segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cores (4)

Depois do mundo a preto e branco, onde imperava um nevoeiro cinzento, apareceu a roda das cores

imagem de amopintar.com

Percebo pouco da lógica social que se foi estabelecendo associada às cores, não havendo muito acordo sobre isso. No entanto, são fundamentais o RGB, com o vermelho, que para mim representa a igualdade, o verde que representa a esperança, e o azul que representa a liberdade. Há um compromisso entre a liberdade e a igualdade, e no meio é que reside a esperança, o caminho. Tudo o resto parecem-me ser escolhas possíveis dentro da harmonia no acordo.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Nebulosidades auditivas (5)

Em português fado é destino. Destino é para onde vamos.
Sempre achei que ao fado faltava alguma melodia e ritmo, um bater, um bateria que não bate em ninguém.
Essa bateria está bem presente no tema Gaivota, dos Amália Hoje, projecto de Nuno Gonçalves, dos "the Gift". E há coincidências que parecem presentes, neste caso de Alcobaça... e não de Tróia!
Cada qual pinta o mundo com as suas cores, com as suas dores. Porém há também as dores alheias, e se conto um conto de uma forma, mais objectiva, posso contá-lo também de forma mais pessoal. Cada pessoa tem uma mensagem, e a partilha não é posse, é dar... para receber, quem quiser.
Podemos entender ofertas que façam sentido.

Gaia vota.
Chegados ao fundo de nós, até onde mais não conseguimos ir, depois de olhar para dentro, olhemos para fora, e vejamos tudo o que ficou de fora do conjunto de nós, da corda. Onde uns vêm dragões, monstros, máquinas, vejamos o coração que bate. Avancemos para o desconhecido com a confiança dos navegadores que ousaram conhecer para além de si, e assim nos ajudaram na navegação para o interior de nós. É esse o nosso fado, e confiemos o nosso coração, um bater que nunca foi nosso... e nem vale a pena rebater.
Não é ser nacionalista dizer "Por ti Gaia", pois também foi-se bastião de "por ti cale", de um calar encoberto, em nome de uma gaivota que nos guardou as memórias. Por isso, Gaia vota, e Gaia volta e revolta, mas num sentido de novas voltas, do bater do tempo que é o bater do nosso coração, é a corda do acordo, onde os nós somos nós.
E eu não me canso de ouvir a canção... cada qual tem as suas canções e os seus cansões.

Mais do que uma pátria, que se quis formada do nada, há toda uma história mátria que não é para o oculto, nem para o culto privado, porque só esconde o passado quem teme o futuro. E os medos não devem privar-nos do futuro, remetidos a um passado de ilusão... que poderia até ter o acordo de todos nós, mas não há nós sem corda... uma corda que os liga, um "acorda" que a nós liga. A corda para a vida!

Seria de dizer - à mátria, Gaia, aMai-a hoje.
Ao jeito de pronúncia japonesa em Amália, também podemos ver Amaria, tudo depende do rosto que nos for oferecido ver, sem nunca negar os nossos dois olhos. Tudo o resto são intérpretes das interpretações, que se alimentam de egos e cegos medos inibidores.
É um concordo, com coração, corda maior que o fio do confio.
Amália Hoje - A Gaivota.

sábado, 30 de novembro de 2013

Hélgia (5)

- Como pode estar o universo congelado, se presenciamos o tempo a passar?
- Porque entrou em ciclo.
- Sim, ou seja, repete-se indefinidamente, automaticamente, pela inevitável geração diferenciada. De certa forma, foi estabelecendo processos automáticos, invariantes em diversas dimensões, e depois em todas as dimensões.
- Há um processo inicial em que a máquina se forma, digamos um tempo zero, porque aí não haveria tempo como o concebemos. Uma vez formado...
- Acorda!
- ... isso, a máquina acorda. "Acorda no seu funcionamento", é uma boa expressão, e a corda do relógio começou a trabalhar.
- Aquilo que vemos é então apenas uma dessas repetições?
- É uma das múltiplas possibilidades, mas as outras são disjuntas desta. Ou seja, dividiu-se pela lógica, não poderia existir ao mesmo tempo, em simultâneo dois universos diferentes, por isso o tempo acaba por ser a separação lógica que permite a unicidade.
- Mas há intersecções, ou completa disjunção?
- Estamos na intersecção de tudo, o universo é tudo, mas ao mesmo tempo é individualidade. Para o indivíduo manifesta-se em tempos diferentes, que acabam por ser as repetições... digamos, primeiro forma-se um contínuo "espacial" (e coloco entre aspas, porque é um espaço de instantes, que transcende o espaço físico, será mais um espaço de ideias), e estando congelado esse espaço, começa a repetir-se.
- Mas por que estamos nesta repetição?
- Cada um tem a sua... se fossemos todos completamente iguais éramos apenas um.
- E somos... sim, juntos todos os eus. Só que isso é acima de todos os tempos, e por isso o invariante está estabelecido nos tempos.
- Parece uma corda vibrante, que definiu as frequências em que dá música. Como se cada um de nós fosse uma melodia tocada para a eternidade. A corda... eh eh!
- Mas é uma melodia tocada em todas as línguas, é uma questão de ser descoberta por cada um, por cada comunidade, em conjunto... porque a intersecção é o acordo, a realidade, a orquestra. Mesmo que queiramos perceber a melodia que nos calhou, não devemos ignorar que todas as melodias se intersectam... e o confronto foi mais um desacerto inicial antes de todos começarem a tocar em conjunto.
- Com essa visão global, não sentes que isso deixa pouco para saber?
- Isso é ter uma visão muito limitada do universo... eh eh!
- Isto é apenas uma perspectiva, que tem lugar pela consistência. Haverá outras perspectivas, e outras consistências. Num mundo perfeito todos têm razão, e só não lhes damos razão porque ainda não percebemos como encaixa o seu ponto de vista. E é isso mesmo, cada um tem um ponto de vista do universo, e podemos partilhar esse ponto de vista com linguagens. A linguagem, no seu abstracto, foi o que restou da intersecção de todos os universos.
- Mas já há várias coisas a encaixar... eu acho que sim.
- Temos muito tempo!
- Pois... e eu não tenho pressa de saber tudo. Falta é mais harmonia na orquestra, porque cada um tem pressa de pôr o seu instrumento a funcionar.
- Tem uma certa ironia, porque por um lado é como se o universo, Deus, tivesse desaparecido... o que daria razão aos que negam, mas por outro lado é como se tivesse reencarnado em cada um de nós obrigando-nos a ver a sua obra, e ao fazer isso obriga-nos a reencontrá-lo em cada instante. E será na nossa harmonia que se reencontrará por completo. Como se tivesse perdido a memória, mas essa memória está à nossa frente para ser relembrada. Por isso caminho de encontro ao conhecimento universal, pode também ser visto como um caminho infinito de reencontro com Deus, com todos, com tudo o que é, sem deixar nada para trás.
- É um reencontro com nós próprios, com o nosso sentido, porque no fundo, cada um é uma parte do todo.
- Exacto, e por isso o caminho de encontro a si próprio é importante, mas não é apenas para olhar para si... senão afunda, fecha-se em si mesmo, é um caminho para o interior mas a olhar para o exterior, para o outro, que é apenas uma outra manifestação de nós próprios.
- Há uma igualdade, mas é mais que uma mera igualdade, não é apenas "iso", é paraíso. É isso?
- Devemos evitar ver tudo como igual, porque uma pedra não é igual a uma planta. Cada ser ajusta a sua existência ao que é, e não vale a pena estar a projectar-nos em tudo, porque isso é querer igualar o que é diferente. Devemos procurar semelhanças, no sentido da abstracção equalitária, mas não deixar de aceitar diferenças que são naturais.
- Sim, por exemplo, um dos problemas de consciência seria a questão de entrarmos em ciclo de repetição infinita. Só que quem se apercebe disso é o observador externo, não é o próprio. O próprio entrou num universo consistente à sua maneira. Por isso seria algo estranho procurar despertar uma pedra para uma consciência que não pode ter. A nossa projecção nos outros tem limites, sob pena de nos querermos reduzir à sua dimensão.
- Mais alguma pergunta?
- Mas afinal quem é que estava aqui?
- Não interessa... interessa que as palavras estão, para quem as entender.

Amor Electro - A máquina acordou.

domingo, 24 de novembro de 2013

Nebulosidades auditivas (4)

Um dos primeiros discos que comprei...

Living by numbers, New Musik (1980), From A to B

Living by numbers
Adding to history
And living by numbers
I guess was always meant to be
Living by numbers
Living by numbers now
We've been living a long time
Counted out in the rows of files
Such a digital lifetime
It's been by numbers all the while
Living by numbers
Living by numbers now
You count the days but does it
All add up to you
Does it all add up to you why we're
Living by numbers now
So you're living by numbers
And numbers you answer to
You can count all the nubmers
You bet that someone's counting you
Living by numbers
Living by numbers now
Living by numbers
Living by numbers now

They don't want your name
They don't want your name
They don't want your name
They don't want your name
Just your number

Does it all add up to you? Não, o nosso número não é 1, nem 3. 
You bet that someone's couting you... e isso aplica-se ao "someone" também. 
Just your number... e o número da nossa geometria é π = 3.1415926535... 
É quanto liga um diâmetro unitário ao perímetro de um círculo perfeito. 
É engraçado que a letra grega pi, π faz lembrar uma construção de anta ou dólmen.
A transcendência de π foi provada, e há recordes para determinar o maior número de dígitos, em ordens que pouco mais são que deixar máquinas a correr, pois é-nos impossível olhar para a lista de números. Servem para estatísticas, e uma das estatísticas tem revelado que esses dígitos aparecem como aleatórios, apesar de serem bem determináveis. São poucos os resultados qualitativos que podemos tirar, e tudo o resto é mera observação passageira, muito limitada, porque face ao infinito qualquer finito é igualmente distante. E ainda que houvesse quem todos os dígitos visse, não veria a infinidade de associações qualitativas, e se ainda assim tudo visse... então nada mais tinha para ver, e reduzia-se a um todo fechado. Esse todo fechado é unitário, é 1, o ciclo fecha-se, e tudo começa de novo.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Chorar ao "Rir a bandeiras despregadas"

"Rir a bandeiras despregadas"... é daquelas expressões algo estranhas, mas que se implantou na língua portuguesa. Se olharmos por exemplo para a explicação constante de ciberduvidas:

«É fácil compreender que as bandeiras podem estar atadas antes dos dias festivos para não se rasgarem. Chegado o dia marcado para a festa, as bandeiras são desatadas para serem agitadas pelo vento.»

Acresce noutros casos a referência de que as tropas vitoriosas regressavam de combate com as bandeiras despregadas.

Será isto?
Pois, parece bem que não. Não tem a ver com algo tão literal.
Na página 304 do Volume 8 do "Instituto", de 1860, no meio de um apontamento sobre galicismos, podemos ler:
______________________________
A BANDEIRAS DESPREGADAS (à bonieres deployées). E phrase que não temos, e que nunca será usada por homem instruído na lingua portugueza.
Rir a bandeiras despregadas; rir muito, perdidamente, loucamente, as gargalhadas. ______________________________

Bom, o que se passa então?
Do que se entende, e li algo adicional sobre isto, mas não encontro a referência, o uso da expressão francesa no início do Séc. XIX provavelmente caiu no ridículo cortesão...

Porquê? Porque aparentemente as tropas portuguesas nunca despregavam as bandeiras (ou nunca se consideravam vencedoras), como faziam os outros, e daí ser dito que ninguém instruído deveria referir-se "a bandeiras despregadas".
A corte lisboeta deveria entreter-se e delirar com os mínimos deslizes de ignorância da plebe mais atrevida, porém ignorante dos códigos e diabruras infantis dos cortesãos. 
Assim, parece ter sido instituído o rir à expressão "a bandeiras despregadas"... e o riso pelos vistos foi tanto, que dá para ver o nível de maturidade mental subjacente.
Terá mudado alguma coisa?... Duvido!
Na literatura do Séc. XIX a expressão remeteria muitas vezes a um riso trocista sobre alguma ignorância alheia. Porém, depois, ao entrar na gíria popular ficou apenas como alusão a riso incontrolado.

Seria até natural que este texto desse para rir a bandeiras despregadas, pois sem referencial digno, tudo passa por atestado engano, e assim se engana quem quer ser enganado.  
Porém, dado o contexto, é mais natural chorar ao "rir a bandeiras despregadas", e percebe-se porque às vezes chorar de tanto rir é um claro sinal de que se ri demais, e foram dados claros sinais para chorar. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ver estrelas

"Ver estrelas ao meio-dia" era uma expressão antiga, que encontramos em textos do Séc. XIX, e que hoje abreviamos para "ver estrelas", mantendo o sentido associado a uma pancada ou dor forte. Era especialmente popular nos desenhos animados dos anos 60 e 70.

Não há estrelas no céu a dourar o caminho da NASA.
O filme "Gravity" que agora estreou, lembra as "caminhadas espaciais", mas vem também lembrar as muitas imagens de astronautas perdidos num "espaço negro":
Bruce McCandless na sua "grande caminhada" fora da nave, em 1984.

A história da carochinha é sempre a mesma... o brilho da Terra/Sol ofuscaria o brilho das estrelas, para fotografia de exposição curta. As únicas estrelas no espaço são os astronautas, esses bem visíveis, pois visa-se um estrelato hollywoodesco. À caminhada só faltava a pegada, essa "deixaram-na na Lua".

Porém, noutras paragens, na URSS de 1965, a conversa era outra...
Vemos nas duas imagens seguintes, o primeiro cosmonauta, A. Leonov, rodeado de estrelas a dourar o espaço negro:
A. Leonov (primeiro cosmonauta no espaço, 1965)
As estrelas são perfeitamente visíveis, como seria de prever.
(imagens: em Claude Lafleur e na Time)

Portanto, o filme fotográfico que a URSS usava não era à prova de estrelas.

Quer isto dizer que os EUA não chegaram a enviar ninguém ao espaço, e que tudo não passam de encenações feitas em estúdios de cinema e fotografia? Uma coisa não implica a outra... podem perfeitamente ter ido, mas temos todas as razões para suspeitar dos seus filmes e encenações.

Um problema está abordado justamente no filme Gravity... mas num contexto de erro russo!
Não será à toa que nas imagens que vemos dos russos os cosmonautas não se desprendem muito da nave.
A Terra é bombardeada por milhões de pequenas partículas. Algumas, maiores, podemos vê-las no céu à noite - são as chamadas estrelas cadentes. 
Ao irromperem pela atmosfera a enormes velocidades os meteoros incendeiam-se provocando aquele espectáculo clássico. Há épocas em que atravessamos órbitas de destroços, e nos meses de Julho e Agosto são características as chuvas de meteoros, chamadas Perseidas.

No espaço, não havendo atmosfera protectora, mesmo as mais pequenas partículas actuam como autênticas balas... e, ou se arrisca a sorte, ou um cosmonauta poderia ser alvo de "um tiro". Isto não afectará os astronautas, porque presume-se que estejam em filmagens, e o maior medo será se a foto não o favorece muito.
Já os cosmonautas, esses não é muito crivel que se aventurassem para além do escudo protector que seria a própria nave espacial. Os próprios satélites artificiais incluem uma apólice de risco de serem albarroados por um pequeno meteoro, e não é demasiado grave o impacto de micro-meteoros porque o seu material será suficientemente resistente a esse impacto menor.

Há poucos dias, para promoção dos Jogos Olímpicos de Inverno, Sochi 2014, os russos levaram uma tocha olímpica para o espaço... e lá está a NASA associou-se, com imagens mais nítidas sem estrelas, ao passo que os russos davam as suas tímidas e mal definidas imagens:
Kotov exibe a tocha olímpica... num tímido passeio espacial

Não vemos aqui nada de especial, face a outras imagens... muito pelo contrário, Kotov nem sai da estação espacial, e a novidade de ter uma "tocha olímpica", seria proeza pequena quando vemos a primeira imagem de McCandless, ousadamente soltando-se pelo espaço negro.

Porém, é natural que os russos tenham um património de ver estrelas e não queiram abdicar completamente dele para o apagão americano.

domingo, 3 de novembro de 2013

Eclipse now... hoje 03-11-2013

Por volta do meio-dia de hoje, 3 de Novembro de 2013, está previsto um eclipse do sol híbrido

Curiosamente, conforme refere a wikipedia, irá ser visível em todos os países de língua oficial portuguesa (menos Timor)... É um eclipse que se inicia sobre o Atlântico, da costa leste da América do Norte à costa norte da América do Sul, e que depois cobre praticamente toda a África. Na Europa estará restrito praticamente a Portugal, Espanha, Itália e Grécia.

Eclíptica
Aproveito para uma daquelas observações simples, mas que podem ser instrutivas.
Se o céu estivesse "fixo"... a cada ponto da Terra corresponde exactamente um ponto do Céu.
Ou seja, fixado esse céu, pelo zénite, cada estrela teria uma posição exacta sobre a Terra, e vice-versa.


Uma indicação de que algo desse género poderá ter estado na demarcação das constelações tem a ver com alguns nomes e mitos. 
Por exemplo, Perseus, que pode ser ligado à Pérsia está acima de Touro, e Taurus era a cadeia montanhosa que definia a Turquia, com clara proximidade à Pérsia. Além disso, abaixo de Touro encontramos Oríon, que tem sido identificado ao Egipto. Há quem veja nas 3 pirâmides de Gizé uma associação às 3 estrelas do cinto de Orion (se bem que estas estrelas estão demasiado abaixo, cruzando a linha do Equador). Outras associações são mais difíceis, até porque não é claro se havia ou não redução ao espaço conhecido. 
Porém, Hércules poderia ser remetido facilmente às Colunas de Hércules, pois esse era um nome de referência na geografia antiga.

Bom, e praticamente ficamos por aqui, ainda que possamos estabelecer outro tipo de relações. 
Por exemplo, seguindo Hércules temos Lira e Cisne. São dois símbolos conhecidos. A lira está ligada a Apolo, mas também ao filho Orfeu - poeta e um dos Argonautas, ligados à viagem de Jasão. Por outro lado, o Cisne esteve ligado a mitos de passagem do Atlântico, por Lohengrin.
Seguindo por esta ordem, surgiria imediatamente Pégaso, Cefeu, Cassiopeia, o que se liga directamente a toda a história de Andrómeda e Perseu. 
Para se manter algum nexo, deveríamos considerar a visão antiga, de Colombo, que ligaria directamente o Atlântico à Índia e Etiópia. De facto, Cefeu surge como rei da Etiópia, e assim Andrómeda surgiria como associada a uma Índia presa. Andrómeda sofria punição de Neptuno, o que poderia referir-se à proibição de navegações, mas seria salva por Perseu. O corte da cabeça da Medusa, poderia ser um corte da liderança dos Medos, que colocou os Persas no comando.
Por outro lado, Cappela, a cabra, e Auriga, pela quadriga, ligariam à Grécia e/ou à Itália, ainda que esta relação seja menos clara, tal como a Ursa Maior poderia ligar à parte continental europeia, onde o urso era um símbolo (por exemplo, o "Ber" em Berna ou Berlim estão-lhe associados). Isto implicaria uma associação geográfica algo grosseira, mas que tem sentido nas representações antigas do mundo.

É claro que tudo isto são meras especulações, mas um maior estudo poderá permitir outras conexões. De qualquer forma, este tipo de ligação sempre me parece fazer mais sentido do que a simples ideia difundida de que a associação de constelações corresponderia a ver figuras desenhadas pelas estrelas... algo que só em raros casos tem algum sentido, mesmo com grande esforço de imaginação.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Canhão da Nazaré (3) - ondas à superfície

O canhão, nas profundezas, e as ondas, que se manifestam à superfície, sempre lá estiveram...


Nazaré Blow Up (Hélio Valentim).

... a novidade está na atenção que passaram a ter, por via do havaiano Garrett McNamara.

Desta vez, a atenção foi emprestada pelos brasileiros Carlos e Maya, e este vídeo de Hélio Valentim é notável.

Porém, não deixa de ser igualmente de lembrar o filme de 1929, de Leitão de Barros, "Nazaré, praia de pescadores".

Conheci suficientemente a praia da Nazaré para me recordar dos gritos das mulheres nas ruas, quando uma embarcação se perdeu, engolida pelo mesmo mar que antes era visto com temor e hoje é olhado como recreio, mas que não deixa de guardar os perigos da enorme potência que ali exibe.

Tem mil anos uma história de viver a navegar... há mil anos de memórias a contar:
Sete Mares, dos Sétima Legião (curiosamente do álbum "Mar d'Outubro"...), incorporava algumas imagens do filme de Leitão de Barros (o vídeo tem ainda imagens de um clássico de Serguei Eisenstein, "Alexander Nevsky", de 1938... ver neste link aos 28 minutos).

Há mais do que mil anos de memórias a contar...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Herança genética - o reino das amebas

Um dos mitos que deve ter caído da cadeira do preconceito genético terá sido saber-se que a maior sequência genética não está entre os seres humanos.

Se olharmos para a herança genética que passa de progenitores para descendentes, a actual liderança destacada vai para uma Ameba, com menos de meio milímetro, de nome Polychaos dubium:
A ameba Polychaos dubium tem a maior sequência genética (encyclopedia of life)

O genoma desta ameba é 200 vezes superior ao dos humanos, e apesar do seu tamanho insignificante, tem algumas particularidades notáveis. Entre essas particularidades estão cristais de forma bipiramidal que guarda em si, ou uma notável capacidade de alterar a sua forma, criando protuberâncias - chamadas pseudopodes ou pseudo-pés. Esta ameba pode ser encontrada na Europa ou América do Norte, em locais de água doce, alimentando-se de algas...

Vemos aqui um claro exemplo de como a complexidade pode ter outras formas. Se o genoma do homem (3.2 Gb) cabe bem numa pequena Pen de 4 Gb, o desta senhora ameba precisa de um disco com mais de 500 Gb, para armazenar 670 Gb.

Tratando-se de um ser unicelular, não indicia haver um processo de meta-conhecimento.
É uma alternativa evolutiva em que parece não haver colaboração com outras células.
Enquanto no caso de animais multicelulares cada célula individual é apenas uma contributo para uma forma de vida agregada, de onde resulta um conhecimento superior  (através da interacção, confiança na dependência, que coloca decisões nos múltiplos neurónios de um cérebro), neste caso a solução é individual. 

Seres multicelulares
Mesmo do ponto de vista de seres multicelulares, o genoma humano fica bastante atrás de dois casos conhecidos, que têm genomas pelo menos 40 vezes superiores.
No caso de plantas, o recorde de 150 Gb está actualmente numa espécie de lírio, denominada Paris Japonica, encontrada com outros lírios no Monte Haku:
Paris Japonica, lírio com o maior genoma entre os multicelulares

Outros lírios mais vulgares, como a fritillaria assyriaca ou uva vulpis, chegam a ter 130 Gb, rivalizando com o maior genoma encontrado num animal vertebrado:
- Trata-se do Peixe Pulmonado Protopterus aethiopicus, com também 130 Gb, e que pode ser encontrado no Rio Nilo:
O peixe pulmonado tem o maior genoma entre os animais multicelulares

Sobre o lírio não conheço nada em especial que justifique tão pesada herança - talvez um nariz mais apurado consiga perceber alguma subtileza no aroma produzido. 
Já o peixe pulmonado é notável por conseguir respirar ar, estando numa categoria particular dos Tetrapodes - ou seja, animais com quatro patas, levando-o ao antecessor vertebrado de onde terão partido a maioria dos animais terrestres - quando saíram da água (época Devoniana), por conseguirem respirar directamente ar, podendo gerar os anfíbios.

Cadeia informativa
O genoma, ainda mal compreendido, pode ter informação redundante. Em seres microscópicos parece haver uma relação mais clara entre a sua complexidade e o comprimento da cadeia genética, no caso de seres macroscópicos isso não é tão evidente... até porque haverá diversos níveis de redundância.

Os seres multicelulares começam por ter 100 Mb e como vemos podem ser até 1500 vezes mais longos, enquanto os mais pequenos animais unicelulares começam nos 20 Mb e podem ser até 33 000 vezes mais longos no seu genoma. Ou seja, a variação entre os seres unicelulares é bem maior, permitindo a existência de animais com complexidade mais pequena.

Se o vertebrado com o maior genoma encontrado é um peixe que respira ar, o mais pequeno é um peixe vulgar - uma espécie de peixe-balão de aquário, chamado Tetraodon nigroviridis, e com 385 Mb tem o seu genoma com apenas um tamanho 9 vezes inferior ao dos humanos. Algumas formigas têm mesmo um genoma superior ao deste peixe (formiga-de-fogo).
Estas contas simples colocam os humanos num patamar pequeno ao nível do tamanho do genoma... são apenas 9 vezes maiores que o peixe-balão, e 40 vezes menores que o peixe pulmonado.

Se outras contas fossem necessárias, parece claro que a novidade humana não se deu pelo tamanho da herança genética. Os factores externos pesaram de sobremaneira na definição dos animais superiores, e o registo de herança genética foi reduzido a um nível muito pequeno - ninguém nasce ensinado - se isso contar para alguma coisa é para uma ameba!

Estamos habituados a que o esquema de interdependência celular tenha levado aos maiores organismos, e que os organismos unicelulares pouco mais sirvam do que acessórios... contudo os próprios organismos unicelulares podem organizar-se em colónias - como é o caso das bactérias, dos fungos, etc.
Não é completamente claro que estes seres separados não deixem de actuar em conjunto. Ainda que não se perceba nenhuma comunicação detectável entre si, como entre formigas, ou entre abelhas numa colmeia, há alguns aspectos em que denotam mais do que uma coordenação acidental.
Quando começamos a ver as coisas numa perspectiva de organismos desconexos, mas em que o propósito pode ser conexo e desconhecido, então estes seres unicelulares, que optaram por não depender de outras células, têm uma dimensão planetária cuja massa total é gigantesca e por reciprocidade oposta faz o conjunto de todos os outros seres parecer uma ameba ao pé de si!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Verdade ou Consequência

O chamado "verdade ou consequência" era um dos jogos mais parvos que se jogava na infância/ adolescência. Não creio que se possa considerar um jogo popular... as suas origens parecem remontar ao princípio do Séc. XVIII, enquadrando-se bem num certo treino de mentalidade cortesã doentia, onde se exercitava o espírito de grupo, ou melhor, de matilha.
Afinal, procurava-se ou a exposição de uma verdade embaraçosa ou o embaraço de uma actividade compensatória, tomando-se como equivalentes. Servia como uma espécie de treino para um mundo perverso sem alternativas agradáveis... O eventual interesse só resultaria de grande cumplicidade entre os promotores, ou remetendo para alvo de ridículo os novos convidados, externos ao grupo de interesse. Todas estas características são típicas de uma corte mordaz, cujo objecto é a própria corte, o galanteio, a sedução com os mais diversos atractivos fugazes.
Picasso - bacanal... por estranho que pareça, os quadros ilustrativos de festas, 
remetem normalmente para os devaneios mitológicos de Baco.

A burguesia dos Séc. XIX e XX, sendo seduzida pelo fausto aristocrata faria facilmente o papel ridículo de novos convidados, acabando por transmitir cedo aos seus petizes as perversidades que iriam experimentar... por sua vez, estes petizes, por via destes jogos, acabaram por difundir o processo à restante população.
Bom, mas este texto não é sobre as frustrações duma burguesia que julgou poder ser feliz com devaneios hedonistas dependentes dum privar privado. Afinal, o seu maior fascínio - o isolamento parcial (o grupo privado, no sentido elitista), esbarraria com o maior temor - o isolamento total (a rejeição por esse grupo). Tal como no jogo dos petizes, as mecânicas de grupo decidiriam entre o gozar e o ser gozado.

Este texto é sobre a verdade que pode haver na "consequência".

O encadeamento de factos, no sentido causa-efeito, é uma visão do observador limitado, circunscrito pela dimensão temporal. É um problema de modelação animal, já que uma previsão adequada actua no sentido de salvaguarda da sobrevivência - o animal melhor capaz de antecipar acontecimentos, mais probabilidade terá de os aproveitar em seu favor. As frases normalmente terminam aqui. É suposto entender-se o que é "em seu favor"... porém, raramente o próprio questiona os seus interesses. Habituou-se a saber quais são, e não indaga a origem, porque são esses, ou se fazem sentido.
Se o sujeito considerar que são os seus ímpetos irracionais, nem adianta procurar a origem - voga simplesmente num caos que não quer compreender. Se considerar que são os seus desejos racionais, tem que lhes procurar origem e fundamento... algo a que não basta o diz-que-disse dos outros. Aí está sujeito ao mesmo fado que qualquer desgraçado isolado. Não se estando a bater contra ninguém, a posição alheia é praticamente irrelevante, e só é interessante quando concorre na resolução do problema.

Os deuses eram crianças... A inimputabilidade de actos gera irresponsabilidade e inconsequência. Na mitologia greco-romana para evitar a constatação dessa acção inconsequente, mesmo Zeus sofria agruras em resultado das suas decisões. O Olimpo só não era uma brincadeira pouco digna de relevo, porque se introduziram limitações e imputabilidade aos deuses pelas suas acções. Sem essa penalização, a figura dos deuses pareceria a de crianças... e mesmo assim pouco se livravam duma imagem adolescente.

Sem a iminência de contrariedades, sem desconhecimento, o que nos motivaria à reflexão, ao pensamento profundo? O nosso carácter circunspecto, adulto, provém de um medo de consequências. A nossa responsabilidade resulta de uma associação entre as nossas acções e o seu eventual resultado. Essa responsabilidade será tanto maior quanto mais considerarmos que influenciamos o mundo que nos rodeia. Se a certa altura cada acto nosso pesasse de sobremaneira nesse contexto, tanto mais tomaríamos cuidado com todos os detalhes, tornando a vivência num fardo incomportável. Só a inimputabilidade compensa o acréscimo de responsabilidade... e por isso quanto maior é a potência responsável, mais tenta cuidar de ser inimputável. É nessa fase que começa a ser inconsequente, irresponsável, já que o resultado dos actos não parece pesar sobre si. Porém, uma coisa são as dimensões que antevemos, outras são as que nos escapam... e por isso a potência nunca parece ser suficientemente grande para garantir a inimputabilidade, bastando para isso haver o mais pequeno ser que escapa ao controlo total.

Todas estas noções caem na relação causa-efeito. Todas estas noções resultam de uma vivência do tempo como uma entidade ambígua, que permite previsibilidade nalguns actos, mas não deixa de trazer uma associada imprevisibilidade. A previsibilidade deu-nos um pensamento não caótico, e a imprevisibilidade deu-nos um pensamento interminável... a ausência de ambos os aspectos remeteria à loucura.

Qual foi a causa da fama de Hércules, senão o efeito que ela teve?
Perante trabalhos em que improvavelmente sobreviveria, a sua sobrevivência com sucesso ditou o registo.
Por isso, quando Héracles é elevado ao panteão de divindade, é pela improbabilidade do feito, como se o universo tivesse decidido o resultado antes dele acontecer. Isso só é atestado após os acontecimentos, é um privilégio decorativo dos poetas, pois os escritos não se sujeitam à ordem temporal.
O herói era antes de o ser, porque afinal era filho de Zeus... mas a paternidade divina só foi atestada após a vivência humana singular. Antes disso seria visto como um igual pelos outros.

Há associações entre acontecimentos que são convenientes, pois ao aproveitarem a ordem no mundo não-caótico servem a vivência futura pela previsão, e disso é feita a ciência. Bebendo no passado podemos prever uma parte do futuro... mas apenas uma parte dele. Sobre o imprevisível parece que nada se poderia dizer, mas não é assim - podemos compreender o imprevisível sem o prever. A previsão seria logicamente impossível, por definição, mas a compreensão não conhece limitação... e é pelo menos fácil compreender que o imprevisível nos é necessário.

A consequência vai mais além do que a ordem temporal vivenciada. Não é apenas um produto do passado, é um produto do conjunto - passado e futuro, que se revela no presente. Esse é um nexo que vai para além dos tempos, determina e revela a própria noção de tempo. Por isso, a verdade não é um assunto do passado, é também um assunto do futuro... e é essa verdade futura que faz surgir o passado como consequência. Do ponto de vista do pensador, há um tempo de raciocínio que é independente do tempo presenciado e a consequência é uma noção do passado para o futuro, na compreensão. Porém, libertando-se desse aspecto da compreensão do observador, a consequência não está presa a nenhuma ordem temporal. A existência de um passado que justifique o presente é um nexo necessário à própria existência, sob pena dela se manifestar como infundada pelo pensamento que a contempla. E é esse nexo de existência que remete o futuro como causa do passado. O passado não é suficiente para o nexo existencial, já que o passado poderia remeter para qualquer existência, ou até para a não-existência absoluta. Só depois de se cumprir no futuro completo é que a consciência despertou e renasceu para se contemplar, podendo então ver o futuro como um passado inconsciente. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

U

Se tivéssemos apenas uma parede para pintar, deixando como legado a gerações a milénios de distância, como aconteceu com as pinturas rupestres... o que desenharíamos?


... e o resto são detalhes.

Wise Up (do filme Magnolia, Aimee Mann)

It's not
What they thought
When they first began it
They got
What they want
Now they can hardly stand it though,
By now they know
It's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til they wise up

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Nebulosidades auditivas (3)

Acabado de sair há uma semana...
Reflektor, dos canadianos Arcade Fire (9 pm 9/9, Newfoundland, 2013)

Trapped in a prism, in a prism of light
Alone in the darkness, darkness of white
We fell in love, alone on a stage
In the reflective age

Entre la nuit, la nuit et l’aurore
Entre le royaume, des vivants et des morts
If this is heaven
I don't know what it’s for
If I can’t find you there
I don't care

I thought I found a way to enter
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)
I thought I found the connector
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)

Now, the signals we send, are deflected again
We're still connected, but are we even friends?
We fell in love when I was nineteen
And now we're staring at a screen

Entre la nuit, la nuit et l’aurore
Entre les voyants, les vivants et les morts
If this is heaven
I need something more
Just a place to be alone
Because you're my home

I thought I found a way to enter
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)
I thought I found the connector
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)

It’s just a reflection of a reflection
Of a reflection of a reflection
Will I see you on the other side?
We all got things to hide
It’s just a reflection of a reflection
Of a reflection of a reflection
Will I see you on the other side?
We all got things to hide

All right, let's go back
Our song escapes on little silver discs
Our love is plastic, we'll break it to bits
I want to break free, but will they break me?
Down, down, down
Don't mess around

I thought I found a way to enter
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)
I thought I found the connector
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)

Thought you were praying to the resurrector
Turns out it was just a Reflektor (It’s just a Reflektor)
Thought you were praying to the resurrector
Turns out it was just a Reflektor (It’s just a Reflektor)
Thought you were praying to the resurrector
Turns out it was just a Reflektor (It’s just a Reflektor)

It’s a Reflektor
It’s just a Reflektor
Just a Reflektor
Will I see you on the other side?
It’s just a Reflektor
Will I see you on the other side?
We all got things to hide
It’s just a Reflektor
Will I see you on the other side?


..... já agora, em 8 de Setembro, houve um eclipse de Vénus feito pela Lua. Não tenho fotografias, mas encontrei esta, tirada próximo do momento da ocultação, no Brasil:
Eclipse de Vénus pela Lua em 2013 (foto daqui)

... mas é mais interessante uma foto de telescópio, obtida em Maio de 2010:
Eclipse de Vénus pela Lua em 2010 (dailymail.co.uk)
onde, certamente por "defeito da câmara", ficou um pontinho vermelho no meio da Lua!

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Senhores dos Passos na Lua

Desde há 44 anos...
(foto wikipedia)

... que foram feitos os passos para nos convencer desta pegada, na Lua.
Há quem diga que tal pegada só seria possível com humidade, uma humidade que não pode existir na Lua.
Ao andar na praia, sabemos que pegadas destas... só mesmo na areia molhada.
Mas, o que é que isso interessa, se a verdade difundida é propriedade de senhores dos passos lunares?

Seriam "grandes passos da humanidade" ou "grandes passos sem humidade"?...
Foi assim, durante os 4 anos da missão Apollo... depois faltou humidade e humildade para outros passos de humanidade... já lá vão 40 anos.

É claro, seguiu-se Marte, onde tivemos vários Rover a mandar imagens.
O que se notava é que faltava azul nas imagens... porque se o azul fosse corrigido nas fotos, começava a parecer-se muito com paisagens terrestres:


Imagem da NASA, Rover Oportunity, 2004, em Marte... Burns Cliff 

Primeiro, a imagem original. 
Depois os três canais habituais: vermelho, verde e azul.
Nota-se claramente uma falha de intensidade no azul, ao contrário dos outros!
Corrigindo isso (por exemplo: R-64, G-32, B+32) obtém-se a imagem de baixo 
(veja-se ao lado que o azul só foi aumentado um pouco).
Passa a haver um maior equilíbrio na nova imagem, repondo algum azul... 
... e a imagem parece agora muito terrestre!

Bom, mas já falámos extensamente deste assunto... e remeto para o texto anterior:
Hoje foi só para saudar os senhores da Lua, que comemoraram hoje os 44 anos dos passos.

sábado, 10 de agosto de 2013

Ante-revolução

O prefixo "anti" serve normalmente para designar oposição, "antagonismo". 
De forma semelhante, "ant" é também usado para designar o que é antigo... usamo-lo na palavra "antes",  "anterior", mas também na palavra "anta", e em muitos outros exemplos.
Normalmente, não damos muito relevo a eventuais significados na análise da língua, mas estão presentes em muitos e variados exemplos.
O prefixo "pre" também invoca um momento anterior, tal como "prever" será sinónimo de "antever", remetendo ambas para um "ver antes".
Este prefixo "pre" está ligado ao prefixo "re", passando à forma repetitiva. A palavra "ré" significa, por si só, uma parte traseira. No entanto, é como se o tempo tivesse decorrido, e há um voltar atrás, um "recuar". 
Quando escrevemos "prever" é diferente de "rever", porque no primeiro caso envolve uma "pre-visão" que fazemos, antes da ocorrência, e no segundo caso trata-se de uma "re-visão" do ocorrido.

Os anos são revoluções da Terra.
O termo astronómico "revolução" mantém o significado original - um regresso ao ponto de partida.
O termo social "revolução" perdeu esse significado, pelo menos na sua generalização popular.
No fim da evolução do ano, a Terra volta à mesma posição, e portanto as "primaveras", simbolizadas por movimentos sociais revolucionários, acabam por ser regressos a um ponto de partida. O movimento nasce numa primavera, com a promessa de um verão... "verão justiça", "verão liberdade", "verão igualdade", "verão que será tudo bom, etc.". 
Segue-se o outono em que as folhas onde foram escritas essas promessas caem por terra. Pelo que, prestes a cumprir-se o ciclo anual, vem a parte mais dolorosa dos anais, onde surge o frio do inverno, que parece um inferno. O inverno é "in"-"entre", "verno"-"povo, servos, escravos". E será essa massa que morre para renascer noutra forma, noutra "prima-vera", noutra "primeira verdade", que dará um novo "verão"...

A primavera surge assim para milhões de criaturas como a primeira, porque nunca conheceram outra... é assim que funciona a revolução terrestre, a repetição funciona como uma primeira vez, quando perdida, ou  está ausente a memória.

Encontrei uma gravura antiga, sobre as ruínas de Persépolis, que carrega um significado e beleza na pose dos leões... passeando sobre ruínas de uma civilização que tanto os caçava, como venerava.
Uma irónica visita de leões às ruínas de Persépolis (autor desconhecido)

A repetição é a força mais poderosa nos mecanismos universais... é de certa forma "a ordem por detrás do caos". Foi na repetição da revolução terrestre que se estabeleceram alguns mecanismos naturais... as plantas e animais aguardam as primaveras para induzirem nova repetição de processos de reprodução. 
E, afinal, a descendência dos seres pouco mais parece ser que uma repetição de si próprios. 
No entanto, esta repetição dá-se a diversos níveis. 
Há repetições atómicas, microscópicas, que decorrem a um nível temporal ínfimo, e depois há repetições que se manifestam mais demoradamente, como no caso da revolução terrestre. Individualmente, cada processo não parece passar de repetição... mas as ligeiras diferenças acabam por fazer toda a diferença.

No texto Abraçadabra, lembrámos a citação do filme de Visconti: 
- Para que tudo permaneça igual, é preciso que tudo mude...

Porém, nem tudo permanece igual, e ao fim das mudanças necessárias, a vida unicelular de bactérias levou a complexos seres... a plantas, a animais, ao domínio de grandes bestas, e até ao aparecimento humano.

É natural questionar a violência de todo o processo evolutivo, assim como é comum assumir natural a repetição do ciclo revolutivo. Um não se desliga do outro... há uma repetição que encaramos como ordem, mas depois há pequenas mudanças, fruto do "caos", que subvertendo a ordem acabam por trazer novidade à velha ordem.

Monte Semeru (ou Sumero), na Indonésia

A referência ao monte Semeru na Indonésia, é uma ilustração do monte Sumero, o monte central do universo na cosmologia budista.
Notamos aqui a entrada do prefixo "Su" para qualificativo superior do monte Mero pré-existente na cosmologia hindú. Esse mesmo "su" está também no prefixo de "sufixo", apontando para o posterior, ou topo, como na palavra "sumo", ou "superior", e no prefixo "sup" (e em "sub" por inversão).
Há um outro prefixo "Pos", que aponta também para o "após", até porque é habitual ver como "pós", ou como "pó", o que restará após a morte. Curiosamente, pó ou cinzas, remeteriam para um culto de cremação dos corpos em piras funerárias. Por outro lado, a palavra "funeral" remete-nos para um prefixo "fun" que está presente no "fundo", como num ritual de enterramento.
Não é fácil perceber se há apenas uma coincidência entre "Sumero" e "Sumério", já que se os sumérios seriam muito anteriores aos budistas, seriam posteriores aos hindús.

Estes são apenas alguns exemplos, a propósito da palavra "revolução" e algumas outras. O prefixo "pro" tem também um significado direccional, algo oposto a "pre". Na antevisão, o "pró" aparece como razão favorável, enquanto o "pré" aparece em contraponto, como requisito. No português, ter o "pró" como contracção de "para o", é significativo, e deve dar o mesmo sentido ao prefixo "prá". Curiosamente, indo ainda pelas contracções "pó" e "pá", remete-se ao destino no pó da cinza ou na pá da terra...
Ao contrário de "ré", sozinho o prefixo "ró" não tem uso aparente, mas "roda" ou "rolar", digamos que rolam nesse sentido de direcção natural.
Podemos ainda reparar que em "revolta" há a junção de "re" com "volta", onde o prefixo "vol" representa normalmente o regresso, como em "volver" ou "voltar", num rodar de 180º, face à direcção seguida. Assim, quando escrevemos "revolver" indicia essa acção de ir repetidamente num sentido e no oposto, remexendo para ver. Quando escrevemos "revoltar" deve pois significar uma acção que mistura direcções opostas, agora um remexer para estar...

Ao escrever, é fácil lembrar outras palavras, e uma delas é "escrever".
A "cré", uma espécie de gesso, era usada para escrever. É natural que o verbo "crer" se possa remeter à "cré", ao que estava escrito, que tinha "crédito"... e era assim mais fiável. Como registo, remete a um passado, e o "ré" de anterior, é apropriado. Portanto, o "cre" em "escrever" pode remeter a ver o escrito nessa "cré". Pode argumentar-se que há outros contra-exemplos "cretinos"... mas uma coisa não tem a ver com a outra, podem ter origem importada, ou aparecerem em interpretação... um "crescer" pode ser foneticamente um "crê ser", onde o "cre" surge já na interpretação do acreditar.

São vários os prefixos que se associam facilmente às proposições, como o "com", "de", "em", etc... por exemplo em "concorrer", "decorrer", "incorrer" (o "em" passa frequentemente a "in").
Assim, o "com", "con" ou "co" remete para uma companhia, um conjunto (o concorrer será entrar no conjunto da corrida), enquanto o "de" remete para uma pertença (o decorrer será estar dentro da corrida), e o "em" remete para uma entrada (o incorrer será entrar na corrida).
Por outro lado, o prefixo "des" significa uma oposição, papel que é desempenhado também pela proposição "a" (mas nem sempre...). Aqui, as formas "discorrer" ou "acorrer" não significam a priori uma oposição à corrida. O "acorrer" remete simplesmente a um ir "a correr" (tal como "socorrer", com o "su" superlativo), enquanto que o "discorrer" pode significar a oposição, no sentido em que se percebe o significado da corrida.
O som "des" significar cancelamento não deixa de levar ao carácter decimal da numeração, já que chegados a "dez" acabariam os dedos... de forma semelhante o prefixo "sim" ligaria ao cinco, pelo lado afirmativo. Uma "mão cheia", ou um "dá cá mais cinco"... apontam nesse sentido de positividade para o cinco.
As duas mãos abertas são ainda hoje um símbolo de paragem, como um certo "já chega".

Nas pinturas primitivas quando aparece uma só mão, poderia significar mais do que uma assinatura, mas sim uma concordância... enquanto que duas mãos poderiam significar um registo de oposição. Isto dependeria obviamente dos códigos, mas será instrutivo não tomar apenas as mãos como simples assinaturas...

Cave de las manos (Argentina, circa 10 000 a.C.)
As mãos presentes nas cavernas podem não significar meras assinaturas do passado...
... podem remeter para uma contagem de posições (as mãos a branco num sentido, a preto noutro)

Há aliás uma característica numérica nas línguas indo-europeias, que é conhecida... o "nove" parece ser sempre próximo de "novo" (neuf-neuf, neun-neu, ...), tal como "noite" estar foneticamente próxima de "oito" (nuit-huit, nacht-acht, ...).
As outras etimologias que estive a referir é claro que se adaptam especialmente ao português... e pouco interessa se batem certo ou não com alguma etimologia do latim, porque o assunto ultrapassa as formatações que se pretenderam fazer - interessa o que resultou do intencional e não intencional.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Abade e o hábito

Imagine-se que, ao passear por uma praia da Bretanha, nos deparamos com uma escultura destas:

- Restos de monumentos de civilização antiga, perdida?
Seria uma possibilidade... por perto encontramos outras esculturas igualmente estranhas:

Acontece que estas e outras esculturas na Praia de Rothéneuf são atribuídas a um padre:
vítima de acidente que o deixaria surdo e mudo (no registo municipal de 1894 de Langouet, é registada uma "dureza de ouvido"). Recolhe-se a uma praia de Rothéneuf, onde durante 13 anos vai fazer mais de 300 esculturas nos rochedos da praia.
 
O Abade Fouéré e algumas esculturas mais "naïves" nas rochas de Rothéneuf.

Portanto, toda a história é assim consistente. Temos um abade, que se isola e vai esculpir 300 obras no seu retiro. Essas obras são ainda hoje visíveis, excepto alguns totens e outras esculturas em madeira, que desaparecem em 1940 (não sei se antes ou depois da invasão alemã da França).

No entanto...
No entanto, esta situação levanta algumas questões interessantes.
Há outros casos semelhantes?... alguns que podemos ver listados aqui, em particular o Facteur Cheval, anterior a este, iniciado em 1879, e que pode ter inspirado a ideia.

Ou seja, para aqueles que vendem livros, enchendo os programas do "Canal História", dizendo que os trabalhos de maçonaria antiga eram algo só possível de fabricar com a ajuda de "civilizações extra-terrestres", os exemplos de realização individual são elucidativos de como essa ideia é exagerada e completamente dispensável... pode servir outros propósitos de alienação, com ideias alienígenas.

Efectuar grandes monumentos reside muito mais na vontade e determinação de os realizar, do que na capacidade e recursos técnicos ao alcance. Se há algo estranho, é não haver muito mais casos destes espalhados pelo mundo...

Bom, e como distinguir se se tratam de realizações recentes, ou mesmo de realizações antigas?
Na prática, sem registo histórico fiável, ou técnica fidedigna de datação, é um exercício de fé!
Podemos pensar numa história completamente diferente... qual?
- E se... e se o Abade Fouéré tivesse apenas esculpido apenas algumas das rochas, bonecos mais naïves, que contrastam claramente com outras esculturas de traço sofisticado?
 
... uma coisa são bonecos meio infantis (veja-se o desenho da casa), 
outra coisa são esculturas com alguma sofisticação.
Trata-se de obra do mesmo artista?

(fotos: waswoutch em tejiendoelmundo.wordpress.com)

Ou seja, será que a reclusão do Abade Fouéré não seria uma missão de despiste, com o propósito de evitar a completa destruição dos monumentos existentes na praia... a que ele juntou outras esculturas mais simples?

Acresce que a segunda imagem que aqui colocámos (parecendo a "velha da Serra da Estrela"), é uma pedra diferente, que teve de ser erguida para ser colocada ali... algo difícil de ser feito numa praia de calhaus, por uma só pessoa!

As esculturas em causa poderiam ter sido feitas em qualquer época, por qualquer escultor dotado, e não propriamente por um abade amador... talvez se tenha perdido o registo. 
Antes da menção ao Abade Fouéré, parece não haver muitas menções a Rothéneuf. 
Encontrei esta citação na Revue de Paris de 1841 (pág. 172), que fala de "esculturas e degraus gigantes feitos pela natureza", que se viam na entrada do forte :
Lorsque, du haut des remparts de Saint-Malo, l'œil suit, dans sa courbe régulière et gracieuse, le large ruban de sable qui tranche d'un côté sur le cordon d'écume, éternelle bordure de l'Océan, de l'autre sur la pâle verdure des miels, le regard se trouve arrêté par une masse de roches escarpées qui forment cap et s'avancent brusquement dans la mer. Le fort de Rotheneuf est perché, comme un nid d'aigle, sur l'extrême pointe de ce cap. Sa situation est telle que, vus de profil à une certaine distance, ses ouvrages avancés paraissent dépasser le bord et pendre, soutenus par une force inconnue, sur le gouffre qui mugit et tourmente incessamment leur base. Le côté du cap qui regarde la ville surplombe et forme comme un immense perron renversé, dont chaque marche serait un accident du roc, une saillie bizarrement découpée dans la pierre. Cet escalier géant, que nul être humain ne s'est sans doute avisé de descendre, a son dernier degré sur la plage, toute hérissée en cet endroit de rescifs aux pointes abruptes et dentelées. L'autre côté, qui domine la baie de Rotheneuf, descend par une pente, praticable il est vrai, mais bien rapide encore, jusque sur la grève. 
A referência não é muito significativa, e nada esclarece sobre a existência prévia de esculturas... também é natural que se tais referências existissem, elas não sejam do conhecimento público, dada a história oficial que tudo atribui ao Abade.
Neste caso, o Abade Fouéré fez o hábito...