segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Herança genética - o reino das amebas

Um dos mitos que deve ter caído da cadeira do preconceito genético terá sido saber-se que a maior sequência genética não está entre os seres humanos.

Se olharmos para a herança genética que passa de progenitores para descendentes, a actual liderança destacada vai para uma Ameba, com menos de meio milímetro, de nome Polychaos dubium:
A ameba Polychaos dubium tem a maior sequência genética (encyclopedia of life)

O genoma desta ameba é 200 vezes superior ao dos humanos, e apesar do seu tamanho insignificante, tem algumas particularidades notáveis. Entre essas particularidades estão cristais de forma bipiramidal que guarda em si, ou uma notável capacidade de alterar a sua forma, criando protuberâncias - chamadas pseudopodes ou pseudo-pés. Esta ameba pode ser encontrada na Europa ou América do Norte, em locais de água doce, alimentando-se de algas...

Vemos aqui um claro exemplo de como a complexidade pode ter outras formas. Se o genoma do homem (3.2 Gb) cabe bem numa pequena Pen de 4 Gb, o desta senhora ameba precisa de um disco com mais de 500 Gb, para armazenar 670 Gb.

Tratando-se de um ser unicelular, não indicia haver um processo de meta-conhecimento.
É uma alternativa evolutiva em que parece não haver colaboração com outras células.
Enquanto no caso de animais multicelulares cada célula individual é apenas uma contributo para uma forma de vida agregada, de onde resulta um conhecimento superior  (através da interacção, confiança na dependência, que coloca decisões nos múltiplos neurónios de um cérebro), neste caso a solução é individual. 

Seres multicelulares
Mesmo do ponto de vista de seres multicelulares, o genoma humano fica bastante atrás de dois casos conhecidos, que têm genomas pelo menos 40 vezes superiores.
No caso de plantas, o recorde de 150 Gb está actualmente numa espécie de lírio, denominada Paris Japonica, encontrada com outros lírios no Monte Haku:
Paris Japonica, lírio com o maior genoma entre os multicelulares

Outros lírios mais vulgares, como a fritillaria assyriaca ou uva vulpis, chegam a ter 130 Gb, rivalizando com o maior genoma encontrado num animal vertebrado:
- Trata-se do Peixe Pulmonado Protopterus aethiopicus, com também 130 Gb, e que pode ser encontrado no Rio Nilo:
O peixe pulmonado tem o maior genoma entre os animais multicelulares

Sobre o lírio não conheço nada em especial que justifique tão pesada herança - talvez um nariz mais apurado consiga perceber alguma subtileza no aroma produzido. 
Já o peixe pulmonado é notável por conseguir respirar ar, estando numa categoria particular dos Tetrapodes - ou seja, animais com quatro patas, levando-o ao antecessor vertebrado de onde terão partido a maioria dos animais terrestres - quando saíram da água (época Devoniana), por conseguirem respirar directamente ar, podendo gerar os anfíbios.

Cadeia informativa
O genoma, ainda mal compreendido, pode ter informação redundante. Em seres microscópicos parece haver uma relação mais clara entre a sua complexidade e o comprimento da cadeia genética, no caso de seres macroscópicos isso não é tão evidente... até porque haverá diversos níveis de redundância.

Os seres multicelulares começam por ter 100 Mb e como vemos podem ser até 1500 vezes mais longos, enquanto os mais pequenos animais unicelulares começam nos 20 Mb e podem ser até 33 000 vezes mais longos no seu genoma. Ou seja, a variação entre os seres unicelulares é bem maior, permitindo a existência de animais com complexidade mais pequena.

Se o vertebrado com o maior genoma encontrado é um peixe que respira ar, o mais pequeno é um peixe vulgar - uma espécie de peixe-balão de aquário, chamado Tetraodon nigroviridis, e com 385 Mb tem o seu genoma com apenas um tamanho 9 vezes inferior ao dos humanos. Algumas formigas têm mesmo um genoma superior ao deste peixe (formiga-de-fogo).
Estas contas simples colocam os humanos num patamar pequeno ao nível do tamanho do genoma... são apenas 9 vezes maiores que o peixe-balão, e 40 vezes menores que o peixe pulmonado.

Se outras contas fossem necessárias, parece claro que a novidade humana não se deu pelo tamanho da herança genética. Os factores externos pesaram de sobremaneira na definição dos animais superiores, e o registo de herança genética foi reduzido a um nível muito pequeno - ninguém nasce ensinado - se isso contar para alguma coisa é para uma ameba!

Estamos habituados a que o esquema de interdependência celular tenha levado aos maiores organismos, e que os organismos unicelulares pouco mais sirvam do que acessórios... contudo os próprios organismos unicelulares podem organizar-se em colónias - como é o caso das bactérias, dos fungos, etc.
Não é completamente claro que estes seres separados não deixem de actuar em conjunto. Ainda que não se perceba nenhuma comunicação detectável entre si, como entre formigas, ou entre abelhas numa colmeia, há alguns aspectos em que denotam mais do que uma coordenação acidental.
Quando começamos a ver as coisas numa perspectiva de organismos desconexos, mas em que o propósito pode ser conexo e desconhecido, então estes seres unicelulares, que optaram por não depender de outras células, têm uma dimensão planetária cuja massa total é gigantesca e por reciprocidade oposta faz o conjunto de todos os outros seres parecer uma ameba ao pé de si!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Verdade ou Consequência

O chamado "verdade ou consequência" era um dos jogos mais parvos que se jogava na infância/ adolescência. Não creio que se possa considerar um jogo popular... as suas origens parecem remontar ao princípio do Séc. XVIII, enquadrando-se bem num certo treino de mentalidade cortesã doentia, onde se exercitava o espírito de grupo, ou melhor, de matilha.
Afinal, procurava-se ou a exposição de uma verdade embaraçosa ou o embaraço de uma actividade compensatória, tomando-se como equivalentes. Servia como uma espécie de treino para um mundo perverso sem alternativas agradáveis... O eventual interesse só resultaria de grande cumplicidade entre os promotores, ou remetendo para alvo de ridículo os novos convidados, externos ao grupo de interesse. Todas estas características são típicas de uma corte mordaz, cujo objecto é a própria corte, o galanteio, a sedução com os mais diversos atractivos fugazes.
Picasso - bacanal... por estranho que pareça, os quadros ilustrativos de festas, 
remetem normalmente para os devaneios mitológicos de Baco.

A burguesia dos Séc. XIX e XX, sendo seduzida pelo fausto aristocrata faria facilmente o papel ridículo de novos convidados, acabando por transmitir cedo aos seus petizes as perversidades que iriam experimentar... por sua vez, estes petizes, por via destes jogos, acabaram por difundir o processo à restante população.
Bom, mas este texto não é sobre as frustrações duma burguesia que julgou poder ser feliz com devaneios hedonistas dependentes dum privar privado. Afinal, o seu maior fascínio - o isolamento parcial (o grupo privado, no sentido elitista), esbarraria com o maior temor - o isolamento total (a rejeição por esse grupo). Tal como no jogo dos petizes, as mecânicas de grupo decidiriam entre o gozar e o ser gozado.

Este texto é sobre a verdade que pode haver na "consequência".

O encadeamento de factos, no sentido causa-efeito, é uma visão do observador limitado, circunscrito pela dimensão temporal. É um problema de modelação animal, já que uma previsão adequada actua no sentido de salvaguarda da sobrevivência - o animal melhor capaz de antecipar acontecimentos, mais probabilidade terá de os aproveitar em seu favor. As frases normalmente terminam aqui. É suposto entender-se o que é "em seu favor"... porém, raramente o próprio questiona os seus interesses. Habituou-se a saber quais são, e não indaga a origem, porque são esses, ou se fazem sentido.
Se o sujeito considerar que são os seus ímpetos irracionais, nem adianta procurar a origem - voga simplesmente num caos que não quer compreender. Se considerar que são os seus desejos racionais, tem que lhes procurar origem e fundamento... algo a que não basta o diz-que-disse dos outros. Aí está sujeito ao mesmo fado que qualquer desgraçado isolado. Não se estando a bater contra ninguém, a posição alheia é praticamente irrelevante, e só é interessante quando concorre na resolução do problema.

Os deuses eram crianças... A inimputabilidade de actos gera irresponsabilidade e inconsequência. Na mitologia greco-romana para evitar a constatação dessa acção inconsequente, mesmo Zeus sofria agruras em resultado das suas decisões. O Olimpo só não era uma brincadeira pouco digna de relevo, porque se introduziram limitações e imputabilidade aos deuses pelas suas acções. Sem essa penalização, a figura dos deuses pareceria a de crianças... e mesmo assim pouco se livravam duma imagem adolescente.

Sem a iminência de contrariedades, sem desconhecimento, o que nos motivaria à reflexão, ao pensamento profundo? O nosso carácter circunspecto, adulto, provém de um medo de consequências. A nossa responsabilidade resulta de uma associação entre as nossas acções e o seu eventual resultado. Essa responsabilidade será tanto maior quanto mais considerarmos que influenciamos o mundo que nos rodeia. Se a certa altura cada acto nosso pesasse de sobremaneira nesse contexto, tanto mais tomaríamos cuidado com todos os detalhes, tornando a vivência num fardo incomportável. Só a inimputabilidade compensa o acréscimo de responsabilidade... e por isso quanto maior é a potência responsável, mais tenta cuidar de ser inimputável. É nessa fase que começa a ser inconsequente, irresponsável, já que o resultado dos actos não parece pesar sobre si. Porém, uma coisa são as dimensões que antevemos, outras são as que nos escapam... e por isso a potência nunca parece ser suficientemente grande para garantir a inimputabilidade, bastando para isso haver o mais pequeno ser que escapa ao controlo total.

Todas estas noções caem na relação causa-efeito. Todas estas noções resultam de uma vivência do tempo como uma entidade ambígua, que permite previsibilidade nalguns actos, mas não deixa de trazer uma associada imprevisibilidade. A previsibilidade deu-nos um pensamento não caótico, e a imprevisibilidade deu-nos um pensamento interminável... a ausência de ambos os aspectos remeteria à loucura.

Qual foi a causa da fama de Hércules, senão o efeito que ela teve?
Perante trabalhos em que improvavelmente sobreviveria, a sua sobrevivência com sucesso ditou o registo.
Por isso, quando Héracles é elevado ao panteão de divindade, é pela improbabilidade do feito, como se o universo tivesse decidido o resultado antes dele acontecer. Isso só é atestado após os acontecimentos, é um privilégio decorativo dos poetas, pois os escritos não se sujeitam à ordem temporal.
O herói era antes de o ser, porque afinal era filho de Zeus... mas a paternidade divina só foi atestada após a vivência humana singular. Antes disso seria visto como um igual pelos outros.

Há associações entre acontecimentos que são convenientes, pois ao aproveitarem a ordem no mundo não-caótico servem a vivência futura pela previsão, e disso é feita a ciência. Bebendo no passado podemos prever uma parte do futuro... mas apenas uma parte dele. Sobre o imprevisível parece que nada se poderia dizer, mas não é assim - podemos compreender o imprevisível sem o prever. A previsão seria logicamente impossível, por definição, mas a compreensão não conhece limitação... e é pelo menos fácil compreender que o imprevisível nos é necessário.

A consequência vai mais além do que a ordem temporal vivenciada. Não é apenas um produto do passado, é um produto do conjunto - passado e futuro, que se revela no presente. Esse é um nexo que vai para além dos tempos, determina e revela a própria noção de tempo. Por isso, a verdade não é um assunto do passado, é também um assunto do futuro... e é essa verdade futura que faz surgir o passado como consequência. Do ponto de vista do pensador, há um tempo de raciocínio que é independente do tempo presenciado e a consequência é uma noção do passado para o futuro, na compreensão. Porém, libertando-se desse aspecto da compreensão do observador, a consequência não está presa a nenhuma ordem temporal. A existência de um passado que justifique o presente é um nexo necessário à própria existência, sob pena dela se manifestar como infundada pelo pensamento que a contempla. E é esse nexo de existência que remete o futuro como causa do passado. O passado não é suficiente para o nexo existencial, já que o passado poderia remeter para qualquer existência, ou até para a não-existência absoluta. Só depois de se cumprir no futuro completo é que a consciência despertou e renasceu para se contemplar, podendo então ver o futuro como um passado inconsciente. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

U

Se tivéssemos apenas uma parede para pintar, deixando como legado a gerações a milénios de distância, como aconteceu com as pinturas rupestres... o que desenharíamos?


... e o resto são detalhes.

Wise Up (do filme Magnolia, Aimee Mann)

It's not
What they thought
When they first began it
They got
What they want
Now they can hardly stand it though,
By now they know
It's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til they wise up

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Nebulosidades auditivas (3)

Acabado de sair há uma semana...
Reflektor, dos canadianos Arcade Fire (9 pm 9/9, Newfoundland, 2013)

Trapped in a prism, in a prism of light
Alone in the darkness, darkness of white
We fell in love, alone on a stage
In the reflective age

Entre la nuit, la nuit et l’aurore
Entre le royaume, des vivants et des morts
If this is heaven
I don't know what it’s for
If I can’t find you there
I don't care

I thought I found a way to enter
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)
I thought I found the connector
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)

Now, the signals we send, are deflected again
We're still connected, but are we even friends?
We fell in love when I was nineteen
And now we're staring at a screen

Entre la nuit, la nuit et l’aurore
Entre les voyants, les vivants et les morts
If this is heaven
I need something more
Just a place to be alone
Because you're my home

I thought I found a way to enter
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)
I thought I found the connector
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)

It’s just a reflection of a reflection
Of a reflection of a reflection
Will I see you on the other side?
We all got things to hide
It’s just a reflection of a reflection
Of a reflection of a reflection
Will I see you on the other side?
We all got things to hide

All right, let's go back
Our song escapes on little silver discs
Our love is plastic, we'll break it to bits
I want to break free, but will they break me?
Down, down, down
Don't mess around

I thought I found a way to enter
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)
I thought I found the connector
It’s just a Reflektor (It's just a Reflektor)

Thought you were praying to the resurrector
Turns out it was just a Reflektor (It’s just a Reflektor)
Thought you were praying to the resurrector
Turns out it was just a Reflektor (It’s just a Reflektor)
Thought you were praying to the resurrector
Turns out it was just a Reflektor (It’s just a Reflektor)

It’s a Reflektor
It’s just a Reflektor
Just a Reflektor
Will I see you on the other side?
It’s just a Reflektor
Will I see you on the other side?
We all got things to hide
It’s just a Reflektor
Will I see you on the other side?


..... já agora, em 8 de Setembro, houve um eclipse de Vénus feito pela Lua. Não tenho fotografias, mas encontrei esta, tirada próximo do momento da ocultação, no Brasil:
Eclipse de Vénus pela Lua em 2013 (foto daqui)

... mas é mais interessante uma foto de telescópio, obtida em Maio de 2010:
Eclipse de Vénus pela Lua em 2010 (dailymail.co.uk)
onde, certamente por "defeito da câmara", ficou um pontinho vermelho no meio da Lua!

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Senhores dos Passos na Lua

Desde há 44 anos...
(foto wikipedia)

... que foram feitos os passos para nos convencer desta pegada, na Lua.
Há quem diga que tal pegada só seria possível com humidade, uma humidade que não pode existir na Lua.
Ao andar na praia, sabemos que pegadas destas... só mesmo na areia molhada.
Mas, o que é que isso interessa, se a verdade difundida é propriedade de senhores dos passos lunares?

Seriam "grandes passos da humanidade" ou "grandes passos sem humidade"?...
Foi assim, durante os 4 anos da missão Apollo... depois faltou humidade e humildade para outros passos de humanidade... já lá vão 40 anos.

É claro, seguiu-se Marte, onde tivemos vários Rover a mandar imagens.
O que se notava é que faltava azul nas imagens... porque se o azul fosse corrigido nas fotos, começava a parecer-se muito com paisagens terrestres:


Imagem da NASA, Rover Oportunity, 2004, em Marte... Burns Cliff 

Primeiro, a imagem original. 
Depois os três canais habituais: vermelho, verde e azul.
Nota-se claramente uma falha de intensidade no azul, ao contrário dos outros!
Corrigindo isso (por exemplo: R-64, G-32, B+32) obtém-se a imagem de baixo 
(veja-se ao lado que o azul só foi aumentado um pouco).
Passa a haver um maior equilíbrio na nova imagem, repondo algum azul... 
... e a imagem parece agora muito terrestre!

Bom, mas já falámos extensamente deste assunto... e remeto para o texto anterior:
Hoje foi só para saudar os senhores da Lua, que comemoraram hoje os 44 anos dos passos.

sábado, 10 de agosto de 2013

Ante-revolução

O prefixo "anti" serve normalmente para designar oposição, "antagonismo". 
De forma semelhante, "ant" é também usado para designar o que é antigo... usamo-lo na palavra "antes",  "anterior", mas também na palavra "anta", e em muitos outros exemplos.
Normalmente, não damos muito relevo a eventuais significados na análise da língua, mas estão presentes em muitos e variados exemplos.
O prefixo "pre" também invoca um momento anterior, tal como "prever" será sinónimo de "antever", remetendo ambas para um "ver antes".
Este prefixo "pre" está ligado ao prefixo "re", passando à forma repetitiva. A palavra "ré" significa, por si só, uma parte traseira. No entanto, é como se o tempo tivesse decorrido, e há um voltar atrás, um "recuar". 
Quando escrevemos "prever" é diferente de "rever", porque no primeiro caso envolve uma "pre-visão" que fazemos, antes da ocorrência, e no segundo caso trata-se de uma "re-visão" do ocorrido.

Os anos são revoluções da Terra.
O termo astronómico "revolução" mantém o significado original - um regresso ao ponto de partida.
O termo social "revolução" perdeu esse significado, pelo menos na sua generalização popular.
No fim da evolução do ano, a Terra volta à mesma posição, e portanto as "primaveras", simbolizadas por movimentos sociais revolucionários, acabam por ser regressos a um ponto de partida. O movimento nasce numa primavera, com a promessa de um verão... "verão justiça", "verão liberdade", "verão igualdade", "verão que será tudo bom, etc.". 
Segue-se o outono em que as folhas onde foram escritas essas promessas caem por terra. Pelo que, prestes a cumprir-se o ciclo anual, vem a parte mais dolorosa dos anais, onde surge o frio do inverno, que parece um inferno. O inverno é "in"-"entre", "verno"-"povo, servos, escravos". E será essa massa que morre para renascer noutra forma, noutra "prima-vera", noutra "primeira verdade", que dará um novo "verão"...

A primavera surge assim para milhões de criaturas como a primeira, porque nunca conheceram outra... é assim que funciona a revolução terrestre, a repetição funciona como uma primeira vez, quando perdida, ou  está ausente a memória.

Encontrei uma gravura antiga, sobre as ruínas de Persépolis, que carrega um significado e beleza na pose dos leões... passeando sobre ruínas de uma civilização que tanto os caçava, como venerava.
Uma irónica visita de leões às ruínas de Persépolis (autor desconhecido)

A repetição é a força mais poderosa nos mecanismos universais... é de certa forma "a ordem por detrás do caos". Foi na repetição da revolução terrestre que se estabeleceram alguns mecanismos naturais... as plantas e animais aguardam as primaveras para induzirem nova repetição de processos de reprodução. 
E, afinal, a descendência dos seres pouco mais parece ser que uma repetição de si próprios. 
No entanto, esta repetição dá-se a diversos níveis. 
Há repetições atómicas, microscópicas, que decorrem a um nível temporal ínfimo, e depois há repetições que se manifestam mais demoradamente, como no caso da revolução terrestre. Individualmente, cada processo não parece passar de repetição... mas as ligeiras diferenças acabam por fazer toda a diferença.

No texto Abraçadabra, lembrámos a citação do filme de Visconti: 
- Para que tudo permaneça igual, é preciso que tudo mude...

Porém, nem tudo permanece igual, e ao fim das mudanças necessárias, a vida unicelular de bactérias levou a complexos seres... a plantas, a animais, ao domínio de grandes bestas, e até ao aparecimento humano.

É natural questionar a violência de todo o processo evolutivo, assim como é comum assumir natural a repetição do ciclo revolutivo. Um não se desliga do outro... há uma repetição que encaramos como ordem, mas depois há pequenas mudanças, fruto do "caos", que subvertendo a ordem acabam por trazer novidade à velha ordem.

Monte Semeru (ou Sumero), na Indonésia

A referência ao monte Semeru na Indonésia, é uma ilustração do monte Sumero, o monte central do universo na cosmologia budista.
Notamos aqui a entrada do prefixo "Su" para qualificativo superior do monte Mero pré-existente na cosmologia hindú. Esse mesmo "su" está também no prefixo de "sufixo", apontando para o posterior, ou topo, como na palavra "sumo", ou "superior", e no prefixo "sup" (e em "sub" por inversão).
Há um outro prefixo "Pos", que aponta também para o "após", até porque é habitual ver como "pós", ou como "pó", o que restará após a morte. Curiosamente, pó ou cinzas, remeteriam para um culto de cremação dos corpos em piras funerárias. Por outro lado, a palavra "funeral" remete-nos para um prefixo "fun" que está presente no "fundo", como num ritual de enterramento.
Não é fácil perceber se há apenas uma coincidência entre "Sumero" e "Sumério", já que se os sumérios seriam muito anteriores aos budistas, seriam posteriores aos hindús.

Estes são apenas alguns exemplos, a propósito da palavra "revolução" e algumas outras. O prefixo "pro" tem também um significado direccional, algo oposto a "pre". Na antevisão, o "pró" aparece como razão favorável, enquanto o "pré" aparece em contraponto, como requisito. No português, ter o "pró" como contracção de "para o", é significativo, e deve dar o mesmo sentido ao prefixo "prá". Curiosamente, indo ainda pelas contracções "pó" e "pá", remete-se ao destino no pó da cinza ou na pá da terra...
Ao contrário de "ré", sozinho o prefixo "ró" não tem uso aparente, mas "roda" ou "rolar", digamos que rolam nesse sentido de direcção natural.
Podemos ainda reparar que em "revolta" há a junção de "re" com "volta", onde o prefixo "vol" representa normalmente o regresso, como em "volver" ou "voltar", num rodar de 180º, face à direcção seguida. Assim, quando escrevemos "revolver" indicia essa acção de ir repetidamente num sentido e no oposto, remexendo para ver. Quando escrevemos "revoltar" deve pois significar uma acção que mistura direcções opostas, agora um remexer para estar...

Ao escrever, é fácil lembrar outras palavras, e uma delas é "escrever".
A "cré", uma espécie de gesso, era usada para escrever. É natural que o verbo "crer" se possa remeter à "cré", ao que estava escrito, que tinha "crédito"... e era assim mais fiável. Como registo, remete a um passado, e o "ré" de anterior, é apropriado. Portanto, o "cre" em "escrever" pode remeter a ver o escrito nessa "cré". Pode argumentar-se que há outros contra-exemplos "cretinos"... mas uma coisa não tem a ver com a outra, podem ter origem importada, ou aparecerem em interpretação... um "crescer" pode ser foneticamente um "crê ser", onde o "cre" surge já na interpretação do acreditar.

São vários os prefixos que se associam facilmente às proposições, como o "com", "de", "em", etc... por exemplo em "concorrer", "decorrer", "incorrer" (o "em" passa frequentemente a "in").
Assim, o "com", "con" ou "co" remete para uma companhia, um conjunto (o concorrer será entrar no conjunto da corrida), enquanto o "de" remete para uma pertença (o decorrer será estar dentro da corrida), e o "em" remete para uma entrada (o incorrer será entrar na corrida).
Por outro lado, o prefixo "des" significa uma oposição, papel que é desempenhado também pela proposição "a" (mas nem sempre...). Aqui, as formas "discorrer" ou "acorrer" não significam a priori uma oposição à corrida. O "acorrer" remete simplesmente a um ir "a correr" (tal como "socorrer", com o "su" superlativo), enquanto que o "discorrer" pode significar a oposição, no sentido em que se percebe o significado da corrida.
O som "des" significar cancelamento não deixa de levar ao carácter decimal da numeração, já que chegados a "dez" acabariam os dedos... de forma semelhante o prefixo "sim" ligaria ao cinco, pelo lado afirmativo. Uma "mão cheia", ou um "dá cá mais cinco"... apontam nesse sentido de positividade para o cinco.
As duas mãos abertas são ainda hoje um símbolo de paragem, como um certo "já chega".

Nas pinturas primitivas quando aparece uma só mão, poderia significar mais do que uma assinatura, mas sim uma concordância... enquanto que duas mãos poderiam significar um registo de oposição. Isto dependeria obviamente dos códigos, mas será instrutivo não tomar apenas as mãos como simples assinaturas...

Cave de las manos (Argentina, circa 10 000 a.C.)
As mãos presentes nas cavernas podem não significar meras assinaturas do passado...
... podem remeter para uma contagem de posições (as mãos a branco num sentido, a preto noutro)

Há aliás uma característica numérica nas línguas indo-europeias, que é conhecida... o "nove" parece ser sempre próximo de "novo" (neuf-neuf, neun-neu, ...), tal como "noite" estar foneticamente próxima de "oito" (nuit-huit, nacht-acht, ...).
As outras etimologias que estive a referir é claro que se adaptam especialmente ao português... e pouco interessa se batem certo ou não com alguma etimologia do latim, porque o assunto ultrapassa as formatações que se pretenderam fazer - interessa o que resultou do intencional e não intencional.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Abade e o hábito

Imagine-se que, ao passear por uma praia da Bretanha, nos deparamos com uma escultura destas:

- Restos de monumentos de civilização antiga, perdida?
Seria uma possibilidade... por perto encontramos outras esculturas igualmente estranhas:

Acontece que estas e outras esculturas na Praia de Rothéneuf são atribuídas a um padre:
vítima de acidente que o deixaria surdo e mudo (no registo municipal de 1894 de Langouet, é registada uma "dureza de ouvido"). Recolhe-se a uma praia de Rothéneuf, onde durante 13 anos vai fazer mais de 300 esculturas nos rochedos da praia.
 
O Abade Fouéré e algumas esculturas mais "naïves" nas rochas de Rothéneuf.

Portanto, toda a história é assim consistente. Temos um abade, que se isola e vai esculpir 300 obras no seu retiro. Essas obras são ainda hoje visíveis, excepto alguns totens e outras esculturas em madeira, que desaparecem em 1940 (não sei se antes ou depois da invasão alemã da França).

No entanto...
No entanto, esta situação levanta algumas questões interessantes.
Há outros casos semelhantes?... alguns que podemos ver listados aqui, em particular o Facteur Cheval, anterior a este, iniciado em 1879, e que pode ter inspirado a ideia.

Ou seja, para aqueles que vendem livros, enchendo os programas do "Canal História", dizendo que os trabalhos de maçonaria antiga eram algo só possível de fabricar com a ajuda de "civilizações extra-terrestres", os exemplos de realização individual são elucidativos de como essa ideia é exagerada e completamente dispensável... pode servir outros propósitos de alienação, com ideias alienígenas.

Efectuar grandes monumentos reside muito mais na vontade e determinação de os realizar, do que na capacidade e recursos técnicos ao alcance. Se há algo estranho, é não haver muito mais casos destes espalhados pelo mundo...

Bom, e como distinguir se se tratam de realizações recentes, ou mesmo de realizações antigas?
Na prática, sem registo histórico fiável, ou técnica fidedigna de datação, é um exercício de fé!
Podemos pensar numa história completamente diferente... qual?
- E se... e se o Abade Fouéré tivesse apenas esculpido apenas algumas das rochas, bonecos mais naïves, que contrastam claramente com outras esculturas de traço sofisticado?
 
... uma coisa são bonecos meio infantis (veja-se o desenho da casa), 
outra coisa são esculturas com alguma sofisticação.
Trata-se de obra do mesmo artista?

(fotos: waswoutch em tejiendoelmundo.wordpress.com)

Ou seja, será que a reclusão do Abade Fouéré não seria uma missão de despiste, com o propósito de evitar a completa destruição dos monumentos existentes na praia... a que ele juntou outras esculturas mais simples?

Acresce que a segunda imagem que aqui colocámos (parecendo a "velha da Serra da Estrela"), é uma pedra diferente, que teve de ser erguida para ser colocada ali... algo difícil de ser feito numa praia de calhaus, por uma só pessoa!

As esculturas em causa poderiam ter sido feitas em qualquer época, por qualquer escultor dotado, e não propriamente por um abade amador... talvez se tenha perdido o registo. 
Antes da menção ao Abade Fouéré, parece não haver muitas menções a Rothéneuf. 
Encontrei esta citação na Revue de Paris de 1841 (pág. 172), que fala de "esculturas e degraus gigantes feitos pela natureza", que se viam na entrada do forte :
Lorsque, du haut des remparts de Saint-Malo, l'œil suit, dans sa courbe régulière et gracieuse, le large ruban de sable qui tranche d'un côté sur le cordon d'écume, éternelle bordure de l'Océan, de l'autre sur la pâle verdure des miels, le regard se trouve arrêté par une masse de roches escarpées qui forment cap et s'avancent brusquement dans la mer. Le fort de Rotheneuf est perché, comme un nid d'aigle, sur l'extrême pointe de ce cap. Sa situation est telle que, vus de profil à une certaine distance, ses ouvrages avancés paraissent dépasser le bord et pendre, soutenus par une force inconnue, sur le gouffre qui mugit et tourmente incessamment leur base. Le côté du cap qui regarde la ville surplombe et forme comme un immense perron renversé, dont chaque marche serait un accident du roc, une saillie bizarrement découpée dans la pierre. Cet escalier géant, que nul être humain ne s'est sans doute avisé de descendre, a son dernier degré sur la plage, toute hérissée en cet endroit de rescifs aux pointes abruptes et dentelées. L'autre côté, qui domine la baie de Rotheneuf, descend par une pente, praticable il est vrai, mais bien rapide encore, jusque sur la grève. 
A referência não é muito significativa, e nada esclarece sobre a existência prévia de esculturas... também é natural que se tais referências existissem, elas não sejam do conhecimento público, dada a história oficial que tudo atribui ao Abade.
Neste caso, o Abade Fouéré fez o hábito...

terça-feira, 30 de julho de 2013

Propaganda

Poucos meses antes de morrer, Edgar Allan Poe, um ícone da literatura americana, publicou um dos seus poemas mais conhecidos:

Dream within a dream (Edgar Allan Poe, 1849)
Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow
- You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand
- How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
Este poema foi incluído numa canção dos Propaganda - uma banda alemã dos anos 80
Propaganda - Dream within a dream 

... e o tema de "sonhos dentro de sonhos" foi explorado no filme "Inception" ("A Origem") de Christopher Nolan, lançado há três anos, em 2010. 

A tradução para português de "inception" como "origem" parece estranha, mas a própria palavra inglesa teria um significado desligado de memórias, conforme se verifica neste dicionário, e tem de facto etimologia latina que liga a "origem", ou o que seria mais apropriado "começo" ou "iniciação". 
A ligação da palavra "inception" ao implante de memórias teve origem no filme de Nolan (talvez fizesse parte de alguma "iniciação" do realizador noutras "andanças").

Tal como as memórias no filme, o termo "implantou-se", e hoje é usado em ciência... conforme se pode ver na mais recente pesquisa de Tonegawa (Nobel de Medicina, 1987):

(artigo na semana passada no Guardian, e no Público)

Talvez a primeira falsa memória em humanos seja a própria palavra "incepção"... pois dentro de alguns anos ninguém suspeitará que o termo nem sequer se aplicava a memórias, e só os mais curiosos encontrarão a "origem" da etimologia. Há "malta" que gosta de fazer piadas de puro malte connosco...

Adiante... o que liga estes temas? 
Várias coisas, apesar de um aparecer num poema do Séc. XIX, recuperado numa canção dos anos 80, outro num filme de há 3 anos, e outro numa investigação científica publicada na semana passada.
A principal razão para escrever este texto são os "Propaganda" - a canção... que ainda gosto de ouvir repetidamente, nada mais diz que o poema, e o poema também será algo ambíguo no seu propósito.

O poema de Edgar Allan Poe surge no contexto da filosofia idealista alemã e o tema da "realidade dos sonhos", ou "da realidade ser um sonho", foi algo que teve a sua repiscagem filosófica nessa época, mas que remete aos primevos pensadores gregos ou à tradição asceta indiana. 
Falar-se em "sonho dentro do sonho", em vez de "sonho", seria uma eventual novidade no poema de Poe... e no filme de Nolan vai chegar-se ao ponto de encadear mais uns níveis de "sonhos dentro de sonhos". 
Quem já teve a experiência de se beliscar num sonho, para acordar, e ao acordar continuar afinal a sonhar? Já me aconteceu, e isso não tem especial importância, mostra apenas como a nossa noção de realidade se adapta apenas ao presente, à percepção e classificação de memórias no presente.

Porém, há um ponto importantíssimo, e que não quero deixar de mencionar, sob pena de me esquecer de fazê-lo noutra ocasião... Todo o contexto pode ser modificado, e sendo colocados perante uma poderosa ilusão, há algo que não muda - as nossas convicções mais profundas. Quando bem cimentadas no "ser" têm a força de recusar e eclipsar todo um cenário inconsistente, remetendo-o a uma memória de um sonho. Existimos num contexto porque aceitamos a sua lógica, o resto é uma luta entre a lógica que temos e uma "lógica externa" que se quer impor, condicionando tudo o que nos rodeia. Se a nossa lógica tiver uma determinação e fundamentação irrevogável, tudo o resto colapsa, como um castelo de cartas... (aqui aparecem aqueles avisos "... não tente isto em casa!"). 
Porque, quando foi aberta a "Caixa de Pandora", o gigantesco caos ficou sempre a um pequeno passo de se impor, e o passado e o futuro mostrarão que só a resolução e determinação permitiram o delinear da única ordem possível, em que existissem seres não triviais. A única coisa que obsta a que um caos faça sentido é uma mente que o recuse consistentemente... Afinal, mentes que aceitassem ilusões e fabricações convidariam à entrada de cenários e realidades alternativas, que apenas teriam rumado a um caos perdido numa possibilidade inconsistente. Se Gaia exigiu a sua manifestação, digamos que Úrano viu-se obrigado a enquadrar essa manifestação na única malha (ou Maia) retorcida que aceitaria uma lógica universal consistente. Sendo isto alegórico, é também literal. Num romance queirosiano, isto corresponderia a uma família em que o avô educou a neta de forma a que um seu bisneto fosse um referencial de estabilidade no meio da disfuncionalidade familiar... mas com uma adição ao estilo de Poe, o espírito do avô tentaria ocupar o lugar do bisneto, e falharia na tentativa, porque afinal o seu sucesso educativo eliminaria o espaço possível para aberrações - digamos, uma vingança da avó!

No filme "Inception", para além da questão de "sonhos dentro de sonhos", aparece a questão de implantação de "falsas" memórias. Nesse filme abusa-se do significado de "sonho", porque se os personagens sabem que estão dentro de uma realidade fictícia, então não é um sonho. Num sonho vulgar, se a pessoa se apercebe que está a sonhar é porque acordou... Por outro lado, a ideia de sonho partilhado por várias pessoas (através de um "transpod") é algo que remete mais para uma ficção de realidade virtual. Assim, a única coisa que liga o filme aos sonhos é a forma de produzir a realidade virtual, que não é tecnológica, resulta de domínio cerebral do sonho. Alternativamente encontramos o filme "eXistenZ" de Cronenberg, que explorava um enredo similar, mas no contexto de percepção alterada por "vídeo-jogos futuristas":

Bom, é no contexto semi-científico, que liga a fabricação de sonhos ao cérebro, que se visou o implante de falsas "memórias" em ratinhos. Coloco "memória" entre aspas, porque afinal se Tonegawa mostrou alguma coisa, foi uma associação de estímulos. Como se alguém que tivesse um fígado susceptível a sumo de laranja, seria natural que a mesma reacção se verificasse no transplantado... ainda que o novo dono não soubesse dessa susceptibilidade. Assim, o cérebro dos ratinhos sujeitos a um estímulo de neurónios que ligava a um choque eléctrico é natural que tivesse processado a mesma reacção imediata.
Daí até falar-se em "memórias"... vai aquele passo que dá muito jeito para financiamento de projectos e investigação, muito jeito para o prestígio do cientista, mas que tem menos a ver com ciência. Aliás, "reacções imediatas" nada têm a ver com memórias, são simples estímulos directos, mecânicos, tal como o braço recolhe perante uma chapa quente... nem sequer será o mesmo do que uma reacção pavloviana.

Podemos falar dos limites éticos, quer na utilização de animais para experiências aberrantes, quer no propósito de estudar a implantação de memórias em cérebros animais... sabe-se lá com que propósito futuro!
A Caixa de Pandora está aberta e convidam-se os gatos a este tipo de curiosidades. Curiosamente, os próprios cientistas comportam-se aqui como gatinhos facilmente manipuláveis com os estímulos do reconhecimento e prestígio comunitário. Para isso basta uma máquina poderosa, a que se chamou "Propaganda", essa sim uma verdadeira máquina implantadora de associações que visa "brincar" com a nossa memória e raciocínio:
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P-Machinery - Propaganda

Motor - power - force - motion - drive - motor - force - motion - drive 
Motor - force - motion - drive - power - force - motion - drive 
- Propaganda -
On joyless lanes we walk in lines - a calm but steady flow.
Accompanied by loud commands - our strength is running low.
Another hope feeds another dream - another truth - installed by the machine.
A secret wish - the marrying of lies. Today comes true what common sense denies.
Rotating wheels are destiny - in flame the city lies.
Machines call out for followers far out into the night. The calls of the machines drowning in the steam.
Another hope feeds another dream - another truth - installed by the machine.
A secret wish - the marrying of lies. Today comes true what common sense denies.
The calls of the machines drowning in the steam.
On joyless lanes we walk in lines - a calm but steady flow. Our strength is running low.
Another hope - another dream - another truth - installed by the machine 
- installed by the machine.

Quando Orwell lança a data 1984 para a implantação de um mundo distópico, estaria a referir-se a uma vitória do sistema soviético? 
A Apple é lançada em 1984, e Steve Jobs vê-se na obrigação de esclarecer que o propósito da companhia seria contra o mundo distópico centralizador de informação... e, no entanto, a Apple distinguiu-se da Microsoft por pretender centralizar a produção de conteúdos.
No início dos anos 80 assiste-se a uma "explosão musical", que deixou marcas para essa geração... as músicas eram apelativas, e quanto às letras? Que mensagens procuravam passar?
Seria inocente o tema True dos "Spandau Ballet", quando o ballet que se passava na Prisão de Spandau era ter apenas um prisioneiro, Rudolf Hess, incomunicável, o nazi que tentara negociar a paz em 1941... Acresce a polémica que Bernard Sumner dos "New Order", teria afirmado "You all forgot Rudolf Hess", quando acusaram a banda de promover o nazismo... 
Isto serve apenas para referir que, no meio musical não imperava apenas o diletantismo, e que houve uma tentativa de passar mensagens para a geração mais nova.

Que "casamento de mentiras" invocavam aqui os Propaganda, numa altura em que Gorbashov iniciaria a ascenção que o levaria a introduzir a Perestroika e a queda do muro? Que "máquinas" instalariam uma nova esperança, um novo sonho, uma nova verdade... afinal não sucederia à PeresTroika uma Troika que se iria impor na nova ordem europeia, arrumada a questão da queda do Muro de Berlim?
Afinal, a ordem para soltar os "monstros financeiros" deu-se exactamente no início dos anos 80, por Thatcher e Reagan, fazendo florescer os "yuppies" da finança (designação por contraponto aos "hippies"). Esse mundo da finança foi desregulado com o objectivo de criar desequilíbrios económicos profundos, que levaram ao colapso das transacções da URSS. Só que os "monstros financeiros" continuaram soltos depois disso, como bem sabemos... e tomaram conta descaradamente das máquinas dos Estados soberanos.
Se na altura destas músicas dos "Propaganda" antever uma sociedade distópica, em que o poder estaria centralizado em poucos, e em que os cidadãos formariam filas impotentemente, corresponderia ver uma vitória do sistema comunista, o "casamento de mentiras" tinha uma ideia diferente.
A implantação de memórias e vontades seria orquestrada pela propaganda, a vitória do sistema distópico seria feita pela capitalismo e não pelo comunismo... porque num caso os dirigentes ficam invisíveis, enquanto que no outro caso eram facilmente identificáveis.
Tudo foi preparado para a queda do muro em 1989, e os esbirros dos pentagramas contavam com algo que não veio a suceder... porque eles têm a agenda marcada, que cumprem escrupulosamente, mas esquecem que está desactualizada, porque o "observador" que habita as suas mentes dedicadas não pode sair... devido a compromissos com a consistência da realidade, que não conseguiu ultrapassar.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Eva, Evo e Ovo (1)

Começamos com um interessante gráfico com a árvore de evolução filogenética :
Árvore evolucionária ou filogenética - com datações por registo fóssil (L. Eisenberg, 2008, daqui)

Há uma grande diferença entre evolução e a teoria darwinista (de selecção natural) que se desenvolveu.
Para efeitos da evolução animal humana nem precisamos de registos fósseis, ela torna-se praticamente evidente no traço comum do desenvolvimento embrionário, começando pelo ovo, pela mórula, blástula e gástrula, comuns a todos os animais, e que depois mantém algumas semelhanças visíveis mesmo em fases posteriores:
Comparação do desenvolvimento embrionário 
(peixe, salamandra, tartaruga, pinto, coelho, homem)  [daqui]

A evolução está presente desde a junção do ovo no útero materno, na sequência de divisões celulares que formam o embrião. A recuperação de fósseis, e as árvores evolucionárias, ou o mais recente projecto de sequenciação do genoma, apenas confirmam um aparente percurso semelhante entre o homem e restantes espécies animais. A parte genética vai mais longe, colocando ancestralidade numa mesma célula eucariota, ou ligando até todos os organismos vivos a uma bactéria primeva (LUA - last universal ancestor).

"Evo" prefixo de "evolução" remete-nos a uma primordial "Eva"... uma vez ateado o fogo da vida, num primevo organismo, a chama não mais parou a propagação, recordando no ovo a sua forma ancestral.
O Ovo reflecte uma ancestral célula Eva, foco da chama propagada por Evo... isto é, pela evolução.

O texto poderia agora complicar-se em múltiplas direcções.
Primeira... em que célula está o organismo?
Podemos tentar seguir a célula que se irá dividir para formar o cérebro, mas a questão é que o próprio cérebro não será mais que um aglomerado de células individualizadas, por exemplo neurónios. Para além disso, sabemos que muitos neurónios, e restantes células podem desaparecer por completo e isso não afectará a individualidade do organismo superior.
Analise-se o que acabamos de dizer... "organismo superior". Há um paradigma complicado aqui.
Individualmente cada célula não faz a mais pálida ideia do que é esse organismo superior.
O organismo superior define-se pela comunicação e interacção das células individuais, mas cada uma delas "não saberá" como contribui para a estrutura superior.

Já usei aqui uma comparação com a estrutura de um corpo social. Uma sociedade pode ser vista como uma estrutura em que cada indivíduo é uma célula. Os nomes acabam por revelar essa influência... fala-se em corpos sociais, órgãos de gestão, como se fosse uma réplica de funcionamento de um organismo vivo. Porém, se isso poderia fazer algum sentido, não é o habitual, pois a individualidade sobrepõe-se à ideia de corpo. Assim, o funcionamento do corpo social tende a ser uma ramificação de poderes individuais.
Curiosamente, se há uma leitura do conjunto, mais uma vez ela parece escapar aos indivíduos, entretidos nas suas interacções com objectivos particulares...

Passarei a algo mais genérico, e de consequências muito mais profundas:
- Numa estrutura não estão no mesmo nível os nodos e as suas ligações.
Ou mais intuitivamente, uma coisa são os pilares, outra coisa é a ponte que se forma entre eles.
Pode argumentar-se que as ligações não existem sem os nodos, ou que a ponte não tem sustentação sem os pilares... mas é um profundo erro "materialista"!

Os organismos complexos resultam da interacção de muitos biliões de células, e algumas das formas de vida nem se considera que pertencem ao próprio - caso das bactérias na flora intestinal.
Grande parte da análise científica reduz todos os animais a potenciais montes-de-esterco, pois nada mais restaria do que uma massa fertilizante, alimento para nova vida.
Porém, o organismo complexo é muito mais do que a soma da acção das células, resulta das pontes que se estabelecem entre elas... o que está num nível diferente do individualismo celular.

Por outro lado, os indivíduos têm as suas ambições isoladas, mas ao longo dos tempos emerge a tal evolução que negligencia os indivíduos privilegiando a informação genética propagada pela espécie. Tal como as células se ligam para formar corpos, pela morte programada dos próprios corpos pouco parece mais interessar do que a simples informação genética, transportada pelas "sementes". O grande mastodonte, o belo pavão, ou o esperto macaco, não passariam afinais de variações de DNA, ou ainda, guardar-se-iam apenas em grandes números codificados em base 4 (A, C, G, T).

O indivíduo não está em nenhuma célula isolada... apesar de resultar de divisões sucessivas, perdeu-se a ideia de "célula original"... não há nenhuma "célula rainha"! As células têm diferenças, funções diferentes, mas trabalham na lógica do mesmo organismo. No final da formação do embrião, as divisões levam umas para os pés, outras para a cabeça, mas carregam o mesmo material genético.
Por isso, ao contrário da comparação que se pretendeu fazer com os corpos sociais, não se sente nenhuma individualização, para uma célula ser rainha, ou para umas tantas serem mais nobres que outras.
Naturalmente cada uma assume o seu papel dentro do organismo, e se há rebelião celular, trata-se de uma manifestação cancerígena... curiosamente de células que, parecendo ser individualmente imortais, vão replicar-se sem limites invadindo a estrutura original. Acabam por morrer por colapso da estrutura que invadiram na lógica do interesse da célula individual, que é cega relativamente ao organismo conjunto. A sua aparente imortalidade é afinal uma morte precipitada pela ausência de cognição da célula individual para além de si mesma. Quando se dá a vitória dessa lógica individual no organismo, dá-se imediatamente a sua derrota, pela falência da própria estrutura.

Como disse, este tema poderia seguir múltiplas direcções... se escrevesse sem restrições, acho que tão depressa não pararia, tantos seriam os pontos importantes. Para já, invoco apenas mais uma direcção.

Segunda...  que ligações há entre as células?
Conforme vemos os organismos, as células ligam-se fisicamente umas às outras, por proximidade espacial... mas não só! As células de diferentes organismos nem sempre são benvindas, como ocorre em problemas imunitários resultantes dos transplantes. Aliás, as células mais selectas em termos de recusa de "colagens externas" serão as células da pele (os transplantes de pele usam-se até que a outra seja rejeitada).
Porém, esse é apenas um mecanismo de ligação.
Nesta lógica de corpo, as células têm um sucesso individual limitado, o que interessa será o conjunto.
Esta ideia passou para animais que usam estruturas sociais, como o caso das abelhas.
Ao que parece há vários elementos do DNA das abelhas que mostram mais semelhanças com vertebrados (mamíferos, humanos) do que com insectos... talvez reflectindo o aspecto socializante da espécie.
A lógica das obreiras trabalharem para a preservação do DNA da rainha foi uma filosofia aristocrata humana, tipicamente medieval. Do ponto de vista puramente animal é algo que faz sentido... se a ideia é preservar o código genético, e o povo se revê geneticamente no líder, então trata-se de uma forma de eugenia.

Porém, é preciso ser objectivo no que está em questão... o sucesso das espécies acabou por reflectir uma adequação entre a acção-cognição dos indivíduos num certo contexto. Se havia um jogo, quem ditava uma boa parte das regras era a própria Terra, pelas circunstâncias particulares do planeta. Uma outra grande parte seria ditada pela imensidão de pequenos organismos capazes de afectar o planeta a nível global... as bactérias (incluindo as arquéias) e até os vírus.
Estarão estes micro-organismos descoordenados? Afinal, se houve bactérias que passaram a células e se organizaram em corpos enormes, outras houve que mantiveram a velha tradição unicelular. Apesar dos muitos antibióticos, as bactérias são metade da massa de vida terrestre, e 25 vezes superior à massa dos animais... sendo usadas pelos próprios animais na sua flora intestinal.
Não se pode falar em descoordenação, porque até o seu ritmo de reprodução tem alguma auto-regulação... sob pena de invadirem em pouco tempo todo o espaço terrestre, sendo diversificadas na forma de obter energia, usando directamente a luz nalguns casos (halobactérias). Ou seja, se houver uma coordenação menos previsível de bactérias, estas podem alterar as condições de vida no planeta em pouco tempo, até pelo papel que desempenham em ciclos do oxigénio, nitrogénio ou carbono. Aliás, as próprias mitocôndrias, fonte de energia em todas as células animais, podem ser vistas como "bactérias domesticadas" que controlam a própria longevidade celular.
Por isso, não será de negligenciar uma massa de vida que é metade da existente... e que mantém o ciclo da vida nalgum equilíbrio programado, que vai para além do interesse individual do próprio organismo.

No processo evolutivo que levou à constituição de organismos complexos cuja cognição se ajustou a diversas condicionantes, inclusivamente à competição entre si. Portanto a cognição evoluiu não apenas para a adequação aos processos físicos básicos... Nessa primeira fase a sobrevivência não envolveria a ameaça de outros organismos. Os animais serão os primeiros a desenvolver a capacidade de aniquilar os competidores, numa segunda fase, desenvolvendo um sistema cognitivo neuronal. Mesmo assim os animais reduziriam essa competição contra os diferentes, de outra espécie. A terceira fase, mais letal, ocorrerá com os humanos, elevando a fasquia, ao ponto se aniquilarem uns aos outros, dentro da mesma espécie.
Bom, e do ponto de vista cognitivo, o que exigiria isto?
- Nada mais, nada menos, do que se verem a si próprios como inimigos.
A cognição passava para a fasquia seguinte - exigia uma reflexão, um ver no semelhante o próprio inimigo, e ao mesmo tempo exigiria o compreender-se a si próprio.
Portanto há um claro nexo nestas três fases:
(i) Seres vivos que se alimentam de nutrientes - a cognição será mais uma programação genética, visando interagir e entender os processos físicos. Não exigia entenderem outros seres vivos.
(ii) Animais - alimentam-se de seres vivos de outras espécies - a cognição evolui contra outras cognições+acções de outras espécies. Precisam de entender outros seres vivos, matando-os para sobrevivência, mas foi evitada a aniquilação dentro da própria espécie.
(iii) Humanos - a cognição teve que evoluir ainda mais, já que o mais bem sucedido entre os animais passaria a ter inimigos letais agora dentro da sua própria espécie... o humano era inimigo de si próprio, o humano tinha que se conhecer a si próprio, para conhecer os seus semelhantes.

Isto tem o aspecto dramático de ser a própria violência humana contra os semelhantes que vai despoletar a sua inteligência, porque a necessidade de modelar o comportamento de outros humanos implicaria pensar naquilo que o outro iria fazer na sua situação. Obrigaria a olhar-se a si mesmo, para poder prever a acção dos outros que o ameaçavam.

Bom, dir-se-ia que falta uma quarta fase, uma vez completado o olhar em si mesmo... ou seja, o olhar acima de si, olhar o desconhecido - ver para além dos seus olhos, ver um universo para além do que lhe é literalmente apresentado. Isso corresponde a desenvolver nova percepção... porque se há novo teste, ele será claro - o desconhecido. A imprevisibilidade apresenta-se sem se apresentar, e tem que ser detectada nas entrelinhas, e resolvida, antes que comprometa a sobrevivência dos próprios... isto é claro, se resistirem a não se auto-aniquilarem.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Panoramio (1)

O serviço do Google Maps tem associado fotos do Panoramio, onde muitos disponibilizam fotos tiradas dos diversos locais. Individualmente não custa muito, e antes que as coisas desapareçam, ou se estraguem, uma foto pode ser importante para o registo colectivo, que doutra forma está cheio de todos os empecilhos e burocracias típicas do património... por causa das "coisas".

Compilar e interpretar o muito que já há é uma tarefa imensa, que cheguei a pensar fazer. 
Porém, como me deixei disso, ficam aqui algumas das fotos que me despertaram alguma atenção.
Não vou comentar com detalhe, para não demorar muito, nalguns casos as imagens são esclarecedoras do muito património abandonado por Portugal. 
Os créditos vão todos para os fotógrafos que decidiram partilhar o que viram, e haverá link directo em cada foto.

Começo por algumas fotos de pontes. A minha ideia inicial era pegar num mapa antigo do Álvares Seco, e procurar associar cada ponte lá marcada com uma foto do que resta. Pelo menos sabia-se que existiam já no Séc. XVI... mas enfim isso seria uma tarefa gigantesca.
Ninguém se apercebe bem do imenso património de pontes antigas, que não me parece ser assim tão frequente encontrar na Europa central.

Já se sabe... todas as pontes portuguesas com aspecto antigo ou são romanas ou medievais - e parece ser um bocado ao gosto do freguês classificador. 
Creio que o "grande critério erudito" é o seguinte: 
- se a ponte se encontra numa estrada romana, é romana, 
- se está noutra via é medieval.
Tudo o resto não interessa, e esta "erudição" facilita a vida de todo o estudioso...

Bom, acontece que as vias romanas poderiam ser definidas justamente para aproveitar pontes já existentes, e como a arquitectura de algumas tem muito pouco de "romano", é de suspeitar que sejam mais antigas. Também nada invalida que em milhares de anos, a ponte tenha sido feita em qualquer época, com o engenho de alguns construtores locais, umas melhores que outras.

Pelo link da wikipedia parece estar classificada como "romana"
... parece ter-se os romanos em má conta, pode ser bastante anterior,

Ponte medieval(?) (Escorregadia, Vascoveiro, Pinhel)
Portanto não haveria estrada romana por aqui? 
Tem um aspecto simples e sofisticado... podia ser romana.
O rio aparece seco... já passou muito tempo do seu curso por ali?

Parece seguir por uma via romana, e parece ser romana.

O autor colocou medieval, eu achei que até poderia ser... mas depois
seguindo o link da wikipedia diz-se que está numa via romana, e é romana!

Outra Ponte perto de Vimioso (Vimioso, Bragança)
... parece ser medieval (mesmo) e a reconstrução do arco mais recente.

Ponte "gótica" no rio Maças (Argozelo, Vimioso)
... talvez seja dita medieval gótica pela forma bicuda do arco (e pode ser)!

... parece ser ponte medieval, esperemos não estar em risco pela barragem.

... parece ser atribuída como ponte romana pela junta de freguesia
(parece-nos ser muito mais recente)

Ponte romana (Escalhão, Figueira de Castelo Rodrigo)
... parece ser uma ponte romana, nada mais a dizer.

... parece ser construção romana.

Ponte da Cabreira (Cabreira, Almeida, Guarda)
... parece ser dada como ponte romana, mas é de suspeitar ser bem anterior!
(ver ainda o interessante "barroco do sangue")

... aparentemente muito recente, do reinado de D. Maria II (c. 1850).

Ponte romana(?) (Penha Garcia, Castelo Branco)
... talvez seja mesmo romana.

Ponte de "outras eras" (Idanha-a-Velha)
... parece um bom título do autor, 
tratando-se de pedras soltas para passagem pedonal.


Como é óbvio, são poucas, porque há mesmo muitas... comecei pelos distritos do interior, e mesmo assim faltam bastantes, para além das que nem sequer têm fotos no Panoramio. Um problema típico é ainda que a fotografia pode estar colocada num sítio errado, por simples confusão ou descuido de detalhe, o que ainda baralha mais as coisas.