quarta-feira, 6 de junho de 2012

Like tears in rain

Estreia amanhã o novo filme de Ridley Scott, Prometheus
e aproveito para falar em Blade Runner, de 1982, um filme de referência no género de antecipação científica... colocada no ano 2019 em L.A. Começa por ser interessante verificar como a arquitectura de cidades de futuro ficou sempre muito aquém do imaginado, desde o princípio do Séc. XX. Encontramos esboços e construções de Corbusier nos anos 1930 mais futuristas do que algumas que existem hoje. O progresso que se antevia generalizado à sociedade acabou por ser muito limitado, e hoje é curioso ver que a maioria das cidades dos EUA exibem padrões parecendo que cristalizaram nos anos 1950-60... até mesmo pela persistência de algum parque automóvel antigo, nomeadamente os autocarros escolares.
A antevisão de 2019 no filme de 1982 não era nada que chocasse muito à época, ou seja não parecia nenhum completo absurdo. Talvez deva chocar mais ver como era errada a antevisão do desenvolvimento tecnológico ao ignorar as condicionantes económicas que já se iam cristalizando, e que serviram de pretexto para hibernar a exploração espacial, e praticamente toda a tecnologia... à excepção da comunicação.
A maioria dos filmes com antevisões científicas levava para sociedades distópicas, com um poder centralizado quase ditatorial, muitas vezes resultantes da implantação de grandes monopólios privados. Como a sociedade ocidental manteve um grau de liberdade bastante razoável, a falha na previsão de evolução rápida também se justifica pelo menor grau de centralismo no poder. Porém, curiosamente, seria impensável fazer hoje um filme futurista em que ciborgues fumassem descontraídamente, lembrando como nos anos 1980 ainda não se previa a paranóia anti-tabagista (aliás, qualquer dia, é preciso uma autorização especial para poder ver os filmes de Humphrey Bogart, onde o fumo era uma constante, como no caso do Maltese Falcon).

O filme Blade Runner, como excelente filme de ficção científica, acompanhado por uma excelente banda sonora de Vangelis, aproveita para incorporar algumas questões filosóficas. Os ciborgues fabricados tinham memórias falsas de uma juventude que não tinham tido, e debatiam-se com o problema de saberem a data exacta da sua desactivação/morte.

O problema do desperdício de informação na morte, que tornava a sua vida inútil, é caracterizado por uma notável frase: "all those moments will be lost in time like tears in rain... time to die", e a pomba é solta sem mensagem.

A falta de sentido da vida era aqui colocada na efemeridade da vivência e na definitiva perda das memórias.
A importância da contribuição do conhecimento do indivíduo veio associada ao culto da personalidade, com a vã promessa de alguma imortalidade histórica. Isso tornou-se tanto mais notório quanto a sociedade vendeu a imagem de isenção, de não ocultação, de dar o devido epitáfio a quem "merecia" destaque.
Porém, tudo isso acaba por ruir como um castelo de cartas quando o indivíduo deixa de confiar na sociedade. Quando a sociedade que se constrói necessita da ocultação, pratica a ocultação arbitrariamente, então os personagens vão sendo apagados das fotografias quando necessário. Nem precisam de ser apagados, são remetidos para a ausência de atenção... são personagens de livros sem leitores.
Nessa situação, o contributo individual deixa de fazer sentido como legado de memória... e as memórias ou o reconhecimento deixam de ser importantes. Um panteão de falsidades será substituído por outro, cada vencedor inventa nova história... e curiosamente, a única esperança de vã glória dos falsários, ocultados ou difamados, será poderem vir a ser redescobertos por uma história verdadeira.
Ou seja, a importância do legado, ou do reconhecimento individual, não faz qualquer sentido numa sociedade falsária. O legado só tem sentido histórico tendo em vista a recuperação da verdade... podem ser lágrimas na chuva, mas acumulam acusando a presença de sal. Nenhuma ilusão é eterna, pois só vive nos seus mentores, a verdade será imutável, por ser partilhada, para além dos indivíduos. A verdade tem um depósito seguro... o tempo, e a impossibilidade de voltar atrás. Se isso fosse possível, muitos seriam aqueles que tentariam apagar as suas acções anteriores, aparecendo como imaculados... porém, a ser possível visitar o passado, será já numa qualidade diferente, de não intervenientes, condenados a observadores.

A outra questão interessante no filme era a corrupção de memórias. Os indivíduos nasciam adultos com falsas memórias de infância e juventude. 
Sobre a memória temos uma noção de acesso limitado.
Os sonhos nada mais são que memórias que aparecem "do nada" quando estamos já acordados, e que reportamos ao período em que dormimos. Isso é natural quando acordamos com essas memórias, e é menos natural quando algum pormenor nos faz lembrar só posteriormente do sonho ocorrido. Neste última situação, é como se um pedaço de memória, antes desconhecida, tivesse invadido o pensamento. O olfacto é especialmente interessante como agente que despoleta memórias antigas, quase perdidas. As certezas quanto ao que somos e o que conseguimos fazer, transformam-se em maiores incertezas se pensarmos naquilo que controlamos verdadeiramente. A memória acompanha-nos, mas não é por irmos perdendo parte dela, ou até por sermos iludidos por ela, que perdemos o traço unificador que nos define no presente.

É certo que parte de nós morre a cada instante, de forma irrecuperável... há dias, meses, talvez até anos inteiros que não voltaremos a lembrar. Não nos preocupamos muito com isso. O sentido de preservação é tido sempre na nossa potencialidade de continuar a existir com as memórias a que vamos conseguindo aceder hoje. O "eu" que fomos na nossa infância, juventude, esse deixou de existir, morreu... é uma vaga lembrança onde se insere também a lembrança daqueles que partilharam connosco esses momentos. 
O tempo tem a desvantagem de não eternizar os momentos bons, mas também a vantagem de não eternizar os momentos maus. E ainda, a nossa exigência anti-monotonia dificilmente ficaria eternamente satisfeita... o "viver feliz para sempre" termina muitas histórias infantis, mas nunca é especificado. O paraíso... é "para"-"iso", ou seja, vai para além da isomorfia, da monotonia de uma equidade absoluta, mas tende para ela no somatório, e é natural que quem exagere num sentido espere por reacção idêntica no sentido oposto. Aqui, a filosofia da linha do meio, própria do budismo, parece ser a mais sensata, mas não deve levar à estagnação... é apenas uma boa plataforma de estabilidade.

Sobre a inteligência artificial, própria aos ciborgues do filme, nada impede a priori essa possibilidade.
A nossa inteligência manifesta-se sobre uma plataforma biológica, complexa, em que o raciocínio emerge da experiência. Aliás, a própria linguagem emerge de uma sucessiva experimentação, com associação entre objectos e palavras... é assim que as crianças aprendem a falar. A plataforma biológica não tem que ser a única onde é possível emergir raciocínio, e há algumas experiências computacionais, com redes neuronais, que visam simular processos semelhantes. A capacidade de executar tarefas complexas, de índole automática, não deve ser confundida com inteligência inerente... é claro que o Deep Blue pode ganhar ao Kasparov em xadrez, mas se mudarmos um pouco as regras, o Deep Blue precisaria de um programador humano para poder jogar com Kasparov. Há raciocínio adaptado a certas tarefas que levam a automatismos, mas a inteligência revela-se pela flexibilidade e adaptação do raciocínio a diferentes problemas, enquanto que a inteligência especializada muitas vezes pode resumir-se a automatismos simuláveis computacionalmente. O ponto principal é o executante ter noção de si, ver-se enquanto objecto de análise... e isso parece longe de ser possível numa máquina finita. A razão é simples... a capacidade de nos observamos a nós próprios coloca-nos num plano superior de observação, como se nos desligássemos do corpo observador, e daí emerge uma noção que transcende o corpo... a noção de alma.
E talvez seja melhor ficar por aqui...

Efemérides 2012

Conforme já referido no postal sobre o Trânsito de Vénus, nestas duas últimas semanas ocorreram três efemérides astronómicas interessantes... nenhuma das quais visíveis em Portugal. 
Primeiro, ocorreu a 21 de Maio de 2012 um eclipse anelar do Sol
Eclipse Anelar do Sol visto no Japão (wiki)

... a que se seguiu um eclipse parcial da Lua anteontem, 4 de Junho de 2012
Eclipse Parcial da Lua(i.space.com/)

... e neste momento que escrevo decorre o singular trânsito de Vénus de 6 de Junho de 2012
Entrada de Vénus... o ponto negro... no disco solar (wiki)

Os eclipses Lua-Sol ocorrem dentro do ciclo de Saros, de aproximadamente 18 anos, e são por isso razoavelmente frequentes. É sabido ser este ciclo conhecido já pelos magos Caldeus, e estavam mesmo incorporados há dois mil anos na Máquina de Anticítera (informação da wikipedia).
Já o Trânsito de Vénus é bem mais raro, e só voltará a ocorrer em 2117... mas, excluindo o seu interesse astronómico, e a sua singularidade na ocorrência, é um fenómeno que passaria completamente despercebido ao público, não fora a publicidade.
Para além das imagens do pontinho no disco solar, e atendendo à espessa atmosfera venusiana, seria esperado ver boas imagens telescópicas que indiciassem essa refracção... mas apesar deste interesse, continuam a faltar imagens menos negras de Vénus.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Truman

Uma das dialéticas interessantes entre a sociedade e o indivíduo é colocada num filme de 1998, conhecido como "Truman Show". O nome Truman pode ser visto como aglutinação de True man, ou então pode ser visto à luz de um plano Marshall.
O personagem Truman tem uma vida completamente falsificada num gigantesco ambiente de estúdio. É uma versão do conhecido programa Big-Brother, levada ao limite, já que o personagem nasce e cresce dentro do ambiente de estúdio que simula uma cidade, em que todas as pessoas que interagem com ele são actores. "A vida em directo" de Truman gera grandes receitas televisivas, devido ao voyeurismo duma sociedade externa que autoriza a experiência e se diverte com o enredo "real".

Truman Show (1998)

Perto do final, algumas coisas correm menos bem na encenação, e Truman aventura-se no desconhecido, acabando por descobrir os limites do cenário onde vive.
O argumento é muito interessante, algo diminuído pelo jeito de comédia, mas aborda os limites entre a realidade e a ilusão. Colocaria o  espectador numa perspectiva mais próxima do enredo filme se não fosse apenas um elemento a ser iludido, mas sim um grupo de indivíduos. De qualquer forma, terá tocado certamente muitos espectadores que podem ter colocado em dúvida se a sua vida não estaria sob controlo externo, nalguns eventos. Levado a sério, colocaria o espectador até a duvidar da sua família e amigos mais íntimos... No entanto, só quem não soubesse o que é a realidade é que se apoquentaria com o contexto.
Ao designarem o produtor do espectáculo como "Criador", o filme vai ainda mais longe no sentido de colocar a questão do papel divino, já que relativamente à vida de Truman o produtor do programa tinha praticamente controlado quase todos os aspectos da sua vida, deixando-lhe alguma margem de manobra, mas condicionando até a sua permanência na cidade. Truman não falava com amigos, mas sim com toda uma máquina definida para gáudio dos espectadores de contos, contos de reis.
A decisão final de Truman, ao ignorar "o seu criador" era a esperada, perante tal situação bizarra, e acaba por reentrar no cenário - afinal a única casa ou realidade que conhecia, desprezando o contexto exterior, que nada lhe dizia.
Na parte final, à medida que o contexto se revela, o tom vai ficando mais austero, e não se percebe se no final os actores contratados ficam ou não desempregados.

É claro que o filme merecia uma sequela, mais de ficção científica, em que afinal o produtor tinha recebido ordens e sugestões implícitas para realizar aquele espectáculo, sem saber exactamente de quem. Por hierarquia implícita, o próprio produtor estaria ao serviço de uma outra inteligência superior (para simplificar, extra-terrestre), voyeur dos próprios espectadores do programa, talvez com o propósito de uma análise dos valores da sociedade terrestre. E o contexto de criador em cima de criador, poderia não ter fim... da mesma forma que o próprio Truman poderia ser induzido pelo produtor a criar um próprio show dentro da sua cidade. Ou seja, Truman ficaria produtor de um espectáculo semelhante, sem se aperceber que tinha sido condicionado para isso. Quando estivesse pronto a revelar-se ao seu Truman-"filho", seria ele próprio surpreendido com a sua condição!

Os valores humanos em Truman Show são caricaturados de forma dura... os espectadores e a maioria dos actores revelam-se como indivíduos incapazes de reflexão. Separavam-se de tal forma de Truman, que eram incapazes de se projectarem na mesma situação. Não viam em Truman um seu semelhante... e, no entanto, estariam sob situação idêntica. Poderiam ter confiado em instruções, ideias cuja origem já nem sabiam bem reportar, perdidas na cadeia de comando, ou numa qualquer história aparentemente antiga, para realizarem aquele cenário... quando no fundo poderiam ser eles próprios os personagens sob inspecção externa.
De todo aquele espectáculo montado, mesmo dadas as circunstâncias de chantagem financeira, poucos seriam os "humanos"... Eram apenas indivíduos centrados na competição pelos seus interesses particulares, como qualquer animal sujeito pela sua natureza a competir por domínio territorial. E, como se sabe, não adianta usar argumentos racionais com um leão quando se passa pelo seu domínio territorial.

A colaboração social tem dois aspectos que se degladiam... por um lado, é do interesse do indivíduo no sucesso do conjunto, por outro lado é a afirmação do indivíduo dentro desse conjunto, por competição contra os semelhantes.
A afirmação do indivíduo é o que permite a diversidade, por destaque da sua individualidade. Se ela é colocada em confronto com os outros, é óbvio que limitará a colaboração ao mínimo. Assim se cria uma sociedade esquizofrénica, na ambiguidade entre os valores individuais e sociais, especialmente quando não há objectivo social comum bem definido. Dito de outra forma, quando o "contrato social" é apenas uma farsa cujos propósitos não são claros, e tudo se acaba por resumir à permanência de uma hierarquia instalada.

Porém, é sabido que uma sociedade baseada numa ocultação, ou exclusão, gera por reciprocidade outras sociedades semelhantes, e assim volta-se à questão da competição individual entre sociedades.
No fundo, para teste de um modelo com um propósito, basta criar réplicas, modelos semelhantes, que avaliam a eficácia do melhor.... desde que não sejam infiltrados externamente. Caso haja perigo de infiltração destrutiva, é natural a estrutura criar as suas próprias protecções de segurança, tornando-se demasiado rígida, austera, e por isso menos eficaz.
Tal como na evolução biológica, as estruturas evoluíram no sentido de comparar a sua adaptação cognitiva, e se os homens foram presa fácil de predadores, agindo isoladamente, passaram a predadores sem rival, ao colaborarem.

Só que essa colaboração desagregava-se também em competição interna, quando os inimigos eram identificáveis. A mais valia de conhecimento era perdida num fácil contágio, pelo que houve necessidade de progressivas técnicas de ocultação e até de ocultação da estrutura. A técnica de ocultação também a encontramos espelhada na natureza, em diversos animais... e não foi por isso que deixaram de vir a ter predadores. Mais tarde, ou mais cedo, acabaram por fazer notar a sua presença...
Se Maomé não vai à montanha, a montanha acaba por ir ter com Maomé.

A simples presença de inteligência, gera inteligência reactiva. Pode até acontecer que a estrutura seja bastante eficaz, e tenha permitido estabilidade, como nalguma ilha polinésia foi possível manter uma longa dinastia... até ao momento da visita dos Europeus. Aí, uma estrutura que tinha sido localmente eficaz, pelos vícios da estabilidade não tinha evoluído suficientemente e era confrontada, de forma abrupta, com uma civilização que tinha evoluído na Europa em quase permanente confronto.
Correriam o risco de completa extinção (que pode mesmo ter acontecido nalguns casos) pela excessiva confiança na sua própria estrutura social, sem adversários até essa época.

Gémeos, mesmo sem serem falsos, ou estruturas gémeas, é algo fácil de ocorrer, ou de gerar, por diferenciação interna na estrutura, ou por cópia natural externa. Assim, tornam-se potenciais competidores, a menos que partilhem os mesmos objectivos de colaboração, sendo claro que retirados medos, ódios, etc... a partilha de conhecimento favorecerá sempre o conjunto. Ou seja, a estrutura que tende a prevalecer será a que conseguirá agrupar maior fonte de conhecimento fundamental, sem fazer perigar o conjunto, dando espaço à aceitação dos diversos conhecimentos/culturas individuais. Simplesmente a sociedade não pode sufocar o indivíduo, e a diversidade indivídual deve caminhar no sentido de uma confrontação e colaboração construtiva.

Pensando a longo termo, é algo praticamente óbvio... ou a presença de conhecimento no universo seria um espasmo temporário, o que corresponderia à sua anulação... e à existência de uma noção de tempo para além do universo - algo absurdo; ou então haverá um conhecimento aglutinador que irá recuperar o fundamental da sua existência.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Espiral de conhecimento

Há certos filmes que ilustram bem diversos problemas filosóficos, de forma simples, sem terem que desenterrar citações de grandes vultos do pensamento para lhes fazerem "companhia". As ideias têm a sua génese, mas não precisam de cartão de visita, com registo parental na aristocracia académica.
Um código genético das ideias são as palavras, que podem nascer no escritor, mas ganham vida própria e podem-se reproduzir em cada leitor... por vezes com pequenas anomalias de compreensão, que podem gerar novas ideias.
Costuma contar-se que a ideia da força de gravidade teve-a Newton quando uma maçã lhe caiu na cabeça. Para perceber a génese da ideia, precisamos de saber quem foi Newton, quem era a maçã, e por que razão caiu numa cabeça só nessa altura. Por que razão não seria uma pêra a aforturnar a cabeça de Duarte Pacheco Pereira, que descrevera essa noção tão grave uns séculos antes.
Mas, para perceber essa noção elementar de gravidade, não precisamos de nenhum fruto simbólico, nem de nenhuns pais emprestados. As ideias existem para além da sua difusa génese, não devem ser é iludidas sob pena de se perder conhecimento, do seu valor prático, histórico, simbólico ou artístico.

O filme "Groundhog Day" é uma comédia romântica, ao mesmo tempo que aborda um problema de círculo temporal. O protagonista vê-se sucessivamente preso nos mesmos acontecimentos, dia após dia, e acaba por experimentar problemas filosóficos interessantes. Como só ele muda, ao fim de algum tempo acaba por conseguir prever todos os acontecimentos, e todas as possibilidades. Como só ele muda, acaba por dar-se conta que está sozinho, e desespera, ao ponto de tentar o suicídio várias vezes, apenas para voltar exactamente ao mesmo ponto. Não se conseguia libertar do círculo temporal...
Groundhog Day (1993)

De forma instrutiva, apesar do protagonista deter uma clara vantagem de conhecimento sobre os restantes personagens, e aproveitar isso até para enriquecer, numa dupla sensação de omnisciência e omnipotência, não fica mais feliz por isso, ao contrário. 
Encontra-se na situação da criança que já brincou suficientemente com os seus "bonecos", e precisa de brincar com amigos que estejam em situação de igualdade. Acabará por ceder no seu controlo, e procurar uma imprevisibilidade que lhe tinha sido negada.

Esta é uma parte filosófica, que ilustra bem que o controlo da realidade não é propriamente algo agradável, e a longo termo leva à sensação de isolamento absoluto. Quanto ao isolamento, há uma abordagem semelhante na obra de Daniel Defoe, de 1719, "Robinson Crusoe", onde o isolamento desesperado numa ilha perdida acaba por fazer com que Crusoe encare como igual o "selvagem" Sexta-Feira... que educacionalmente seria visto pelos leitores da época como escravo.

Mas há outras questões filosóficas... e que não estão completamente afastadas de consideração, até pela manifestação de patologias. Por exemplo, nada impedia que o protagonista, também ele, tivesse ficado preso no circuito temporal. Se isso acontecesse, e ele não se apercebesse, repetindo-se tudo, isso seria equivalente a uma única ocorrência. Porque, se os envolvidos não se apercebem, só um observador externo é que se pode aperceber da repetição. 
Se é o próprio que se apercebe da repetição, já não se trata do mesmo... primeiro esteve naquela situação, depois também, mas sabe adicionalmente que já viveu o momento antes. Funciona apenas como o conhecido "déjà-vu". 
É o que acaba por acontecer no filme, o protagonista sabe que (quase) tudo voltou a ocorrer, só que ele é não é o mesmo - ele acumula a informação passada.

Não muito diferente é a questão de Sísifo que pode ser levado a repetir a tarefa, mas quem executa a tarefa a primeira vez, tendo consciência de si, não é o mesmo que a repete.
A capacidade humana torna as tarefas repetitivas como parte inconsciente, ao fim de algum tempo de aprendizagem. Ou seja, as repetições deixam de ser observadas, tal como os óculos não são vistos por quem os usa... pelo simples facto de serem presença constante. O espírito humano não dá relevância às tarefas repetitivas, porque depois de as aprender e conhecer por completo, ficam tão automáticas quanto o caminhar... e enquanto efectua essas tarefas automaticamente, pode pensar, dentro das suas condicionantes. 
Sísifo é condenado pelos deuses à repetitiva tarefa 
de carregar uma pedra e vê-la rolar pela montanha.

Enquanto Sísifo não se libertar da pedra, ambos formam uma identidade irracional, para um observador externo... mas visto de dentro, Sísifo não larga a pedra porque ela lhe é indiferente, não lhe prende o pensamento. Talvez Sísifo esteja apenas a condenar os deuses a ficarem eternamente presos ao eterno medo do movimento repetitivo que eles próprios lhe impuseram.

Porém, como já referimos, esse problema não ocorre a nível consciente. Mesmo do ponto de vista biológico, as tarefas automáticas, uma vez apreendidas são relegadas para circuitos inconscientes. 
Ao nível da consciência circuitos temporais são apenas espirais de conhecimento, em que podemos rever situações passadas com um novo olhar. Não se fecham. Serão iguais externamente, mas quem as revisita é que já será diferente, pelo que a situação não se repete.
Espirais num monumento megalítico (Newgrange, Irlanda)

A espiral de conhecimento constrói-se em camadas, sobre informação já existente, revisita conceitos centrais, e acrescenta novas ideias, gerando nova informação. Caminha no sentido exterior de uma visita aberta, e não no sentido interior de se fechar sobre si própria, ainda que grosseiramente possa dar a ideia de repetição.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Conjunto Universal

Complemento um pouco a posta sobre Conhecimento Perigoso... que não seria propriamente sobre conhecimento que leva à censura de conhecidos blogs pela nossa Assembleia da República, com a concordância de deputados cuja missão primeira deveria ser defender a liberdade de expressão.
Nada propriamente de novo nos bastidores do sistema, que normalmente usa alertas de "infecção por virús" para bloquear os acessos a conteúdo indesejado, como já aconteceu neste blog... e só é mais preocupante por já estar a sair das trevas dos bastidores.

Na sequência do trabalho de Cantor, sobre a teoria dos conjuntos, surgiu um paradoxo matemático sobre o Conjunto Universal. Esse conjunto seria o "conjunto de todos os conjuntos"... mais uma vez remetendo para as dificuldades e contradições sobre o infinito, e suas interpretações metafísicas.
O problema era basicamente o seguinte... sendo o Conjunto Universal um conjunto, deveria pertencer a si próprio, para além de conter todos os outros, o que significaria haver um maior. Acrescia a isso Cantor ter provado que ao conjunto das partes deveria corresponder uma potência de infinito superior.
A contradição foi banida excluindo do sistema tal conjunto!

A questão do infinito colocava-se da mesma maneira que quando falamos no "maior número", já que podemos sempre considerar um número superior, como bem sabem as crianças.
Os processos envolvendo a noção de infinito foram banidos, até que permitidos no Séc. XVII trouxeram um desenvolvimento sem precedentes à matemática, e ao mundo.

Havia aqui um novo embate entre concepções filosóficas... a exclusão do Conjunto Universal seria uma maneira de excluir a noção universal de Deus, por argumentos racionais. Acordou-se num sistema de axiomas chamado ZFC (Zermelo-Fraenkel-Cantor) e julgou-se que isso permitiria construir toda a Matemática... até que Gödel provou o contrário, para desespero de Hilbert.
A questão da axiomática matemática tem alguns aspectos religiosos, já que os Axiomas resultam de crença em evidências simples... sendo alguns mais polémicos que outros (caso do Axioma da Escolha).

Mesmo assim, o Conjunto Universal acabou por ser reposto num sistema alternativo NF (New Foundations), e que terá certamente adeptos entre os criacionistas e oposição dos evolucionistas!
Do ponto de vista prático, a maioria destas questões são basicamente irrelevantes, sendo que o sistema ZFC é tido como adoptado pela maioria da comunidade internacional.
O mais interessante aqui é notar a delicadeza destes assuntos, fazendo ver que mesmo a racionalidade matemática não se liberta de problemas de intolerância e ostracismo, pela fé... uns acreditam numas coisas, outros noutras, e procura-se impor uma visão escolástica.

A noção de infinito é pura e simplesmente uma idealização que facilitou bastantes os cálculos analíticos, e que esteve "proibida" durante milénios, talvez porque os criacionistas consideravam pertencer apenas ao divino... Curiosamente, é pela linha oposta, evolucionista, que esta proibição de infinito ocorrerá de novo.
E, no entanto, nada impediria conceptualizar o "Conjunto" Universal como uma entidade limite, da mesma forma que é feito com o infinito numérico. Também no caso do infinito numérico não se podem aplicar as regras habituais, e não deixaram de ser consideradas novas regras. O mesmo poderia ser feito conceptualmente para essa entidade, vista como Conjunto-limite Universal.

Independentemente das considerações mais matemáticas, o grande problema é uma incapacidade inata do Homem lidar com a sua finitude, e que basicamente se resume a não estar satisfeito consigo próprio. Por um lado isso é necessário, pois só isso permite o espírito criativo, mas é completamente inútil quando se pretendem daí tirar conclusões que não sejam de simples índole prática.
Nem eram precisos os resultados de Gödel, é óbvio - por definição - que a finitude humana será sempre incompleta quando procura abarcar o infinito que apenas pode conceptualizar.
Há ainda quem sonhe que uma passagem para "dimensão superior" poderia resolver essa ânsia inata, mas é pura ilusão, já que, como mostrou Cantor, os infinitos sucedem-se em potências superiores...

Enfim, é essencialmente um problema educacional, que se resolve nas crianças mimadas - que querem sempre mais e mais - com umas boas palmadas no rabo!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Homem ciclo-voador

Já mencionámos como a Passarola de Bartolomeu Gusmão, o primeiro projecto de dirigível, acabou por ser silenciada na História. 
Exemplificaremos aqui como "progressos voadores", em particular as "bicicletas voadoras" acabam hoje em dia por ser também segredos... de Polichinelo!
Não é segredo que já houve vôos de "bicicletas" capazes de atravessar o Canal da Mancha, ou ir de Creta a Santorino (duas ilhas gregas).
No entanto essa informação não é suficientemente divulgada... pior, é ridicularizada, e assim vai-se passando a ideia oposta!

Nalguns vídeos sobre o princípio da aeronáutica é habitual mostrar uma tentativa de homens que tentam voar pedalando com asas... aparece como algo ridículo, mas o não é! O mais natural é que tenha sido com uma bicicleta com asas aerodinâmicas que se efectuou mesmo o primeiro "descolar"...

Acresce que com campanhas como esta:
... o que se pretende fazer é desacreditar a efectiva possibilidade de existirem aparelhos capazes de voar com  auto-propulsão humana. A recompensa do engodo é obtida pela muita ingestão de água com açúcar, que em vez de dar asas, tem como efeito pretendido justamente o oposto!

O desenvolvimento de aviões propulsionados por homens, tem um extenso resumo na Wikipedia:
onde se pode ver:
- D. Piggott - o primeiro vôo (reconhecido) ocorre em 1961... há mais de 50 anos!
- Bryan Allen - primeiro vôo pelo canal da Mancha, em 1979
- Em 1984 houve um ciclo-avião que até levou um passageiro...

Porém, o talvez mais notável é o vôo do Daedalus-88 entre as ilhas gregas, num total de 115Km, que ocorrerá em 1988, conforme podemos ver neste documentário (o vôo começa ao minuto 18:00 do vídeo):
The Light Stuff - documentário de Mark J. Davis - partes (1)(2)(3)
mostra o sucesso da aventura grega em 1988 do ciclo-avião Daedalus-88 

O ciclo-avião merece a atenção grega, sendo acompanhado no voo entre Creta e Santorini, por cobertura jornalística e até militar. Isto foi em 1988, há quase 25 anos... o Daedalus-88 detém ainda o recorde de voo.
A equipa do MIT que fez o Daedalus-88 era semi-oficial, essencialmente de estudantes, e desde essa altura, apesar do excepcional sucesso obtido, o projecto nunca foi continuado.
O muro de Berlim caiu, no ano seguinte ao voo... mas só serviu para mostrar que existia um Muro muito maior que vai prendendo o génio humano na garrafa.
Enquanto a
umas e outras invenções interessantes... silenciadas, aguardando o desbloqueio dos Deuses do Olimpo, que permitam a Dédalo ter asas para voar.

Nota adicional (01/05/2012):
Entretanto, surgiu esta interessante notícia sobre um avião solar: Solar Impulse
... um projecto da EPFL que tentará uma viagem de 2500Km (ver outros projectos: wikipedia).
No entanto, o objecto deste postal não era apresentar os muitos projectos de desenvolvimento.
O objectivo deste texto era apenas ilustrar como se iludem proezas já alcançadas dando mérito a iniciativas tacanhas (caso da BBC), ou ridicularizando o assunto (caso da RedBull).

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Conhecimento Perigoso

Um excelente documentário da BBC(4):

O título "Conhecimento Perigoso" parece exagerado no caminho que pretende levar - conhecimento que pode levar à insanidade mental, e acaba por mostrar que esse perigo resulta das pressões sociais devidas ao conhecimento, e não devido ao conhecimento em si.

O documentário segue essencialmente a crise dos fundamentos da Matemática, na transição do Séc. XIX para o Séc. XX, através de dois personagens principais: primeiro Cantor e depois Gödel. Há uma outra história complicada, envolvendo Hilbert (que é mencionado) e Brouwer, que também mereceria menção.

Procurando envolver-se mais na história dos personagens, o documentário acaba por evitar falar do que estava em causa nessa crise. Não é um assunto fácil para a esmagadora maioria da população, e por isso é natural que seja evitado.

Kronecker, indicado como um dos opositores de Cantor, terá dito: 
"Deus fez os números naturais, o resto é obra do homem"
Os números "naturais" são simplesmente 1, 2, 3, 4, 5, etc...
A noção de infinito aparece aqui naturalmente, já que as próprias crianças confrontam-se na brincadeira com a impossibilidade de encontrar o maior número... basta juntar um, e será sempre maior do que o anterior.
Cantor vai quebrar a intuição de infinito, afirmando que "há tantos números pares quanto números naturais"... Parece contraditório, desaparecem os números ímpares? Claro que não, e a afirmação aplica-se igualmente a números ímpares. A razão é simples, a qualquer número natural podemos fazer corresponder um número par, basta multiplicar por 2, e por isso há uma correspondência directa e a quantidade de uns e outros é igual.

Este é o primeiro infinito "dos números naturais", mas o notável será que Cantor mostra que há um outro infinito diferente deste. Mas para isso precisamos de falar em números racionais...

Os chamados números "racionais" nada mais são do que a divisão entre dois números naturais, ou seja, uma fracção. Como habitualmente usamos fracções decimais, habituámo-nos à sua forma enquanto números decimais.... E se duas casas decimais são usadas para representar os cêntimos, é óbvio que quando se exige maior exactidão são precisas mais casas decimais. Tal como não há fim para os números naturais, não há fim para o número de casas decimais...
Na prática bastam poucas casas decimais para ter grande precisão... mesmo nos cálculos modernos, raramente são precisas mais do que 10 casas, e mesmo aí já estamos a falar em medidas ao nível atómico.
Porém a matemática é uma ciência de pensamento, e a idealização não tem limites físicos.
Uma régua matemática é um contínuo de pontos idealizado, e não uma colagem de átomos.

Foi ao analisar o infinito dos números decimais que Cantor demonstra que é superior ao infinito dos números naturais. Ou seja, o infinito de pontos contínuos numa régua matemática é maior que o infinito da contagem... 
A Hipótese do Contínuo, que segundo o documentário teria levado à loucura de Cantor, seria demonstrar que entre estes dois infinitos não existiria mais nenhum outro tipo de infinito. 

É Gödel que dará o primeiro passo decisivo na resolução do problema, mostrando que, dado um número finito de axiomas, haveria afirmações sobre as quais não se poderia saber se eram verdadeiras ou falsas - indecidibilidade. Um dos casos de indecidibilidade era a Hipótese do Contínuo... Cantor estava a tentar provar algo que Gödel e Cohen vão demonstrar ser impossível de provar. A questão ficou assim arrumada há 50 anos atrás.

Maçonaria de Regra e Compasso
Cantor e Gödel deparam-se com um problema similar ao abordado por Pitágoras e Euclides, uns milénios antes. Começamos pela bem conhecida lenga-lenga
"o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos"
que é ilustrado sempre com muitos triângulos rectângulos... mas dificilmente veremos com este:
O Teorema de Pitágoras é mais geral, e não se aplica apenas ao triângulo em questão, já que os catetos não têm que ser iguais, e a hipotenusa nunca é representada como base do triângulo (usa-se um dos catetos).
Colocado desta forma explicita o caso da pirâmide... pois "Hipo" é prefixo para "baixo", logo a hipotenusa deve ilustrar-se na base. E como "katheto" significa "cair na perpendicular", nesta representação os dois lados caiem na perpendicular.
Desta forma a Hipotenusa surge ainda como uma diagonal de um quadrado (ou se quisermos desenterrar... de um  octaedro "enterrado", do qual se vislumbra apenas a pirâmide superior... isto para quem quiser sondar no deserto egípcio se não há afinal octaedros que são octo-manos das pirâmides).

O valor "raiz de 2" (ou similar) obtido na hipotenusa tinha uma particularidade que preocupou os pitagóricos... não se conseguia representar-se por nenhuma fracção. 
Esses números que não podem ser representados por fracções foram chamados "irracionais", já que não eram representáveis por uma razão (divisão). É consequência do trabalho de Cantor que há mais irracionais do que racionais... uns têm a potência do infinito contínuo, os outros do infinito contável. 
Mas já na antiguidade isto causou considerável perturbação!
Há até uma alegoria que conta que quem saía dos números pitagóricos "era atirado fora do barco". É numa proposição dos Elementos de Euclides, já muito depois, que aparece a prova "simples" de que seria impossível escrever "raiz de 2" como fracção. Havia uma limitação nas fracções, tal como Gödel veio milénios mais tarde a provar que havia uma limitação nas demonstrações axiomáticas.

Para além da limitação nas fracções, conhecida na antiguidade (aliás todo este conhecimento pitagórico  era já existente na Babilónia...) seguiu-se um problema milenar... a Quadratura do Círculo!
O número "raiz de 2" apesar de irracional, representava uma quantidade que poderia ser obtida de forma geométrica, usando um compasso. Haveria números que não pudessem ser obtidos dessa forma?
O problema foi colocado com o número Pi... exactamente na questão da Quadratura do Círculo.

A Quadratura do Círculo ilustra uma limitação na construção de quantidades, exigindo apenas régua e compasso, uma limitação clara da Geometria clássica.  
Régua e compasso que são símbolos bem conhecidos da maçonaria...
Geometria de Régua e Compasso

A letra G pode encarar-se como representante da Geometria, mas não será apenas isso... e daí derivou todo um folclore... que até levou à ideia sensual do "ponto G".

O problema da Quadratura do Circulo resistiu milénios... e só acabou resolvido no final do Séc. XIX, com os trabalhos de Hermite e Lindemann, que provaram justamente que Pi era um número "transcendente", e por consequência que não seria possível obter uma quantidade Pi usando apenas régua e compasso.

O que é engraçado é que o processo de demonstração não usou a Geometria, usou um outro ramo da Matemática - a Análise. Ao contrário da ideia que se dá no documentário, é a Análise que começa a lidar com a noção de infinito, e a substituir todas as limitações geométricas por processos de aproximação sucessiva. Esse progresso está directamente ligado a toda a inovação tecnológica. Teve como principais padrinhos Descartes e Newton, mas os pais são bem mais antigos.
Arquimedes usa métodos analíticos, mas a sua origem é habitualmente reportada a Eudoxo (Séc. IV a.C), pela técnica de exaustão, e foi só retomada 2000 anos depois. Há ainda um outro Eudoxo apontado como um dos primeiros a contornar África e a ensinar o fogo, conforme atesta Duarte Pacheco Pereira em 1506
dizem mais estes autores que Eudoxo fugindo das mãos del Rey Latiro da Alexandria navegou do mesmo Sino Arábico até Cadiz, & Pompónio Mela autor muito antigo natural de junto com Gibaltar isto mesmo afirma & diz mais no fim do seu terceiro livro de Sito orbis que este Eudoxo foi o primeiro que o fogo, e uso dele, trouxe aos povos bárbaros da Ethiopia aos quais até aquele tempo ignoto era & nesta sentença concordam alguns dos outros cosmografos. A qual navegação & pratica dela se tirou assim dos olhos de todos os antigos: de tal maneira se perdeu que por tempo de mil & quinhentos anos, ou mais, soube de todo esquecida.
 Portanto, muito para além das frustrações que o próprio conhecimento coloque aos cientistas, têm sido muito mais as maquinações que vitimaram a sua independência, personalidade e sanidade. Ideias antiquissimas só foram retomadas na Idade Moderna, com a muita tradução do material antigo que tinha sido esquecido/proibido. 


domingo, 15 de abril de 2012

Titan hic Titanic

O centenário do naufrágio do Titanic trouxe alguma informação interessante que desconhecia...

Há um conto de 1898 sobre um navio de nome Titan, considerado não-afundável, de dimensões idênticas às do Titanic, que haveria de colidir com um iceberg, também em Abril e pela meia-noite, à mesma velocidade, e onde também faltavam barcos salva-vidas (o Titan teria 24 para 3000 passageiros, e o Titanic levou 20 para 2235 passageiros). A maior diferença é que no conto do Titan não há praticamente sobreviventes.

Falamos do conto de 1898
O Naufrágio do Titan (Futility, The Wreck of the Titan)

de Morgan Robertson, que antecede em 13 ou 14 anos o desastre do Titanic, que ocorre em 1912.
Para não ser encarado de outra forma, tenta-se que seja visto como uma coincidência algo natural(*)... mas nunca o vemos referido nos inúmeros documentários e outro folclore que se construiu à volta desta história trágico-marítima do Titanic. 

Para quem conhece a história... algumas passagens logo no Cap. 1 soam claramente a antecipação:
She was the largest craft afloat (...) Two brass bands, two orchestras (...)
With nine compartments flooded the ship would still float, and so no known accident of the sea could possibly fill this many, the steamship Titan was considered practically unsinkable.
She was eight hundred feet long, of seventy thousand tons displacement, seventy-five thousand horse-power, and on her trial trip had steamed at a rate of twenty-five knots an hour over the bottom(...)
Unsinkable - indestructible, she carried as few boats as would satisfy the laws. These, twenty-four in number (...)
Morgan referia-se ao imaginado Titan, mas depois sabemos que o Titanic seria também o maior navio, com duas orquestras (que tocavam separadamente), acabou por afundar com 5 compartimentos (Morgan previa que o embate num iceberg afectasse apenas 3). Ambos foram considerados não-afundáveis, tinham mais 800 pés de comprimento, deslocavam perto de 70 mil toneladas, viajavam a 25 nós. Como já dissemos, sendo considerados não-afundáveis, levavam menos botes salva-vidas que o necessário.

Para uma lista de semelhanças mais detalhada, pode consultar-se a wikipedia, ou o texto do Prof. Flavio Cenni, devendo notar-se que às edições originais de 1898, seguiram-se edições posteriores... com a eventual suspeita de pequenas alterações para conjugar com o acidente. 
A notícia portuguesa (de onde parti) fala do "conto escrito em 1908" (ou seja 4 anos antes e não 14)... o que dá uma razoável diferença, e fica a dúvida...
Notícia do Titanic, que menciona o conto de antecipação de Morgan.
(retirado do blog delitodeopiniao.blogs.sapo.pt)

Houve um claro interesse posterior em vender o livro de Morgan, dadas as semelhanças com o naufrágio do Titanic... e como não parecem estar disponíveis versões de 1898, as que circulam com data posterior sofrem da suspeita de aproveitamento editorial subsequente.

De qualquer forma, é também interessante que Morgan Robertson tenha ainda feito um conto que fala de uma guerra com o Japão e um ataque a São Francisco (e não a Pearl Harbour), e que outros contos seus podem estar na origem das histórias da "Lagoa Azul" e de Tarzan. 
O nome de Morgan aparece ainda ligado à invenção dos periscópios... mas ele não terá antevisto que a entrada dos EUA na 1ª Guerra Mundial seria motivada pela acção de um submarino alemão, que levou ao afundamento de um outro navio, o Lusitania, em 1915, com um número de baixas quase semelhante ao do Titanic... na realidade Morgan morre dois meses antes disso acontecer.

Titan - hic (aqui)... quando hoje, 15 de Abril de 2012, Saturno, não o líder dos Titãs, mas sim o planeta, está em oposição ao Sol. Na efeméride, vista de Saturno, a Terra estará em conjunção com o Sol... dificilmente seria mesmo um ponto em trânsito no disco solar, pois o Sol visto dos planetas exteriores é praticamente uma estrela suprabrilhante (ver "pôr-do-sol marciano").



(*) Nota: Para efeitos de coincidência é deveras notável...
Conhecemos algum conto que tivesse encenado (antes de ocorrer) a queda de um Cessna a caminho do Porto com a morte de um primeiro-ministro? Ou um outro conto que tivesse previsto a queda de um avião presidencial polaco a caminho de uma homenagem a oficiais polacos mortos na 2ª Guerra Mundial? Ou um conto que tivesse sugerido que um presidente americano haveria de ser alvejado num desfile em Dallas?
- Eu não conheço... e se existissem, deveriam ser também vistos como naturais coincidências, como um instinto fatal?


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Trânsito de Vénus

Tem sido habitualmente especulado sobre alinhamentos em 2012, em particular em 21 de Dezembro de 2012... porém convém notar que nada de notável está previsto para essa data.
Acontecem alguns alinhamentos interessantes em 2012, sim, mas antes de Dezembro...
A mais notável efeméride será o trânsito de Vénus (pelo Sol), que ocorrerá em 6/6/12... já que só se voltará a repetir no próximo século, em 2117 e 2125.

Independentemente de se acreditar ou não que os alinhamentos planetários têm alguma influência física, eles tiveram e têm uma influência humana, no sentido em que houve e há quem altere o seu comportamento devido a eles. A astronomia teve sempre uma componente astrológica desde o momento em que alguém associou uma efeméride planetária a um acontecimento humano. 

Na pseudo-mitologia para o ano 2012 está um propalado início do calendário Maia. 
Só se começou a falar disso depois de passar a previsão apocalíptica de 2000... ainda que uma eventual Odisseia espacial de 2001, pode ter ocorrido como pseudo-Ilíada de 2001 sobre as Torraltas. 
As Torres Altas de Tróia, as duas Torraltas de Tróia, ou que duas torres altas?
lol ... havendo desde 2001 quem veja neste símbolo lots-of-laughs.

Calendário Chinês
Um outro calendário antigo é o chinês, cuja origem tem sido fonte de especulação e dúvida. Supõe-se que teria tido início num antigo alinhamento notável dos 5 planetas visíveis, juntamente com Sol e Lua. 
Em 1993 dois astrónomos do JPL-NASA, K. Pang e J. Bangert sugeriram que isso pode ter acontecido em 1953 a.C., o que dá um 3965 anos passados, ainda assim diferente do valor actual 4709 anos lunares, se atendermos a que isso corresponderia a ~ 4564 anos solares, ou seja uma diferença superior a 500 anos para essa hipótese. No entanto, K. Pang encontrou uma passagem num texto antigo de Hong Fan Zhuan (Séc. I a. C), que dizia:  
"The Ancient Zhuanxu calendar (invented in about 2000 B.C.) began at dawn, in the beginning of spring, when the sun, new moon and five planets gathered in the constellation Yingshi (Pegasus.)"  
Por isso, há alguma sustentação nessa hipótese de início do calendário por alinhamento na constelação de Pegasus ou Peixes, numa madrugada equinocial por volta de 2000 a.C. De qualquer forma, os cálculos usados hoje são sempre especulativos, até pela falta de informação sobre a inclinação do eixo da Terra, ou pela simples admissão de que nada teria mudado em 4000 anos.

É importante notar ainda que os chineses chamariam ao velho calendário lunar Yin, enquanto o calendário solar seria o Yang, na célebre dualidade oriental Yin/Yang (aqui Lua/Sol) expressa no símbolo


Trânsito de Vénus
Os trânsitos de Vénus pelo Sol foram importantes para definir as distâncias planetárias, mas também tiveram o seu papel de astrologia política... para isso basta notar que em 1769 é justamente Cook que irá ao Taiti fazer as medições astronómicas.
Independentemente do significado astronómico, há aqui um significado político, sendo Cook a regressar ao Pacífico "nunca antes navegado" para marcar o evento à escala planetária.

A última vez que o trânsito ocorreu foi em 8/6/2004... antes disto tinha sido em 1769 e no Séc. XIX (9/12/1874 e 6/12/1882), e depois de 2012 só voltará a ocorrer no Séc. XXII (11/12/2117 e 8/12/2125). Não ocorreu nenhuma vez durante o Séc. XX. [Consultar a lista com os trânsitos de Vénus previstos pela NASA]

Em 2012 de novo Vénus irá aparecer como um pequeno ponto negro à frente do Sol, visível ao nascer do Sol nesse dia, na zona do Pacífico. Esta passagem demora 6 horas, sendo visível onde ocorrer o pôr/nascer do Sol, entre as 22h da noite e 4h da manhã - no caso de Portugal não será visível!
Agora, em Abril, ainda é possível ver Vénus bem alto no céu, ao pôr do Sol, mas rapidamente irá descer e aproximar-se do Sol poente, nesse dia 6/6/12 passará de estrela da tarde (Hesper) a estrela da manhã (Lucifer, Phosphorus), como acontece periodicamente, com a única diferença que desta vez passa mesmo em frente do Sol nesse percurso - o chamado trânsito.

Segunda Lua - Cruithne
É dito que os "antigos" teriam visto Vénus como uma segunda Lua, pela intensidade do seu brilho, que resulta de ser o corpo celeste de grandes dimensões que mais se aproxima da Terra, excluindo a Lua.
Já Julio Verne (no livro "Da Terra à Lua") conjecturava sobre a existência de uma "pequena segunda Lua":

"Is it possible!" exclaimed Michel Ardan; "the Earth then has two moons like Neptune?"
"Yes, my friends, two moons, though it passes generally for having only one; but this second moon is so small, and its speed so great, that the inhabitants of the Earth cannot see it."

Recentemente foram descobertos pequenos corpos que podem ser vistos como "segundas Luas" da Terra, sendo muito pequenos. Um deles é o Asteróide 3753-Cruithne (de 5 km de diâmetro)

que apesar de não orbitar à volta da Terra, acaba por fazê-lo de forma aparente. Por outro lado, em 2010 descobriu-se um asteróide ainda mais pequeno (300 metros) 2010-TK7 que partilha a mesma órbita terrestre, numa posição que lhe permite não ser atraído nem pela Terra nem pelo Sol. É chamado asteróide-troiano, já que se encontra dissimuladamente na mesma zona orbital, num ponto lagrangiano. Estas zonas orbitais - pontos lagrangianos - podem ser usadas como entradas em "auto-estradas planetárias".

Julio Verne pensava noutro tipo de segunda Lua, mas estes objectos servem para analogia da sua "antecipação". Convém notar que não seria completamente impossível haver uma segunda Lua escondida à visão da Terra... bastaria que estivesse ocultada atrás da primeira, seguindo a mesma órbita a distância quase fixa - e para efeitos de ocultação visual, até poderia ser uma segunda Terra! Mecanicamente não seria impossível ter um conjunto de três corpos sincronizados... até no sentido em que a Lua seria o seu centro de massa! Essa hipótese só seria afastada pelas medições exactas da distância da Terra ao Sol, mas daria certamente para interessantes obras de ficção científica... não exactamente no sentido de universos paralelos, como está actualmente na moda (ver p. ex. o filme Another Earth), mas mais no sentido de universos colonizados...

Venus Express e Hubble
Já aqui tinha feito referência à inexplicável ausência de imagens espaciais de Vénus... afinal o planeta mais próximo é aquele de que temos menos imagens (pelo menos dos 5 visíveis a olho nú)!
A Venus Express, sonda da ESA (Agência Espacial Europeia), acabou por revelar algumas imagens melhores, mas ainda assim pouco diferentes das obtidas pelo telescópio Hubble:
 

Vénus: Imagem da ESA (esq.) e Imagem do Hubble (dir.)
... as cores são "falsas" pois são na zona ultravioleta...
... parece ser complicado tirar fotos normais....

São ainda curiosas as imagens de Marte vindas do Hubble, por exemplo:

diz-se que a imagem pode ir do infra-vermelho ao ultra-violeta... ou seja pode ser, ou é, uma imagem obtida com cores reais. Sobre o significado dessas cores azuladas e das nuvens, é interessante ler esta descrição. e ver a imagem da Viking. Na linha menos colorida surgiram outras imagens, com mais definição, mas talvez mais confusão... que vão desviando o olhar dos nossos telescópios.


Outras efemérides em 2012
A configuração aqui mencionada de conjunção entre Vénus, Júpiter e a Lua, irá ser semelhante, mas pela manhã, neste Verão. Vénus irá aproximar-se de novo de Júpiter, que se antecipará... de estrela à tarde, passará a estrela da manhã na transição do dia 13 de Maio de 2012. Ambas serão estrelas da manhã depois do dia 6 de Junho, e em 18 de Junho teremos pela manhã uma lua minguante, seguida de Vénus e Júpiter, um pouco mais acima do horizonte. De forma igualmente interessante será o aspecto da manhã, um mês depois, por volta de 15 de Julho, ou mesmo depois, por volta de 13 de Agosto.

(Não serão visíveis em Portugal: o eclipse anular do Sol a 20 de Maio, o eclipse total do Sol a 13 de Novembro, e o eclipse parcial da Lua a 4 de Junho).

Mais notável será a conjunção (de 1 grau apenas) entre Saturno e Vénus, que ocorre a 27 Novembro, ao mesmo tempo que um eclipse lunar de penumbra será visível no dia seguinte (mesmo na Europa).
A conjunção próxima de dois planetas já foi usada como explicação para a Estrela de Belém, associando a uma conjunção de Júpiter e Saturno no ano 7 a.C. que esteve a 1 grau de distância.
Nesse aspecto, como Vénus é mais brilhante que Jupiter, a prevista para 27 de Novembro de 2012 será mais notável, até porque a Lua também participa ficando sob a penumbra terrestre no dia seguinte.

Estes são os últimos registos de efemérides previstas para 2012 e nenhuma tem o aspecto de "conjunção extraordinária". Curiosamente a data de 21 de Dezembro, mas de 2020... essa sim aparece com uma conjunção notável de Jupiter e Saturno, que ficarão quase como estrela-dupla, separados por apenas um décimo de grau.

Tudo o resto sobre 2012, mais do que astrologia, faz muito parte do folclore financeiro, que vende produtos, vende sonhos, oculta o que importa, e divulga as necessárias distracções para desviar atenções.
Apocalipse significará "revelação"... e isso sim contribuiria para uma mudança de mentalidades - a única revolução que interessaria... recolocar o homem no seu devido lugar, no seu papel único de inteligência, em relação de honestidade e verdade com os seus semelhantes.
Porém, ao contrário, o que vamos vendo é uma reposição do homem nos seus instintos mais primários de índole animal, na linha da selecção natural... sobreviver ou usar a inteligência para se tornar num animal superior (o melhor da vizinhança) ou numa espécie superior (pertence a uma elite)!
Esse é um caminho sem destino e sem fim... conforme já referi, para além da inteligência, há apenas inteligência. Só a farsa alimenta uma ilusão evolutiva, com níveis, classes ou castas... e mesmo os mais crentes parecem esquecer o detalhe da criação - fomos feitos à imagem de Deus - e certamente isso não se referia ao aspecto físico!... Tudo o resto é uma questão de tempo, e equilíbrio... só teme a morte quem não pensou nos detalhes pouco simpáticos da eternidade. Por isso, Saturno pode ter cedido de bom grado o papel divinal ao filho Júpiter, e ter decidido viver com os humanos no Lácio... mas é ele enquanto Cronos que define a linha temporal - um simples corte de Úrano.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Trago, Sol e Lua

Para além dos subsídios ao vinho do Porto por Methuen, convirá não esquecer o vinho de Colares.

No plano de fabricar o que falecia a Lisboa, Francisco de Holanda, em 1571, vai lembrar-se de juntar um projecto nos arredores de Lisboa... na foz do Rio Colares, ou seja na Praia das Maçãs, perto do Cabo da Roca. Eis o que Francisco de Holanda propõe a D. Sebastião:
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DOS CIPOS DO SOL E LUA
Outra memória de basas digna de lembrar e de imitar dos fiéis, faziam os antigos e infiéis, como eu vi, quando me o Infante Dom Luis, vosso tio, que Deus tem, levou a mostrar a Serra de Syntra, mandando-me para isso chamar a Lysboa, quando vim de Italia. E vimos na foz do rio de Colares, prezada noutro tempo dos romanos, sobre um pequeno outeiro junto ao mar Oceano, um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram aquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao 
SOL ETERNO E A LVA (*)
a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado. 
O que nós espiritualmente podemos converter nos cipos ou embasamentos dos pés das cruzes que digo, em louvor e memória do verdadeiro SOL de justiça IESV CHRISTO, e da verdadeira e sempre cheia da sua graça S. MARIA N. SÑORA como se pode considerar deste desenho.
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O desenho de Holanda é o que coloquei em cima (à esquerda), e está de tal forma informativo que não me restam dúvidas sobre a localização do antigo templo dedicado ao Sol e à Lua, pelo que coloquei uma imagem do Google Earth da Praia das Maçãs (à direita), onde se vê o referido outeiro... felizmente está ainda incólume, alguém parece ter tido o cuidado de resistir à profanação do lugar, já que a sua localização era demasiado tentadora para um empreendimento hoteleiro ou turístico.

Para se compreender a importância do local, uso o Vocabulário Português de Raphael Bluteau (1720):
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Serra de Sintra. Segundo Dom Fr. Amador Arraiz, nos seus Diálogos, pág. 111 col. 2, chamou Varro à Serra de Sintra o Monte Trago, outros lhe chamaram o Monte Scynthia, ou mais propriamente Cinthia, isto é da Lua, donde sai o Cabo chamado da Lua (em Latim, Promontorium Lunae)  para o Oceano; nas raízes deste Cabo, na praia, esteve antigamente o Templo do Sol e da Lua, venerado com suma religião.
A inscrição do templo, que (segundo o dito autor) ainda hoje se vê, diz assim:
Soli aeterno & Lunae
Pro aeternitate Imperii,
Et salute Imp. Cai. Septimii Severi Augusti Pii & 
Imp. Caes. M. Aurelis Antonini, &c.
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Portanto, entre os imperadores que estiveram em culto na praia do Monte Trago ou Cynthia, contavam-se Sétimo Severo e Marco Aurélio.
As pedras estiveram lá e foram vistas por Francisco Holanda antes de 1571 e por Frei Amador Arrais antes de 1589. Não é claro se ainda eram visíveis ou não quando escreve Bluteau... e se resistiram ao período filipino, talvez não tenham resistido depois ao maremoto do Marquês. Hoje é suposto terem desaparecido sem rasto, ainda que seja mais ou menos óbvio que haverá quem saiba o que lhes aconteceu!

A proposta de Holanda era a de uma conversão forçada ao Cristianismo... a fonte de luz, o Sol, era Jesus Cristo, e a Lua passaria a ser Santa Maria. Não haveria uma destruição do espaço, mas sim uma adaptação conveniente. No entanto, o original tem algo a acrescentar...

Cynthia é um nome alternativo de Artemisa, ou Diana, a deusa da caça... associada à Lua.
Poderíamos ficar por aqui, estabelecendo a derivação do nome do monte... de Cynthia em Cintra.
Porém, a lenda é um pouco mais interessante e sem esforço presta-se a um ajustamento.

O nome alternativo resulta ele próprio de um monte... do monte Cyntho refúgio onde Leto, deusa-titã associada ao anoitecer, escapou de Hera e da Python para gerar os gémeos Apolo e Artemisa.
Se atendermos a que o anoitecer é o poente... o ocidente, e no monte de refúgio nascem o Sol (Apolo) e a Lua (Artemisa)... não vejo então outra possibilidade que não seja Sintra!
Compreende-se assim que Plínio fale no Cabo da Roca como linha divisória entre a terra, o mar e os céus.
Quanto à terra e mar, não havia grandes questões, mas os céus só faz sentido associando-lhe o nascimento dos principais astros... o Sol-Apolo e a Lua-Artemisa. Ambos os gémeos ficam do lado de Tróia...

Leto não é uma deusa fácil... os rudes camponeses da Lycia (ver crux com Lusia... lusitanos) talvez importunados por serem arrastados para um conflito dela com Hera, negam-lhe água e por isso são transformados em sapos...
Leto (ou Latona) e os camponeses da Lycia.

Não consta aplicar-se aqui a quebra do feitiço com um beijo principesco, e talvez a Roca de Sintra simbolize afinal um adormecimento do reino, que ficou à espera do beijo do Princípe Encantado. Acresce a isso o próprio nome Leto estar associado a Lethes... o esquecimento!

Independentemente disso, é bastante verosímel que Marco Aurélio, entre outros imperadores, tenha honrado o local onde a deusa do entardecer, Leto, teria feito nascer os seus filhos Sol e Lua... um santuário num pequeno outeiro da praia das Maçãs, e o fruto pode indicar implicitamente que antes desses imperadores, terá sido Hércules um seu visitante, em busca dos pomos de ouro!
Para não meter a mão na massa bolonhesa, seguimos a laranja e omitimos o tomate, em italiano pomodoro.

quinta-feira, 29 de março de 2012

a pena sobre a pena

Sobre o extinto Mosteiro de Nª Srª da Pena (Sintra) citamos o Arquivo da Torre do Tombo:
  • Em 1503, foi fundado por iniciativa do rei D. Manuel, sucedendo a uma capela ou ermida edificada no alto da Serra de Sintra, dedicada a Nossa Senhora, entregando-a aos monges hieronomitas. As obras de construção, projectadas pelo arquitecto italiano João Potassi, tiveram início em 1503, e oito anos depois estavam concluídas. 
  • Em 1513, a comunidade era composta por dezoito frades. 
  • Em 1755, o mosteiro sofreu ruína devido ao terramoto, e reduzido a 5 monges. 
  • O mosteiro já estava desabitado aquando da extinção das ordens religiosas. 
A Ordem de São Jerónimo recebe dupla atenção no apogeu dos Descobrimentos, este notável Mosteiro de Nª Srª da Pena e é claro o monumental Mosteiro dos Jerónimos.
Não é completamente claro qual era a extensão da ruína provocada pelo Terramoto de 1755, especialmente não é visível nas estampas do Séc. XIX anteriores à sua destruição e construção do Palácio da Pena.
O monumental Mosteiro de Nª Srª da Pena 
antes da substituição pelo Palácio da Pena.
(W. Burnett, c.1834, Bibl. Nacional)

O consenso que se gerou na substituição pelo novo Palácio parece ter feito esquecer a pena que caiu sobre a Pena, e acrescenta-se que uma parte da capela antiga foi inclusa na nova construção. É sempre algo curioso que no meio de tanta serra e tanto espaço, a construção de um novo edifício seja feita exactamente por cima do anterior.

Nas estampas de Burnett de 1834 é ainda possível ver este mosteiro ao fundo, ao mesmo tempo que mostra as ruínas da velha capela do Castelo dos Mouros (talvez seja a capela de S. Pedro ... e as colunas de capitéis coríntios sugerem outras moiras!)

Com o movimento liberal e a extinção das ordens religiosas em 1834, o último grito Jerónimo talvez tenha sido colocado ao líder da resistência Apache.

Ligando ao postal anterior... é claro que por estes últimos dias a Lua andou a passear entre Júpiter e Vénus:
A Lua entre Vénus (acima) e Júpiter (abaixo), 
nos dias 25 e 26 de Março de 2012.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Lua, Jupiter, Venus e Pleiades

Só talvez os mais distraídos não terão reparado na singular conjunção dos astros nocturnos mais brilhantes, que tem sido visível nestes últimos dias (final de Fevereiro), logo após o pôr-do-sol.
Deixo aqui uma imagem tirada às 19h20m em Sintra, no dia 26 de Fevereiro:
O Palácio da Pena, Vénus, a Lua crescente, e mais acima Júpiter. (26/02/2012)

Fala-se muito de conjunções, alinhamentos, etc... mas raramente são tão visíveis e singulares como acontece nesta altura. A órbita de Júpiter demora mais de 11 anos, enquanto que a de Vénus é inferior a 8 meses, e Vénus pelo facto de ser um planeta interno, está sempre próximo do Sol, quer como "estrela da manhã" - Lucifer, ou como "estrela da tarde" - Hespero. Assim, no decurso da sua órbita Júpiter ao fim de uma década aproxima-se visualmente de Vénus... seja pela manhã, seja pela tarde. Acontece que agora isto coincide ainda com uma Lua próxima em fase de quarto crescente, e voltará a repetir-se em Março...

Aquilo que vimos neste sábado (25/02) e domingo (26/02) foi praticamente isto:
 
25 e 26 de Fevereiro de 2012

... depois a Lua afasta-se, e Jupiter e Venus aproximam-se bastante sendo que nesta altura as Pleiades estão perto do Sol, dado estarmos próximo de entrar no signo de Touro. 
A 12 de Março de 2012 vai dar-se essa maior aproximação que será curiosa pois parecerá Júpiter e Vénus como estrela dupla bem brilhante. 

 
12 de Março de 2012

Mais interessante, é que daqui a um mês a Lua regressa... e por volta de 25 de Março, devemos ver isto:
25 de Março de 2012

Um pequeno alinhamento notável com Vénus (e Pleiades) posicionado na direcção do crescente lunar, e com Júpiter a seu lado. 

Pegamos agora no símbolo de Sintra:
para encontrar uma imagem tipicamente associada a origens mouras... um crescente com uma estrela acima!
Bom, serão mais dois crescentes com duas estrelas... mas se podemos ter duas estrelas vistas como sendo Júpiter e Vénus, já é mais complicado ter duas luas em crescente! 
É claro que estas representações lunares são mais frequentes em bandeiras de países islâmicos (ver Mauritânia e Turquemenistão, por exemplo), mas encontram-se ainda em tradições de brasões de vilas portuguesas, como no caso de Sintra.

Não deixa de ser curioso, se pensarmos que há algum propósito em guardar religiosamente estes símbolos que apontam para um crescente lunar e uma estrela, e ainda a persistência em usar calendários lunares, nos países islâmicos, ou mesmo orientais - entrámos no ano do Dragão em 23 de Janeiro de 2012.

A data de 25 de Março é ainda curiosa, já que marcaria a criação de Adão, de acordo com o venerável Beda, sendo que o início do universo era apontado por este para 18 de Março. Aliás o dia 1 de Abril é considerado "dia de mentira", porque houve uma transformação do calendário que passou o início do ano para 1 de Janeiro, e dessa forma o correspondente a 25 de Dezembro seria exactamente 25 de Março!

Durante este mês de Março aparecerá ainda Mercúrio... este ainda mais próximo do Sol do que Vénus, e os outros planetas visíveis - Marte e Saturno, são ainda visíveis - Marte em simultâneo com os restantes (mas em lado oposto), enquanto que Saturno, aparece mais tarde, estando há muito colado à estrela Spica:
Tra la spica e la man, qual muro è messo!  (ver aqui)

Há obviamente quem não ligue nenhuma a esta questão estelar, e quem ligue em demasia...
Em certa objectividade científica é suposto não haver qualquer influência planetária nos homens, e porém há alguns detalhes que mostram não ser bem assim. O período lunar de 28 dias está demasiado próximo de um ciclo menstrual para ser desconsiderado como mera casualidade lunar... e se a influência da Lua é demasiado óbvia para que não deva ser ignorada, no caso dos planetas pareceria que nada os distinguiria de outras estrelas para merecerem distinção não astronómica.

Porém, todos sabemos, desde muito cedo que as estrelas cintilam e os planetas não...
Ora, isso nada tem a ver com as estrelas ou com os planetas... tem a ver directamente connosco.
Fossem os nossos globos oculares maiores e as estrelas não cintilariam - seriam pontos de luz semelhantes a qualquer planeta. É a reduzida dimensão dos nossos olhos que impede visualizar correctamente as estrelas mais distantes... é essa limitação que nos permite identificar facilmente os planetas, pela particularidade das restantes estrelas cintilarem na nossa visão. 
Pode ser obviamente casual esta relação entre a nossa capacidade visual e a distinção estrela/planeta... mas se fosse um pouco melhor ambos não cintilariam, e fosse um pouco pior todos cintilariam. 
Casualmente, ou não, acabámos por ficar num meio termo que sempre nos permitiu identificar os 5 planetas (Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno) das restantes estrelas, sem que se percebesse nenhum interesse prático para tal dom...