segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O galo de Sócrates

Num texto sobre a primeira domesticação animal, o galo de bankiva aparecia como candidato originário de paragens indonésias ou melanésias. A popularidade europeia dos galináceos terá surgido como importação oriental, constando que não seria propriamente comum e acessível entre os gregos.

Basta notar que um presente amoroso de Zeus a Ganimedes terá sido um cocó...


Por esta indicação, podemos suspeitar que a oferta do cocó fosse tão exótica quando a oferta de um pássaro raro, como seriam provavelmente papagaios, araras, tucanos, etc. 
Ganimedes rolando um arco e segurando 
o cocó oferecido por Zeus (wikipedia)

A última frase reportada a Sócrates foi dirigida ao amigo Críton:
Κρίτων, τω Ασκληπιώ οφείλομεν αλεκτρυόνα, απόδοτε και μη αμελήσετε.  
Críton, a Asclépio devo um galo, cuida de não o esquecer.

Esta "última dívida de Sócrates" já recebeu diversas interpretações sobre o seu significado, parecendo suscitar alguma contradição entre a sua condenação herética, e a menção ao sacrifício de um animal ao panteão divino. Havendo referências de que o filósofo pareceria ver na morte uma cura para a tribulação da vida, a oferenda a Asclépio (ou Esculápio, no equivalente romano), podia também significar que agradecia esse efeito terminal, quando a cicuta já lhe tomava o corpo.

O nome grego aqui usado para galo αλεκτρυόνα nome não muito comum (há ainda κόκκορα, cocó), sendo usado ainda assim como prefixo de um tiranossauro - o Alectrossauro, cuja enorme perna exibia o típico polegar galináceo, e de dimensões não muito diferentes dos nossos Lourinhã-sauros.

Faço apenas esta referência porque o prefixo "Alectro", do galo (ou cocó), é demasiado próximo de "Electro" para não ser notada uma semelhança entre a ave que os romanos associavam aos gauleses (gallus), e o nome da liga metálica entre ouro e prata, ou o nome grego para um âmbar que inundava as praias germânicas (elektron).

Certamente que Críton terá feito por pagar a oferenda a Asclépio, que não era propriamente uma divindade do panteão clássico. Sendo considerado o "deus da medicina", a quem era prestado o juramento de Hipócrates, era um semi-deus entendido como filho do deus Apolo e de uma humana, Coronis.

A educação de Asclépio fora entregue ao famoso centauro Quíron, a quem se dedica o presente signo e constelação de Sagitário. O centauro teve como pupilo mais famoso o aqueu Aquiles, a quem instruiria no manejo da flecha (sagitta)
Aquiles e o centauro Quíron. 

A mitologia sagitariana coloca Quíron no fim do tormento infligido a Prometeu, abdicando da sua imortalidade para terminar com a dor com que o trespassara uma flecha envenenada de Hércules, aquando da sua aventura na captura do Javali de Erimanto (curiosamente, também Asclépio será colocado na época da captura de outro javali mítico, o Javali da Caledónia).

É natural que esta simbiose equestre dos centauros se pudesse reportar a tribos que praticamente cresciam sobre o dorso equestre nas grandes planícies tartáricas (que se iriam estender do Don ao Lena). Afinal essa caracterização rude dos centauros poderia ser aplicável aos Citas, tal como foi depois aplicável aos Hunos.

A Asclépio ficou associado o bastão com uma serpente enrolada, símbolo do seu conhecimento de artes médicas herdado de Quíron.

Ao contrário do caduceu de Hermes, caracterizado depois por duas serpentes enroladas em confronto, Asclépio tomara apenas uma das serpentes no seu bastão.

Os dois símbolos (o caduceu de Hermes e o bastão de Asclépio) foram e são usados para empresas, associações e instituições médicas e farmacológicas (ver este link, por exemplo).

Aqui é razoavelmente fácil considerar uma interpretação da escolha médica de Asclépio tomar apenas um lado serpentino.

Com efeito, a produção de drogas ou venenos enrolava-se em dois aspectos... um positivo para a cura de maleitas, mas outro negativo pela aplicação venenosa com efeito letal nas vítimas.
O centauro Quíron seria vítima do efeito da flecha envenenada de Hércules, contra a qual nem o tutor de Asclépio teria conseguido escapar. Assim, se é natural as associações médicas mostrarem o lado serpentino benéfico, já do ponto de vista farmacêutico a produção da substância, da droga, dissocia-se do fim para a qual é aplicada, e tanto pode enrolar para o lado venenoso como curativo, fazendo mais sentido nesse caso usar como símbolo o caduceu hermético.

O confronto da utilização benigna ou maligna de uma mesma substância, de uma mesma invenção, tem sido o profundo dilema que foi enredado num secretismo hermético, preferindo a sua oclusão à sua manifestação. Se o original caduceu pode ser hoje ligado facilmente à estrutura helicoidal do DNA, esse é apenas um aspecto interpretativo condicionado por um certo olhar. O ponto primordial é ainda que o mesmo conhecimento sobre o DNA pode levar a utilitarismo diverso. De um lado as aplicações médicas no sentido benigno, do outro lado as aplicações militares no sentido maligno.
De pouco vale pensar que umas compensam ou justificam as outras... é inútil e perigoso considerar que um explosivo será apenas usado com fim benigno. A sua utilidade para uso maligno pode ser igualmente apelativa, e não pode ser evitada. Esse é o perigo inato do conhecimento, presente desde o início, desde o instante em que a serpente o revelou - a ponta da flecha serviria a caça, mas o alvo estava colocado na sanidade ou no caos da mente humana.

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