sábado, 26 de abril de 2014

Nebulosidades auditivas (12)

Fernão Capelo Gaivota 

Jonathan Livingston Seagull
The New York Times, July 3, 1974 
Des Moines, Iowa, July 2 - John H. Livingston, the man who inspired the best-selling novel "Jonathan Livingston Seagull," died Sunday at the Pompano Beach (Fla.) Airport soon after completing his last plane ride. Richard Bach, a former Iowa Air Guard pilot, has said his best-selling book about a free-wheeling seagull was inspired by Mr. Livingston. (...)

Se Richard Bach se inspirou no piloto americano, a tradução portuguesa foi muito clara...
... ao (David) Livingstone, associou o (Hermenegildo) Capelo.
Acrescentou ainda um Fernão (entre muitos, provavelmente o Magalhães).
Os espanhóis também evitaram o nome Livingston, e usaram Juan Salvador Gaivota. Casos únicos.

A pequena história de Richard Bach de uma gaivota, gull, mas seagull e não portgull, passa a filme de sucesso mundial em 1973, usando uma banda sonora de Diamond... Neil Diamond:
Lost, on a painted sky, where the clouds are hung
For the poet's eye, you may find him, if you may find him

Assim, juntando ao poema marítimo "a life on the ocean wave", em 1974, tudo está pronto para uma outra canção "revolucionária" - Somos Livres... mais conhecida pelos versos:
Uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar.
Como ela, somos livres, somos livres de voar.
... registo único conhecido de Ermelinda Duarte.

1973 é um ano marcante.
- Para Portugal, a visita de Marcelo Caetano a Londres, que acabara de entrar na CEE, pode ter assinalado o fim do regime. Creio que Salazar nunca saiu de Portugal - só se foi a Espanha comprar caramelos. Mas é também um ano em que se fundam o macavenco PS de Soares, e o expresso do "pilgrim" Balsemão. Dois personagens que vão definir os partidos do "arco" do seu governo.
- É o último ano de "visitas lunares".
- É o ano da Crise Petrolífera, que abala a economia internacional, e afectará muito Portugal. 
- É o ano de inauguração do World Trade Center, das torres gémeas. 
- Nixon abre as portas com uma visita à China, começa a retirar tropas do Vietname, e será afastado pelo caso Watergate. Se Nixon foi afastado, Kissinger manter-se-à bem activo. Recebe o Prémio Nobel da Paz pelos acordos de Paris, que levariam à retirada dos EUA do Vietnam.
- Em contraponto, Allende é morto no golpe militar chileno... 

Os estados ibéricos procuravam manter os anacrónicos regimes que sobreviveram à 2ª Guerra, Franco era substituído por Carrero Blanco, mas esse será assassinado pela ETA no mesmo ano. Está lançado o ataque contra o "fascismo" na Europa... ao mesmo tempo que é apoiado no Chile.

Pensar que a comunidade internacional, muito em particular, americanos, e sobretudo ingleses, se alhearam do assunto, e que foi uma iniciativa local, parida por uns insatisfeitos capitães de Abril, é um mito que interessou preservar.
A liberdade da gaivota do seu voo é muito condicionada pelas correntes de ar, e os seus objectivos podem ser facilmente distraídos por uma embarcação cheia de peixe... como ela, somos livres, mas nem tanto quanto isso!

Na Ópera Otelo, o alferes Iago fica melindrado com a promoção a tenente de Cássio pelo General Otelo, e inicia uma série de intrigas... 
Salgueiro Maia soube sair de cena no 25 de Abril, e apesar do seu papel fulcral não foi um dos promovidos, só passando a Major em 1981, ao contrário de outros que rapidamente passaram de capitães a generais.

Por vezes, nem tudo o que é previsto acontece, e a ópera Otelo não foi encenada em Portugal... houve outras operetas, outros cantos de cisne, e a revolta deu a volta prevista.

Este postal não foi feito no 25 de Abril, dia de muitos anónimos, simbolizados no nome de Maia, Salgueiro Maia. Não sabiam tudo ao que iam, mas iam por bem... e essa simples diferença, faz muitas vezes a diferença.

Nota adicional
As coisas são como são e valem o que valem.
Pouca gente conhece Salgueiro Maia pelo primeiro nome... Fernando.
Comecei o post anterior pelo A de ABBA, e é melhor acabar este da mesma forma, deixando os B's pelo meio.
There was something in the air that night, the stars were bright Fernando 
They were shining there for you and me, for liberty, Fernando

Björn Ulvaeus terá dito que era uma canção sobre revolucionários mexicanos, e a referência ao "rio grande" pode sugerir isso. Mas, enfim, ainda que os ABBA nunca tenham vindo actuar em Portugal... em 1975 não seria a revolução que estaria mais na mente de um grupo que tinha acabado de ganhar o festival da canção dias antes em que Fernando ouvia o "E depois do adeus", e avançava com as tropas de Santarém a Lisboa, pelo curso do grande rio.
Ao que parece, a canção era só de Frida, e passou a ferida revolucionária com o nome "Hernandez", mas o nome foi mudado para "Fernando", por aquilo a que se chama "espírito santo de orelha":

Originally named "Hernandez", the writers made last-minute changes to the title before recording. The suggestion of the name "Fernando" was given by their limousine driver Peter Forbes in Shepperton, England. Tony Fernando, a wealthy exports director for celebrities such as Princess Anne and Tom Selleck, was a friend of Peter Forbes.

Roger that. Oscar. Bravo. Over and out.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Nebulosidades Auditivas (11)

A ocasião é de ser festivaleiro...
Oooohhh! - It's Napoleon. 
Napoleon, no wonder their song is called Waterloo...
... really entered in the spirit of it all dressed as Napoleon.

ABBA
My, My, at Waterloo Napoleon did surrender... 
The history book on the shelf, is always repeating itself

Dia 24 de Abril de 1974.
Pouco antes, dia 6 de Abril, Paulo de Carvalho tinha ficado em último lugar no festival da Eurovisão.
O até aí desconhecido grupo sueco ABBA ganhava o concurso, o início de uma história de sucesso.
A França, habitual vencedora, no tempo da "chanson française", não participa no concurso - a razão, Pompidou, presidente em exercício, morre. Em respeito às cerimónias fúnebres que se realizam naquele dia, a França decide retirar a sua participação.
Se a ocasião parece fúnebre para os franceses, será apenas irónico ganhar Waterloo, ou será um pouco mais do que isso, o maestro Waldoff aparecer vestido de Napoleão, sabendo-se que os franceses estavam em "retiro"?

A vitória dos ABBA marca praticamente o fim da "chanson" e começa a dinastia "song".
As vitórias de 74, 75 e 76 são de "songs" cantadas em inglês.
Como outro pormenor curioso, o festival de 1974 era suposto ser realizado pelo país vencedor, mas como o Luxemburgo ganhara novamente, passou para a Inglaterra... acrescentando um toque adicional à derrota napoleónica em Waterloo. Em 1977, a França ganha... com Marie Myriam, filha de portugueses, e foi esta a única meia-vitória que a nação tanto procurava no Eurofestival.

Isto não teria importância, não fora a enorme importância dada ao Festival em Portugal, e mesmo na Europa dos anos 60 e 70.
Isto não teria importância, não fora o movimento armado escolher a canção de Paulo de Carvalho como código inicial para o 25 de Abril.

Nada a dizer. Tinha havido alguma polémica, pois "No dia em que o rei fez anos" - Green Windows  tinha colhido favoritismo, mas como vencedora a canção passaria despercebidamente, e só a passagem de Grândola, de Zeca Afonso, na Rádio Renascença seria já algo estranho.

Se o movimento do 25 de Abril tivesse abortado, nunca saberíamos que a programação das músicas na rádio portuguesa poderia servir códigos revolucionários... e quem associasse algo de estranho passaria por alucinado das teorias da conspiração.
Só que neste caso havia mesmo uma conspiração em curso, contra o regime.
Por isso, as teorias da conspiração só o são até ficar evidente que podem ser mais do que "teorias"...
Neste caso a teoria viu-se na prática.

Ora... estava o movimento revolucionário tão no segredo dos "capitães", no dia do Eurofestival?
O Golpe das Caldas, a 16 de Março, tinha deixado a situação bem visível, e só não teria tido entrado na alface, por falta de resposta das outras unidades. Marcelo Caetano convocou as elites militares, a chamada "Brigada do Reumático", mas o problema não estava nem nos generais, e ao contrário do que se pretende passar, também não estava nos capitães. O problema vinha de fora, e a visita a Londres de Marcelo Caetano em 1973 só terá servido para avaliar que a resposta de Marcelo seria pacífica.

Conforme podemos ver nalguns blogs, o hino do MFA, nada mais é do que "A life on the ocean wave", um hino militar do Séc. XIX, escrito pelos americanos Epes Sargent e Henry Russell, e que ficou popular na Inglaterra, conforme se pode ver nesta introdução de um interessante filme da BBC sobre a Guerra das Malvinas. Começa o filme e parece que vamos ouvir um comunicado do Estado Maior das Forças Armadas... (**)

A LIFE on the ocean wave, | A home on the rolling deep,  
Where the scattered waters rave, | And the winds their revels keep:  
Like an eagle caged, I pine  |  On this dull, unchanging shore:  
Oh! give me the flashing brine,  | The spray and the tempest's roar!
 
 Once more on the deck I stand  | Of my own swift-gliding craft:  
Set sail! farewell to the land!   The gale follows fair abaft.  
We shoot through the sparkling foam  | Like an ocean bird set free;—  
Like the ocean bird, our home   |  We'll find far out on the sea.  
  
The land is no longer in view, | The clouds have begun to frown;  
But with a stout vessel and crew,  | We'll say, Let the storm come down!
And the song of our hearts shall be,  | While the winds and the waters rave,  
A home on the rolling sea!  A life on the ocean wave!

Uma parte da Igreja sabia do que se ia passar, uma parte do Exército sabia do que se ia passar, e creio que só o povo e boa parte do Governo e das elites é que não sabiam... Por isso, como em todas as revoluções, a medida foi a da inacção e não do sucesso da acção. O regime praticamente não reagiu.

Assim, os serviços secretos estrangeiros estavam mais do que carecas de saber... estavam apenas a avaliar a tensão nos fios das marionetas, para que nada se partisse muito.
Quando as coisas começam a resvalar no período quente de 1975, temos o maestro Pedro Osório e o cantor Duarte Mendes a chegarem de cravo ao peito ao festival
Discreto, mas simbólico.

Em 1976, a situação já está controlada, mas como resquício a RTP organizara o festival apenas com Carlos do Carmo... ele seria sempre o vencedor, só ficou por escolher a canção que levava.
Pois, houve tempos assim...
Em resposta, os ingleses Brotherhood of Man e o maestro, chegam de cravo ao peito, tal como tinham feito os portugueses em 1975.
Discreto, mas simbólico. Save your kisses for me... foi o título vencedor


Mas não vou terminar com a "song", como dos cravos e cravas, passamos ao francês giroflé e giroflá, regresso à "chanson", e recupero o postal que fiz sobre o Giroflé, Giroflá:

... e, entrada a hora, termino com uma música de Zeca Afonso...
Índios da Meia-Praia (Zeca Afonso)

... por razões que ficam pelo meio de Alvor e Lagos, e por letras que cantam a mais que um tempo, nem sempre com o significado literal, pois o tolo no barco é toro (01:46).

_________________________
(**) Actualização (25/04/2016)
Foi substituído o link do vídeo com o documentário da BBC (que desapareceu entretanto do Youtube), por um vídeo semelhante da ITV, com o regresso do "SS Canberra, the Return, July 11, 1982", um navio com mais de 2 mil marines que haviam participado na Guerra das Malvinas, e que eram recebidos em glória, em Southampton.
Ainda sobre este assunto ver, por exemplo isto ou isto.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nebulosidades Auditivas (10)

The ancient sages said: 
"do not despise the snake for having no horns, for who is to say it will not become a dragon?"
So, may one just man become an army. 
Li Chung, o Justiceiro (The Water Margin)

Nearly a thousand years ago in ancient China, at the time of the Sung dynasty, there was a cruel and corrupt government. These men riding are outlaws - heroes - who have been driven to live in the Water Margins of Liang Shan Po, far to the south of the capital city. Each fights tyranny with a price on his head, in a world very different from our own. The story starts in legend even then - for our heroes, it was said, were perhaps the souls reborn of other, earlier knights...

Sandokan
Houve um tempo em que foi criada uma cultura comum em Portugal. A monolítica RTP impunha isso.
Poderia ver-se ou não televisão, mas quem via, via o mesmo. Desde 1957 até 1992 foi assim, e o que "dava na televisão" era uma cultura comum, só perturbada pela recepção satélite, já muito no final dos anos 80 (por exemplo, a Eurosport só começa em 1989).
Se o monolitismo era uma desvantagem, foi criada uma base cultural comum.
Passaria pela cabeça de alguém o vizinho nunca ter ouvido falar de Sandokan, o Tigre da Malásia?
Kabir Bedi, o actor indiano de Bollywood escolhido pela RAI para Sandokan.

Há pouco tempo falava-se da Irlanda como "Tigre Celta", dado o seu florescimento económico, antes do colapso de 2009... mas para uma geração, o Tigre era da Malásia, e era Sandokan, o personagem de Emilio Salgari, pirata de barcos e não de aviões, reavivado pela RAI numa série com imenso sucesso popular.

Hoje em dia, o Sandokan poderia dar no AXN, na Fox, ou num dos múltiplos canais de cabo... cada qual vê o que quer, o que é bom, mas perde-se a ligação aos outros, por via de uma cultura comum.

Lagardère
Essa cultura comum criava expressões que ainda hoje se usam, por exemplo - "foi feito à Lagardère".
A série francesa, com o espadachim Lagardère, foi um exemplo de grande sucesso que talhou expressões dificilmente entendíveis pelas novas gerações. Percebem, pelo contexto... 
Porém, se a expressão se mantiver, será que daqui a umas décadas não é mais natural o nome ser associado a Jean Luc Lagardère, industrial da empresa militar Matra, que "subiu à Lagardère" e morreu estranhamente, quando se investigavam ligações ao 9/11. Ou entre nós, será associado a Lagarde do FMI?
As associações são assim um entendimento comum, próprio de uma época, e nem sempre passado do passado para um presente. Podem facilmente prestar-se a confusões, mas também essas confusões podem ser meias verdades. Se alguém disser que a referência a Lagardère é de uma peça "O Corcunda" (Bossu) de Paul Féval (1858), está certo, mas não será compreendido por quem sabe que a ligação vem da série passada na RTP no início dos anos 70, e desconhece que essa série se inspirava por sua vez nos folhetins de Paul Féval.
Ilustração do romance "Bossu", com Lagardère.

Por isso, haverá muitas associações que aqui escrevo que podem ser consideradas à Lagardère... ou seja, um conhecimento parcial da conexão não pode inibir outro tipo de conexões. Não há conhecimento para as refutar, e por isso não devem ser consideradas como certas ou erradas, uma tentação simplista inquisidora, mas devem ser simplesmente vistas pelo nexo que podem exibir.

Nexo do Ó
Dou o exemplo com a própria palavra "nexo"...
A etimologia conhecida é interessante e está aqui, remete a nexum, de ligar ou atar, e remete ainda ao nó, nodus, que teria raiz indo-europeia em "ned", com o mesmo significado de atar.
Isso é uma explicação, muito boa. 
Porém, ao olhar para "n-exo" vejo imediatamente a negação de "exo", do exterior.
Assim, à Lagardère, faço a associação de que "nexo" nega o externo... invoca uma ligação interna, do próprio, do grupo, da comunidade. 
Uma não anula a outra, aliás complementam-se.
Quando se invoca o externo, desconhecido, não se produz nenhum nexo. O nexo é interno para poder ser explicado aos outros, e não se resumir a uma experiência individual, que envolve o inexplicável.
Plicar é pôr entre plicas, entre pregas, enquanto explicar é atirar fora essas plicas.
Por isso há uma diferença entre pregar e explicar. Num caso pretende-se cravar com um prego, enquanto no outro se tiram os pregos da palavra e se procura abri-la à compreensão.
Mais, o "n" não deve ser associado apenas à negação, foi usado na contracção, por exemplo "em o" passou a "no". Assim, o nexo está no exterior, é a nossa construção do exterior, mas é feita de dentro para fora... sob pena de nos colocarmos nós de fora.

Por outro lado, quando temos "nós" e não "nodos", vemos que a raiz indo-europeia passou entre nós mais para "nódoa". Somos nós, mas não estamos atados. A primeira pessoa do plural é nós, mas a primeira pessoa do singular não é nó... isso seria uma nódoa.
A nossa língua é tão primeva que aponta o simples Ó como sinónimo da gravidez (caso das invocações à Nossa Senhora do Ó). O nó do cordão umbilical, fim do Ó, terá sido o primeiro NÓ, e os que tinham esse cordão umbilical atado, saídos do ÓS, eram os NÓS. 
Por isso cada um dos nós ficou solto... mas tem um útero comum - a Terra, que delegou uma parte do crescimento num útero das suas filhas mães, até que estivessem prontos para o universo-terrestre, ou seja um U-Terra, u-tera, utero... E se a Terra armazenou Gigabytes de informação no DNA, acima disso temos os Terabytes - e esses Terra-bytes informativos já não estão no DNA, estão em nós - nos nós saídos dos Ós, que não se fecharam num O e começaram a definir o U pela linguagem. 
As borboletas parece que já sabem disso.

Li Chung
Bom, mas alongo-me sempre.
Voltamos a Li Chung.
Não perdia um episódio... e apesar de já não me lembrar de nenhum, a música de Masuru Sato ainda me tocou, e por isso fica classificada mais pelo lado sonoro.
Também não tinha esquecido as figuras algo atrozes, dos textos antigos chineses, que mostravam temíveis barbudos, vistos na introdução. Lembrei-me disso, pela referência que o José Manuel fez à figura peluda que aparece num prato de D. Manuel, sobre os povos do mundo:
... não sei se o barrete é frígio, ou se tem apenas dois dedos, ou se está a fazer um sinal, hoje muito corrente, e que representa vulgarmente "uns cornos". A existência de homens peludos não é estranha, é muito mais estranho não termos pêlos! Sobre isso já falei, remetendo a possível ligação às ilhas oceânicas. Os haplogrupos parentes do R, ou seja N, O, Q, são mais imberbes que os europeus... o que pode indiciar a tal mistura que se foi dar na Europa.

A história reportada a Li Chung é da Dinastia Song, que tanto passa por ter um florescimento cultural na sua capital Kaifeng, ao longo dos séculos X a XIII, como depois sofre uma degradação acentuada, pelo poder que os funcionários burocratas exerciam localmente, fora do controlo central.
É aí que entra Li Chung e os 108 espíritos rebeldes que vão ficar à margem, na margem do rio Lian Shan Po. A história de "Water Margin" faz parte de 4 contos essenciais da literatura chinesa, mas a série televisiva é de origem nipónica, ainda que filmada na China.

Há um ponto importante, pois podemos ver que esse florescimento da Dinastia Song tem um toque hindú, budista. Mais, atraiu muçulmanos (havia mesquita em Kaifeng) e atraiu judeus (havia sinagoga em Kaifeng). Por isso, muitos séculos antes dos descobrimentos, as comunidades judaicas e muçulmanas iam da China a Portugal. O pretenso afastamento oriente-ocidente não seria mais do que uma imposição que servia intermediários. Apesar do desenvolvimento técnico, nomeadamente em armas de fogo, com a invenção da pólvora, a Dinastia Song é travada pelos burocratas e pelos cavaleiros mongóis de Genghis e Kublai Khan... e é nessa altura que recebe Marco Polo, vindo de Veneza.

O que me interessa mais é que como adolescente me identificava perfeitamente com os heróis de uma cultura estranha, que deixava de ser estranha por essa abertura cultural que se deu nos anos 70. Já não havia índios e cowboys da infância, apenas chineses, mas havia uns maus e outros bons... e nada tinha a ver com a cultura, pois isso eram valores humanos universais. Simples.

Kung Fu
Houve uma abertura a oriente, passavam a ser moda as artes marciais, Bruce Lee foi um ídolo de uma geração, e houve também uma série marcante - Kung Fu.
Kung Fu (com David Carradine)

Em Kung Fu, muitos poderiam fixar-se nas cenas marciais, e certamente esse era um lado popular, mas também alguma sabedoria oriental dos monges de Shaolin ficava ao alcance da população.
Uma filosofia que ao invés de se esconder em intragáveis definições feitas nas universidades ocidentais, procurava despertar questões complexas de forma simples.
Não sei se ficou alguma coisa, mas revendo o vídeo parece-me que sim...

Um último detalhe, e que é importante, quando se começa a prestar atenção aos detalhes da natureza que, conforme é dito pelos monges de Shaolin, exibe harmonia. Quanto mais se entendem as harmonias, os detalhes, tudo começa a parecer relacionar-se... e pode parecer bom conseguir ouvir o inaudível, mas também é bom o silêncio. Por isso, em certas alturas, já tive que ouvir música em línguas desconhecidas, simplesmente porque é preciso desligar as conexões. O simples silêncio não serve porque nos remete aos nossos pensamentos, é mesmo preciso o caos exterior para que se recupere o necessário silêncio interior.

domingo, 13 de abril de 2014

Aviam avião MAS 37 0

O que é preciso para um avião desaparecer sem rasto?
A lista é extensa:
http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_aerial_disappearances
e inclui, por exemplo, Sacadura Cabral.
Desde há várias décadas que não se ouvia falar de algo semelhante, sendo algo particularmente errado quando a vigilância global é exibida despudoradamente, e ainda que o vôo tenha sido nocturno, há todo um conjunto de emissões electromagnéticas que podem ser monotorizadas.

MAS 370 era a identificação do vôo desaparecido da Malasia Airlines (MAS).
Chegaram-me links sobre uma tese de que o avião foi "aviado":

... que tem a vantagem de não se resumir à ideia básica de um sequestro ovni (fica aqui um link e chega), exibindo um nexo, que sendo verdadeiro, tem bastante nexo. 

O assunto é perfeitamente lateral, e não me parece envolver nenhum mistério.
Há ocultação de informação, o que é uma coisa completamente diferente.
Por isso nem tinha intenção de falar sobre o avião. 
Só coloco este texto, porque a certa altura se refere que os novos aviões podem ser controlados remotamente, sem possibilidade de intervenção dos pilotos.
Tal como é tendência generalizada com toda a nova tecnologia... o mundo wireless tem esse problema. Não é apenas deixar de haver coisas escritas em papel, agora é moda estarem guardadas na "cloud", como é o caso do email. 
Tudo está bem quando corre bem, mas... o utilizador perdeu o nexo do controlo (e ainda que alguns já mal funcionem, fui guardando os computadores velhinhos, de quando ainda havia disquetes).

Quem compra tecnologia, não controla tecnologia... para isso é preciso fabricar, e assim sempre me pareceram ridículas as compras de armas sofisticadas pelos estados - só servem para exibição interna ou para meter medo a vizinhos. O vendedor não vai correr o risco de ser atacado pela venda...

Porém, quem fabrica tecnologia também não a controla completamente... porque há sempre um pai presente neste mundo - o caos. O caos serve a inspiração criadora, mas serve também a confusão, o erro, e a incerteza sobre os processos físicos.
Assim, não é improvável que o avião da Malásia possa ter mesmo ter desaparecido sem rasto... outras teorias podem ser lidas aqui, e claro... incluem o já esquecido Triângulo das Bermudas (onde a fonte de mistérios parece ter secado).

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Nebulosidades auditivas (9)

Da confusão dos mitos americanos afundados entre o sonho e a realidade, entre o caos e a ordem, entre a degradação e o puritanismo, entre as armas e a paz, entre a liberdade e as restrições, surge uma aguda voz angélica num tom grave, capaz de provocar ou pacificar o mais severo ouvido - Elizabeth Grant, mais conhecida como Lana del Rey.
É ela que dá voz à mais recente repiscagem da Disney: Malefica.

Quando uma frequência me apanha, sou capaz de analisá-la ao mais pequeno detalhe, vezes sem conta. Todos os pormenores contam, e potencialmente podem revelar algo, para além da intenção do artista.
Um vídeo corre em poucos minutos, mas a sua produção é pensada em muitos dias... que aspectos são ocasionais ou propositados?
Lana Del Rey - Ride

No vídeo de Ride, não se conta a história de Elizabeth Grant, estudante de filosofia que enveredou por uma carreira musical... conta-se talvez a estória da entretanto nascida "Lana Del Rey".
O vídeo mereceu comentários de detalhe:

e vou focar mais outros tantos, por exemplo:
00:00 - as letras de RIDE desaparecem, pela ordem IERD, ao contrário, D REI.
00:05 - a suspensão da grua (ou do céu...), Miley Cyrus usou o modelo?
00:37 ... sobre os bikers, o deserto do Nevada, perto de Las Vegas, podemos aqui ver um dos móteis, onde decorreram as filmagens.
01:12 - o anúncio DAD'S, na loja 1102.
01:16 - "Prosecuted" numa porta, Freedom na outra, e é claro Money Transfer, Money Order.
01:52 - "Money Orders", graffiti na parede, ironizando o anúncio do banco.
02:29 - o mesmo graffiti quando entra no carro.
03:37 - abertura das hostilidades, anúncio no NeptunE (Seattle, onde Lana estreou) e o tridente no E.
03:40 - mãos com enormes unhas...
04:10 - o que resta dos guerreiros após Iwo Jima?
04:13 e 04:27 (brinco com cruz) - uma frase atribuída a Sinclair Lewis
           When fascism comes to America, it will be wrapped in the flag and carrying a cross. 
           A T-shirt usa uma ironia "Buttwiser - King of Rears" e não "Budweiser - King of Beers"...
04:33 - Bonus ONU
04:41 - "Fatal Charm (fo)Replay Lana Del Rey... Fiasco Shots Finger Tigh"
04:47 - Dad's?
04:48 - a mencionada foto do motel
04:52 - Dad's?
05:24 - "Heat(re) Resents A Del Rey"
05:49 - The Wall e 05:57 temos 13
06:22 - "Please Pay First" ... e o sinal "do not smoke..."
07:40 - a dona das grandes unhas

Nesta lista há alguns efeitos casuais ou são todos propositados?
Quer Anthony Mandler, realizador, quer Lana del Rey, autora, aparentam saber perfeitamente o que estavam a fazer.
Nada a dizer. Este é um vídeo invulgar, muito bem feito, mas normal... não parece trazer nada de estranho, que não fosse intenção de quem o fez. Nem sempre se vêem (ouvem) ilações acima da linha do visível (audível), e este é um bom exemplo para referência de controlo da percepção. Tudo normal.

É claro que todo este paleio estranho é mera desculpa para invocar a cantora excepcional. 
Young and Beautiful exibe esses dotes, e veja-se o vídeo aos 00:54 na pirâmide invertida da orquestra, por relação a um vídeo anterior Video Games, ao momento 00:16, aí conduzida por um cartoon.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Natural Mente

Uma das questões que suscita mais dúvidas de interpretação, para além dos lances de penalty no futebol, é averiguar se uma dada forma tem origem natural ou não.

Há múltiplos exemplos, e considero aqui um que foi trazido à discussão por via do Paulo Cruz:
Waffle Rock (Virginia, EUA)

... e coloco em comparação com dois outros casos conhecidos:
Calçada dos Gigantes (Irlanda, UK)

O que nos permite distinguir uma estrutura natural doutra?
- Primeiro é preciso entender o que significa "natural"...
O favo hexagonal na colmeia é construído por uma abelha, no caso da Calçada dos Gigantes deve-se à formação cristalina da rocha basáltica como é o caso de formação semelhante, na ilha do Porto Santo.

O link desta figura aponta para uma lista de formações de basalto semelhantes que se podem encontrar espalhadas pelo mundo, sendo a Torre do Diabo no Wyoming um exemplo clássico. Nem de propósito, o mesmo link da wikipedia começa por dizer que a estrutura de Nan Madol usou este tipo de blocos basálticos.

Portanto, a estrutura hexagonal, ou outras formas geométricas, podem aparecer em contextos diferentes. Ou ligadas à actuação sistemática de um animal, ou ligadas à geologia pela estrutura química cristalina. Pode ainda haver outros casos em que se trata de intervenção humana, visando a produção de uma qualquer estrutura artificial.
Ou seja, algumas vezes é comum serem os humanos a adoptar as soluções e formas que vêm na natureza, ficando difícil à distância perceber a sua intervenção.

Agora, não tenhamos dúvida de uma coisa... se não somos artificiais, nada do que fazemos pode ser considerado "artificial". O computador portátil é tão natural quanto o favo hexagonal da abelha. 
Onde está a diferença?
A diferença está no grau de complexidade.
Até que se perceba uma complexidade para além dos mecanismos "naturais" conhecidos, não há certeza sobre intervenção humana.
Um exemplo claro já foi aqui dado com o Alfaborboleto... as borboletas não andaram a pintar números e letras nas asas, nem foi nenhum produto humano. A complexidade na natureza é suficientemente grande para nos espantar de sobremaneira.

Não é apenas na natureza do ponto de vista biológico, é até do simples ponto de vista matemático.
Os fractais aparecem na natureza, mas podem ser vistos como mera programação computacional, e podem revelar algumas surpresas:

Aquilo que vemos nestas duas imagens não é resultado de nenhum embelezamento propositado, excepto na escolha de cores e tons. É consequência de programação muito simples, com duas ou três linhas de código... A operação em cada pixel é repetida até satisfazer um critério, e consoante o tempo que demora coloca-se uma cor. As operações e critérios são simples, mas o resultado final está longe de o ser, o que surpreende bastante.

Eventualmente algumas das figuras obtidas podem parecer-se bastante com estruturas biológicas, ou físicas, e isso não é anormal. O processo biológico tem um aspecto de fractalidade, ou seja há repetições dos mesmos processos em escalas cada vez mais pequenas.
De entre as múltiplas referências existentes na internet, coloco um link sobre os fractais na natureza, e um vídeo sobre o notável fractal de Mandelbrot:

No caso do fractal de Mandelbrot o zoom já conseguido é largamente maior do que seria o zoom do universo estimado até um qualquer electrão, e isto feito várias vezes.  O surpreendente é que apesar de haver semelhanças, há sempre imensas diferenças. Há todo um universo por explorar num simples exemplo aritmético, e as imagens desafiam o melhor da NASA... o resto é apenas crença - com uma enorme diferença - aqui sabemos que não estamos a ser enganados (... isentando o computador)!

Com tanto zoom, será possível vermo-nos a nós mesmos do outro lado?
Isso é uma velha questão, desde que o modelo atómico foi inicialmente parecido ao modelo do sistema solar... passou-se a pensar que os átomos poderiam ser como estrelas com planetas a orbitar.
Ao nível atómico, e mesmo de quarks, já se sabe que não é assim que se passa... porém, avançando no zoom, talvez nos possamos ver... isto porque a mais pequena partícula não é mais do que um universo passado e fechado para contas.

Concluindo... a complexidade que temos é natural, e por muito artificial que pensemos ser o que produzimos, não deixam de ser produções naturais, como é o favo da abelha. Mesmo na perspectiva meramente e simplesmente científica, a complexidade que nos caracteriza é natural, resulta de complexidade biológica, que por sua vez resulta de complexidade nos processos físicos.
Ao contrário do que julgamos, não somos os únicos capazes de fazer uma estrutura tipo waffle, ou seja bolacha americana. A mesma natureza que nos formou é capaz disso e de muito mais.
Pior, não deve ser de surpreender que existam réplicas de invenções nossas na natureza... a natureza pode começar por enviar umas borboletas com umas letrinhas nas asas, mas pode não ficar por aí! Não me chocaria que o mesmo "acaso" que nos gerou, também pudesse gerar as mesmas obras sem nós...
Acaso seria impossível por um processo natural produzir um transístor? Claro que não! Afinal, são tudo processos naturais... por que razão haveria a natureza de precisar que saísse de neurónios?

Onde estão afinal os neurónios que produziram os neurónios? Pois é... acasos desses se caem para o nosso lado, poderiam cair para um lado qualquer. As estruturas biológicas são muito mais complexas que as nossas melhores máquinas e não vemos ninguém a dar patente à mãe natureza (... pelo contrário, o que é habitual é copiar as ideias).
Agora, há obviamente uma lógica nisto, e se nada obsta a que natureza produza computadores (alguns processos neuronais têm funcionamento similar), não vão aparecer como frutos das árvores... poderia acontecer noutro universo, de magia, mas não acontece neste. Aqui o caos tem liberdade, mas tem uma trela presa à ordem lógica. Ou seja, pode fazer waffles de pedra, mas não vai fazê-los por magia saindo do balcão da cozinha e prontos a comer.

Nota Adicional (02/04/2014):
Um outro documentário, já antigo, com os já falecidos Mandelbrot e Arthur C. Clarke, é talvez mesmo o suficiente para entender a importância dada ao assunto:

As observações de Arthur C. Clarke são singulares... na fronteira entre o que tendia para zero e o que tendia para infinito, nessa ténue linha que define o conjunto de Mandelbrot (a fronteira do negro que é sempre unida por linhas - ainda que não sejam visíveis - as cores revelam o que tende para infinito), colocou uma metáfora de equilíbrio universal... ou seja, o que estava fora dessa linha não existiria, por anulação ou explosão. 
Quando realizou com Kubrick o 2001, Odisseia no Espaço, parece ter antevisto na cena "Jupiter and Beyond the Infinite" as imagens que hoje vemos nas simulações com sucessivos zooms, e que certamente teria escolhido, caso existissem à época.