... e chegar a Master Editor requer mais de 50 mil edições de texto. Depois da estrela de platina pode receber uma estrela de "bufonite" (é mesmo essa a palavra usada), e a brincadeira continua, e o reconhecimento é impagável, mesmo que apareça sobre forma de uma imagem... basta ser um bom soldado que reconheça no boneco a importância da sua missão.

É preciso realçar que é este pessoal que assegura a qualidade geral da Wikipedia, que é boa, e por isso têm normalmente um grande trabalho... especialmente com pessoal parvo, e no início era natural que actuassem laconicamente e diga-se, com alguma paciência, explicando as regras "ao parvo" que chegava. Sei disso perfeitamente.

Porém, aquilo que me surpreendeu, no seguimento da discussão aqui e na discussão aqui, foi a obstinação do princípio ao fim... a entrada não era aceite se não houvesse a requerida citação, remetendo para prévia publicação clássica. É claro que isto não se passa assim com a maioria dos outros artigos da Wikipedia, aliás quase todos os artigos têm parágrafos que não são citações, mas a lei da Wikipedia impede esse argumento, para ficar tudo ao critério do xerife, Master Editor. Até aí ainda se pode compreender... o problema é quando o xerife se arma em papagaio, sempre a repetir a mesma coisa, porque não quer discussões.
Portanto, neste momento a Wikipedia é basicamente um organismo militar, com soldados que foram educados para se comportarem como autómatos. Por isso, no final desta experiência, terminei assim:
NeilN, I understand that without an ID citation card (issued by "reliable sources"...) you can shoot. Go ahead, do what you want, you are the man with the gun. Did you saw me undoing the suppression? No! So what is your problem? You can not kill ideas, even if you kill the one that expresses them. Best wishes.
Pronto, foi assim "a minha aventura na Wikipedia"... sem uma única palavra sobre o que tinha sido escrito... tudo menos isso! Fica também claro por que razão o não tinha tentado antes - porque sabia que o desfecho seria semelhante, desta ou doutra forma.
A tendência da moda para o Outono/Inverno enviada às lojas, maçónicas ou outras, continua a ser seguir a moda, e não pensar por si. Aguardamos então os tons dos criadores no Verão...

_________________
(*) Aguentou-se até 25 de Junho, e retirado com o mesmo argumento das referências - no caso da Wikipedia em português, é uma piada ainda maior. De qualquer forma, em conversa, já surgiram outras referências, dadas por Pgr94, e o assunto foi recolocado. Aguardam-se desenvolvimentos.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Em erguer

Energia é uma palavra que tem um sentido físico rigoroso, mas que é muitas vezes utilizada de forma arbitrária.
Energia é recentemente associada a algo místico, indefinido. Lembro-me que quando visitei o Egipto, havia um grupo esotérico procurando captar "energia" das pedras ou dos locais!
Há toda uma religiosidade que vive de indefinições. As indefinições são muito importantes para as crenças, porque pretendem significar tudo... não significando nada. É muito frequente encontrar isso em discursos retóricos complexos, artísticos, políticos ou religiosos, que factualmente se resumem ao vazio.

Do ponto de vista científico, energia equivale a trabalho. Talvez por prurido, fala-se em lei da conservação da energia e não em lei de conservação do trabalho. Trabalho é a multiplicação de uma força pelo deslocamento, e força só é diferente de aceleração porque é multiplicada pela massa.
Como quase todas as grandezas físicas, a energia está ligada ao movimento... ao movimento que acontece (energia cinética) ou ao movimento que se prevê acontecer (energia potencial).
Em erguer está essa en-erguia, energia.

Bom, interessa-nos aqui uma observação simples, mas que merece reflexão.
No nosso mundo bem ordenadinho, coisas pequenas raramente provocam grandes estragos.
Ninguém está à espera que um grão de areia esmague ninguém... 
Porém, numa situação muito instável, basta um grão de areia para fazer rolar um enorme pedragulho.
A instabilidade é assim uma situação que pode repor equilíbrios na natureza... dando um poder enorme ao pequeno grão de areia.
Grande parte do nosso dia-a-dia foi tornado mais confortável pela capacidade de controlar grandes instabilidades, a ponto de um simples premir de um acelerador ser capaz de pôr veículos de toneladas em grande movimento... ou de um simples toque no volante de um carro ser a diferença entre o caos e a ordem. 
Pior, havia o perigo da Guerra Fria... em que o simples premir de um botão poderia gerar um inferno nuclear à escala planetária. Creio que nunca se gerou tanta instabilidade na Terra, a ponto de "uma certa combinação de neurónios num cérebro" poder gerar uma catástrofe planetária.

Portanto, a capacidade energética superior que manipulamos foi resultante de compreender como usar as instabilidades a nosso favor. Ficámos mestres do caos, entendendo-o, e controlando-o, e quando sai do controlo chamamos a isso "acidentes":
... um fio e um rato.

Energia liga-se a Poder, pelo controlo da ligação de instabilidade.
Se o poder está num "botão" e não num "botam" (botam ou votam, que vem do verbo "botar"), fica associado a uma única instabilidade.
Portanto, o sonho de maior poder não é mais que um sonho de abrir mais as portas ao Caos, já que o controlo da ligação tanto pode pertencer a um cérebro são, como a um cérebro insano... ou, em certas circunstâncias, até a um simples rato. Há assim, nalguma mitologia, a ideia de que um simples artefacto poderia fazer essa ligação, como um botão de Poder.
Ora, por definição, ninguém controla completamente o Caos. A cada instabilidade que geramos associam-se as instabilidades já existentes, e os potenciais acidentes daí decorrentes.
Ora, ora, então porque não foi o Caos convidado para esta festa universal?
Se as instabilidades estão aí, são latentes, e podemos aproveitá-las, por que razão não se instalou o caos mais cedo... e esteve à espera que o libertassem, qual génio na garrafa?

Se excluirmos a vida na Terra, os fenómenos mais instáveis são os atmosféricos, mas dificilmente têm um ponto gerador automático. É um caos que resulta da combinação e actuação de múltiplas partículas... as partículas "votam", e não é nenhuma que tem o botão.
Ou seja, as borboletas podem voar à vontade, que não é o seu voo que gera uma cadeia de eventos atmosféricos. Como é óbvio, não têm uma máquina atmosférica à sua disposição... 

Assim, até à introdução de vida na Terra, os fenómenos que se presenciavam eram razoavelmente previsíveis, pelo menos não passariam de instabilidade pior que a atmosférica. Ou seja, há leis físicas previsíveis que regem os fenómenos visíveis, e a imprevisibilidade resulta mais de uma acumulação complexa dessa previsibilidade.

A presença de vida na Terra foi o primeiro pé que o Caos colocou neste universo.
Assim que a vida começou a proliferar, a paisagem terrestre deixou de ser tão previsível.
A vida é assim a primeira assinatura do Caos. 
Um organismo vivo, uma célula, começou a possuir uma complexidade crescente, até ao ponto em que não se encontra um conjunto de leis físicas simples capazes de prever o comportamento de um organismo vivo. 
Portanto, a principal característica de um organismo vivo é incorporar imprevisibilidade dentro de si. Mesmo assim há um conjunto de regras definidas numa simples codificação do DNA.
O DNA seria uma maneira da natureza escrever regras que definiam as características principais daqueles organismos. Porém, é claro que a réplica descontrolada desses organismos, levaria a um universo trivial, onde só se libertaria um aspecto do caos. As leis físicas deste universo, respeitantes à conservação de energia, implicavam um custo de espaço e tempo... algo a que normalmente se chama alimentação.
Sim, o nosso universo físico aceita um alojamento do caos, mas a renda tem que ser paga em energia. Se alguma coisa se quiser mexer, tem que sacar energia de algum lado. Isso força a que a manifestação caótica não seja qualquer, é orientada por uma ordem - a ordem de comer.

Ora, essa ordem de comer condicionou o caos que se instalava por via dos organismos. O DNA passou a servir como uma forma do Caos entrar e não ficar limitado a manifestações simples, pouco caóticas. Porquê? Porque o domínio de um organismo simples, como bactérias, não permitiria a entrada de toda a complexidade caótica... no máximo haveria um caos de bactérias.
Assim, o Caos ia assinando as mudanças nas cadeias de DNA, gerando organismos cada vez mais estranhos, dando um pequeno colorido de todo o Caos que ainda aguardava a entrada. A Terra servia de tabuleiro com regras, onde o jogo era jogado... e o único jogador era o Caos. Da mesma forma que o caos gerava novas formas de vida, sempre diferentes, também o caos se encarregava de as aniquilar... mas o jogo estava a ser ganho, pois a cada forma de vida mais complexa, mais se exibia a entrada de seres imprevisíveis. Essa imprevisibilidade era jogada no próprio confronto de uns seres contra os outros, o que permitia a entrada de factores cada vez mais complexos.

O novo ponto onde entra o Caos é assim com os animais, por via do cérebro. O DNA servia para uma competição alimentar, mas o novo passo é uma alimentação autofágica das manifestações caóticas. Os organismos vão competir pelo Caos com maior sucesso, não por pré-programação, mas com auxílio de um cérebro programável, seria por actuação directa, em "tempo real".

Mesmo assim, quase todas as regras saem do DNA. A atitude de um animal não é substancialmente muito diferente dos outros elementos da sua espécie. Não havendo herança para além da herança genética, o DNA continua a dominar os processos automáticos, intuitivos. O animal tem a possibilidade de introduzir novo caos, já que por via da sua experiência pessoal pode não tomar a mesma atitude que viu ser-lhe nefasta. Mas, por outro lado, isso é já uma educação do caos às regras da Terra.
Até ao advento humano, essa experiência pessoal não tinha história, seria no máximo uma educação unipessoal, e para os seguintes não tinha outra memória que não fosse a intuitiva herdada do DNA. Foi o papel familiar humano, que levou a uma educação com histórico não genético.

Assim, quando os humanos começam a comunicar e a deixar heranças no tempo, o DNA perde o seu carácter de único educador do organismo. Passa a haver outro código genético a funcionar - a linguagem. É através das palavras, das noções que lhes estão associadas, que se começa a escrever outra herança - a herança humana.

Ninguém parece considerar muito estranho que as palavras do DNA sejam CGTA, correspondentes às quatro bases de ácidos nucleicos. Pois bem, essas quatro palavras poderiam servir para descrever a ordem animal... mas eram insuficientes para a ordem que emergia de um Caos muito maior.
É da ordem desse Caos total que surgem então as palavras que estão para além da matéria... as palavras associadas a uma ordem muito superior, eterna (e não meramente acidental, que se dilui na transitoriedade material, energética). Essas noções abstractas nunca estiveram escritas no DNA, apenas se tornaram visíveis quando se evoluiu para cérebros que as pudessem ver... da mesma forma que a simples visão só foi possível quando se constituíram os primeiros olhos.

O que se vê então através dos cérebros humanos?
A abertura que o Caos conseguiu nas regras do universo terrestre. É claro que a imensidão de possibilidades caóticas só está limitada pelas regras físicas do nosso universo. De alguma forma são aceites, se forem "bem comportadas", como uma distribuição numa curva Gaussiana. O que vemos é a ordem que é possível extrair do caos para este universo.
À luta entre animais diferentes, protagonistas de diferentes manifestações de caos, sucedeu a luta entre o mesmo animal dominante, que em última análise leva do confronto com o seu semelhante ao confronto consigo mesmo. Assim, a evolução caótica leva ao confronto do Caos consigo mesmo... pelas simples manifestações imprevisíveis que sabe poder gerar no pensamento.

O pensamento próprio, quando aberto, passa assim a ser o último lugar de confronto. É desafiado pelas diferentes questões, pelos diversos medos, até que encontre consistência em si. Não englobará todo o caos, mas engloba uma ordem que permite compreender uma parte dele, a parte que tem conhecimento e que se manifesta em questões relevantes. O outro caos, imprevisível, aceita-o... com um riso, numa imprevisibilidade boa, ou com uma lágrima, enquanto imprevisibilidade má.
Afinal, a lágrima e o riso... duas características humanas que medem o grau de aceitação da imprevisibilidade ou da impotência perante a previsibilidade nas regras terrestres.
O nosso pai é o Caos e a nossa mãe a Terra (ou se quisermos, o universo físico).
A alma que alimenta o pensamento é paterna, e o corpo que o acolhe é materno.

A questão por resolver é saber se o Caos pode colocar questões que ainda consigam surpreender, algo que me parece difícil neste contexto terreno... mas sem dúvida que a ilimitação caótica procurará sempre alargar a sua presença, numa necessidade incessante de se reflectir num espelho terreno. Poderá fazê-lo no campo das ideias, onde não fica presa às condicionantes físicas... e a porta tem que ficar aberta por aí, para que não sinta necessidade de se manifestar por outra via.
E é no campo das ideias, fora da limitação terrena que se entra noutro universo onde o Caos pode imperar sem ordem... porque se todos somos filhos terrenos, nem todos percebemos que a sanidade mental não passa sem a lógica.

Porque quando colocamos o pé fora da Terra, arriscaríamos a ficar sem pé... e a única base que permite uma plataforma fixa de sustentação é o raciocínio lógico, sob pena de ficarmos perdidos no mar de nada. É o raciocínio lógico que nos orienta no universo acima do universo físico.
Porquê?
Porque não somos seres com múltiplas personalidades. Não há lugar a bivalências... não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Não é possível experimentar ser uma coisa e ser outra ao mesmo tempo. Não podemos ver vários futuros e escolher o melhor... está decidido qual é o nosso futuro, esse é o preço de acolhimento da "avó" lógica - conduzir-nos na verdade pelo único universo que não é um total caos.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Nebulosidades auditivas (15)


Behind the wheel - Depeche Mode

A tempo o tempo

Numa ilustração da Bíblia dos Jerónimos (Séc. XV) está uma imagem representando a criação divina:

N-PRINCI-PI-Oª-CREA
(Nota: a designação do número Pi só é adoptada no Séc.XVIII)

Não há que iludir coisas, com interpretações modernas.
A ideia vigente no final do Séc. XV, era a de vários céus esféricos que rodeavam a Terra. A rotação desses céus justificava o movimento das estrelas, para além da rotação terrestre.
Do ponto de vista puramente astronómico a ideia é ainda hoje correcta, diga-se o que se disser, o movimento é relativo, e os modelos heliocêntrico e geocêntrico são equivalentes para efeitos de observação.
Do ponto de vista de observação, aquilo que acreditamos serem outras galáxias são pequenas manchas nos telescópios... tudo o resto é crença alicerçada por algum nexo científico. Mesmo com telescópios convencionais, não foi ainda visto nenhum círculo de luz noutras estrelas, apenas o Sol tem disco solar visível. As estrelas são ainda pontos de emissão de luz.

Acima de todos os céus estelares, na figura acima, estaria o céu divino, onde encontramos a figura de Deus criador.

Criar
Primeiro, interessa perceber o que é criar.
A criação é uma transformação. Algo é alterado de um estado inicial para outro.
A responsabilidade dessa alteração ser imputada a um processo inteligente autónomo é que é outra coisa, porque essa própria vontade fica a carecer de justificação (que não se encontra em si mesma, a menos que seja inerente, natural e imutável).
Ou seja, onde está a vontade que provoca a vontade?
Nós não temos problema em não controlar a nossa vontade... ou, para quem se julgue com certezas de controlo - não controlou a vontade de controlar a vontade! Coisa diferente é atribuível a Deus, mas com o mesmo problema lógico inerente - o paradoxo do pensador. Ou seja, o processo de controlo ao prolongar-se indefinidamente identificar-se-ia com todo o universo, o que remete de novo à noção divina de Espinosa.

As transformações que levaram a este universo, podem ou não ter um observador.
No entanto, é claro que o observador não pode existir antes do observável, e portanto o observável antecede sempre o observador. No entanto, para efeitos do observador, nada existia antes de si. As remissões ao passado ocorrem sempre no presente.

Agir
Segundo, interessa perceber o que é uma acção.
Uma acção é uma ligação entre duas mudanças. 
Uma é chamada causa, outra é chamada efeito
A diferença é que a observação de uma antecede a observação da outra.
Se a cada vez que carregar num botão acender uma luz, associo os eventos.
Para nós isso implica um acto físico, mas podemos considerar que o acto físico é apenas um intermediário entre a decisão de carregar no botão e o acender da luz.
Portanto, ignorando processos intermédios, é o pensamento que age sobre o acender da luz.

De facto somos observadores de duas partes do universo:
- uma está em nós, e chamamos-lhe pensamento,
- outra é obtida por via dos sentidos, e chamamos-lhe realidade.
A ideia de que controlamos o pensamento, para além de uma mera observação, chama-se sanidade mental. Aceitamos os pensamentos que temos, não começamos a querer deixar de pensar no que estamos a pensar. Esses pensamentos encaixam no raciocínio por um nexo. A sanidade é um processo de encaixe da observação dos nossos pensamentos. Do outro lado está o que não encaixa, esse devemos entender como externo. A modelação científica é uma tentativa sucessiva de encaixe do exterior num nexo interior.

Observador e Observado
Ora, o que acontece se houver um desfasamento entre o observador e observado?
Ou seja, se o observado chegar primeiro ao pensamento do que aos sentidos?
Nesse caso, o que pensava reflectir-se-ia no que iria observar.
Esse simples desfasamento origina a ideia de que o pensamento cria o que via.

Portanto, como vemos, é perfeitamente possível existir um processo de associação, que pode responsabilizar o observador pelo que vê, podendo ser natural e alheio.
Mais que isso, trata-se de um processo de reflexão temporal.
Se aceitamos que o acto de observação é posterior ao observado, o que estamos aqui a falar é só do processo oposto - a observação antecede o observado, e é entendida como pensamento interno, antes de ser confirmado por outra via, digamos dos sentidos...

Neste caso estabelece-se uma harmonia completa, porque há uma reflexão perfeita entre sentidos e pensamento. O universo visto e o universo pensado coincidem como num espelho.

Tudo isso pode ocorrer até que a complexidade deixa de ser trivial.
Se os processos mentais forem em número finito, começa a deixar de haver um ajustamento se as observações tiverem potência infinita. Como a parte inteligível do observador é apenas uma parte do universo, distinta do observado, há sempre uma falha entre todas as observações possíveis e as realizadas. Porquê? Porque, em última análise, falham as observações das observações.
Ou seja, se até um determinado ponto a ordem encontrada num pensamento pode ser suficiente para a complexidade observada, quando o observador se vê a si próprio, isso deixa de ser possível.
Deixamos de estar num mundo de ordem previsível, porque a opção de pensamento é uma opção caótica, algo arbitrária, que entendemos como livre, mas que é apenas uma maneira de dizer que estamos no universo que é nosso, e que é nosso porque queremos, porque decidimos, mas também sem querermos, já que a escolha é inata e indissociável do próprio pensamento.

Anima
Assim, os humanos, que aparentemente resultam de um processo de programação bem definido no DNA, ao definirem pensamento autónomo a essa programação, passaram a ser imprevisíveis. As suas acções passaram a ter também origem num caos, algo diabólico, se entendermos que o resultado aleatório tanto pode dar para o bom quanto para o mau.
Para um observador externo, uma criação com vontade própria não é controlável. Enquanto observador externo de várias possibilidades poderá ter uma visão antecipada das ocorrências e tentar influenciar o melhor desfecho, de acordo com o seu conhecimento. O seu conhecimento pode até ser total do mundo formado, mas não do mundo que se irá formar... porque eternidades há muitas, mas a sua complexidade aumenta com a complexificação universal. Ou seja, o que parecia antes um beco, passa a ter fissuras que abrem passagem. Depois, é claro, o último observador não tem maneira de saber que é o último... se é que isso interessa para alguma coisa!

É entendível que uma tentativa de programação, de condicionamento das acções humanas, tendo em vista uma determinada ordem pudesse levar a um estado de equilíbrio controlado entre o pretendido e o tido. Porém, isso significa uma lobotomia do desejo, ou seja da necessidade de infinito, de uma transcendência para além da programação de uma paz animal. Apesar de em latim "alma" ser "anima", não é algo condicionável a simples desejos animais. O paraíso de um símio não é um paraíso humano.

Convém perceber a dualidade mais uma vez.
Numa fase inicial, a observáveis finitos, as partes, as relações seriam igualmente finitas.
As partes, as relações, são sempre em número superior ao observável. Ou seja, se os pensamentos se condicionam por uma realidade, a sua potencialidade para outras realidades é maior. Aumentando a complexidade da realidade observável, as suas relações também se poderiam complexificar indefinidamente... até ao ponto em que começam a ficar redundantes. Aí surgem as noções abstractas, que já estão para além dos observáveis ocasionais. A associação de pensamento a um corpo físico é uma constatação circunstancial.
Não havendo uma circunscrição a corpo físico, podemos ter entidades pensantes sem essa associação, que vivem num campo tão etéreo quanto as entidades abstractas que concebemos.
Porém, essas entidades teriam o pensamento condicionado aos observáveis. 
Quanto maior fossem as possibilidades de raciocínio nos observáveis, maior seria a capacidade de raciocínio potencial fora deles. Até que ponto? Até ao ponto de esgotamento das noções por redundância. Ou seja, até ao ponto em que o observado equivaleria em complexidade ao observador, num determinado universo. Um universo condicionado pela lógica, que seria autossuficiente e completo em consistência.

Uma coisa é ter conhecimento pela observação, outra coisa é ter conhecimento pela dedução.
O conhecimento pela observação é semelhante a ter um programa de xadrez que nos dá a melhor jogada, simulando todas as que consegue. O conhecimento pela dedução não é saber construir o programa, é saber a razão pela qual uma jogada pode ser melhor que a outra, sem essa antevisão de possibilidades. A razão é um nexo baseado nos nexos do conhecimento anterior e não numa antevisão gratuita do futuro. Essa visão gratuita do futuro não está efectivamente disponível. Do futuro invariante apenas podemos saber as noções invariantes, comuns a todas as linguagens... tudo o resto tem que ser deduzido a partir daí. A consistência de um universo incompleto só poderia ser feita assim, caso contrário entraríamos numa repetição trivial.
... e tudo isto já tinha sido dito por outras palavras 



(Texto escrito a 3 de Junho de 2014)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ondas Hertzianas

Há pouco tempo, num programa sobre a 2ª Guerra, um veterano explicava a necessidade de dar a um infiltrado um cristal para construir um rádio de galena, e que tal aparelho não necessitava de energia.
A questão de não necessitar de energia fez-me rever o conceito do rádio de galena, até porque com um amigo, na infância, experimentámos fazer um telefone com pilhas, e fomos surpreendidos por constatar que funcionava melhor sem elas! Só alguns anos depois percebemos porquê, mas não percebemos porque razão só era conhecido o modelo com pilhas...

rádio de galena é um receptor muito simples, que funciona sem pilhas, porque praticamente usa só fio de cobre e um cristal de galena, cujo esquema se apresenta:
 
O mais simples esquema de um rádio de galena (frequência única):
usa apenas fio de cobre (antena), um cristal de galena (D1) e qualquer receptor (E1).

A alimentação do circuito é feita pela própria onda hertziana. Quando se usam pilhas ou electricidade é apenas para aumentar o sinal. Tal como não são precisas pilhas para ouvirmos as ondas sonoras, mas passam a ser precisas se quisermos aumentar o som, por exemplo, com um altifalante.
O cristal é apenas preciso para estabelecer a direcção do circuito, funcionando como díodo (a electricidade passa num sentido e não no outro).

O nome Ondas Hertzianas vem do mesmo Hertz que é usado para a unidade de frequência de que já falámos. A ideia de que as ondas Hertzianas eram semelhantes à luz tinha sido colocada por Maxwell uns anos antes... a diferença era na frequência, ou comprimento de onda. Enquanto as ondas de rádio estão na escala dos metros ou quilómetros, as ondas de luz estão numa escala inferior a 1 milésimo de milímetro. No final do Séc. XIX isto não era conhecido, e Hertz tenta provar a transmissão invisível das ondas eléctricas, de menor frequência, previstas por Maxwell, com um aparelho simples:

Se em 1889 Hertz considerou que a sua experiência era apenas académica e não teria grande utilidade, nos anos seguintes e até 1900 houve vários projectos de muitos inventores para desenvolver o primeiro telégrafo sem fios, sendo Marconi o mais conhecido e bem sucedido.
Na realidade tudo se passava em termos de patentes, que começavam a ter grande importância económica na transição do Séc. XIX para o XX, o que permitia a muitos inventores solitários passar a proprietários de grandes companhias. Tal coisa não voltou a acontecer pois as grandes empresas começaram a adiantar-se, quer por compra, quer por litígio em tribunal, ou outros processos... e só voltou a ter expressão no software com a explosão computacional do final do Séc. XX.

Um desses muitos inventores foi Tesla, a quem tem sido atribuído um certo misticismo. Creio que Tesla terá sido o primeiro a perceber que a recepção de ondas hertzianas podia ir além da transmissão de sinal, poderia servir para transmitir energia sem fios.
Afinal, se as ondas produziam um sinal eléctrico, esse sinal eléctrico continha energia. A energia ia do transmissor para o receptor, e assim bastaria uma antena potente para transmitir energia, e não apenas sob a forma de sinal.
Mais, o nosso Sol não emite apenas ondas na zona do visível, como é óbvio... emite outras ondas eléctricas, que passam pelas nuvens ou paredes, e poderiam servir painéis "solares". Estes painéis "solares" não seriam para a luz visível, mas sim para a luz invisível - para as ondas de rádio, energia gratuita emitida pelo Sol.

Energia gratuita fornecida pelo Sol a alimentar aparelhos eléctricos seria um pesadelo para uma nova forma de negócio - a energia eléctrica através de fios. Assim, as ideias de Tesla, que surgem tão simples quanto o rádio de galena, eram um problema comercial. 
Energia gratuita no mundo inteiro tornava os cidadãos independentes das companhias eléctricas... e como se sabe, a dependência energética é uma forma pacífica de controlo dos povos.
Bom, mas não há aqui apenas "teoria da conspiração", porque a quantidade de energia aproveitável num painel solar para a luz visível é maior do que seria para a "luz" invisível, e os primeiros aparelhos eléctricos requeriam grande potência. Era pois mais natural escolher o caminho da potência eléctrica com fios, do que a fraca potência emitida pelo Sol, que inicialmente não seria aproveitada com eficácia.
Porém, os progressos feitos posteriormente, permitiriam ter hoje aparelhos eléctricos, pelo menos os mais simples, a funcionar com essa energia gratuita, vinda do Sol.

Uma maneira fácil de compreender como as ondas de rádio transportam energia é um microondas.
Como a frequência é mais baixa do que o visível (a luz), as ondas não aquecem apenas o alimento por fora, entram dentro da sua estrutura, e a vibração que transportam aquece os alimentos também por dentro. Portanto, como é óbvio, a energia das microondas emitida pelo Sol, é muito mais pequena do que a produzida no forno de microondas.
No entanto, não deve ser desprezada essa energia, e ainda que isso não seja reconhecido assim, creio que o melhor exemplo de aquecimento por ondas solares não visíveis será o caso do igloo. Não será apenas o calor humano que permite passar de -50ºC exteriores para temperaturas positivas até 16ºC. Até porque ninguém entra nú no igloo, e a temperatura corporal de 36ºC é retida pelas vestes. Também não foi considerado mais eficaz pelos Inuit escavarem caves no gelo ou na neve. Ora, o que se passa, na minha opinião (não consegui encontrar dados para o efeito), é que a estrutura do igloo permite exposição às ondas solares na frequência rádio, e são essas ondas que aquecem parcialmente o ar interior, esse aquecimento é contínuo, porque não é perdido pelo isolamento térmico da bolsa de ar do igloo. Uma cave serviria o mesmo efeito isolador, mas reteria mais o ar frio (que desce), e a maior quantidade de gelo não permitiria uma passagem tão facilitada das ondas rádio. 
Aliás, outra evidência é que numa gruta ou caverna pode haver uma transição para um clima mais frio, mas esse frio a partir de certa altura não aumenta com o afastamento da entrada. Acresce que se fosse o calor solar a aquecer o solo, dada a resistência térmica, pouco iria além de uns centímetros, começando a arrefecer drasticamente. 
No entanto, mesmo num inverno gelado o solo consegue manter uma temperatura superior, que não congela a terra abaixo, e isso pode ser explicado pela retenção da energia das ondas de rádio solares, num efeito tipo microondas. Claramente que a temperatura do interior da Terra só conta para grandes profundidades, quando a zona da crosta é muito afectada pela proximidade do manto.

Bom, isto para concluir que há uma energia considerável nas ondas de rádio vindas do Sol, e que pode haver painéis solares dentro de casa, destinados a captar a energia dessas ondas, e não apenas painéis solares exteriores para as ondas de luz visível. Se um simples fio de cobre permite captar energia para ouvir música num auricular, uma parede deles permitiria energia gratuita para muito mais...

Há outras considerações sobre invenções de Tesla que me parecem resultar de más interpretações destas ideias, que por si já são suficientemente interessantes.

Outra questão completamente diferente será a de saber se tais aparelhos eléctricos poderiam ser já conhecidos na Antiguidade e, tal como tantos outros, ter sido mantido como segredo durante séculos ou milénios. Aqui é mais difícil ajuizar... mas há a evidência da Bateria de Bagdade, no que diz respeito à energia eléctrica, e as lâmpadas egípcias também podem ter existido.
No que diz respeito às ondas rádio, a galena era uma substância de onde se extraía o chumbo, e como o chumbo fez parte de toda a mitologia alquimista, na sua transmutação para ouro, não seria um elemento estranho, tal como não seria o cobre. O circuito é razoavelmente simples para se poder encontrá-lo acidentalmente, ao manusear cobre e galeno com uma pilha de Bagdade. Portanto, ainda que não seja nada inverosímil, também não há outros sinais que apontem nesse sentido. Fica assim a dúvida sobre a antiguidade dos rádios de galena.

Thomas Dolby - Airwaves

sábado, 31 de maio de 2014

Nebulosidades Auditivas (14)

Ramstein, Alemanha. 
Trata-se do centro de operações da USAFE (United States Forces in Europe) desde o final da 2ª Guerra Mundial. A construção foi iniciada em 1948-51, envolvendo 240 mil trabalhadores, a maioria dos quais imigrantes de outros países europeus, dada a escassez de população alemã após o confronto.
 

Após a sua rendição incondicional, a Alemanha foi dividida em zonas sob administração do vencedores, desde a Rússia, Inglaterra, Estados Unidos até à inoperante França. Tal como no caso da derrota napoleónica, a França emergia como vencedora após estrondosos falhanços militares.
O Plano Marshall previa uma ambiciosa política de americanização da sociedade europeia, ainda muito presa às grilhetas da sua tradicional hierarquização aristocrática e burguesa. Em certa medida, à Alemanha Ocidental seria dada toda a possibilidade de reemergir do caos da guerra. 
Para evitar as habituais disputas alsacianas entre França e Alemanha, numa fronteira sempre instável, a reconstrução europeia passou também pelo acordo sem precedentes da CEE. O renascimento alemão seria enquadrado num acordo europeu, e quanto ao aspecto militar houve ainda maior cuidado Aliado.

A Alemanha Ocidental poderia ter polícia, mas seria vedado reconstruir o exército.
Para colmatar esta falha de defesa, e perante a ameaça soviética instalada na vizinha Alemanha Oriental, os Estados Unidos encarregaram-se de assegurar a defesa alemã.
Ramstein é a face mais visível dessa ocupação militar americana, que teria o propósito de defesa.
Ora, entretanto deu-se a queda do muro de Berlim, e a junção das Alemanhas parece ter sido algo anuído por Gorbashov a Helmut Kohl, na esperança de uma aliança económica que lhe permitisse evitar o colapso da estrutura comunista decadente.
O muro caiu, as Alemanhas reuniram-se, mas Gorbashov caiu pelo desmoronamento da base da União Soviética. Dir-se-ia que a Guerra Fria tinha acabado, houve festa, concertos em Berlim... mas os americanos, é claro que não saíram de Ramstein.

Ramstein permanece americana, e dado o contexto de restrição ao exército alemão, será complicado entender essa presença como permanente ajuda defensiva para além do quadro da NATO. Efectivamente, a manutenção do império requer o controlo de pontos estratégicos, e Ramstein é um deles, tal como são outras bases militares americanas em diversos pontos do globo, talvez negociadas com mais aspecto de acordo do que de imposição unilateral.

Rammstein é uma influente e polémica banda alemã, que aparece em 1994, quando estava claro que os americanos não iriam deixar a Alemanha, apesar da queda do muro.
A banda argumentaria que o nome se referia a Rammsteine (grandes pedras nos portões contra aríetes), mas foi entendido que se referia à base militar Ramstein... só por causa do acidente de 1988, num festival aéreo

Porém, a discografia da banda parece apontar noutro sentido, como é de alguma forma evidente no tema Amerika, com um refrão elucidativo: "we are all living in America"

Rammstein - Amerika

Para além de toda a paródia à presença americana na Lua, o tema era uma contestação à omnipresença americana, que ficava evidente em "this is not a love song". 
Como a presença na Lua é entendida como indiscutível, a paródia passava mesmo por simples paródia, e o efeito pretendido foi inofensivo, sendo mais evidente a crítica à globalização norte-americana.

Os vídeos dos Rammstein, apesar de poderem ser violentos, são muito bons e exemplo disto é o vídeo que acompanha o tema Mein Herz Brennt, ilustrando uma instituição decadente que mantém presos adultos, mas que são tratados e guardados como crianças.
Mein Herz Brennt - Rammstein

Intencional ou não, há uma analogia que se pode estabelecer... a pressão psicológica exercida sobre os alemães pelos crimes da geração anterior, levou a nova geração a ser invadida por demónios, fantasmas doutros tempos, permanecendo com máscaras infantis, guardados por uma tutora entretanto envelhecida, que exerce o seu poder retendo o crescimento psicológico das crianças, entretanto já adultas, com a justificação de demónios, que são afinal produzidos internamente.
Que conexão com uma sociedade que trata os habitantes com palhaçadas infantis, que usa os medos e ameaças que o próprio poder fabrica, para assim poder condicionar o entendimento geral à infantilidade, e assim manter o seu poder?

Por muito que se tente fazer crer que estamos numa sociedade diferente, estamos numa sociedade criada e mantida pelos fantasmas não exorcizados da 2ª Guerra Mundial, com todos os terrores do holocausto. Com nazis que pareciam respeitar todas as Convenções de Genebra quanto aos prisioneiros de guerra, mas que afinal cultivavam todo o tipo de horrores imagináveis, e não antes imagináveis, a uma mão-de-obra judia que lhes era útil para sustentar a máquina de guerra. 
Que isto tenha escapado aos serviços secretos aliados, que os alemães tenham deixado sobreviventes nos campos para depois servirem de testemunhos contra si em Nuremberga, ou como se teriam alimentado os presos entre o abandono alemão e a chegada dos aliados (mais preocupados em ser os primeiros a chegar a Berlim...), pois isso são questões para as quais não se costuma encontrar resposta.

O passado está sempre entre a realidade e a ficção, e para além de provas, por vezes algo contraditórias, só resta a crença, num ou noutro sentido.
Os fantasmas, esses, existem indubitavelmente, e foram sempre levados às gerações que se seguiram, sob forma de história, umas vezes menos credível do que outras.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Nebulosidades auditivas (13)


"The Him" - New Order - 1981

Some days you waste your life away
These times I find no words to say
A crime I once committed filled me
Too much of heaven's eyes I saw through
Only when meanings have no reason
They're taken beyond your sense of right
Small boy kneels, wandering in a great hall
He pays pennance to the air above him
White circles, black lines surround me
Reborn, so plain my eyes see
This is the reason that I came here
To be so near to such a person

I'm so tired, I'm so tired

"Bloodflowers" - The Cure - 2000

This dream never ends, you said
This feeling never goes
The time will never come to slip away
This wave never breaks, you said
This sun never sets again
These flowers will never fade
This world never stops, you said
This wonder never leaves
The time will never come to say goodbye
This tide never turns, you said
This night never falls again
These flowers will never die
Never die
Never die
These flowers will never die

This dream always ends, I said
This feeling always goes
The time always comes to slip away
This wave always breaks, I said
This sun always sets again
And these flowers will always fade
This world always stops, I said
This wonder always leaves
The time always comes to say goodbye
This tide always turns, I said
This night always falls again
And these flowers will always die
Always die
Always die
These flowers will always die

Between you and me
It's hard to ever really know
Who to trust
How to think
What to believe

Between me and you
It's hard to ever really know
Who to choose
How to feel
What to do

Never fade
Never die
You give me flowers of love
Always fade
Always die
I let fall flowers of blood

domingo, 25 de maio de 2014

NASA e NASmyth

Em 1885 um abastado inventor amador britânico, James Nasmyth decide publicar umas fotos da Lua:

 

Nasmyth não é primeiro a fotografar a Lua. Lewis Rutherfurd tinha-o feito com qualidade similar em 1865. 

Mas Nasmyth vai muito mais longe ao apresentar a foto da direita.
Deparei por acaso, há dois meses, com o livro
James Nasmyth & James Carpenter (1885)

Ora, quando vi a imagem da direita tive que perceber o que se passava! Como era possível em 1885 fazer uma foto da Lua com aquele grau de ampliação, quase só visto por via das sondas espaciais Apollo.

A história é muito curiosa, porque revela bem o engenho inventivo de Nasmyth.
Trata-se de uma foto sim, mas não é da Lua, é de um modelo da Lua.
Qual foi a ideia de Nasmyth?
Construir um molde que ia moldando até que se ajustasse às observações que fazia com um bom telescópio de 20 polegadas, que tinha adquirido. O problema é que as fotos através da lente ficavam sempre muito reduzidas face ao que conseguia ver... se conseguia ver mais, como colocar isso objectivamente, sem ser por mero desenho? 
Surgiu-lhe a ideia de fazer um modelo plástico da Lua, e ir moldando até que o que via no telescópio era igual ao que via no molde esculpido. O resultado foi surpreendente, pois as imagens assemelharam-se muito ao que se observava, e outros astrónomos validaram que as fotos de Nasmyth correspondiam ao que eles próprios viam nos seus telescópios.

Coloco aqui mais 9 imagens constantes do livro de Nasmyth
  

  

  

Bom, até aqui não haveria grande problema, mas Nasmyth decide dar um passo à frente.
Se tinha o modelo, e ele ajustava-se bem às observações, por que não tirar fotos do modelo usando outras perspectivas?
Assim, Nasmyth vai mesmo fazer uma foto como seria vista uma cratera por uma Apollo em órbita lunar:
Não parece assim tão errada quanto depois veio a ser publicitado pela NASA... Nasmyth até considera luzinhas das estrelas, algo que a agência preferiu omitir.

Bom, e afinal o que fazia a NASA nos anos 1960?

Pois... a NASA fazia modelos, usando a mesma técnica que Nasmyth tinha pensado 80 anos antes.
(artigo com várias fotos dos modelos usados pela NASA)

Não é negado que a NASA usou estes modelos para simulação das viagens, e que as filmagens usando estes modelos seriam muito próximas daquelas que foram depois divulgadas.

Para vermos como Nasmyth foi uma fonte inspiradora da NASA, basta ver uma idealização sua de um eclipse terrestre visto da Lua, que faz lembrar muitas das paisagens espaciais desenhadas na NASA.
Idealização de Nasmyth sobre um Eclipse Terreste visto na Lua.

Procurei imagens de eclipses terrestres, mas só encontrei verosímeis vindos da sonda japonesa Kaguya... mas parece que é suposto a última missão Apollo 17 ter tirado este:

... ora essa imagem da Terra em eclipse é suposto ter sido retirada daqui:
 
Eclipse terrestre visto da Lua (em web.mit.edu
e habitual foto da Terra - sem eclipse - divulgada pela Apollo 17.
[sim, eu sei, são todas a mesma]

... enfim, só se for mesmo para eclipsar o que resta da credibilidade da NASA, já que ninguém no seu bom senso pode considerar tal imagem minimamente verosímil. 

Como a imagem não é fácil de encontrar, creio que é melhor a NASA assumir a incompetência de se esquecer de tirar imagens de um eclipse terrestre, do que ousar que no bréu do eclipse terrestre havia luz e sombras verticais de astronautas... para além de várias falhas na própria difracção da luz solar, entre muitas outras coisas, onde a Terra ser gigantesca é o menor dos problemas.

Afinal, basta reparar que a imagem da Terra que escolheram para o eclipse é a celebrada foto da Terra feita pela Apollo 17. Pois, pois é! 
A menos que a Terra não tenha rodado e que as nuvens tenham ficado estáticas uns dias para a fotografia, parece que a manipulação é demasiado evidente - mesmo para os baixos standards a que a NASA nos tem habituado.

Para compreendermos como as palavras traduzem mais do que parecem, notemos no seguinte:
NAS-A
NAS-MYTH
... e que Nasmyth foi inspiração para o NASA-Myth, creio que ficou bem claro.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Questão do EU

A Questão do EU é geometricamente esta:

Eu ... um ... u3

É uma perfeita estupidez começar por assumir que nós somos seres insignificantes num pequeno planeta, num minúsculo Sol, numa entre muitas galáxias... isso poderá ser um ponto de chegada conclusivo, mas nunca um ponto de partida reflexivo.
Porquê?
Porque podemos fechar os olhos e as gloriosas vistas desaparecem, o eremita pode isolar-se numa cela insonorizada para recusar o mundo exterior, mas nunca conseguirá fugir de si próprio.

Suponhamos agora que o eremita ao encontrar-se em sintonia consigo, em auto-suficiência, recusava o exterior. O que acontecia? Entrava num sonho enfabulado de si mesmo. Definiria o seu próprio universo. É também isso que compram as drogas, uma alucinação conveniente. Se essa alucinação não fosse atenuada pela ressaca, poderia ter um destino ainda mais vegetal.

Podemos acreditar ter ido à Lua ou à galáxia mais recôndita do universo, sem nunca ter saído do mesmo sítio... tudo depende do tipo de alucinação que se acorda.
É perfeitamente possível pegar numa pessoa, enfiá-la num simulador qualquer e fazer-lhe crer que andou na Lua. Como já dissemos, as velhas questões filosóficas sobre a ilusão dos sentidos, tornam-se cada vez mais exequíveis com os simuladores de realidade virtual.

A dualidade entre nós e o exterior é feita por aquilo a que se habituou chamar "sentidos".
No entanto, como sabemos, num sonho, ou numa alucinação, não precisamos dos olhos para vermos, não precisamos das pernas para andar, nem dos ouvidos para ouvir.

Sonho embalado
Ora, a velha questão filosófica era distinguir o sonho da realidade... já que nada impediria esta realidade de ser apenas um sonho. Para esse efeito, as respostas científicas valem zero, são profissões de fé.
Pior, as comunidades, os grupos, justificam-se diminuindo o indivíduo.
Glorificam heróis para representar o grupo, mas isso serve uma diminuição dos outros indivíduos.
Os grupos precisam de justificar-se pelas suas heranças.
Um grupo é sempre incompleto, porque não tem unidade nas diferenças individuais.
No máximo pode procurar unidade na forma de um líder... mas isso corresponderia a uma anulação efectiva dos restantes, surgindo como extensão corporal desse líder. Como a anulação dos restantes não se poderia efectivar, a menos de seres robotizados, a sua manifestação será sempre uma perturbação à unidade.

Por definição, a unidade existe apenas no indivíduo. É ele que agrega em si, de forma harmoniosa, diferentes manifestações mentais, que até poderiam corresponder a diversos indivíduos, como personagens num conto, mas que sabem conviver juntos num só corpo, num só cérebro.

pSismos
Que sentido tem um sujeito afirmar-se perante os outros como solipsista?
A posição do "eu" como única entidade decorre de uma deficiência da noção.
O "eu" só poderia ser considerado como único num universo estático.
Assim que há mudança, temos duas hipóteses: - ou o "eu" controla por completo essa mudança, ou ela é-lhe alheia.
Se controla por completo a mudança, não há nenhuma mudança... porque efectivamente já estava prevista antes, já existia em si conscientemente no momento anterior.
Vemos assim que a posição solipsista é puramente insustentável na existência de tempo.
Um solipsista coerente está congelado.

Daqui deveria seguir-se o bipsismo... mas o termo não existe, e há múltiplas definições de dualismo, nenhuma das quais ajustáveis muito ajustáveis ao que vou dizer. Talvez a mais próxima seja ontológica, no dualismo yin-yang do taoísmo, ou a uma dança de Xiva... mas mesmo assim usa uma definição temporal, passando mais a triplicidade.

Bipsismo. 
Bom, mas o que é então este bipsismo?
Definida a consciência no "eu", aparece inevitavelmente o "não eu" - ou seja, tudo o que nos é alheio, sem um nexo remetido ao "eu".
Até aqui parece ser uma mera dualidade entre "eu" e "não-eu".
Começa por ter diferença, porque a própria noção temporal nos é alheia... não controlamos o tempo. Este "não-eu" surge assim como uma entidade imensa... englobando tempo, espaço, ideias, etc.

O bipsismo consiste em assumir que apenas existem estas duas entidades, ao invés de uma, e segue-se assim naturalmente ao solipsismo.
Que estas duas entidades existem, é inegável, tão inegável quanto o "eu" existir.
A questão é saber se o "não-eu" tem que ser necessariamente múltiplo, ou pode ser visto como uma única entidade, nesta perspectiva dual.
O mais próximo que temos disso é a relação unipessoal com Deus, mas apesar de se dizer que está em a toda a parte, ninguém assume que Deus seja simultaneamente a vizinha, o padeiro, e o piriquito. Pode-se admitir "estar" temporariamente, mas não "ser".

Ora, aceitando que o "não-eu" é uma entidade conectada, entra-se na suprema "teoria da conspiração" - tudo o resto está em oposição... numa forma de Deus unipessoal, se quisermos. Só que os processos lógicos têm o reverso da medalha, e seria igualmente válido na perspectiva oposta, em que o "eu" passa a ser o "não-eu".
Bom, mas que entidade controla a relação entre o "eu" e "não-eu", a sua evolução?

Tripsismo
O controlo da evolução por um "não-eu" remete pelo menos para uma entidade superior formada pelo par ("eu", "não-eu"), que não pertence a nenhum dos dois, a menos que se assumisse que o "eu" era uma subparte do "não-eu", algo contraditório por definição.
Automaticamente vemos que o "não-eu" é uma entidade de alguma forma circunscrita à lógica, e há noções perenes, automáticas, matemáticas, que escapam a qualquer controlo, seja do "eu" ou de um "não-eu" mais personalizado.
Assim, devemos falar no "eu", no "não-eu", e nos automatismos, lógicos e matemáticos, que circunscrevem os dois.

Na evolução temporal (cronos), para além de cada um, existe a fronteira (raia) que delimita.
É uma entidade independente, é o corte adamantino que faz a separação entre o "eu" e o "não-eu".
Sabemos que há alguma previsibilidade na evolução dessa linha fronteiriça, pelas leis da natureza, pela lógica, e assim a relação entre "eu" e "não-eu" não é arbitrária. Pode ser algo caótica, pelo que desconhecemos, mas é também algo ordenada pelo que conhecemos.
Assim, o supremo teórico da conspiração pode ficar descansado porque não há nenhum poder ilimitado do "não-eu" sobre o "eu". Um espírito racional tem meios inerentes para recusar o ilógico. O ilógico só tem existência temporária em discursos, em pensamentos, não pode ter existência na realidade.

Face ao bipsismo há uma pequena grande diferença - não se tratam de duas entidades que interagem de qualquer forma... há regras, e um caminho determinado para ambas.
A determinação não é pré-determinação, é um traço que já separou o "eu" do "não-eu", do princípio ao fim.
Qual fim?
O fim do "eu" apresentaria o "não-eu" como entidade única... no entanto tal coisa só se definiria como negação do "eu", e por isso o "eu" estaria inevitavelmente presente.
Esta dualidade é arbitrária. Passamos então ao outro lado do espelho.
O fim do "não-eu" apresentaria o "eu" como entidade única... no entanto tal coisa só se definiria como negação do "não-eu", e por isso o "não-eu" estaria inevitavelmente presente.
Esta segunda redacção é mais fácil de aceitar, porque nos parece absurdo poder eliminar o "não-eu", mas como vemos é só uma questão de mudar os nomes.

Os outros
Tudo isto parece esquisito, porque estou em terrenos de que ninguém fala ou ousa falar.
Na realidade, uma vez percebido, é simples.

Podemos prosseguir na análise do não-eu, continuando nas divisões.
Uma divisão óbvia é assumir que o não-eu é composto de várias entidades não ligadas. No entanto isto é uma pura suposição de vivência, não há nenhuma certeza que nos diga que o padeiro, a vizinha e o piriquito são personagens diferentes e não são emanações da mesma entidade. É claro que todos vão dizer que não são... mas é essa consistência que temos que concluir, e não assumir. Até porque os próprios não poderiam fazer crer diferente, pela consistência do seu papel.

Como tivemos oportunidade de referir no texto Truman a hipótese de um indivíduo estar sozinho, sendo completamente manietado por um exterior organizado, é teoria de conspiração, mas também hipótese de inegável consistência. Só que quanto mais o exterior se define em função do interior, maior é a potência do impotente. A dualidade torna-os equipotentes lógicos.

Já concluímos que o "eu" tem que assumir pelo menos a existência de um "outro", e será uma entidade igualmente inteligente porque responde dessa forma. É inútil pensar que o que se nos opõe ou é mais ou é menos inteligente. A inteligência está definida à medida do receptor, e por isso o receptor tem a inteligência necessária para o seu completo entendimento do seu universo. Isso implica não olhar só para além de si, implica olhar para si, antes de mais. O completo entendimento não é o entendimento total, é antes de mais o entendimento da razão das limitações.

A análise da dualidade entre "eu" e "não-eu" não garante a existência de múltiplos outros. Existindo muitos "eus" existem igualmente muitos "não-eus". Se os "eus" estão separados, os "não-eus" não estão, têm uma parte conjunta, que se manifesta na complementaridade comum. A isto deveria ser dado um outro tipo de atenção... mas não é aqui o propósito.

Para termos as coisas mais claras, conhecidas as possibilidades na internet, um observador exterior pode pensar que eu e os comentadores somos todos a mesma pessoa, eu posso achar que diferentes comentadores são o mesmo, etc... Nem é preciso inventar, esse tipo de questões já se colocou aqui.
A interacção na internet tornou estes assuntos mais claros, mas nada impede que eles se coloquem mesmo ao nível da realidade que admitimos, especialmente com o advento de androides manietados.
No entanto, estas questões são mais antigas.
Por exemplo, quando era admitido as pessoas estarem "possuídas por espíritos".

Hoje em dia, quando vemos alguns discursos repetidos...

... só nos resta agradecer a Ayrault e Hollande a ilustração de como um espírito se pode manifestar em dois corpos distintos, sem estar em nenhum deles.

17/05/2014

sábado, 10 de maio de 2014

Redescobertas

Há um fenómeno muito interessante na redescoberta.
As descobertas não se dão em simultâneo, porque as pessoas são diferentes, e aquilo que apreendem de uma informação não é o mesmo, e é até diferente em tempos diferentes, porque o próprio já é diferente.

Internet
O aparecimento da internet foi sintomático para vermos o efeito das redescobertas.
O meio científico foi o primeiro a desenvolver a internet, mas esta teria interesse limitado se tivesse ficado por ali, ou pelas empresas de tecnologia. Foi a expansão a outros quadrantes da sociedade que lhe deu maior ânimo.
Uns sectores mantiveram-se mais afastados do que outros. Sempre houve quem considerasse ser coisas doutros, que não era para si, que poderia obter o mesmo doutra forma, etc...
No entanto, a cada vez que um novo sector redescobria a internet, novas coisas eram acrescentadas.

Para quem já conhecia o assunto, era quase uma tortura apanhar com essas redescobertas, até porque muitas vezes eram apresentadas de forma diferente.
Cada um julgava que tinha descoberto a roda, e até os sectores do Estado iam experimentando as novidades, julgando que tinham descoberto a panaceia... torturando os pacientes com burocracias.

No entanto, no meio do processo, acabaram mesmo por surgir novidades, por fenómeno social.
Assim, quem tinha visto a internet no início, e se colocasse nesse âmbito, passava ao lado do crescente fenómeno popular das redes sociais. Simplesmente não lhes dava importância.

Quem julga que já sabe, pura e simplesmente ignora o resto.
Lembro perfeitamente um amigo achar que a mulher era "maluca" porque lhe disse para procurar uma coisa na internet sem lhe dar o endereço exacto. 
Ora, antes do Altavista, Google, etc... não havia motores de procura. 
Nessa altura só se seguia a informação por cliques... ou sabendo o endereço exacto. 
Sim, foi há muito tempo, na pré-história, isto é, há quase vinte anos!
Quando lhe disse que ela tinha razão, ele ficou muito atrapalhado, porque usava a internet habitualmente... mas seguia a velha receita, que funcionava, mas era limitada.

Por outro lado, quem se habituou ao Google, poderia questionar para que servia o endereço em cima, e já raramente sabe o que é um URL e que esse URL era associado a uma sequência de números, o IP. 
Por exemplo, www.google.com ou 173.194.34.5 leva à página principal da Google (ver outros).

História de nomes perdidos
Quando se redescobrem coisas, é habitual cada comunidade colocar o seu nome, ignorando outros já existentes. Assim, apareceram expressões que caíram em desuso, mas tiveram o seu tempo... uma delas o "portal", outra "autoestrada da informação", etc.

Este tipo de informação - nomes alternativos - tende a perder-se com o tempo, e a prestar-se à confusão. A certa altura não se sabe se é referida a mesma coisa ou não.
Isso foi particularmente notório na época dos descobrimentos. 
Como já percebemos, houve múltiplos redescobrimentos, porque as coisas eram ocultadas. Ficava um nome de uma ilha, que depois já não se sabia a que ilha correspondia. Podem ter havido dezenas de nomes diferentes para a Austrália... tantas vezes foi redescoberta entre os Séc. XVI e XVIII. Nova Holanda, Nuca Antara, Austrália do Espírito Santo, Java Maior, Terra Magalhanica, Taprobana, Nova Guiné... são alguns exemplos conhecidos e outros candidatos que junto. 
Da mesma forma, a América foi entendida como sendo a Atlântida no Séc. XV, e isso ainda se manteve presente nos séculos seguintes, até se propagandear de novo que seria ilha diferente.
Outros nomes que me parece terem sido usados para América foram Etiópia e Guiné. 
Etiópia quando se pretendeu, como Colombo, ignorar a América... assim o Brasil apareceria em latitudes etíopes. 
Guiné quando se percebeu  que isso não era assim... depois, por via do Tratado de Tordesilhas, os domínios americanos correspondentes a essa Guiné oculta reclamada por D. João II, saíram da parte portuguesa, e a Guiné portuguesa ficou apenas em África. Quando se volta a usar o termo Nova Guiné, é para a outra grande extensão que ficaria oculta e que deverá ter incluído a parte australiana.

Claro, perante o significado directo actual de uma paragem ao seu nome, parece algo ridículo pensar que o Golfo da Guiné pudesse ser o Golfo do México... Por isso, quando se lêem textos antigos é melhor não fazer a associação ao que ficou depois. É preciso questionar por que razão a viagem de Colombo à América colocava em causa os "domínios da Guiné" de D. João II... se essa Guiné estivesse em África.

Por isso as palavras, apesar de iguais, nem sempre eram referidas com o sentido que lhes damos hoje, e se isso já é complicado dentro da mesma língua, mais complicado é nas traduções de línguas perdidas.
Há uma grande quantidade de ilhas referidas nos documentos dos Séc. XVI e seguintes, de que se perdeu a correspondência, e pensar que o nome igual é suficiente é hipótese ligeira. Houve muitos nomes iguais em paragens distintas. Houve várias ilhas de Santiago, de São Vicente, do Maio, etc...

No meio deste processo, há quem remeta estas considerações para teorias "malucas", e outros que sabendo mais, ficam apenas a pensar - olha mais um que julga que descobriu a roda! O problema é que seguindo por caminhos diferentes, o resultado pode ser parecido, mas nem sempre é o mesmo. 
Quem descobre tende a dar pouco valor de novidade à redescoberta, prefere ficar preso ao que sabe, e vai tentando desvalorizar o que não sabia.

Filosofia
Filosofia é aquela disciplina que aparece no ensino secundário e para a maior parte das pessoas serviu para saber que Platão e Sócrates foram gregos importantes.
As coisas são como são, e quando as repostas são dadas antes das perguntas, a sensibilidade é outra.
A filosofia só faz sentido depois de surgirem naturalmente as perguntas.
Podemos ensinar uma criança a decorar o nome de milhares de símbolos chineses, mas apesar de estar familiarizada com esses símbolos, isso não significa que entenda sequer uma palavra de chinês.

Nos dias que correm, por via da tecnologia, do cinema, da realidade virtual, etc. é mais natural que as antigas perguntas surjam como coisas novas, a quem nunca as percebeu antes.
Vamos entrar num processo de redescoberta da roda... mas devemos ter em atenção se são apenas redescobertas, ou se pode surgir algo novo entretanto, por razão do caminho ter sido diferente.

Um filme muito interessante que apareceu em 2009 é Surrogates
How do you save humanity, when the only thing that's real is you?

Por acaso também vi publicidade a um livro que se vende:
... e antes de pensar que é mais uma treta de auto-ajuda, fui lá ver o âmbito do bicharoco.

Ora, o que se passa é que numa sociedade educada cientifica e tecnologicamente, os cientistas começam tarde a perceber os problemas que a filosofia abordava há milhares de anos.
Porém, vêm como uma visão diferente, não chegam à filosofia pela leitura dos filósofos... chegam à filosofia pelos paradigmas científicos. A alegoria da caverna de Plarão só é entendida quando pode ser simulada num laboratório qualquer... enfim!

Quem escreveu o livro não viu o filme, ou não percebeu uma grande parte dos filmes de ficção científica, não interessa.
O que interessa é que a realidade virtual que para um filósofo antigo poderia ser observada num simples sonho ou alienação, para a maioria das pessoas educadas cientificamente só aparece mesmo quando há máquinas capazes de fazer o quê? - De simular sonhos ou alienações...

Mas o contexto é diferente... é diferente, porque o sonho é suposto não ter ligação com a realidade, enquanto que os desenvolvimentos científicos vão permitir ligar as simulações à realidade.
Esse é o contexto do filme Surrogates.
As pessoas deixam de interagir na realidade. 
Passam a controlar robots, androides, e é através desses androides que vivem a nova realidade. 
Muito semelhante ao que se pode passar na internet, onde podemos não saber com quem falamos, onde muitos serem apenas um, ou vice-versa, mas passando de um mundo virtual ao real.

Desejo... esse desconhecido
A interacção com as novas tecnologias parece permitir grandes novidades, mas a maioria dessas novidades são uma questão de simples relação entre fé e desejo.
O que vemos nesses desenvolvimentos científicos é a vontade se ser mais do que se é, como se o segredo de maior felicidade fosse um ajustar da realidade aos nossos desejos.
Os nossos desejos foram evoluindo por uma multiplicidade de factores, e há alguns que fazem sentido, e outros que não fazem sentido nenhum. 
Entre os desejos que fazem sentido é uma vontade de melhorar a saúde, o conforto, ou contactar com entes queridos que desapareceram. 
Entre os desejos que não fazem sentido é a vontade de ganhar protagonismo face aos restantes, de obter imediatamente o que se quer, etc... São desejos infantis, próprios de uma herança animal. 

São desejos possíveis, mas as pessoas não vêm até onde eles podem ir.
O desejo de protagonismo face aos outros implica uma menorização dos outros, e isso leva a uma contradição. Primeiro porque se todos têm o mesmo desejo, ele não pode ser concretizado na mesma realidade. Segundo, porque isso criaria realidades diferentes, onde cada um estaria afinal isolado. Terceiro, porque nessa realidade isolada onde era o "maior do bairro", era apenas um deus dos bichos - os outros não podiam ser iguais a si, porque ele tinha que ser superior.
Obter imediatamente, ou a muito curto prazo, o que se quer, leva também a uma previsibilidade. 
A pessoa passaria a saber que os seus desejos seriam atendidos.
Se evitar o que se não quer, ou tolera, me parece algo desejável, no acordo com os outros, já ser realizado o que se quer implicaria uma previsibilidade. Alguma previsibilidade é necessária, mas um excesso de previsibilidade mataria-nos o interesse por novas coisas.

Implantes robotizados e outras tretas
Assim, a ciência caminha para a descoberta árdua da filosofia. 
Haverá uns tantos idiotas que vão arranjar cobaias para acrescentos cerebrais, desde chips para aumento de memória, com interacção com máquinas, etc...

Podemos ter um indivíduo ao nosso lado que joga xadrez como o Deep Blue, que faz um milhão de contas num segundo, que tem todos os livros do mundo na cabeça, algo por exemplo, como é sugerido no filme Transcendence (que ainda não vi):
Transcendence - trailer 2014

Porém, a ideia de que isto se trata de "transcendência" é o mesmo do que pensar que um adulto transcende uma criança. Podemos ter mais faculdades, mas se os conceitos são os mesmos, nada de diferente foi alcançado. Certamente que não é tendo mais memória ou mais capacidade de cálculo que se atinge algo de novo.
Atinge-se o mesmo, apenas em quantidade superior.
Depois, o óbvio.
Se jogamos xadrez melhor que o Deep Blue, qual o interesse de jogar com um humano?
Pior, como a capacidade das máquinas irá em breve permitir determinar qualquer jogo de xadrez, qual o interesse do jogo? Nenhum! Perde interesse, simplesmente.
Aumenta-se a complexidade do xadrez? Mais peças, maior tabuleiro? Para quê? Não era um simples jogo? Fica mais interessante depois? Não! Apenas aumenta a complexidade.
O que interessa é que o número de parceiros diminui...

Quem joga xadrez percebe a beleza de algumas jogadas, mesmo a um nível médio. Onde está essa beleza, colocada nuns quadradinhos idiotas com poucas peças? Essa beleza está na nossa cabeça, no facto de podermos desfrutar com o nosso conhecimento - ser surpreendidos e surpreender.
Quando a surpresa desaparecer, desaparece a beleza.
Quando o conhecimento aniquilar o desconhecimento desaparece o propósito de vida.

Não somos definidos pelo que temos. Somos definidos pelo que nos falta. É isso que nos move.
À noção de Deus nada falta, e assim nada o moveria.
Um Deus estático é o Universo intemporal, como Espinosa notou.

Quem não sabe o que lhe falta, move-se como uma barata tonta, perdida em múltiplas direcções.
Pode acrescentar o lixo todo que quiser ao seu conhecimento, mas só aumenta o seu lastro.
Só precisamos do conhecimento necessário para ser surpreendidos com novo desconhecimento.
Quanto mais depressa se procurar o conhecimento completo, com menos nos surpreenderemos.

Se me falta alguma coisa, é mais que os outros percebam isto... mas isso, como é óbvio, pouco depende de mim.