segunda-feira, 21 de março de 2016

Os pássaros (6) de Aristófanes

As peças de Aristófanes concorriam a festivais exibidos em Atenas, em particular "as Aves" terá concorrido ao Festival de Dionísio, onde obteve o segundo prémio (outro festival era Lenaia). Assim, em várias alturas, Aristófanes usa os pássaros para se dirigirem ao público, ou intimidarem os juízes do concurso, como será feito nesta passagem. 
Aristófanes, numa representação antiga.
A forma liberta como Aristófanes se dirige aos juízes, mostra que não havia especial vontade de lhes agradar, mas muito mais uma vontade de convocar ao público, e dessa forma obter talvez uma pressão sobre os juízes. 
O julgamento democrático poderia ocorrer enquanto o público não deixasse que uma casta ficasse liberta de aferição, e decidisse a seu belo prazer. O efeito de uma comédia ultrapassava claramente qualquer apreciação erudita, desde que o escritor conseguisse ridicularizar com sucesso os alvos caricaturados... essas imagens iriam permanecer no discurso corrente, atingindo os visados como farpas. 
Numa sociedade em que o "peso da imprensa" não se faria sentir como hoje, tragédias, e especialmente comédias, seriam uma forma indirecta de exercer um agudo comentário crítico à actuação política. De tal forma que Platão parece ter indiciado Aristófanes como um dos culpados pela condenação de Sócrates. Porém, como podemos ver neste trecho, o próprio Aristófanes seria crítico da perseguição feita a Diágoras de Melo, pelo simples facto de este se ter revelado ateu, recusando os deuses, e ficando assim ostracizado e com a cabeça a prémio em Atenas.

(em edição)
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As Aves 
(de Aristófanes)

continuação de (5)(4)(3) , (2) , (1)
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(após a fuga do inspector)

1º CoroDaqui em diante, é a mim, que tudo vejo e que tudo domino, que todos mortais oferecerão os seus sacrifícios e solenes preces. Porque o meu olhar engloba a Terra, preservando os frutos em flor, destruindo mil pragas de insectos, devorando os germes que saem do cálice, e nas árvores os frutos que assim se corrompem; destruo os que funestamente assolam os amenos jardins levam a raiva do seu contacto funesto, todas as criaturas rastejantes que tombam sob a minha asa.

Líder do 1º CoroHoje, mais que nunca, se proclama este édito: 
- "Um talento a quem matar o ateu Diágoras de Melo, e se alguém matar um dos tiranos mortos, também receberá um talento". 
Nós também, nós queremos promulgar o seguinte decreto: 
- "Se algum de vós matar Filócrato, o avestruciano, receberá um talento. Se o trouxer vivo, receberá quatro, pois é ele que vende no mercado, o espeto de sete tentilhões por um óbulo. Tortura os tordos, inchando-os para parecerem maiores, enfia as próprias penas nas narinas dos melros; junta os pombos presos numa rede, para que sirvam de chamariz a outros."
É isto que queremos anunciar. E se alguém mantém pássaros presos no seu quintal, é melhor soltá-los já, pois prenderemos os que desobedecerem, e esses irão servir de chamariz para prender outros homens.  

2º Coro (cantando): Feliz é na verdade a raça alada! Não necessita de casacos no inverno, e no verão os raios luminosos não nos provocam um calor sufocante. Mas, é junto aos prados floridos que habitamos, no meio da folhagem, que a divina cigarra, emite o seu canto ao calor do meio-dia, invernamos em cavernas profundas, convivendo com as ninfas da montanha, enquanto na primavera desfrutamos das bagas brancas, do mirtilho nos jardins das Cáritas [Graças].  

Líder do 2º CoroAos juízes, queremos dar uma palavra sobre a vitória no prémio em disputa:
- "Se nos forem favoráveis, iremos dar-lhes mais benefícios do que Páris recebeu:
-- Primeiro, as corujas de Laurium, que os juízes desejam acima de tudo, irão viver convosco, farão ninho nas vossas bolsas, e aí vão depositar as moedas;
-- Depois, sereis acolhidos como deuses nos templos, visto que elevaremos com empenas as vossas casas, à altura das águias.
-- Se tiverem algum cargo público, e pretenderem a pilhagem, dar-vos-emos garras de falcão;
-- Querendo fartar-se num jantar na cidade, lhes daremos um estômago como um papo.
- Mas, se vos virais contra nós, e nos recusais o prémio, pois arranjai tampas de metal, como as que usam para cobrir as estátuas. Tomai cuidado. No dia em que saírem com as vossas alvas túnicas, todos os pássaros vos irão cobrir de excremento.

PistéteroPássaros, o sacrifício é propício! Mas, não vejo nenhum mensageiro vindo do muro, para nos dizer o que se está passando... Ah! Aí vem um, extenuado como se tivesse corrido o Alfeu  [110 Km nos antigos Jogos Olímpicos].
1º Mensageiro (andando às voltas): Onde, onde, está ele? Onde, onde está? Onde está o nosso líder Pistétero?
PistéteroEis-me aqui!
1º MensageiroO muro está terminado!
PistéteroUma boa nova!
1º Mensageiro: É a mais magnífica obra de arte! A parede é tão ampla que os gabarolas Proxenides e Theogenes poderiam passar um pelo outro nas suas quadrigas, mesmo se fossem puxados por garanhões do tamanho do Cavalo de Tróia.
PistéteroMuito bem!

1º MensageiroO seu comprimento é de 100 estádios, medi-o eu mesmo!
Pistétero: Por Poseidon, isso é que se chama grande! E quem construiu tal obra gigantesca?
1º MensageiroOs pássaros! Não estava lá mais ninguém. Nem o trolha Egípcio, nem pedreiros, nem carpinteiros. Os pássaros fizeram tudo sozinhos. Nem podia acreditar nos meus olhos. Trinta mil grous com um fornecimento de pedras para as fundações, vieram da Líbia [África]. Foi tudo cinzelado pelos bicos dos frangos d'água. Dez mil cegonhas ocuparam-se dos tijolos, maçaricos, borrelhos, tarambolas, ocuparam-se de levar a água.
PistéteroE quem levou a argamassa?
1º MensageiroAs garças em cochos de pedreiro.
PistéteroMas como conseguiram pôr a argamassa nos cochos?
1º Mensageiro: Oh! Isso foi mesmo uma invenção surpreendente. Os gansos usaram as suas patas como espátulas, enterraram-nos na pilha de argamassa e depois soltaram-na nos cochos.
PistéteroAh! E que uso não se pode dar às patas?
1º MensageiroDeveria ter visto como, contra a cintura, os patos levavam os tijolos. Para completar a história, as andorinhas voaram com os bicos cheios de argamassa, e como se transportassem as crias, traziam as colheres de pedreiro nas suas costas.
PistéteroDepois disto, quem quer pagar a trolhas ou mercenários? Mas, diga-me, quem fez a marcenaria?
1º Mensageiro: Mais uma vez, os pássaros. Os pelicanos, carpinteiros inteligentes, esquadrilharam as portas com os seus bicos, de tal forma que se pensaria estarem usando machados num canteiro naval. Agora todo o muro está bem unido em toda a parte, é patrulhado com sineta na mão e as tochas estão acesas nas torres. Agora vou rapidamente tomar banho... a si de fazer o restante.
Líder do CoroNão está surpreso com a conclusão tão rápida?

PistéteroSim, por todos os deuses. Não dá para acreditar. Mas eis como chega outro mensageiro, vindo do muro... e tem a cara ferida!
2º Mensageiro: Alas! Alas! Alas! Alas! Ai de mim...
PistéteroO que se passa?
2º MensageiroOcorreu uma terrível revolta. Um deus enviado por Zeus passou pelas nossas portas, e penetrou no Reino dos Ares, sem o conhecimento dos Gaios, que guardavam durante o dia.
PistéteroUm acto terrível e criminoso. De que deus se tratava?
2º MensageiroNão sabemos, apenas sabemos que tem asas.
PistéteroMas por que razão não enviaram patrulhas contra ele?
2º MensageiroDespachámos 30 mil falcões da legião dos Arqueiros Montados. Todas as aves com garras de gancho estão no seu encalço - o francelho, o milhafre, o abutre, a coruja, a águia, elas cortam o ar, que até ressoa com o bater das suas asas. Estão procurando em todo o lado pelo deus, que não pode estar longe. De facto, se não me engano, está vindo de lá. 
PistéteroÀs armas, às armas, todos, com fundas e arcos. Assim, todos os nossos soldados, prontos para atirar e atacar! Alguém me dê uma fisga!

Coro (cantando): Guerra, uma guerra terrível está irrompendo entre nós e os deuses! Venham, que cada um guarde o Ar, filho de Érebo, no qual flutuam as nuvens. Tomem atenção para que nenhum imortal nele entre sem que vós sabeis.
Líder do coro: Assegurem-se de todos os ângulos com o vosso olhar. Oh! Como se estivesse perto um génio alado, acho que podemos ouvir o som de asas. 

(continua)




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