domingo, 15 de abril de 2012

Titan hic Titanic

O centenário do naufrágio do Titanic trouxe alguma informação interessante que desconhecia...

Há um conto de 1898 sobre um navio de nome Titan, considerado não-afundável, de dimensões idênticas às do Titanic, que haveria de colidir com um iceberg, também em Abril e pela meia-noite, à mesma velocidade, e onde também faltavam barcos salva-vidas (o Titan teria 24 para 3000 passageiros, e o Titanic levou 20 para 2235 passageiros). A maior diferença é que no conto do Titan não há praticamente sobreviventes.

Falamos do conto de 1898
O Naufrágio do Titan (Futility, The Wreck of the Titan)

de Morgan Robertson, que antecede em 13 ou 14 anos o desastre do Titanic, que ocorre em 1912.
Para não ser encarado de outra forma, tenta-se que seja visto como uma coincidência algo natural(*)... mas nunca o vemos referido nos inúmeros documentários e outro folclore que se construiu à volta desta história trágico-marítima do Titanic. 

Para quem conhece a história... algumas passagens logo no Cap. 1 soam claramente a antecipação:
She was the largest craft afloat (...) Two brass bands, two orchestras (...)
With nine compartments flooded the ship would still float, and so no known accident of the sea could possibly fill this many, the steamship Titan was considered practically unsinkable.
She was eight hundred feet long, of seventy thousand tons displacement, seventy-five thousand horse-power, and on her trial trip had steamed at a rate of twenty-five knots an hour over the bottom(...)
Unsinkable - indestructible, she carried as few boats as would satisfy the laws. These, twenty-four in number (...)
Morgan referia-se ao imaginado Titan, mas depois sabemos que o Titanic seria também o maior navio, com duas orquestras (que tocavam separadamente), acabou por afundar com 5 compartimentos (Morgan previa que o embate num iceberg afectasse apenas 3). Ambos foram considerados não-afundáveis, tinham mais 800 pés de comprimento, deslocavam perto de 70 mil toneladas, viajavam a 25 nós. Como já dissemos, sendo considerados não-afundáveis, levavam menos botes salva-vidas que o necessário.

Para uma lista de semelhanças mais detalhada, pode consultar-se a wikipedia, ou o texto do Prof. Flavio Cenni, devendo notar-se que às edições originais de 1898, seguiram-se edições posteriores... com a eventual suspeita de pequenas alterações para conjugar com o acidente. 
A notícia portuguesa (de onde parti) fala do "conto escrito em 1908" (ou seja 4 anos antes e não 14)... o que dá uma razoável diferença, e fica a dúvida...
Notícia do Titanic, que menciona o conto de antecipação de Morgan.
(retirado do blog delitodeopiniao.blogs.sapo.pt)

Houve um claro interesse posterior em vender o livro de Morgan, dadas as semelhanças com o naufrágio do Titanic... e como não parecem estar disponíveis versões de 1898, as que circulam com data posterior sofrem da suspeita de aproveitamento editorial subsequente.

De qualquer forma, é também interessante que Morgan Robertson tenha ainda feito um conto que fala de uma guerra com o Japão e um ataque a São Francisco (e não a Pearl Harbour), e que outros contos seus podem estar na origem das histórias da "Lagoa Azul" e de Tarzan. 
O nome de Morgan aparece ainda ligado à invenção dos periscópios... mas ele não terá antevisto que a entrada dos EUA na 1ª Guerra Mundial seria motivada pela acção de um submarino alemão, que levou ao afundamento de um outro navio, o Lusitania, em 1915, com um número de baixas quase semelhante ao do Titanic... na realidade Morgan morre dois meses antes disso acontecer.

Titan - hic (aqui)... quando hoje, 15 de Abril de 2012, Saturno, não o líder dos Titãs, mas sim o planeta, está em oposição ao Sol. Na efeméride, vista de Saturno, a Terra estará em conjunção com o Sol... dificilmente seria mesmo um ponto em trânsito no disco solar, pois o Sol visto dos planetas exteriores é praticamente uma estrela suprabrilhante (ver "pôr-do-sol marciano").



(*) Nota: Para efeitos de coincidência é deveras notável...
Conhecemos algum conto que tivesse encenado (antes de ocorrer) a queda de um Cessna a caminho do Porto com a morte de um primeiro-ministro? Ou um outro conto que tivesse previsto a queda de um avião presidencial polaco a caminho de uma homenagem a oficiais polacos mortos na 2ª Guerra Mundial? Ou um conto que tivesse sugerido que um presidente americano haveria de ser alvejado num desfile em Dallas?
- Eu não conheço... e se existissem, deveriam ser também vistos como naturais coincidências, como um instinto fatal?


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Trânsito de Vénus

Tem sido habitualmente especulado sobre alinhamentos em 2012, em particular em 21 de Dezembro de 2012... porém convém notar que nada de notável está previsto para essa data.
Acontecem alguns alinhamentos interessantes em 2012, sim, mas antes de Dezembro...
A mais notável efeméride será o trânsito de Vénus (pelo Sol), que ocorrerá em 6/6/12... já que só se voltará a repetir no próximo século, em 2117 e 2125.

Independentemente de se acreditar ou não que os alinhamentos planetários têm alguma influência física, eles tiveram e têm uma influência humana, no sentido em que houve e há quem altere o seu comportamento devido a eles. A astronomia teve sempre uma componente astrológica desde o momento em que alguém associou uma efeméride planetária a um acontecimento humano. 

Na pseudo-mitologia para o ano 2012 está um propalado início do calendário Maia. 
Só se começou a falar disso depois de passar a previsão apocalíptica de 2000... ainda que uma eventual Odisseia espacial de 2001, pode ter ocorrido como pseudo-Ilíada de 2001 sobre as Torraltas. 
As Torres Altas de Tróia, as duas Torraltas de Tróia, ou que duas torres altas?
lol ... havendo desde 2001 quem veja neste símbolo lots-of-laughs.

Calendário Chinês
Um outro calendário antigo é o chinês, cuja origem tem sido fonte de especulação e dúvida. Supõe-se que teria tido início num antigo alinhamento notável dos 5 planetas visíveis, juntamente com Sol e Lua. 
Em 1993 dois astrónomos do JPL-NASA, K. Pang e J. Bangert sugeriram que isso pode ter acontecido em 1953 a.C., o que dá um 3965 anos passados, ainda assim diferente do valor actual 4709 anos lunares, se atendermos a que isso corresponderia a ~ 4564 anos solares, ou seja uma diferença superior a 500 anos para essa hipótese. No entanto, K. Pang encontrou uma passagem num texto antigo de Hong Fan Zhuan (Séc. I a. C), que dizia:  
"The Ancient Zhuanxu calendar (invented in about 2000 B.C.) began at dawn, in the beginning of spring, when the sun, new moon and five planets gathered in the constellation Yingshi (Pegasus.)"  
Por isso, há alguma sustentação nessa hipótese de início do calendário por alinhamento na constelação de Pegasus ou Peixes, numa madrugada equinocial por volta de 2000 a.C. De qualquer forma, os cálculos usados hoje são sempre especulativos, até pela falta de informação sobre a inclinação do eixo da Terra, ou pela simples admissão de que nada teria mudado em 4000 anos.

É importante notar ainda que os chineses chamariam ao velho calendário lunar Yin, enquanto o calendário solar seria o Yang, na célebre dualidade oriental Yin/Yang (aqui Lua/Sol) expressa no símbolo


Trânsito de Vénus
Os trânsitos de Vénus pelo Sol foram importantes para definir as distâncias planetárias, mas também tiveram o seu papel de astrologia política... para isso basta notar que em 1769 é justamente Cook que irá ao Taiti fazer as medições astronómicas.
Independentemente do significado astronómico, há aqui um significado político, sendo Cook a regressar ao Pacífico "nunca antes navegado" para marcar o evento à escala planetária.

A última vez que o trânsito ocorreu foi em 8/6/2004... antes disto tinha sido em 1769 e no Séc. XIX (9/12/1874 e 6/12/1882), e depois de 2012 só voltará a ocorrer no Séc. XXII (11/12/2117 e 8/12/2125). Não ocorreu nenhuma vez durante o Séc. XX. [Consultar a lista com os trânsitos de Vénus previstos pela NASA]

Em 2012 de novo Vénus irá aparecer como um pequeno ponto negro à frente do Sol, visível ao nascer do Sol nesse dia, na zona do Pacífico. Esta passagem demora 6 horas, sendo visível onde ocorrer o pôr/nascer do Sol, entre as 22h da noite e 4h da manhã - no caso de Portugal não será visível!
Agora, em Abril, ainda é possível ver Vénus bem alto no céu, ao pôr do Sol, mas rapidamente irá descer e aproximar-se do Sol poente, nesse dia 6/6/12 passará de estrela da tarde (Hesper) a estrela da manhã (Lucifer, Phosphorus), como acontece periodicamente, com a única diferença que desta vez passa mesmo em frente do Sol nesse percurso - o chamado trânsito.

Segunda Lua - Cruithne
É dito que os "antigos" teriam visto Vénus como uma segunda Lua, pela intensidade do seu brilho, que resulta de ser o corpo celeste de grandes dimensões que mais se aproxima da Terra, excluindo a Lua.
Já Julio Verne (no livro "Da Terra à Lua") conjecturava sobre a existência de uma "pequena segunda Lua":

"Is it possible!" exclaimed Michel Ardan; "the Earth then has two moons like Neptune?"
"Yes, my friends, two moons, though it passes generally for having only one; but this second moon is so small, and its speed so great, that the inhabitants of the Earth cannot see it."

Recentemente foram descobertos pequenos corpos que podem ser vistos como "segundas Luas" da Terra, sendo muito pequenos. Um deles é o Asteróide 3753-Cruithne (de 5 km de diâmetro)

que apesar de não orbitar à volta da Terra, acaba por fazê-lo de forma aparente. Por outro lado, em 2010 descobriu-se um asteróide ainda mais pequeno (300 metros) 2010-TK7 que partilha a mesma órbita terrestre, numa posição que lhe permite não ser atraído nem pela Terra nem pelo Sol. É chamado asteróide-troiano, já que se encontra dissimuladamente na mesma zona orbital, num ponto lagrangiano. Estas zonas orbitais - pontos lagrangianos - podem ser usadas como entradas em "auto-estradas planetárias".

Julio Verne pensava noutro tipo de segunda Lua, mas estes objectos servem para analogia da sua "antecipação". Convém notar que não seria completamente impossível haver uma segunda Lua escondida à visão da Terra... bastaria que estivesse ocultada atrás da primeira, seguindo a mesma órbita a distância quase fixa - e para efeitos de ocultação visual, até poderia ser uma segunda Terra! Mecanicamente não seria impossível ter um conjunto de três corpos sincronizados... até no sentido em que a Lua seria o seu centro de massa! Essa hipótese só seria afastada pelas medições exactas da distância da Terra ao Sol, mas daria certamente para interessantes obras de ficção científica... não exactamente no sentido de universos paralelos, como está actualmente na moda (ver p. ex. o filme Another Earth), mas mais no sentido de universos colonizados...

Venus Express e Hubble
Já aqui tinha feito referência à inexplicável ausência de imagens espaciais de Vénus... afinal o planeta mais próximo é aquele de que temos menos imagens (pelo menos dos 5 visíveis a olho nú)!
A Venus Express, sonda da ESA (Agência Espacial Europeia), acabou por revelar algumas imagens melhores, mas ainda assim pouco diferentes das obtidas pelo telescópio Hubble:
 

Vénus: Imagem da ESA (esq.) e Imagem do Hubble (dir.)
... as cores são "falsas" pois são na zona ultravioleta...
... parece ser complicado tirar fotos normais....

São ainda curiosas as imagens de Marte vindas do Hubble, por exemplo:

diz-se que a imagem pode ir do infra-vermelho ao ultra-violeta... ou seja pode ser, ou é, uma imagem obtida com cores reais. Sobre o significado dessas cores azuladas e das nuvens, é interessante ler esta descrição. e ver a imagem da Viking. Na linha menos colorida surgiram outras imagens, com mais definição, mas talvez mais confusão... que vão desviando o olhar dos nossos telescópios.


Outras efemérides em 2012
A configuração aqui mencionada de conjunção entre Vénus, Júpiter e a Lua, irá ser semelhante, mas pela manhã, neste Verão. Vénus irá aproximar-se de novo de Júpiter, que se antecipará... de estrela à tarde, passará a estrela da manhã na transição do dia 13 de Maio de 2012. Ambas serão estrelas da manhã depois do dia 6 de Junho, e em 18 de Junho teremos pela manhã uma lua minguante, seguida de Vénus e Júpiter, um pouco mais acima do horizonte. De forma igualmente interessante será o aspecto da manhã, um mês depois, por volta de 15 de Julho, ou mesmo depois, por volta de 13 de Agosto.

(Não serão visíveis em Portugal: o eclipse anular do Sol a 20 de Maio, o eclipse total do Sol a 13 de Novembro, e o eclipse parcial da Lua a 4 de Junho).

Mais notável será a conjunção (de 1 grau apenas) entre Saturno e Vénus, que ocorre a 27 Novembro, ao mesmo tempo que um eclipse lunar de penumbra será visível no dia seguinte (mesmo na Europa).
A conjunção próxima de dois planetas já foi usada como explicação para a Estrela de Belém, associando a uma conjunção de Júpiter e Saturno no ano 7 a.C. que esteve a 1 grau de distância.
Nesse aspecto, como Vénus é mais brilhante que Jupiter, a prevista para 27 de Novembro de 2012 será mais notável, até porque a Lua também participa ficando sob a penumbra terrestre no dia seguinte.

Estes são os últimos registos de efemérides previstas para 2012 e nenhuma tem o aspecto de "conjunção extraordinária". Curiosamente a data de 21 de Dezembro, mas de 2020... essa sim aparece com uma conjunção notável de Jupiter e Saturno, que ficarão quase como estrela-dupla, separados por apenas um décimo de grau.

Tudo o resto sobre 2012, mais do que astrologia, faz muito parte do folclore financeiro, que vende produtos, vende sonhos, oculta o que importa, e divulga as necessárias distracções para desviar atenções.
Apocalipse significará "revelação"... e isso sim contribuiria para uma mudança de mentalidades - a única revolução que interessaria... recolocar o homem no seu devido lugar, no seu papel único de inteligência, em relação de honestidade e verdade com os seus semelhantes.
Porém, ao contrário, o que vamos vendo é uma reposição do homem nos seus instintos mais primários de índole animal, na linha da selecção natural... sobreviver ou usar a inteligência para se tornar num animal superior (o melhor da vizinhança) ou numa espécie superior (pertence a uma elite)!
Esse é um caminho sem destino e sem fim... conforme já referi, para além da inteligência, há apenas inteligência. Só a farsa alimenta uma ilusão evolutiva, com níveis, classes ou castas... e mesmo os mais crentes parecem esquecer o detalhe da criação - fomos feitos à imagem de Deus - e certamente isso não se referia ao aspecto físico!... Tudo o resto é uma questão de tempo, e equilíbrio... só teme a morte quem não pensou nos detalhes pouco simpáticos da eternidade. Por isso, Saturno pode ter cedido de bom grado o papel divinal ao filho Júpiter, e ter decidido viver com os humanos no Lácio... mas é ele enquanto Cronos que define a linha temporal - um simples corte de Úrano.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Trago, Sol e Lua

Para além dos subsídios ao vinho do Porto por Methuen, convirá não esquecer o vinho de Colares.

No plano de fabricar o que falecia a Lisboa, Francisco de Holanda, em 1571, vai lembrar-se de juntar um projecto nos arredores de Lisboa... na foz do Rio Colares, ou seja na Praia das Maçãs, perto do Cabo da Roca. Eis o que Francisco de Holanda propõe a D. Sebastião:
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DOS CIPOS DO SOL E LUA
Outra memória de basas digna de lembrar e de imitar dos fiéis, faziam os antigos e infiéis, como eu vi, quando me o Infante Dom Luis, vosso tio, que Deus tem, levou a mostrar a Serra de Syntra, mandando-me para isso chamar a Lysboa, quando vim de Italia. E vimos na foz do rio de Colares, prezada noutro tempo dos romanos, sobre um pequeno outeiro junto ao mar Oceano, um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram aquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao 
SOL ETERNO E A LVA (*)
a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado. 
O que nós espiritualmente podemos converter nos cipos ou embasamentos dos pés das cruzes que digo, em louvor e memória do verdadeiro SOL de justiça IESV CHRISTO, e da verdadeira e sempre cheia da sua graça S. MARIA N. SÑORA como se pode considerar deste desenho.
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O desenho de Holanda é o que coloquei em cima (à esquerda), e está de tal forma informativo que não me restam dúvidas sobre a localização do antigo templo dedicado ao Sol e à Lua, pelo que coloquei uma imagem do Google Earth da Praia das Maçãs (à direita), onde se vê o referido outeiro... felizmente está ainda incólume, alguém parece ter tido o cuidado de resistir à profanação do lugar, já que a sua localização era demasiado tentadora para um empreendimento hoteleiro ou turístico.

Para se compreender a importância do local, uso o Vocabulário Português de Raphael Bluteau (1720):
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Serra de Sintra. Segundo Dom Fr. Amador Arraiz, nos seus Diálogos, pág. 111 col. 2, chamou Varro à Serra de Sintra o Monte Trago, outros lhe chamaram o Monte Scynthia, ou mais propriamente Cinthia, isto é da Lua, donde sai o Cabo chamado da Lua (em Latim, Promontorium Lunae)  para o Oceano; nas raízes deste Cabo, na praia, esteve antigamente o Templo do Sol e da Lua, venerado com suma religião.
A inscrição do templo, que (segundo o dito autor) ainda hoje se vê, diz assim:
Soli aeterno & Lunae
Pro aeternitate Imperii,
Et salute Imp. Cai. Septimii Severi Augusti Pii & 
Imp. Caes. M. Aurelis Antonini, &c.
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Portanto, entre os imperadores que estiveram em culto na praia do Monte Trago ou Cynthia, contavam-se Sétimo Severo e Marco Aurélio.
As pedras estiveram lá e foram vistas por Francisco Holanda antes de 1571 e por Frei Amador Arrais antes de 1589. Não é claro se ainda eram visíveis ou não quando escreve Bluteau... e se resistiram ao período filipino, talvez não tenham resistido depois ao maremoto do Marquês. Hoje é suposto terem desaparecido sem rasto, ainda que seja mais ou menos óbvio que haverá quem saiba o que lhes aconteceu!

A proposta de Holanda era a de uma conversão forçada ao Cristianismo... a fonte de luz, o Sol, era Jesus Cristo, e a Lua passaria a ser Santa Maria. Não haveria uma destruição do espaço, mas sim uma adaptação conveniente. No entanto, o original tem algo a acrescentar...

Cynthia é um nome alternativo de Artemisa, ou Diana, a deusa da caça... associada à Lua.
Poderíamos ficar por aqui, estabelecendo a derivação do nome do monte... de Cynthia em Cintra.
Porém, a lenda é um pouco mais interessante e sem esforço presta-se a um ajustamento.

O nome alternativo resulta ele próprio de um monte... do monte Cyntho refúgio onde Leto, deusa-titã associada ao anoitecer, escapou de Hera e da Python para gerar os gémeos Apolo e Artemisa.
Se atendermos a que o anoitecer é o poente... o ocidente, e no monte de refúgio nascem o Sol (Apolo) e a Lua (Artemisa)... não vejo então outra possibilidade que não seja Sintra!
Compreende-se assim que Plínio fale no Cabo da Roca como linha divisória entre a terra, o mar e os céus.
Quanto à terra e mar, não havia grandes questões, mas os céus só faz sentido associando-lhe o nascimento dos principais astros... o Sol-Apolo e a Lua-Artemisa. Ambos os gémeos ficam do lado de Tróia...

Leto não é uma deusa fácil... os rudes camponeses da Lycia (ver crux com Lusia... lusitanos) talvez importunados por serem arrastados para um conflito dela com Hera, negam-lhe água e por isso são transformados em sapos...
Leto (ou Latona) e os camponeses da Lycia.

Não consta aplicar-se aqui a quebra do feitiço com um beijo principesco, e talvez a Roca de Sintra simbolize afinal um adormecimento do reino, que ficou à espera do beijo do Princípe Encantado. Acresce a isso o próprio nome Leto estar associado a Lethes... o esquecimento!

Independentemente disso, é bastante verosímel que Marco Aurélio, entre outros imperadores, tenha honrado o local onde a deusa do entardecer, Leto, teria feito nascer os seus filhos Sol e Lua... um santuário num pequeno outeiro da praia das Maçãs, e o fruto pode indicar implicitamente que antes desses imperadores, terá sido Hércules um seu visitante, em busca dos pomos de ouro!
Para não meter a mão na massa bolonhesa, seguimos a laranja e omitimos o tomate, em italiano pomodoro.

quinta-feira, 29 de março de 2012

a pena sobre a pena

Sobre o extinto Mosteiro de Nª Srª da Pena (Sintra) citamos o Arquivo da Torre do Tombo:
  • Em 1503, foi fundado por iniciativa do rei D. Manuel, sucedendo a uma capela ou ermida edificada no alto da Serra de Sintra, dedicada a Nossa Senhora, entregando-a aos monges hieronomitas. As obras de construção, projectadas pelo arquitecto italiano João Potassi, tiveram início em 1503, e oito anos depois estavam concluídas. 
  • Em 1513, a comunidade era composta por dezoito frades. 
  • Em 1755, o mosteiro sofreu ruína devido ao terramoto, e reduzido a 5 monges. 
  • O mosteiro já estava desabitado aquando da extinção das ordens religiosas. 
A Ordem de São Jerónimo recebe dupla atenção no apogeu dos Descobrimentos, este notável Mosteiro de Nª Srª da Pena e é claro o monumental Mosteiro dos Jerónimos.
Não é completamente claro qual era a extensão da ruína provocada pelo Terramoto de 1755, especialmente não é visível nas estampas do Séc. XIX anteriores à sua destruição e construção do Palácio da Pena.
O monumental Mosteiro de Nª Srª da Pena 
antes da substituição pelo Palácio da Pena.
(W. Burnett, c.1834, Bibl. Nacional)

O consenso que se gerou na substituição pelo novo Palácio parece ter feito esquecer a pena que caiu sobre a Pena, e acrescenta-se que uma parte da capela antiga foi inclusa na nova construção. É sempre algo curioso que no meio de tanta serra e tanto espaço, a construção de um novo edifício seja feita exactamente por cima do anterior.

Nas estampas de Burnett de 1834 é ainda possível ver este mosteiro ao fundo, ao mesmo tempo que mostra as ruínas da velha capela do Castelo dos Mouros (talvez seja a capela de S. Pedro ... e as colunas de capitéis coríntios sugerem outras moiras!)

Com o movimento liberal e a extinção das ordens religiosas em 1834, o último grito Jerónimo talvez tenha sido colocado ao líder da resistência Apache.

Ligando ao postal anterior... é claro que por estes últimos dias a Lua andou a passear entre Júpiter e Vénus:
A Lua entre Vénus (acima) e Júpiter (abaixo), 
nos dias 25 e 26 de Março de 2012.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Lua, Jupiter, Venus e Pleiades

Só talvez os mais distraídos não terão reparado na singular conjunção dos astros nocturnos mais brilhantes, que tem sido visível nestes últimos dias (final de Fevereiro), logo após o pôr-do-sol.
Deixo aqui uma imagem tirada às 19h20m em Sintra, no dia 26 de Fevereiro:
O Palácio da Pena, Vénus, a Lua crescente, e mais acima Júpiter. (26/02/2012)

Fala-se muito de conjunções, alinhamentos, etc... mas raramente são tão visíveis e singulares como acontece nesta altura. A órbita de Júpiter demora mais de 11 anos, enquanto que a de Vénus é inferior a 8 meses, e Vénus pelo facto de ser um planeta interno, está sempre próximo do Sol, quer como "estrela da manhã" - Lucifer, ou como "estrela da tarde" - Hespero. Assim, no decurso da sua órbita Júpiter ao fim de uma década aproxima-se visualmente de Vénus... seja pela manhã, seja pela tarde. Acontece que agora isto coincide ainda com uma Lua próxima em fase de quarto crescente, e voltará a repetir-se em Março...

Aquilo que vimos neste sábado (25/02) e domingo (26/02) foi praticamente isto:
 
25 e 26 de Fevereiro de 2012

... depois a Lua afasta-se, e Jupiter e Venus aproximam-se bastante sendo que nesta altura as Pleiades estão perto do Sol, dado estarmos próximo de entrar no signo de Touro. 
A 12 de Março de 2012 vai dar-se essa maior aproximação que será curiosa pois parecerá Júpiter e Vénus como estrela dupla bem brilhante. 

 
12 de Março de 2012

Mais interessante, é que daqui a um mês a Lua regressa... e por volta de 25 de Março, devemos ver isto:
25 de Março de 2012

Um pequeno alinhamento notável com Vénus (e Pleiades) posicionado na direcção do crescente lunar, e com Júpiter a seu lado. 

Pegamos agora no símbolo de Sintra:
para encontrar uma imagem tipicamente associada a origens mouras... um crescente com uma estrela acima!
Bom, serão mais dois crescentes com duas estrelas... mas se podemos ter duas estrelas vistas como sendo Júpiter e Vénus, já é mais complicado ter duas luas em crescente! 
É claro que estas representações lunares são mais frequentes em bandeiras de países islâmicos (ver Mauritânia e Turquemenistão, por exemplo), mas encontram-se ainda em tradições de brasões de vilas portuguesas, como no caso de Sintra.

Não deixa de ser curioso, se pensarmos que há algum propósito em guardar religiosamente estes símbolos que apontam para um crescente lunar e uma estrela, e ainda a persistência em usar calendários lunares, nos países islâmicos, ou mesmo orientais - entrámos no ano do Dragão em 23 de Janeiro de 2012.

A data de 25 de Março é ainda curiosa, já que marcaria a criação de Adão, de acordo com o venerável Beda, sendo que o início do universo era apontado por este para 18 de Março. Aliás o dia 1 de Abril é considerado "dia de mentira", porque houve uma transformação do calendário que passou o início do ano para 1 de Janeiro, e dessa forma o correspondente a 25 de Dezembro seria exactamente 25 de Março!

Durante este mês de Março aparecerá ainda Mercúrio... este ainda mais próximo do Sol do que Vénus, e os outros planetas visíveis - Marte e Saturno, são ainda visíveis - Marte em simultâneo com os restantes (mas em lado oposto), enquanto que Saturno, aparece mais tarde, estando há muito colado à estrela Spica:
Tra la spica e la man, qual muro è messo!  (ver aqui)

Há obviamente quem não ligue nenhuma a esta questão estelar, e quem ligue em demasia...
Em certa objectividade científica é suposto não haver qualquer influência planetária nos homens, e porém há alguns detalhes que mostram não ser bem assim. O período lunar de 28 dias está demasiado próximo de um ciclo menstrual para ser desconsiderado como mera casualidade lunar... e se a influência da Lua é demasiado óbvia para que não deva ser ignorada, no caso dos planetas pareceria que nada os distinguiria de outras estrelas para merecerem distinção não astronómica.

Porém, todos sabemos, desde muito cedo que as estrelas cintilam e os planetas não...
Ora, isso nada tem a ver com as estrelas ou com os planetas... tem a ver directamente connosco.
Fossem os nossos globos oculares maiores e as estrelas não cintilariam - seriam pontos de luz semelhantes a qualquer planeta. É a reduzida dimensão dos nossos olhos que impede visualizar correctamente as estrelas mais distantes... é essa limitação que nos permite identificar facilmente os planetas, pela particularidade das restantes estrelas cintilarem na nossa visão. 
Pode ser obviamente casual esta relação entre a nossa capacidade visual e a distinção estrela/planeta... mas se fosse um pouco melhor ambos não cintilariam, e fosse um pouco pior todos cintilariam. 
Casualmente, ou não, acabámos por ficar num meio termo que sempre nos permitiu identificar os 5 planetas (Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno) das restantes estrelas, sem que se percebesse nenhum interesse prático para tal dom...





segunda-feira, 31 de outubro de 2011

WHC (1) Nemrut Dagi

Na Turquia e na Grécia restam a maioria dos monumentos significativos da Antiguidade.
Um deles é Nemrut Dagi, onde se vêem impressionantes cabeças do que foram outrora estátuas completas.
Monte Nemrut, Turquia 

Águia no "templo de Antíoco I".

Este é o primeiro de alguns apontamentos sobre os sítios UNESCO - WHC (World Heritage Center).
Não se trata de reportar o conhecido... para isso aconselho a visita ao sítio da Unesco, e aconselho mesmo, pois há muitos monumentos classificados e que estão longe de ser muito conhecidos!

Também não se trata aqui de elaborar grande sustentação sobre uma nova teoria...
... este blog é mais pessoal que o Alvor-Silves, e neste tópico darei a minha opinião mesmo sem ser politicamente correcta ou muito fundamentada em factos objectivos.

Sobre este conjunto de cabeças de estátuas arrancadas e colocadas num monte remoto, apetece apenas fazer uma conjectura simples:
 - A necessidade de ocultar registos históricos anteriores levou a uma estratégia dos impérios que tomaram conta dos destinos mundiais - criar um autêntico museu na Turquia. Aí foram depositando o que restava de civilizações anteriores, espalhadas pelo globo. O excesso de registos naquela parte, muitas vezes em sítios inóspitos, e a quase ausência de monumentos na mais amena e produtiva Europa teria assim uma explicação concreta. O que foi sendo encontrado foi esse transporte de monumentos de várias partes para uma mesma localização. Assim se explicaria a concentração de ruínas e reinos concentrados na Ásia Menor e Medio Oriente, em sítios onde provavelmente nunca ninguém terá habitado, tal como hoje não habita.
- Na fase seguinte, pós-descobrimentos quinhentistas, ou seja a partir do Séc. XVII as peças encontradas nas Américas e depois na Austrália, tiveram outro destino... a Antártida.
Até que fosse possível ocultar a quase totalidade dos monumentos, destruindo a maioria, mas preservando os mais importantes, os descobrimentos estiveram praticamente parados. À rápida expansão na transição de 1500, poucas décadas depois era praticamente claro que o trabalho de ocultação levaria alguns séculos a ser feito. Só foi completado simbolicamente na viagem de Cook, e a ocultação final e completa terá sido levada a cabo nas expedições inglesas e escandinavas.

Nesta conjectura, a maior restrição às actividades no enorme continente gelado - a Antártida, será essencialmente uma restrição para preservar fora dos olhos da população tudo o que poderia revelar os enormes vestígios de um nosso passado que nos foi ocultado, e sobre o qual só saberemos alguma coisa pelos registos míticos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Canto das Canárias

À frente, no trabalho das minas, seguia o canário, sinalizando a qualidade do ar.
Tremiam as pernas do canário, logo tremiam as dos mineiros.
Tremem as Canárias... nesse canto da Europa, a tocar a África, e algum alarme surgiu no ar.
Sucessivos sismos têm levado, nestes dias finais de Setembro, ao alerta de provável erupção vulcânica, com evacuação na ilha de Hierro. Um eventual desabamento da ilha poderia resultar num tsunami de grandes proporções.

Etimologia
A etimologia Canárias parece vir da designação Insula Canari, que teria origem na grande quantidade de cães que haveria numa das ilhas, conforme reportado por Plínio (cf. elcastellano.org)

Pela mesma época greco-romana podem ter sido designadas como Ilhas Afortunadas, designação que é também vista como extensiva a toda a Macaronésia (conjunto que engloba os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias, e por vezes Cabo Verde).
Neste local paradisíaco, dizia Plínio que confluíam aves de todo o tipo, mas também dava conta de que apodreciam ali corpos de monstros expelidos pelo mar (cf. wiki). Aqui quem quiser opta pela sua interpretação de "monstros", que tanto poderiam ser as conhecidas baleias, como também algo diferente!

Canários
Sobre as aves de todo o tipo, é inevitável falar dos canários.
Foram as ilhas a nomear as aves, e não o inverso (conforme já apontámos).
Os canários, aves frágeis, primeiras a sucumbir à falta de bom ar, eram autóctones das Canárias, Madeira e Açores, ou seja do conjunto da Macaronésia. Na Europa e África teriam como espécie aparentada o chamariz... porém naquele canto, o canto surgiu incomparável.
Canário selvagem nas Canárias

Os três arquipélagos são suficientemente distantes para serem único albergue do pássaro cor-de-sol. Não podem ter evoluído para a mesma espécie em três partes distintas. Estes locais surgem assim como único reduto, ou talvez último reduto.

O amarelo característico do canário, identificou o chamado canarinho brasileiro... e também são canários os habitantes de Canelones no Uruguai, aparentemente por ter sido primeiro colonizada por imigrantes das Canárias. Um pouco mais acima, já no Brasil, encontramos os Gaúchos, e o termo parece ainda vir da colonização espanhola com o estabelecimento de Guanches, das Canárias, cujo nome se deturpou em Gaúchos (cf. wiki). Subitamente, há uma colonização espanhola sobre território anteriormente português, resultado da ruinosa condução do Marquês de Pombal. Aparece então essa justificação de imigração das Canárias, associada à população daquelas paragens. 
Poderia haver uma conexão com as Canárias, muito anterior?
- A avaliar pelo relato da descoberta de túmulos com armas macedónicas, em Montevideo (Dores), conforme relatava Cândido Costa, a ligação àquelas paragens podia remontar ao Séc. IV a.C. 

Na exploração mineira, os Canários seguiam à frente, como experiência.
A primeira experiência de descoberta e conquista, foi exactamente assim nas Canárias.

Para além dos relatos de Plínio que fala numa expedição do reio núbio Juba II, e dos vestígios arqueológicos cartagineses, seria quase tão difícil não dar com as Canárias, como não dar com a Inglaterra... sendo que as Canárias estão mais próximas da saída do Estreito de Gibraltar!

Houve viagens... mais ou menos reconhecidas, sendo notória a preocupação de Afonso IV a reclamar as ilhas em 1345, e de onde Lanzarote pertenceria à Ordem de Cristo, sendo depois esse direito invocado pelo Infante D. Henrique. 

No entanto, o ponto principal é a passagem ao domínio espanhol, em 1496, e a aniquilação quase total dos Guanches, povo autóctone das Canárias.
Esta experiência genocida seria depois a matriz para o tratamento dos aztecas e incas.
Os Canários seguiram à frente, e foram os primeiros a sucumbir à falta de ar respirável, pelos conquistadores dos descobrimentos!

Digamos, que este será o primeiro relato genocida... não é de forma alguma claro que só as Ilhas Canárias estivessem habitadas. Por melhores condições, mais facilmente seria habitável a Madeira, ou mesmo as ilhas dos Açores... mas se houve genocídios semelhantes, pelo lado português, ultrapassaram não apenas uma extinção do povo, mas também a extinção do registo e memória!

Ilha de Hierro
Como a ilha de Hierro, onde se têm centrados os epicentros das dezenas de recentes sismos de intensidade pequena (entre 2 e 3 na escala de Richter), é uma ilha turisticamente pouco conhecida, apresentamos uma figura com a localização de 4  epicentros de recentes abalos consecutivos, a profundides próximas dos 10 a 15 Km.

Na imagem salientamos o Roque de Bonanza... um Rochedo da Bonança, que tem um aspecto singular, merecendo a nossa atenção:
Roque de Bonanza

Não há muitas formas resultantes de erosão marítima que tenham produzido uma figura de rochedo tão estranha, parecendo quase uma escultura, havendo ainda vários pontos de interesse nesta ilha, que se tornou parte Reserva da Biosfera da UNESCO.

Enquanto escrevíamos este texto, os sismógrafos registavam mais 8 pequenos sismos naquela mesma zona! Tremem os canários, tremem os mineiros...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pirâmides Romanas (de Remo e Rómulo)

É habitual falar-se das pirâmides egípcias, aztecas, maias, entre outras novas... mas não das romanas!

Apesar de ser conhecimento certamente comum dos habitantes de Roma, a Pirâmide de Céstio (Cestius), construída no tempo de Augusto, não faz parte dos mais populares roteiros e monumentos da cidade de Roma.
Dir-se-à que Roma tem muitos monumentos, etc. (há sempre muita imaginação argumentativa), mas é notável existir em Roma uma pirâmide com quase 40 metros de altura (aprox. 12 andares), que é ignorada pela maioria da população mundial. Mesmo os mais fanáticos por pirâmides, acabam por esquecer esta!
 
Imagens da Pirâmide de Cestius em Roma,
que é "atravessada" pelas muralhas de Aureliano.

Outro facto que parece notável é estar escrito que a pirâmide demorou menos de um ano a ser construída, sendo que a data de construção será pouco anterior ao nascimento de Cristo, mais precisamente é datada entre 18 e 12 a.C.

Não é um monumento de nenhum imperador ou general! - é suposto ser o túmulo de um magistrado.
Parece algo estranho tal túmulo para um personagem menor de Roma, especialmente porque nada de semelhante dimensão restou do Imperador Augusto, seu contemporâneo, e o mais influente imperador na História de Roma.

Mais estranho ainda é a pirâmide não ser caso único...
Havia um par, denominado Pirâmides de Remo e Rómulo - lendários fundadores de Roma.

Esta seria a Pirâmide de Remo, quanto à Pirâmide de Rómulo...
A Pirâmide de Rómulo, mais próxima do Vaticano, começou a ser destruída em 1499, quando o Papa Alexandre VI (o papa castelhano que negociou o Tratado de Tordesilhas) decidiu usar pedras para construir o novo bairro, chamado Borgo Nuovo. Ao que parece em 1518 ainda restavam pedras... mas depois desapareceu por completo! (**)


O símbolo do Borgo Nuovo 
pode lembrar as pirâmides com a esfínge deitada,
assinalando talvez a destruição da Pirâmide de Rómulo.  

Não encontrámos nenhuma imagem associada à Pirâmide de Rómulo... que aparentemente seria maior e mais bela do que a de Pirâmide de Remo, ou seja a Pirâmide de Céstio - a única que restou e que se encontra em algumas (poucas) imagens antigas. Não é assim tão estranho não encontrarmos imagens, já que apesar de todos os Leonardos, Rafael, Miguel Angelo, etc... também não nos lembramos ter visto imagens do Coliseu, ou de vários outros monumentos. Encontrámos uma reconstrução de Roma feita com base documental em 1773, que mostra claramente uma pirâmide, em primeiro plano, e duas outras, mais afastadas:

Podemos suspeitar que as pirâmides de Remo e Rómulo sempre lá estiveram... ou seja, foram elas a razão de Roma ter aparecido ali com aquela lenda. Podemos suspeitar que a atribuição do nome a Cestius, ligado ao magistério sagrado dos Epulones, foi afinal uma simulação à época de Augusto, um dos "supressores de memória".
A destruição da pirâmide de Rómulo pelo Papa Alexandre VI Bórgia insere-se assim perfeitamente neste esquema de ocultação, e só será mais estranho que o Papa Alexandre VII tenha decidido recuperar a Pirâmide de Remo, e que esta tenha acabado por resistir pelo menos 2 milénios, tal como as de Gizé.

Apesar desta pirâmide ser inferior a qualquer uma das três de Gizé, não deixa de ter uma dimensão notável, que a coloca próximo da dimensão da Pirâmide da Lua no México:



Se olharmos para este gráfico de pirâmides, não deixa de ser ainda interessante notar que a mais alta está na Coreia do Norte, em Pyongyang, no Hotel Ryugyong. O facto de não sabermos que existia tal coisa monumental na Coreia do Norte, perceber-se-à no contexto do "Eixo do Mal" com que fomos presenteados.


(**) Outra informação sobre a Pirâmide de Rómulo neste texto:
Meta Romuli: a name sometimes given in the Middle Ages to a pyramidal monument that stood between the mausoleum of Hadrian and the Vatican (Mirab. 20, ap. Urlichs 106: sepulcrum Romuli quod vocatur meta; Graphia 16, ap. Urlichs 119).1 It was called meta alone (see references in LS I.161, 186-189; DAP 2.viii.1903, 383-384; memoria Romuli (Ordo Benedicti in Lib. Cens. Fabre-Duchesne,º ii.153; Mon. L. I.525); Ant. di Pietro ap. Muratori SS xxiv.1038, 1040, 1062 (1413-1417 A.D.)); and sepulcrum Remuli (Anon. Magl. ap. Urlichs 161: meta quae ut dicitur fuit sepulcrum Remuli qui mandato Romuli in Iano mortuus fuit: et de meta praedicta sicut iam dixi dubitoque non fuit Remuli per Romulum facta, quia illis temporibus Romulus et sui non erant tantae potentiae). Magister Gregorius calls it pyramis Romuli (JRS 1919, 42, 56). At the beginning of the Renaissance it was also incorrectly called Sepulcrum Scipionis (q.v.). The name meta Romuli was probably given to this monument because the pyramid of Cestius (q.v.)  had in some way come to be called meta Remi. It is described as larger than the pyramid of Cestius and of great beauty. From its marble slabs were made in the tenth century the pavement of the Paradiso of S. Peter's and the steps of the basilica. It stood at the intersection of the Via Cornelia and the Via Triumphalis, on the east side of the latter (DAP cit. 383-387), and its southern part was removed when Alexander VI constructed the Borgo Nuovo in 1499 (LS I.126). The rest stood until 1518 at least (LS I.161, 186-189). The monument therefore covered the Borgo Nuovo and the Via di porta Castello at their intersection (besides the literature already cited, see Mon. L. I.525; BC 1877, 188; 1908, 26-30; 1914, 395-396; Jord. II.405-406; HJ 659; Becker, Top. 662. It may be seen in various medieval and early Renaissance views of Rome (LR 560, fig. 214; Cod. Esc. 7v.) 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Viver, mata!

A principal causa de morte é a vida... como sabemos, todos os que morreram tiveram a particularidade de viver antes. Dita esta evidência banal, importa notar que o medo da morte condiciona cada vez mais a forma de viver. O medo da morte foi levado ao ponto de ter medo de viver!

O medo é uma previsão do futuro de resultado nefasto. 
Como qualquer previsão, baseia-se nos dados conhecidos, na educação e experiência do indivíduo. Desta forma, uma educação ou informação dirigida leva a antecipação de cenários nefastos, que assim o próprio nunca ousará experimentar.
Imaginando uma experiência em que voluntários têm que escolher entre dois botões, um vermelho e outro azul, se o indivíduo verificar que todos os que carregaram no botão vermelho foram vítimas de uma descarga eléctrica, não hesitará em optar pelo botão azul. Aí usa o esquema de reflexão, colocando-se na pele do seu semelhante, para antever o futuro. 
Porém, se notar que todos os indivíduos que viu usavam um uniforme vermelho, e sendo o seu azul, ficará na dúvida de associação... deverá prestar atenção à cor, ou apenas à sua semelhança enquanto homem?
Se os condutores da experiência tornarem claro ao indivíduo que o seu uniforme é diferente dos outros, e que deve tomar isso em atenção, o próprio será tentado a levar em conta essa singularidade, e carregará no botão vermelho, como os anteriores, mas pensando que o resultado será diferente, por ter uniforme azul. Os educadores ao sinalizarem a diferença tornam-se parte activa para que a opção seja a mesma! Ao contrário, se os educadores enfatizarem que a cor dos uniformes é irrelevante, o indivíduo tomará a outra opção.
Esta experiência tanto pode ocorrer pelo lado da punição, como pelo lado da recompensa, é indiferente!
Poderá haver alguma excepção, mas o resultado é praticamente garantido na larga maioria... e os educadores, sem necessidade de prestar falsa informação, apenas enfatizando um ou outro aspecto, garantem um resultado esperado para o colectivo dos voluntários.

O papel da educação é assim simples, mas poderoso... define uma linha de raciocínio por mera sugestão opinativa do poder implantado. Com uma educação cumpridora e uma poderosa comunicação social, as informações transmitidas orientam de forma implícita a linha condutora de raciocínio e a acção dos indivíduos.


Vedas
A origem das ideias, a chamada originalidade, é algo dificilmente escrutinável, mesmo num mundo onde a verdade tivesse sido imperativo. Num mundo de sombras, de falsidade e oportunismo conveniente, a questão da originalidade acaba por ser quase indiscernível...
É nesse contexto que surge aqui a menção aos Vedas, já que os textos indianos têm um análogo persa, o Avesta. De um lado aparece Krishna como revelador, e do outro Zaratustra...
Libertando-nos dos personagens, interessa o conteúdo.

O ponto fulcral nas religiões foi sempre a questão da morte, e é especialmente interessante a filosofia indiana que centrou a análise na comparação com os sonhos... grande parte do idealismo europeu acabou por ter essa inspiração em textos antigos. Não apenas nos textos gregos de Parménides e Platão, mas também na filosofia dos Vedas e do Avesta.
Por uma questão de educação ocidental, e ao contrário do que se passou no Oriente, estas filosofias não se impuseram, tendo sido moldadas num contexto judaico-cristão.

É especialmente interessante observar-se que ao mesmo tempo que a filosofia hindu apresenta um Krishna acompanhado de uma vaca sagrada, o Mitraísmo (uma religião que foi popular no Império Romano ao ponto de competir com o cristianismo) coloca o seu herói principal - Mitra - numa cena de sacrifício de um touro:

Krishna e a vaca sagrada // Mitra e o sacrifício do touro

As associações do Mitraísmo ao Zoroastrismo devem essencialmente ser vistas como uma deturpação da filosofia de Zaratustra, que não contemplava sacrifícios animais. As diversas versões de uma mesma filosofia ou religião podem ser tão chocantes como judaísmo, cristianismo e islamismo, apesar de usarem todas a Bíblia do Antigo Testamento. Uma simples deturpação essencial pode provocar uma fractura irreparável, aproveitada para diferentes propósitos do original...
Não deixa de ser interessante notar que Mitra usa o barrete frígio, ligado a tantas outras representações, em particular ao símbolo da liberdade.

Mas, não nos afastando do assunto original, retomamos a questão da relação entre sonhos e morte.



Os sonhos e a morte
A nossa experiência de vida tem elementos suficientes que nos permitem compreender o contexto mortal em que nos inserimos. Há uma aparente continuidade que nos define, em que um tempo marcado por níveis de memória une as recordações de infância, de adolescência, e de idade adulta. Porém, é óbvio que não há propriamente nenhuma presença hoje de quem fomos na infância ou na adolescência, ou até mesmo há algumas semanas atrás... Podemos lembrar-nos do que pensámos em certas ocasiões, mas até podemos criticar essa forma de pensar anterior, mostrando a diferença de personalidade na evolução. Ou seja, podemos considerar que a personagem que fomos em jovens foi morrendo sucessivamente, renascendo em cada evolução da personalidade. A criança e a ingenuidade que tivemos desapareceu nas malhas do tempo para dar origem a uma personalidade de adulto diferente... não necessariamente menos ingénua.
Ninguém lamenta propriamente a morte da criança que foi, que resultou de um adquirir da experiência ao tornar-se adulto... aquilo que causa lamento na maioria dos mortais será a antevisão de um fim sem continuidade. Daí surge o refúgio espiritual em diversas crenças...

O problema é portanto colocado numa descontinuidade, num fim previsto.
Aquilo que é desconsiderado pelo próprio é a sua experiência de descontinuidade - ao sonhar!
Quando caímos na cama, estamos prontos a abandonar, sem problemas, sem medos, a nossa personalidade.
Vamos entrar numa outra percepção, e quando lembramos os sonhos, é-nos revelado que fomos naquele espaço de tempo alguém diferente. Alguém que apareceu do nada, que viveu uma pequena aventura, que não sabia que estava a dormir, e que encarou aquela situação como real.

Neste caso não há um medo de descontinuidade, pela experiência adquirida... adormecemos, mas não morremos, e como antevemos voltar ao estado anterior ao sonho, a situação é tida como passageira.
Imaginemos que um ser só teria o seu primeiro sonho, só dormiria pela primeira vez, aquando da puberdade, por exemplo... nesse caso sem dúvida que sentiria alguma angústia por uma experiência que consideramos banal, mesmo que lhe garantissem que voltaria a acordar.

Para quem já teve a experiência de um sonho em que morre, sabe perfeitamente o que acontece - acorda!
E acorda porquê?
- Acorda, porque o cérebro não sabe/pode fazer a continuação de um sonho em que morre.
O indivíduo continua a pensar, e no entanto deveria estar morto!
Entra numa contradição e a solução aparece miraculosamente - afinal era apenas um sonho!
Assim, tudo encaixa logicamente, e a contradição desaparece...

A questão que se coloca então é a seguinte, por que razão se há-de pensar ser diferente com a vida normal?
Porque o indivíduo vê os outros morrer, e por reflexão assume que irá desaparecer tal como eles... mas isso também não é diferente no sonho! É claro que os personagens do sonho vão desaparecer quando o indivíduo acorda - logicamente o universo dos sonhos não é o mesmo universo onde se acorda.
Ou seja, haverá uma separação de percursos, mas não necessariamente um fim. Os elementos do sonho ficaram na memória, internamente... afinal onde sempre estiveram, e o sujeito entra numa nova realidade, que afinal já conhecia, mas que lhe tinha sido momentaneamente vedada, enquanto sonhava.

Não sabemos porque fazemos isso, o sonho não aparece como controlado por nós, e é suficientemente estranho abdicarmos da nossa personalidade, a ponto de não termos consciência de que estamos a sonhar. Entramos num novo personagem, num universo que pode até ter novas regras, diferentes das que experienciamos - há quem sonhe ser capaz de voar, e isso aparece como possível e plausível. Pode haver a vontade de permanecer nesse sonho, caso seja positivo, mas inevitavelmente termina e entramos numa nova consciência... que não é encarada como nova, pois o período de fantasia é apenas um lapso temporal numa vida diferente. Mas é uma descontinuidade...
Com essa descontinuidade deveríamos aprender a não temer outras descontinuidades... como a morte!

Na Dinamarca, após Kierkegaard, que se inspirou fortemente na filosofia indiana, também Hans Christian Andersen acabou por fazer uma interessante fábula em 1850, denominada "Olavinho fecha os olhos", onde Morfeu e a Morte aparecem como irmãos! Desmistifica por completo o pesado conceito da Morte, comparando-o a um irmão mais velho do Sonho, identificado a Morfeu!

Não é difícil perceber que estes assuntos estiveram presentes desde a alvorada dos tempos humanos, mas só foram passando de forma alegórica, pela forte censura, que foi sendo recorrente. As pretensas originalidades dos filósofos gregos, ou ainda da Idade Contemporânea, pouco mais são do que adaptações autorizadas, já com alguma roupagem despida da alegoria poética.


Verbo
É curiosa a religiosidade ocidental, que assume uma entrada num outro universo.
Essa concepção não é exclusiva de fenómeno divino, ou seja, é perfeitamente plausível a recuperação de corpos dados como mortos, dentro do materialismo. Eventualmente, com uma tecnologia mais avançada do que aquela que conhecemos, seria possível recuperar um sujeito dado como morto. Para quem acredita no absoluto materialismo, chega-se ao ponto de se congelar para a posterioridade.
Isto é totalmente ridículo, no sentido em que não se percebe que o pensamento nunca é algo estático... não existe como estático no tempo.
A nossa linguagem é prova disso.
Os verbos denotam sempre uma acção temporal, nem que seja a mera contemplação.
O "ser" invoca um tempo prolongado, indefinido ou infinito, enquanto o "estar" refere algo temporário.
Querer congelar o pensamento é como querer congelar o movimento de uma flecha... podemos ficar com a flecha, mas nunca podemos ficar o seu movimento.
Querer congelar o pensamento é como querer ouvir música num único instante!

Suponhamos que sim, que o indivíduo congelado acordava num ambiente sofisticado, no futuro... se quem o acordasse o fizesse crer que tinha acabado de chegar ao Céu, ele ficaria convencido?
Ou seja, basta a capacidade de ressuscitar um corpo aparentemente morto para se invocar uma ocorrência divina?
A palavra habitualmente usada é Céu... como se houvesse no espaço exterior essa capacidade. Houve sempre a tradição natural de um funeral rápido, onde o corpo seria definitivamente ocultado.
Ou seja, uma civilização extraterrestre com uma tecnologia avançada que substituísse um corpo, dado como morto, por uma réplica, recuperando o original para uma vida suplementar, poderiam essas entidades ser vistas como deuses?
Mas... nem é preciso ir tão longe! Há organizações estatais que simulam a morte do indivíduo, fazendo-o reaparecer com outra identidade, numa outra parte do mundo... e quem por acaso reconhecer essas pessoas pensará estar a ver uma assombração! Digamos que seria como esconder Elvis, e fazê-lo reaparecer pontualmente em alguns pontos dos EUA...

Tal como a filosofia não teve nenhum avanço especial nos últimos séculos, também não é claro que a parte científica esteja em progressão original face a uma antiguidade distante (basta invocar o mecanismo de Anticitera, ou as baterias de Bagdad, para se perceber que houve conhecimento escondido durante milénios).

Convirá assim distinguir uma simulação de ressurreição, com eventual recuperação do indivíduo num contexto material possível, de um efectivo reaparecimento num contexto de efectiva morte, onde seria impossível qualquer recuperação física. Num caso o indivíduo poderá aparecer num contexto novo, sujeito ao desígnio de quem o recuperou, no outro caso o processo será natural.
É aqui importante distinguir a prática indiana - que ao incinerar o corpo torna impossível qualquer recuperação física, da prática de enterramento ocidental - onde alguns corpos permanecem em estado razoável que não excluem uma recuperação sofisticada!
Num contexto de recuperação por entidades dominantes pode ocorrer justamente uma situação particularmente estranha, onde o arbítrio dessas entidades decidirá um destino intermédio... e nesse novo contexto poderão existir lados que se degladiam, quais anjos e demónios, achando correcto ou incorrecto essa arbitrariedade intermédia.

A situação é assim complexa, e esse escrutínio de complexidade é normalmente evitado, terminando as discussões pela simples consideração da existência ou não de vida para além da morte... o tema deste texto é justamente mostrar que a discussão não termina aí!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Paradoxo do Pensador

Há alguns paradoxos que fizeram história, e outros que simplesmente não se encontram escritos.
Os paradoxos mais famosos talvez sejam os de Zenão, que têm 2500 anos... e dizem respeito à noção de inifinito, e à sua relação com o espaço e o tempo. Após discussões milenares, a reintrodução da análise infinitesimal e a sua formalização, no final do Séc. XIX, vieram colocar algum descanso nos seguidores de Heraclito... a "flecha podia mover-se", e "Aquiles poderia apanhar a tartaruga"! Não deixa de ser interessante ver regressar o problema na teoria quântica, no Efeito de Zenão Quântico, que basicamente revela que a observação sucessiva de um sistema faz com que ele não se mova. O assunto aqui não é um paradoxo físico, será mais um paradoxo cognitivo.

Um paradoxo cognitivo simples de exemplificar é o "paradoxo do mentiroso"... já que ao ler-se "Esta frase é falsa!" pode cair-se na diferença entre o conteúdo e a interpretação. Quando lê o conteúdo o receptor assume que se trata de uma verdade, e depois de a interpretar é revelado ser falsa. Portanto, se voltar a lê-la, pode usar a prévia interpretação e cairá na aparente contradição repetidamente. 
Algo semelhante pode ser encontrado na frase de Sócrates - "só sei que nada sei"... pois não sabendo nada, nem isso poderia saber. Isto apenas mostra a flexibilidade da retórica, que pode simular paradoxos, misturando leitura com releitura. Na primeira leitura vamos ser informados de que o único saber de Sócrates é "nada saber", mas depois se interpretarmos, vêmos que nem essa frase Sócrates sabe... e por isso coloca-se apenas na posição de dúvida total, admitindo implicitamente que poderá saber, mas "não sabe se sabe"... Alternativamente, poderia ter dito "não sei se é verdade o que sei", mas a frase escolhida transmite ainda uma ideia de humildade, que terá ficado bem na "fotografia dos tempos".

Mais interessante é considerar o conhecimento e os seus limites.
Através do trabalho de Gödel, em 1930, ficou claro que há afirmações (proposições) que não podem ser provadas se são ou não verdade. Partindo de um número finito de verdades (axiomas que não questionamos), haverá verdades que escapam a uma prova por dedução lógica, partindo das iniciais. Baseado nos resultados de Cantor, este teorema de incompletude terminou com escolas de pensamento matemático do início do Séc. XX, de Russell e Hilbert.
O resultado foi mais "dramático" no sentido em que reduziu a pretensão do conhecimento humano e as aspirações ao infinito do que é finito. A hipótese do contínuo é uma das afirmações que não pode ser provada ou negada, partindo dos axiomas habituais...

Paradoxo do Pensador
Podemos entender que pelo pensar há uma evolução do que se conhece, entre o instante antes de pensar, e o posterior a esse pensamento. A questão que se levanta - ou melhor, que aqui já levantei - é a de se saber se o pensador controla ou não esse pensamento. Já respondi que não... mas vamos concretizar, para além das evidências óbvias que enumerei - o não saber o que se sonha, como ou porquê "o próprio" gerou esses sonhos, ou tão simplesmente não conseguirmos evitar que certos pensamentos nos ocorram.
(GG, 2005)


Qual então o paradoxo do pensamento?
É semelhante à questão do calcanhar de Aquiles...
O observador coloca-se sempre numa posição de raciocínio externo ao que observa. Assim, não faz parte do que vê. Forma ideias sobre o que observa, mas não se observa a si mesmo. Para se observar a si mesmo, teria que se colocar como externo ao seu pensamento - é aí que surge a contradição. Poderia considerar-se que o infinito resolveria esse problema... mas é indiferente.
Tétis também precisou de pegar nalgum ponto de Aquiles para o submergir na invulnerabilidade do Rio Estige, no caso foi o calcanhar.
Aqui, a vulnerabidade do pensamento é criar a ilusão de que é interno. Definimo-nos pelo pensamento, mas este não é definido por nós.

É definido por quem? - é indiferente, é-nos externo, e será externo a quem julga que o define, se for pensante.
É externo ao próprio, mas está dentro do Universo que o influencia... da mesma forma que o próprio se pode ver como externo ao que influencia. Estabelece-se assim uma dualidade, entre o próprio e o seu exterior, de forma inseparável.
No fundo esta relação primeva pode ser encontrada numa separação cartesiana entre o "eu" e o "não-eu", entre o observador e o observado. Esta relação não pode ser trivial, sob pena de previsibilidade total... um excessivo controlo e omnisciência do "eu" levaria a essa trivialidade.