quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Degraus da Maia

Na Ilha de Santa Maria (Açores), houve este ano uma competição desportiva intitulada

"Subida dos Degraus da Maia"
Degraus da Maia (Sta. Maria, Açores)

Primeiro, convém dizer que é uma excelente iniciativa para divulgar e proteger património, e depois levanta algum espanto pelas imagens conseguidas, quase lembrando outras escadarias maias...
Tratam-se de escadarias de acesso aos "currais de vinha", nas fajãs entre Santo Espírito e Maia, na Ilha de Santa Maria.

As construções em escada, definindo os tais "currais" onde são feitas as plantações em terrenos íngremes tornam-se num prodígio monumental de grandes dimensões, e espalha-se por Portugal, seja na região insular, seja no continente.
O conjunto global definido na Ilha do Pico foi classificado na lista WHC:

... e dadas as fotos que vi, devo dizer que me impressionam mais os "degraus da Maia".
No entanto, olhando por dentro o documento de candidatura (muito bem feito), encontramos já algo mais interessante, vemos a extensão de pedra que constituem aquelas construções quadriculadas:

E não deixamos de fazer notar um pormenor, que aparece na página 81. Realçando os trabalhos de alvernaria em basalto, encontram-se estas inscrições:
Ora, no contexto da história conhecida da Ilha do Pico, o ANO 682, apenas se poderá referir a 1682, e na pedra seguinte aparece "I682Z", não podendo ser 16822... parece insistir no "fazer 682".
Como já se sugeriu que os Açores fossem as romanas ilhas Cassetérides, e dada o achado de moedas fenícias nas ilhas açorianas, não é de excluir que as ilhas fossem habitadas mesmo em 682 por população lusitana-sueva.

Regressando aos "Degraus da Maia", é bem sabido que nas antigas representações de portulanos apareciam as misteriosas ilhas Brasil, Maida, e outras. 
- A semelhança de Maida com o nome Maia é evidente, e podemos conjecturar que inicialmente se possa ter referido à Ilha de Santa Maria, atendendo a que mantém uma região com o nome Maia. Poderia referir-se até ao conjunto São Miguel e Santa Maria, pois por vezes fala-se em duas Maidas.
- No artigo que citei sobre a Ilha Brasil, aparece uma outra associação interessante, que é existir ainda um Monte Brasil em Angra do Heroísmo, e portanto a "Terceira" teria perdido o nome original para uma enumeração "Terceira". Brasil vem ainda de "brasa", podendo referir-se à actividade vulcânica, ainda presente no Faial. 

De qualquer forma, essas ilhas "fantásticas" foram aparecendo em mapas até mesmo ao início do Séc. XX, numa altura em que as navegações transatlânticas eram muito frequentes, levando um sem número de imigrantes para os EUA. Por isso, não é de excluir por completo que tais formações não existam mesmo... se atendermos à quantidade de segredinhos que permanecem, nada mais fácil que não mencionar ilhas que não estão nas rotas autorizadas aos navios. Não é muito provável, mas não é impossível.

Conforme referi aqui, ainda que originalmente se possam ter referido a ilhas existentes, as designações Maidas, Brasil, Verde, etc... passaram a servir muito mais como codificações de terras desconhecidas, apontando nos mapas pontos de referência para direcções de navegação, e não propriamente ilhas verdadeiras.

É claro que Madeira e Açores devem ter sido navegados e talvez povoados mesmo na Antiguidade. Da mesma forma que os polinésios navegaram pelo Pacífico, estabelecendo-se nas mais variadas e dispersas ilhas, os europeus tinham maior capacidade de o fazer no mais pequeno Atlântico. Há uma questão de bom senso que se sobrepõe às outras considerações documentais de propositada ocultação. A tentativa de ocultação no caso das Canárias levou à dizimação dos Guanches, povo que habitava as Canárias, à altura de invasão espanhola - uma assinatura de holocausto que depois se veio a repetir com Aztecas e Incas.

Acresce que os portugueses terão sido apenas os que se estabeleceram definitivamente nas ilhas, mas restam nomes que indicam outras proveniências, é o caso da zona da Bretanha, na Ilha de São Miguel. O sotaque carregado típico dessa ilha será talvez pronúncia estrangeira ou deslocada da nossa língua. Nas restantes ilhas dos Açores isso não ocorre.
As investigações recentes nos Açores da APIA (que aqui falámos), tiveram uma resposta oficiosa por parte de Francisco Maduro Dias, presidente do Instituto Histórico da Terceira, que identificou as construções como obras militares dos Séc. XVI ou XVII. E, como é sabido, estes processos entram facilmente em controvérsia académica, a menos que as provas apresentadas tornem evidente a origem. 
Assim, mais do que qualquer outra prova, aquilo que favorece a tese de pré-ocupação das ilhas da Macaronésia é a sua probabilidade elevada no contexto de navegações de povos marítimos, gregos, fenícios, ou romanos, e o contraponto com a colonização polinésia ocorrida no Pacífico.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Apollo 18

Ao contrário do Apollo 13, um típico filme de Hollywood com a famosa frase "Houston, we have a problem", o mais recente filme Apollo 18, lançado o ano passado, 2011, leva os problemas um pouco mais longe ao jeito "we have an ET problem", o que deixou a NASA algo desconfortável, havendo mesmo uma página para esclarecer que tendo sido canceladas 3 das 20 missões previstas, a Apollo 18 nunca esteve planeada... isto para esclarecer a afirmação feita no final do filme - de que os astronautas enviados teriam morrido prematuramente.


É claro que ainda que a explicação da NASA seja assertiva, há dois assuntos abordados no filme que não deixarão de exercitar a especulação: a não ida dos russos à Lua, e o fim da exploração lunar.
Isso já para não falar na dificuldade que a NASA tem em explicar as diversas inconsistências que aparecem nas fotos e filmes que lançaram. A explicação com Kubrick parece-me a mais interessante.

Por mero acaso, fui dar com uma página web que tem um logotipo "falso" da missão Apollo 17:

  
Apollo 17: logotipo oficial e "falso"...

Este tipo de coisas acontece bastante. Pode ser uma brincadeira inicial que depois ganha outras proporções, por divulgação sem a mínima verificação. Nesse mesmo site aparece uma carta de Buzz Aldrin endereçada a L. Smith, falando do General Kleinknecht, e informando-o de que teria levado uma bandeira maçónica no vôo lunar da Apollo 11:

Dado o outro problema, poderíamos duvidar da autenticidade desta carta. Mas, atendendo a que, como o próprio site refere, os astronautas também levaram uma bandeira do Vaticano, agora exposta, e ao que parece terão mesmo levado bandeiras de 135 países! Por que não a do Rito Escocês?
Sendo verdadeira a carta, mostra só o problema da influência destas organizações, estando presentes em todos os momentos, com alguém de confiança.

O site tem ainda uma observação interessante - o que faz a constelação de Orion na insígnia da missão Apollo?

Ou seja, seria apenas estética colocar o destino Terra - Lua, passando pelo cinto de Orion, as chamadas "três marias"? Mitologicamente, numa das versões, Orion era um caçador que teria uma atracção pela deusa da Lua - Artemisa, que se livrou dele por influência de Apolo.
No entanto, é abusar da especulação escolher aquele logotipo, dando relevo a uma constelação em particular, e despropositadamente colocando-a entre a Terra e a Lua.

Aproveito este tópico para o último eclipse lunar deste ano, que se dará amanhã, a 28 de Novembro, e ainda que não possa ser visto em Portugal, é-o na maioria da Europa. Por outro lado, temos a conjunção de Saturno e Vénus, apenas a 1º de diferença, e a aproximação da Lua a Júpiter... uma combinação notável nestes dias.

Talvez aquilo que seja mais intrigante na Lua é a sua grande dimensão, que permite eclipses quase perfeitos. Proporcionalmente, seria como Júpiter ter um satélite do tamanho de Úrano... 
A Lua sendo 1/4 da Terra tem dimensões semelhantes a Mercúrio que é 1/3, ou até a Marte, que é  apenas metade, e por isso pode ser considerada um planeta menor, ainda que seja ligeiramente mais pequena que Ganimedes e Titã (satélites de Júpiter e Saturno), que são quase da dimensão de Marte e maiores que Mercúrio. 
Comparação entre a Lua, Ganimedes e a Terra

O sistema Terra-Lua aparece assim como particularmente instável. Os planetas interiores, Vénus e Mercúrio não têm nenhum satélite natural, e os outros planetas têm satélites comparativamente muito mais pequenos na proporção 1/20 (caso de Júpiter e Saturno) e não 1/4, como no caso da Terra. As instabilidades orbitais nem permitem satélites de satélites, pelo menos de dimensões razoáveis - excluímos os satélites artificiais, é claro. 
O centro de massa do sistema ainda está dentro da Terra, mas à superfície, pelo que basicamente a Terra oscila também, aproximando-se ligeiramente do Sol em dias de Lua cheia, e afastando-se nos de Lua nova, numa alteração de 10 mil Km, que é insignificante, face à alteração de 5 milhões, 500 vezes superior, entre solstícios de inverno (afélio) e verão (periélio).
Este sistema dançante, muito bem coordenado, pode ser destabilizado por pequenas alterações, e talvez uma das maiores preocupações nas viagens Terra-Lua devesse ser mesmo evitar mexer muito... reduzindo as influências orbitais ao mínimo. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Djulirri - caverna aboriginal

... e se, de repente, se encontrasse no meio de inscrições pré-históricas, desenhos de barcos, aviões e outros artefactos modernos?
Foi o que aconteceu em nas cavernas de Djulirri em Arnhem Land (Australia). As pinturas aborígenes continham várias camadas, e apareciam bem desenhados, navios, cruzadores, aviões, e outras novidades típicas do início do Séc. XX.
Daryl Guse apresenta as inscrições aborígenes "mais recentes".

Coloco aqui os links para os textos na imprensa australiana (2008):

e vídeos associados:

De acordo com Paul Taçon, um dos arqueólogos que exploraram o local, tratar-se-ia de uma caverna que servia de "santuário histórico", apresentando ilustrações significativas de contactos marítimos, ao longo dos últimos séculos, que se sobrepunham a muitas outras camadas mais antigas, estimadas até 15 000 anos. 
Em particular, Taçon afirma que os contactos marítimos com o Sudoeste Asiático seriam anteriores à chegada dos Europeus. Um dos barcos europeus está numa camada antiga, e o desenho terá sido considerado anterior a 1650, por datação carbono-14 dos restos de uma serpente que estava em camada superior.  
O sítio tinha sido já revelado nos anos 1970, mas ter-se-à perdido a localização até à nova expedição recente de Guse... por vezes perdem-se localizações, mesmo em tempos recentes.

As inscrições mais recentes, que mostram a maquinaria estrangeira do início do Séc. XX, foram feitas a giz, um mesmo giz que noutros pontos mantinha o traço abstracto, algo infantil, nas representações humanas. Taçon refere, algo surpreendido, que o local estava a 12 Km do mar, e seria uma proeza recordar em detalhe as imagens para os desenhos de tal precisão. Eu acho que bastaria que as figuras fossem copiadas de uma revista, de um livro, ou de fotografias... que já existiam à época. Os desenhos recentes mostram um conhecimento de perspectiva e realismo que está ausente das outras inscrições, que são muito mais pictóricas.

O sítio é de facto notável, e único, ao combinar todo um registo histórico milenar. Não conheço outros locais que inscrevam informação ao longo de milhares de anos. Curiosamente, a sua protecção acabará por estragar esse carácter único... ou seja, a história deixará de ser registada naquele local. A partir daqui, toda a nova inscrição é natural que seja reprimida.
O local mostra ainda que os aborígenes guardavam-se no interior, mas tinham contactos e informações costeiras. Aquilo que foi mostrado não revela contactos marítimos muito anteriores aos Europeus, não provocando embaraços históricos... ou seja, não vemos nenhum desenho de nenhum trirreme romano!
Também as datações parecem não ofender muito os registos oficiais, e os contactos anteriores com o Sudoeste Asiático não constituem propriamente nenhuma surpresa. Seria comprometedor se as datações revelassem pinturas de navios com milhares de anos, mas assim o local aparece apenas como interessante.

E, assim por acaso, num outro artigo, no "The Independent" (11/6/2011), em que Taçon fala genericamente do perigo de se perderem as gravações indígenas, vemos ilustrada esta singela caravela:

É pena que não tenhamos o comentário vídeo de Taçon ou de Guse sobre este desenho... que não aparece nos outros documentários. Será uma caravela moderna, inglesa? Ou será uma prova de que as nossas caravelas do Séc. XV andaram por ali? 
Dito isto, já não me pronuncio sobre os trirremes...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cão Grande e monólitos

Quem visitou o Rio de Janeiro não pode deixar de se impressionar com a imponência dos morros, enormes monólitos que se erguem quase do nada, entre os quais o Pão de Açucar será o mais famoso mundialmente. De entre os monólitos temos ainda a famosa Torre do Diabo (Devils Tower, Wyoming),    associada ao filme "Encontros do 3º Grau", que serviu o imaginário da ficção científica, levando a ligação de monólito de "2001, Odisseia no Espaço" a uma formação geológica particular. 
Igualmente famoso e místico temos o Uluru (Ayers Rock) ou o Monte Augustus (Austrália).

Podemos continuar com o famoso Rochedo de Gibraltar, com o El Capitan (Yosemite Park), ou ainda com as Torres del Paine (Patagónia, Chile).
Encontrei um link que fez uma classificação dos 10 maiores monólitos do mundo... 
Claro que estas "classificações" têm alguma subjectividade, mas encontram-se formações menos conhecidas internacionalmente... sendo claro que não são desconhecidas dos habitantes locais, e dos turistas acidentais. Não me lembro de ter ouvido falar de: 

Estes exemplos mostram como se sabe pouco da maioria dos países "não importantes", apesar da importância que os locais atribuem aos seus monumentos.
Ainda que não constem da lista Top10, mesmo na Europa, também há formações notáveis que não têm propriamente uma grande divulgação (por exemplo, o Mont Aiguille, ou o Ben Bulben), ao contrário de outras (por exemplo, o Monte Cervino).

Porém, há uma (aliás várias...) formação rochosa em S. Tomé e Príncipe que surpreende por completo!
Falamos do enorme monólito vertical (663 m) que é o Pico do Cão Grande (o maior, mas há outros). 


Pico do Cão Grande e formações fálicas semelhantes (Ilha de S. Tomé).

A propósito do "alinhamento piramidal" já tínhamos aqui falado de S. Tomé e Príncipe, do Ilhéu das Rolas, e ninguém duvidaria do esplendor das suas praias tropicais... porém, estes incríveis monólitos surpreendem pela sua elevação abrupta, batendo os restantes da lista do Top10... só se lhes assemelha o o Morro do Pico (Fernando de Noronha), que também se ergue mais de 300 metros na vertical:
Morro do Pico (Fernando de Noronha, Brasil)

Mesmo assim, a forma como se ergue o Cão Grande, ou os outros monólitos de S. Tomé, é bem mais notável, desafiando não apenas a geologia, mas também a gravidade.
Sendo o turismo uma indústria importante nos tempos modernos, seria de perguntar por que razão S. Tomé não se apresenta como destino mostrando aquelas fotos... porém, há até alguma dificuldade em encontrá-las! Parece que se trata de mais um segredo... de Polichinelo, é claro!

As navegações portuguesas parece que estiveram na rota destes monólitos... e os franceses insistiram bastante na vontade de tomar como sua a zona do Rio de Janeiro, a que chamaram curiosamente "França Antártica".  Primeiro entre 1555-60, depois durante a Guerra de Sucessão Espanhola entre 1710-11. Se havia algum "destino monolítico", compreende-se que não se quisesse divulgar os monólitos de S. Tomé, autênticos arranha-céus rochosos no meio da selva (maiores que o Empire State Building...). Acrescente-se a isso esta imagem do Pico Mesa, numa ilha do Príncipe, igualmente notável 
Ilha do Príncipe: Pico Mesa (imagem daqui)

Terminamos com uma imagem do estudo geográfico de F. Tenreiro (1961), sobre a diagonal dos Camarões:

onde se evidencia a ligação entre o Monte Camarões (conhecido com Carro dos Deuses na Antiguidade) e as diversas ilhas: Fernando Pó, Príncipe, São Tomé, e Ano Bom (Annobon). 
Não é de excluir que havendo um "Cão Menor" e um "Cão Grande" estes nomes possam estar algo relacionados com as constelações, sendo Sirius a principal estrela de Canis Major. 




Nota: encontrei acidentalmente estas imagens, tendo encontrado um Ilhéu das Cabras em S. Tomé, quando procurava informação sobre o Ilhéu das Cabras dos Açores, devido a este post (Delito de Opinião).

domingo, 17 de junho de 2012

WHC (2) Villa Romana del Casale

Quando em 1946 o bikini era popularizado associando-o à experiência nuclear no atol de Bikini, já decorriam mais de 15 anos sobre as primeiras escavações em Villa Romana del Casale, na Sicília, e onde se vieram depois a mostrar os seguintes mosaicos:
 
Mosaicos na Sicília com raparigas romanas (séc. IV) usando bikini em diversos jogos

... portanto, a indumentária "explosiva" que saiu dos anos 1940 e se popularizou nas praias nas décadas seguintes, tinha afinal uma tradição perdida em milhares de anos.

Os mosaicos de Villa del Casale são património da UNESCO, constituindo a maior colecção de mosaicos romanos existente. De entre aqueles divulgados, talvez o maior destaque deva ir para a Grande Caccia (Grande Caça)... onde podemos muita caça grossa, alguma fora do circuito habitual do mundo romano:
... elefantes, tigres, antílopes (onix), bisontes, leopardos caçando impalas, leões, rinocerontes, etc.
... e podemos ver como eles eram transportados em carros de bois, e depois em barcos.
 
elefante, camelo, tigre, antílope (onix), bisonte

  
leopardo caçando ímpala, leão, transporte de animais em carros de bois
... e ainda rinocerontes.

Não será propriamente novidade que os circos romanos usavam uma grande variedade de animais, e estes mosaicos acabam por evidenciar a sua captura nas diversas paragens (especialmente africanas, mas devemos considerar ainda asiáticas - devido aos tigres, ou ainda americanas, pelo bisonte...).
Pode argumentar-se que à época romana havia na orla mediterrânica uma maior variedade de animais, que incluíram leões, cuja caça era reportada pelos assírios, ou elefantes, que o cartaginês Aníbal usou no seu avanço sobre Roma... no entanto, a diversidade de animais, com ímpalas, antílopes, tigres, rinocerontes, bisontes, aponta noutro sentido.

Fixemo-nos no caso do rinoceronte, que fez sucesso ao reaparecer um em Lisboa na embaixada destinada ao Papa Leão X, e que levou em 1515 a um desenho de Albrecht Dürer. Para além da representação que vimos no mosaico da Villa Romana del Casale, essa figura podia ser já encontrada em moedas do Imperador Romano Domiciano:

 

Porém são bastante mais notáveis a admiráveis estátuas chinesas de rinocerontes, que remontam ao período da dinastia Han, parecendo haver mesmo registos anteriores, na dinastia Shang:
 
Rinoceronte - estátua chinesa da dinastia Han (séc. II a.C), e da dinastia Shang (séc. MC a.C)

Havendo rinocerontes indianos, é natural que tenham existido rinocerontes na China, e que o mito do unicórnio esteja ligado ao seu singular corno dianteiro. Confunde-se na história uma eventual presença de animais em locais onde agora estão extintos, por resultado da excessiva caça... mas há ainda a possibilidade de transporte dos animais dos seus habitats, atestando uma descoberta ou presença antiga nessas paragens.

É perfeitamente natural que os Romanos não ficassem acima do Trópico de Cancer, e que os fornecedores circenses penetrassem em África e Ásia, para capturar ou comprar animais...
Afinal, o mito medieval de "reencontrar o unicórnio" poderia ser uma alegoria no sentido de reencontrar os antigos destinos, e reencontrar aí o mítico animal perdido no isolamento, que tinha deixado a África e Índia como paragens distantes, até aos (re)descobrimentos quinhentistas.
A descrição de Plínio do unicórnio (monoceros), aponta justamente para o rinoceronte indiano:
«La bête la plus sauvage de l’Inde est le monocéros ; il a le corps du cheval, la tête du cerf, les pieds de l’éléphant, la queue du sanglier ; un mugissement grave, une seule corne noire haute de deux coudées qui se dresse au milieu du front. On dit qu’on ne le prend pas vivant. »

terça-feira, 12 de junho de 2012

Quatro Heras

  • Megasthenes frequently visited Palibothra, the court of the King of Magadha. He was deeply initiated in the study of Indian chronology, and relates
    "how, in past times, the All had three times come to freedom; how three ages of the world had run their course, and how the fourth had begun in his own time" 
(Lassen, Indische Alterthumskunde, bd. i., s. 510).

  • Hesiod`s doctrine of four ages of the world, as connected with four great elementary destructions, which together embrace a period of 18,028 years, is also to be met with among the Mexicans.
(Humboldt, Vues des Cordillères et Monuments des Peuples indigènes de l'Amerique, t. ii., p. 119-129.)


Fronstispicio - Damião de Goes - Chr. Principe D. João

  • (...) Pomponio Mela, gravissimo escritor latino, no seu primeiro Livro, falando da antiguidade dos Egípcios, onde diz que tinham histórias certas de mais de treze mil anos, e o mesmo faz Herodoto no segundo livro da sua história, que escreveu em grego muito antes de Pomponio, e ambos dizem que depois que os Egípcios começaram a ter nome, e ser conhecidos, que o curso do Céu se mudara quatro vezes, pondo-se o Sol duas no lugar onde agora nasce.

(Damião de Goes, Chronica do Principe Dom João, 1567)



quarta-feira, 6 de junho de 2012

Like tears in rain

Estreia amanhã o novo filme de Ridley Scott, Prometheus
e aproveito para falar em Blade Runner, de 1982, um filme de referência no género de antecipação científica... colocada no ano 2019 em L.A. Começa por ser interessante verificar como a arquitectura de cidades de futuro ficou sempre muito aquém do imaginado, desde o princípio do Séc. XX. Encontramos esboços e construções de Corbusier nos anos 1930 mais futuristas do que algumas que existem hoje. O progresso que se antevia generalizado à sociedade acabou por ser muito limitado, e hoje é curioso ver que a maioria das cidades dos EUA exibem padrões parecendo que cristalizaram nos anos 1950-60... até mesmo pela persistência de algum parque automóvel antigo, nomeadamente os autocarros escolares.
A antevisão de 2019 no filme de 1982 não era nada que chocasse muito à época, ou seja não parecia nenhum completo absurdo. Talvez deva chocar mais ver como era errada a antevisão do desenvolvimento tecnológico ao ignorar as condicionantes económicas que já se iam cristalizando, e que serviram de pretexto para hibernar a exploração espacial, e praticamente toda a tecnologia... à excepção da comunicação.
A maioria dos filmes com antevisões científicas levava para sociedades distópicas, com um poder centralizado quase ditatorial, muitas vezes resultantes da implantação de grandes monopólios privados. Como a sociedade ocidental manteve um grau de liberdade bastante razoável, a falha na previsão de evolução rápida também se justifica pelo menor grau de centralismo no poder. Porém, curiosamente, seria impensável fazer hoje um filme futurista em que ciborgues fumassem descontraídamente, lembrando como nos anos 1980 ainda não se previa a paranóia anti-tabagista (aliás, qualquer dia, é preciso uma autorização especial para poder ver os filmes de Humphrey Bogart, onde o fumo era uma constante, como no caso do Maltese Falcon).

O filme Blade Runner, como excelente filme de ficção científica, acompanhado por uma excelente banda sonora de Vangelis, aproveita para incorporar algumas questões filosóficas. Os ciborgues fabricados tinham memórias falsas de uma juventude que não tinham tido, e debatiam-se com o problema de saberem a data exacta da sua desactivação/morte.

O problema do desperdício de informação na morte, que tornava a sua vida inútil, é caracterizado por uma notável frase: "all those moments will be lost in time like tears in rain... time to die", e a pomba é solta sem mensagem.


A falta de sentido da vida era aqui colocada na efemeridade da vivência e na definitiva perda das memórias.
A importância da contribuição do conhecimento do indivíduo veio associada ao culto da personalidade, com a vã promessa de alguma imortalidade histórica. Isso tornou-se tanto mais notório quanto a sociedade vendeu a imagem de isenção, de não ocultação, de dar o devido epitáfio a quem "merecia" destaque.
Porém, tudo isso acaba por ruir como um castelo de cartas quando o indivíduo deixa de confiar na sociedade. Quando a sociedade que se constrói necessita da ocultação, pratica a ocultação arbitrariamente, então os personagens vão sendo apagados das fotografias quando necessário. Nem precisam de ser apagados, são remetidos para a ausência de atenção... são personagens de livros sem leitores.
Nessa situação, o contributo individual deixa de fazer sentido como legado de memória... e as memórias ou o reconhecimento deixam de ser importantes. Um panteão de falsidades será substituído por outro, cada vencedor inventa nova história... e curiosamente, a única esperança de vã glória dos falsários, ocultados ou difamados, será poderem vir a ser redescobertos por uma história verdadeira.
Ou seja, a importância do legado, ou do reconhecimento individual, não faz qualquer sentido numa sociedade falsária. O legado só tem sentido histórico tendo em vista a recuperação da verdade... podem ser lágrimas na chuva, mas acumulam acusando a presença de sal. Nenhuma ilusão é eterna, pois só vive nos seus mentores, a verdade será imutável, por ser partilhada, para além dos indivíduos. A verdade tem um depósito seguro... o tempo, e a impossibilidade de voltar atrás. Se isso fosse possível, muitos seriam aqueles que tentariam apagar as suas acções anteriores, aparecendo como imaculados... porém, a ser possível visitar o passado, será já numa qualidade diferente, de não intervenientes, condenados a observadores.

A outra questão interessante no filme era a corrupção de memórias. Os indivíduos nasciam adultos com falsas memórias de infância e juventude. 
Sobre a memória temos uma noção de acesso limitado.
Os sonhos nada mais são que memórias que aparecem "do nada" quando estamos já acordados, e que reportamos ao período em que dormimos. Isso é natural quando acordamos com essas memórias, e é menos natural quando algum pormenor nos faz lembrar só posteriormente do sonho ocorrido. Neste última situação, é como se um pedaço de memória, antes desconhecida, tivesse invadido o pensamento. O olfacto é especialmente interessante como agente que despoleta memórias antigas, quase perdidas. As certezas quanto ao que somos e o que conseguimos fazer, transformam-se em maiores incertezas se pensarmos naquilo que controlamos verdadeiramente. A memória acompanha-nos, mas não é por irmos perdendo parte dela, ou até por sermos iludidos por ela, que perdemos o traço unificador que nos define no presente.

É certo que parte de nós morre a cada instante, de forma irrecuperável... há dias, meses, talvez até anos inteiros que não voltaremos a lembrar. Não nos preocupamos muito com isso. O sentido de preservação é tido sempre na nossa potencialidade de continuar a existir com as memórias a que vamos conseguindo aceder hoje. O "eu" que fomos na nossa infância, juventude, esse deixou de existir, morreu... é uma vaga lembrança onde se insere também a lembrança daqueles que partilharam connosco esses momentos. 
O tempo tem a desvantagem de não eternizar os momentos bons, mas também a vantagem de não eternizar os momentos maus. E ainda, a nossa exigência anti-monotonia dificilmente ficaria eternamente satisfeita... o "viver feliz para sempre" termina muitas histórias infantis, mas nunca é especificado. O paraíso... é "para"-"iso", ou seja, vai para além da isomorfia, da monotonia de uma equidade absoluta, mas tende para ela no somatório, e é natural que quem exagere num sentido espere por reacção idêntica no sentido oposto. Aqui, a filosofia da linha do meio, própria do budismo, parece ser a mais sensata, mas não deve levar à estagnação... é apenas uma boa plataforma de estabilidade.

Sobre a inteligência artificial, própria aos ciborgues do filme, nada impede a priori essa possibilidade.
A nossa inteligência manifesta-se sobre uma plataforma biológica, complexa, em que o raciocínio emerge da experiência. Aliás, a própria linguagem emerge de uma sucessiva experimentação, com associação entre objectos e palavras... é assim que as crianças aprendem a falar. A plataforma biológica não tem que ser a única onde é possível emergir raciocínio, e há algumas experiências computacionais, com redes neuronais, que visam simular processos semelhantes. A capacidade de executar tarefas complexas, de índole automática, não deve ser confundida com inteligência inerente... é claro que o Deep Blue pode ganhar ao Kasparov em xadrez, mas se mudarmos um pouco as regras, o Deep Blue precisaria de um programador humano para poder jogar com Kasparov. Há raciocínio adaptado a certas tarefas que levam a automatismos, mas a inteligência revela-se pela flexibilidade e adaptação do raciocínio a diferentes problemas, enquanto que a inteligência especializada muitas vezes pode resumir-se a automatismos simuláveis computacionalmente. O ponto principal é o executante ter noção de si, ver-se enquanto objecto de análise... e isso parece longe de ser possível numa máquina finita. A razão é simples... a capacidade de nos observamos a nós próprios coloca-nos num plano superior de observação, como se nos desligássemos do corpo observador, e daí emerge uma noção que transcende o corpo... a noção de alma.
E talvez seja melhor ficar por aqui...

Efemérides 2012

Conforme já referido no postal sobre o Trânsito de Vénus, nestas duas últimas semanas ocorreram três efemérides astronómicas interessantes... nenhuma das quais visíveis em Portugal. 
Primeiro, ocorreu a 21 de Maio de 2012 um eclipse anelar do Sol
Eclipse Anelar do Sol visto no Japão (wiki)

... a que se seguiu um eclipse parcial da Lua anteontem, 4 de Junho de 2012
Eclipse Parcial da Lua(i.space.com/)

... e neste momento que escrevo decorre o singular trânsito de Vénus de 6 de Junho de 2012
Entrada de Vénus... o ponto negro... no disco solar (wiki)

Os eclipses Lua-Sol ocorrem dentro do ciclo de Saros, de aproximadamente 18 anos, e são por isso razoavelmente frequentes. É sabido ser este ciclo conhecido já pelos magos Caldeus, e estavam mesmo incorporados há dois mil anos na Máquina de Anticítera (informação da wikipedia).
Já o Trânsito de Vénus é bem mais raro, e só voltará a ocorrer em 2117... mas, excluindo o seu interesse astronómico, e a sua singularidade na ocorrência, é um fenómeno que passaria completamente despercebido ao público, não fora a publicidade.
Para além das imagens do pontinho no disco solar, e atendendo à espessa atmosfera venusiana, seria esperado ver boas imagens telescópicas que indiciassem essa refracção... mas apesar deste interesse, continuam a faltar imagens menos negras de Vénus.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Truman

Uma das dialéticas interessantes entre a sociedade e o indivíduo é colocada num filme de 1998, conhecido como "Truman Show". O nome Truman pode ser visto como aglutinação de True man, ou então pode ser visto à luz de um plano Marshall.
O personagem Truman tem uma vida completamente falsificada num gigantesco ambiente de estúdio. É uma versão do conhecido programa Big-Brother, levada ao limite, já que o personagem nasce e cresce dentro do ambiente de estúdio que simula uma cidade, em que todas as pessoas que interagem com ele são actores. "A vida em directo" de Truman gera grandes receitas televisivas, devido ao voyeurismo duma sociedade externa que autoriza a experiência e se diverte com o enredo "real".

Truman Show (1998)

Perto do final, algumas coisas correm menos bem na encenação, e Truman aventura-se no desconhecido, acabando por descobrir os limites do cenário onde vive.
O argumento é muito interessante, algo diminuído pelo jeito de comédia, mas aborda os limites entre a realidade e a ilusão. Colocaria o  espectador numa perspectiva mais próxima do enredo filme se não fosse apenas um elemento a ser iludido, mas sim um grupo de indivíduos. De qualquer forma, terá tocado certamente muitos espectadores que podem ter colocado em dúvida se a sua vida não estaria sob controlo externo, nalguns eventos. Levado a sério, colocaria o espectador até a duvidar da sua família e amigos mais íntimos... No entanto, só quem não soubesse o que é a realidade é que se apoquentaria com o contexto.
Ao designarem o produtor do espectáculo como "Criador", o filme vai ainda mais longe no sentido de colocar a questão do papel divino, já que relativamente à vida de Truman o produtor do programa tinha praticamente controlado quase todos os aspectos da sua vida, deixando-lhe alguma margem de manobra, mas condicionando até a sua permanência na cidade. Truman não falava com amigos, mas sim com toda uma máquina definida para gáudio dos espectadores de contos, contos de reis.
A decisão final de Truman, ao ignorar "o seu criador" era a esperada, perante tal situação bizarra, e acaba por reentrar no cenário - afinal a única casa ou realidade que conhecia, desprezando o contexto exterior, que nada lhe dizia.
Na parte final, à medida que o contexto se revela, o tom vai ficando mais austero, e não se percebe se no final os actores contratados ficam ou não desempregados.

É claro que o filme merecia uma sequela, mais de ficção científica, em que afinal o produtor tinha recebido ordens e sugestões implícitas para realizar aquele espectáculo, sem saber exactamente de quem. Por hierarquia implícita, o próprio produtor estaria ao serviço de uma outra inteligência superior (para simplificar, extra-terrestre), voyeur dos próprios espectadores do programa, talvez com o propósito de uma análise dos valores da sociedade terrestre. E o contexto de criador em cima de criador, poderia não ter fim... da mesma forma que o próprio Truman poderia ser induzido pelo produtor a criar um próprio show dentro da sua cidade. Ou seja, Truman ficaria produtor de um espectáculo semelhante, sem se aperceber que tinha sido condicionado para isso. Quando estivesse pronto a revelar-se ao seu Truman-"filho", seria ele próprio surpreendido com a sua condição!

Os valores humanos em Truman Show são caricaturados de forma dura... os espectadores e a maioria dos actores revelam-se como indivíduos incapazes de reflexão. Separavam-se de tal forma de Truman, que eram incapazes de se projectarem na mesma situação. Não viam em Truman um seu semelhante... e, no entanto, estariam sob situação idêntica. Poderiam ter confiado em instruções, ideias cuja origem já nem sabiam bem reportar, perdidas na cadeia de comando, ou numa qualquer história aparentemente antiga, para realizarem aquele cenário... quando no fundo poderiam ser eles próprios os personagens sob inspecção externa.
De todo aquele espectáculo montado, mesmo dadas as circunstâncias de chantagem financeira, poucos seriam os "humanos"... Eram apenas indivíduos centrados na competição pelos seus interesses particulares, como qualquer animal sujeito pela sua natureza a competir por domínio territorial. E, como se sabe, não adianta usar argumentos racionais com um leão quando se passa pelo seu domínio territorial.

A colaboração social tem dois aspectos que se degladiam... por um lado, é do interesse do indivíduo no sucesso do conjunto, por outro lado é a afirmação do indivíduo dentro desse conjunto, por competição contra os semelhantes.
A afirmação do indivíduo é o que permite a diversidade, por destaque da sua individualidade. Se ela é colocada em confronto com os outros, é óbvio que limitará a colaboração ao mínimo. Assim se cria uma sociedade esquizofrénica, na ambiguidade entre os valores individuais e sociais, especialmente quando não há objectivo social comum bem definido. Dito de outra forma, quando o "contrato social" é apenas uma farsa cujos propósitos não são claros, e tudo se acaba por resumir à permanência de uma hierarquia instalada.

Porém, é sabido que uma sociedade baseada numa ocultação, ou exclusão, gera por reciprocidade outras sociedades semelhantes, e assim volta-se à questão da competição individual entre sociedades.
No fundo, para teste de um modelo com um propósito, basta criar réplicas, modelos semelhantes, que avaliam a eficácia do melhor.... desde que não sejam infiltrados externamente. Caso haja perigo de infiltração destrutiva, é natural a estrutura criar as suas próprias protecções de segurança, tornando-se demasiado rígida, austera, e por isso menos eficaz.
Tal como na evolução biológica, as estruturas evoluíram no sentido de comparar a sua adaptação cognitiva, e se os homens foram presa fácil de predadores, agindo isoladamente, passaram a predadores sem rival, ao colaborarem.

Só que essa colaboração desagregava-se também em competição interna, quando os inimigos eram identificáveis. A mais valia de conhecimento era perdida num fácil contágio, pelo que houve necessidade de progressivas técnicas de ocultação e até de ocultação da estrutura. A técnica de ocultação também a encontramos espelhada na natureza, em diversos animais... e não foi por isso que deixaram de vir a ter predadores. Mais tarde, ou mais cedo, acabaram por fazer notar a sua presença...
Se Maomé não vai à montanha, a montanha acaba por ir ter com Maomé.

A simples presença de inteligência, gera inteligência reactiva. Pode até acontecer que a estrutura seja bastante eficaz, e tenha permitido estabilidade, como nalguma ilha polinésia foi possível manter uma longa dinastia... até ao momento da visita dos Europeus. Aí, uma estrutura que tinha sido localmente eficaz, pelos vícios da estabilidade não tinha evoluído suficientemente e era confrontada, de forma abrupta, com uma civilização que tinha evoluído na Europa em quase permanente confronto.
Correriam o risco de completa extinção (que pode mesmo ter acontecido nalguns casos) pela excessiva confiança na sua própria estrutura social, sem adversários até essa época.

Gémeos, mesmo sem serem falsos, ou estruturas gémeas, é algo fácil de ocorrer, ou de gerar, por diferenciação interna na estrutura, ou por cópia natural externa. Assim, tornam-se potenciais competidores, a menos que partilhem os mesmos objectivos de colaboração, sendo claro que retirados medos, ódios, etc... a partilha de conhecimento favorecerá sempre o conjunto. Ou seja, a estrutura que tende a prevalecer será a que conseguirá agrupar maior fonte de conhecimento fundamental, sem fazer perigar o conjunto, dando espaço à aceitação dos diversos conhecimentos/culturas individuais. Simplesmente a sociedade não pode sufocar o indivíduo, e a diversidade indivídual deve caminhar no sentido de uma confrontação e colaboração construtiva.

Pensando a longo termo, é algo praticamente óbvio... ou a presença de conhecimento no universo seria um espasmo temporário, o que corresponderia à sua anulação... e à existência de uma noção de tempo para além do universo - algo absurdo; ou então haverá um conhecimento aglutinador que irá recuperar o fundamental da sua existência.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Espiral de conhecimento

Há certos filmes que ilustram bem diversos problemas filosóficos, de forma simples, sem terem que desenterrar citações de grandes vultos do pensamento para lhes fazerem "companhia". As ideias têm a sua génese, mas não precisam de cartão de visita, com registo parental na aristocracia académica.
Um código genético das ideias são as palavras, que podem nascer no escritor, mas ganham vida própria e podem-se reproduzir em cada leitor... por vezes com pequenas anomalias de compreensão, que podem gerar novas ideias.
Costuma contar-se que a ideia da força de gravidade teve-a Newton quando uma maçã lhe caiu na cabeça. Para perceber a génese da ideia, precisamos de saber quem foi Newton, quem era a maçã, e por que razão caiu numa cabeça só nessa altura. Por que razão não seria uma pêra a aforturnar a cabeça de Duarte Pacheco Pereira, que descrevera essa noção tão grave uns séculos antes.
Mas, para perceber essa noção elementar de gravidade, não precisamos de nenhum fruto simbólico, nem de nenhuns pais emprestados. As ideias existem para além da sua difusa génese, não devem ser é iludidas sob pena de se perder conhecimento, do seu valor prático, histórico, simbólico ou artístico.

O filme "Groundhog Day" é uma comédia romântica, ao mesmo tempo que aborda um problema de círculo temporal. O protagonista vê-se sucessivamente preso nos mesmos acontecimentos, dia após dia, e acaba por experimentar problemas filosóficos interessantes. Como só ele muda, ao fim de algum tempo acaba por conseguir prever todos os acontecimentos, e todas as possibilidades. Como só ele muda, acaba por dar-se conta que está sozinho, e desespera, ao ponto de tentar o suicídio várias vezes, apenas para voltar exactamente ao mesmo ponto. Não se conseguia libertar do círculo temporal...
Groundhog Day (1993)

De forma instrutiva, apesar do protagonista deter uma clara vantagem de conhecimento sobre os restantes personagens, e aproveitar isso até para enriquecer, numa dupla sensação de omnisciência e omnipotência, não fica mais feliz por isso, ao contrário. 
Encontra-se na situação da criança que já brincou suficientemente com os seus "bonecos", e precisa de brincar com amigos que estejam em situação de igualdade. Acabará por ceder no seu controlo, e procurar uma imprevisibilidade que lhe tinha sido negada.

Esta é uma parte filosófica, que ilustra bem que o controlo da realidade não é propriamente algo agradável, e a longo termo leva à sensação de isolamento absoluto. Quanto ao isolamento, há uma abordagem semelhante na obra de Daniel Defoe, de 1719, "Robinson Crusoe", onde o isolamento desesperado numa ilha perdida acaba por fazer com que Crusoe encare como igual o "selvagem" Sexta-Feira... que educacionalmente seria visto pelos leitores da época como escravo.

Mas há outras questões filosóficas... e que não estão completamente afastadas de consideração, até pela manifestação de patologias. Por exemplo, nada impedia que o protagonista, também ele, tivesse ficado preso no circuito temporal. Se isso acontecesse, e ele não se apercebesse, repetindo-se tudo, isso seria equivalente a uma única ocorrência. Porque, se os envolvidos não se apercebem, só um observador externo é que se pode aperceber da repetição. 
Se é o próprio que se apercebe da repetição, já não se trata do mesmo... primeiro esteve naquela situação, depois também, mas sabe adicionalmente que já viveu o momento antes. Funciona apenas como o conhecido "déjà-vu". 
É o que acaba por acontecer no filme, o protagonista sabe que (quase) tudo voltou a ocorrer, só que ele é não é o mesmo - ele acumula a informação passada.

Não muito diferente é a questão de Sísifo que pode ser levado a repetir a tarefa, mas quem executa a tarefa a primeira vez, tendo consciência de si, não é o mesmo que a repete.
A capacidade humana torna as tarefas repetitivas como parte inconsciente, ao fim de algum tempo de aprendizagem. Ou seja, as repetições deixam de ser observadas, tal como os óculos não são vistos por quem os usa... pelo simples facto de serem presença constante. O espírito humano não dá relevância às tarefas repetitivas, porque depois de as aprender e conhecer por completo, ficam tão automáticas quanto o caminhar... e enquanto efectua essas tarefas automaticamente, pode pensar, dentro das suas condicionantes. 
Sísifo é condenado pelos deuses à repetitiva tarefa 
de carregar uma pedra e vê-la rolar pela montanha.

Enquanto Sísifo não se libertar da pedra, ambos formam uma identidade irracional, para um observador externo... mas visto de dentro, Sísifo não larga a pedra porque ela lhe é indiferente, não lhe prende o pensamento. Talvez Sísifo esteja apenas a condenar os deuses a ficarem eternamente presos ao eterno medo do movimento repetitivo que eles próprios lhe impuseram.

Porém, como já referimos, esse problema não ocorre a nível consciente. Mesmo do ponto de vista biológico, as tarefas automáticas, uma vez apreendidas são relegadas para circuitos inconscientes. 
Ao nível da consciência circuitos temporais são apenas espirais de conhecimento, em que podemos rever situações passadas com um novo olhar. Não se fecham. Serão iguais externamente, mas quem as revisita é que já será diferente, pelo que a situação não se repete.
Espirais num monumento megalítico (Newgrange, Irlanda)

A espiral de conhecimento constrói-se em camadas, sobre informação já existente, revisita conceitos centrais, e acrescenta novas ideias, gerando nova informação. Caminha no sentido exterior de uma visita aberta, e não no sentido interior de se fechar sobre si própria, ainda que grosseiramente possa dar a ideia de repetição.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Conjunto Universal

Complemento um pouco a posta sobre Conhecimento Perigoso... que não seria propriamente sobre conhecimento que leva à censura de conhecidos blogs pela nossa Assembleia da República, com a concordância de deputados cuja missão primeira deveria ser defender a liberdade de expressão.
Nada propriamente de novo nos bastidores do sistema, que normalmente usa alertas de "infecção por virús" para bloquear os acessos a conteúdo indesejado, como já aconteceu neste blog... e só é mais preocupante por já estar a sair das trevas dos bastidores.

Na sequência do trabalho de Cantor, sobre a teoria dos conjuntos, surgiu um paradoxo matemático sobre o Conjunto Universal. Esse conjunto seria o "conjunto de todos os conjuntos"... mais uma vez remetendo para as dificuldades e contradições sobre o infinito, e suas interpretações metafísicas.
O problema era basicamente o seguinte... sendo o Conjunto Universal um conjunto, deveria pertencer a si próprio, para além de conter todos os outros, o que significaria haver um maior. Acrescia a isso Cantor ter provado que ao conjunto das partes deveria corresponder uma potência de infinito superior.
A contradição foi banida excluindo do sistema tal conjunto!

A questão do infinito colocava-se da mesma maneira que quando falamos no "maior número", já que podemos sempre considerar um número superior, como bem sabem as crianças.
Os processos envolvendo a noção de infinito foram banidos, até que permitidos no Séc. XVII trouxeram um desenvolvimento sem precedentes à matemática, e ao mundo.

Havia aqui um novo embate entre concepções filosóficas... a exclusão do Conjunto Universal seria uma maneira de excluir a noção universal de Deus, por argumentos racionais. Acordou-se num sistema de axiomas chamado ZFC (Zermelo-Fraenkel-Cantor) e julgou-se que isso permitiria construir toda a Matemática... até que Gödel provou o contrário, para desespero de Hilbert.
A questão da axiomática matemática tem alguns aspectos religiosos, já que os Axiomas resultam de crença em evidências simples... sendo alguns mais polémicos que outros (caso do Axioma da Escolha).

Mesmo assim, o Conjunto Universal acabou por ser reposto num sistema alternativo NF (New Foundations), e que terá certamente adeptos entre os criacionistas e oposição dos evolucionistas!
Do ponto de vista prático, a maioria destas questões são basicamente irrelevantes, sendo que o sistema ZFC é tido como adoptado pela maioria da comunidade internacional.
O mais interessante aqui é notar a delicadeza destes assuntos, fazendo ver que mesmo a racionalidade matemática não se liberta de problemas de intolerância e ostracismo, pela fé... uns acreditam numas coisas, outros noutras, e procura-se impor uma visão escolástica.

A noção de infinito é pura e simplesmente uma idealização que facilitou bastantes os cálculos analíticos, e que esteve "proibida" durante milénios, talvez porque os criacionistas consideravam pertencer apenas ao divino... Curiosamente, é pela linha oposta, evolucionista, que esta proibição de infinito ocorrerá de novo.
E, no entanto, nada impediria conceptualizar o "Conjunto" Universal como uma entidade limite, da mesma forma que é feito com o infinito numérico. Também no caso do infinito numérico não se podem aplicar as regras habituais, e não deixaram de ser consideradas novas regras. O mesmo poderia ser feito conceptualmente para essa entidade, vista como Conjunto-limite Universal.

Independentemente das considerações mais matemáticas, o grande problema é uma incapacidade inata do Homem lidar com a sua finitude, e que basicamente se resume a não estar satisfeito consigo próprio. Por um lado isso é necessário, pois só isso permite o espírito criativo, mas é completamente inútil quando se pretendem daí tirar conclusões que não sejam de simples índole prática.
Nem eram precisos os resultados de Gödel, é óbvio - por definição - que a finitude humana será sempre incompleta quando procura abarcar o infinito que apenas pode conceptualizar.
Há ainda quem sonhe que uma passagem para "dimensão superior" poderia resolver essa ânsia inata, mas é pura ilusão, já que, como mostrou Cantor, os infinitos sucedem-se em potências superiores...

Enfim, é essencialmente um problema educacional, que se resolve nas crianças mimadas - que querem sempre mais e mais - com umas boas palmadas no rabo!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Homem ciclo-voador

Já mencionámos como a Passarola de Bartolomeu Gusmão, o primeiro projecto de dirigível, acabou por ser silenciada na História. 
Exemplificaremos aqui como "progressos voadores", em particular as "bicicletas voadoras" acabam hoje em dia por ser também segredos... de Polichinelo!
Não é segredo que já houve vôos de "bicicletas" capazes de atravessar o Canal da Mancha, ou ir de Creta a Santorino (duas ilhas gregas).
No entanto essa informação não é suficientemente divulgada... pior, é ridicularizada, e assim vai-se passando a ideia oposta!

Nalguns vídeos sobre o princípio da aeronáutica é habitual mostrar uma tentativa de homens que tentam voar pedalando com asas... aparece como algo ridículo, mas o não é! O mais natural é que tenha sido com uma bicicleta com asas aerodinâmicas que se efectuou mesmo o primeiro "descolar"...

Acresce que com campanhas como esta:
... o que se pretende fazer é desacreditar a efectiva possibilidade de existirem aparelhos capazes de voar com  auto-propulsão humana. A recompensa do engodo é obtida pela muita ingestão de água com açúcar, que em vez de dar asas, tem como efeito pretendido justamente o oposto!

O desenvolvimento de aviões propulsionados por homens, tem um extenso resumo na Wikipedia:
onde se pode ver:
- D. Piggott - o primeiro vôo (reconhecido) ocorre em 1961... há mais de 50 anos!
- Bryan Allen - primeiro vôo pelo canal da Mancha, em 1979
- Em 1984 houve um ciclo-avião que até levou um passageiro...

Porém, o talvez mais notável é o vôo do Daedalus-88 entre as ilhas gregas, num total de 115Km, que ocorrerá em 1988, conforme podemos ver neste documentário (o vôo começa ao minuto 18:00 do vídeo):
The Light Stuff - documentário de Mark J. Davis - partes (1)(2)(3)
mostra o sucesso da aventura grega em 1988 do ciclo-avião Daedalus-88 

O ciclo-avião merece a atenção grega, sendo acompanhado no voo entre Creta e Santorini, por cobertura jornalística e até militar. Isto foi em 1988, há quase 25 anos... o Daedalus-88 detém ainda o recorde de voo.
A equipa do MIT que fez o Daedalus-88 era semi-oficial, essencialmente de estudantes, e desde essa altura, apesar do excepcional sucesso obtido, o projecto nunca foi continuado.
O muro de Berlim caiu, no ano seguinte ao voo... mas só serviu para mostrar que existia um Muro muito maior que vai prendendo o génio humano na garrafa.
Enquanto a
umas e outras invenções interessantes... silenciadas, aguardando o desbloqueio dos Deuses do Olimpo, que permitam a Dédalo ter asas para voar.

Nota adicional (01/05/2012):
Entretanto, surgiu esta interessante notícia sobre um avião solar: Solar Impulse
... um projecto da EPFL que tentará uma viagem de 2500Km (ver outros projectos: wikipedia).
No entanto, o objecto deste postal não era apresentar os muitos projectos de desenvolvimento.
O objectivo deste texto era apenas ilustrar como se iludem proezas já alcançadas dando mérito a iniciativas tacanhas (caso da BBC), ou ridicularizando o assunto (caso da RedBull).

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Conhecimento Perigoso

Um excelente documentário da BBC(4):

O título "Conhecimento Perigoso" parece exagerado no caminho que pretende levar - conhecimento que pode levar à insanidade mental, e acaba por mostrar que esse perigo resulta das pressões sociais devidas ao conhecimento, e não devido ao conhecimento em si.

O documentário segue essencialmente a crise dos fundamentos da Matemática, na transição do Séc. XIX para o Séc. XX, através de dois personagens principais: primeiro Cantor e depois Gödel. Há uma outra história complicada, envolvendo Hilbert (que é mencionado) e Brouwer, que também mereceria menção.

Procurando envolver-se mais na história dos personagens, o documentário acaba por evitar falar do que estava em causa nessa crise. Não é um assunto fácil para a esmagadora maioria da população, e por isso é natural que seja evitado.

Kronecker, indicado como um dos opositores de Cantor, terá dito: 
"Deus fez os números naturais, o resto é obra do homem"
Os números "naturais" são simplesmente 1, 2, 3, 4, 5, etc...
A noção de infinito aparece aqui naturalmente, já que as próprias crianças confrontam-se na brincadeira com a impossibilidade de encontrar o maior número... basta juntar um, e será sempre maior do que o anterior.
Cantor vai quebrar a intuição de infinito, afirmando que "há tantos números pares quanto números naturais"... Parece contraditório, desaparecem os números ímpares? Claro que não, e a afirmação aplica-se igualmente a números ímpares. A razão é simples, a qualquer número natural podemos fazer corresponder um número par, basta multiplicar por 2, e por isso há uma correspondência directa e a quantidade de uns e outros é igual.

Este é o primeiro infinito "dos números naturais", mas o notável será que Cantor mostra que há um outro infinito diferente deste. Mas para isso precisamos de falar em números racionais...

Os chamados números "racionais" nada mais são do que a divisão entre dois números naturais, ou seja, uma fracção. Como habitualmente usamos fracções decimais, habituámo-nos à sua forma enquanto números decimais.... E se duas casas decimais são usadas para representar os cêntimos, é óbvio que quando se exige maior exactidão são precisas mais casas decimais. Tal como não há fim para os números naturais, não há fim para o número de casas decimais...
Na prática bastam poucas casas decimais para ter grande precisão... mesmo nos cálculos modernos, raramente são precisas mais do que 10 casas, e mesmo aí já estamos a falar em medidas ao nível atómico.
Porém a matemática é uma ciência de pensamento, e a idealização não tem limites físicos.
Uma régua matemática é um contínuo de pontos idealizado, e não uma colagem de átomos.

Foi ao analisar o infinito dos números decimais que Cantor demonstra que é superior ao infinito dos números naturais. Ou seja, o infinito de pontos contínuos numa régua matemática é maior que o infinito da contagem... 
A Hipótese do Contínuo, que segundo o documentário teria levado à loucura de Cantor, seria demonstrar que entre estes dois infinitos não existiria mais nenhum outro tipo de infinito. 

É Gödel que dará o primeiro passo decisivo na resolução do problema, mostrando que, dado um número finito de axiomas, haveria afirmações sobre as quais não se poderia saber se eram verdadeiras ou falsas - indecidibilidade. Um dos casos de indecidibilidade era a Hipótese do Contínuo... Cantor estava a tentar provar algo que Gödel e Cohen vão demonstrar ser impossível de provar. A questão ficou assim arrumada há 50 anos atrás.

Maçonaria de Regra e Compasso
Cantor e Gödel deparam-se com um problema similar ao abordado por Pitágoras e Euclides, uns milénios antes. Começamos pela bem conhecida lenga-lenga
"o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos"
que é ilustrado sempre com muitos triângulos rectângulos... mas dificilmente veremos com este:
O Teorema de Pitágoras é mais geral, e não se aplica apenas ao triângulo em questão, já que os catetos não têm que ser iguais, e a hipotenusa nunca é representada como base do triângulo (usa-se um dos catetos).
Colocado desta forma explicita o caso da pirâmide... pois "Hipo" é prefixo para "baixo", logo a hipotenusa deve ilustrar-se na base. E como "katheto" significa "cair na perpendicular", nesta representação os dois lados caiem na perpendicular.
Desta forma a Hipotenusa surge ainda como uma diagonal de um quadrado (ou se quisermos desenterrar... de um  octaedro "enterrado", do qual se vislumbra apenas a pirâmide superior... isto para quem quiser sondar no deserto egípcio se não há afinal octaedros que são octo-manos das pirâmides).

O valor "raiz de 2" (ou similar) obtido na hipotenusa tinha uma particularidade que preocupou os pitagóricos... não se conseguia representar-se por nenhuma fracção. 
Esses números que não podem ser representados por fracções foram chamados "irracionais", já que não eram representáveis por uma razão (divisão). É consequência do trabalho de Cantor que há mais irracionais do que racionais... uns têm a potência do infinito contínuo, os outros do infinito contável. 
Mas já na antiguidade isto causou considerável perturbação!
Há até uma alegoria que conta que quem saía dos números pitagóricos "era atirado fora do barco". É numa proposição dos Elementos de Euclides, já muito depois, que aparece a prova "simples" de que seria impossível escrever "raiz de 2" como fracção. Havia uma limitação nas fracções, tal como Gödel veio milénios mais tarde a provar que havia uma limitação nas demonstrações axiomáticas.

Para além da limitação nas fracções, conhecida na antiguidade (aliás todo este conhecimento pitagórico  era já existente na Babilónia...) seguiu-se um problema milenar... a Quadratura do Círculo!
O número "raiz de 2" apesar de irracional, representava uma quantidade que poderia ser obtida de forma geométrica, usando um compasso. Haveria números que não pudessem ser obtidos dessa forma?
O problema foi colocado com o número Pi... exactamente na questão da Quadratura do Círculo.

A Quadratura do Círculo ilustra uma limitação na construção de quantidades, exigindo apenas régua e compasso, uma limitação clara da Geometria clássica.  
Régua e compasso que são símbolos bem conhecidos da maçonaria...
Geometria de Régua e Compasso

A letra G pode encarar-se como representante da Geometria, mas não será apenas isso... e daí derivou todo um folclore... que até levou à ideia sensual do "ponto G".

O problema da Quadratura do Circulo resistiu milénios... e só acabou resolvido no final do Séc. XIX, com os trabalhos de Hermite e Lindemann, que provaram justamente que Pi era um número "transcendente", e por consequência que não seria possível obter uma quantidade Pi usando apenas régua e compasso.

O que é engraçado é que o processo de demonstração não usou a Geometria, usou um outro ramo da Matemática - a Análise. Ao contrário da ideia que se dá no documentário, é a Análise que começa a lidar com a noção de infinito, e a substituir todas as limitações geométricas por processos de aproximação sucessiva. Esse progresso está directamente ligado a toda a inovação tecnológica. Teve como principais padrinhos Descartes e Newton, mas os pais são bem mais antigos.
Arquimedes usa métodos analíticos, mas a sua origem é habitualmente reportada a Eudoxo (Séc. IV a.C), pela técnica de exaustão, e foi só retomada 2000 anos depois. Há ainda um outro Eudoxo apontado como um dos primeiros a contornar África e a ensinar o fogo, conforme atesta Duarte Pacheco Pereira em 1506
dizem mais estes autores que Eudoxo fugindo das mãos del Rey Latiro da Alexandria navegou do mesmo Sino Arábico até Cadiz, & Pompónio Mela autor muito antigo natural de junto com Gibaltar isto mesmo afirma & diz mais no fim do seu terceiro livro de Sito orbis que este Eudoxo foi o primeiro que o fogo, e uso dele, trouxe aos povos bárbaros da Ethiopia aos quais até aquele tempo ignoto era & nesta sentença concordam alguns dos outros cosmografos. A qual navegação & pratica dela se tirou assim dos olhos de todos os antigos: de tal maneira se perdeu que por tempo de mil & quinhentos anos, ou mais, soube de todo esquecida.
 Portanto, muito para além das frustrações que o próprio conhecimento coloque aos cientistas, têm sido muito mais as maquinações que vitimaram a sua independência, personalidade e sanidade. Ideias antiquissimas só foram retomadas na Idade Moderna, com a muita tradução do material antigo que tinha sido esquecido/proibido.