quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Di Ana

Uma boa parte do panteão divino antigo não prescindiu de deuses ligados à agricultura, normalmente colocados no feminino, na noção da fertilidade da Mãe Terra. Porém, parece claro que as noções religiosas não começaram com a agricultura. O aspecto fundamental de subsistência anterior era a caça, e essa evocação transcendente tem sido deduzida nas representações de animais em cavernas. 

Uma comunidade nómada, procurando território de caça, estaria muito mais preocupada com a existência de alimento do que com outros fenómenos naturais. As divindades de subsistência seriam primeiro os animais de consumo e só depois a terra e chuvas que ligavam à agricultura.
Um tal respeito a esses simples animais apenas o encontramos no Zoodíaco Chinês... até porque sabemos que os chineses comem de tudo, e assim a lista não se resume ao boi, ao porco, ao coelho, à cabra, ao galo, e é claro inclui o cão, o cavalo, o macaco, a serpente, o rato, e talvez já noutro sentido de presa e não de predador - o tigre e o dragão.

Omnivorismo
Não é uma questão de brincadeira quando se diz que "os chineses comem de tudo", porque foi também a diversidade alimentar dos primatas que permitiu o seu sucesso. Um leão poderia ser o rei da selva, mas morreria à fome sem carne, por mais fruta que tivesse à disposição. 
Ora, a sábia natureza criava estômagos dedicados, e não havia cá misturas alimentares - os animais foram criados como "gente esquisita", aceitando apenas um número reduzido de iguarias.
Por estranho que pareça, os omnívoros foram excepção e não regra... ou seja, o que fica por explicar na evolução darwiniana é por que razão a flexibilidade alimentar não se tornou regra, já que os animais mais esquisitos nos gostos passariam mais fome - a sobrevivência privilegiaria os mais flexíveis.
Para além dos humanos e alguns primatas superiores, são mais conhecidos os casos de ursos, porcos e ratos, ainda que haja outros exemplos, como o corvo. 
Esta evolução omnívora não se tratou assim de nenhuma prevalência especial de estômagos especializados de uma certa classe animal. Há omnívoros em diversos tipos de mamíferos e em aves. 
Os animais apesar de terem a sua sobrevivência dependente da flexibilidade, parece que fizeram gala em preservar a sua "cultura alimentar"... ignorando desrespeitosamente a lei darwiniana.

A ligação transcendente aos animais, invocada nas pinturas rupestres, ter-se-à perdido com a prevalência da agricultura.
Foi a agricultura que permitiu a explosão populacional, e o aparecimento de civilizações. 
Antes disso, os grupos de populações nómadas seriam necessariamente pequenos, porque apesar de serem omnívoros, os humanos dependiam essencialmente da caça. 
Só a agricultura permitiu a escala suficiente para alimentar cidades. 
Foi a agricultura que marcou os campos, que trouxe o panteão de novos deuses, não apenas os da terra e da chuva, mas também os da guerra - porque a propriedade ganhou um relevo superior.
É difícil perceber se a pastorícia foi anterior ou simultânea com a agricultura.
Tem razões para ser anterior - porque seria mais simples domesticar animais, mas até à necessidade de sedentarização agrícola, o gado não se desligaria do cajado, condutor de rebanhos de Pan.
Pan acabou por ser uma divindade primitiva, um fauno ligada à pastorícia, mas também com um cariz universal, como o próprio prefixo grego "pan" indica a panaceia, o lugar primeiro no panteão.
Goya - Pan e as bruxas

A agricultura veio dar outro alimento universal, outro "pan" - o pão.
As novas divindades ilustravam a fertilidade da Mãe Terra (Ma-Ter, mater), pela agricultura, no caso de Ceres associada aos cereais. A passagem para os novos deuses deu-se simbolicamente com o crescimento de Zeus pelo leite de Almateia - uma cabra. Aliás, a palavra carne liga-se a carneiro, e o gado caprino aparece como sucesso antigo na domesticação.

Ana
Ana é um nome comum, pela sua associação ao nome da mãe de Maria, avó de Jesus.
Ora uma divindade ligada à caça era Diana, e aqui entramos num ponto especulativo, entendendo que o nome Diana poderia ser composto - Di Ana. Com efeito Diana fazia parte dos Di Selecti (deuses seleccionados), onde o "Di" é uma declinação latina de "deuses". Por outro lado o prefixo "di" pode ser pronomial ou duplicador, não sendo assim de excluir Diana seja um nome composto.
Acresce que Ana era o nome antigo dado ao rio Guadiana, sendo áGua de Ana, ou áGua Diana, lembrando ainda o culto especial dedicado a Diana em Évora.

Mas vamos especular mais...

Ano e Iano
O deus que marcava o Ano era Jano ou Iano... ora o Ano Solar apenas se tornou relevante por via da agricultura, já que havia interesse em prever as estações. É preciso uma observação astronómica razoável para prever as estações, os tempos de sementeira... as plantas antecipam-no, mas tal previsão escaparia à observação descuidada. Por isso a astronomia passou a fazer parte de sociedades agrícolas de sucesso. 
Janus - olha o passado e o futuro do novo ano

O conceito temporal de Ano solar é uma necessidade agrícola. 
Que outros conceitos temporais existiriam antes?
Claramente o Dia Solar, e o Mês Lunar... de fácil observação directa.
Portanto se Ano se refere ao tempo solar, por que não entender que Ana se referia ao tempo lunar?
Afinal, para além de ser deusa da caça, Diana era também uma divindade ligada à Lua.
Acresce o nome de Anance, deusa grega ligada a Cronos, ao tempo, colocada no primeiro panteão grego como ligada ao destino, e à consequência lógica, pelas regras.


Se há regras marcadas por tempo lunar, o tempo solar seria digerido diariamente em anos.
Por isso, se não é novidade entender os cornos em Cronos, convém notar que o Cranus celta foi associado a Fauno, ligando-se mais a chifres ou cifras caprinas.
A versão taurina parece ser posterior, pois é explícita com o disfarce que Zeus usa para o rapto de Europa. Acresce neste aspecto a versão escandinava de Thor, que só ligamos a "Toro" ou "touro" pelos capacetes vikings com cornos bovinos - espécie que não seria nativa dessas terras.
Rapto de Europa por Zeus, disfarçado de touro (img)

Será apenas assim? Será o Tanas... invocando a divindade fenícia - Tano (Tanit), e a declinação "tano" ou "tânia" (as províncias romanas ocidentais tinham esta declinação - Lusitânia, Britânia, Aquitânia, Mauritânia, a que acrescem os Turdetanos). 

A Mauritânia Tingitana remete ainda para a península Tingitana, de Tanger e Ceuta, ou melhor, de Tingir e Seta. Porque é a forma antiga Septa, e não Ceuta, que tinge a expressão
Uma seta (septa - ceuta) em África...
usada exactamente para descrever a conquista portuguesa de Ceuta.

A forma "Tano" ou "Tana" será provavelmente derivada de Ana, onde se liga a Di-Ana enquanto divindade lunar. De facto na simbologia de Tanit aparece associado um crescente lunar, bem como uma ligação entre um círculo e um triângulo.

Diz Bernardo de Brito, acerca de Iano:
Daqui chamaram a Noé Iain ou Iano, que significa vinho. Neste campo fundou Noé a primeira cidade que houve depois do Dilúvio, chamada Saga Albina, e tomou o nome do seu fundador, a que chamavam Ogisam Sagam, que significa sacerdote santo.
Brito parece pretender colar o mito do dilúvio de Ogiges a Noé com a designação Ogisam.
Quanto à nomeação como Iano poderá remeter a uma mudança na contagem de anas para anos... ou seja, do ciclo lunar no tempo da caça de Di Ana, para o ciclo solar no tempo "agrícola" de Ianus. Esta é sempre a explicação mais fácil quando se pretende dar nexo à excessiva longevidade pré-diluviana - onde assim teríamos 900 anas a corresponder a bem menos de 90 anos.

sábado, 27 de setembro de 2014

Bolsas da Capivara

Normalmente somos tentados a falar sobre coisas importantes que faltam a gente pouco importante, mas a natureza compensa as coisas, criando em gente importante o desejo por coisas pouco importantes. Assim, há fortunas que se podem gastar nuns trapinhos ou adereços de moda, podendo chegar a valores que dariam para alimentar populações inteiras.

Não é o caso que aqui trazemos. A Hermés de Paris, está entre as marcas que fabricam as bolsas mais caras no mercado. Trazemos aqui uma pequena bolsa de 12.5 x 20 cm, cujo preço anunciado é de umas módicas 1330 libras, ou seja, mais de três vezes o salário mínimo negociado recentemente.

Como é óbvio, estas coisas são um fait-divers, resultado do desequilíbrio moral e intelectual duma elite decadente, sem noção do seu enquadramento universal, e interessam aqui o mínimo.

Interessam apenas o suficiente para introduzir a bolsa de Dogon, não da Hermés de Paris, mas sim de Dogon, um Anedoto representado nos frisos mesopotâmicos.
Dogon com uma bolsa, e a sua representação 
como Anedoto (ou Anunnaki), enquanto homem-peixe.

Pode ser considerado chic ter uma bolsinha com o nome do personagem, mas fazemos notar que para o conjunto ser mesmo chic, deve aparecer para além da bolsinha, a portadora deve exibir ainda uma pinha (não sei se a Hermés vende...) da maneira que se mostra em anexo:

Diversas representações de Anedotos com a sua pochette, e uma certa pinhata...

Como se mostra em detalhe, também a Hermés não fez um bom trabalho, pois falta a pega, a menos que se assuma inerente. Quanto às pulseiras, pois isso já será mais fácil de encontrar num joalheiro dedicado, mas passará por bijuteria fora de moda.

Contudo ainda não é isto que nos interessa mais nesta questão das bolsas... o problema é que se estas bolsas parecem chic no contexto mítico da Antiguidade, podem tornar-se mais broncas se recuarmos uns milénios antes, para o tempo em que se faziam pinturas na Serra da Capivara (Brasil):


No caso destas inscrições da Capivara, como atenção às proprietárias, parece ser sugerido que um bastão deveria acompanhar a bolsa.

Agora, como é óbvio, fica uma questão... podemos imaginar facilmente o que é colocado nas bolsas Dogon da Hermés, mas fica bastante mais difícil adivinhar o que transportaria Dagon que visitava os Caldeus enquanto Anedoto, assim como não é fácil supor o que transportavam os primitivos habitantes da Capivara nas suas bolsas. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Pelo mesmo prisma...

Baker Street é talvez o tema mais conhecido do escocês Gerry Rafferty, lançado em 1979, onde sobressai o solo de saxofone.

Anos antes, em 1971 ficou famoso o roubo de Baker Street, de onde saíram quase duas centenas de caixas de depósitos do Lloyd's Bank, suspeitando-se que conteriam "material sensível"... isso levou a um boato sobre o uso da directiva D-Notice, que compromete os meios de comunicação ingleses a não divulgar informações de carácter secreto - neste caso, as que poderiam estar nas caixas roubadas.

Que os meios de comunicação estão controlados pela governação, há muito que deixou de ser novidade, mas digamos que só mais recentemente, com os casos de Julian Assange e Edward Snowden, se tem feito gala disso.
De qualquer forma, a história das fugas de informação sobre o controlo global são algo caricatas:
- Como a população não tem outra forma de ser informada, que não seja através dos canais habituais de informação, se estes estão controlados... a própria história da fuga de informação é interna ao controlo.
Será algo equivalente a sabermos através das quadrilheiras do bairro que a informação que veiculam não é fidedigna. A única novidade será serem as próprias a dizê-lo.

O José Manuel fez referência ao afundamento do RMS Lancastria em 1940.
Tratou-se da maior tragédia da marinha britânica, com 4000 mortos, na ordem do triplo do que tinha acontecido com o Titanic, mas a situação era outra - a apressada evacuação britânica de França, perante o avanço das tropas nazis, e o colapso aliado em Dunquerque.

Não foi considerada uma boa ideia noticiar tal tragédia do RMS Lancastria, a apesar do grande número de mortos, bastou ir informando as famílias que a sorte funesta tinha ocorrido por outra forma.
Esse é um exemplo conhecido do uso da D-Notice enviada aos jornais ingleses.
A população não sendo informada, procurava-se que o acontecimento não tivesse tido lugar.
Tal manipulação e secretismo justificar-se-ia no contexto da 2ª Guerra, mas não se justificaria depois. Porém, quando os órgãos oficiais são resistentes a reconhecer erros, deturpações, mentiras às populações... porque é sempre a história do Pedro e do lobo - assumida uma mentira, perde-se credibilidade. 

Além disso, haveria um outro pequeno problema em tempos de paz...
Se a Inglaterra viesse falar do RMS Lancastria, seria natural surgir o caso do MV Wilhelm Gustloff
MV Wilhelm Gustloff (navio hospital) ~ afundamento com mais de 9000 mortos

e de vários outros navios que transportavam essencialmente civis alemães que escapavam ao avanço russo pelo lado da Prússia-Polónia, na chamada Operação Hannibal.

É que o afundamento do MV Wilhelm Gustloff é de longe a maior tragédia em vidas humanas, só comparável a outros afundamentos nessa operação. Citando aqui a wikipedia:
The figures from the research of Heinz Schön make the total lost in the sinking to be about 9,343 total, including about 5,000 children. This would represent the largest loss of life resulting from the sinking of a single vessle in maritime history.

Ora, numa altura em que se pretende manter todas as virtudes do lado aliado, e actos demoníacos do lado nazi, não convirá ainda sair com uma notícia da morte de 5000 crianças num navio hospital, por culpa do lado vencedor. Assim, parece que as 4000 mil vítimas militares do lado inglês do RMS Lancastria poderiam manter-se na versão de não-notícia, imposta pela D-Notice, sob pena de acordarem a memória das 5000 crianças alemãs que perderam a vida nas geladas águas do Báltico.

Curiosamente, o nome do navio - Wilhelm Gustloff, era o nome de um activista suiço, fundador do partido nazi em Davos, assassinado em 1936 por David Frankfurter, um judeu de origem croata.
Esta história é suficientemente sinistra, porque David Frankfurter, que comete um assassínio político premeditado (porque "estava farto das difamações nazis sobre os Protocolos de Sião"), irá cumprir pena na Suiça, sendo libertado em 1945 para ser considerado um herói israelita, exercendo funções na Defesa desse Estado religioso - morrerá apenas em 1982.
Apesar da Suiça ter mantido a neutralidade, parece algo estranho que a todo-poderosa máquina de guerra germânica, não tivesse exercido pressão suficiente para uma deportação do criminoso confesso.

A nomeação do navio como Wilhelm Gustloff é dada como uma tentativa de vitimização dos nazis, perante o assassínio a sangue-frio, e Hitler terá dado instruções para não retaliação na comunidade judaica, ao que consta para evitar um boicote dos Jogos Olímpicos de 1936.
Como nome associado a vitimização, certamente que o navio Wilhelm Gustloff não regista hoje apenas o nome da vítima do disparo de um judeu anti-nazi, mas muito mais o registo de 9000 mortes, resultantes dos disparos do submarino comandado por A. Marinesko
Não fica apenas a ideia de que o nome "Wilhelm Gustloff" era para afundar, porque constam terem sido afundados quase 200 navios nessa fuga alemã da Polónia, sendo este apenas o caso mais grave. Outro afundamento grave, duas semanas antes do suicídio de Hitler, foi o do MV Goya com um registo de ~7000 mortos.

Isto apenas para concluir que há uma série de factos que não convêm ser publicitados, assim como há uma série de enfabulações que convêm ser mantidas, relativamente a muitos acontecimentos históricos, e não interessa se são mais antigos ou mais recentes.

A D-Notice relativa ao RMS-Lancastria pode ter tido estas razões, mas muitas outras ocorrem todos os dias na selecção noticiosa. Nem sempre há um interesse em estupidificar as notícias, porque o maior desafio é manter entretida uma população minimamente inteligente. Aí a fasquia sobe, mas há a ilusão de que as notícias, mesmo as mais relevadoras, não serão capazes de coordenar uma revolta contra os poderes instituídos.
Por exemplo, apesar das D-Notices, há um acesso ao programa de vigilância PRISM
 
... que vai buscar aquelas referências de controlo maçónico, tão caras às novas "teorias de conspiração". Sim, são novas, porque apenas mudam nas referências aos velhos Protocolos de Sião.
A revelação desse "protocolos" serviu essencialmente para lançar uma onda de movimentos nacionalistas que se procuravam libertar do jugo de uma ameaça internacional, vista na altura - pelos movimentos fascistas e nazistas, como estando a ser controlada internacionalmente pelos banqueiros judeus. Hoje, o cenário não mudou muito. Há quem ligue hoje o financiamento do nazismo e fascismo à própria maçonaria e até aos próprios judeus. A situação, como sempre mostra-se confusa, porque se tenta encontrar um inimigo externo, quando o inimigo principal é sempre interno - ou seja, são os medos. Estes medos são tanto mais justificados, quando há um nexo que o justifica.

Assim, para além do controlo global, parece importar fazer notar que ele existe, assinalando como potencial inimigo qualquer um... Ora quando se remete o medo ao vizinho, como actualmente se pretende fazer, com ameaças terroristas, está-se a institucionalizar o medo de tudo, que se reduz assim a um medo de si. O que parece insuportável ao toureiro profissional é deparar-se com um enorme touro manso, que não reage, apesar da aproximação que lhe faz, e tende a arriscar mais, a mostrar-se mais.

Por exemplo, neste slide de Snowden, vemos a ideia da encriptação no armazenamento em nuvem. A informação está encriptada na internet pública, mas é depois guardada como texto descodificado, para facilitar a análise de texto pela NSA. Ou seja, a ideia será procurar que as pessoas confiem no ladrão "bom", apresentando-lhes ladrões "piores". Que confiem na segurança de uns, temendo a insegurança de outros.
É claro que, apesar de todo o controlo, o medo de quem detém o poder continuará... pela razão mais simples de todas - quem detém o poder sabe que não há razão especial para o deter, é apenas mais um objecto funcional numa estrutura complexa que foge à sua compreensão.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Linga falo

Por vezes deixo textos em rascunhos, e esqueço-me que me esqueci de os publicar... é o caso deste que tem mais de um ano, e que agora procurando fazer uma ligação percebi que não tinha sido publicado...

_______ 23 de Agosto de 2013 _______

O tema da língua, da fala, é complicado, muito sujeito a reparos pela sua incompletude e controvérsia.
Prosseguimos, e falo da ligação da língua.

Nos templos indianos um objecto fálico sujeito a intenso culto é chamado linga:

"Magnífico Xiva Linga" - Badavilinga Temple (Hampi, India)

 
Lingas em Karnatak (Hampi, India), e em Cat Tien (Vietname)

Poderia não haver relação entre falo e linga, mas há relação entre a língua e o falar.
Essa relação é sexual ao ligar o membro pilar da linguagem ao membro pilar da sexualidade masculina, mas a relação é também comunicacional ao reportar a uma linguagem. Se a relação sexual é uma relação ocasional estabelecida entre duas pessoas, a relação comunicacional transcende essa limitação física, podendo-se estabelecer uma empatia perene pela simples fala, na troca de ideias. A língua liga.

A fala processa-se na inclusão perene da língua numa cavidade bocal, como se tratasse de uma relação consumada e definitiva de falo em câmara. Parece ser exactamente isso o representado na primeira imagem do Xiva Linga. A câmara onde se ergue o linga, parece também imitar uma câmara bocal com uma língua central. Ora é pelo bocal que sai o vocal, onde se forma a vogal... e o vogar envolve ondas, num aparente conhecimento antigo, ligando um navegar em ondas de som e de mar.
Poderíamos especular um pouco mais... notando que a vala é o contraponto do falo, notando que o som f é expirado. Um "fale" emite o som, um "vale" guardaria o som, pela sua valia.

A etimologia pode ser informada nalguns casos, mas noutros será especulativa, ainda que existisse um longo registo de todas as influências. O registo conhecido começou a ser divulgado com as primeiras gramáticas, que tentavam reduzir a maioria das palavras a uma ascendência greco-romana, ignorando outras influências, nomeadamente a do sânscrito, como se verificou posteriormente.

Há múltiplas ambiguidades em que é difícil estabelecer uma ligação. 
Por exemplo, o verbo "fiar", tanto pode reportar a fios, como à confiança. Seguindo o habitual reportar à origem no latim, encontram-se os verbos filare (fios) e fidare (crédito), supondo-se que ambos se transformaram no nosso fiar, e que a palavra  virá do fiar de fide
É possível, mas será então apenas coincidência? 
Reparemos no verbo derivado - confiar, e no verbo concordar
Num caso aparece uma ligação a "fio", noutro caso uma ligação a "corda". Acidental?
Mais uma vez, seguindo a ligação ao latim, o concordar é suposto derivar de um "cor" de "coração", e não de uma "corda"... porém, vemos aqui como parece haver em ambos os casos uma alegoria relativamente à ligação, ou por um fio, ou por uma corda.
Esclarece-nos ainda mais a expressão "ficou por um fio", e podemos perceber que, quando todas as provas desaparecem, fica apenas o fio do confio. É diferente do concordar, porque aí aceitamos como nossos os argumentos ouvidos, e podemos ver uma ligação mais forte, simbolizada pela corda.
Neste caso, será elucidativo que a linguagem nos remeta afinal para uma fragilidade no confiar, e para uma maior força no concordar. Faz sentido, porque o concordar é mais racional que o confiar, 

A palavra "sempre" ao decompor-se em "sem pré" mantém o significado, pois num sempre não há "pré", e também valeria um "sem pós", sem pó. A palavra "também" resulta obviamente de um "tão bem", podendo ser substituída.

Por exemplo, sem razão aparente, o prefixo "in" tanto revela a ligação à preposição "em", como pode revelar uma oposição. O "in" interior surge como oposição a "ex" exterior, mas mais habitualmente como simples oposição, sem ligação aparente à preposição, revelando uma outra origem etimológica. Talvez fosse mais adequado escrever "en" como o prefixo associado a "em", ou seja, "enterior", "enclinar", "enterno", "encorrer", etc.

Conforme referi no texto anterior, há uma natural oposição entre o antigo e o novo, digamos que o antigo surge como anti-novo. Há um velar pelo velho, pelos véus que são velas, de luzes velhas, que não deveriam ser substituídas pelas novas luzes.... para que se mantenha a tradição, outra dicção.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Nebulosidades Auditivas (18)

Gloomy Sunday pode ser entendido como Domingo Soturno, em que Saturno se junta ao dia solar, e foi o título inglês de um antigo tema de 1933 de Rezsö Seress, compositor e pianista húngaro, com letra de Lazló Jávor - na versão original, com o título "o mundo vai acabar" (Vége a világnak).

A canção ficou mais conhecida na versão da célebre cantora Billie Holiday, mesmo que a BBC tenha proibido a difusão desta "canção húngara de suicídio" de 1941 até 2002 - alimentando um mito urbano, com alguns casos associados de suicídios:

O início dos anos 80, foi um dos períodos mais prolíficos na cena musical inglesa, e especialmente em Manchester, por via dos Joy Division e da editora Factory, criou-se um estilo depressivo que marcou uma geração a nível mundial. O suicídio de Ian Curtis foi marcante, e uma boa parte das canções de Ian Curtis (ou de Robert Smith, dos The Cure)  poderiam ser consideradas bem mais depressivas que Gloomy Sunday. 
Nesse período os The Associates, de Billy McKenzie, pegam na canção de Billie Holiday, com letra de Sam Lewis, numa variante do original, e lançam a primeira versão que conheci de Gloomy Sunday, e que permanece, para mim, como referência:

Porém esta está longe de ser a única versão posteriormente intrepretada... Gloomy Sunday acabou por fazer parte do reportório clássico para diversas cantoras:
Se escutarmos a versão mais antiga, 
vemos que a maioria das versões seguintes parecem ser apenas reinterpretações, mas tal não é o caso desta versão dos The Associates - onde o ritmo dançável da tecnopop se insere perfeitamente com a voz melancólica de McKenzie. Uma característica explorada à época, entre as bandas mais ligadas às músicas depressivas.

Uma sociedade perfeita vê os suicidas como imperfeitos - a sociedade está bem, o suicida é que está mal...
Nesta sociedade livre, é criminalizada a liberdade sobre a vida - o indivíduo tem que sofrer a sua sorte, e por mais nefasta que seja essa vida, é também criminalizada a eutanásia. Há argumentos são conhecidos, e receios sérios, mas o ponto principal é a religiosidade associada - a necessidade de amarrar o espectador ao filme, por mais nefasto ou macabro que seja.
A única ponderação que se deve fazer sobre o acto suicida é simples - poderemos despertar deste sonho para outro pior? Estamos dispostos a lançar esses dados ao ar e aceitar o novo resultado?
É nessa reflexão que podemos entender o risco inerente associado.
O importante não é aceitar sacrifícios, é compreender se há sentido na vida, apesar deles. O que é aferido é um sentimento de impotência face ao exterior. Quando o exterior esmaga, e deixamos de ter capacidade de acção, passamos a meros observadores - a relação atinge o apogeu do desequilíbrio - o sujeito é afectado, mas não afecta nada... é esse sentimento de impotência que se associa normalmente ao desespero que antecede os suicídios. Não é apenas quando a doença física esmaga, é talvez mais quando a doença social esmaga, tornando os sujeitos invisíveis, ou impotentes na resposta aos ataques que sofrem. A vida parece deixar de fazer sentido, porque só corre num sentido - no sentido em que a potência está toda no exterior. Aí é crucial o sujeito mudar a sua percepção e procurar na sociedade um nicho, um mundo, onde consiga afectar e ser afectado em maior equilíbrio. Isso normalmente só não será possível por restrições físicas.
A prepotência da sociedade acaba por tornar quase todos os cidadãos impotentes, e a conformação natural a essa realidade é alhear-se da estrutura superior, e reduzir-se a espaços onde o indivíduo conte numa proporção que seja superior à insignificância de ser um num milhão. 
É assim natural assistir a um incremento do abstencionismo, e a uma relevância dos nichos de amizades nas redes sociais. Mesmo na época medieval, a impotência do servo perante o senhor, não impedia a importância no nicho local, de iguais perante a servidão. Mas quando até essa relações sociais falham ou são insuficientes, o sujeito acaba por se confrontar com o seu isolamento fundamental. E é nesse diálogo consigo próprio, e em todo o conhecimento que está à sua disposição, para ser encontrado ou reencontrado, que poderá encontrar a fortaleza contra a sua impotência - ninguém é impotente para descobrir e para criar, independentemente do valor dado pelos outros, há que não negligenciar a satisfação pessoal, e o absoluto sem avalo alheio.

Sunday is gloomy, My hours are slumberless,
Dearest the shadows I live with are numberless
Little white flowers will never awaken you
Not where the black coach of sorrow has taken you
Angels have no thought of ever returning you
Would they be angry if I thought of joining you
Gloomy Sunday.
Gloomy is sunday with shadows I spend it all
My heart and I have decided to end it all
Soon there'll be candles and prayers that are sad,
I know, let them not weep, let then know that I'm glad to go
Death is no dream, for in death I'm caressing you
With the last breath of my soul I'll be blessing you
Gloomy Sunday
Dreaming, I was only dreaming
I wake and I find you asleep in the deep of my heart, dear
Darling I hope that my dream never haunted you
My heart is telling you how much I wanted you
Gloomy Sunday.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Submarinos ao fundo

A 2ª Guerra Mundial, apesar de não estar muito longe no tempo, de contar com inúmeros registos em fotografias e filmes, continua a ser um dos períodos mais confusos e mal compreendidos historicamente.

Em 21 de Maio de 1945, ao largo da Nazaré, a tripulação faz afundar o submarino alemão U-963
A Alemanha tinha-se rendido aos Aliados, menos de duas semanas antes, e havia ordens para que todos os vasos de guerra se entregassem. Não foi o caso de deste, e de outro submarino alemão, o U-1277, que foi afundado pela tripulação em 3 de Junho de 1945, ao largo de Leixões.

Preferir afundar os submarinos a entregá-los aos inimigos, foi a denominada Operação Regenbogen.
No dia do Armistício, 8 de Maio de 1945, a quase totalidade dos submarinos alemães tinha-se afundado, ou rendido às tropas aliadas. 
Apenas faltavam 4 submarinos - dois acabam em Portugal, outros dois na Argentina:
  • U-963 - que é afundado pela tripulação, na Nazaré em 21 de Maio.
  • U-1277 - que é afundado pela tripulação, em Leixões a 3 de Junho.
  • U-530 - entrega-se a 10 de Julho na Argentina - Rio da Prata.
  • U-977 - entrega-se a 17 de Agosto na Argentina - Rio da Prata.
Se sobre dois os submarinos afundados em águas portuguesas se diz pouco (não há sequer página na wikipedia), os dois submarinos que se vão render na Argentina têm servido para todo o tipo de especulação. Houve jornalistas que afirmaram ver o desembarque de civis, que foram associados a Hitler e Eva Braun, foi falado que esses submarinos transportavam o ouro do Reich, etc. A prolongada ausência dos submarinos levou ainda a especulações que houvesse uma última missão na base de Schwabenland, na Antárctida.

O episódio do submarino afundado, e o seu impacto na Nazaré, terá sido recuperado numa reportagem da SIC de 1998 (de Aurélio Faria e Jorge Ramalho), e depois terá caído de novo no esquecimento. Houve uma tentativa de localizar os destroços, na altura, sem sucesso. O submarino U-1277 em Leixões, ao contrário parece ser avistado frequentemente pelos mergulhadores.

Reportagem sobre o U-963 na Nazaré, e mergulho que avista o U-1277 em Leixões.

Como podemos ver na reportagem sobre o U-963, a história foi sendo tão pouco falada que na Nazaré passava já como sendo lenda. Este fenómeno é recorrente... se não há uma certa institucionalização dos factos, os relatos passam pela natural desconfiança alheia, mesmo que seja testemunhado por uma população inteira. Por outro lado, a ocultação histórica em Portugal, é também já histórica...

Há relatos que indicam que o U-963 estaria danificado por um bombardeamento, e que acabaria por afundar-se naturalmente, tendo a saída na Nazaré sido feita horas antes ocorrer. Porém, tudo indica que o local foi escolhido e a saída da tripulação planeada. A tripulação foi depois entregue ao comando inglês e aprisionada em Gibraltar, conforme consta do registo (3 oficiais, e 41 outros membros):
onde é dito que nenhuns papéis foram recuperados pelos Aliados.
Karl-Werner Wentz, o comandante 
que determinou o afundamento do U-963.

O Canhão da Nazaré não estará talvez fora da razão de escolha... por um lado seria a forma de se aproximar mais da costa em profundidade, e por outro lado, poderia garantir grande profundidade no afundamento.
Se há mistério relativamente aos outros submarinos, que acabaram por ser recuperados, ou mesmo o U-1277, que está ao alcance de mergulho, no caso do U-963 foi diferente - se levavam alguma "mercadoria" colocada em Trondheim a 23 de Abril, antes da morte de Hitler, essa carga ficou definitivamente escondida em profundidade, ao largo da Nazaré. Que tal acontecimento passe ao largo da divulgação habitual deste tipo de curiosidades, também já sabemos ser algo crónico quando se menciona Portugal.

Os submarinos alemães aparecem-nos assim aos pares, não apenas nestes dois afundamentos planeados, mas também pelas portas de encomendas recentes.
Esquecendo as quadrilhas criminais que submergem na lei, a história da Esquadrilha de Submarinos começa ainda ao tempo de D. Carlos com a encomenda de submarinos italianos em 1907 (seriam três que chegaram a tempo da 1ª Guerra Mundial).
O primeiro submarino ao serviço da Marinha portuguesa,
era italiano, chamou-se Espadarte, e chegou em 1913. (notícia DN)

D. Carlos, grande entusiasta da exploração hidrográfica, foi assassinado antes de receber a encomenda do Espadarte, um submarino que poderia ter na sua visão mais utilidade do que simples vaso de guerra.

Porém, convém entender que se em Espanha, Isaac Peral concebera em 1885 o primeiro projecto de submarino, tal ousadia não passou as restrições "chamadas conservadoras" da marinha espanhola.
Apesar de mostrar performances semelhantes aos U-boat alemães que seriam depois desenvolvidos para a 1ª Guerra Mundial, tal projecto espanhol foi abandonado dois anos depois:
O primeiro submarino moderno, de Isaac Peral, lançado em 8 de Setembro de 1888.

Muito provavelmente devido às contingências da Quádrupla Aliança, explicadas nalgum aviso enviado pelas lojas dos pedreiros, não seria autorizada tal proeza às marinhas ibéricas... que se deveriam manter subsidiárias de tecnologia das "potências autorizadas". Dito doutra forma - se querem tecnologia - que comprem, e para comprar - devem endividar-se... 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Muh

MUH funciona como acrónimo para Mathematical Universe Hypothesis... ou seja, é uma hipótese cosmológica em que a nossa realidade exterior se resume a uma estrutura matemática.
Apesar de ter sido popularizada mais recentemente (por M. Tegmark), parece pouco mais que uma repiscagem moderna de antigas concepções pitagóricas, lembrando que a Pitágoras já era atribuída a frase "tudo é número". 
A principal diferença será o incorporar de concepções matemáticas modernas (como a teoria de conjuntos e a complexidade da teoria do caos), mas reduz-se equivalentemente à noção abstracta de número.
MUH... por coincidência, numa imagem da wikipedia sobre o touro de lide, 
aparece a marcação de ferro com números. Toda esta imagem é um número no 
computador, mas como habitual só identificamos os símbolos numéricos no dorso.

A presença da matemática na modelação cada vez mais perfeita dos fenómenos observados, veio trazer sucessivamente a ideia de uma ligação entre realidade e matemática. Porém, apesar da crença estar instalada desde os tempos pitagóricos, houve sempre firme resistência a esta concepção platónica, em que as ideias abstractas seriam o alfa e o ómega da existência. A realidade virtual simulada em computadores seria para qualquer pitagórico uma prova indiscutível das lições do mestre, mas certamente que não explicaria tudo. 
É assim muito natural que se reencontrem hoje adeptos de um novo pitagorismo, suportado ainda pela emergência de padrões em estruturas aparentemente caóticas - como foi o caso dos fractais de Mandelbrot.

Quando escrevi o texto Arquitecturas (5) foi exactamente neste sentido MUH. Apesar de desconhecer os outros trabalhos recentes, ficou evidente que a teoria pitagórica era a que aparecia naturalmente.
A questão principal nem foi tanto perceber a hipótese MUH, porque essa é óbvia, mas sim perceber que nenhuma outra faz sentido. O problema fundamental é entender o que pode existir como constituinte... o que pode fazer sentido como partícula atómica. 
As teorias físicas actuais envolvem várias partículas, de quarks e leptões a bosões, que justificam uma certa zoologia de partículas subatómicas. No entanto, o ponto principal numa teoria de multi-partículas é a sua geração. Como apareceu então o primeiro electrão, o primeiro bosão, etc.?
Estas perguntas não são respondidas - admite-se que se formaram numa sopa do big-bang, e pronto sai uma história do caldeirão.
Ora, o ponto principal na causalidade é que cada constituinte teria que ser formado - se é formado por via de constituintes anteriores, então não é atómico - no sentido em que deriva de componentes.
Portanto, para cada geração do nada, de cada partícula, estamos a falar da geração de um universo a partir do vazio. Se estamos a falar da geração de partículas distintas a partir do mesmo vazio, a coisa não faz sentido nenhum... De alguma forma, os físicos parecem esquecer-se que as suas equações não vivem no éter, e portanto um universo que obedecesse a leis pré-estabelecidas implicaria um universo anterior onde se estabeleceram essas leis... mas parece que na história do caldeirão só interessa a sopa, é esquecida a formação do recipiente onde estava o caldo, e pior é esquecida a receita para o cozinhado da Criação.
Os astrofísicos do big-bang contam-nos praticamente ipsis verbis a história da sopa da pedra.

Assim, se um ponto principal no texto Arquitecturas (5) foi perceber o mecanismo natural da geração, que pode ser vista como uma inflação eterna, tendo simultaneamente um aspecto determinista e caótico; outro ponto principal foi entender que a única "partícula" que poderia estar em causa seria o próprio universo nos seus estados de evolução. Ou seja, o próprio universo, no seu estado anterior, servia de átomo para o universo no seu estado posterior. Não pode ser doutra forma, porque a ideia de ir buscar outros constituintes seria admitir outros universos em si... e por definição, Universo só existe um.
O que se passa é que há diferentes concepções de Universo, que vão contra a noção de ser tudo o que existe. Essas concepções vêm da percepção física que ligam mais o universo à astronomia, reduzindo quase tudo a um modelo visual de compreensão da realidade... quase como se os invisuais não tivessem direito a compreender o universo. Por isso fala-se também em "multiverso", no sentido de podermos ter outras manifestações da realidade. Ora, o óbvio é que todos esses "multiversos", versões diferentes do universo físico, seriam ainda parte de um Universo maior... e só a esse, que engloba tudo, é que se pode chamar Universo.

Uma outra questão que tenho abordado, é a impossibilidade de existência de um universo sem observadores, algo que entretanto percebi ter o nome de "Princípio Antrópico", quando aplicado a observadores humanos. Por um lado, parece uma tautologia - o único universo que conhecemos é aquele que se "esforçou" por nos dar existência... mas deixa de ser algo tão simples, quando entendemos que o universo só encontrou a sua existência quando formou seres capazes dessa observação (Arquitecturas (3)).

Usando a comparação anterior, a sopa só existe até haver alguém que a prove... antes disso, sem haver quem espreite no caldeirão, poderia até nem haver sopa nenhuma.
A prova pelo sabor é parecida com a prova pelo saber.
As papilas gustativas do conhecimento são as relações lógicas e matemáticas que estabelecem a prova.
Só que é um pouco mais complicado, para um gosto requintado é preciso identificar cada um dos constituintes, e entender a forma como se combinam na prova.
Conforme salientado no Arquitecturas (3), não há observação quando há coincidência entre observador e observado. Nesse caso há apenas duplicação. Por isso, a visão perfeita do exterior apenas o traria como cópia para o interior... isso não é observação é duplicação por réplica.
A observação é fruto de uma visão imperfeita do observado. É a formação de um pequeno universo interno resultante de visões imperfeitas do universo exterior. Essa visão pessoal é herdada na linguagem, nas noções linguísticas que aprendemos e que nos são inerentes. Essas noções abstractas ficaram como invariantes no nosso universo. No nosso universo sabemos que 2 será sempre menor que 3. Apesar de não parecer, a linguagem que usamos é tão abstracta quanto a matemática. Aliás, a matemática não é mais do que uma linguagem... e poderia ser usada como linguagem vulgar. Para dizermos que ontem fomos à praia, seria tão enfadonho como escrever "eu(tempo)=ontem; eu(local)=praia".
O exercício da linguagem é a descrição interna do universo externo. Como a linguagem tem inerentes as noções fundamentais de compreensão, há três pessoas na conjugação trinitária. O "eu" observador, o "tu" observado, e um "ele" que é a estrutura que liga e separa os dois. O ponto comum nessa ligação é a compressão pela linguagem, sendo claro que a incompreensão, o silêncio, separa e isola os mundos.

domingo, 24 de agosto de 2014

Ju

Como vou tentando deixar claro, há em cada em sílaba, em cada som primitivo, um significado que acabou por ficar entranhado nas palavras. Assim, de forma algo estranha, as palavras acabam por falar mais, acrescentando a sua decomposição nos sons e até nas grafias. Se o processo pode ser sistematizado por alguma etimologia, uma menos escondida que outra, há uma parte quase caótica que parece individual e circunstancial.

Ju é uma sílaba que nos aparece despercebida de significado... e serve de exemplo significativo.
Esta sílaba está associada a diversas palavras, sendo que no português mantemos "jus" com um significado latino de equilíbrio, de justiça, num "fazer jus", num justo, que se liga à parte do direito jurídico... que se liga a um jugo por um ri, que interpreta a lei judicial. 
Poderíamos continuar por esta linha óbvia, ligada à justiça mas depois aparecem outras palavras onde a ligação parece perder-se. Ora, numa delas é onde deve ser encontrada a raiz.
piter... parece-me poder ser visto como Ju-pater, ou seja, invocando a divindade Ju como Pai.
De forma semelhante, teremos Ju-deus como aqueles que atribuíam à entidade Ju o estatuto de deus.

Acontece que um nome alternativo para Júpiter era Jove, e isto surgiu no sentido de Jovem, como pode ser entendido que Júpiter era o filho jovem que depôs Saturno. Assim, ao escrever Ju-pater é passar Ju à figura de Pai, substituindo nesse papel Saturno/Cronos. Nesta trindade ligeira, o filho passaria a pai, colocando-se no lugar de Saturno/Cronos ao dominar os restantes irmãos no Olimpo. Só que este círculo, este O, não ficou propriamente limpo, sem acento, ou melhor, sem assento, das restantes divindades remetidas para a escuridão infernal. Essa junta foi uma junção, em que o unto serviu unção.
Associado a jovem temos o juvenil, ou juventude, mostrando mais uma vez como o prefixo ju pode resultar directamente dessa divindade primitiva. Por outro lado, a juba é bilo do rei dos animais, aqui no papel de juiz. Contra o leão só se opõe o burro, se achar que mente é jumento num kangaroo court.
Assinala-se, novamente que é-breus é diferente de ju-deus, porque breu é escuridão, ocultação, e uma atitude de bastidores não prescinde actores no palco.

Tudo isto, a propósito de quê?
De Lu... Lucy.

Lucy (2014, de Luc Besson) trailer

Até este momento só vi o trailer... e não sei se há muito mais de interessante, mas acho que apesar de um pouco rudimentar, há uma perspectiva que já se assemelha mais a poderes ilimitados.
As bases justificativas continuam a andar pelas alucinações da compreensão física do cérebro, a que se juntam aqui alucinogénios... mas o interessante é ver finalmente em tela uma melhor ilustração do que se entende por um superpoder divinal.

No entanto, o mais interessante, e que duvido que seja abordado, é que o superpoder de Lucy não é em essência de diferente do poder de qualquer um. Todos os homens aptos têm o poder de interagir com a realidade que lhes é apresentada. Essa interacção é muito limitada, e a tecnologia foi uma forma de alargar as potencialidades de interacção. Um homem pode esmagar um insecto, um super-homem poderia esmagar um comboio... é só uma questão de escala, não muda muito a essência.
Por isso, quando diminuem as restrições do super-herói, diminui o interesse do filme... se o fulano pode fazer tudo sem restrições e sem limitações, qual é o interesse da história? - Esse é um ponto fulcral, a diminuição do desafio retira interesse ao enredo... retirará interesse ao próprio objectivo de vida do fulano.

Este filme enquadra-se num outro tipo de mitologia reinante, que é a possibilidade do super-homem.
Assim, o nome Lucy não será indiferente ao nome Lucy colocado ao austrolopiteco que foi tido como o elo mais antigo à espécie humana. Esse baptismo do austrolopiteco foi associado à canção Lucy in the sky with diamonds, dos Beatles.
Lucy era assim a primeira de uma nova espécie... no nome e nas capacidades retoma-se o ideal da paranóia eugénica do super-homem, ideal que já serviu e serve ideais de má lembrança.

Quanto ao prefixo Lu - isso seria uma história completamente diferente... mas se pensamos evoluir nos sonhos - pintando os mesmos com outras cores - parece que à imaginação falta luz do Luar, falta um lume de lucidez neste lugar. Porque o L de Ele lê-se El.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Iraqui - Ir Aqui... abanar o cão

É conhecida a associação fonética entre "Paquistão" e "Pr'aqui estão"!

Iraqui... ir aqui
Porém, há uma outra que ganha algum sentido, o americano "Iraqui" é afinal um "Ir Aqui"... 
Terá sido mesmo um "ir lá sem sair daqui", pelo menos no caso de Charles Jaco, um repórter da CNN que era suposto estar na Arábia a cobrir a Guerra do Golfo em 1991, mas afinal estaria num cenário de estúdio... em imagens difundidas internacionalmente.

As reportagens da CNN eram repetidas por todas as televisões, e à época não me lembro de ninguém duvidar da veracidade das imagens. Entretanto, parece que algum empregado da CNN conseguiu fazer sair as imagens, e instalou-se a polémica. Na wikipedia ficou apenas uma discussão de não aprovação:
Mas há outros sítios (exemplo 1, exemplo 2) onde se referiu o assunto, convenientemente abafado.
Há, como habitual, tentativas de "compor a coisa", dizer que o cenário de estúdio era no Hotel Dhahran, mas enfim... até poderia ser, só que o ecrã azul  desaparece, para dar lugar à imagem de fundo:
Isto, é claro, para não falar de todo ambiente de gozo, inclusive colocando a cabeça de um boneco Ken (da Barbie) na altura em que o vice presidente Dan Quayle falava da base naval de Mayport... e outras referências, ao modelo Scud com "Larry King Show" or "Bust" (Apanhado).

Será caso único? É claro que não é, e estamos carecas de saber sobre a manipulação mediática.
Um momento hilariante foi quando Jon Stewart se referiu a uma encenação de comunicação via satélite, feita também pela CNN.
The Daily Show calls out CNN (ver após 50 seg)
 Conforme diz Jon Stewart
Ashley from a parking lot in Phoenix, reporting via satellite with Nancy Grace, who seem to be in the same parking lot, in Phoenix. Basing that, of course, in the fact that the cars that are passing by Ashley location box also appear to be passing by in Nancy Grace's box.  
Who does that?
The audicity of "something even resembling a news organization" to pretend that a correspondent is in an entirely different location. when in fact that correspondent is no more than a few feet away... maybe in the very same studio, for all we know.
 
Pretty shameful!

É claro que as estações televisivas mentem descaradamente, mesmo as supostas serem mais respeitáveis, e tanto sobre os assuntos mais delicados, como sobre os mais corriqueiros. O que nem sempre é fácil é serem apanhadas em flagrante... 
E é claro, como o circo ainda está em funcionamento, não convém que a populaça saiba destas palhaçadas.

Abanar o Cão... 
Wag the Dog (Manobras na Casa Branca) é um filme de 1997, e talvez o que melhor mostra, de forma explícita, até que ponto pode ir o circo mediático para efeitos de manipulação da opinião pública.


Neste filme a situação vai ao ponto de se inventar uma fictícia guerra nos Balcãs, para virar as sondagens e dar a vitória numa eleição presidencial... Lembramos que este filme é anterior à vitória de G.W. Bush e portanto a população americana ainda poderia acreditar que havia alguma verdade nas eleições - ainda que tudo o resto fosse falso.
Tudo é feito com poucas imagens dessa suposta guerra, repetidas até à exaustão, muito comentário, muitos factos secundários. A manipulação não vive do suposto facto, vive da reacção comum da população ao mesmo evento difundido. Por isso, a certa altura, é mais importante mostrar que todos estão sintonia (episódio do "Old Shoe"), para que quem não esteja se sinta desintegrado.

Este filme tem vindo sucessivamente à baila, num período em que cada vez é mais evidente a manipulação despótica da sociedade, ao estilo do que previra Aldous Huxley no seu Brave New World.

Outro episódio recente onde foi percebida esta manipulação exagerada foi com o caso Sandy Hook, onde foi observado que os consternados pais, pareciam ser afinal meros actores (rindo e fazendo movimentos de concentração, antes de irem para o ar)... isto para além de inúmeros outros detalhes (não se viram corpos, nem foram identificadas vítimas, apenas uma foto circulou abundantemente, havia um check-in no local, o drama tinha sido comunicado antes de ocorrer, etc...)

Continua...
Portanto, não devemos negligenciar que estas grandes encenações continuam. Seja sob a forma de aviões que desaparecem, reaparecendo ou não, seja sob forma de eventos que causam drama público, e que justificam determinadas acções.
Nem sequer é preciso mencionar mais casos, afinal o 911 é apenas o modelo mais conhecido... da Porsche.

... porém
Há uma coisa bastante curiosa, relativamente a velhas e a novas imagens.
Quando revemos filmes de ficção científica antigos, é muitas vezes constrangedor ver os maus efeitos especiais, como se passados uns anos tivéssemos ganho uma nova percepção para identificar cenas mal feitas, encenações demasiado evidentes. Não é apenas aquilo que em criança nos parecia como monstro verosímil e em adulto passa a ser apenas um peluche feio... é também toda a percepção mais apurada, mesmo entre adultos. Mesmo a encenação da CNN no Golfo, com as máscaras de gás e o capacete, que passou nas TVs nos anos 90, parece-nos hoje ridícula. Não foi apenas porque o cinema evoluiu - a nossa capacidade crítica de ver defeitos nas encenações também aumentou.
Por isso, se as "produções especiais" ganharam maior capacidade técnica, também a populaça ganhou maior capacidade crítica... e isto foi quase de um momento para o outro, no espaço de poucos anos. É também por isso que a NASA tem agora mais dificuldade em passar os filmes antigos... aqueles saltinhos na Lua já parecem efeitos especiais de 2ª categoria quando os vemos de novo.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Instante seguinte

Há uns meses atrás abordei aqui, nas caixas de comentários, a questão da impossibilidade da morte, para além do aspecto filosófico.

O argumento científico é simples, e pode ligar-se a conceitos tornados comuns na mecânica quântica, embora seja distinto, e mais simples.
Um caso conhecido na mecânica quântica é a chamada situação morto-vivo do "Gato de Schrodinger", que é praticamente um problema da teoria probabilistica que admite ambos os estados como possíveis, até que haja uma observação.
O gato de Schrodinger tem a sua vida dependente de uma probabilidade quântica que liberta veneno.
Só a observação determina a sua vida ou morte...

A questão do gato surge apenas como desculpa, para não parecer demasiado estranho o que irei afirmar de seguida. Ou seja, há pessoal a discutir coisas maiores bizarrias…

A impossibilidade da morte do próprio é diferente da observação da morte dos outros.
Porquê? 
Porque também é diferente a questão de observar os outros ou observarmo-nos a nós.
- Podemos deixar de observar os outros, mas é impossível deixar de nos observarmos.
- Podemos vermo-nos livres dos outros, mas é impossível livrarmo-nos de nós próprios.
Há quem julgue que a morte do próprio pode resolver esse problema… escapar de si mesmo, mas tal coisa não ocorre. Porquê?

Já abordei o assunto filosoficamente, de várias formas, mas do ponto de vista científico é igualmente possível chegar à mesma conclusão, da impossibilidade da morte do próprio.
Cientificamente assume-se que somos formados por um arranjo de partículas, em particular o cérebro nada mais seria que uma evolução na combinação dessas partículas. 
Cientificamente considera-se que a morte ocorre quando é inviável a continuação desse arranjo que permite a vida cerebral. Há uma descontinuidade, entre o momento em que a vida era viável, e o instante seguinte, onde deixou de ser viável. As razões da morte podem ser múltiplas, e não interessam no detalhe.
Agora a questão que se coloca é a seguinte:
- É impossível que, num tempo futuro, os mesmos átomos do cérebro, do corpo, se juntem exactamente da mesma forma, na forma anterior ao instante que determinou a morte?
- Não é. Nenhum físico quântico pode afirmar isso. Pode dizer que a probabilidade é próxima de zero, mas não pode dizer que é zero. Para além disso, o número de átomos é finito, e assim os arranjos da matéria são em número finito.
- Ora, se a probabilidade não é nula, o que garante que não pode voltar a ocorrer o mesmo arranjo?
- Nada. Além disso, como o tempo é interminável, por mais pequena que seja a probabilidade, ao fim de um tempo suficientemente grande, essa probabilidade quase nula passará a certeza. Aceitar que não ocorre seria apenas admitir que os dados universais estavam viciados contra nós… e isso seria um pensamento viciado.

Até aqui foi mais ou menos o que expus nas caixas de comentários, em resposta a Amélia Saavedra, a propósito de uma discussão com o José Manuel. Conforme resumi na altura:

Admitir a morte seria declarar uma impossibilidade de vida futura. 
Com que base é declarada essa impossibilidade? Com nenhuma. 
Ora se não há impossibilidade comprovada, existe uma possibilidade, por mais infinitamente pequena que seja.

Só que, como referi, isto seria apenas uma parte da resposta… que vou agora completar.
Há vários embrulhos nesta questão, uns mais fáceis de ver que outros.

Primeiro, admitindo que se voltariam a dar essas condições de vida, o que impediria que se repetisse o mesmo cenário de morte, de inviabilidade? Nada. Mas, não são os cenários de morte que interessam, interessa saber se não pode haver um de vida. Ora, se tudo sempre se repetisse, isso significaria um ciclo universal, o que corresponderia a um fim do universo… e ao experimentar uns arranjos e não outros, seria mais uma vez um universo viciado, em pensamento viciado.

Segundo, interessa perceber o que é o "instante seguinte".
A noção de tempo que temos é pessoal, e o nosso instante seguinte nada tem que estar relacionado com o instante seguinte alheio. De acordo com as mesmas probabilidades quânticas, nada impediria que um tigre se materializasse à nossa frente… é apenas considerado como uma probabilidade infimamente pequena. Porém, nada é dito porque razão essa probabilidade é pequena.
Ora, essa probabilidade é pequena porque o convite ao caos foi feito com conta, peso e medida.

O nosso instante seguinte é sempre aquele em que há viabilidade de estarmos.
O instante seguinte para uma pessoa que sofre um coma de vários anos, é muito diferente do instante seguinte para os outros. O instante seguinte para quem esteve em coma só se pôde efectivar passados esses anos, e foi diferente do instante seguinte para todos os outros.
Há muito tempo que entendi que o nosso instante seguinte é uma mera questão de viabilidade, tal como quando sonhamos, o nosso instante seguinte ocorre com uma grande descontinuidade de eventos externos.
Dessa mesma forma podemos entender que todos os nossos instantes seguintes são determinados pela viabilidade do conjunto. Estamos todos sobre a mesma realidade enquanto houver viabilidade para esse conjunto. Ou seja, de um instante para o outro, podemos pensar que se esgotam todos os universos não viáveis, e ficamos apenas no único que é viável para nós. A viabilidade desde conjunto é apenas o garantir de que não termina, evitando entrar em ciclo repetitivo ou em estagnação.

Portanto, tal como para quem acorda de um coma de vários anos, a certeza de que seremos de novo viáveis num futuro, torna indiferente se se passam milhares ou milhões de anos… para o próprio será sempre o instante seguinte. Essa certeza de viabilidade futura resulta apenas da certeza que não há inviabilidade demonstrada, pelo contrário. Portanto, se um corpo pode ser inviável num contexto material, e aí perecer, a mudança desse contexto material poderá fazer aparecer o mesmo espírito, não necessariamente no mesmo corpo, porque o que interessa é a viabilidade do espírito. Uma viabilidade que não se justifica pelo indivíduo, mas sim pela própria viabilidade universal.

Poderá haver quem tente desviar as evidências, e pretender que há aqui uma tentativa religiosa de pretender dar significado à vida para além da morte. Porém, só quem não pensou no assunto é que pode considerar que uma eternidade é melhor do que uma morte… perante certas perspectivas de vida, a morte é um mal menor. Fiar-se na morte alheia para concluir a sua é apenas uma conclusão deficiente. Deficiente porque não declara a morte do corpo alheio, que está presente, declara apenas o fim da associação entre o corpo e o espírito, porque o espírito alheio deixou de se manifestar ali, através daquele corpo. E o espírito que nada pesa, seria afinal o garante da vida do corpo.
Ou seja, convém notar algo que é negligenciado - se não vemos espíritos sem corpo - fantasmas, também não temos como vivos corpos sem espírito - zombies…

Para terminar, um bocadinho de pseudo-etimologia… no "instante" podemos ver uma forma de "instar" com o sentido de "em estar". Mas interessa mais a forma "seguinte" de "seguir", que tem a interessante irregularidade na primeira pessoa - dizemos "eu sigo" e não "eu sego". É interessante porque "cego" adapta-se bem a quem segue quem vê… e em estarmos cegos para o seguinte.

Nota (9.9.2014):
Interessante, a informação do José Manuel, sobre a experiência de Gabriela Barreto Lemos e outros investigadores quânticos em Viena, que separaram um raio verde, de fotões previamente entrelaçados, em dois raios de luz - um vermelho e outro amarelo. Este entrelaçamento (entanglement) quântico faz com que uns partilhem a vida dos outros. No caso, os raios amarelos iriam colidir e reflectir-se numa imagem de um gato (aludindo ao Gato de Schrodinger), enquanto os vermelhos iriam directamente para a câmara de fotografia.
Resultado - os raios vermelhos sem nunca terem visto o gato, apresentaram a imagem que os amarelos transportariam. Mais, os vermelhos ao serem capturados pela câmara desapareceram, e assim os amarelos antes de atingir a câmara também desapareceram.
Isto é o mais próximo que estamos de Vodu… entrelaçados os amarelos que vão para o boneco, com os vermelhos que vão para a câmara, o que acontece a uns, acontece aos outros.
A luz vermelha que nunca atingiu a imagem do gato,
recebeu informação instantânea para produzir a imagem vista pela luz amarela.
(G. B. Lemos, daqui)

Claro que esta informação instantânea que passou dos fotões amarelos para os vermelhos, implicaria o fim do pretensiosimo einsteiniano de "limite de velocidade". Porém, os polícias instruídos nas multas pelo limite de velocidade podem argumentar que ainda é a mesma partícula, em sítios diferentes. É mais ou menos o mesmo do que dizer que um Fórmula 1 nunca sai da partida, porque deixou um rasto de pneus no arranque. Enfim, uma mudança é sempre difícil de engrenar...

Os autores argumentam sobre as aplicações médicas - porque uma luz amarela pode viajar pelo interior do corpo humano, sem regressar - a informação é fotografada na informação transmitida à mana, a luz vermelha, que vai direitinho para a fotografia.
Mas pode-se ainda pensar numa aplicação astronómica, a luz amarela segue o caminho de um planeta e a vermelha fica na Terra, até aparecer na fotografia o que a mana viu.

Este entrelaçamento quântico ocorre em "partículas gémeas", mas poderá dar base para especular que este entrelaçamento de pares pode ocorrer noutro tipo de gémeos.

http://www.nature.com/news/entangled-photons-make-a-picture-from-a-paradox-1.15781
http://www.nature.com/nature/journal/v512/n7515/full/nature13586.html