domingo, 23 de fevereiro de 2020

Nebulosidades auditivas (77)

Do tempo em que a modernidade atingia um dos seus picos, em 1977, a disco-music recebia diversos temas icónicos, em particular dos Bee Gees, no filme Saturday Night Fever... de tal forma, que apesar de se localizar predominantemente entre 1975-79, ainda hoje o disco passa por música dos anos 80... 
Do final dos anos 70 até ao início dos anos 2000, as discotecas foram o ponto de encontro de todos os jovens, até que na década de 2010, as discotecas foram desaparecendo, e agora será mais moda de jovens passados, entretanto divorciados.

Giorgio Moroder com Donna Summer, ou Grace Jones, traziam sonoridades bastante diferentes do habitual, marcadas pelo uso de sintetizadores, de uma música electrónica que tinha começado nos anos 60, mas que seria uma especial marca dos anos 80. Estes temas parecem ainda hoje ter uma sonoridade que ficou por explorar.
1977 - Donna Summer - I feel love

1977- Grace Jone - La vie en rose

Pela mesma altura surgiam os exageros algo grotescos como os dos Sex Pistols, e a razão era simples... surgiam porque podiam!
Tal como a pintura ao fazer a sua evolução abstracta, chegou ao ponto de fazer aparecer um Quadrado Negro, por Malevich (1915), também a "música" com Yves Klein, ou com John Cage (1952), decidiu apresentar uma peça com 4'33'' de silêncio.
Por isso nada mais natural do que em 1975 aparecerem uns Sex Pistols elevando o ruído desafinado de guitarras estridentes ao estatuto de música.
São bizarrias que nem piada chegam a ter por serem demasiado óbvias, mas no entanto fazem delícias de intelectuais toscos, talvez por reflectirem o caos ou vazio das suas próprias mentes.
Também tivémos João César Monteiro, com o seu filme negro (literalmente) "Branca de Neve", com a devida "graça" de ter sido financiado pelo estado com quase 1 milhão de euros. Ou mais recente o grotesco livro em branco de Simove, que já teria sido usado com mais piada em 1880 para ilustrar os feitos de um general, candidato à presidência americana.

Interessa que a comunidade depressa entendeu que sem uma mínima melodia, não havia música pop, e após o punk, dificilmente se poderia fazer pior, o que permitiu uma panóplia de estilos musicais no início dos anos 80. Para entendermos que o punk manteve adeptos incondicionais até 1986, basta ver o caso dos Sigue Sigue Sputnik que tiveram uma publicidade exagerada, anunciados como precursores da música que se ouviria no Séc. XXI...
Claro que nisto só acreditaria quem fosse mesmo muito jovem.

Para comparação, fica um tema dos Chemical Brothers, saído no ano passado, e que de certa forma ilustra como voltamos a estar próximo da música disco.


2019 - Chemical Brothers - Got to keep on


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Trampa contra Trump

Um dos episódios mais caricatos da história americana recente foi a tentativa de Joe Biden, em conjunto com o seu partido democrata, promoverem o impeachment de Donald Trump.
Primeiro, porque a história começa por comprometer a própria família Biden, em que o pai tenta um arranjinho para o filho na Ucrânia, usando para esse efeito o próprio Obama. Essa circunstância, de si, mereceria uma investigação aprofundada, sobre presidentes e vice-presidentes, a procurarem aproveitar-se da fragilidade económica de um país europeu. 
Depois, quando a Ucrânia se procurava finalmente livrar do Biden filho, contando com o óbvio auxílio de Trump, os democratas acabam em desespero virar a história ao contrário, acusando Trump de lhes estragar o arranjinho... como se tal coisa não fosse mais do que corrigir a lógica corrupta subjacente às negociatas e aproveitamento das famílias políticas... e aqui não há grande distinção entre democratas e republicanos.

Trump, tem sido alvo preferencial de uma imprensa internacional, que é completamente controlada pelo sector que apoia agora os democratas, e que se identifica a um certo sector judaico. 
Tem sido ridicularizado até ao tutano (em boa parte, por sua própria culpa), mas acabou por fazer as coisas virarem-se a seu favor, e esmagou os democratas na votação do Senado, onde os republicanos em peso apoiaram Trump (exceptuando Mitt Romney).
Já se tinha percebido com Dilma Rousseff que pseudo-motivos de justiça iriam agora servir para colocar em causa os presidentes eleitos, especialmente quando estes não estão nas boas-graças...

Este episódio ridículo que os democratas promoveram, divulgando massivamente pela imprensa internacional, e quase sem contraditório visível, foi agora coroado pela actuação de uma barbie-doll em fase terminal. Nancy Pelosi, que parece uma boneca com discurso em fita gravada, serviu o show de péssimo guião e actores, rasgando o discurso de Trump, sobre o Estado da União.


Provavelmente Nancy foi mal aconselhada, como já tinha sido durante todo o tempo do impeachment, onde disse pouco mais que barbaridades. Se fez aquilo sem ter sido aconselhada, então o caso é mais sério, pois normalmente os actores não devem pretender ser argumentistas.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

E-xit

Brexit (British exit) or E-xit (European exit)?

Celebrado como se tivesse terminado uma guerra com a União Europeia, a Inglaterra entrou com esperança no dia 1 de Fevereiro, quebrando as ligações com Bruxelas, e abrindo desde já o seu espaço comercial natural - E.U.A., Canadá, Austrália, etc...




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Nota (03.02.2020):
José Manuel Oliveira sugere o vídeo de intervenções de Neil Farage, que são bastante ácidas, corroendo o politicamente correcto bruxelense:

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Snowmaggedon (8)

Repetindo o que disse o ano passado: "Todos os invernos é a mesma coisa... o tempo esquece-se que está sob alterações climáticas, tendo em bastidores um "aquecimento global"...

Este tópico Snowmaggedon está aqui todos os Janeiros desde 2014, para as notícias de temperaturas baixas, sendo assim contraponto à empolada informação sobre temperaturas altas, motivadora da campanha contra um certo "aquecimento global", depois chamado "alterações climáticas".

Desta vez, a notícia aparece no Público com este mesmo nome:

Fonte congelada na cidade Victoria, parlamento da Columbia Britânica

A cidade de St. John na Terra Nova foi especialmente fustigada, tendo este nevão batido recordes no Canadá, já de si um país habituado à neve. 

Convém aqui lembrar também o que foi notícia em Janeiro, o grande incêndio na Austrália, esse mais ajustado à narrativa da moda. Acontece também que os incêndios no verão australiano, são quase tão frequentes quanto os nossos, ou os californianos. 
Fica aqui um registo comparativo dos mais famosos incêndios australianos:

Não é preciso investigar muito para concluir que em 1974/75 a área ardida foi substancialmente maior, 6 vezes mais, e os incêndios deste ano ficam em 7º lugar nessa contagem australiana de metros quadrados ardidos. Quanto ao número de vítimas, os incêndios de 2009 continuam a deter o pior registo, ficando este ano no 6º pior registo. 
Nada disto diminui o peso que cada calamidade tem, especialmente para os envolvidos.
No entanto, é sempre conveniente relativizar as coisas na campanha de desinformação (em curso).
Isto, é claro, independentemente de serem louváveis todas as iniciativas de baixar as emissões de poluentes, e também ser louvável o empenho dos governos francês e alemão em salvar o planeta, ou melhor, renovar a sua produção automóvel, agora com o epíteto "verde" ou eléctrica.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Irão ou não irão

Numa altura em que o conflito entre os EUA e Irão se acentuou após a execução do general Soleimani, em 3 de Janeiro, as 56 mortes por esmagamento no seu funeral no dia 7, e o abate do avião ucraniano no voo PS-752, no dia 8, com 176 vítimas (82 das quais iraniana) mostraram como, em situação de conflito, é fácil disparar sobre o próprio pé. 

Os gritos de vingança iraniana, com a êxtase fúnebre e o lançamento de rockets sobre as bases americanas no Iraque, tiveram um custo de 138 vidas iranianas, e zero vidas americanas. Todos os erros são imputáveis directamente aos próprios iranianos, que agora assim o admitem. 
Além disso, este erro deixou Teerão numa posição internacional muito frágil, com um medo latente de voos civis sobre o território.

Acresce que está a ser alimentada uma onda de protestos interna contra o próprio governo, devido ao encobrimento governamental, que durou alguns dias, até reconhecessem o próprio erro.

Parecerá até um golpe de judo, em que a força do adversário é usada contra si mesmo.
Terá sido assim? 
Haverá alguém na CIA a fechar a operação "tiro no pé"? 
- Poderá ser que sim, poderá ser que não, mas Trump ainda assim não se livra de algumas críticas canadianas (Canadian CEO says the United States shares blame for Iran plane crash). 
Não que Trump tenha propriamente um registo de bombardeamento de cidades, ao contrário dos seus antecessores (Clinton, Bush ou Obama), mas simplesmente porque esse modus operandi é assumido na política americana, e a execução ou assassinato de Soleimani, não difere do modelo de justiça dos velhos westerns.

Finalmente este abate de avião civil no Irão, segue um velho caso, ocorrido em 1988, quando um porta-aviões americano abateu um avião civil iraniano, o voo IR-655, com a morte dos 290 ocupantes. 
Curiosamente, esse caso tornou evidente como a imprensa ocidental era enviesada a reportar os erros:
- A capa da Newsweek clamava "murder in the air" no caso do voo KAL-007, abatido em 1983 pelos russos, enquanto no caso do IR-655, apenas se perguntava "why it happened".

Mas, a questão é que mesmo que os EUA tivessem condicionado os iranianos a cometer o erro de abaterem um avião civil, seria algo tão vil, que admiti-lo, mesmo nos corredores de Langley, seria um outro tiro no pé.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Nobody expects... the ECJ

Uma novela que continuamos a seguir com interesse é a "Crise Catalã".
Depois do último postal a este propósito:
há uma novidade interessante.

Não se trata da abstenção dos catalães para viabilizarem o governo de Sanchez, pois isso foi mais noticiado. Parece claro que Sanchez e os catalães se terão entendido de alguma forma para conseguir esse apoio, ainda não se sabe como, mas aguardamos.

A notícia surpresa, para os espanhóis, foi a decisão do Tribunal de Justiça Europeu (ECJ - European Court of Justice) que deu finalmente provimento à tomada de posse de Puigdemont, Comín e Junqueras, enquanto deputados do Parlamento Europeu.
Estes tinham sido eleitos em 26 de Maio de 2019, mas impedidos de tomar o seu lugar em Bruxelas, alegadamente por não terem jurado a constituição espanhola. 

Puigdemont e Comín já foram acreditados pelo Parlamento Europeu, e até tiraram uma selfie da praxe:
Euronews - Puigdemont e Comín visivelmente satisfeitos na chegada ao Parlamento Europeu.

O problema é que o tribunal espanhol não deu autorização para libertação de Junqueras, que deveria comparecer à próxima sessão de 13 de Janeiro. 

Ora, como isto viola a imunidade parlamentar, a que tem direito, o Parlamento Europeu solicitou a sua libertação ao supremo tribunal espanhol, e aguarda-se desfecho até segunda-feira.

Para os espanhóis descalçarem esta bota sem perder a face, o melhor seria Sanchez conceder um perdão aos catalães presos, algo que parece poder ter pernas para andar, dada a abstenção catalã. 
Doutra forma, será um descrédito institucional... ou das instituições europeias, ou das espanholas.
Mas, enfim, isso também não surpreenderia ninguém.

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Nota (21.01.2020):
O lado espanhol reiterou a posição, e foi o lado do Parlamento Europeu que perdeu a face, retirando a Junqueras a possibilidade de ser eurodeputado. Como o Parlamento Europeu nunca foi mais do que uma instituição de fachada, digamos que o seu presidente David Sassoli, seria o lado mais fácil de ceder.
Para mostrar alguma coerência, o Parlamento Europeu irá agora indagar se retira ou não a imunidade parlamentar a Puigdemont e Comin... Entretanto, em tentativa de desespero, surgiu hoje um pedido de integração de Junqueras, assinado essencialmente pelo grupo parlamentar "verde", como pode ser consultado num jornal catalão:
The decision of the President of the European Parliament to declare, against the ruling of the CJEU, the  withdrawal  of  the  mandate  of  Mr  Junqueras  without  a  decision  of  the  Parliament  to  waive  his immunity is also regrettable. This undermines the sovereignty of the Chamber and its ability to decide on the immunity of its Members. 
The denial of political rights is an alarming precedent that violates the principles and values that inspire the European project. Therefore, the signatories of this letter ask the European Parliament to defend the institution by protecting the immunity of Mr Junqueras as a Member, opposing the announcement of termination of his mandate and verifying his credentials in the upcoming vote. Only the  European Parliament, if it so deems appropriate, can lift the immunity of one of its Members.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Cair de Maduro (3) ou de podre?

Os dramaturgos da imprensa vaticinavam que a Venezuela morreria de fome em Maio, se não chegasse ajuda internacional (que aliás só seria possível com Guaido).

Entretanto os meses passam, e a fome também terá passado, porque praticamente Guaido desapareceu das nossas notícias. 
Quando escrevi o último postal sobre o assunto, as notícias eram diárias e abriam os noticiários:


Depois a imprensa tem o condão de esquecer por completo os assuntos que "não interessam", até porque o povão também tem memória curta. 
A vantagem de fazer compilações do ano passado, é que estes assuntos vêm à baila.
Poderia querer saber se os venezuelanos já tinham papel-higiénico, ou continuariam a usar a imprensa internacional para higiene pessoal.

Fui ver o que tinha acontecido com Guaidó:
Guaido apanhado num escândalo de corrupção (Dezembro 2019)
Ou seja, o "Obama venezuelano", o míssil Tele-Guiado, Guaido foi apanhado num escândalo de corrupção, sendo acusado pelos próprios apoiantes. 
Perante a necessidade de ser reeleito neste domingo (5 de Janeiro de 2020), no cargo da assembleia nacional, é natural que haja alguma expectativa de perceber se Guaido será ou não substituído na presidência desse órgão.

Para Nicolas Maduro, a eleição é absolutamente secundária porque ele tratou de criar uma outra assembleia, tornando aquela inoperante. Haverá novas eleições parlamentares, mas parece que Trump perdeu todo o interesse em Guaido, ou aguarda o momento para uma ulterior eleição presidencial.

A Venezuela estará provavelmente numa crise semelhante à que estava, com a diferença que por enquanto não temos as notícias em forma de novela dramática, como tivemos há uns meses atrás.

De certo que os virtuosos argumentistas que alimentam as notícias internacionais, que vão para o ar em forma de novela às 20h00, por via dos telejornais, arranjaram novos heróis e bandidos para alimentar o pagode. 
Apenas não sabemos quando virá aí nova enxurrada dramática. Temos apenas alguns episódios pontuais, como um falhado ataque a quartel:
Ora este postal, como os anteriores, pouco tem a ver com Maduro ou com Guaido, que são apenas dois elementos de um jogo político internacional. Este postal tem a ver com o total descrédito que nos merece a nossa imprensa, cheia de "fact-checking" ou "polígrafos" da treta. 

Poderia dizer-se que nunca a imprensa esteve tão mal, mas isso seria tão errado quanto achar que essa imprensa alguma vez desempenhou o seu papel de forma minimamente independente. A libertação de recursos - em que cada cidadão seria um possível emissor noticioso - esquece sempre o pequeno problema de que estamos num mundo com 6 mil milhões de pessoas. Ora, ninguém consegue dar atenção a 6 mil pessoas, e isso corresponderia apenas a um representante por milhão...


Nota posterior (07.01.2020):
Guaido pede novos protestos, após ser reeleito (tendo sido inicialmente impedido de entrar na assembleia nacional, com Parra no seu lugar)
https://www.france24.com/en/20200107-venezuela-s-reelected-parliament-speaker-calls-for-protests

domingo, 22 de dezembro de 2019

Apanhados do Clima (3)

Um dos tópicos mais frequentes da nossa desinformação é a tanga climática.
Tanga climática, porque nas antigas previsões dos especialistas para 2020, deveríamos estar com primavera no inverno, sendo neve e chuva uma coisa rara.

Mesmo não ligando à Pirralha de serviço (ou Pipi ralha), para quem as tempestades do Atlântico são brincadeiras dos mares do sul, tendo o bom augúrio de não se cruzar com a depressão da Elsa, vieram os ventos lembrar às ventas que deveríamos estar em período decretado de seca extrema, ou coisa do género. Senão, recordemos as notícias de Outubro e Novembro: 

7 Out 2019


5 Nov 2019 


As notícias de Novembro surgiam já depois das chuvas do final de Outubro, que se prolongaram praticamente por todo o mês de Novembro e continuaram em Dezembro.
Mesmo assim ainda se leriam títulos como "Os efeitos devastadores da seca no Algarve"  já que não conseguiam arranjar outra seca para alimentar a seca de notícias. Enfim, era como se o Algarve e o Alentejo fossem afinal regiões conhecidas pela abundante chuva.

Não se pense que a Elsa trouxe água suficiente para afogar as mágoas. 
Nada disso, a infindável ladaínha da seca está aí para ficar: "Últimas chuvas que foram parar às barragens dão para menos de um mês de consumo de água no Algarve".

Mesmo que a quase totalidade do país esteja a braços com barragens a rebentar pelas costuras, obrigadas a fazer constantes descargas (caso de Crestuma, que fez transbordar o Douro, ou o caso de Ribeiradio que provocou inundações em Águeda), o problema é que afinal a Elsa ainda não encheu por completo o Alqueva, ou outras barragens algarvias.

Correio da Manhã - em consequência da tempestade Elsa:
"Inundações na Maia deixam EN14 alagada e intransitável"

Assim, sem surpresa, tal como no ano passado, depois da vinda do Leslie em Outubro, chegou a Primavera e os artistas falaram de novo em "seca extrema", mantendo a mesma desavergonhada postura, mesmo que lhes caia um nevão, logo de seguida, como aconteceu em Abril.

Nada disto é de estranhar, porque não há qualquer vergonha, e uma característica de estado de sítio ditatorial é ordenar que a mentira passe por verdade. Não faltará um esperto que venha dizer, na lógica da cebola das "alterações climáticas", que afinal a inundação apenas confirma a seca.

sábado, 9 de novembro de 2019

Nebulosidades auditivas (76)

Em Novembro de 1979, os Pink Floyd lançaram o duplo álbum "The Wall".


Em Novembro de 1989, dez anos depois, caía o "Berlin Wall" - o muro de Berlim.

Em 1990 (21 de Julho) Roger Waters organizou o esperado concerto icónico, que relacionava um muro com o outro. Icónica era também a ausência dos Pink Floyd no conjunto de artistas convidados por Waters. Se o muro de Berlim tinha caído, o muro de Waters, entre si e os restantes elementos da banda, esteve bem presente no concerto de 1990.

Deixo três vídeos ilustrativos do filme "The Wall" (1982), de temas representativos do álbum e do filme.
Another brick in the wall

Comfortably numb

Run like hell

A queda do Muro de Berlim foi um momento marcante ao ponto de ser muito badalado o livro de Fukuyama - The End of History and the Last Man, que veria o desaparecimento da tensão da Guerra Fria como um desfecho e advento de uma nova era. 

Claro que logo de seguida, apareceria a era de Wall Street, e dos mercados financeiros, reguladores de uma economia globalizada. O atentado de 2001 foi um marco do início do novo milénio.

Wall Street tinha o nome derivado de uma muralha exterior protectora, desenhada pelos holandeses na ilha de Manhattan, num mapa de 1660 da Nova Amsterdão: 
Plano de Nova Amsterdão com a muralha de Wall Sreet à direita.

O muro de Wall Street caíu e desapareceu, apenas ficando como ilustrativo nome da rua, onde está a Bolsa de Nova Iorque, e à volta da qual está o distrito financeiro (que incluía o World Trade Center).
No entanto as muralhas financeiras aí sediadas mostraram resistir aos abalos especulativos.

Como curiosidade adicional, resta acrescentar que o nome em latim para Nova Iorque é
NOVA EBORACA
nome que era usado em moedas, dobrões de ouro, de 1787:
Unum e Pluribus (1787) Excelsior - Nova Eboraca - Columbia

Este nome resulta de York, em Inglaterra ser denominada Eboraca (ou Eboracum), na sua designação latina. York é ainda a cidade onde o imperador romano Constantino foi aclamado como tal, pelos seus apoiantes, em 306, ocupando o lugar do pai na tetrarquia romana, até ficar como imperador único.

A única curiosidade é a semelhança com o nome de Évora, que era Ebora, provavelmente porque como York, originasse de um mesmo nome "eborense", de raiz celta. 
Tendo caído Nova Amsterdão para os ingleses, ficou Nova Iorque, Nova Eboraca, honrando o buraco que desse muro ficou.

domingo, 20 de outubro de 2019

Gilet jaune

Os coletes amarelos (gilets jaunes) eram usados no Séc. XVIII e XIX com um significado diferente daquele que assumiram nos dias de hoje, em França.

Portrait de jeune homme en costume marron et gilet jaune (invaluable). 
Manifestação dos "gilets jaunes" em Toulouse.

Apesar de já não constituir notícia há muito tempo, e das manifestações não serem normalmente autorizadas, este movimento dos "coletes amarelos" continuou durante um ano a manter uma actividade semanal, em diversas cidades de França. Neste fim de semana, havia protestos em Paris, Toulouse, Lyon, Clermont-Ferrand, etc. Prevê-se que a actividade vá aumentar daqui a um mês, quando fizer um ano sob o início destas manifestações, iniciadas a 17 de Novembro de 2018.

De peça de indumentária, que era por vezes associada a casamentos, ou até a mau gosto (mediante certas regras de etiqueta da aristocracia do séc. XIX), passando a símbolo de protecção rodoviária, e agora a símbolo de revolta popular, o colete amarelo representa um novo tipo de movimento, de acção persistente. Será um caso único de resistência, até agora ligada a uma oposição ao presidente Macron, mas cujo centralismo é difícil de avaliar e traçar origem, parecendo simplesmente reflectir uma insatisfação popular, e um problema crónico que se instalou na sociedade francesa.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Nobody expects the Spanish Inquisition


Nobody expects the Spanish Inquistion - Monty Python



Num espectáculo digno do absurdo dos Monty-Python, foi de 100 anos a pena somada dada aos 9 catalães acusados de sedição, com penas variando entre os 9 e os 13 anos...

Depois de ouvir o fanatismo castelhano na TVE 24, que ignora quase por completo o problema catalão, tomando pílulas e pílulas de burocracia, dita jurídica, este pequeno apontamento serve para relembrar quem são os vizinhos do lado.


Guerra Civil de Espanha - 1936-38 - Sevilha - mulheres pedem clemência pelos maridos e filhos presos
Terror Blanco (100 a 400 mil mortos) versus Terror Rojo (30 a 70 mil mortos).

Conquistadores espanhóis (Balboa) - Séc. XVI - e fim dos aztecas e incas.

domingo, 13 de outubro de 2019

Nebulosidades auditivas (75)

Este ano (2019) os Chemical Brothers lançaram o álbum "No Geography" com uma série de canções bastante interessantes:

Eve of Destruction, Bango, No Geography, Got to keep on, Gravity Drops, 
The Universe sent me, We've got to try, Free yourself, MAH, Catch me I'm falling


Eve of Destruction...
A perspectiva de destruição é um tema que não tende a desaparecer tão depressa.
Quando falha à sociedade um objectivo comum, a perspectiva de cada um é encontrar o seu objectivo pessoal. Isso pode ser suficiente para a grande maioria da população, mas é um pouco mais complicado. 
A sociedade adopta os objectivos mínimos animalescos - satisfação alimentar, algum sucesso social e sexual, e ponto final. 
Nos últimos séculos, a maçonaria tratou de implementar um esquema ainda mais simplificado, onde o sucesso social seria suficiente para obter tudo o resto, através de uma moeda de troca - a própria moeda, o dinheiro. 
Para esse efeito teria que quebrar a maioria das restrições morais desenvolvidas antes. Ou seja, não se consegue comprar alguém com fortes restrições morais, mas se não as houver, o capitalismo traz quase um paraíso na terra para quem for rico... e como é óbvio, o capitalismo não funciona se todos tiverem o mesmo. Como Aristófanes gozava com os seus conterrâneos, os ideais sociais equalitários só funcionavam havendo escravos. 
Chegando a um ponto de automação em que as máquinas podem funcionar como os escravos de serviço, percebe-se facilmente que isso não interessa a quem tem poder, porque o sucesso social fica por cumprir. O sucesso social de uns significa necessariamente o insucesso dos outros. Se todos tiverem sucesso por igual, não há sucesso nenhum. A economia desenvolveu-se para que o tipo asqueroso com massa possa ser atractivo para as parceiras jovens, caso contrário a atracção seria apenas regulada pelos dotes naturais e não pela posição social.

Isto diz respeito ao objectivo individual, que para 99.99% das pessoas consiste num sucesso social, seja ele maior ou menor. Depois, há toda a falha do objectivo da sociedade, um objectivo global.
Ainda há não muito tempo os sucessos sociais eram medidos por confrontação bélica de países, de religiões ou de políticas. Um objectivo disfarçado é assim manter o poder de uns contra outros, como se isso não passasse de uma forma de competição animal, para domínio de um território de caça.  
Quando no final do Séc. XX, a paz se começou a instalar, disfarçou-se isso com outros objectivos globais, como os sucessos médicos, ou outros sucessos científicos. Na prática não passavam de outra forma de sucessos sociais, porque o que os cientistas visavam seria o reconhecimento social, normalmente na forma de prémios, promoções ou distinções.

Na falha do objectivo espacial, que era um bom motivador de aspirações comuns, e fez sucesso até aos anos 70-80 (para depois cair no ridículo actual); aparece a ecologia como novo velho objectivo, agora reciclado e vendido sob argumentos falaciosos e mentirosos. 
Quem não se revê nesta sociedade baseada na ficção, mentira e corrupção, procura ainda uma alternativa que passa mais por um refazer da sociedade, e que envolve inevitavelmente algum cataclismo. Sucessor da parte mais activa dos movimentos revolucionários, que visavam uma regeneração por aniquilação ordenada, os antevisores das destruições, depois de passadas as datas de 1999 e 2012, estão sempre à busca de uma nova destruição que destrua o mundo que não lhes deu valor, e coloque um novo mundo onde sejam protagonistas... ou seja, na prática é uma outra forma do objectivo de sucesso social. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Presos catalães

No passado dia 11 de Setembro de 2019, voltou a comemorar-se a "diada", o dia dos independentistas catalães, um outro 11 de Setembro, conforme já falámos várias vezes.

Barcelona: a manifestação pró-independência em 11/09/2019 teve 600 mil pessoas (menos que em anos anteriores).

Enquanto o Estado Espanhol continua na sua versão caudilhista franquista, mantendo presos os deputados e membros dos governo catalão, apesar de uma manifestação menos concorrida em 11 de Setembro, os protestos voltaram às ruas no dia 1 de Outubro, quando se comemoravam 2 anos sobre o referendo.

Protestos em Barcelona no dia 1 de Outubro de 2019: "dois anos depois, o combate continua"

Perante a impassividade dos restantes líderes europeus, ou da própria União Europeia, que é uma simples cúmplice da insanidade e despotismo espanhol, será natural que as coisas se possam agravar, para além da simples incapacidade de formar governo em Espanha (que parcialmente resulta de um boicote dos deputados catalães em Madrid).

Espera-se neste mês de Outubro uma decisão do tribunal, um veredicto, acerca dos 12 apóstolos da independência, sem o mentor Puigdemont, que fugiu à Inquisição Espanhola.

Ah, é claro, e sobre o problema catalão, o silêncio da imprensa é o costumeiro.
E é claro, neste assunto delicado, a Amnistia Internacional tenta escapar-se por entre os pingos da chuva, porque não quer irritar los hermanos españoles...

Na prática, e porque o Estado Espanhol não consegue prender 2 milhões de catalães, estão presos os seus principais representantes, simplesmente por terem organizado um referendo... e o que é o mais delicodoce na inquisição, por terem gasto recursos do Estado Espanhol nessa votação.

domingo, 22 de setembro de 2019

Móbil de Pipi e Tintins

Pipi
Pipi das meias altas ("Pippi meialonga" no Brasil) é o nome de uma personagem de uma autora sueca, Astrid Lindgren, desenhada como "menina invulgar, a mais forte do mundo, com sardas na cara, e tranças vermelhas". Os livros foram publicados há 70 anos entre 1946-48 na Suécia.

No entanto, aqueles que como eu viram e gostaram da Pipi das meias altas a preto-e-branco na RTP no início dos anos 70, viram a versão feita pela TV sueca, que apareceu vinte anos depois dos livros, ou seja em 1969. Comemoram-se agora 50 anos:

A série foi um sucesso internacional, e ao que parece que se quis recuperar a personagem fazendo uma nova série de episódios, agora em formato reality show. 
À esquerda a activista Greta Thunberg, à direita a actriz Inger Nilson, fazendo de Pipi. 
Interpretações de meninas de tranças, em 2019 e em 1969.

Só quem não nasceu antes dos anos 70, ou anda muito distraído, é que não repara nas semelhanças entre a personagem de ficção de 1969, e a ficção feita personagem em 2019. 
Sim, não havia nenhum episódio intitulado  "Pipi salva o planeta ou salva o clima", mas as proezas ficcionadas de Greta, de uma menina independente a desafiar o mundo adulto, estão ao nível de Pipi:
A série Pipi da Meias-Altas, na RTP em 1973 (inclui a canção Giroflé, Giroflá)

Parecerá que uma relação entre Greta e Pipi não existe, mas leia-se de novo, e perceber-se-à que a relação entre Greta e Pipi, vai para além das tranças no cabelo.
Ok, mas e o que tem isto a ver com Tintins?

Tintin
O personagem do escritor belga Hergé, começou a sua publicação em 1929, ou seja há 90 anos, e a revista Tintin começou a publicação em 1946, ao mesmo tempo que saía Pipi na Suécia.
Curiosamente, Hergé baseia-se nos foguetes alemães V2, para colocar Tintin na Lua, em bandas desenhadas entre 1952-53, e é assim um Tintin (com 40 anos) que em 1969 recebe Armstrong na Lua:
Cartoon de Tintin, ilustrativo ficcionado da chegada americana à Lua.

Ou, dito de outra forma, terá sido esta a maneira que Hergé encontrou de lembrar a Neil Armstrong que Tintin já havia estado na Lua... bom, e do ponto de vista ficcionado, realmente a prioridade ficaria em si.

De que forma Tintin e Pipi se relacionam? Pelo nome completo da Greta:
Greta Tintin Eleonora Ernman Thunberg.
Greta, para além de ser candidata ao Nobel, é já membro da Royal Scottish Geographical Society, uma distinção difícil quando é pelo reconhecimento do trabalho científico, mas muito rápida em casos maçónicos convenientes.
Dir-se-ia que a realidade foi apanhada no meio da alucinação LCD dos baby-boomers, depois hippies dos anos 60, e yuppies dos anos 80.

sábado, 21 de setembro de 2019

Nebulosidades auditivas (74)

The revolution will not be televised (Gill Scott Heron, 1970)