Mostrar mensagens com a etiqueta Luso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luso. Mostrar todas as mensagens

sábado, 10 de agosto de 2013

Ante-revolução

O prefixo "anti" serve normalmente para designar oposição, "antagonismo". 
De forma semelhante, "ant" é também usado para designar o que é antigo... usamo-lo na palavra "antes",  "anterior", mas também na palavra "anta", e em muitos outros exemplos.
Normalmente, não damos muito relevo a eventuais significados na análise da língua, mas estão presentes em muitos e variados exemplos.
O prefixo "pre" também invoca um momento anterior, tal como "prever" será sinónimo de "antever", remetendo ambas para um "ver antes".
Este prefixo "pre" está ligado ao prefixo "re", passando à forma repetitiva. A palavra "ré" significa, por si só, uma parte traseira. No entanto, é como se o tempo tivesse decorrido, e há um voltar atrás, um "recuar". 
Quando escrevemos "prever" é diferente de "rever", porque no primeiro caso envolve uma "pre-visão" que fazemos, antes da ocorrência, e no segundo caso trata-se de uma "re-visão" do ocorrido.

Os anos são revoluções da Terra.
O termo astronómico "revolução" mantém o significado original - um regresso ao ponto de partida.
O termo social "revolução" perdeu esse significado, pelo menos na sua generalização popular.
No fim da evolução do ano, a Terra volta à mesma posição, e portanto as "primaveras", simbolizadas por movimentos sociais revolucionários, acabam por ser regressos a um ponto de partida. O movimento nasce numa primavera, com a promessa de um verão... "verão justiça", "verão liberdade", "verão igualdade", "verão que será tudo bom, etc.". 
Segue-se o outono em que as folhas onde foram escritas essas promessas caem por terra. Pelo que, prestes a cumprir-se o ciclo anual, vem a parte mais dolorosa dos anais, onde surge o frio do inverno, que parece um inferno. O inverno é "in"-"entre", "verno"-"povo, servos, escravos". E será essa massa que morre para renascer noutra forma, noutra "prima-vera", noutra "primeira verdade", que dará um novo "verão"...

A primavera surge assim para milhões de criaturas como a primeira, porque nunca conheceram outra... é assim que funciona a revolução terrestre, a repetição funciona como uma primeira vez, quando perdida, ou  está ausente a memória.

Encontrei uma gravura antiga, sobre as ruínas de Persépolis, que carrega um significado e beleza na pose dos leões... passeando sobre ruínas de uma civilização que tanto os caçava, como venerava.
Uma irónica visita de leões às ruínas de Persépolis (autor desconhecido)

A repetição é a força mais poderosa nos mecanismos universais... é de certa forma "a ordem por detrás do caos". Foi na repetição da revolução terrestre que se estabeleceram alguns mecanismos naturais... as plantas e animais aguardam as primaveras para induzirem nova repetição de processos de reprodução. 
E, afinal, a descendência dos seres pouco mais parece ser que uma repetição de si próprios. 
No entanto, esta repetição dá-se a diversos níveis. 
Há repetições atómicas, microscópicas, que decorrem a um nível temporal ínfimo, e depois há repetições que se manifestam mais demoradamente, como no caso da revolução terrestre. Individualmente, cada processo não parece passar de repetição... mas as ligeiras diferenças acabam por fazer toda a diferença.

No texto Abraçadabra, lembrámos a citação do filme de Visconti: 
Para que tudo permaneça igual, é preciso que tudo mude...

Porém, nem tudo permanece igual, e ao fim das mudanças necessárias, a vida unicelular de bactérias levou a complexos seres... a plantas, a animais, ao domínio de grandes bestas, e até ao aparecimento humano.

É natural questionar a violência de todo o processo evolutivo, assim como é comum assumir natural a repetição do ciclo revolutivo. Um não se desliga do outro... há uma repetição que encaramos como ordem, mas depois há pequenas mudanças, fruto do "caos", que subvertendo a ordem acabam por trazer novidade à velha ordem.

Monte Semeru (ou Sumero), na Indonésia

A referência ao monte Semeru na Indonésia, é uma ilustração do monte Sumero, o monte central do universo na cosmologia budista.
Notamos aqui a entrada do prefixo "Su" para qualificativo superior do monte Mero pré-existente na cosmologia hindú. Esse mesmo "su" está também no prefixo de "sufixo", apontando para o posterior, ou topo, como na palavra "sumo", ou "superior", e no prefixo "sup" (e em "sub" por inversão).
Há um outro prefixo "Pos", que aponta também para o "após", até porque é habitual ver como "pós", ou como "pó", o que restará após a morte. Curiosamente, pó ou cinzas, remeteriam para um culto de cremação dos corpos em piras funerárias. Por outro lado, a palavra "funeral" remete-nos para um prefixo "fun" que está presente no "fundo", como num ritual de enterramento.
Não é fácil perceber se há apenas uma coincidência entre "Sumero" e "Sumério", já que se os sumérios seriam muito anteriores aos budistas, seriam posteriores aos hindús.

Estes são apenas alguns exemplos, a propósito da palavra "revolução" e algumas outras. O prefixo "pro" tem também um significado direccional, algo oposto a "pre". Na antevisão, o "pró" aparece como razão favorável, enquanto o "pré" aparece em contraponto, como requisito. No português, ter o "pró" como contracção de "para o", é significativo, e deve dar o mesmo sentido ao prefixo "prá". Curiosamente, indo ainda pelas contracções "pó" e "pá", remete-se ao destino no pó da cinza ou na pá da terra...
Ao contrário de "ré", sozinho o prefixo "ró" não tem uso aparente, mas "roda" ou "rolar", digamos que rolam nesse sentido de direcção natural.
Podemos ainda reparar que em "revolta" há a junção de "re" com "volta", onde o prefixo "vol" representa normalmente o regresso, como em "volver" ou "voltar", num rodar de 180º, face à direcção seguida. Assim, quando escrevemos "revolver" indicia essa acção de ir repetidamente num sentido e no oposto, remexendo para ver. Quando escrevemos "revoltar" deve pois significar uma acção que mistura direcções opostas, agora um remexer para estar...

Ao escrever, é fácil lembrar outras palavras, e uma delas é "escrever".
A "cré", uma espécie de gesso, era usada para escrever. É natural que o verbo "crer" se possa remeter à "cré", ao que estava escrito, que tinha "crédito"... e era assim mais fiável. Como registo, remete a um passado, e o "ré" de anterior, é apropriado. Portanto, o "cre" em "escrever" pode remeter a ver o escrito nessa "cré". Pode argumentar-se que há outros contra-exemplos "cretinos"... mas uma coisa não tem a ver com a outra, podem ter origem importada, ou aparecerem em interpretação... um "crescer" pode ser foneticamente um "crê ser", onde o "cre" surge já na interpretação do acreditar.

São vários os prefixos que se associam facilmente às proposições, como o "com", "de", "em", etc... por exemplo em "concorrer", "decorrer", "incorrer" (o "em" passa frequentemente a "in").
Assim, o "com", "con" ou "co" remete para uma companhia, um conjunto (o concorrer será entrar no conjunto da corrida), enquanto o "de" remete para uma pertença (o decorrer será estar dentro da corrida), e o "em" remete para uma entrada (o incorrer será entrar na corrida).
Por outro lado, o prefixo "des" significa uma oposição, papel que é desempenhado também pela proposição "a" (mas nem sempre...). Aqui, as formas "discorrer" ou "acorrer" não significam a priori uma oposição à corrida. O "acorrer" remete simplesmente a um ir "a correr" (tal como "socorrer", com o "su" superlativo), enquanto que o "discorrer" pode significar a oposição, no sentido em que se percebe o significado da corrida.
O som "des" significar cancelamento não deixa de levar ao carácter decimal da numeração, já que chegados a "dez" acabariam os dedos... de forma semelhante o prefixo "sim" ligaria ao cinco, pelo lado afirmativo. Uma "mão cheia", ou um "dá cá mais cinco"... apontam nesse sentido de positividade para o cinco.
As duas mãos abertas são ainda hoje um símbolo de paragem, como um certo "já chega".

Nas pinturas primitivas quando aparece uma só mão, poderia significar mais do que uma assinatura, mas sim uma concordância... enquanto que duas mãos poderiam significar um registo de oposição. Isto dependeria obviamente dos códigos, mas será instrutivo não tomar apenas as mãos como simples assinaturas...

Cave de las manos (Argentina, circa 10 000 a.C.)
As mãos presentes nas cavernas podem não significar meras assinaturas do passado...
... podem remeter para uma contagem de posições (as mãos a branco num sentido, a preto noutro)

Há aliás uma característica numérica nas línguas indo-europeias, que é conhecida... o "nove" parece ser sempre próximo de "novo" (neuf-neuf, neun-neu, ...), tal como "noite" estar foneticamente próxima de "oito" (nuit-huit, nacht-acht, ...).
As outras etimologias que estive a referir é claro que se adaptam especialmente ao português... e pouco interessa se batem certo ou não com alguma etimologia do latim, porque o assunto ultrapassa as formatações que se pretenderam fazer - interessa o que resultou do intencional e não intencional.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Degraus da Maia

Na Ilha de Santa Maria (Açores), houve este ano uma competição desportiva intitulada

"Subida dos Degraus da Maia
Degraus da Maia (Sta. Maria, Açores)

Primeiro, convém dizer que é uma excelente iniciativa para divulgar e proteger património, e depois levanta algum espanto pelas imagens conseguidas, quase lembrando outras escadarias maias...
Tratam-se de escadarias de acesso aos "currais de vinha", nas fajãs entre Santo Espírito e Maia, na Ilha de Santa Maria.

As construções em escada, definindo os tais "currais" onde são feitas as plantações em terrenos íngremes tornam-se num prodígio monumental de grandes dimensões, e espalha-se por Portugal, seja na região insular, seja no continente.
O conjunto global definido na Ilha do Pico foi classificado na lista WHC:

... e dadas as fotos que vi, devo dizer que me impressionam mais os "degraus da Maia".
No entanto, olhando por dentro o documento de candidatura (muito bem feito), encontramos já algo mais interessante, vemos a extensão de pedra que constituem aquelas construções quadriculadas:

E não deixamos de fazer notar um pormenor, que aparece na página 81. Realçando os trabalhos de alvernaria em basalto, encontram-se estas inscrições:
Ora, no contexto da história conhecida da Ilha do Pico, o ANO 682, apenas se poderá referir a 1682, e na pedra seguinte aparece "I682Z", não podendo ser 16822... parece insistir no "fazer 682".
Como já se sugeriu que os Açores fossem as romanas ilhas Cassetérides, e dada o achado de moedas fenícias nas ilhas açorianas, não é de excluir que as ilhas fossem habitadas mesmo em 682 por população lusitana-sueva.

Regressando aos "Degraus da Maia", é bem sabido que nas antigas representações de portulanos apareciam as misteriosas ilhas Brasil, Maida, e outras. 
- A semelhança de Maida com o nome Maia é evidente, e podemos conjecturar que inicialmente se possa ter referido à Ilha de Santa Maria, atendendo a que mantém uma região com o nome Maia. Poderia referir-se até ao conjunto São Miguel e Santa Maria, pois por vezes fala-se em duas Maidas.
- No artigo que citei sobre a Ilha Brasil, aparece uma outra associação interessante, que é existir ainda um Monte Brasil em Angra do Heroísmo, e portanto a "Terceira" teria perdido o nome original para uma enumeração "Terceira". Brasil vem ainda de "brasa", podendo referir-se à actividade vulcânica, ainda presente no Faial. 

De qualquer forma, essas ilhas "fantásticas" foram aparecendo em mapas até mesmo ao início do Séc. XX, numa altura em que as navegações transatlânticas eram muito frequentes, levando um sem número de imigrantes para os EUA. Por isso, não é de excluir por completo que tais formações não existam mesmo... se atendermos à quantidade de segredinhos que permanecem, nada mais fácil que não mencionar ilhas que não estão nas rotas autorizadas aos navios. Não é muito provável, mas não é impossível.

Conforme referi aqui, ainda que originalmente se possam ter referido a ilhas existentes, as designações Maidas, Brasil, Verde, etc... passaram a servir muito mais como codificações de terras desconhecidas, apontando nos mapas pontos de referência para direcções de navegação, e não propriamente ilhas verdadeiras.

É claro que Madeira e Açores devem ter sido navegados e talvez povoados mesmo na Antiguidade. Da mesma forma que os polinésios navegaram pelo Pacífico, estabelecendo-se nas mais variadas e dispersas ilhas, os europeus tinham maior capacidade de o fazer no mais pequeno Atlântico. Há uma questão de bom senso que se sobrepõe às outras considerações documentais de propositada ocultação. A tentativa de ocultação no caso das Canárias levou à dizimação dos Guanches, povo que habitava as Canárias, à altura de invasão espanhola - uma assinatura de holocausto que depois se veio a repetir com Aztecas e Incas.

Acresce que os portugueses terão sido apenas os que se estabeleceram definitivamente nas ilhas, mas restam nomes que indicam outras proveniências, é o caso da zona da Bretanha, na Ilha de São Miguel. O sotaque carregado típico dessa ilha será talvez pronúncia estrangeira ou deslocada da nossa língua. Nas restantes ilhas dos Açores isso não ocorre.
As investigações recentes nos Açores da APIA (que aqui falámos), tiveram uma resposta oficiosa por parte de Francisco Maduro Dias, presidente do Instituto Histórico da Terceira, que identificou as construções como obras militares dos Séc. XVI ou XVII. E, como é sabido, estes processos entram facilmente em controvérsia académica, a menos que as provas apresentadas tornem evidente a origem. 
Assim, mais do que qualquer outra prova, aquilo que favorece a tese de pré-ocupação das ilhas da Macaronésia é a sua probabilidade elevada no contexto de navegações de povos marítimos, gregos, fenícios, ou romanos, e o contraponto com a colonização polinésia ocorrida no Pacífico.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Djulirri - caverna aboriginal

... e se, de repente, se encontrasse no meio de inscrições pré-históricas, desenhos de barcos, aviões e outros artefactos modernos?
Foi o que aconteceu em nas cavernas de Djulirri em Arnhem Land (Australia). As pinturas aborígenes continham várias camadas, e apareciam bem desenhados, navios, cruzadores, aviões, e outras novidades típicas do início do Séc. XX.
Daryl Guse apresenta as inscrições aborígenes "mais recentes".

Coloco aqui os links para os textos na imprensa australiana (2008):

e vídeos associados:

De acordo com Paul Taçon, um dos arqueólogos que exploraram o local, tratar-se-ia de uma caverna que servia de "santuário histórico", apresentando ilustrações significativas de contactos marítimos, ao longo dos últimos séculos, que se sobrepunham a muitas outras camadas mais antigas, estimadas até 15 000 anos. 
Em particular, Taçon afirma que os contactos marítimos com o Sudoeste Asiático seriam anteriores à chegada dos Europeus. Um dos barcos europeus está numa camada antiga, e o desenho terá sido considerado anterior a 1650, por datação carbono-14 dos restos de uma serpente que estava em camada superior.  
O sítio tinha sido já revelado nos anos 1970, mas ter-se-à perdido a localização até à nova expedição recente de Guse... por vezes perdem-se localizações, mesmo em tempos recentes.

As inscrições mais recentes, que mostram a maquinaria estrangeira do início do Séc. XX, foram feitas a giz, um mesmo giz que noutros pontos mantinha o traço abstracto, algo infantil, nas representações humanas. Taçon refere, algo surpreendido, que o local estava a 12 Km do mar, e seria uma proeza recordar em detalhe as imagens para os desenhos de tal precisão. Eu acho que bastaria que as figuras fossem copiadas de uma revista, de um livro, ou de fotografias... que já existiam à época. Os desenhos recentes mostram um conhecimento de perspectiva e realismo que está ausente das outras inscrições, que são muito mais pictóricas.

O sítio é de facto notável, e único, ao combinar todo um registo histórico milenar. Não conheço outros locais que inscrevam informação ao longo de milhares de anos. Curiosamente, a sua protecção acabará por estragar esse carácter único... ou seja, a história deixará de ser registada naquele local. A partir daqui, toda a nova inscrição é natural que seja reprimida.
O local mostra ainda que os aborígenes guardavam-se no interior, mas tinham contactos e informações costeiras. Aquilo que foi mostrado não revela contactos marítimos muito anteriores aos Europeus, não provocando embaraços históricos... ou seja, não vemos nenhum desenho de nenhum trirreme romano!
Também as datações parecem não ofender muito os registos oficiais, e os contactos anteriores com o Sudoeste Asiático não constituem propriamente nenhuma surpresa. Seria comprometedor se as datações revelassem pinturas de navios com milhares de anos, mas assim o local aparece apenas como interessante.

E, assim por acaso, num outro artigo, no "The Independent" (11/6/2011), em que Taçon fala genericamente do perigo de se perderem as gravações indígenas, vemos ilustrada esta singela caravela:

É pena que não tenhamos o comentário vídeo de Taçon ou de Guse sobre este desenho... que não aparece nos outros documentários. Será uma caravela moderna, inglesa? Ou será uma prova de que as nossas caravelas do Séc. XV andaram por ali? 
Dito isto, já não me pronuncio sobre os trirremes...

terça-feira, 3 de abril de 2012

Trago, Sol e Lua

Para além dos subsídios ao vinho do Porto por Methuen, convirá não esquecer o vinho de Colares.

No plano de fabricar o que falecia a Lisboa, Francisco de Holanda, em 1571, vai lembrar-se de juntar um projecto nos arredores de Lisboa... na foz do Rio Colares, ou seja na Praia das Maçãs, perto do Cabo da Roca. Eis o que Francisco de Holanda propõe a D. Sebastião:
--------------------------------
DOS CIPOS DO SOL E LUA
Outra memória de basas digna de lembrar e de imitar dos fiéis, faziam os antigos e infiéis, como eu vi, quando me o Infante Dom Luis, vosso tio, que Deus tem, levou a mostrar a Serra de Syntra, mandando-me para isso chamar a Lysboa, quando vim de Italia. E vimos na foz do rio de Colares, prezada noutro tempo dos romanos, sobre um pequeno outeiro junto ao mar Oceano, um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram aquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao 
SOL ETERNO E A LVA (*)
a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado. 
O que nós espiritualmente podemos converter nos cipos ou embasamentos dos pés das cruzes que digo, em louvor e memória do verdadeiro SOL de justiça IESV CHRISTO, e da verdadeira e sempre cheia da sua graça S. MARIA N. SÑORA como se pode considerar deste desenho.
--------------------------------

O desenho de Holanda é o que coloquei em cima (à esquerda), e está de tal forma informativo que não me restam dúvidas sobre a localização do antigo templo dedicado ao Sol e à Lua, pelo que coloquei uma imagem do Google Earth da Praia das Maçãs (à direita), onde se vê o referido outeiro... felizmente está ainda incólume, alguém parece ter tido o cuidado de resistir à profanação do lugar, já que a sua localização era demasiado tentadora para um empreendimento hoteleiro ou turístico.

Para se compreender a importância do local, uso o Vocabulário Português de Raphael Bluteau (1720):
--------------------------------------------
Serra de Sintra. Segundo Dom Fr. Amador Arraiz, nos seus Diálogos, pág. 111 col. 2, chamou Varro à Serra de Sintra o Monte Trago, outros lhe chamaram o Monte Scynthia, ou mais propriamente Cinthia, isto é da Lua, donde sai o Cabo chamado da Lua (em Latim, Promontorium Lunae)  para o Oceano; nas raízes deste Cabo, na praia, esteve antigamente o Templo do Sol e da Lua, venerado com suma religião.
A inscrição do templo, que (segundo o dito autor) ainda hoje se vê, diz assim:
Soli aeterno & Lunae
Pro aeternitate Imperii,
Et salute Imp. Cai. Septimii Severi Augusti Pii & 
Imp. Caes. M. Aurelis Antonini, &c.
---------------------------------------------------------------------

Portanto, entre os imperadores que estiveram em culto na praia do Monte Trago ou Cynthia, contavam-se Sétimo Severo e Marco Aurélio.
As pedras estiveram lá e foram vistas por Francisco Holanda antes de 1571 e por Frei Amador Arrais antes de 1589. Não é claro se ainda eram visíveis ou não quando escreve Bluteau... e se resistiram ao período filipino, talvez não tenham resistido depois ao maremoto do Marquês. Hoje é suposto terem desaparecido sem rasto, ainda que seja mais ou menos óbvio que haverá quem saiba o que lhes aconteceu!

A proposta de Holanda era a de uma conversão forçada ao Cristianismo... a fonte de luz, o Sol, era Jesus Cristo, e a Lua passaria a ser Santa Maria. Não haveria uma destruição do espaço, mas sim uma adaptação conveniente. No entanto, o original tem algo a acrescentar...

Cynthia é um nome alternativo de Artemisa, ou Diana, a deusa da caça... associada à Lua.
Poderíamos ficar por aqui, estabelecendo a derivação do nome do monte... de Cynthia em Cintra.
Porém, a lenda é um pouco mais interessante e sem esforço presta-se a um ajustamento.

O nome alternativo resulta ele próprio de um monte... do monte Cyntho refúgio onde Leto, deusa-titã associada ao anoitecer, escapou de Hera e da Python para gerar os gémeos Apolo e Artemisa.
Se atendermos a que o anoitecer é o poente... o ocidente, e no monte de refúgio nascem o Sol (Apolo) e a Lua (Artemisa)... não vejo então outra possibilidade que não seja Sintra!
Compreende-se assim que Plínio fale no Cabo da Roca como linha divisória entre a terra, o mar e os céus.
Quanto à terra e mar, não havia grandes questões, mas os céus só faz sentido associando-lhe o nascimento dos principais astros... o Sol-Apolo e a Lua-Artemisa. Ambos os gémeos ficam do lado de Tróia...

Leto não é uma deusa fácil... os rudes camponeses da Lycia (ver crux com Lusia... lusitanos) talvez importunados por serem arrastados para um conflito dela com Hera, negam-lhe água e por isso são transformados em sapos...
Leto (ou Latona) e os camponeses da Lycia.

Não consta aplicar-se aqui a quebra do feitiço com um beijo principesco, e talvez a Roca de Sintra simbolize afinal um adormecimento do reino, que ficou à espera do beijo do Princípe Encantado. Acresce a isso o próprio nome Leto estar associado a Lethes... o esquecimento!

Independentemente disso, é bastante verosímel que Marco Aurélio, entre outros imperadores, tenha honrado o local onde a deusa do entardecer, Leto, teria feito nascer os seus filhos Sol e Lua... um santuário num pequeno outeiro da praia das Maçãs, e o fruto pode indicar implicitamente que antes desses imperadores, terá sido Hércules um seu visitante, em busca dos pomos de ouro!
Para não meter a mão na massa bolonhesa, seguimos a laranja e omitimos o tomate, em italiano pomodoro.

quinta-feira, 29 de março de 2012

a pena sobre a pena

Sobre o extinto Mosteiro de Nª Srª da Pena (Sintra) citamos o Arquivo da Torre do Tombo:
  • Em 1503, foi fundado por iniciativa do rei D. Manuel, sucedendo a uma capela ou ermida edificada no alto da Serra de Sintra, dedicada a Nossa Senhora, entregando-a aos monges hieronomitas. As obras de construção, projectadas pelo arquitecto italiano João Potassi, tiveram início em 1503, e oito anos depois estavam concluídas. 
  • Em 1513, a comunidade era composta por dezoito frades. 
  • Em 1755, o mosteiro sofreu ruína devido ao terramoto, e reduzido a 5 monges. 
  • O mosteiro já estava desabitado aquando da extinção das ordens religiosas. 
A Ordem de São Jerónimo recebe dupla atenção no apogeu dos Descobrimentos, este notável Mosteiro de Nª Srª da Pena e é claro o monumental Mosteiro dos Jerónimos.
Não é completamente claro qual era a extensão da ruína provocada pelo Terramoto de 1755, especialmente não é visível nas estampas do Séc. XIX anteriores à sua destruição e construção do Palácio da Pena.
O monumental Mosteiro de Nª Srª da Pena 
antes da substituição pelo Palácio da Pena.
(W. Burnett, c.1834, Bibl. Nacional)

O consenso que se gerou na substituição pelo novo Palácio parece ter feito esquecer a pena que caiu sobre a Pena, e acrescenta-se que uma parte da capela antiga foi inclusa na nova construção. É sempre algo curioso que no meio de tanta serra e tanto espaço, a construção de um novo edifício seja feita exactamente por cima do anterior.

Nas estampas de Burnett de 1834 é ainda possível ver este mosteiro ao fundo, ao mesmo tempo que mostra as ruínas da velha capela do Castelo dos Mouros (talvez seja a capela de S. Pedro ... e as colunas de capitéis coríntios sugerem outras moiras!)

Com o movimento liberal e a extinção das ordens religiosas em 1834, o último grito Jerónimo talvez tenha sido colocado ao líder da resistência Apache.

Ligando ao postal anterior... é claro que por estes últimos dias a Lua andou a passear entre Júpiter e Vénus:
A Lua entre Vénus (acima) e Júpiter (abaixo), 
nos dias 25 e 26 de Março de 2012.

domingo, 10 de julho de 2011

Kazan e Kursk

Poucos anos após a Restauração da Independência, em 1646, D. João IV institui a Imaculada Conceição como padroeira nacional. O facto tem especial interesse pois anteriormente, na primeira dinastia, seria invocado Sant'Iago, e na segunda dinastia invocava-se São Jorge em batalha - sendo estes os padroeiros nacionais anteriores. 
Esta mudança invocava uma posição católica clara, já que um dos pontos de maior controvérsia entre protestantes e católicos era a tendência politeísta do catolicismo, quando o culto mariano e o culto dos santos começou a revelar um panteão divino. Para vermos a adesão popular ao culto mariano basta reparar que não tem equivalente a manifestação de festas, igrejas, e outras invocações a Nª Senhora, implantadas no catolicismo ibérico.
A posição portuguesa é complicada pois revela uma dualidade na conjuntura de Vestfália. Portugal independente procurava algum apoio da coligação que tinha esmagado os Habsburgos e o Sacro-Império, mas por outro lado iria acentuar a sua faceta católica ligada à Igreja Romana, onde estaria ligado à Espanha. Aliás, as pazes com Espanha ficaram praticamente definitivas desde o Tratado de Lisboa de 1668. Esta influência geral do culto mariano é ainda notada no estabelecimento da Nª Sra. de Guadalupe enquanto padroeira das Américas.

Kazan
Para além desta acentuada manifestação mariana ibero-americana, também na Rússia se notou um importante culto mariano. Um dos casos icónicos é a história da Nª Sra. de Kazan, imagem encontrada em 1579 na cidade tártara de Kazan, na República do Tartaristão. Este precioso ícone foi associado pelos russos à protecção da invasão polaca-lituana de 1612, invasão sueca de 1709, e napoleónica de 1812, tendo sido roubado em 1904.

O importante ícone russo encontrado em 1579 (ano que se segue a Alcácer-Quibir) vai depois ter uma história portuguesa, através do Exército Azul - Apostolado Mundial de Fátima

Esta organização americana associa-se à promessa de conversão da Rússia comunista, colocando a sua sede em Fátima. Em 1993, quando já é efectiva essa mudança na Rússia, oferece a João Paulo II uma Nª Sra. de Kazan, comprada em leilão e que estava em Fátima desde 1970. Apesar de se vir a constatar tratar-se de uma réplica do Séc. XVIII, retornará a Kazan em 2005. Lembro bem o edifício com cúpula ortodoxa, que destoava na paisagem de Fátima, que antes era a Pensão do Exército Azul, e é agora o Domus Pacis Fatima Hotel.

Kursk
Outros famosos ícones russos de Nª Senhora são o de Vladimir e o de Kursk:
 

Perante a vitória bolchevique, o ícone de Nª Sra. de Kursk foi levado pelo Exército Branco para a Igreja Ortodoxa Russa de Nova-Iorque
Kursk foi ainda uma batalha decisiva que determinou a inversão do domínio alemão na 2ª Guerra Mundial face às tropas russas. 
Kursk acabou por ficar definitivamente associado ao nome do submarino que, pretendendo honrar esta batalha, teve um triste final em Agosto de 2000, ao ter afundado no Mar de Barents com a sua tripulação de 118 homens, num incidente envolto em controvérsia e mistério.

Porém, o assunto que motivava este texto era outro - a Anomalia Magnética de Kursk.
Em Kursk ocorre a maior anomalia magnética terrestre, já conhecida desde 1733. Ou seja, é uma zona de grande concentração de ferro magnetizado, que localmente afectará as bússolas.
Cristal octaédrico de magnetite Fe3O4 .

A suposta constituição interna da Terra, com um núcleo férreo, é usada como boa justificação para a existência do campo magnético, causada pela rotação terrestre. Porém, não havendo referencial absoluto convém referir que essa rotação terrestre só se manifesta com algum significado através do Sol e Lua. O movimento é relativo, e os únicos corpos de dimensão relativa significativa que testemunham a rotação terrestre são o Sol e a Lua. A teoria magnética fica ainda mais complicada quando é preciso admitir Hidrogénio "Metálico" para justificar os grandes campos magnéticos de Júpiter ou do Sol... na prática significa colocar um gás com propriedades de sólidos, que poderiam ocorrer a temperaturas muito baixas, mas que só se justificam através de pressões muito altas, numa zona onde é também suposto ocorrer a fusão nuclear, responsável pelas altíssimas temperaturas... um caldo de explicações e teorias com muita fé, que poucas vezes batem certo! É uma fé mais sofisticada do que aquela que se manifesta nos ícones de Nª Senhora, mas que encerra também muitos mistérios...

Nota: Apenas ao acabar de escrever este texto, soube da ocorrência hoje de um naufrágio no Volga, na região do Tartaristão, de Kazan...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Coimbra - Torre dos Cinco Cantos de Hércules

No texto anterior sobre o Culto do Oculto, faltou fazer referência a uma informação que apenas encontrámos passados estes 20 dias, e que o título torna auto-explicativa.
Ao ler uma parte dos Diálogos da Vária História, de Pedro Mariz (1594), fomos confrontados com esta passagem (pag.14):
Entre as quais povoações não foi (segundo parece) a de menor estima esta nossa Coimbra, onde fabricou aquela torre de cinco cantos, que naquele alto vedes situada, a que ainda hoje chamam de Hércules. E deixou o seu nome, não somente a esses campos, que ao longo do Mondego se estendem, a que os Autores antigos chamam Hérculeos; mas também a toda a mais terra, e à mesma Cidade, que por eles é chamada de Hércules; sinal evidentissimo de ser por ele fundada; pois, como diz o outro, não é de todo falso, o que em muito tempo é divulgado por muitos, quando por outra mor certeza o contrário não aparece.
Pedro Mariz deixa um registo que coloca Hércules como autor da Torre pentagonal de Coimbra, que já tinha sido motivo do nosso texto anterior, mas que vimos associada a D. Sancho I... mais acaba por definir que Coimbra teria sido fundada por Hércules e teria levado o seu nome! 

Arriscamos uma estória...
Desde Afonso Henriques haveria ordens para destruir a torre dos 5 cantos... o número 5 das nossas quinas surge aqui como factor anterior à nacionalidade afonsina.
Talvez o fundador, querendo preservar o registo, manda simplesmente disfarçar a situação fazendo uma outra torre quadrada, ao lado. A certa altura passa por ter sido o seu filho D. Sancho a fazer a outra ao lado (situação que já me tinha parecido invulgar...). D. Dinis continua o disfarce, mandando ele fazer uma torre pentagonal no Castelo do Sabugal, tornando assim a torre de Hércules exemplar não único! 
A situação, como sabemos, complicou-se bastante na regência do Marquês... o que levou à terraplanagem e destruição da torre, com a desculpa da construção do Observatório Astronómico!

À falta de outra imagem... fica a outra Torre de Hércules - o célebre farol de La Coruña:
... e é claro que temos que dar alguma voz a Gaspar Barreiros, que se queixava da atribuição a Hércules de tudo o que era construção antiga na Hispânia.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O culto do oculto

O propalado espírito reformador do Marquês de Pombal, que tanto foi propagandeado na nossa História, especialmente na fase republicana, tem um outro lado, mais difícil de ser percepcionado, mas que tende a mostrar o contrário.
Um desses factos-mitos é a suposta reforma e modernização da Universidade de Coimbra, que incluiria a constituição do Observatório Astronómico.
Porém, vejamos o que se passou (artigo de C. M. Martins e F. Figueiredo, revista Rua Larga, nº21):
Em 1773 inicia-se a construção deste vasto equipamento, com a demolição do castelo medieval e a regularização do terreno, e em 1775 estava realizado o essencial do piso térreo. A partir desta data pouco mais se avança. O elevado custo destes trabalhos, estando ainda por realizar parte significativa da obra, deve ter conduzido a Universidade a interromper tão ambicioso projecto. Um possível sintoma de divergência entre a vontade régia, de que a equipa de Guilherme Elsden era a executora, e as reais capacidades da Universidade.
Ou seja, aquilo que aconteceu foi uma efectiva obra de terraplanagem do Castelo Medieval de Coimbra.
Chegámos aqui através de uma referência à Torre pentagonal do Castelo do Sabugal, de António Carvalho da Costa, na Corografia Portuguesa de 1708:
Sendo da Coroa Portuguesa, El Rey D. Dinis a aumentou pelos anos de 1296 com forte Castelo & uma torre muito alta de cinco quinas, como a do Castelo de Coimbra, & no fecho da mais alta abóbada dela se vê o escudo das Armas Reais de Portugal com este letreiro:
Esta fez El Rey D. Dinis, Que acabou tudo o que quiz; 
Que quem dinheiro tiver, Fará quanto quizer. 
Torre das Cinco Quinas - Castelo do Sabugal

A notícia de semelhante Torre Pentagonal não apenas no Sabugal, mas também no Castelo de Coimbra, acabou por estar quase perdida. Encontrei um excelente apontamento no blog respigo onde há um link para lâminas/imagens únicas, da viagem de Cosme de Médicis pela Espanha e Portugal em 1668. Em particular, pode ainda ver-se o Castelo de Coimbra:

Vista de Coimbra 1668-69 (Viagem de Cosme de Médicis)

Uma torre pentagonal, apesar de invulgar, não é uma obra insólita, é até adequada ao aspecto das cinco quinas, símbolo fundador da nacionalidade. Talvez por isso não nos estranhe ser D. Sancho I que tem essa ideia original de construir uma torre pentagonal, ao lado da torre quadrada, apontada a nascente (Portas do Sol), que seu pai D. Afonso Henriques tinha mandado construir.

O que é insólito é que o que sobrou ao terramoto de Lisboa em 1755 teve muitas vezes um destino semelhante de destruição. Isso já não estranha, se encararmos o aspecto oculto que esteve presente no terramoto e na actuação bulldozer do Marquês. O renascer da intelectualidade portuguesa, se estava por um lado abafado pela pressão inquisitória do Santo Ofício, não foi minimamente levantado pelo Marquês. Ao contrário, houve uma importação coordenada de conhecimento externo que poderá parecer hoje pertinente e louvável, mas que era quase risível à época. Até ao início do Séc. XVIII, Portugal ainda teria pouco a aprender com a importação de saber europeu externo, com D. João V ainda havia manchas de saber nacional profundo (lembremos Bartolomeu de Gusmão)... foi a partir do terramoto e do "incêndio" que levou à destruição do espólio nacional, e da perseguição ao saber jesuíta, que tudo decaiu rapidamente. O Marquês enquanto maçon, não terá domesticado o leão inglês, terá antes caminhado ao lado dele, num desígnio que iria lançar as bases de poder noutras paragens anglo-saxónicas. Estas facções degladiam-se ainda em guerras de alecrim e manjerona que passam ao lado da população, onde o oculto reina como culto submerso.

Segundo a lenda, teria sido no Sabugal, perto deste Castelo das Cinco Quinas de D. Dinis, que teria ocorrido o milagre das rosas da Rainha Santa Isabel, numa aparente reedição do milagre da sua tia-avó Santa Isabel da Hungria. Não é difícil perceber que já aí estavam representados dois lados, um que se ligou aos templários de que resultou o misticismo maçon/judaico, e um outro que terá tido uma sequência pelo lado jesuíta. No meio, enquanto peões distraídos e usados, ficaria o povo...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Giroflé, Girofla

Giroflé-Girofla é uma ópera bufa (com tudo o que o cómico pode delatar) de 1874 de Charles Lecocq.
No enredo temos um Don Bolero com dificuldades financeiras, que procura contornar com a ajuda da esposa Aurora, casando por conveniência as filhas gémeas: Giroflé e Girofla. Casam-se com os credores do pai - um rico comerciante, e um chefe mouro, que o ameaçara de morte. Porém, com o rapto de uma delas, a outra vê-se numa situação cómica de ubiquidade, procurando substituir a irmã, para que o marido dela, líder mouro, não note a sua ausência.

Giroflée-Girofla é ainda uma canção de denúncia e resistência contra a subida de Hitler ao poder, composta em 1937.
Que tu as la maison douce
Giroflée Girofla
L'herbe y croît, les fleurs y poussent
Le printemps est là.
Dans la nuit qui devient rousse
Giroflée Girofla
L'avion la brûlera. (...)
Giroflé-Giroflá é finalmente mais conhecida como canção infantil. A letra francesa é razoavelmente diferente, próxima do enredo da ópera. No caso português ficou limitada ao jardim Celeste e à busca da Rosa.

Bom... e o que é afinal o Giroflé?
Cravo - especiaria (Girofle, em francês) 

Vendo as coisas a esta distância, talvez isto fosse um post mais apropriado para o 25 de Abril... no entanto há coisas que aparecem nos nossos espíritos, por santas campanhas repetitivas que soam como campaínhas.

A ópera de Lecocq poderia reflectir uma dualidade francesa na partilha colonial do mundo que ocorreria na conferência de Berlim, dez anos mais tarde (1884). Os intervenientes em dívida, e a contemplar no casamento poderiam bem incluir um rico comerciante europeu e um chefe mouro... o Giroflé, esse vem ainda hoje de Madagascar. Porém, Don Bolero, era claramente  um personagem espanhol.

Depois, para além da posição ambígua tomada aquando da ascensão de Hitler, a simples transcrição da canção infantil para o caso português terá sido simples e fortuita... é óbvio que o cravo com se quis marcar a revolução de 25 de Abril nada a tinha a ver com especiarias, nem a canção se chamava Oeillet, Oeillat...

O cravo, cujo nome vulgar é ainda Oeillet Giroflé, era cantado pelas crianças, ainda antes de 1974 (data em que a ópera fazia cem anos).
Uma pequena manifestação subtil de coordenação de vontades, para além da vontade reinante...
Não indiciando certamente nenhum prelúdio de acontecimento, que registo ficou desta admirável coincidência?
Passado pouco tempo, outra palavra "o crava" entrou rapidamente no jargão, e em espírito irónico falava-se na "revolução dos cravas". Uma simples mudança no final... Girofle, Girofla!

E em tempo de cravas, continuaremos a ouvir as crianças a cantar:
Giroflé, Giroflá... o que foste lá fazer? Fui lá buscar uma rosa...

domingo, 5 de dezembro de 2010

Monte Medulio - Serra de Arga

No Mapa Breve da Lusitania Antiga, o padre Francisco Silveira, começa por descrever os montes de Portugal referindo-se ao Monte Medulio, actualmente Serra de Arga, Alto do Espinheiro:
"estrada" (concerteza "romana"), na serra de Arga (Minho)

Não há outro significativo registo na história nacional, mas parece pertencer à história galega o seguinte episódio, quando em 22 a.C., perdendo uma batalha contra os romanos, os galegos e povos vizinhos cometeram suicídio, preferindo isso à escravatura. Silveira diz que na parte mais alta, freguesia de S. Lourenço da Montaria, os lavradores comentavam que no arado ainda a terra mostrava o sangue das mulheres e filhos sujeitos a esse destino de fuga ao cativeiro.

Silveira fala ainda de um "altar de Britonia", na mesma serra, perto de onde teriam morado os "antigos Britões", e teria sido aí que era relatada a fuga de um Bispo, aquando da invasão árabe.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Castro da Cola

A propósito da Cauda do Dragão / Cola do Dragão é digno de nota o Castro da Cola, um sito arqueológico, meio abandonado, próximo de Ourique... de Ourique no Alentejo,

Castro/Castelo de Cola (Ourique, Alentejo)

O sito arqueológico teria sido alvo do interesse de André de Resende, no séc. XVI, e só muito posteriormente, já em meados do séc. XX houve escavações que não foram retomadas pela morte do arqueólogo Abel Viana, que ligava o local a mais uma tradição de tesouro da moura encantada, onde mais uma vez a palavra "mouro" aqui refere-se a tempos pré-romanos.

A palavra Cola surge de novo com um significado incógnito, dúbio, aqui tomado enquanto cauda, apêndice, cólon. É assim interessante associar-lhe uma Nª Srª da Cola da Vila de Ourique, com um Menino ao Colo...

Estas associações fonéticas, fortuitas, acidentais ou não, acabam por levar às coincidências... em 1992, logo após a queda do muro de Berlim, a Coca-Cola decidiu usar Dracola numa sua campanha comercial
Anúncio de 1992 da Coca-Cola (video suprimido)

É claro que 1992 é também o ano da reposição da nova versão de Dracula no cinema... e neste contexto de factos encadeados, os nexos de causalidade podem ser trocados, e serão mais naturais as denominadas "coincidências". Afinal todo o mito moderno do secretismo da fórmula da Coca-Cola serviu também para esconder o secretismo de uma outra Cola, a do Dragão que terá o seu novo ano chinês em 2012...

sábado, 20 de novembro de 2010

Simbologia perdida

Gravado numa rocha, na costa portuguesa...
... e, não longe, mais um prodígio da erosão:
Poderia ter sido no dia 4, mas certamente foi a 3 de Agosto. 
Há dias assim... dias que começam onde nascemos e crescemos, querendo ver o que nunca vimos.
Seguimos sinais e nada... esperamos sempre mais que ser cumprimentados por um bando de borboletas brancas no campo. Afinal ligámos o conta-quilómetros, e percorremos exactamente a distância escrita na rua. Subimos a colina, e é claro, nenhum gólgota, apenas vemos um belo vale cavado na direcção de nossa casa. A mesma que há mais de vinte anos teria ficado acima do mar, pois acima do dilúvio fica sempre a nossa casa... aí cumpriu-se o sonho - no dia seguinte, acima do acidente mortal, ficou a vida.
Na mesma tarde do dia 3, um bando de gaivotas decide indicar o caminho. Olhamos, vemos as rochas na praia, vemos a gravação naquela rocha singular, compreendemos quase tudo... ou nada. E quando regresso à ausência de solidão, sou presenteado pela inocência infantil... mas são apenas duas pirâmides de areia separadas por um canal, uma construção banal, própria de crianças.
O Sol está quase a pôr-se no horizonte, olhamos na direcção oposta e sabemos que estamos a ser observados... até exactamente de onde. Subimos a colina, afinal há uma estrada que sempre fizémos, e que sempre levou àquela muralha mourisca, a que nunca fomos... É claro, decido ir sózinho. Um pequeno pássaro esvoaça assim que chego... excelente, tudo normal. 
A muralha tem inscrustados símbolos que parecem de uma época medieval. Olhamos a casa ao lado, de onde nos observam, e não vemos ninguém... como é óbvio! É tempo de regressar à normalidade.
No entanto, como há dias assim, um pombo decide nesse momento pousar na muralha, no mesmo sítio de onde o outro pássaro esvoaçara. Nada de especial... é tempo de regressar, e quando saio da muralha há um indivíduo que faz jogging, só escusaria de trazer uma t-shirt do BES, pensei - já tinha bastado sinalizar as borboletas, as gaivotas e o pombo branco.
Fui então juntar-me aos demais para um café, olhando o Sol que se preparava para mergulhar no oceano... 
Seguiram-se uns dias especialmente agradáveis de praia, e a alta temperatura à noite teria levado muita gente a banhos nocturnos, noticiou-se. Nesse fim-de-semana houve festas brancas na praia, e por momentos pareceu que o mundo estava feliz, apesar dos incêndios. Estive sempre calmamente apreensivo, mas não sei se a decisão posterior mais difícil foi a de ficar a meio da escalada, ou a de apagar o cigarro na mão.
- Por que é que apagaste o cigarro na mão?... - pergunta ouvida, sim - mas que sentido faz outrém questionar um acto único e recolhido?

Houve tempos assim, há três meses...
Só muito depois, a 11 de Setembro, regressei para tirar as fotografias que aqui coloquei... porquê? 
- Porque não faço questão de lembrar, mas também não faço questão de esquecer! Bastou perceber, 25 anos depois, o que faltava perceber - Enigma será mesmo uma máquina!
- Fica ainda o outro som que inundava o Verão

The Divine Comedy: "At the Indie Disco"

sábado, 13 de novembro de 2010

Os Suevos e os arianismos

Para a confusão conveniente há dois significados para Arianismo.
Em 467 o Rei Suevo Remismundo converteu-se ao arianismo, e não falamos do que hoje em dia é associado ao arianismo nazi... conotado com racismo, falamos de uma filosofia cristã. 
No Conselho de Nicéia (325 d.C) foi definitivamente encerrada a questão da dualidade cristã sobre a duplicidade Pai e Filho, em Deus e Jesus Cristo. A doutrina "ariana" - que foi assim chamada por ser proponente Arius de Alexandria, preconizava uma diferença entre o Filho-Cristo e o Pai-Deus.

O reino Suevo foi talvez o único a adoptar essa diferença cristã, e após 469 d.C, com o seu filho, o rei Veremundo (... "mundo verdadeiro"?), os Suevos entraram no chamado Período Obscuro.  
Durante quase 100 anos não existem registos... até ao regresso do reino à filosofia cristã de Roma, com Carriarico. O último rei suevo na filosofia arianista foi Teodemundo (... "deus do mundo"?), que morreu em 550 d.C. É também nesta altura conturbada que surgem os mitos de Artur, Merlim e Lancelote, na Britânia.

Assim, é curioso o aparecimento de um arianismo suevo, que se confunde com as designações nazis da NeuSchwabenLand e de um outro arianismo racista que nos foi transmitido no séc. XX, enquanto filosofia racista. Por questões polémicas do obscurantismo actual, que induziu reacções pavlovianas sobre a discussão destes assuntos, ficarei por aqui...

O aspecto mais fascinante apresentado no recente post do blog Portugalliae, Mare Suevorum, é a particularidade dos crânios de guerreiros, com deformações que lembram as tradições Maias, ou Aztecas, e que seriam dos suevos ou dos vizinhos alanos.
..
Crânio de guerreiro suevo/alano (à esq.), crânio de elemento da alta sociedade maia (à dir.).

Esta deformação crâniana, tem ainda ponto comum anterior com as representações de Akhenaton, Nefertiti, ou os seus filhos (conforme também já salientou Maria da Fonte). Foi esta geração de faraós que procurou introduzir o culto monoteísta, e que foi rapidamente substituída na dinastia Egípcia.
Um ponto comum em 3 partes distintas e aparentemente desconexas - México, Hispânia, Egípcio... a conexão agora submersa, foi uma conexão emersa durante o tempo de navegações esquecidas.

A parte misteriosa não é apenas sueva, já que os alanos constituiram igualmente um reino independente em Portugal, sendo Alenquer uma das suas principais cidades - Alan Kher : Castelo dos Alanos.
Dir-se-ia ainda que a própria designação de Alancastro, que era usada em Portugal para designar os descendentes de Phillipa de Lancaster, teria um propósito que ia para além do trivial, talvez procurando espelhar Alan-Castro : Castelo de Alanos. Aliás Alenquer era uma das vilas das rainhas, a que Phillipa deu particular atenção.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Gobekli Tepe

De vez em vez, as descobertas acidentais e a arqueologia desenterram problemas!
Um dos mais recentes é Gobekli Tepe... um achado recente na cadeia montanhosa de Tauro, no sudeste da Turquia, que vem sendo datado para 10 mil anos a.C. Ou seja, falamos do mais antigo complexo arqueológico, numa altura de nomadismo, onde nem sequer as mais antigas cidades conhecidas existiriam.
As estruturas em T são notáveis, com representações compreensíveis, e notáveis esculturas de animais:
 
Para além de todo o natural destaque ao complexo arqueológico é ainda notável a representação do javali (figuras em baixo), enquanto figura de culto.
 

Pela semelhança, seria tempo de rever a origem da monumental escultura, com mais de 1 metro de altura e quase 2 metros de comprimento, a denominada Porca de Murça

Seria preciso um olhar diferente, que deveria ser mais do que um ícone para marcas vinícolas... marcas essas que acabam por ser os maiores divulgadores da sua existência!

As sucessivas descobertas em Gobekli Tepe já mereceram algum interesse, ainda que tímido, dos media internacionais, conforme uma reportagens da ZDF, ou da BBC (inserida no vídeo seguinte):

"Gobekli Tepe Ancient History being Uncovered!"

É claro que estes novos factos, ainda que já conhecidos há mais de 10 anos, têm sempre um circuito difícil na divulgação do conhecimento... é difícil refazer uma história tão bem composta, com primeiras cidades em Jericó, Çatal Huyuk ou Mohenjo Daro. Especialmente porque o nível de escultura, mostra que não seria uma cidade isolada, e estaria muito longe de ser a primeira... o nível de concepção sugere a existência de cidades  menos sofisticadas, em fases anteriores.

Esta descoberta faz parecer outras descobertas, anunciadas ontem, nas montanhas do Cáucaso, no sul da Rússia:
.

como descobertas pouco significativas, ao serem datadas "apenas" 1600 anos a.C.
O mais significativo nas descobertas no Cáucaso russo, é o facto de resultarem de fotos aéreas tiradas na Rússia em 1970... tendo sido necessários uns longos 40 anos para uma confirmação in situ.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Berlenga (etimologia)

Começamos não com a nossa conhecida ilha Berlenga,
mas sim com uma Berlanga em Castela.
Antiga e imponente fortaleza de Berlanga de Duero (construções sucessivas até séc. XV)

O nome Berlenga é suficientemente estranho no nosso léxico...
Após algumas tentativas de etimologia, procurando numa decomposição ber + lenga e passando por "berberes" ou associações análogas, encontramos três Berlangas em Espanha:
No entanto, há um pouco mais a acrescentar... em termos de etimologia e brasões:
Berlanga de Duero, Berlim, Berna (brasões)

Torna-se mais ou menos evidente (até pela tradição nas línguas germânicas), que BER se associa a Urso (não sendo exaustivo, há associações dissimuladas como Berwick, na Escócia).

Decompondo Ber, ficaríamos com Lenga... do qual temos apenas um registo bizarro a lenga-lenga, com etimologia declarada africana (umbundo?). Ainda em Espanha, encontramos Langa-de-Duero, e outras povoações denominadas Langa.
Mas a mais surpreendente é talvez a associação a Langa-Shetland e à provável origem do termo viking para ilha comprida. Sendo comum o nome em múltiplas ilhas escocesas denominadas Linga, devemos lembrar que em registos inglesas a nossa ilha é designada Berlinga. Esta ligação escocesa (ou viking), prolonga-se até na existência de uma ilha denominada Barra na Escócia.

Terminamos esta deambulação etimológica sobre a Berlenga, notando que Barlang é um nome húngaro para caverna/gruta, que se poderia aplicar às grutas na Berlenga.
No entanto não é conhecida nenhuma influência eslava ou húngara significativa que suporte esta derivação directa. Há uma derivação indirecta é que a relação de ursos com cavernas, o que pode estar na origem do nome húngaro (decompondo bar-lang).

Neste ponto, sem falar na designação romana da Berlenga, que era Londobris (e o que daria uma outra estória... tendo até sido relacionada a Londinium - Londres), a origem do nome Berlenga pode estar relacionada com uma primitiva denominação que ligue Ber (urso) a Linga (ilha).

De forma independente (ou não) o nome Berlingr é associado a um anão numa Saga viking Sörla þáttr o que reforça a origem viking do nome.

Por outro lado, não convirá esquecer as referências de Frei Bernardo de Brito (Livro 5, fl.24) que associa a Berlenga a uma cidade que esteve na Costa da Lusitania (cf. Pomponio Mela, livro 3, cap.2) e que se apartou da terra firme em 582 AD, e que estaria ainda associada à Eritreia.

Nota: Como facto lateral, não é de excluir a associação de Ber com alguma etimologia importante para a designação de povos bárbaros. O nome "Berber" é admitido ser um desvio de "Barbar", para povos estrangeiros/estranhos. É interessante considerar que essa designação estaria relacionada com uma nomeação de ursos (muito comuns nas partes interiores da Europa)...