domingo, 22 de novembro de 2015

Gaios e Gaiatos

Estreou ontem(*) o último filme da saga "Jogos da Fome", e o notável cartaz publicitário não deixou de fazer lembrar uma pose de Diana, como a estátua feita por Saint-Gaudens, que esteve no topo do edifício do Madison Square Garden, no início do Séc. XX.


Para além de todo o desconto que se devem dar a filmes que visam plateias de gaiatos, há por vezes algumas informações que são transmitidas, colocando o peso da ficção como ilustração de outra realidade.

O nome "Jogos da Fome", tradução literal de "Hunger Games", recupera uma tradição de filmes futuristas que viam uma evolução para sociedade distópica... normalmente após um certo evento global devastador.

O que é curioso é que este modelo acaba depois por levar para uma concepção de sociedade medieval, um tempo de príncipes e princesas, reis ou imperadores, que nunca deixou de preencher o imaginário de histórias infantis.
Tanto é assim que, como armas de eleição, vai-se recuperar a mística de armas antigas como a espada ou o sabre (que passou a ser um sabre de luz, de laser, na saga Star Wars), o arco e a flecha (convencionais neste filme), ou uma simples pistola... que apenas passa a disparar um laser, como em Star Trek. Também as naves espaciais requerem a destreza do piloto, tal como requeria um avião caça.
A razão é essencialmente evidenciar alguma destreza dos heróis no manuseamento de armas, porque não serve ao enredo de um herói ter um grande poder centrado num simples premir de um botão, ou pelo simples exercício de pensamento, como vimos no filme Lucy.

Interessa-me dar aqui relevo a uma pequena conversa entre a líder rebelde (Alma Coin, protagonizada pela actriz Julianne Moore) e o seu conselheiro (Plutarch Heavensbee, tomando o nome de Plutarco pelo falecido actor Phillipe Seymour Hoffman). Essa conversa é informativa e surpreende ser colocada num filme deste tipo:
- Quando a protagonista escapa da influência de ambos, fica combinado que tudo o que ela fizer será transmitido como fazendo parte de um plano do comando.

Ao poder interessa sempre manter nos súbditos a ideia de que tudo controlam, quando tudo lhes começa a escapar, assim como em sinal oposto, interessa passar a ideia de que nada controlam, quando efectivamente estão a controlar a situação. É neste jogo de ilusões que reside grande parte do seu poder...
Isto é uma actuação bem antiga, existente mesmo nos animais, que iludem a sua presença furtiva apanhando as presas desprevenidas, ou aparecendo como figuras ameaçadoras, quando na realidade estão frágeis. Normalmente não vemos é ambas as capacidades colocadas no mesmo animal.

A fome revolucionária
Estes filmes são interessantes como manipulação dos afectos dos espectadores. A pessoa é conduzida a colocar-se do lado da revolta contra o poder despótico da classe dominante, indignando-se com as suas aberrações e atrocidades. Coloca-se do lado da jovem e dos rebeldes, aceitando a contagem de vítimas que produz, como um mal necessário com vista a um bem maior.
Chegada ao conforto do lar, a mesma pessoa é conduzida a indignar-se contra quaisquer rebeldes que ataquem um poder que vêem como despotismo universal, chamando-lhes o nome que a chancela lhes quer dar.

Na França ocupada pela Alemanha nazi não havia actos de terrorismo, nem terroristas. Havia apenas resistentes, sabotagens, destruição de objectivos, vítimas colaterais, etc... Líderes como Samora Machel, passaram de turras, de terroristas, a respeitáveis presidentes, a símbolos de independência nacional dos respectivos países. Os franceses viam Kaddafi como um execrável terrorista, até que o pragmatismo da real politik os levou a múltiplos negócios lucrativos com o visionário líder árabe. Mas quando os ventos da Prima Vera árabe sopraram, voltaram a demonizar o personagem, o velho terrorista... e abateram-no de tão forma cruel que faria muitas falsas carpideiras rasgar as vestes de indignação, tivesse sido o executor o executado. Kaddafi deveria ter percebido a mudança de sabores quando passou a ser unânime escrever o seu nome como Gaddafi, banindo de vez o Kaddafi ou Qaddafi como versões alternativas. Se a ONU nomeara a sua filha, Ayesha Kaddafi, como "embaixadora da boa vontade" em 2009, depressa lhe retirou todas as honrarias em 2011, quando foi decretada a caça a toda a prole do ditador líbio.
Ah! Como é fácil manipular, e mudar rapidamente solidariedades e vontades... da "maralha" pela "maralha".

Os jogos da fome estão sinalizados em diversos distritos deste planeta. Abundância e desperdício de um lado, fome recorrente e sistemática noutro. Se não é pela guerra, a escassez vem pela ditadura económico-financeira, e o distrito africano só preocupa verdadeiramente as consciências internacionais quando se pode tornar num foco de transmissão de doenças contagiosas.

As migrações são travadas por muros, quando se ouve em documentários migrantes africanos suplicar: "apenas pedimos que nos adoptem e cuidem como adoptam e cuidam de um cão ou de um gato"... e fica isto à atenção do deputado do PAN, recentemente eleito.

E o espectador sabe de tudo isso, sabe de todas as contradições da real politik, mas aceitando o conforto passivo da sua posição, não deixa de torcer pela jovenzinha no filme, que defrontou com o seu arco e flecha o poder de uma sociedade despótica. Ao mesmo tempo condenará de seguida quaisquer atentados contra o poder que o sustenta, e aceitará restrições de liberdade para aumentar a sua segurança. Afinal há um sentimento que se desenvolve - o medo.

Antes que o leitor pense que tenho qualquer simpatia por acções rebeldes, sejam elas a do Distrito 13 contra o presidente Snow, ou quaisquer outras que visaram atacar uma distopia social, informo que isso é irrelevante. Nenhuma acção de força derrota uma ideia, mesmo que se aniquilem todos os adeptos com "bombardeamentos cirúrgicos", ou com "atentados simbólicos".
Só ideias derrotam ideias.

Uma ideia atacada pela força apenas se torna mais reseliente e, se enfraquecida no corpo, ficará adormecida, até reaparecer de novo na mente de outros, com maior intensidade e mais audaz no desafio. Os corpos que transportam as ideias são completamente irrelevantes para as ideias que se apoderaram das cabeças que os comandam.
É inútil ir ao dicionário procurar adjectivos sonantes para repudiar actos atrozes, querendo passar a mensagem de que nada justificaria certas acções, quando certas acções têm uma lógica e razão perfeitamente clara. Isso só serve para distinguir terroristas que têm protagonismo, de terroristas que o pretendem alcançar. Ambos tentam usar o medo, terror, como forma de condicionar as populações aos seus actos.
Quando uma pessoa está disposta a morrer por uma ideia, só há uma força capaz de o impedir - uma ideia que neutralize esse intuito. Não será o medo, porque esse foi perdido na disposição. Ao contrário, a ausência de medo é a principal força que têm contra uma população assustada.

Epílogo
Gaia, a mãe terra, tem duas formas muito simples de juntar os seres - uma é cruel, outra é o oposto, mas servem ambas o mesmo objectivo para educar gaios versus gaiatos:
- amor;
- temor.
Se a sociedade não evolui na forma de amor fraternal, então obrigatoriamente cairá numa evolução de temor crónico. Não vale a pena pensar em erguer muros, com vista ao isolamento. O temor não desaparecerá. Porque, não havendo entendimento e partilha, haverá desconfiança e medo. Por muito grande que seja a assimetria, é perfeitamente claro que os humanos não ficam descansados sabendo de uma evolução separada de outros. Se existisse uma população em Marte, mesmo que estivesse num grau de desenvolvimento inferior, haveria medo na Terra face à evolução para competição posterior. Portanto, o erguer de muros, é sempre um erguer de medos... porque o medo é o que serve para unir o que se quis separar recusando uma partilha fraterna. Em sentido contrário, as épocas em que o medo foi desaparecendo foram aquelas em que o contacto foi maior e houve uma partilha para um grande entendimento global.
Tudo isto é muito simplesmente lógica, fácil de entender, mas muito difícil de aceitar.
No entanto, há outra coisa com que temos que aprender a conviver... - com a burrice crónica!

______________
(*) Quando mencionei "ontem" referia o dia 20 de Novembro, conforme o cartaz, mas o texto só foi completado mais de um dia depois de ter sido iniciado.

Já agora, é interessante a escolha de 20 de Novembro, porque é o início do signo Sagitário, que é representado por um centauro com arco e flecha! Dificilmente será uma mera coincidência... embora haja sempre quem prefira considerá-lo.

Nebulosidades auditivas (28)

A propósito do comentário de hoje que o José Manuel colocou no Alvor-Silves, falando no filme Cloud Atlas, cujo título se baseava no nome de uma obra musical, fica aqui o tema Atlas dos Coldplay.

Este tema fazia parte da banda sonora do filme "Jogos da Fome" - Catching Fire.

Normalmente, sendo raros, evito colocar dois postais no mesmo dia... mas como estava a escrever um apontamento sobre o último filme da série, estreado há dois dia - a Segunda Parte do "Mimo-gaio" (Mocking-Jay), pareceu-me indicado juntar ambos os temas, não num mesmo postal - porque o assunto é diferente, mas sim aparecendo no mesmo dia - porque a circunstância é a mesma, e a coincidência o sugere.

Sendo Maia e as pombas Peleiades as filhas dedicadas do pai Atlas (um titã rebelde condenado por Zeus a suportar o mundo nas colunas de Hércules), há dois anos que considerei colocar aqui nestas "nebulosidades" esta canção dos Coldplay... o que se justificaria também com outras músicas.
No entanto, a minha interpretação racional do vídeo sobrepôs-se à emocional, e optei por não o fazer... até porque no final de 2013 as circunstâncias ainda eram diferentes, para embarcar numa lírica ambígua oferecida ao ouvinte.

Transportaremos todos os mundos que sucumbiram, vendo e vi-vendo, no único universo que os pôde conter de forma autoconsistente. E caímos aqui, porque para quem chegou ao fim dos tempos, sem disso saber, este era o único tempo que restava para continuar... começando num princípio a meio do tempo anterior. Esse tempo anterior tinha toda a inteligência do universo, mas ninguém para a contemplar. Existir é assim um recordar do que foi sem ser.

domingo, 15 de novembro de 2015

Ba-ta-clan, 150 anos

Na sequência do ataque armado a Paris, reivindicado pela operação do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e Síria), o nome Bataclan ficará associado ao maior drama recente que atingiu Paris.

Teatro do Bataclan, por volta de 1900, quando ainda era visível
a inspiração como pagode chinês na sua construção. 
Esta sala de espectáculos, tal como o Folies Bérgeres, ou o Moulin Rouge, tinham-se tornado ícones parisienses, vindas da Belle Époque do final do Séc. XIX, e que resistindo às transformações da cidade, mantiveram-se em funcionamento até ao Séc. XXI. Estiveram ligadas a um modo de vida burlesco exportado pelo imaginário cultural parisiense que se espalhou pelo mundo. Por exemplo, em Portugal, o nome Bataclã esteve ligado ao cabaré da popular novela brasileira "Gabriela", estreada há 40 anos.

O teatro terá sido inaugurado a 3 de Fevereiro de 1865, e assim terá comemorado 150 anos no início deste ano, numa altura em que Paris estava ainda atormentada pelo ataque ao Charlie Hebdo.

Estes 150 anos fazem do Bataclan uma das salas de espectáculos mais antigas deste género, e o seu nome resulta de uma pequena paródia, uma "chinesice", escrita por Ludovic Halévy em conjunto com Jacques Offenbach, e que esteve na origem do sucesso inicial do compositor germano-francês:

BA-TA-CLAN 
a opereta
composta por Offenbach (com libreto de Halévy)

Esta opereta, grande sucesso de Offenbach, não foi estreada no Bataclan, mas sim numa outra sala de espectáculos histórica:

... inaugurada em 1855, justamente com esta peça Ba-ta-clan, cujo enredo justificaria ainda o aspecto de pavilhão chinês para o teatro que seria inaugurado dez anos depois. 

Este tipo de operetas ligeiras, associava o nome de "opera bouffe" ao estilo italiano de óperas bufas, e o enredo desta opereta Ba-ta-clan é bastante curioso, ligando-se ao período conturbado que antecedera o fim da segunda república, e a inicial restrições de liberdades com o imperador Napoleão III, sobrinho de Napoleão Bonaparte.

O nome soletrado de Bataclan é o de uma canção de rebeldes, localizados num cenário de um império semelhante ao chinês, que são apanhados no meio de uma conspiração contra o imperador Fè-ni-han.
Emprisionados, dois deles descobrem afinal que são ambos parisienses, e têm como principal objectivo regressar a França. Ela, Fé-an-nich-ton, era uma cantora em digressão, raptada pelos soldados do imperador, e ele, Ké-ki-ka-ko, era o visconde Cérisy, um náufrago mantido em cativeiro.

Numa charada típica destas operetas, o imperador Fé-ni-han, acaba por revelar que afinal também ele era francês, que para escapar à morte tinha assumido o papel do verdadeiro imperador, e que por não perceber nada da língua local, tinha por engano condenado homens justos à morte, o que gerara uma rebelião comandada por Ko-ko-ri-ko. Também Fé-ni-han apenas queria regressar a França...
Para não terminar... o próprio comandante da rebelião era francês, e como era o único que não pretendia regressar, a sua subida ao poder permitirá o regresso de todos os outros!


Esta historieta é entendida como uma crítica à França de Napoleão III, que começa por ser eleito para o poder pela 2ª República após a revolução de 1848 - um ano em que as revoluções populares se estendem por toda a Europa (em Portugal é o ano da revolta da Maria da Fonte)... num período que foi curiosamente apelidado Primavera dos Povos - de onde as pretensas primaveras árabes quiseram beber o nome, como cópia de má qualidade.
Vendo terminar o seu mandato em 1852, Napoleão III vê-se forçado a mudar a Constituição no ano anterior... uma técnica sobejamente conhecida - ainda hoje muito tentadora. Dá-se início ao 2ª Império que prolonga a extensão do seu poder enquanto imperador, até ser deposto em 1870, quando as tropas de Bismarck entram em Paris, perante uma França completamente humilhada na Guerra Franco-Prussiana.
Se no início Napoleão III contou com apoio popular que lhe garantiu a eleição, a sua auto-nomeação como imperador levou a um período onde tudo estava reprimido e sujeito à vigilância estatal, tal como era descrito na ficção do Ba-ta-clan de 1855.

Talvez a crítica mais subtil à influência chauvinista residisse no facto de toda a trama se resumir a acções inconsequentes de personagens - todas elas francesas, enredadas num contexto de um poder estranho que iam influenciando caoticamente, por mera condicionante de salvação pessoal.


A palavra Bataclan terá sido popularizada com esta opereta, mas o seu uso é anterior, referindo-se talvez como sinónimo de "tralha" (podendo ser usado como "maralha")... ou de acordo com a definição (pág. 75 de Dictionnaire Languedocien-François, 1785, autoria anónima - Mr. L.D.S.):

  • Bataclan, ou frusqin; ce qu'une persoune a d'argent et des nippes.
remetendo-se assim a origem da estranha palavra para a região Occitana de França.

Por outro lado, o nome escolhido para o imperador Fè-ni-han faz lembrar fainéant (não fazer nada), e o som "kokoriko" pode ser uma simples onomatopeia de galináceo.

Este apontamento sobre o Bataclan remete para alguma coincidência trágica nas circunstâncias que levaram à escolha daquele local para um ataque terrorista, trazendo o período da Primavera dos Povos das Revoluções de 1848 para um período que se manifestou 150 anos depois, começando com a revolução tunisina em 2010.
Tem sido salientado o carácter algo aleatório na escolha dos locais, e não se vislumbrará nada de muito concreto em contrário, sendo até mais natural ter prevalecido uma escolha mórbida no pragmatismo da sua execução e resultado.

No entanto convém não esquecer uma questão lateral, que só intriga pelo facto de ser mesmo demasiado lateral... se o problema do Estado Islâmico está ali implantado, parece nunca ter incomodado um estado que dá pelo simples nome de "Israel"...

Israel não é o alvo da ira descontrolada deste Estado Islâmico, porque parece haver finalmente radicais fanáticos que não se preocupam em combater os opressores dos palestinianos. Israel também não se preocupa em bombardear posições do Daesh, quando antes sempre se dispôs a atacar o Iraque de Saddam Hussein, ou até o Irão.

De tanto silêncio, parece claro que o Estado Islâmico incomoda os Estados Unidos, a Rússia, a França, e toda a Europa, mas isso não faz descolar um avião israelita, nem para salvar os legados históricos de Palmira... já para não falar em salvar as populações de refugiados, que seguem um caminho bem determinado... que não incomoda Israel.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Grândola vs NATO

Como decorreu o exercício da NATO na praia de Pinheiro da Cruz em Grândola?

"Enquanto caças russos bombardeiam terroristas, 
NATO atola-se num areal de praia."

Porém, o jornalismo português foi mais ainda sarcástico no relato, comparando-o a um desafio de bola, em que a areia de Grândola derrotaria os visitantes, a NATO, por 3 a 1.

Eis o excerto da notícia:
A NATO estava em festa e para comemorar chamou jornalistas. A ocasião merecia: quatro mil militares, exercícios conjuntos entre fuzileiros e marines, poderio militar nunca visto em Portugal e convidados de honra para ajudar.
O tenente-coronel Eric Hamstra, dos United States Marine Corps, tinha avisado: “Isto é algo que preparámos nos últimos dois anos. E isto é uma oportunidade para os fuzileiros e os marines aprenderem uns com os outros. Vão partilhar táticas, técnicas e procedimentos.”
Só não houve aviso prévio quanto à falta de colaboração do areal de Grândola. Vamos por partes. Tudo começava com a chegada dos dois hovercraft que tinham saído do USS Arlington e vinham a alta velocidade em direção à praia. Mas a travagem na rebentação foi tão forte que impediu a chegada e, vergonha das vergonhas, foi preciso voltar a ganhar balanço para chegar enfim à praia. Grândola 1, NATO 0. O balanço reforçado equilibrou as contas e os anfíbios lá chegaram ao areal.
Para acabar com as brincadeiras, deram-se ordens de desembarque aos Humvees, jipes robustos que devem estar habituados a areias mais espessas. Porque assim que puseram as rodas em Grândola pararam para não mais de lá sair. Primeiro um de dentro de um hovercraft, depois outro de dentro do outro, ambos revelaram-se incapazes de avançar nas areias da praia. Grândola 3, NATO 1.
Por outro lado, a agência noticiosa russa RT, deixa mais ou menos claro como a Rússia encara estes exercícios da NATO, os maiores depois da Guerra do Golfo e Afeganistão. Como sentimento natural de quem centra todo o desenrolar exterior na sua pessoa, a Rússia pretende ver aqui uma provocação destinada a si mesma:

Portanto, as praias portuguesas não serviam para simular nenhum desembarque na Síria para combater o ISIS, ou Assad. Não, a ideia seria provocar a Rússia com este exercício!
Tanto mais que o exercício teve o cuidado do planeamento de 2 anos, ao ponto de não prever que os Humvees poderiam ficar atascados no areal.
Com o mesmo exercício de auto-projecção de todos os acontecimentos exteriores sem si mesmo, o comité do PCP poderá ter pensado que a coisa foi marcada para depois das eleições, para evitar um governo de esquerda. Coisa ainda mais clara quando Cavaco excluía da governação partidos que não respeitassem a NATO, e a força foi logo escolher o desembarque num concelho emblemático do imaginário do PCP, ou seja, Grândola. 
Sempre em linha com a Rússia, e com esse imaginário, o PCP apressou-se a condenar este exercício:
Com a encenação da vitória do areal, algo tão ridículo que correria o risco de passar por incompetência natural, os responsáveis do eixo Moscovo-Grândola podem estar satisfeitos, porque pelo menos a praia portuguesa serviu para uma vitória no espectáculo mediático, servindo-nos de bandeja uma imagem atascada da US Navy.
Agora, é claro, convém não misturar o cerco real com o circo surreal.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Abade Faria - é do mundo dantes

Há coisas assim.
Não temos a capacidade hollywoodesca de efeitos especiais, mas não seja esse pequeno detalhe que nos impede de ter bons argumentos, dados os personagens disponíveis.

Na imagem do post "O dia da marmota"
em delitodeopiniao.blogs.sapo.pt vemos
Sócrates a sair do nº33 da R. Abade Faria.
Em cena, lembrámo-nos do Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

É do mundo dantes que Edmond Dantès esteve preso no Castelo de If, sob o número 34, ou citando a Wikipedia:
  • Number 34: The name given to him by the new governor of Château d'If. Finding it too tedious to learn Dantès real name, he was called by the number of his cell.

Este 34 lembrou-me o preso nº 44, em Évora, liberto para o nº 33 da rua Abade Faria, porque o nome da rua é ainda interessante:
  • Abbé Faria: Italian priest and sage. Imprisoned in the Château d'If. «Abbé Faria existed and died in 1819 after a life with much resemblance to that of the Faria in the novel.»

Quem foi o Abade Faria que inspirou o personagem de Alexandre Dumas, e que foi um grande aliado do Conde de Monte Cristo?
- José Custódio de Faria, nasceu em Goa, em 1756, e depois de um envolvimento na revolução francesa, ficou especialmente conhecido pelos trabalhos pioneiros em Hipnotismo... tem mesmo o nome numa teoria que relaciona ao sonambulismo, denominada "Faríismo".

O grande aliado de Dantès no cativeiro ligava-se assim ao hipnotisador goês, Abade Faria, tal como podemos ir buscar essa origem goesa ao advogado, aliado do preso nº 44 de Évora, residente agora no nº33 da Abade Faria. 
Há ainda um Abade Delille, pedreiro livre, se isso interessa à conta dos 33. Mas aqui vejo apenas coincidência banal com o nome do outro advogado. Delille era abade contemporâneo de Faria, e ambos aparecem mencionados na página 369 de La hermite de la Chaussee d'Antin. É talvez instrutiva uma frase de Delille: 
 "O destino escolhe os pais, nós escolhemos os amigos";
que já sabemos ser argumento de defesa.
Aliás a fortuna de Dantès resulta justamente da revelação do tesouro da ilha de Monte Cristo, feita pelo Abade Faria, seu amigo no cárcere de If durante os 6 anos de cativeiro, que alguns diriam ser a recompensa do tempo de prisão numa legislatura e meia.

Dantès dispôs assim de uma enorme fortuna, à sua disposição em Paris, graças à generosidade do amigo que lhe passou o segredo do tesouro. A questão de dever ser declarado ao fisco francês nunca se coloca na novela de Dumas.

Em vez do rival Mondego interessado em Mercedes, paixão de Dantès, este caso d'agora correu pelas águas do rio Lena (também um grupo concessionário da Peugeot e outras marcas).
Que faria? - É d'mundo d'antes.
Uma coisa é clara... o hipnotismo tem servido de charlatanice, e se o poder da sugestão é grande, como se pode ver nesta sequência de associações que fiz, a captura da atenção do outro só é possível se ele perder a sua maior capacidade humana - a capacidade de se seduzir pelo caos, pelo imprevisível, que é afinal a única cura contra uma captura pela ordem, por uma qualquer ordem.

domingo, 4 de outubro de 2015

Pelo meu relógio são oras de votar

Este apontamento segue na continuação de
e começava então com a escolha de pílulas do filme Matrix... aplicável à eleição grega do Syriza,
que deu no que deu, sem mais ou menos espanto, do que o espanto do não espantar.

Agora vou começar antes do começo, de forma algo diferente.
"Pelo meu relógio são horas de matar" foi um álbum lançado há praticamente ano e meio (Maio de 2014), por uma das bandas que mais estimo no panorama musical português - os Mão Morta:
"Pelo meu relógio são horas de matar" 
é a história de um individuo de classe média que vive solitário...

Adolfo Luxúria Canibal é o carismático líder da banda minhota. Criou esse nome engraçado, e sempre ficou no ponto ambíguo em que pessoa e personagem se misturam.

O tema revolucionário está "fora de moda", como mostrou a necessidade de Garcia Pereira recuar na frase "Morte aos Traidores", tão emblemática de um "partido revolucionário" como o MRPP, como foi emblemática no dia 1 de Dezembro de 1640 - feriado de Restauração de Independência, tão simbolicamente extinto.
Curiosamente, é também conhecido da má-língua alfacinha, que este aspecto revolucionário de Garcia Pereira colide com a imagem de gestor de luxuoso gabinete de advogados e proprietário de grande iate. Mas isso são eventuais contradições que cada qual gere, sendo certo que, para ser solidário com a fome em África, parecerá tão contraproducente passar fome, quanto encomendar doses duplas.

De certa forma, foi no tema "Morte aos Traidores" que a banda nacional decidiu agitar consciências, indo ao ponto de colocar em vídeo simulações de assassinato de três classes de "traidores", tendo escolhido imagens de um financeiro, de uma política, e de um religioso.

Talvez para se precaver de eventuais processos judiciais, e outras ferocidades que a sociedade rapidamente dispara em resposta, a mensagem foi encapsulada como "obra de arte".
Mais que isso, prevendo uma reacção condenatória veemente, a banda decidiu introduzir o tema com declarações de Marcelo Caetano:

- Quando neste país se faz algo de mais audacioso, já se sabe que se levanta logo a poeirada dos interesses lesados, os despeitos amuados, os comodismos sacudidos, tudo a tender logo para a crítica derrotista, para a maledicência gratuita, e até às vezes para as suspeições torpes! 
- Que se há-de fazer? Desistir? Parar? Cruzar os braços?
- Claro que não!

Seria natural e legítimo que os Mão Morta pensassem que o vídeo teria impacto pelas "redes sociais", e levantasse algum brado, sendo audacioso e dirigido contra interesses e comodismos de uma sociedade anestesiada por fedores putrefactos.
Seria natural que pensassem - "depois do vídeo, as coisas não podiam continuar como se nada fosse".
Mas as coisas podiam continuar como estavam, porque não estavam a lidar com meninos mimados, estavam a lidar com putas sabidas (puta remete aqui para a ligação mitológica Puta-Putti).

O menino mimado irrita-se com a crítica que lhe é dirigida, enquanto uma puta reconhece-se como tal, e eleva a questão a um patamar acima. Querem os clientes abdicar da puta e da progénie dos putti?

Artisticamente os Mão Morta foram desflorados como virgens vestais.
Foi-lhes dado espaço e destaque nos jornais, e até na televisão, naquele dia de lançamento.
Ou seja, as putas de sacerdócio convidaram as virgens a ofendê-las no seu próprio templo.
Se o vídeo do irmão que morde o dedo do outro teve 700 milhões de visualizações, qual seria o impacto do vídeo dos Mão Morta? Creio que não chega às 70 mil visualizações, que são números mais próprios de espaços obscuros como este, e não são números de quem teve todo o foco da comunicação social.

O que se passa então?
Sim, as virgens podem ofender as putas, mas se não planearem nada mais, o evento é como se não existisse no dia seguinte. Não é novidade que as putas são putas. O espanto de se verem virgens atacar putas é encenação... especialmente se a virgem assume a obra de arte, para evitar processo legal.

Há a ideia de que basta aparecer algo na praça pública, na TV, nas "redes sociais", para que as pessoas reajam... para que se gere uma onda de indignação, para que as coisas mudem, etc.
- Errado, completamente errado!

As pessoas reagem conforme o contexto do "dia seguinte".
Se virem que o dia seguinte é igual ao dia anterior, não reagem... é só "fumaça".
Se virem que no dia seguinte o poder pode mudar, e ser diferente do dia anterior, então aí pode esboçar-se uma reacção perigosa.

Há muito que o poder aprendeu a usar a indignação a seu favor.
Como?
Quando uma indignação é exposta toda nua e crua, como aconteceu no vídeo dos Mão Morta, e nada se passa no dia seguinte, o que acresce é uma tomada de consciência que o poder das putas é grande e que por muito que as virgens o queiram expor, o templo dos putti continua sólido.
A tentativa falhada reforça o poder instalado.

Fraude eleitoral na eleição de Cavaco Silva em 2011
Não foi notícia, porque não foi conveniente ser, mas a maioria de Cavaco Silva, obtida em 2011, foi contabilizada com um pequeno detalhe fraudulento:
  • desaparecimento de 120 mil eleitores e 60 mil votos, no distrito de Setúbal
  • 40 mil eleitores e 20 mil votos a mais, no distrito de Viseu
Apesar de não ter sido notícia, ter sido abafado nos meios de comunicação, com toda a cumplicidade do regime de fantochada democrática conduzido pelos nossos jornalistas assalariados do poder, a informação até está pública na Acta Nº33/XIII (aliás, números muito cabalísticos):

A Comissão Nacional de Eleições tinha 6 membros a deliberar:
  • Dois votaram contra a aprovação do acto eleitoral (Dr. João Almeida, Eng. José Victor Cavaco)
  • Dois abstiveram-se (Dr. Jorge Miguéis e Drª Carla Freire)
  • Dois votaram a favor (Dr. Manuel Machado, e o presidente, o Juiz Fernando Costa Soares)
Apesar deste resultado, apenas com 2 votos favoráveis em 6, as eleições foram aprovadas, usado o voto de qualidade do juiz presidente... porque "podia prejudicar a data de tomada de posse do candidato eleito".
Este argumento é especialmente notável, porque o juiz assume que o Cavaco estava eleito, quando ele só estaria eleito depois da comissão validar as contas das eleições!

Um extracto da Acta nº33/XIII e início da declaração de voto do juiz presidente.

Outro extracto da Acta nº33/XIII - declaração de voto contra do Dr. João Almeida.

Outro extracto da Acta nº33/XIII - declaração de voto contra do Dr. José Victor Cavaco.

Isto é apenas um dos inúmeros casos de erros contabilísticos eleitorais.
Os valores apresentados são aqueles, como poderiam ser outros quaisquer... se atendermos a que se ignoraram 120 mil eleitores e 60 mil votos num distrito, enquanto noutro distrito (apelidado "Cavaquistão") apareceram 40 mil eleitores e 20 mil votos a mais.

Quando se ignoram com esta displicência milhares de votos, como deverá cada eleitor ver cuidado o seu voto singular?
Esta questão esteve no cuidado de dois elementos da comissão, mas imperou a pressa de dar poder ao poder, retirando o poder ao voto individual, desprezado e menorizado face à conta global, e como se essa conta global pudesse ser achada ou considerada, sem a correcção completa do voto individual.

O argumento no sentido de aprovar logo os resultados foi o argumento de que não influenciaria a maioria de Cavaco à primeira volta. Porém, isso é só parcialmente sugerido, já que dos 53% de votos então contados, retirando eleitores e votos em causa, essa maioria poderia passar a apenas 50,1% - ou seja, um número no limite da maioria. Curioso, muito curioso... especialmente porque nenhuma razão foi ali adiantada para o problema se ter verificado apenas em Setúbal e Viseu, e pior, se ter verificado em sentido convenientemente oposto - "votos que desaparecem em Setúbal" versus "votos que aparecem em Viseu". Nenhuma explicação é dada para tão singular fenómeno eleitoral, ocorrido apenas em dois distritos.

Curiosamente, desde a entrada na CEE, na União Europeia, que é bem conhecido que as listas de eleitores estão erradas, com nomes repetidos e nomes de mortos.
Nunca houve nenhum interesse em mudar esta situação, e os partidos que nos aparecem, de uma ponta à outra, desde o PCP ao CDS, são coniventes e pactuam com a falta de respeito pelo acto eleitoral.

O cidadão pode ir votar, para estar em paz com a sua consciência, votando no que julgar melhor.
O resultado que daí sai pode influenciá-lo, mas como não é o cidadão que controla o seu voto, dada a displicência ou fraude, fica em débito na consciência de quem achar por bem sustentar e manter um regime de falsidade instituída. 
Num equilíbrio matemático, que é bom não negligenciar, as contas que desaparecem num lado, irão aparecer noutro. Mais tarde ou mais cedo. E cada vez é mais cedo do que mais tarde... ainda que a cegueira possa ditar o contrário a quem não quer ver.

Pessoalmente, o personagem Cavaco Silva, enquanto informador da PIDE registado em 1967
... é um cidadão como outro qualquer, até porque ninguém é julgado criminoso por ter pertencido à PIDE, ou por ter sido sócio dos Bombeiros. Aliás, assim compreende-se perfeitamente que tenha dado condecorações a membros colegas da PIDE, ao mesmo tempo que rejeitava uma subvenção ao Capitão Salgueiro Maia. Conviver com pulhices faz parte de certa natureza desumana.
Tudo isto é perfeitamente natural, e que o regime vá mudando de cara, mas mantenha os seus poderes de bastidores, manifestando uma ditadura branda na prática de democracia fantoche, acho que é uma evolução, e será mais agradável a ilusão, aos olhos da maioria.

Caso Camarate
Convém não esquecer que Portugal não está isolado, e desde 1980, quando caiu  "misteriosamente" o avião com Sá Carneiro e Amaro da Costa, ficou bastante claro que poderia haver intervenções externas em Portugal ao mais alto nível, quando fosse caso disso.
Claro que contavam com "traidores" internos para o efeito.

A confissão assinada por Farinha Simões, envolve os serviços secretos americanos, e alguns personagens famosos, que vão desde Kissinger a Balsemão, poderia ter abalado o regime... mas não foi caso para tanto.

Neste país, o culto às putas mantém-se estável, e as virgens que cuidem do sua retaguarda.
Cumpriu-se calendário, abriu-se mais uma comissão de inquérito, e entretanto a coisa vai ficando arrumada.
Para cumprir calendário, e como nunca aqui tinha trazido estes assuntos, deixo este registo:

Para quem se lembra do personagem inventado por Herman José - o "Esteves", não estranhará a figura, que apesar de cúmplice assumido e ter apanhado com parte do bolo de 1 milhão de dólares, destinado à operação, foi sendo abafado por esta comunicação social que tanto nos instruiu.

Faço votos de bons votos.

Quem sabe, se sabe alguma coisa, sabe que as contas não se fazem sem um... e isso complica tudo, quando sem uma pequena coisa, tudo é nada.

[O texto foi reeditado no mesmo dia]

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Gramas

Grama liga-se a unidade de peso, mas a origem grega da palavra grama é letra.
É por esse peso que gramática se liga às letras, e o peso do grama é leve.

Um texto com um mil letras terá um quilograma, e um milhão de letras serão uma tonelada, fazendo sentido falar literalmente em "textos pesados".

A caixa de comentários assinala como máximo 4096 caracteres, que é o mesmo que dizer 4096 gramas (contando espaços e sinais como letras).
- É um limite indicativo de carrego ligeiro... 4 quilos de texto!
Muitas vezes escrevi textos com mais de 10 ou 20 quilos, e certamente que foram demasiado pesados para uma leitura útil. Pode não parecer, mas preocupo-me sempre em ser o mais poupado possível, e várias vezes deixei de publicar textos por estarem demasiado longos ou maçadores. Este texto estava quase há um ano para ser publicado...

Quando pensamos em obras grandes, pensamos por exemplo em "os Lusíadas", mas a obra tem menos de 325 quilogramas, não chega a uma tonelada. Em contraponto, "os Maias" de Eça de Queirós juntam a esses quilos mais uma tonelada de gramas, de letras. Porém, apesar dos mil e trezentos quilos, "os Maias" são muito mais levezinhos do que "os Lusíadas", cuja densidade é enorme.


Erros da Gramática
Tenho uma certa aversão aos correctores de serviço. Estão à coca, e atiram à mais pequena falha, como se estivessem à caça aos patos.

Corrigir é uma actividade importantíssima.
Colocar-se acima dos outros por essa actividade, é um deslumbre de simplórios.
Quanto mais entendemos o português, mais vemos a ignorância dos seus gramáticos de serviço.
Note-se que nem sequer abordo o "aborto ortográfico".

Vejamos duas hipóteses de sabedoria:
(i) Haver alguém que saiba.
(ii) A ver alguém que saiba.

O gramático de "cartilha" só entende a primeira frase, e desdenhará a segunda.

O verbo "haver" resulta directamente de "a ver" - teve o mesmo significado, originalmente.
"Haver" tem o significado de existir.
- "A ver" também é existir, porque estando "a ver", existe.
"Haver" tem o significado de ter crédito.
- "A ver" também tem crédito, porque ficamos de "a ver" de volta.

Assim, para entendermos o português, a sério, e não a brincar aos "pimpões gramaticais", devemos procurar ir à raiz. Ir à raiz, significa ir às sílabas, e só raramente ao latim e ao grego... distracções convenientes, porque ao longo de séculos, os gramáticos torturaram a nossa língua com manias - mas não lhe tiraram as sílabas fundamentais.

Os verbos foram as principais vítimas das regras, mas alguns impuseram-se pelas excepções.

A conjugação de "haver" é semelhante à de "a ver", pelo passado e futuro:
- eu havia, eu "a via"; tu havias, tu "a vias"; ele havia, ele "a via"; ...
- eu haverei, eu "a verei"; tu haverás, tu "a verás"; ele haverá, ele "a verá";...

No entanto, convém notar que "houve" misturas, e o "Houve" é "Ouve" de "ouvir" e não de "a ver" ("a viu" seria "haviu" - forma que não existe)!

As misturas levaram ao erro mais frequente na língua portuguesa:
- a confusão entre o "Há" e o "À"!

A conjugação de "Haver" no presente misturou significados.
- "Há aqui." pretende significar "Existe aqui."
Mas isto verifica-se apenas na terceira pessoa!!

Ninguém diz:
- "Hei aqui!" para significar "Existo aqui!"
Ninguém diz:
- "Hás aqui!" para significar "Existes aqui!"

Por isso, o erro apontado a muita gente, começa por ser um erro de significado dos gramáticos, porque nenhuma das outras formas de "haver" no presente:
- hei, hás, havemos, haveis, hão
tem verdadeiro significado de existir. Apenas "há" tem esse significado de existência.
A prova adicional desta falha verbal é que nem o plural ocorre.
Não dizemos "Hão aves raras", diz-se "Há aves raras".
No entanto, este "há" significa "Existem aves raras" e não significa "Existe aves raras".
O "há" é uma excepção gramatical de terceira pessoa indefinida - sempre conjugado na forma "ele há" qualquer coisa - seja plural ou singular.
Não é um verbo, no sentido normal, porque não se conjuga com o mesmo significado nas outras pessoas. Isto parece ter escapado aos "sábios" gramaticais que nos (des)ensinam... inventando o termo "verbo impessoal".

Nas outras pessoas... o uso de "hei" está quase sempre ligado a "hei-de", tal como "hás" se usa em "hás-de" (com "erro" popular em "hádes"), ou "há-de", "havemos-de", "haveis-de", "hão-de" (com "erro" popular em "hádem").

Agora, no AO-90, é dito para tirar o hífen... como se "hei" se pudesse ligar a outras preposições, quando é usado exclusivamente com "de".
Dizemos "hei-de fazer", mas alguém diz "hei a fazer", ou "hei por fazer", ou "hei com dizer"?...
O despudor autoritário nem sequer se dá conta do que "há por fazer"!

Isto não é acidental.
As formas "hei", "hás", "há", são primitivas do verbo "ir".
Aquilo que estou a dizer é que antigamente dir-se-ia:
- "eu hei", ao invés de "eu vou";
- "tu hás", ao invés de "tu vais";
- "ele há", ao invés de "ele vai".
- "nós hemos", ao invés de "nós vamos";
- "vós heis", ao invés de "vós ides";
- "eles hão", ao invés de "eles vão";

Estas formas primitivas resistiram apenas na conjugação do futuro, onde ficaram plasmadas:
- ir hei (irei), ir hás (irás), ir há (irá), ir hemos (iremos), ir heis (ireis), ir hão (irão);
- saber hei (saberei), saber hás (saberás), etc...

É claro que o "h" não faz nada na língua portuguesa, coloca-se apenas para distinção.
Portanto quando se escreve "ele há" ou "ele à" quem se atreve a falar em incorrecção?... a não ser simplesmente porque se decretou por decreto.

Acresce que...
... esta forma de "há" é a mesma que ocorre na contracção da preposição "a" com o artigo "a".
Esta contracção é a mesma que induz a acção do verbo "ir".

"Há errar" ou "à errar"?
Quem quer usar a excepção do verbo haver como "há" de existir, vê um erro, que é um erro dogmático, instituído por gramáticos míopes.
Ninguém diz "hei errar" para assinalar que tem erro, nem no pretenso "português arcaico", que foi no tempo onde se fizeram mudanças gramaticais.

Por isso, a forma "à errar" é uma variante primitiva de ir na direcção de errar, e seria até correcta se disséssemos "hei errar" ou "hás errar", pois "há errar" teria assim outro significado.

Breve conclusão.
Conheço muita gente que escreve mal, mas pouca gente que fala mal.
Interessa corrigir erros com o propósito de unificar e não de diferenciar.
Corrigir erros visa concordar numa verdade comum, enquanto os censores de erros visam distinguir-se dos comuns pela sua actividade censória.
Essa actividade censória, movida por egos pessoais e não por apegos globais, merece-me sempre a mais feroz crítica.

Eu pouco sei de gramática, mas conheço de muito, o suficiente para levar a cabo um projecto de rever as coisas de alto a baixo. Não me preocupa estar errado, e reconhecerei erros. Preocupa-me mais este silêncio dogmático, do que se toma por certo por decreto, e não se discute.

Em textos seguintes irei mostrar, como se pode ler português de forma completamente diferente do que é habitual. Já o fui fazendo muitas vezes, mas serei mais sistemático, introduzindo uma rubrica regular, pelo menos semanal.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nebulosidades auditivas (27)

GAIA - live at State of Trance 650
Ultra Music Festival (Miami 2014)

Música em contínuo, sem baixar o ritmo durante horas e horas... é basicamente uma iniciativa de vários DJ's, em particular promovida por Armin Van Buuren, que aqui aparece no duo "Gaia".

Outra sequência igualmente recomendável com sete pecados: - Transmission - "Seven Sins", onde destaco três desses DJ's:

Solarstone
Photographer
John O'Callaghan


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Havia um avião - Reunião 515 dias

Na sequência de dois textos anteriores "Aviam Avião":


parece-me que podemos iniciar uma série sob o tema "Havia um Avião".

As palavras chave que foram escolhidas para as notícias de ontem (5 de Agosto), sobre a descoberta de um resto de uma asa de um Boeing, foram notoriamente duas:
- Reunião
- 515 dias
Que uma palavra seja "Reunião", parece inevitável, já que o destroço seria encontrado nas Ilhas de Reunião. Já dar eco ao número 515 dias parece-me menos vulgar, até porque ninguém se lembrou de dar foco ao número exacto de 131 dias, passados entre o primeiro e o segundo acidente dos aviões da Malaysia Airlines. 

Só refiro isto, porque para quem leu algumas coisas esotéricas e cabalísticas, o número 515 é daqueles que não passa completamente despercebido.

Num estranho "artigo científico" de 1989 (!), Lima de Freitas dá algumas pistas sobre este número. O artigo chama-se 

... e parece mais um artigo de blog do que um artigo científico (mas, enfim, à época não haviam blogs). Na introdução diz o seguinte:
After stressing the fact that the paradigm of the mirror is common to oriental as well as western traditional metaphysical and religious speculation, he comes to mention the mysterious use of the number 515 by means of which Dante Alighieri, in his Divine Comedy, prophesies the advent of God's Envoy. 
e acaba quase no mesmo estilo (sendo um verdadeiro mistério a aceitação do artigo naquela revista, ou talvez não, lendo os manos):
All this is very much in the spirit of Dante. I think for the reasons above and because of other clues, that the "Apparition of Christ to the Virgin", the masterpiece of (probably) Master Jorge Afonso now in the Janelas Verdes Museum of Lisbon, commissioned by Queen Leonor in the first quarter of the sixteenth century, exhibits the cipher 515, with the same intention and meaning that Dante gave to it two centuries before. This belief of mine grew stronger when I realised that, at the entrance of the church of Templars in Tomar - the centre of the Templar Order in Portugal and one of the most important monuments in Europe - the Master who built the porch engraved in the stone - once again! - the cipher 515.
Só por curiosidade natural fui ver o tal quadro de Jorge Afonso:
Aparição de Cristo Ressuscitado à Virgem, de Jorge Afonso
(detalhe, onde se evidencia o 1515)
Peço imensa desculpa, mas dada a curvatura dos 5, o que leio ali não é 1515, mas sim ISIS.

Eu sei, comecei este artigo apenas com a intenção de cumprir calendário com a notícia do avião desaparecido, e já chegámos à variante do Estado Islâmico... o ISIS, de 1515 para 2015, com quinhentos anos de diferença. Sem comentários!

No entanto, a oportunidade da menção que o mação Lima de Freitas faz ao 515 de Tomar (não seria apenas o ano da obra?), permite agora falar da Igreja de Santa Maria dos Olivais, que o José Manuel fez referência num comentário (... até essa altura apenas associava Stª Maria dos Olivais à freguesia lisboeta dos Olivais), e ao seu pentagrama associado:
Igreja de Santa Maria dos Olivais, igreja matriz dos templários com um pentagrama. 
E acrescento que no retábulo de Jorge Afonso, parece-me que o velho Adão coberto apenas com a parra, segura uma maçã e nenhum pomander... esse de 1505:

Todo este interlúdio para realçar que quando se lança um número como 515 para as notícias, as mentes cabalísticas, plenas de espírito esotérico, não serão totalmente insensíveis, e não o lerão da mesma forma que o comum dos mortais (já tivemos o 115 como número de emergência, mas passou a 112, provavelmente por causa destas confusões...).

Só um pequeno acrescento relativamente a estes delírios correntes.
O 1 é visto como a unidade divina, assim com o 3 é visto como a sua trindade, e o 5 é entendido como sendo o número do homem (o que se compreende pelos cinco dedos, e não só - ver texto Abraçadabra). Portanto, escrever 515 é como entender uma passagem de homem (5) ao divino (1) e o regresso como homem (5). O habitual uso de 3 dígitos teria a ver com o número de eras (era do Pai, do Filho, e do Espírito Santo).  Mas, passando a 4 dígitos e de forma semelhante, 1515 seria equivalente, mas começando antes pela parte divina. Na mesma pseudo-lógica, devemos entender 2 como a dualidade (por exemplo, feminino e masculino) e 0 como o vazio, a ausência. Portanto, 2015 poderia ser entendido como sequência iniciada numa dualidade, desaparecida, da qual emerge parte divina, e depois humana. 
Mas enfim, tudo isto serviria para rir, se não fosse para chorar.

Voltando ao assunto de interesse.
Passado um ano sobre o desaparecimento do MAS 17, a BBC juntou o que se tinha "apurado" neste artigo:
... e uma das coisas que se pode reparar nesta figura
Partes recuperadas do avião abatido na Ucrânia (MAS 17, em 17 de Julho de 2014)
... é que foi recuperado pouco do avião "destruído pelo míssil". Uma boa parte parece ter-se evaporado ou volatilizado. Assim, digamos que há muito por recuperar daquele avião, e não sendo normal que tenha entrado em órbita e caído na ilha da Reunião, eu não estaria assim tão seguro disso.

Uma teoria que circulou o ano passado é que o vôo MAS 370 teria sido desviado para a base americana de Diego Garcia, no Oceano Índico. Os proponentes desta teoria poderiam ter ficado mais convencidos com o aparecimento de destroços na Ilha da Reunião, pois essa base está bem mais próximo do local de recolha do destroço. Ainda assim, devido a toda a teoria de correntes que poderiam ter levado os destroços da asa, tudo é possível, ou como se diz no título da revista Wired:
e conclui com esta certeza - "Well, at least we know the plane’s not hiding in Kazakhstan."

Mas eu não estaria assim tão certo que o Cazaquistão será um local a excluir das buscas, seja pelo que falta do MAS 370, seja pelo que falta do MAS 17... insistindo que não é claro que o que falta não seja exactamente o mesmo!
Portanto, o que temos agora é apenas mais música sobre uma parte de uma asa...

Asas - GNR

____________________________
Aditamento (9/08/2015):
Por via desta notícia cheguei a uma teoria avançada também no ano passado, uns quatro dias depois de ter colocado aqui a hipótese do MH17 e MH370 serem o mesmo, e que também seguia na mesma linha:

Aliás convém salientar que isto nada tem de especial, já que a semelhança dos dois aviões deveria automaticamente disparar a pergunta - se seriam o mesmo ou não? Tão preocupados estavam os jornalistas em serem politicamente correctos, que ninguém se atreveu a comentar ou estranhar essa semelhança. O que só fez tornar tudo ainda mais suspeito.

A minha suspeita não se fundava em dados muito objectivos, mas o site em questão compilou alguns:

1. A missing window on the wreckage, which appeared in some pictures over the internet.
2. The flag does not properly align to the window, as compared to recent pictures of the original MH17 (no new information here).
3. Rebel leader describes the MH17 victims: rotten corpses, drained of blood (no new information here). 
4. ALL the videos were created before MH17 was allegedly shot down (no new information here).
5. Flight MH17 was cancelled, according to flight radar screen (no new information here).
6. Invalid and pristine passports at the crash site
...
É relevante, e foi uma informação veiculada logo nos dias seguintes, que o voo MH-17 tinha sido dado como cancelado.

domingo, 2 de agosto de 2015

Um discurso de Balfour... cem anos depois

Arthur Balfour foi primeiro-ministro inglês, mas ficou mais conhecido pela declaração de 1917 que prometeu a criação de um estado judaico na Palestina. 


Já aqui comentámos a Declaração de Balfour, nomeadamente a célebre carta enviada a Rothschild.

No entanto, é instrutivo ver o discurso proferido por Balfour dois anos antes, a 4 de Agosto de 1915, ou seja, há 100 anos. O discurso chama-se "Um ano depois" e enquadra-se na situação da 1ª Guerra Mundial, tendo passado um ano sobre o início das hostilidades com a Alemanha.
Não vou entregar-me a invectivas contra os nossos antagonistas, pois suponho que a maior parte deles fez o que lhes foi dito, simplesmente porque lhes foi dito.
Boa razão.
Suponho que os seus caudilhos se iludiram na crença de que a Alemanha e os alemães eram tão bons, tão excepcionais, que o ser dominado por um alemão era o maior privilégio de que uma raça inferior poderia gozar neste perverso mundo.
A transcrição do discurso aponta para risos na plateia... passados 100 anos, é de perguntar se há ainda governante da "zona euro" que se ria hoje dessa piada! 

O discurso continua apelando ao espírito britânico, enquanto "campeões imemoriais da liberdade", em continuar a luta contra a Alemanha em território francês. 

Desde a invasão normanda que a Inglaterra nunca se desligou do território francês, e sempre esteve atenta ao que se passava em território europeu, sendo-lhes conhecida a frase de preocupação jocosa aquando de nevoeiro no Canal da Mancha - "o continente está isolado".

É preciso recuar mais 100 anos, para a Batalha de Waterloo de 1815, para entendermos que a França passou definitivamente a dever obediência à Loja de Londres, ou se quisermos, à City de Londres.
Na realidade não foi a França que pagou os custos das guerras napoleónicas, esse financiamento foi cobrado em dívidas aos estados ibéricos, Portugal e Espanha, pela ajuda fornecida pela Inglaterra. A partir de 1815 não mais a França ousou espirrar contra a Inglaterra, foi protegida, e o seu arqui-rival e inimigo, passou a funcionar num entendimento mais que cordial, mesmo antes da Entente Cordiale. 
A Alemanha iria passar a funcionar como inimigo de serviço durante as décadas seguintes.

A excepção a essa ajuda britânica à França ocorre durante as Guerras Franco-Prussianas, já que Bismarck foi suficientemente hábil para provocar o suicídio diplomático da França.
O que fez Bismarck?
Informou os franceses de que planeava anexar a Áustria, ou o império Austro-Húngaro, e que se por seu turno, os franceses decidissem anexar a Bélgica, teriam igualmente o reconhecimento alemão. 

À França pareceu-lhe bem a ideia, de onde ambos os reinos sairiam a ganhar territórios... tal como hoje pareceu bem propor um directório da "zona euro", juntando-se à Alemanha, e cooptando o Benelux para a farsa, excluindo os restantes países!

Só que à época, a ideia de Bismarck era apenas lançar a corda onde a França se apressou a colocar o pescoço. Quando os exércitos prussianos avançaram sobre a França, e desfilaram depois vitoriosos por Paris, a Inglaterra não mexeu palha... porque a Rainha Vitória foi informada por Bismarck dessa anuência francesa à anexação belga - caso tanto mais grave quanto a Rainha Vitória tinha origem familiar na casa alemã de Hanover, e era sobrinha afectuosa do rei belga.

No entanto, a própria Alemanha ao exibir na invasão francesa uma tal supremacia europeia, apressou-se a chamar as atenções inglesas contra o seu crescimento. É nesse contexto que a 1ª Guerra Mundial poderia antever-se antes de ocorrer - a Inglaterra precisava de parar a Alemanha e a França pretendia uma certa vingança contra a invasão de Bismarck. 
As reparações de guerra que a Alemanha exigira à França, foram depois muito pioradas na vingança francesa pelo Tratado de Versalhes, o que acabou por levar a nova invasão de Paris, a nova vingança, desta vez pelos exércitos de Hitler. Só o bom senso americano do Plano Marshall permitiu parar esta escalada de vinganças, resultantes de pesadas reparações de guerra sobre o perdedor.
Porém, passadas umas décadas e parece que as manias de humilhação e subjugação económica persistem, motivadas por interesses diversos, que aqui não interessa repetir.
Afinal depois da 1ª Guerra Mundial, com o impacto da divulgação dos Protocolos de Sião, a teoria da conspiração ganhou adeptos em todos os governos nacionalistas, e não é difícil encontrar referências anti-semitas nos ideólogos do fascismo alemão, ou do fascismo italiano... ou como Julius Evola referiu:
Whether or not the controversial Protocols of the Learned Elders of Zion are false or authentic does not affect the symptomatic value of the document in question, that is, the fact, that many of the things that have occurred in modern times, having taken place after their publication, effectively agree with the plans assumed in that document, perhaps more than a superficial observer might believe.

Interessa como último ponto o financiamento do Império Alemão e Austríaco à revolução bolchevique em Moscovo, no decurso da 1ª Guerra Mundial.

A ideia alemã era simples.
A Alemanha estava com duas frentes de guerra. Uma a ocidente onde defrontava franceses e ingleses, e outra a oriente onde se batia contra os exércitos russos do Czar Nicolau. A deposição da monarquia russa, e o estabelecimento do comunismo, seriam bem vindos pelos alemães, se essa mudança de governo significasse o fim das hostilidades numa das frentes... podendo assim deslocar todos os seus exércitos para a frente ocidental.

New York Times (1918)
Lenine foi financiado directamente por alemães e austríacos, conforme parece ser atestado por inúmera documentação entretanto conhecida. Dificilmente revoluções internas têm sucesso sem mãozinha externa, ao contrário do que é supostamente propalado.

Porém, este plano alemão, cuja consequência lateral foi implantar um longo regime comunista na Rússia... acabou por sair duplamente furado. 
Primeiro, porque essa vantagem alemã foi rapidamente anulada com a automática entrada dos americanos na 1ª Guerra Mundial. Se estavam descansados pela frente oriental, passaram a ter o dobro dos problemas na frente ocidental, e em breve perderiam a guerra.
Segundo, porque foi o regime comunista que permitiu a maior ofensiva contra a Alemanha no curso da 2ª Guerra Mundial, tendo sido os russos comunistas a tomar Berlim. 

Diversas situações, em que os ventos semeados passaram à força de tempestades contra os próprios.

sábado, 18 de julho de 2015

Pelotão e Carontonha

Plutão ou Pluto?
Jornais "sérios" não confundem o nome do planeta (Plutão) com o nome do cão do Mickey (Pluto).
Antes de ser desclassificado, Plutão aparecia na lengalenga dos 9 planetas, e por isso o erro não ocorre nos dias de hoje. Poucos associam Plutão à versão romana da divindade dos infernos, Hades.

Charon é Caronte!
História completamente diferente é a da lua de Plutão, Caronte, cujo nome deriva apropriadamente do barqueiro infernal.
Nalguns jornais online como Expresso, Sol, Renascença, Observador, Visão, TSF, etc... isto só para mencionar alguns (que entretanto poderão fazer o favor de corrigir), o nome "Charon" poderia ser afinal "Maria Alice", ou até ser "Sharan" (o que daria jeito de publicidade a calhambeques alemães, numa altura em que se vende soberania a estrangeiros por meia-dúzia de euros). Assim, não foi traduzido com a devida referência a Caronte, ficando a palavra inglesa correspondente, "Charon".

Neste reino em que os incompetentes são condecorados com coleiras de obediência para debitarem banalidades nas televisões, nada é de estranhar.
Houve traduções que não pegaram, ou se perderam, mas não é a mesma coisa escrever Frankfurt em vez da tradução perdida, que era Francoforte. Como essa cidade alemã é a sede do Banco Central Europeu, e capital financeira da zona Euro, faria mais sentido traduzi-la hoje como "Euroforte", ou talvez ainda "Eurofoste" numa certa antevisão do rumo que este circo europeu leva.

Há outras designações que são igualmente fruto do domínio da língua inglesa, como "Beijing" que já se vê escrito aqui e ali, como se o nome português "Pequim" tivesse ficado um incómodo. E isto não é o mesmo que usar New York em vez de Nova Iorque, já que York raramente se escreve Iorque.

Neste caso é simplesmente mais caricato, porque um qualquer Malaca Casteleiro, munido da aura de indigência maçónica, poderia querer-nos educar Charon ao som do "Acordo Ortográfico" e assim escrever "Charom". E se isto parece estranho, basta notar que "ÓTICA" sem "P" diz respeito aos ouvidos e não aos olhos. Assim, passámos a ter "ÓPTICAS", empresas que na pressa de serem "boas alunas" mudaram de actividade para "ÓTICAS", passando literalmente a dedicar-se aos ouvidos.

Quanto à campanha publicitária levada a cabo pela NASA, das "fotos de Plutão"... como muito boa gente reparou, pareciam mesmo inspiradas no personagem da Disney.

Ah! Mas que descrentes que somos... aposto que também repararam que todas as imagens eram a preto-e-branco! Já sabemos das poupanças da NASA em revelar a cores, que gasta muita tinta, e os tinteiros a cores saem mais caros no orçamento da agência desinformativa.
Porém, desta vez a NASA não se deixou apanhar, e zás, colocou mesmo imagens coloridas, ainda que com pior definição... que isto não é para abusar!


Ah! Afinal são imagens a cores... mas, azar, assume-se serem "cores falsas"!
Homessa, não arranjam uma câmara que tire fotos com cores verdadeiras?
Não há pachorra, para tantos problemas técnicos... assumindo que há "técnicos" na NASA.

Depois, as imagens são "surpreendentes", "fantásticas", e outros adjectivos publicitários para colar à notícia, e não volto aqui a repetir toda a absoluta desconfiança necessária para este tipo de coisas.
Depois, convém notar que à distância a que Plutão e Caronte são supostos estar, o Sol aparece como um ponto estelar brilhante. Ainda assumindo que seja mais brilhante que uma Lua cheia (o que nem é nada claro... ver p.ex. comentários aqui e aqui) ainda assim seria apenas um ponto de luz intenso, como uma estrela muito mais brilhante que as restantes - não teria aspecto de um disco de luz (alguém perguntava nos comentários mencionados... e que tal a câmara registar isso? - esta malta, é só exigências! Coitada da NASA, tinha que colocar duas ópticas)
Em suma, o que é facto, é que não é suposto haver o mesmo tipo de luz em Plutão do que aquele que temos quando fotografamos planetas-asteróides como Ceres... e que produzem até imagens piores. Bom, mas afinal, para quem é (a populaça), pouco interessa, interessa só manter o espectáculo noticioso a rodar. Vistas as fotos dos berlindes, eu até diria que se poderia notar um projector de luz... mas, deve ser impressão minha.

Tudo isto interessa muito pouco, ou quase nada.
Como já aqui insisti, dado o nível de desconfiança na sociedade, poderiam até colocar fotografias de uma estação espacial alienígena, com marcianos a acenar, e ficávamos na mesma. A partir de certo ponto de incoerência, qualquer informação é absolutamente irrelevante. A única coisa relevante é a atitude que as pessoas têm com base nela...

Talvez valha a pena esclarecer isto.
Nos dias que correm, o que impede termos um desembarque alienígena, com homenzinhos verdes simpáticos a quererem o melhor para a humanidade, e a ajudar-nos? O que impede termos um planeta cor-de-rosa, cheio de crianças alucinadas a acreditarem em cavalos voadores, em fadas, etc?
O que impede isso, são basicamente duas coisas.
1) Gente a mais. 2) Pessoas desconfiadas.
O problema de gente a mais está a tentar ser controlado... e tudo será feito para inverter a espiral demográfica. Ou seja, há demasiada gente para uma ilusão credível com efeito.
O problema mais irresolúvel, é o da malta desconfiada. Porque, a malta que constrói a tecnologia, é malta que sabe, é malta que não é tão facilmente controlável, e é malta de quem os mandantes dependem para construir e consertar os bonecos que vendem. E é essa malta que acaba por impedir que os mandantes apareçam como deuses face aos restantes mortais. Quando houver menos gente, e os desconfiados forem exterminados, então a humanidade iria perceber (de novo) o inferno que seria ser governada directamente por "deuses" ou "aliens".

De tempos que não reza a história, ficaram-nos as palavras que usamos.
Comecei com Plutão e Caronte, e vou terminar com eles.
Entre "pelotão" e "plutão" a diferença fonética é pequena. Se Plutão nos remete para os infernos, a palavra "pelotão" é militar, e esteve ligada apropriadamente a "pelotões de fuzilamento"... onde esse pelotão poderia bem ser visto como emanação infernal de Plutão. É claro que há outra justificação, ligada ao jogo da pelota, mas até por aí a coisa não seria pacífica, se nos lembrarmos do destino dos jogadores de pelota aztecas e maias, também convidados a conhecer Plutão.

Por outro lado, de Caronte conhecemos melhor o antigo hábito de colocar moedas nos olhos dos mortos, para o serviço do banqueiro, perdão, do barqueiro dos infernos (nessa época, não seriam nem euros, nem dólares).
Tal como hoje se escreve "Charon" por referência a Caronte, menos me custa a crer que a palavra que pode estar na origem de "Carantonha" seja talvez "Carontonha", referindo-se ao mau aspecto de Caronte. É claro que a diferença é pequena, mas substancial.
Para a declinação de "medo" usamos "medonha", e se a origem fosse "cara" (conforme é pretendido), ficaria mais facilmente "caronha". Como "carantonha" se associa ao uso de máscara, parece-me plausível que nos tenha ficado de Caronte a tal "carontonha", passando o "a" a "o", por hábito da população, ou simplesmente por acordos ortográficos de despistagem...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ceres spotting

Já há uns quatro anos, falei no texto "Moon Spots" sobre o registo antigo (Séc. XIX) do avistamento de "estranhas luzes" na Lua. Apareceram em várias revistas da época:

Bom, surgiu entretanto, há uns dias atrás, a notícia da NASA que revelava a existência de luzinhas... agora não na Lua, mas sim no maior planeta-asteróide, ou seja Ceres. As imagens são atribuídas à sonda Dawn, que teria conseguido a notável proeza de ter realizado uma viagem de vários anos pela Cintura de Asteróides sem ter colidido com nenhum dos muitos milhares de corpos de dimensão grande (... e milhões de dimensão mais pequena). 

Imagem das duas luzes numa cratera de Ceres
(sonda Dawn, NASA)

As imagens, como habitual, são a preto-e-branco. A NASA sempre foi poupada com estas coisas, e portanto não gosta de gastar dinheiro com imagens a cores. 
Habituados às fotografias digitais, os jovens de hoje não entendem que fotografias a cores eram coisa bem mais cara do que revelá-las a preto-e-branco. Assim, a NASA mantém-se poupada na revelação, e segue a tradição do preto-e-branco.
Seja como for, esta notícia da luzinha em Ceres já vem de Janeiro (ver aqui), só que então estava mais desfocada, porque a sonda Dawn era suposto estar bem mais longe do asteróide... fazia por isso sentido apresentar uma imagem desfocada.

Só que ainda assim, parece que as coisas já não são o que eram, e a notícia das luzinhas em Ceres não teve grande impacto, pelo que aparece agora nova revelação - uma formação piramidal:
À esquerda - um zoom da cratera que exibe as luzinhas!
À direita - (em baixo) uma formação com aspecto de pirâmide (ou será aspecto de lapa?).

Com tanto mistério, a NASA pede agora ao povo para ajudar, apresentando explicações para o fenómeno das luzinhas, e insere a hipótese de "Aliens" como uma das possibilidades a votação!
Portanto, depois do sucesso do Canal História com as teorias "Aliens", vemos agora a NASA a seguir o mesmo caminho.

De facto, como tudo o que sai da NASA, devemos colocar sérias dúvidas à sua veracidade, mas aqui temos como ponto favorável à história o mesmo tipo de fenómeno ter sido avistado no Séc.XIX, à época, apenas na Lua.


Para terminar deixo aqui a fotografia de outras duas luzinhas, essas bem à vista de qualquer um de nós. Segue então uma imagem de Júpiter e Vénus que tirei hoje, 30 de Junho de 2015:

São também duas luzinhas...