sexta-feira, 29 de julho de 2011

Naica e os cristais gigantes

Na mina de Naica, no meio de um deserto mexicano, zona de Chihuahua, foi encontrada em Abril de 2000 uma surpreendente caverna, a uma profundidade de 350 metros.
Naica project (imagem) Discovery channel

O notável é a dimensão dos cristais que se produziram... estamos habituados a ver formações de cristais deste tipo, mas em escalas 10 vezes menores. Aqui os cristais surgem como autênticas colunas que atravessam a caverna. Quando vi estas imagens pensei que se tratava de manipulação fotográfica (... já começamos a pensar assim, de forma naturalmente desconfiada), porém o assunto tem merecido a devida atenção científica, como podemos ver na reportagem do Discovery Channel:

Reportagem da National Geographic (vídeo anterior inactivo)

Numa região "Chihuahua" é um pouco irónico encontrar estruturas gigantescas.
Porém esta descoberta não é propriamente um "grande mistério", só o será em termos da escala, e deveria levar os geólogos a reverem algumas das convicções enraizadas. Contudo, é até engraçado ver na sequência de vídeos a equipa de especialistas a tentar produzir uma data... o esquema é o "mesmo de sempre", ver o crescimento hoje, durante um ano, e depois dividir pelo tamanho dos cristais! É assim que se faz ciência... o que se mede hoje e aqui serve para toda a eternidade e mais além! Não é que seja um exercício inútil, e pode dar uma ideia... o problema é que passados uns anos esta "primeira aproximação" já serve para quase tudo! A maior piada que daí resultou são as medições astrofísicas e as conjecturas sobre o "início do universo"...

O único ponto aqui, para além de apontar as notáveis imagens, será enfatizar que estas estruturas se encontraram a 350 metros do solo... Nem sequer estamos a explorar a 1 Km no interior da Terra, e já estamos a encontrar estruturas menos vulgares - que parecem doutros tempos, digamos de um tempo de gigantes. A crosta é suposto ser bastante maior, podendo atingir perto de 100 Km... pelo que há uma "infinidade" de desconhecimento interno, especialmente se notarmos que nem a superfície (por exemplo, as profundezas marítimas) estão bem identificadas. O modelo mais simplificado, que remonta a Rayleigh, já foi revisto para comportar uma divisão entre litosfera e astenosfera, pelas inconsistências das medições sismográficas do terramoto de 1960 no Chile.

Não será novidade dizer que bastarão 100 metros de entulho em cima da nossa "avançadissima" civilização, para que ninguém suspeitasse que aqui alguma vez tinha existido alguma coisa! No sentido contrário, talvez se escavássemos a algumas centenas de metros aparecessem mais grandes surpresas, de outros tempos... 
Bom, e quem pode fazer perfurações na Terra? 
As indústrias petrolíferas... e as perfurações vão continuando a ser necessárias, porque o petróleo continua a não ser substituído por fontes alternativas de energia...

sábado, 23 de julho de 2011

O leão de Techialoyan

Os códigos de Techialoyan são documentos aztecas tardios (entre 1685-1700) que parecem reflectir registos de propriedade, que estavam a tentar ser recuperados. Para além de usarem já um alfabeto latinizado, são de uma produção independente, e mantêm figuras muito interessantes.
Uma dessas figuras é o Leão
Qual o contacto que os Aztecas tinham com esse animal, a ponto de o incluírem nestes textos?
Tinham os espanhóis levado leões, que impressionaram os Aztecas? Havia leões no México?
Um coração e um leão... coração de leão, são invocações estranhas, que dificilmente se justificam numa produção independente de carácter local. 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Toy Story III

Uma das secretas vantagens da paternidade é a possibilidade de rever com outros olhos as histórias que nos encantaram na infância. Quando ao príncipe Filipe são dadas a Espada da Verdade e o Escudo da Virtude, para combater os esbirros do Dragão (uma encarnação da Maléfica - a fada negra despeitada por não ter sido convidada para o nascimento de Aurora), essas designações pesam de uma forma diferente, e as palavras carregam um significado. 

Para além desses clássicos, que não ficaram clássicos fortuitamente, aparecem sérias surpresas.
Foi o caso de Toy Story 3, que estreou há um ano.

É difícil encontrar tantas imagens de história enredadas numa estória, e basta não recusar vê-las.
Estes personagens vivem no mundo criado pelo autor das estórias, um miúdo Andy, que cresce e acaba por relegá-los para uma arca. Por outro lado, têm personalidade própria focada no objectivo de reconquistar a sua atenção... ou alternativamente a atenção de novas crianças.

Essa alternativa, entre a fidelidade ao dono original, ou a aceitação de um infantário, com um mundo de brinquedos tiranizado - ao género Big-Brother - por um urso (Lotso), levará o conjunto de personagens numa diáspora para encontrar Andy. Alguns detalhes são deliciosos... perante o nome ANDY no sapato, um dos personagens já não sabe se deveria ler ao contrário YDNA, enquanto nome do seu senhor. 
Conforme já abordámos, houve uma inversão no sentido da escrita do alfabeto, cujas origens e razões se perdem nas estórias da História, e quanto à diáspora de um povo na procura do Senhor, acho que também não é preciso elucidar mais.

E se o herói persistente que não desiste de procurar e acreditar em Andy é o cowboy americano, há um sentimento ambivalente que o une aos outros personagens. Um dos quais é uma peculiar batata caolha, vidente porque um dos olhos ficou na casa de Andy... confirmando assim que Andy não os abandonou.
Um aspecto curioso é o desvendar da história do urso Lotso (uma vez mais um problema de rejeição...), que permitirá ao grupo ter o apoio do Bebezão, e livrar-se do esquema prisional Big-Brother que imperava no infantário Sunnyside. E se Lotso parece redimir-se, será uma sua nova traição que colocará todo o grupo perante um destino funesto numa fornaça de lixo... de onde vêm a ser salvos pelos companheiros extraterrestres! 

De forma divertida, apelativa para a generalidade das crianças, o filme é muito aconselhável a adultos, explicitando o perigo de uma sociedade dominada por um sistema central corrompido com senhores e escravos. Mas não só... faz diversas referências históricas implícitas, ao mesmo tempo que aborda de forma filosófica original uma relação transcendente entre o sentido da vida dos personagens e a sua dependência do autor das histórias. 
Obviamente, este filme mereceu bem o Oscar recebido!

domingo, 10 de julho de 2011

Kazan e Kursk

Poucos anos após a Restauração da Independência, em 1646, D. João IV institui a Imaculada Conceição como padroeira nacional. O facto tem especial interesse pois anteriormente, na primeira dinastia, seria invocado Sant'Iago, e na segunda dinastia invocava-se São Jorge em batalha - sendo estes os padroeiros nacionais anteriores. 
Esta mudança invocava uma posição católica clara, já que um dos pontos de maior controvérsia entre protestantes e católicos era a tendência politeísta do catolicismo, quando o culto mariano e o culto dos santos começou a revelar um panteão divino. Para vermos a adesão popular ao culto mariano basta reparar que não tem equivalente a manifestação de festas, igrejas, e outras invocações a Nª Senhora, implantadas no catolicismo ibérico.
A posição portuguesa é complicada pois revela uma dualidade na conjuntura de Vestfália. Portugal independente procurava algum apoio da coligação que tinha esmagado os Habsburgos e o Sacro-Império, mas por outro lado iria acentuar a sua faceta católica ligada à Igreja Romana, onde estaria ligado à Espanha. Aliás, as pazes com Espanha ficaram praticamente definitivas desde o Tratado de Lisboa de 1668. Esta influência geral do culto mariano é ainda notada no estabelecimento da Nª Sra. de Guadalupe enquanto padroeira das Américas.

Kazan
Para além desta acentuada manifestação mariana ibero-americana, também na Rússia se notou um importante culto mariano. Um dos casos icónicos é a história da Nª Sra. de Kazan, imagem encontrada em 1579 na cidade tártara de Kazan, na República do Tartaristão. Este precioso ícone foi associado pelos russos à protecção da invasão polaca-lituana de 1612, invasão sueca de 1709, e napoleónica de 1812, tendo sido roubado em 1904.

O importante ícone russo encontrado em 1579 (ano que se segue a Alcácer-Quibir) vai depois ter uma história portuguesa, através do Exército Azul - Apostolado Mundial de Fátima

Esta organização americana associa-se à promessa de conversão da Rússia comunista, colocando a sua sede em Fátima. Em 1993, quando já é efectiva essa mudança na Rússia, oferece a João Paulo II uma Nª Sra. de Kazan, comprada em leilão e que estava em Fátima desde 1970. Apesar de se vir a constatar tratar-se de uma réplica do Séc. XVIII, retornará a Kazan em 2005. Lembro bem o edifício com cúpula ortodoxa, que destoava na paisagem de Fátima, que antes era a Pensão do Exército Azul, e é agora o Domus Pacis Fatima Hotel.

Kursk
Outros famosos ícones russos de Nª Senhora são o de Vladimir e o de Kursk:
 

Perante a vitória bolchevique, o ícone de Nª Sra. de Kursk foi levado pelo Exército Branco para a Igreja Ortodoxa Russa de Nova-Iorque
Kursk foi ainda uma batalha decisiva que determinou a inversão do domínio alemão na 2ª Guerra Mundial face às tropas russas. 
Kursk acabou por ficar definitivamente associado ao nome do submarino que, pretendendo honrar esta batalha, teve um triste final em Agosto de 2000, ao ter afundado no Mar de Barents com a sua tripulação de 118 homens, num incidente envolto em controvérsia e mistério.

Porém, o assunto que motivava este texto era outro - a Anomalia Magnética de Kursk.
Em Kursk ocorre a maior anomalia magnética terrestre, já conhecida desde 1733. Ou seja, é uma zona de grande concentração de ferro magnetizado, que localmente afectará as bússolas.
Cristal octaédrico de magnetite Fe3O4 .

A suposta constituição interna da Terra, com um núcleo férreo, é usada como boa justificação para a existência do campo magnético, causada pela rotação terrestre. Porém, não havendo referencial absoluto convém referir que essa rotação terrestre só se manifesta com algum significado através do Sol e Lua. O movimento é relativo, e os únicos corpos de dimensão relativa significativa que testemunham a rotação terrestre são o Sol e a Lua. A teoria magnética fica ainda mais complicada quando é preciso admitir Hidrogénio "Metálico" para justificar os grandes campos magnéticos de Júpiter ou do Sol... na prática significa colocar um gás com propriedades de sólidos, que poderiam ocorrer a temperaturas muito baixas, mas que só se justificam através de pressões muito altas, numa zona onde é também suposto ocorrer a fusão nuclear, responsável pelas altíssimas temperaturas... um caldo de explicações e teorias com muita fé, que poucas vezes batem certo! É uma fé mais sofisticada do que aquela que se manifesta nos ícones de Nª Senhora, mas que encerra também muitos mistérios...

Nota: Apenas ao acabar de escrever este texto, soube da ocorrência hoje de um naufrágio no Volga, na região do Tartaristão, de Kazan...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Coimbra - Torre dos Cinco Cantos de Hércules

No texto anterior sobre o Culto do Oculto, faltou fazer referência a uma informação que apenas encontrámos passados estes 20 dias, e que o título torna auto-explicativa.
Ao ler uma parte dos Diálogos da Vária História, de Pedro Mariz (1594), fomos confrontados com esta passagem (pag.14):
Entre as quais povoações não foi (segundo parece) a de menor estima esta nossa Coimbra, onde fabricou aquela torre de cinco cantos, que naquele alto vedes situada, a que ainda hoje chamam de Hércules. E deixou o seu nome, não somente a esses campos, que ao longo do Mondego se estendem, a que os Autores antigos chamam Hérculeos; mas também a toda a mais terra, e à mesma Cidade, que por eles é chamada de Hércules; sinal evidentissimo de ser por ele fundada; pois, como diz o outro, não é de todo falso, o que em muito tempo é divulgado por muitos, quando por outra mor certeza o contrário não aparece.
Pedro Mariz deixa um registo que coloca Hércules como autor da Torre pentagonal de Coimbra, que já tinha sido motivo do nosso texto anterior, mas que vimos associada a D. Sancho I... mais acaba por definir que Coimbra teria sido fundada por Hércules e teria levado o seu nome! 

Arriscamos uma estória...
Desde Afonso Henriques haveria ordens para destruir a torre dos 5 cantos... o número 5 das nossas quinas surge aqui como factor anterior à nacionalidade afonsina.
Talvez o fundador, querendo preservar o registo, manda simplesmente disfarçar a situação fazendo uma outra torre quadrada, ao lado. A certa altura passa por ter sido o seu filho D. Sancho a fazer a outra ao lado (situação que já me tinha parecido invulgar...). D. Dinis continua o disfarce, mandando ele fazer uma torre pentagonal no Castelo do Sabugal, tornando assim a torre de Hércules exemplar não único! 
A situação, como sabemos, complicou-se bastante na regência do Marquês... o que levou à terraplanagem e destruição da torre, com a desculpa da construção do Observatório Astronómico!

À falta de outra imagem... fica a outra Torre de Hércules - o célebre farol de La Coruña:
... e é claro que temos que dar alguma voz a Gaspar Barreiros, que se queixava da atribuição a Hércules de tudo o que era construção antiga na Hispânia.

sábado, 25 de junho de 2011

Falk-Colombo

Para quem cresceu com a série Colombo, o detective interpretado por Peter Falk, não se pode deixar de assinalar o óbito desse actor que inspirou o espírito inquisitivo em detrimento de outros métodos nas séries policiais. As razões da sua morte ontem terão sido uma degradação do estado mental, associado a Alzheimer... a crónica doença do esquecimento.

Se tratámos por aqui dos mistérios de Colombo, não poderíamos deixar de assinalar a passagem deste actor que se confundiu com o personagem que resolvia mistérios policiais de forma sui generis. O seu rigor admitia o humor e não necessitava da frieza técnica que se tornou moda em séries como CSI e similares... uma pequena grande diferença.
Se em inglês Columbo é ligeiramente diferente de Columbus, a sua tradução nacional seguiu o nome Colombo, e por isso a notícia da morte de Colombo soa sempre como algo estranho, em que os personagens se sobrepõem aos actores. Peter Falk era caolho direito.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Milho a milhas

Num post antigo do Portugalliae, era apresentado um vídeo de Gunnar Thompson sobre a evidência da existência de milho entre os egípcios:


Não estão aqui em causa os argumentos de Thompson, e seria bom que houvesse imagens em vez de desenhos, mas é óbvio que ele se baseou em imagens reais e tenha decidido não usar material sujeito a direitos de autor. Apesar de estar na internet desde 2009, este vídeo revelador teve menos de 500 visitas, o que mostra bem que não basta divulgar, é preciso que a máquina de divulgação o autorize.

Se admitirmos que o milho é originário da América, isso significaria uma prova da presença egípcia nas américas... essa é uma linha de raciocínio possível, mas desconheço como se pode provar que só havia milho na América, e que daí chegou ao resto do mundo.

O nosso propósito aqui é ligeiramente diferente... numa tradução do livro "Sobre as Faculdades Naturais" de Galeno, feita em 1916 por A. J. Brock, encontramos a seguinte peça:
Or shall we also furnish our argument with the illustration afforded by corn? For those who refuse to admit that anything is attracted by anything else, will, I imagine, be here proved more ignorant regarding Nature than the very peasants. When, for my own part, I first learned of what happens, I was surprised, and felt anxious to see it with my own eyes. Afterwards, when experience also had confirmed its truth, I sought long among the various sects for an explanation, and, with the exception of that which gave the first place to attraction, I could find none which even approached plausibility, all the others being ridiculous and obviously quite untenable.
A palavra corn tem uma tradução que é milho... ou seja o tradutor aceitava que Galeno no Séc. II falava de milho, que segundo consta hoje só seria descoberto na América! Mas a descrição é mais elucidativa:
What happens, then, is the following. When our peasants are bringing corn from the country into the city in wagons, and wish to filch some away without being detected, they fill earthen jars with water and stand them among the corn; the corn then draws the moisture into itself through the jar and acquires additional bulk and weight, but the fact is never detected by the onlookers unless someone who knew about the trick before makes a more careful inspection. Yet, if you care to set down the same vessel in the very hot sun, you will find the daily loss to be very little indeed. Thus corn has a greater power than extreme solar heat of drawing to itself the moisture in its neighbourhood. Thus the theory that the water is carried towards the rarefied part of the air surrounding us (particularly when that is distinctly warm) is utter nonsense; for although it is much more rarefied there than it is amongst the corn, yet it does not take up a tenth part of the moisture which the corn does.
Ou seja, fala-se no Séc. II, concretamente no transporte de milho em vagões pelos camponeses e na propriedade do milho inchar... que é observada em várias coisas (em particular no processo das pipocas).
Não seria acidente o milho inchar, o propósito era aumentar o seu peso para que os camponeses pudessem ficar com algum para seu proveito, sem ser detectado entre pesagens, conforme Galeno explica. O objectivo de Galeno era apenas mostrar um princípio de atracção que ilustrava com a capacidade do milho inchar - "atraindo" o que o circundava.

Este não é o único texto em que vemos referências ao milho.
Por exemplo, na parte sobre a Hispania, na tradução de 1903 de Estrabo diz-se o seguinte:

Large quantities of corn and wine are exported from Turdetania, 
besides much oil, which is of the first quality;


Ou seja, é possível ler que o milho viria da Turdetania (e outras partes da Hispania e Aquitania).

Fica assim claro que no início do Séc. XX não havia a noção de que fosse algo estranho admitir que havia cultura de milho na Antiguidade... as traduções fazem-no com alguma naturalidade. Por isso, é de admitir que só no decurso do Séc. XX houve a fixação de que o milho seria exclusividade americana até aos descobrimentos!

Se o milho é originário das Américas, pois nesse caso ficam mais claras as viagens oceânicas na Antiguidade, caso ainda fosse necessária essa prova adicional... Porém, o que deve ter acontecido é que a cultura do milho na Europa durante a Idade Média, ou desapareceu pelas alterações climáticas, ou foi mesmo proibida (o que é mais natural, talvez até pelo artifício de enganar as pesagens relatado por Galeno).
O milho terá sido então reencontrado e autorizado no decurso das "descobertas", mas tanto pode ter tido a sua origem nas Américas, como pode ter sido levado para a América na Antiguidade.
Mas a questão da "prioridade dos descobrimentos" é o primeiro milho dado aos pardais, o que interessa é a questão da proibição, quem a implementou e por que razões?...

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NOTA IMPORTANTE [03/06/2013]
No século XIX era habitual usar-se a palavra "corn" para grão distinguindo "maize corn" para milho.
Actualmente a designação "corn" é usada para milho... portanto uma boa parte deste texto desfaz-se nesse equívoco de linguagem. Por isso algumas palavras aparecem agora cortadas, e o texto passou a cinzento... não está todo invalidado porque ainda tem como base a referência de Gunnar Thompson.

sábado, 18 de junho de 2011

La Palisse, Roma e Pavia, verdadeira mente

Verdadeiramente, a mente mente...

Vulcano e Poseidon
Há mais de um ano, em Abril de 2010, aquando da erupção de um vulcão islandês que decidiu irromper no momento da divulgação interna do Truth Report sobre a crise financeira, entrei num interessante diálogo no blog arrastão
A referida erupção surgia depois de um início de 2010 especialmente conturbado, marcado pelo mais devastador resultado de um terramoto sem maremoto, em Port-au-Prince. Há quem ache natural reportar-se a morte de mais de 200 mil pessoas no Haiti, por via de um sismo de amplitude 7.1 na escala de Richter. Devemos lembrar que o terramoto na Indonésia, em Aceh, teve amplitude 9, ou seja foi 100 vezes superior, e o número semelhante de vítimas deveu-se ao maremoto que se estendeu por uma larga área no Índico, abrangendo vários países. Sobre o evento já falei no artigo sobre a derrota da Hispaniola, e de forma alegórica num post da altura... porque nem sempre é fácil escrever explicitamente, quando a "situação é explosiva", e o "mundo muda de 15 em 15 dias", usando as oficiais frases governamentais da época.
Os poucos que seguiram o blog alvorsilves, desde o início, perceberão melhor do que falo...

Em 12 de Abril de 2010 era lançado na Islândia o Truth Report, conforme ainda fui encontrar nesta notícia do Telegraph, e a situação ficava mais explosiva para o primeiro-ministro islandês (actualmente a ser julgado). Acumulando a essa situação explosiva, o vulcão entra em erupção e em 14 de Abril passa a ser notícia a proibição de vôos.

 
Protestos populares na residência do Primeiro-Ministro Islandês
e primeiras imagens do vulcão Eyjafjallajökull, de onde saía fumo branco, ou negro?

Sob o ponto vista noticioso a actividade vulcânica do Eyjafjallajökull ocultou o Truth Report islandês. 
Se mal se ouvia falar da Islândia, o Truth Report poderia ter provocado uma explosiva situação espalhando cinzas sobre a Europa, porém no espaço de dois dias passou a ser o vulcão a fazê-lo. Dir-se-à que milhares de pessoas fizeram esta associação sobre o vulcão financeiro, mas não... A situação é ainda mais engraçada, pois no dia da publicação do relatório tinha terminado a erupção doutro vulcão, conforme se pode ler no Iceland Review no dia seguinte (15/04/2010):
Iceland is a strange place. When the “truth report” came out last Monday, the eruption on Fimmvörduháls stopped. To give the citizens some time and space to read it. Two days later, yesterday, another volcanic eruption started. Just a few kilometers away from the first one, at the top of Eyjafjallajökull glacier. A much more powerful eruption. Are the old gods angry?
Não seriam os velhos deuses, sobre esses temeu-se a explosão do Katla, durante dias... Mas, para a pequena intensidade do Eyjafjallajökull seriam mais os semideuses financeiros que elevavam essas cinzas até à estratosfera para depois as deixarem cair sobre a Europa. Tal como a roupa do imperador, as cinzas eram invisíveis... e as vozes de crianças a denunciá-lo estavam abafadas. 

A mente mente, porque a aceitação de informação é condicionada na educação. Ninguém é educado para ler notícias de forma alegórica... e por isso, às vezes, as notícias mais estrombólicas têm informação invisível para a esmagadora maioria do povo.

Foi nesse contexto de colisão de mentes, que fiz nesse blog o papel de criança que denuncia a nudez do império... só que nesta história, a voz criança é abafada na multidão. À excepção de um comentador (cafc), a boa educação dos restantes viu a denúncia das imagens vulcânicas islandesas como uma alucinação isolada de um qualquer maluco.


Mente
O assunto seguiu para uma observação peculiar, que deveria ser notada largamente, mas sobre a qual nada é dito. Os advérbios que terminam em mente, de mentir!
Será caso único? Não é!
Nas diversas línguas (interessa a fonética):
  • Português, Espanhol, Italiano: Advérbio +mente, Verbo = mentir(e), mente (3ª pessoa)
  • Francês: Advérbio +ment, Verbo - mentir, ment (3ª pessoa)
  • Inglês: Advérbio +ly, Verbo - lie/ly 
  • Alemão: Advérbio +lich, Verbo - liegen, liegt (3ª pessoa)
Isto acontece casualmente ou o casual mente?
A origem não é o Império Romano, pois a declinação "+mente" não se encontra no Latim, podendo ser até variável do caso.
Na altura em que coloquei o tema invoquei a sua aplicação nacional pela Lei Mental... a tal que D. João I tinha na sua mente, mas apenas invocando a semelhança do nome, e pela estorieta de estar na "mente" do rei, contudo convém notar que nas obras transcritas de Fernão Lopes já aparece a declinação "+mente" nesses advérbios.

Portanto, a origem desta declinação no mente de mentir parece ser anterior, medieval, mas foi aplicada de forma quase uniforme, ou uniformemente, em línguas cuja raiz era diferente. Como se tivesse havido uma ordem emitida aplicada às várias línguas... ou como se as línguas tivessem sido construídas deixando esse artifício identificador. A hipótese de línguas construídas na Idade Média não é assim tão estranha, já que houve certamente algum processo orientador a nível gramatical. O mais estranho é a declinação "+mente" já que associa duas sílabas tornando esses advérbios as nossas mais longas palavras... nota-se que houve algo propositado, que dá um significado diferente a verdadeiramente e à verdadeira mente.

Para além disso, usamos "Mente" para nos referirmos ao nosso raciocínio, e os ingleses apesar de mais cautelosos usam "Mind" que pode ter um sentido de aviso ou de importância.
A mente acidentalmente revela-nos que o acidental mente.


Roma e Pavia
O assunto deste post seria sobre Roma e Pavia, que "não se fizeram num dia"...
Como é claro, não se pretendia invocar nenhum processo construtivo feito com "paciência de chinês", mas apenas procurar a origem desta expressão, que já é mencionada (pelo menos) no início do Séc. XIX. É claro, pode invocar-se o acidente fonético de "Pavia" rimar com "dia"... mas haveria outras possibilidades fonéticas, sem que se pense que pode haver outra razão mais pertinente.

Na Storia delle Rivoluzioni d'Italia (vol. I) de Giuseppe Ferrari, relacionam-se as duas cidades com a intervenção de Belisário:
Forse a caso sarebbe il Pontefice atterrito e supplicherebbe l'imperatore di tutelare Roma, di proteggere la legge e la fede dei romani, di continuare la guerra di Belisario contro gli ariani di Pavia? Poteva forse darsi una tregua tra Roma e Pavia, tra le due Italie? La guerra doveva durare ed essere più forte, più vasta che l'Italia stessa perchè il cattolicismo interessava la metà del mondo alla causa di Roma, ed anche i Longobardi potevano trascinare nella lotta i loro federati.
Belisario, representação no Palazzo Beneventano, Siracusa

Ou seja, fala-se da invasão bizantina que Justiniano levou a Itália através do seu general Belisário, e mais concretamente fica claro que foi no sentido de resolver o problema Ariano... e insistimos que o Arianismo nada tem a ver com o conceito racial espalhado no Séc. XX, mas tão somente com a teologia monofisista de Arius de Alexandria, que tinha sido adoptada pelos godos, neste caso os Longobardos. De um lado, uma Pisa ariana e do outro lado uma Roma católica... 

Este problema foi ainda mais notório na forma como Belisário, chamado a Bizâncio, resolveu o problema da Revolta de Nika, que pode ser interpretada num conflito de cores partidárias, e na própria elevação de São Nicolau. Este conflito não teve apenas episódio... e passamos a uma verdade de La Palisse!


La Palisse
A expressão verdade de La Palisse tem um significado curioso, já que não remete ao general Jacques de La Palisse, mas sim à deturpação de uma canção em sua homenagem.
A deturpação é reveladora! O verso em francês, cantado postumamente pelos seus soldados, dizia:
S'il n'était pas mort il ferait envie
Porém, quem ler textos antigos percebe  rapidamente que havia uma grafia semelhante entre o S e o F... mais um foco para muitas confusões! A lenda sinaliza bem essa confusão... do verso "se não estivesse morto faria inveja" passamos para "se não estivesse morto estaria vivo":
S'il n'était pas mort il serait en vie
bastando retirar o tracinho do f  e separando "envie" em "en vie", tal como verdadeiramente pode ficar verdadeira mente. A verdade de La Palisse mostra muito mais como uma minúscula alteração de textos pode mudar por completo o seu significado original!

Para além desta relação, o que tem de especial La Palisse, para ainda relacionarmos com Roma e Pavia?
Ora, justamente La Palisse, reconhecido pelas múltiplas vitórias, vai morrer em 1523 na Batalha de Pavia... que opôs o exército francês de Francisco I contra o Sacro-Império Romano dos Habsburgos de Carlos V, algo que pode ser enquadrado numa reedição nas cores do velho confronto de Belisário.
Batalha de Pavia em 1523 (tapetes de Pavia)

terça-feira, 7 de junho de 2011

O culto do oculto

O propalado espírito reformador do Marquês de Pombal, que tanto foi propagandeado na nossa História, especialmente na fase republicana, tem um outro lado, mais difícil de ser percepcionado, mas que tende a mostrar o contrário.
Um desses factos-mitos é a suposta reforma e modernização da Universidade de Coimbra, que incluiria a constituição do Observatório Astronómico.
Porém, vejamos o que se passou (artigo de C. M. Martins e F. Figueiredo, revista Rua Larga, nº21):
Em 1773 inicia-se a construção deste vasto equipamento, com a demolição do castelo medieval e a regularização do terreno, e em 1775 estava realizado o essencial do piso térreo. A partir desta data pouco mais se avança. O elevado custo destes trabalhos, estando ainda por realizar parte significativa da obra, deve ter conduzido a Universidade a interromper tão ambicioso projecto. Um possível sintoma de divergência entre a vontade régia, de que a equipa de Guilherme Elsden era a executora, e as reais capacidades da Universidade.
Ou seja, aquilo que aconteceu foi uma efectiva obra de terraplanagem do Castelo Medieval de Coimbra.
Chegámos aqui através de uma referência à Torre pentagonal do Castelo do Sabugal, de António Carvalho da Costa, na Corografia Portuguesa de 1708:
Sendo da Coroa Portuguesa, El Rey D. Dinis a aumentou pelos anos de 1296 com forte Castelo & uma torre muito alta de cinco quinas, como a do Castelo de Coimbra, & no fecho da mais alta abóbada dela se vê o escudo das Armas Reais de Portugal com este letreiro:
Esta fez El Rey D. Dinis, Que acabou tudo o que quiz; 
Que quem dinheiro tiver, Fará quanto quizer. 
Torre das Cinco Quinas - Castelo do Sabugal

A notícia de semelhante Torre Pentagonal não apenas no Sabugal, mas também no Castelo de Coimbra, acabou por estar quase perdida. Encontrei um excelente apontamento no blog respigo onde há um link para lâminas/imagens únicas, da viagem de Cosme de Médicis pela Espanha e Portugal em 1668. Em particular, pode ainda ver-se o Castelo de Coimbra:

Vista de Coimbra 1668-69 (Viagem de Cosme de Médicis)

Uma torre pentagonal, apesar de invulgar, não é uma obra insólita, é até adequada ao aspecto das cinco quinas, símbolo fundador da nacionalidade. Talvez por isso não nos estranhe ser D. Sancho I que tem essa ideia original de construir uma torre pentagonal, ao lado da torre quadrada, apontada a nascente (Portas do Sol), que seu pai D. Afonso Henriques tinha mandado construir.

O que é insólito é que o que sobrou ao terramoto de Lisboa em 1755 teve muitas vezes um destino semelhante de destruição. Isso já não estranha, se encararmos o aspecto oculto que esteve presente no terramoto e na actuação bulldozer do Marquês. O renascer da intelectualidade portuguesa, se estava por um lado abafado pela pressão inquisitória do Santo Ofício, não foi minimamente levantado pelo Marquês. Ao contrário, houve uma importação coordenada de conhecimento externo que poderá parecer hoje pertinente e louvável, mas que era quase risível à época. Até ao início do Séc. XVIII, Portugal ainda teria pouco a aprender com a importação de saber europeu externo, com D. João V ainda havia manchas de saber nacional profundo (lembremos Bartolomeu de Gusmão)... foi a partir do terramoto e do "incêndio" que levou à destruição do espólio nacional, e da perseguição ao saber jesuíta, que tudo decaiu rapidamente. O Marquês enquanto maçon, não terá domesticado o leão inglês, terá antes caminhado ao lado dele, num desígnio que iria lançar as bases de poder noutras paragens anglo-saxónicas. Estas facções degladiam-se ainda em guerras de alecrim e manjerona que passam ao lado da população, onde o oculto reina como culto submerso.

Segundo a lenda, teria sido no Sabugal, perto deste Castelo das Cinco Quinas de D. Dinis, que teria ocorrido o milagre das rosas da Rainha Santa Isabel, numa aparente reedição do milagre da sua tia-avó Santa Isabel da Hungria. Não é difícil perceber que já aí estavam representados dois lados, um que se ligou aos templários de que resultou o misticismo maçon/judaico, e um outro que terá tido uma sequência pelo lado jesuíta. No meio, enquanto peões distraídos e usados, ficaria o povo...

sábado, 28 de maio de 2011

Ararat e as cavernas do vulcão

Buffon, na sua História da Terra, no Séc. XVIII, fala das cavernas do Ararat, que seriam de origem vulcânica, suspeitando assim que o monte Ararat seria um vulcão extinto.

É especialmente curioso, porque a equipa NAMI, de Hong-Kong, iniciou há poucos anos uma exploração no monte Ararat, em colaboração com exploradores turcos, que levou a essas cavernas de que já falava Buffon. Não sabemos se já tinham sido feitas explorações prévias, mas parece certo que Buffon sabia do que falava... antes de serem comuns as escaladas e o montanhismo.

A expedição de Hong-Kong escalou, entrou em várias cavernas, e a mais de 4000m de altura, já tinham sido encontrados vestígios de construções de madeira, algo fossilizadas, pela equipa turca.

Panda Lee, da equipa chinesa, disse o seguinte:
In October 2008, I climbed the mountain with the Turkish team. At an elevation of more than 4,000 metres, I saw a structure built with plank-like timber. Each plank was about 8 inches wide. I could see tenons, proof of ancient construction predating the use of metal nails. We walked about 100 metres to another site. I could see broken wood fragments embedded in a glacier, and some 20 metres long. I surveyed the landscape and found that the wooden structure was permanently covered by ice and volcanic rocks. Prior to my expedition, the Turkish team had excavated the site to expose the structure.
É claro que imediatamente surgiu a controvérsia (ver aqui), directamente assumindo que toda a estrutura tinha sido inventada, construída num Verão para ser descoberta num Inverno...
Parece difícil assumir que há algo de tão fraudulentamente bem feito, sem uma colaboração institucional importante... tanto quanto seria do interesse institucional de outros denunciá-lo como tal!

Um ponto a priori que parece não preocupar estas investigações no Ararat, é que o facto de serem descobertas construções de madeira no topo do monte não implicam directamente qualquer relação directa com a Arca de Noé... poderia tratar-se apenas de algum retiro monástico antigo.

A esta observação junta-se o relato de Buffon, do final do Séc. XVIII, que mostra um conhecimento antigo dessas cavernas... a equipa de Hong-Kong poderá ter formalizado uma redescoberta, mas deparou com a opacidade clássica do condicionamento direccionado da informação nos mass-media ocidentais.

domingo, 22 de maio de 2011

Tiahuanaco liliputiano

Num recente documentário (sugerido no facebook de Maria da Fonte) fui surpreendido pelas dimensões especialmente reduzidas do que se vê hoje nas portas de Tiahuanaco.

nada fazia suspeitar que as dimensões do monumento sejam afinal estas:

O "great monolithic gate-way" conforme designado por Squier, será agora uma porta de dimensões reduzidas, onde um turista terá dificuldade em caber.
Na ilustração de Squier houve o cuidado de colocar pessoas para uma comparação das dimensões.
Já tinhamos referido que a porta estava separada, e que teria sido recolocada... porém não suspeitámos que a recolocação afectasse também as dimensões do monumento! Não são muito comuns as imagens com pessoas posando na porta do monumento... que parece uma grande porta para liliputianos!

Ou seja, tudo leva a suspeitar que em Tiahuanaco podemos estar em presença de uma réplica de dimensões reduzidas - o original, esse poderá estar algures nalguma colecção privada, destinada a olhos seleccionados.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O halo de Ourém

O ano de 1917 ficou particularmente marcado por vários acontecimentos interessantes...
A nível nacional será conhecido pelas "aparições de Fátima", mas a nível internacional é marcado decisivamente pela Revolução de Outubro, ocorrida em Novembro, na Rússia. 
Nesse mesmo mês de Novembro de 1917 é assinada a declaração de Balfour, que define o contexto de Jerusalém e Palestina, após a tomada britânica que ocorrerá em Dezembro. É aqui colocada essa carta de Balfour dirigida a Lord Rotschild, da Federação Zionista, sobre o objectivo de formação do estado judeu.


Misturamos aqui coisas aparentemente diversas, mas que estavam de alguma forma previstas nos denominados Protocolos de Sião, de 1897... bem como alguns dos acontecimentos que se lhe foram sucedendo ao longo do Século XX.

As previsões de Fátima, nomeadamente a antecipação, por alguns meses, do domínio comunista na Rússia, quase poderiam ser repetidas por alguém que tivesse tido acesso a esses protocolos. Assim, o sucesso dessas previsões acabou por estar intimamente ligado ao próprio sucesso no cumprimento dos protocolos.

Algo fascinante na questão de Fátima é a adopção do nome árabe, sendo Fátima nome da filha de Maomé!
A região tinha sido denominada Ourém, pois segundo a lenda local teria havido uma Fátima, jovem árabe, que se teria casado com um cavaleiro de Cristo, circa 1170. Tendo deixado o nome Fátima, ao tornar-se cristã pelo casamento, passou a chamar-se Ouriana (ou Oriana)... de onde teria vindo o nome Ourém para a vila. Após a morte de Gonçalo Hermiges, seu esposo, cavaleiro de Cristo, recolheu-se ao Mosteiro de Alcobaça.
Fátima não existia, nem enquanto aldeia, à época dos "milagres de 1917"... as terras da zona talvez mantivessem o nome de Fátima, e Vilhena Barbosa, no Séc. XIX, refere a existência de uma igreja paroquial, nas vizinhanças de Ourém:
Nossa Senhora dos Prazeres de Fátima

Portanto, muito antes de 1860 (altura do relato de Vilhena Barbosa), já existia uma igreja a Nossa Senhora de Fátima... o nome "Prazeres" era acrescentado à época.
Não sei se há outro caso em que um nome tipicamente relacionado com Maomé é usado no culto católico, mas como já foi referido no blog Portugalliae no Canadá haveria várias referências a Fátima, nomeadamente num município das Iles-de-la-Madeleine, Québec, do Séc. XVIII...
A dimensão que este culto atingiu ultrapassou claramente fronteiras, e é bem conhecida a importância que o Papa João Paulo II atribuiu a esta questão. A formação do culto com o nome Fátima não deixa de poder estar ligada a uma presença ibérica dos Fatimidas, xiitas, na única linha que assegurou a descendência de Maomé, pelo casamento da filha com Ali (ver wiki).
A utilização deste nome meses antes da tomada de Jerusalém, e da Declaração de Balfour, que levou à formação do Estado de Israel, e à segregação palestiniana... acontecimento quase simultâneo com a Revolução Bolchevique na Rússia, contida nas previsões de Fátima, não deixa de ser um marco de intersecção de factos dispersos.

Porém, como bem sabemos, Fátima ficou ainda no imaginário popular, pelo chamado Milagre do Sol, ocorrido em 13 de Outubro de 1917, durante 10 minutos.
O artigo da Wikipedia, a que remeti é bastante detalhado e com boa base bibliográfica - desconheço se há outro fenómeno da mesma natureza presenciado por quase 100 mil testemunhas...

Devido a essa tradição de fenómenos solares, e estando a ler Plínio, pareceu apropriado colocar no dia 13 de Maio, no blog Alvor-Silves, uma descrição antiga dessas observações místicas. Tal publicação acabou por ocorrer mais tarde, devido aos problemas com o Blogger, que teve os serviços suspensos até à tarde desse dia.

Mas... é sempre surpreendente ser depois notícia do dia seguinte o aparecimento de um halo, em Fátima, nesse dia 13. Não sendo um fenómeno raro, cuja explicação científica é resultado da refracção atmosférica local, deverá ter constituído motivo de espanto, mesmo para os peregrinos! Tivesse ocorrido no ano anterior, altura da visita papal, e teria um significado completamente diferente para o pontificado do sucessor de João Paulo II. Há coincidências... mas nem sempre favorecem o papado.
O halo solar em Fátima/Ourém, em 13/05/2011,
no Jornal de Notícias, do dia seguinte (imagem)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Moon Spots

Num texto da Phil. Trans. Royal Soc. London do final do Séc. XVIII, referem-se observações lunares que reportavam o avistamento, mesmo à vista desarmada, de luzes na zona da sombra da Lua.

Pontos onde foram vistas luzes na sombra da Lua, em 1794.

Se o ponto na primeira imagem já dificilmente poderia ser entendido como o reflexo de uma montanha ou cratera mais alta - que naturalmente faria surgir um ponto de luz na zona obscura, é praticamente impossível que o ponto de luz na segunda imagem possa ser explicado dessa forma... está demasiado no interior!

Estas observações de 1794 parecem ter sido corroboradas por observadores distintos, e mereceram a inclusão na famosa revista científica britânica... iniciada em 1665 (três anos depois do casamento de Carlos II e Catarina de Bragança).
É claro que sendo observações casuais, de um episódio que no primeiro caso durou pouco mais de 5 minutos, segundo o relato, podem-se levantar todo o tipo de dúvidas... 

No entanto, como se afirma na mesma revista, já anteriormente Cassini e Herschel, em observações com telescópios, tinham avistado luzes na sombra lunar. Estas luzes tinham uma magnitude reduzida comparadas com estas que tinham sido observadas a olho nu. 

Qualquer explicação luminosa, numa altura em que os primeiros balões de Montgolfier acabavam de levantar voo, seria na altura levada para eventuais erupções vulcânicas... já que na altura se poderiam associar as crateras a vulcões, hipótese que foi sendo afastada, até que o assunto deixou de ter referência.

Só passados mais de 150 anos é que as explorações espaciais deram os primeiros passos, e levaram às primeiras explorações astronáuticas da Lua.
A esse propósito é imperdível o fantástico documentário da ARTE France:
"Dark side of the moon" - documentário (jocoso) de William Karel

... um "documentário" que relacionaria Kubrick com as imagens da chegada à Lua!
O documentário explora a ideia de que as imagens da ida à Lua seriam falsas... apesar da ida à Lua ter sido real. Não se teriam obtido imagens, e foram usados os estúdios onde Kubrick teria acabado de fazer o "2001, Odisseia no Espaço". 

Os entrevistados são bem conhecidos: Rumsfeld, Haig, Kissinger, e Walters... e apesar de haver um suposto tom jocoso, nem há nenhuma revelação no final, e é dificilmente entendivel o mau gosto de fazer Vernon Walters morrer entre estas entrevistas da Arte, de ataque cardíaco.
Porquê?
Porque Vernon Walters morre mesmo em 2002, antes da estreia do filme, que deveria comemorar o 2001...

A decisão sobre a credulidade, cabe ao crédulo... e pode optar-se sempre pelos vídeos  Mythbusters  (Discovery Channel), que num tom jocoso infantil mostram como as "teorias da conspiração" não fazem nenhum sentido, e que tudo o que nos dado a acreditar é verdadeiro.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Naumaquias

Quando pensamos nos circos romanos, há alguma tradição em associar os combates de gladiadores, invocando muitas vezes celebrações de vitórias em batalhas.
O que talvez não seja tão conhecido é que chegou a ser popular a evocação de batalhas navais... o que implicava alguma engenharia surpreendente para a criação de piscinas internas, onde se simulavam combates com embarcações. Esses espectáculos navais eram designados Naumaquias  e em Mérida ainda é possível encontrar o fosso onde se colocaria a base para a piscina artificial.
Anfiteatro de Mérida, onde eram exibidas Naumaquias.

O mais interessante é o já primitivo conceito de pavilhão multi-usos... quando vemos hoje em dia as adaptações que estes pavilhões sofrem para acomodar as diferentes representações, percebemos com as naumaquias que o conceito é afinal bem antigo. A primeira naumaquia registada é de César, mas usando o Tibre como cenário, o seu uso em cenário de anfiteatro romano é posterior, iniciado com Nero.
A alternância entre espectáculo aquático e terrestre dará uma ideia da sofisticação de engenharia presente à época romana.
Ao contrário do que é habitual educar-se, não houve uma lenta evolução do génio humano... houve sim uma poderosa restrição desse mesmo génio, destinado a ficar confinado a uma lamparina para que a lâmpada não fosse revelada. 

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cydonia & Sidonia

Habitualmente o nome Sídon, referente à antiga cidade Fenícia, perdeu a sua ligação à designação que era comum na Hispania.
 Sídon era conhecida como Sidónia.
Aliás compreende-se que a terminação fonética própria das línguas hispânicas levasse a essa alteração.

Ao mesmo tempo, existiu uma cidade em Creta denominada Cydonia, associada à actual Chania. Teria sido fundada por um rei Cydon lendariamente filho de Hermes e de uma filha do rei Minos.
É claro que escrever Cydon ou Sidon faz toda a diferença, ainda que foneticamente sejam equivalentes.

Johannes Carion refere que os Fenícios, vindos da Síria a Espanha, em busca de ouro e metais, teriam edificado no ano de 815 a.C. a cidade de Sidonia, no interior (... entre Cadiz e Granada). Fala ainda da vinda de Nabucodonosor, e de que depois disso os Turdetanos andaluzes ter-se-iam revoltado contra os Fenícios, tendo destruído a Sidonia espanhola.

Parece agora evidente que o nome Medina-Sidonia, usado pelos duques espanhóis da Andaluzia ligava essa herança antiga de uma Sidónia desaparecida. Quanto ao nome Medina, significando cidade em árabe, denota a influência prolongada do controlo islâmico na Andaluzia.

É especialmente curioso notar que Tiro teria sido formada por colonos vindos de uma Sidonia mais antiga... teria sido viagem curta para cidades situadas a 30 quilómetros. Aliás, em Sídon são visíveis ruínas do tempo das Cruzadas, mas não anteriores.
Não será pois de excluir que a mais antiga Cydonia cretense, cujo nome é ainda usado para a deusa Atena, estivesse numa eventual origem mais antiga de Tiro, que depois migraria de regresso à Hispânia.

Sobre Tiro, há uma curiosa suspeita sobre a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro - um impressionante morro carioca:
Pedra da Gávea (ver)

A suspeita diz respeito a uma possível presença fenícia, atestada pela interpretação de eventuais inscrições numa das faces da rocha:



possível inscrição na pedra da Gávea (ver)

A inscrição referia-se então a Bazedir, filho de Jetubal, de Tiro, na Fenícia... o que baterá certo com outros registos do séc IX a.C.

De Tiro até ao Brasil, não é nenhuma viagem impossível de fazer para marinheiros fenícios... só as concepções de limitações posteriores é que tornaram tais viagens como irrealizáveis na concepção medieval e moderna.

Para terminar, e apenas por acidente de percurso... alguém se lembrou de chamar Cydonia à zona de Marte onde foi descoberta a chamada "face":
É perfeitamente claro que as sombras podem ter levado a uma ilusão óptica, que entretanto foi esclarecida com novas imagens... imagens essas que, se retiraram o acidente facial, deixaram mais claro um acidente natural da formação parecer um escudo.
Mas as formações na Cydonia marciana não se resumem a essa face mais conhecida, toda a região aparenta ter outras formas piramidais que têm suscitado diversas suspeitas: