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terça-feira, 4 de março de 2014

Pontes de Alma

1) Rio Alma. Alma é um pequeno rio da Crimeia.

2) Batalha de Alma
Se o rio parece pequeno de corpo, ficou grande de Alma pela batalha de 20 de Setembro de 1854, que opôs uma aliança de Ingleses, Franceses e Turcos contra os Russos, na célebre Guerra da Crimeia.
Jacques de St Arnaud morrerá alguns dias depois de ter conseguido esta vitória afrancesada sobre os russos.

3) Ponte de l'Alma
Em comemoração da vitória na Crimeia, Napoleão III inaugurou dois anos depois a Ponte de Alma sobre o Sena, em Paris. 
(foto da antiga ponte, circa 1900)

4) Túnel de l'Alma, 31 de Agosto de 1997... (Death of Diana, Princess of Wales conspiracy theories)
 
Harrods de Londres - Monumentos a Diana Spencer e Dodi Al Fayed. 
Praça de l'Alma 
(tocha da liberdade serve de homenagem a Diana)


5) Almas Mortas 
Lembro-me bem do título deste livro de Gogol, que estava na estante, como tantos outros, que ali ficariam sem ser abertos, e ainda hoje não despertarem a menor das curiosidades. 

6) Dead Souls 
A contrario, foi com alguma facilidade que a voz de Ian Curtis fabricou um mito que ainda resiste
Joy Division - Dead Souls

Someone take these dreams away, 
That point me to another day, 
A duel of personalities, 
That stretch all true realities. 

That keep calling me, 
They keep calling me, 
Keep on calling me, 
They keep calling me. 

Where figures from the past stand tall, 
And mocking voices ring the halls. 
Imperialistic house of prayer, 
Conquistadors who took their share. 

7) Napoleon & Rio Alma
A junção dos nomes Napoleão e Rio Alma, não ocorreu apenas numa batalha com milhares de mortos na Crimeia... fortuitamente aparece ligada a uma estátua nas Filipinas.
Magdangal : poema de Rio Alma e escultura de Napoleon Abueva 

8) Alma e Maçã
Pode ler-se na página da wikipedia:
Alma is the Crimean Tatar word for an "apple". 

Tartária, já se sabe, foi um nome que chegou a servir para toda a região siberiana... identificando os territórios desde a Crimeia (chamada "Pequena Tartária") até às paragens mongóis da mítica Cataio, confundida ou não com a China. Tudo isso seria a Grande Tartária, chamado mesmo Império. 
De alguma forma, perdeu-se muito do registo de uma cultura que se equivaleria ao Império Russo, e que foi depois substituído na sua extensão por este mesmo. Quase que ficaram apenas expressões como "molho tártaro", "bife tártaro", etc...

9) Crimeia e Big Apple 
Foi na Crimeia que se realizou a conferência que decidiu o modelo de governação global após a Segunda Guerra, através do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Cada uma das potências vencedoras teria o seu direito de veto na Big Apple, Nova Iorque, sede da ONU. 
O próprio destino dos tártaros da Crimeia ficaria ali decidido, forçado a uma migração para o Uzbequistão, acusados por Estaline de terem apoiado a invasão alemã.
Conferência de Yalta na Crimeia

10) Caronte, Aqueronte, Almas e Tártaros
Aqueronte era um afluente do rio Estige em que o barqueiro Caronte levava as Almas para o Tártaro - o inferno na mitologia grega.
Caronte leva as Almas para o Tártaro.


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Panoramio (1)

O serviço do Google Maps tem associado fotos do Panoramio, onde muitos disponibilizam fotos tiradas dos diversos locais. Individualmente não custa muito, e antes que as coisas desapareçam, ou se estraguem, uma foto pode ser importante para o registo colectivo, que doutra forma está cheio de todos os empecilhos e burocracias típicas do património... por causa das "coisas".

Compilar e interpretar o muito que já há é uma tarefa imensa, que cheguei a pensar fazer. 
Porém, como me deixei disso, ficam aqui algumas das fotos que me despertaram alguma atenção.
Não vou comentar com detalhe, para não demorar muito, nalguns casos as imagens são esclarecedoras do muito património abandonado por Portugal. 
Os créditos vão todos para os fotógrafos que decidiram partilhar o que viram, e haverá link directo em cada foto.

Começo por algumas fotos de pontes. A minha ideia inicial era pegar num mapa antigo do Álvares Seco, e procurar associar cada ponte lá marcada com uma foto do que resta. Pelo menos sabia-se que existiam já no Séc. XVI... mas enfim isso seria uma tarefa gigantesca.
Ninguém se apercebe bem do imenso património de pontes antigas, que não me parece ser assim tão frequente encontrar na Europa central.

Já se sabe... todas as pontes portuguesas com aspecto antigo ou são romanas ou medievais - e parece ser um bocado ao gosto do freguês classificador. 
Creio que o "grande critério erudito" é o seguinte: 
- se a ponte se encontra numa estrada romana, é romana, 
- se está noutra via é medieval.
Tudo o resto não interessa, e esta "erudição" facilita a vida de todo o estudioso...

Bom, acontece que as vias romanas poderiam ser definidas justamente para aproveitar pontes já existentes, e como a arquitectura de algumas tem muito pouco de "romano", é de suspeitar que sejam mais antigas. Também nada invalida que em milhares de anos, a ponte tenha sido feita em qualquer época, com o engenho de alguns construtores locais, umas melhores que outras.

Pelo link da wikipedia parece estar classificada como "romana"
... parece ter-se os romanos em má conta, pode ser bastante anterior,

Ponte medieval(?) (Escorregadia, Vascoveiro, Pinhel)
Portanto não haveria estrada romana por aqui? 
Tem um aspecto simples e sofisticado... podia ser romana.
O rio aparece seco... já passou muito tempo do seu curso por ali?

Parece seguir por uma via romana, e parece ser romana.

O autor colocou medieval, eu achei que até poderia ser... mas depois
seguindo o link da wikipedia diz-se que está numa via romana, e é romana!

Outra Ponte perto de Vimioso (Vimioso, Bragança)
... parece ser medieval (mesmo) e a reconstrução do arco mais recente.

Ponte "gótica" no rio Maças (Argozelo, Vimioso)
... talvez seja dita medieval gótica pela forma bicuda do arco (e pode ser)!

... parece ser ponte medieval, esperemos não estar em risco pela barragem.

... parece ser atribuída como ponte romana pela junta de freguesia
(parece-nos ser muito mais recente)

Ponte romana (Escalhão, Figueira de Castelo Rodrigo)
... parece ser uma ponte romana, nada mais a dizer.

... parece ser construção romana.

Ponte da Cabreira (Cabreira, Almeida, Guarda)
... parece ser dada como ponte romana, mas é de suspeitar ser bem anterior!
(ver ainda o interessante "barroco do sangue")

... aparentemente muito recente, do reinado de D. Maria II (c. 1850).

Ponte romana(?) (Penha Garcia, Castelo Branco)
... talvez seja mesmo romana.

Ponte de "outras eras" (Idanha-a-Velha)
... parece um bom título do autor, 
tratando-se de pedras soltas para passagem pedonal.


Como é óbvio, são poucas, porque há mesmo muitas... comecei pelos distritos do interior, e mesmo assim faltam bastantes, para além das que nem sequer têm fotos no Panoramio. Um problema típico é ainda que a fotografia pode estar colocada num sítio errado, por simples confusão ou descuido de detalhe, o que ainda baralha mais as coisas. 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Os véus e as velas

Há uma boa quantidade de invenções que são tidas como modernas, mas que não têm nenhuma razão especial para não existirem desde remotos tempos, pelo menos desde a Antiguidade.

Como um desses casos encontramos os "veículos de vela terrestres":
Simon Stevin (1649)
Hendrik Gerritsz (1637)

Um artigo da wikipedia apresenta referências que remetem a originalidade aos Chineses, a Xiao Yi, no Séc. VI d.C., constantes na representação de atlas de Ortelius, Mercator, J. Speed...
Nas grandes extensões planas, este transporte poderia ter utilidade, ainda que limitada. O veículo desenhado por Simon Stevin acabou por ser mesmo construído e usado pelo Príncipe Maurício de Oranje como veículo de entretimento... tal como hoje tais veículos são usados em desporto:

Bicicletas...
Se estas imagens correspondem a uma realidade confirmada, o mesmo já não se passa com algumas imagens fabricadas de bicicletas, que se pretenderam associar à época medieval. 
No entanto, nada seria mais plausível... a tecnologia de um monociclo, bicicleta, ou de um triciclo, esteve disponível para poder ser usada praticamente desde que há rodas... o maior problema seria a existência de estradas compatíveis com o esforço. A bicicleta acabou por se popularizar com o advento das estradas de macadame, depois de McAdam, e após a derrota de Napoleão em Waterloo.
Essa observação é feita num livro de 1867, de Velox (um pseudónimo), sob o título "Velocipedes, bicycles, and tricycles: how to make and how to use them":
Like the coach, they [chariots] were of rude workmanship; but the mind that designed and constructed them probably dreamed of some mode of dispensing with the cattle necessary to move them. Even then canoes moved on the face of the waters and ships on the sea; and it is more than probable that a similar motive power was looked for land.
É natural que um escritor do Séc.XIX se interrogasse sobre a razão do invento aparecer tardiamente, em 1819, já que seria natural o homem procurar usar a roda mesmo sem recurso a animais, como acontecia com as canoas nos rios, e os veleiros no mar. 
Simplesmente o génio humano estava preso na garrafa, e só teve autorização para sair no Séc. XIX, quando subitamente todas as invenções pareciam ser possíveis e naturais. Mesmo assim, Velox consegue encontrar um registo francês de um triciclo, de Blanchard (1779), quarenta anos anterior ao registo habitual:

Também seria natural invocar simples brincadeira de crianças, que tiveram diversas variações... ao meu tempo consistiam em fazer carrinhos de rolamentos, que perigosamente desciam a grande velocidade as colinas. Para esse tipo de coisas, bastavam rodas e colinas suaves... dois factores disponíveis desde os tempos mais primevos.

O bloqueio mental percebe-se lendo alguns textos cristãos. Uma roda dentro de outra roda era associada a uma visão do profeta Ezequiel, e como o Padre António Vieira explicava haveria votos associados a rodas. A duas rodas, o voto de pobreza e castidade, e depois às outras duas votos de obediência. Este género de associações prestavam-se a interpretações proibitivas.

Relógio fora do tempo
Terminamos este pequeno apontamento com um pequeno mistério, que apesar de pouco divulgado, parece ser fidedigno, e nada vi que o desmentisse... 

Trata-se de um relógio do início do Séc. XX, que seria tão miniaturizado que poderia ser usado como anel, mas foi encontrado numa sepultura Ming que deveria estar fechada desde o Séc. XVII. 
Portanto, tal como a máquina de Anticitera é um achado de relógio fora do tempo e lugar.

O pequeníssimo relógio terá "Suiça" escrito nas traseiras (não sei em que língua). Tanto pode revelar que o túmulo foi visitado incognitamente no início do Séc. XX, como revelar uma tecnologia suiça já capaz de produzir peças miniaturizadas por volta de 1600 d.C. Há ainda quem seja logo aliciado para teorias de viagens no tempo... neste caso seria uma viagem passada (c.1900) ao passado (c.1600)!

O mais natural é uma eventual visita "anónima" que deixou aquele vestígio incómodo. Porém, os véus que caíram sobre o progresso tecnológico também nos podem fazer supor que nada impediria que no Séc. XVII houvesse tecnologia capaz de produzir tal proeza, que um imperador Ming não resistiu em levar para o seu túmulo.

Não parecendo ser este o caso, é natural aparecerem cada vez mais registos dúbios, que se verificam serem falsos. Basta uns tantos para descredibilizar tudo o que não tenha a "chancela oficial". Por isso, é mais seguro procurar registos que nos foram chegando do passado, do que seguir novas descobertas publicitadas nas redes sociais, que podem ser resultado de simples tentativa ocasional de conduzir opiniões. Essas novas descobertas podem aparecer como promissoras e certificadas, para depois serem rapidamente descredibilizadas. Os registos do passado têm a vantagem de já terem sofrido a resistência dos tempos, mantendo o seu mistério.

domingo, 19 de maio de 2013

Linhas Velhas de Torres

- "Estás aborrecido?... Vai para Torres!"
Esta era uma frase que ouvia, de vez em vez, à minha avó. A referência era de Torres Vedras, disso não tenho dúvidas... e se lhe perguntei porquê, tenho dúvidas se a resposta remetia ao Carnaval.

Vamos então a Torres Vedras, onde "vedras" significa "velhas", onde estão essas Torres Velhas?
Não muito longe fica Torres Novas... cujo castelo foi conquistado por D.Afonso Henriques.
Para termos uma noção da toponímia, mesmo estas "torres novas" não seriam assim tão novas, e o termo arcaico "vedras" remete o velho mesmo para uma altura em que a palavra "vedras" tinha uso. 

Há uns anos não ligaria ao assunto, porém depois de ver os pretextos do Marquês de Pombal em arrasar com a Torre Pentagonal de Hércules, de Coimbra, e o desaparecimento quase simultâneo das Torres de Hércules em Cadiz, dá para perceber que poderia haver uma agenda para terminar com torres antigas...

As Linhas de Torres e o Forte do Zambujal
Já sabemos como são estas coisas... invasões napoleónicas, os ingleses vêm-nos ajudar, e para isso as velhas construções seriam facilmente reutilizáveis em coisas úteis em tempo de guerra, como sejam:

As Linhas de Torres eram suposto fornecer muralhas defensivas que se estenderiam, do Tejo ao Atlântico, para proteger o avanço das tropas napoleónicas...
Surpreendentemente não restou muito/nada dessa grande obra de engenharia militar. Notou-se aliás nas comemorações dos 200 anos que não pareciam encontrar grandes muralhas que honrassem tal obra, nomeada uma grande obra de engenharia militar do Séc. XIX.

Um dos sítios que foi escolhido para as comemorações foi o Forte do Zambujal

Será este Forte do Zambujal um dos melhores vestígios das famosas Linhas de Torres?

O Castro do Zambujal
Mudamos de assunto... aparentemente!
Por vezes alguns arqueólogos fazem algo estranho... encontrar vestígios de coisas antigas em Portugal, mas digamos mesmo antigas, do fim do Neolitico.
Basicamente entre as Torres Vedras e as Torres Novas, foram dar com o Castro do Zambujal.


Talvez se o Castro do Zambujal estivesse no meio das Linhas de Torres, como estava o Forte do Zambujal, houvesse também comemorações... com uma diferença até 5000 anos entre a engenharia inglesa e a rústica engenharia dos povos do Neolítico - ainda que não se note muito qual é mais recente!

Para não estar com mais rodeios... não é de excluir que as "Linhas de Torres", de Wellington, pouco mais foram do que um projecto de reconversão de extensas muralhas e torres "vedras", aproveitadas com algum propósito militar que se justificaria, é claro, mas muito mais com um propósito de fazer esquecer as antigas.
Aliás se houve alguma significativa construção militar dirigida pelos ingleses, parece não ter restado vestígio... pelo que o propósito pode ter sido mais o de retirar pedras do que colocá-las.

É de ficar aborrecido? É ir para Torres... 

Antas, Zambujices e Mouras
Bom, mas a história não acaba no Zambujal de Wellington, porque o outro Zambujal, mais ao lado, já foi suficiente para toda uma nova teoria acerca do final do Neolítico, inicio do Calcolítico.
Há quem considere que toda aquela zona foi afinal o centro de produção da cerâmica campaniforme.
Esta cerâmica de vasos campaniformes está na origem de uma "moda" que se propagou durante milénios pela Europa Ocidental.
Vasos Campaniformes - Portugal, Espanha (2), Boémia (2), Inglaterra. (daqui)

Vários investigadores argumentam que toda essa cultura seria originária de onde?
- da zona do Castro do Zambujal (Vila Nova de S. Pedro, Azambuja)
- ou seja, da zona de Torres Vedras!

Um texto elucidativo é o de Olivier Lemercier (2006)
e estes seus mapas explicam bem como se considera agora que se propagou a exportação da cultura:

 

Ou seja, houve um processo marítimo de expansão... e podemos bem perceber como entrou até às zonas boémias, e talvez mesmo até à Galécia polaca/ucraniana. Este mapa pode ainda ser confrontado com os mapas genéticos que têm a disseminação do Haplogrupo R1b.

Colocar o centro da cultura campaniforme no Zambujal, na Estremadura, na zona de Torres?
- Alguém ficará aborrecido?
Há quem argumente o contrário, mas o problema é que as cerâmicas portuguesas chegam a ser mil anos mais antigas que as restantes europeias, indo para além de 3000 a.C. Pode aborrecer?...

Há vários nomes Zambujal, Zambujeiro, etc... que devem remontar a registos de épocas tão "vedras" quanto 3000 a.C. 
Há ainda outros nomes que remetem para coisas mais antigas - as Antas, escondidas em muitos St. Antão.
Como o nome indica, as Antas estão muito associadas aos monumentos megalíticos - dolméns, menires, habitualmente reportados à cultura celta, mas que seriam tão ou mais antigos do que este registo dos Zambujais!

Há ainda outros nomes, igualmente perdidos em antiguidades pré-históricas, associados a Mouros/Mouras.
São depois disfarçados em "Lendas de Mouras", mas não dizem respeito necessariamente às invasões árabes. O problema é que o povo Mauro/Mouro tanto habitava este lado da Península, como o lado africano, fazendo o salto das Colunas de Hércules. Chegou a haver uma Grande Mauritânia, que se estendia da Península pelo Norte de África... e nada tinha a ver com os mouros que depois nos vieram "visitar" de novo. Esses parece que, comparativamente, poucos estragos fizeram... mas da sua presença dificilmente encontramos uma mesquita de pé em território nacional - por cá sempre houve quem cuidasse em fazer desaparecer a história!

Como encaixa tudo isto?
Para encaixar isto, é preciso responder a uma questão simplesmente complicada!
Como saltamos dos artistas das pinturas rupestres de 30 000 a.C. para estes novos artistas que disseminaram a sua arte cerâmica por toda a Europa, por volta de 3 000 a.C. ??
- Não sei se ninguém reparou, mas é natural que os artistas tenham pensado noutras coisas, ou será que passaram 27 000 anos a pintar cavalinhos, mamutes, etc... e depois ficaram entretidos a levantar duas ou três pedras grandes?

É que o registo mais antigo dos Egípcios não é muito claro ser muito anterior a 3000 a.C., e já sabemos o que o Homem fez nestes últimos 5000 anos de registo histórico, mas não fazemos ideia do que fez nos 25000 anos anteriores, depois de pintar os cavalinhos com requintes de grande artista!

Seriamente, para quem na Síria mente, é muito aborrecido mencionar estes assuntos?

sexta-feira, 29 de março de 2013

WHC (4) Bhimbetka, Chauvet

As pinturas rupestres nas rochas de Bhimbetka, no centro da Índia, são um dos monumentos humanos classificados no World Heritage Convention (WHC) da UNESCO. Já falámos noutros 3 (Paisagem da Ilha do Pico, Villa Romana del Casale e Nemrut Dagi), este será o quarto escolhido, lembrando outras pinturas rupestres mais conhecidas, as da zona de Lascaux, de Altamira, ou ainda as da zona do Coa até ao Escoural.

Não sabemos se se trata de um outro caso isolado, mas curiosamente não há muitas pinturas rupestres que nos levem longe na memória da noite dos tempos. Para além das mais notáveis ibéricas, e especialmente do sul de França, temos alguns registos noruegueses, e estes indianos, na grande superfície euro-asiática. Há outros na América, África, Austrália, mas começaremos por falar nos registos indianos, que nos parecem menos conhecidos.

Bhimbetka (India)
A primeira imagem de Bhimbetka (Madya Pradesh, India) encontramos na página da WHC:

Sendo surpreendentes, não vemos aqui uma arte no traço como acontece em Altamira, Lascaux, ou no Coa. Estas pinturas foram datadas num período até 30 000 a.C., sendo algumas delas consideradas recentes, já dentro do período histórico, e até medieval. 
De acordo com a informação disponível na wikipedia, esta figuração que inclui invulgares imagens cavaleiros, poderá ser datada até 2000 a.C:
Fala-se ainda de representação de bisontes ou rinocerontes, como encontradas no registo europeu, mas incluindo-se ainda tigres, os felinos característicos do subcontinente indiano.

Chauvet, Lascaux, Altamira, Coa, etc.
A grande diferença face às pinturas rupestres europeias (Sul de França e Iberia) acaba por residir na espantosa precisão artística, que ainda hoje surpreende na datação, que nos remete a períodos entre 24 000 e 30 000 a.C., ou seja à época de aparecimento dos Cro-Magnon.
Os notáveis desenhos em Chauvet (sul de França) - bisontes, cavalos, rinocerontes.

"Cave of Forgotten Dreams", um filme de Werner Herzog (2010)

Chauvet será um dos conjuntos mais recentes a juntar à lista de Altamira, Lascaux, e Coa.
Remetemos para a página Arte-Coa, que inclui informação sobre outros locais nacionais (Escoural, Guadiana, Zezere, Ocreza, Fraga do Gato, Mazouco, Sabor), em Espanha (Altamira, Siega Verde, Domingo Garcia, Parpalló), e em França (Rouffignac, Lascaux, Chauvet, Cosquer).

O mais espantoso neste conjunto é que o traço artístico perfeito apareceu como característica quase inata em diversas localizações... deixando a questão de como se poderia ter perdido nalgumas civilizações muito mais avançadas, que se seguiram às tribos habitantes das cavernas.
Enfim, já falámos sobre este assunto no texto sobre a "Hera dos Cobres" (e pela sua actualidade, convirá lembrar que Chipre, a ilha sob investida dos "chiffres" da UE, deriva o nome do Cobre - Cuprus). E só por curiosidade, de Cuprus a Caprus, do Chipre ao chifre da cabra, aparece-nos uma cornucópia primitiva na paleolítica Vénus de Laussel (também Sul de França):
Cornucópia - Vénus de Laussel (~ 25 000 a.C.)
... e sobre as cornucópias de Cíbele também já nos pronunciámos.

Outros registos
O problema principal é que quando passamos para registos seguintes, notáveis, como Çatal Hüyük (~ 7000 a.C.):
... parece ter-se perdido aquele traço artístico, e vemos maiores semelhanças com o registo indiano, talvez precursor de Mohenjo-daro.
E já falámos de Gobekli-tepe um registo fora da habitual cronologia....
Ainda na zona europeia são de referir as inscrições noruguesas em Alta, embora mais recentes (~ 4000 a. C.).

Fora da zona europeia, são razoavelmente conhecidos outros registos de pinturas rupestres:



  • Serra da Capivara (Brasil), 
  • Entre os bosquímanos (África)
  • Entre os aborígenes (Australia)


  • __________________________________
    Notas adicionais [4/5/2013]

    1ª) As figuras na Serra da Capivara, encontrei-as pela primeira vez nestes posts do Portugalliae:
    que evidenciam alguma semelhança no estilo com estas pinturas indianas, dos bosquímanos, do Sahara, ou dos aborígenes.

    2ª) Este artigo pode ainda ligar com a questão da mobilidade humana, nomeadamente com a constatação de que a ligação na plataforma euro-asiática poderia ser feita, a pé, de uma ponta na Ásia à outra na Europa, em menos de um ano, por rotas seguras. 
    Acresce que a distância entre os locais ibéricos, e do sul de França, envolve distâncias que normalmente se fariam a pé no espaço de uma semana, e havendo contemporaneidade indicia tratar-se de uma mesma comunidade, ou no mínimo de comunidades que estavam em grande contacto.

    segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

    Abraçadabra

    Este texto pode ser visto como sequência do "Panóptico ou ovo de colon", ainda que tenha alguma independência face a esse.
    A sequência estabelece-se pela representação caprina de Pan, e pela fábula da alimentação de Zeus, através do leite de cabra de Amalteia, ou Adamanteia, no Monte Ida, ou Monte da Cabra, Aigaion (ou Egeon). 
    No mar Egeu, ou no mar Mediterrâneo, em geral, as cabras acabaram por polvilhar ilhas... e seriam um animal que permitiria uma subsistência razoável a pequenas comunidades insulares. Se há locais onde se pode considerar que o gado caprino poderia ser levado a um estatuto de divindade da natureza, seria claramente a bacia mediterrânica e as suas ilhas. 
    O pequeno Zeus/Jupiter, poderia ser escondido pela mãe Raia, e alimentado, numa das ilhas mediterrânicas, onde as cabras lhe serviriam de bom sustento de sobrevivência, até que estivesse em condições de liderar a Titanomaquia, contra o pai, Cronos/Saturno.
    Esta eventual alegoria representa ainda a possibilidade de isolamento e crescimento independente de uma pequena comunidade insular, afastada dos conflitos continentais, desenvolvendo-se secretamente um "pé-de-cabra" até poder intervir com grande poder autónomo e sofisticado, para abrir uma estrutura maior. 
    Abracadabra... Q'abra, Q'abram, sendo preferível não a versão do sacrifício Q'ordeiro, e lembrar "Le grand dictionnaire" do Padre Louis Moreri (edição de 1731), que diz que os gregos tinham o C como um sigma Ç, devendo ficar por isso a versão Abraçadabra, na forma s'abra, s'abram.

    A cornucópia de Cíbele seria de corno de cabra (também vista como um corno partido de Amalteia), e Egipan (ou Aigipan), uma interpretação de Pan, irmão de Arca(s), iria colocar-se ao lado de Zeus contra Tifon, na Titanomaquia. Assim, é interessante termos junto à constelação de Capricórnio, de Egipan, a estrela Capella... que significa "cabra pequena", em honra de Amalteia.
    Não sei se há autorização ortográfica para levantar o duplo "ll", talvez pelo significado religioso de capela, capelão, etc... porém também já vimos, em múltiplos exemplos, que estas imposições às mentes, partem de-mentes, foram sem-mentes, e serão la-mentos em co-mentos, que serão sempre poucos para repor a mente que mente a si própria. Talvez os cabelos disfarcem as mentes dos capelos...

    Um dos locais apontado para o Monte Ida ou o Aigaion, tem sido a ilha de Creta, mas de entre as diversas ilhas emblemáticas pela sua referência a gado caprino, não nos devemos esquecer de Capri, uma pequena ilha ao lado de Nápoles. Foi Augusto que comprou a ilha (em troca por Ischia, aos Napolitanos), e foi aí que Tibério instalou o seu governo. É ainda aí que veremos situada a acção do filme "The Last Legion", como refúgio do pequeno Rómulo Augustulo, o último imperador de Roma:

    The Last Legion encenava uma versão alternativa para o mito de Artur, Merlin, e da espada Excalibur, fazendo a ponte da sucessão britânica do império romano, também explorada por via da consagração do imperador Constantino em York. Outro filme consagrado, que diz respeito à queda do Reino das Duas Sícilias (Nápoles e Sicília), é "O Leopardo" (ou antes o serval... sendo que cerval é o lince), de Luchino Visconti, onde lembramos a frase inicial, que era mote do protagonista: "Para que tudo permaneça igual, é preciso que tudo mude". E a este propósito, lembramos ainda que Fernando de Aragão, patrocinador da viagem de Cristovão Colombo, ou Colon, acumulou também os Reinos de Sicília e de Nápoles.

    Regressando à figura caprina, para além da simbologia dos seus pés, há uma simbologia ligada à sua cabeça, enquanto uma das três partes da Quimera, sendo as outras duas: a capita de leão e a cola, ou cauda, de serpente. Acresce a isso a figura caprina no pentagrama invertido (Baphomet), talvez procurando completar com 5 extremidades a parte da cabeça, numa tentativa simplista de imitar as outras derivações em 5 extremidades dos 5 membros... sendo necessário abdicar de outras derivações no caso masculino, o que nos levaria de novo ao drama eunuco, ou a uma estilização angelical, assexuada. A separação entre bodes/cabras e cordeiros/ovelhas é ainda mencionada no Evangelho de S. Mateus 25 (31-46), representando um símbolo de divisão ":" em julgamento. Há um outro símbolo de divisão racional "/", que leva em conta a simplificação definida até à evidência de factores primos, irredutíveis.

    Se a utilização de contagem em base decimal derivou de uma simplificação digital, literalmente de uma contagem por dedos, também sabemos que essa base corpórea nada traz de especial face a outras  bases... os polvos se contassem pelos seus 8 tentáculos, chegariam à mesma aritmética.
    Por isso, algum tipo de simbologia, à falta de melhor explicação, parece completamente fortuita e não racional. Há imensas "leis" que são pura descrição empírica. A certa altura, procurou-se relacionar as distâncias dos planetas ao Sol através da Lei de Bode, para depois verificar que não se aplicava a Neptuno (aliás, já teria uma pseudo-excepção na cintura de asteróides), ou a Plutão (este foi recentemente desclassificado como planeta...).

    Porém, há outras relações, mais profundas, que causam admiração, e que não devem ser desconsideradas do plano filosófico/epistemológico. Por exemplo, a Identidade de Euler
    eπ i + 1 = 0
    foi desde logo considerada como uma fórmula algo "mágica", no sentido em que combinava vários elementos fundamentais da matemática, nomeadamente a soma, multiplicação e exponenciação, bem como as principais constantes matemáticas. Para além do 0 e 1, o "i" representa a unidade imaginária "raiz de -1", o e=2.71828... a base logarítmica de Neper, e claro, o π=3.14159265... da trigonometria.

    Por exemplo, se o 7 pode ser encarado como simbólico por realizações ou interpretações humanas, sejam as 7 maravilhas do mundo (mera escolha), sejam as 7 cores do arco-íris (mera interpretação - há uma variação contínua de cores), tem algum significado astronómico quando ligado às fases da Lua (cada fase demora aproximadamente 7 dias), mas isso diz respeito a uma interpretação circunstancial.
    No entanto, quando 22/7 é uma boa aproximação de π, ou 355/113 é ainda melhor (e até a melhor, em certo sentido), entramos em questões que escapam por completo à nossa compreensão actual.
    Porquê? Porque algumas leis dizem respeito a particularidades "físicas", mas quando estabelecemos este tipo de relações, constatamos uma relação entre rotações (círculos) e rectas, que parece particular do nosso universo, ou da nossa forma de o entender. 
    Num certo sentido, podemos ver que o valor particular π=3.14159265... é uma marca nossa, do nosso universo, da forma como idealizamos a sua geometria, mas não temos nenhuma justificação para aquele valor, parecendo completamente arbitrário, casual. Só que não o é...

    quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

    Degraus da Maia

    Na Ilha de Santa Maria (Açores), houve este ano uma competição desportiva intitulada

    "Subida dos Degraus da Maia
    Degraus da Maia (Sta. Maria, Açores)

    Primeiro, convém dizer que é uma excelente iniciativa para divulgar e proteger património, e depois levanta algum espanto pelas imagens conseguidas, quase lembrando outras escadarias maias...
    Tratam-se de escadarias de acesso aos "currais de vinha", nas fajãs entre Santo Espírito e Maia, na Ilha de Santa Maria.

    As construções em escada, definindo os tais "currais" onde são feitas as plantações em terrenos íngremes tornam-se num prodígio monumental de grandes dimensões, e espalha-se por Portugal, seja na região insular, seja no continente.
    O conjunto global definido na Ilha do Pico foi classificado na lista WHC:

    ... e dadas as fotos que vi, devo dizer que me impressionam mais os "degraus da Maia".
    No entanto, olhando por dentro o documento de candidatura (muito bem feito), encontramos já algo mais interessante, vemos a extensão de pedra que constituem aquelas construções quadriculadas:

    E não deixamos de fazer notar um pormenor, que aparece na página 81. Realçando os trabalhos de alvernaria em basalto, encontram-se estas inscrições:
    Ora, no contexto da história conhecida da Ilha do Pico, o ANO 682, apenas se poderá referir a 1682, e na pedra seguinte aparece "I682Z", não podendo ser 16822... parece insistir no "fazer 682".
    Como já se sugeriu que os Açores fossem as romanas ilhas Cassetérides, e dada o achado de moedas fenícias nas ilhas açorianas, não é de excluir que as ilhas fossem habitadas mesmo em 682 por população lusitana-sueva.

    Regressando aos "Degraus da Maia", é bem sabido que nas antigas representações de portulanos apareciam as misteriosas ilhas Brasil, Maida, e outras. 
    - A semelhança de Maida com o nome Maia é evidente, e podemos conjecturar que inicialmente se possa ter referido à Ilha de Santa Maria, atendendo a que mantém uma região com o nome Maia. Poderia referir-se até ao conjunto São Miguel e Santa Maria, pois por vezes fala-se em duas Maidas.
    - No artigo que citei sobre a Ilha Brasil, aparece uma outra associação interessante, que é existir ainda um Monte Brasil em Angra do Heroísmo, e portanto a "Terceira" teria perdido o nome original para uma enumeração "Terceira". Brasil vem ainda de "brasa", podendo referir-se à actividade vulcânica, ainda presente no Faial. 

    De qualquer forma, essas ilhas "fantásticas" foram aparecendo em mapas até mesmo ao início do Séc. XX, numa altura em que as navegações transatlânticas eram muito frequentes, levando um sem número de imigrantes para os EUA. Por isso, não é de excluir por completo que tais formações não existam mesmo... se atendermos à quantidade de segredinhos que permanecem, nada mais fácil que não mencionar ilhas que não estão nas rotas autorizadas aos navios. Não é muito provável, mas não é impossível.

    Conforme referi aqui, ainda que originalmente se possam ter referido a ilhas existentes, as designações Maidas, Brasil, Verde, etc... passaram a servir muito mais como codificações de terras desconhecidas, apontando nos mapas pontos de referência para direcções de navegação, e não propriamente ilhas verdadeiras.

    É claro que Madeira e Açores devem ter sido navegados e talvez povoados mesmo na Antiguidade. Da mesma forma que os polinésios navegaram pelo Pacífico, estabelecendo-se nas mais variadas e dispersas ilhas, os europeus tinham maior capacidade de o fazer no mais pequeno Atlântico. Há uma questão de bom senso que se sobrepõe às outras considerações documentais de propositada ocultação. A tentativa de ocultação no caso das Canárias levou à dizimação dos Guanches, povo que habitava as Canárias, à altura de invasão espanhola - uma assinatura de holocausto que depois se veio a repetir com Aztecas e Incas.

    Acresce que os portugueses terão sido apenas os que se estabeleceram definitivamente nas ilhas, mas restam nomes que indicam outras proveniências, é o caso da zona da Bretanha, na Ilha de São Miguel. O sotaque carregado típico dessa ilha será talvez pronúncia estrangeira ou deslocada da nossa língua. Nas restantes ilhas dos Açores isso não ocorre.
    As investigações recentes nos Açores da APIA (que aqui falámos), tiveram uma resposta oficiosa por parte de Francisco Maduro Dias, presidente do Instituto Histórico da Terceira, que identificou as construções como obras militares dos Séc. XVI ou XVII. E, como é sabido, estes processos entram facilmente em controvérsia académica, a menos que as provas apresentadas tornem evidente a origem. 
    Assim, mais do que qualquer outra prova, aquilo que favorece a tese de pré-ocupação das ilhas da Macaronésia é a sua probabilidade elevada no contexto de navegações de povos marítimos, gregos, fenícios, ou romanos, e o contraponto com a colonização polinésia ocorrida no Pacífico.

    quinta-feira, 11 de outubro de 2012

    Djulirri - caverna aboriginal

    ... e se, de repente, se encontrasse no meio de inscrições pré-históricas, desenhos de barcos, aviões e outros artefactos modernos?
    Foi o que aconteceu em nas cavernas de Djulirri em Arnhem Land (Australia). As pinturas aborígenes continham várias camadas, e apareciam bem desenhados, navios, cruzadores, aviões, e outras novidades típicas do início do Séc. XX.
    Daryl Guse apresenta as inscrições aborígenes "mais recentes".

    Coloco aqui os links para os textos na imprensa australiana (2008):

    e vídeos associados:

    De acordo com Paul Taçon, um dos arqueólogos que exploraram o local, tratar-se-ia de uma caverna que servia de "santuário histórico", apresentando ilustrações significativas de contactos marítimos, ao longo dos últimos séculos, que se sobrepunham a muitas outras camadas mais antigas, estimadas até 15 000 anos. 
    Em particular, Taçon afirma que os contactos marítimos com o Sudoeste Asiático seriam anteriores à chegada dos Europeus. Um dos barcos europeus está numa camada antiga, e o desenho terá sido considerado anterior a 1650, por datação carbono-14 dos restos de uma serpente que estava em camada superior.  
    O sítio tinha sido já revelado nos anos 1970, mas ter-se-à perdido a localização até à nova expedição recente de Guse... por vezes perdem-se localizações, mesmo em tempos recentes.

    As inscrições mais recentes, que mostram a maquinaria estrangeira do início do Séc. XX, foram feitas a giz, um mesmo giz que noutros pontos mantinha o traço abstracto, algo infantil, nas representações humanas. Taçon refere, algo surpreendido, que o local estava a 12 Km do mar, e seria uma proeza recordar em detalhe as imagens para os desenhos de tal precisão. Eu acho que bastaria que as figuras fossem copiadas de uma revista, de um livro, ou de fotografias... que já existiam à época. Os desenhos recentes mostram um conhecimento de perspectiva e realismo que está ausente das outras inscrições, que são muito mais pictóricas.

    O sítio é de facto notável, e único, ao combinar todo um registo histórico milenar. Não conheço outros locais que inscrevam informação ao longo de milhares de anos. Curiosamente, a sua protecção acabará por estragar esse carácter único... ou seja, a história deixará de ser registada naquele local. A partir daqui, toda a nova inscrição é natural que seja reprimida.
    O local mostra ainda que os aborígenes guardavam-se no interior, mas tinham contactos e informações costeiras. Aquilo que foi mostrado não revela contactos marítimos muito anteriores aos Europeus, não provocando embaraços históricos... ou seja, não vemos nenhum desenho de nenhum trirreme romano!
    Também as datações parecem não ofender muito os registos oficiais, e os contactos anteriores com o Sudoeste Asiático não constituem propriamente nenhuma surpresa. Seria comprometedor se as datações revelassem pinturas de navios com milhares de anos, mas assim o local aparece apenas como interessante.

    E, assim por acaso, num outro artigo, no "The Independent" (11/6/2011), em que Taçon fala genericamente do perigo de se perderem as gravações indígenas, vemos ilustrada esta singela caravela:

    É pena que não tenhamos o comentário vídeo de Taçon ou de Guse sobre este desenho... que não aparece nos outros documentários. Será uma caravela moderna, inglesa? Ou será uma prova de que as nossas caravelas do Séc. XV andaram por ali? 
    Dito isto, já não me pronuncio sobre os trirremes...