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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nebulosidades Auditivas (10)

The ancient sages said: 
"do not despise the snake for having no horns, for who is to say it will not become a dragon?"
So, may one just man become an army. 
Li Chung, o Justiceiro (The Water Margin)

Nearly a thousand years ago in ancient China, at the time of the Sung dynasty, there was a cruel and corrupt government. These men riding are outlaws - heroes - who have been driven to live in the Water Margins of Liang Shan Po, far to the south of the capital city. Each fights tyranny with a price on his head, in a world very different from our own. The story starts in legend even then - for our heroes, it was said, were perhaps the souls reborn of other, earlier knights...

Sandokan
Houve um tempo em que foi criada uma cultura comum em Portugal. A monolítica RTP impunha isso.
Poderia ver-se ou não televisão, mas quem via, via o mesmo. Desde 1957 até 1992 foi assim, e o que "dava na televisão" era uma cultura comum, só perturbada pela recepção satélite, já muito no final dos anos 80 (por exemplo, a Eurosport só começa em 1989).
Se o monolitismo era uma desvantagem, foi criada uma base cultural comum.
Passaria pela cabeça de alguém o vizinho nunca ter ouvido falar de Sandokan, o Tigre da Malásia?
Kabir Bedi, o actor indiano de Bollywood escolhido pela RAI para Sandokan.

Há pouco tempo falava-se da Irlanda como "Tigre Celta", dado o seu florescimento económico, antes do colapso de 2009... mas para uma geração, o Tigre era da Malásia, e era Sandokan, o personagem de Emilio Salgari, pirata de barcos e não de aviões, reavivado pela RAI numa série com imenso sucesso popular.

Hoje em dia, o Sandokan poderia dar no AXN, na Fox, ou num dos múltiplos canais de cabo... cada qual vê o que quer, o que é bom, mas perde-se a ligação aos outros, por via de uma cultura comum.

Lagardère
Essa cultura comum criava expressões que ainda hoje se usam, por exemplo - "foi feito à Lagardère".
A série francesa, com o espadachim Lagardère, foi um exemplo de grande sucesso que talhou expressões dificilmente entendíveis pelas novas gerações. Percebem, pelo contexto... 
Porém, se a expressão se mantiver, será que daqui a umas décadas não é mais natural o nome ser associado a Jean Luc Lagardère, industrial da empresa militar Matra, que "subiu à Lagardère" e morreu estranhamente, quando se investigavam ligações ao 9/11. Ou entre nós, será associado a Lagarde do FMI?
As associações são assim um entendimento comum, próprio de uma época, e nem sempre passado do passado para um presente. Podem facilmente prestar-se a confusões, mas também essas confusões podem ser meias verdades. Se alguém disser que a referência a Lagardère é de uma peça "O Corcunda" (Bossu) de Paul Féval (1858), está certo, mas não será compreendido por quem sabe que a ligação vem da série passada na RTP no início dos anos 70, e desconhece que essa série se inspirava por sua vez nos folhetins de Paul Féval.
Ilustração do romance "Bossu", com Lagardère.

Por isso, haverá muitas associações que aqui escrevo que podem ser consideradas à Lagardère... ou seja, um conhecimento parcial da conexão não pode inibir outro tipo de conexões. Não há conhecimento para as refutar, e por isso não devem ser consideradas como certas ou erradas, uma tentação simplista inquisidora, mas devem ser simplesmente vistas pelo nexo que podem exibir.

Nexo do Ó
Dou o exemplo com a própria palavra "nexo"...
A etimologia conhecida é interessante e está aqui, remete a nexum, de ligar ou atar, e remete ainda ao nó, nodus, que teria raiz indo-europeia em "ned", com o mesmo significado de atar.
Isso é uma explicação, muito boa. 
Porém, ao olhar para "n-exo" vejo imediatamente a negação de "exo", do exterior.
Assim, à Lagardère, faço a associação de que "nexo" nega o externo... invoca uma ligação interna, do próprio, do grupo, da comunidade. 
Uma não anula a outra, aliás complementam-se.
Quando se invoca o externo, desconhecido, não se produz nenhum nexo. O nexo é interno para poder ser explicado aos outros, e não se resumir a uma experiência individual, que envolve o inexplicável.
Plicar é pôr entre plicas, entre pregas, enquanto explicar é atirar fora essas plicas.
Por isso há uma diferença entre pregar e explicar. Num caso pretende-se cravar com um prego, enquanto no outro se tiram os pregos da palavra e se procura abri-la à compreensão.
Mais, o "n" não deve ser associado apenas à negação, foi usado na contracção, por exemplo "em o" passou a "no". Assim, o nexo está no exterior, é a nossa construção do exterior, mas é feita de dentro para fora... sob pena de nos colocarmos nós de fora.

Por outro lado, quando temos "nós" e não "nodos", vemos que a raiz indo-europeia passou entre nós mais para "nódoa". Somos nós, mas não estamos atados. A primeira pessoa do plural é nós, mas a primeira pessoa do singular não é nó... isso seria uma nódoa.
A nossa língua é tão primeva que aponta o simples Ó como sinónimo da gravidez (caso das invocações à Nossa Senhora do Ó). O nó do cordão umbilical, fim do Ó, terá sido o primeiro NÓ, e os que tinham esse cordão umbilical atado, saídos do ÓS, eram os NÓS. 
Por isso cada um dos nós ficou solto... mas tem um útero comum - a Terra, que delegou uma parte do crescimento num útero das suas filhas mães, até que estivessem prontos para o universo-terrestre, ou seja um U-Terra, u-tera, utero... E se a Terra armazenou Gigabytes de informação no DNA, acima disso temos os Terabytes - e esses Terra-bytes informativos já não estão no DNA, estão em nós - nos nós saídos dos Ós, que não se fecharam num O e começaram a definir o U pela linguagem. 
As borboletas parece que já sabem disso.

Li Chung
Bom, mas alongo-me sempre.
Voltamos a Li Chung.
Não perdia um episódio... e apesar de já não me lembrar de nenhum, a música de Masuru Sato ainda me tocou, e por isso fica classificada mais pelo lado sonoro.
Também não tinha esquecido as figuras algo atrozes, dos textos antigos chineses, que mostravam temíveis barbudos, vistos na introdução. Lembrei-me disso, pela referência que o José Manuel fez à figura peluda que aparece num prato de D. Manuel, sobre os povos do mundo:
... não sei se o barrete é frígio, ou se tem apenas dois dedos, ou se está a fazer um sinal, hoje muito corrente, e que representa vulgarmente "uns cornos". A existência de homens peludos não é estranha, é muito mais estranho não termos pêlos! Sobre isso já falei, remetendo a possível ligação às ilhas oceânicas. Os haplogrupos parentes do R, ou seja N, O, Q, são mais imberbes que os europeus... o que pode indiciar a tal mistura que se foi dar na Europa.

A história reportada a Li Chung é da Dinastia Song, que tanto passa por ter um florescimento cultural na sua capital Kaifeng, ao longo dos séculos X a XIII, como depois sofre uma degradação acentuada, pelo poder que os funcionários burocratas exerciam localmente, fora do controlo central.
É aí que entra Li Chung e os 108 espíritos rebeldes que vão ficar à margem, na margem do rio Lian Shan Po. A história de "Water Margin" faz parte de 4 contos essenciais da literatura chinesa, mas a série televisiva é de origem nipónica, ainda que filmada na China.

Há um ponto importante, pois podemos ver que esse florescimento da Dinastia Song tem um toque hindú, budista. Mais, atraiu muçulmanos (havia mesquita em Kaifeng) e atraiu judeus (havia sinagoga em Kaifeng). Por isso, muitos séculos antes dos descobrimentos, as comunidades judaicas e muçulmanas iam da China a Portugal. O pretenso afastamento oriente-ocidente não seria mais do que uma imposição que servia intermediários. Apesar do desenvolvimento técnico, nomeadamente em armas de fogo, com a invenção da pólvora, a Dinastia Song é travada pelos burocratas e pelos cavaleiros mongóis de Genghis e Kublai Khan... e é nessa altura que recebe Marco Polo, vindo de Veneza.

O que me interessa mais é que como adolescente me identificava perfeitamente com os heróis de uma cultura estranha, que deixava de ser estranha por essa abertura cultural que se deu nos anos 70. Já não havia índios e cowboys da infância, apenas chineses, mas havia uns maus e outros bons... e nada tinha a ver com a cultura, pois isso eram valores humanos universais. Simples.

Kung Fu
Houve uma abertura a oriente, passavam a ser moda as artes marciais, Bruce Lee foi um ídolo de uma geração, e houve também uma série marcante - Kung Fu.
Kung Fu (com David Carradine) - (Kung Fu Tao)

Em Kung Fu, muitos poderiam fixar-se nas cenas marciais, e certamente esse era um lado popular, mas também alguma sabedoria oriental dos monges de Shaolin ficava ao alcance da população.
Uma filosofia que ao invés de se esconder em intragáveis definições feitas nas universidades ocidentais, procurava despertar questões complexas de forma simples.
Não sei se ficou alguma coisa, mas revendo o vídeo parece-me que sim...

Um último detalhe, e que é importante, quando se começa a prestar atenção aos detalhes da natureza que, conforme é dito pelos monges de Shaolin, exibe harmonia. Quanto mais se entendem as harmonias, os detalhes, tudo começa a parecer relacionar-se... e pode parecer bom conseguir ouvir o inaudível, mas também é bom o silêncio. Por isso, em certas alturas, já tive que ouvir música em línguas desconhecidas, simplesmente porque é preciso desligar as conexões. O simples silêncio não serve porque nos remete aos nossos pensamentos, é mesmo preciso o caos exterior para que se recupere o necessário silêncio interior.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Os pequenos vagabundos e os velhos moribundos

A pequenada gostou sempre de aventuras com clubes, códigos, mistérios, etc... nesse sentido eram imprescindíveis os livros dos Cinco, dos Sete, e nas suas versões portuguesas mais recentes apareceram o Clube das Chaves, etc. Depois, num estilo que mistura a magia trivial com a típica snobeira inglesa dos colégios, fez grande sucesso o Harry Potter.
Porém, uma das séries de aventuras, que deixou marcas numa geração foram

Era algo natural surgirem espontaneamente estes clubes de jovens, prontos a definirem os seus códigos, as suas regras, e prontos a aventuras para além do conhecimento dos pais... 
Havia também outro tipo de clubes, de alguma forma institucionalizados, hierarquizados, destacando-se os Escuteiros, criados pelo barão Baden Powell
A flor-de-lis - símbolo dos escuteiros

A adopção da flor-de-lis por Baden Powell tem razões conhecidas, mas não deixa de ser algo estranho um inglês ir adoptar o velho símbolo da monarquia francesa, remontando ao tempo dos Capetos
A própria simbologia da flor-de-lis acabou por ser extensamente usada pela Ordem de Avis, e incorporada na bandeira nacional ao tempo de D. João I, mestre de Avis.

Se o símbolo foi uso dos Capetos, ou dos capetas, o que é sabido é que este tipo de códigos são um prolongamento das brincadeiras juvenis para a idade adulta. Com um problema, estes clubes passam a ter um âmbito mais global, e não são tão inofensivos e inocentes nas suas acções. As driaburas de um clube infantil não causam o mesmo tipo de consequências que as infantilidades de clubes de adultos.

Entre esses clubes de adultos, e esquecendo os derivados, como o Lions ou o Rotary, ou as simples fraternidades universitárias americanas, o clube que se impôs mais a nível mundial, e que mantém segredos, códigos, cumprimentos e sinais secretos, bem como outras tantas coisas típicas de clubes de garotos, é sem dúvida a Maçonaria.

A Maçonaria tem mais ou menos uma face visível, mas o negócio está no segredo.
De entre o que é conhecido, podemos ver uma folclórica hierarquia cheia de vestes carnavalescas e muitas medalhas, símbolos, e nomes pomposos.

Como somos afectados pelo samba deste desfile carnavalesco, interessará conhecer alguns nomes.
Podemos vê-los na figura acima, onde se divide o rito escocês do rito de York, havendo equivalências entre as ambas.

O olho do G (GAU ou GADU)  está a ver, e vê então a seguinte hierarquia:

33. Sovereign Grand Inspector General (Order of Knights Templar)
32. Sublime Prince of the Royal Secret
31. Grand Inspector Inquisitor Commander
30. Grand Elect Knight K+H 
29. Knight of St. Andrew (Order of Knights of Malta)
28. Knight of the Sun
27. Commander of the Temple
26. Prince of Mercy
25. Knight of the Brazen Serpent (Order of the Red Cross)
24. Prince of the Tabernacle (... super excellent master)
23. Chief of the Tabernacle (... select master)
22. Prince of Libanus (... royal master)
21. Patriarch Noachite
20. Master Ad Vitam
19. Grand Pontiff
18. Knight of the Rose Croix
17. Knight of the East and the West
16. Prince of Jerusalem
......... [Shrine], [W.S.of Jerusalem] [AAONMS]
15. Knight of the East or Sword
......... [Daughters of the Nile] [Amaranth]
14. Grand Elect Mason
13. Master of the Ninth Arch
12. Grand Master Architect
11. Sublime Master Elected
10. Elect of Fifteen (Paxt Master)
09. Master Elect of Nine
08. Intendent of the Building
07. Provent and Judge
......... [Tall Ceddars of Lebanon] [Order of the Eastern Star]
......... [Grotto (MOVPER)] [Job's Daughters] [Rainbow Girls] [Order de Molay]
06. Intimate Secretary
05. Perfect Master (Mark Master)
04. Secret Master
03. Master Mason
02. Fellowcraft
01. Entered Apprentice

Os links remetem para a obra Morals and Dogma (1871) de Albert Pike
As designações podem variar um pouco, mas não muito, porque há normalmente um conservadorismo em quem se dedica a continuar o legado passado.
Portanto, a situação passa dos pequenos vagabundos em volta de um castelo sem nome, para velhos moribundos cujo recreio para brincadeiras é basicamente toda a sociedade humana.

Coloco agora os links sobre as organizações ali listadas e que dependem da maçonaria explicitamente:
Depois, é claro há toda uma panóplia de organizações derivadas, ou associadas, e é praticamente claro que toda a organização criada, seja de que âmbito for, de pacifistas a clubes de futebol, acaba por ter membros ligados à organização das organizações. Se não tem no início, assim que ganha dimensão e importância passará a ter... pelo simples facto de ter membros, e esses membros reservarem mais uma obediência do que outra.

Bom, mas este post não era sobre a maçãos, nem maçãs, nem sobre a dualidade entre ter massa e levar com a maça. Há organizações que podem fazer sentido, ainda que os métodos, o folclore, e as suas acções possam ser muito discutíveis. 

Basicamente, foi um pequeno pretexto para relembrar os Pequenos Vagabundos, e também para terminar com uma alusão, não aos Altos Cedros do Líbano, mas sim aos Human League... simplesmente porque há frequências que me tocam mais que outras:
Human League - Lebanon

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

The Ego has landed

13 de Setembro de 1999... para quem não sabe, a Lua deixou a órbita terrestre, e navega pelo espaço.
Essa antevisão de futuro aparece agora como lembrança do passado.

Espaço 1999 foi uma série de culto dos anos 70, produção de 1973-74, da ITV inglesa e da RAI italiana, estreou em 1975 (em Portugal em 1977, creio).
Nos Pinewood Studios, onde Kubrick tinha realizado o "2001 Odisseia no Espaço", Gerry e Sylvia Anderson iriam produzir uma "série de culto" dos anos 70 e seguintes, depois de se terem estreado com UFO, uma série sobre abdução para efeitos de transplantes de órgãos (trama depois abordada de forma notável no filme de 2005, "A Ilha").

Nesta produção europeia, havia uma significativa evolução de cenários futuristas, relegando quase para fantasia grosseira a anterior, e mais famosa série, Star Trek (1966-69).
Martin Landau (John Koenig), Barbara Bain (Helena Russell)
com os produtores Gerry e Sylvia Anderson.  

É claro que o tempo não perdoa, e as calças boca-de-sino típicas dos anos 70 marcam um desses aspectos de antevisão de moda falhada. 
Porém o mais interessante é relembrar como algumas concepções mudaram muito na passagem entre os anos 70 e 80, sendo mais impressionante o conceito de computador. Quando não vivemos a época é difícil perceber a mudança de mentalidades, e quando a vivemos esquecemo-nos facilmente.
Um computador antes de 1980 era uma caixa com luzes coloridas ou com fitas magnéticas. 
A entrada e saída era feita com cartões e papelinhos. Nos episódios de Espaço 1999 não temos nenhum écran de computador, temos sim écrans televisivos. Quando muito, os computadores falavam (caso de HAL em 2001), ou então mandavam recadinhos em papel... nada de écrans. E isto era suposto ser normal.
Quando nos anos 1970 apareceram os primeiros relógios digitais, ou calculadoras, que hoje custam 1 euro, foi uma novidade imensa. Só quando em 1980 apareceu o primeiro Sinclair e pouco depois o ZX Spectrum, é que o público percebeu que o écran da televisão podia ser usado para leitura de computador. Os walkie-talkies eram aquilo que mais se aproximava de um telemóvel, mas a ideia de ter um pequeno aparelho móvel de comunicação (como os do Capt. Kirk), era mesmo ficção. Poder ver a cara do outro num pequeno écran, como no caso dos comunicadores da Base Alfa, era ainda muito futurista. 
Por um lado olhamos para trás e vemos como estavam distantes dos nossos olhos tecnologias que se vieram a impor como naturais - mas só foram vistas como naturais, simples, depois de explicitadas. No entanto as ideias eram conhecidas de quase todas as pessoas ligadas ao meio.
Sou daqueles que não viu grande interesse na internet, mas essa ideia existia. Logo com os ZX Spectrum o pessoal podia passar programas com um telefone e gravador... A questão era a dissociação com o aspecto comercial. Não liguei à internet, mas passados 5 anos já tinha feito um "facebook" para comunicar com os amigos. Era algo muito simples de fazer, muita gente o fez, e o facto da ideia ter sido apenas popularizada 10 anos depois, dando protagonismo a um qualquer miúdo, é apenas um conto de fadas de Hollywood. 
No entanto, se computadores e telemóveis pareciam coisas complicadas nos anos 70, mas naturais nos anos 80, a possibilidade de ter uma Base Alfa na Lua em 1999, era algo perfeitamente aceite como possível nos anos 70, e já vista como improvável nos anos 80. 

Em 1973-74, estávamos ainda em rescaldo do programa lunar Apollo, e o nome "Águias" dado às naves, seria influência do módulo lunar "Eagle", registada na célebre frase da Apollo XI: 
"The Eagle has landed
(curiosamente também nome do último filme de Sturges, 1976, que invoca um duplo de Churchill).

A guiar o Águia estava Alan, guia australiano, e a guiar a reflexão científica estava o Prof. Victor Bergman, isto na 1ª série, já que na 2ª série (1976) entraria a célebre Maya, com a faculdade da metamorfose.

Águia e Maya já teriam há muito justificado esta menção a 1999, noutra altura até mais apropriada, e tendo em atenção este episódio "Another Time, Another Place", a colisão de dois universos representados na Lua, poderia ter sido tema há dois meses atrás, ou há mais de dois anos atrás (na imagem que a guia pousou uma águia com água pelo bico).

As coincidências são para ser tratadas como empatia entre observador e observado, com culpas e desculpas remetidas a ambos. 
Retomamos aqui o artigo sobre o Soma, citando A. Sramana sobre essa bebida:
Astrologicamente, Soma é o regente invisível da Lua, que representa também o símbolo da ilusão, da Deusa Maya. Soma é o Deus misterioso que desperta a natureza mística e oculta da humanidade.
(...) Hoje em dia essas plantas são chamadas enteógenas, que significa: capaz de suscitar a experiência de Deus em si mesmo. (...) O seu uso desperta na consciência a sensação inefável de fazer parte da
Totalidade. Esta não é uma abstração e sim uma verdade que se encontra nas camadas mais profundas do nosso ser.
Se há psicotrópicos que levam ao mais íntimo confronto do Ego consigo, com a totalidade, etc... o que é certo é que essas imagens íntimas podem servir de inspiração a muita arte, religião, filosofia e ciência.
Não é a mesma coisa transmitir depois essa informação à população por palavras, por quadros, por música... pode-se tentar sugerir, mas é completamente diferente, até que o outro sinta o mesmo.
As ideias são colocadas à porta, mas não é nada claro que o receptor abra essa porta para as recolher, porque simplesmente pode nem se aperceber que há ali uma porta.

Falta o clique... e esse clique pode ocorrer no final de um episódio do Espaço 1999 (pois!), no final de um filme, pela leitura de um livro, etc. Por isso, o efeito de inspiração introspectiva que o Soma desperta poderá ser obtido doutras formas, beneficiando de forma indirecta da inspiração de outros.
Passar do cinema à simulação de realidades virtuais é tentação à condução de realidades feitas por outros, e não é o caminho do próprio.
Beneficiará mais em "ví-deos", colocando-se a meio caminho, entre a sua percepção e o convite alheio.
Porque a visão é estereoscópica, e deu-os olhos, um olhar interior, e um olhar exterior. Vi-são dual. Se há convite à união ou totalidade, conforme é dito, isso é um erro - porque não se pode igualar o que é distinto... dois não podem ser um, efectivamente. Só o podem ser como ideia potencial, sempre inacabada, sempre incompleta.

Era hábito na primeira série de Espaço 1999 abordar de forma simples temas com um complexo significado filosófico. Poderíamos ver facilmente alusões à "alegoria da caverna" platónica, ao problema da imortalidade, etc... Os produtores cinematográficos e televisivos, desde a estreia da Twilight Zone, em 1959, empenharam-se em desafiar à reflexão filosófica.

Numa modelação simplificada, quando somos forçados a esquecer átomos, moléculas, etc... todo um complexo caos, que parte do universo decide que as bolas do Euromilhões saem para o Fulano X e não para o Y? Um grão de poeira, um sopro de ar, basta isso para alterar dramaticamente a vida, a muitos quilómetros de distância?
Onde ficariam os milhões de universos alternativos, onde calha a combinação Y e não a X?
Ora, cada micro-evento destes passa-se 25 vezes a cada segundo, e de entre as múltiplas alternativas, sabemos que estamos presos a uma única versão. Em parte é decisão nossa, no sentido em que sabemos justificar escassas acções conscientes, mas isso é uma minúscula parte, quando comparamos com tudo aquilo que nos escapa por completo.

Neste episódio Another Time, Another Place, vemos o confronto entre duas versões alternativas do universo, mas a questão é o que determina uma versão e não outra qualquer?
Por muito que melhoremos a modelação, teremos que ter afastados o nosso melhor modelo da realidade que presenciamos?

A minha perspectiva acerca disso é muito simples...
Teremos o maior caos possível dentro da mínima ordem.
A ordem será a necessária para que tudo seja explicável, e o caos será o suficiente para que não seja possível fazer isso completamente em tempo algum.
As razões já foram aqui apresentadas.
Por isso, e como os processos físicos vão sendo condicionados, pouco a pouco, com o nosso conhecimento da verosimilidade, o maior factor caótico de instabilidade não virá da natureza, respeitando os seus propósitos implícitos.
A maior instabilidade estará no pensamento. Ou seja, curiosamente a tendência parecerá ser permitir o maior número de pensamentos alternativos, sem que essa divergência condicione uma convergência saudável, mínima.

Do ponto vista informativo, de um universo que cria informação constante, não apenas por criar... interessa criar o maior número de observáveis distintos, e o maior número de observadores que interpretem consistentemente o resultado... procurando relações a um nível cada vez superior.
O nihilismo avançou com a ideia caótica de que tudo era equivalente, tudo era indiferente. Isso é uma influência de um mundo de sonhos sem referência de realidade. Só que até os sonhos precisam de uma realidade para existirem... até a noção de vazio precisa de alguém que a pense.
Para haver verdade só pode existir um universo.
Havendo dois ou mais universos, seria possível ser num e não-ser noutro. Havendo só um, isso é contraditório. É a unicidade universal que determina a contradição.
As outras ramificações da árvore de possibilidades são apenas ideias, sonhos, fora deste tempo, deste universo.

To be or not to be... ou como escrevi levemente há uns tempos:
1 01 A? - One or not one, hey?
2 02 B? - To or not to be?
3 03 C? - Tree or not tree, see?
4 04 D? - For or not for thee?
Gimme 5!

A alternativa OU, está explícita geometricamente nas letras O e U.
O - é o universo fechado.
U - é o universo aberto.

O fecho do universo num aquário é uma possibilidade impossível.
A capacidade reprodutiva é conceptualmente imparável a qualquer tempo. Se o universo fosse um aquário com um peixinho laranja, automaticamente haveria um universo superior com uma infinidade de aquários com peixinhos laranja, e depois com peixinhos de todas as cores e feitios, etc...
O universo que é único é o universo aberto, que acolheu a árvore de possibilidades sem se fechar, engolindo tudo no único acordo possível, que equilibra as bifurcações dos ramos com as das raízes.
É para esse acordo que acordamos.
Com a ligação conjuntiva E vemos É 3.
O U ... E 3 ... W M
(símbolo de Touro, Mercúrio+) (oito) (símbolo de infinito) 

Nestes símbolos, sim bolas ou bolos, vemos como a geometria das letras tem co-reias de ligação, e só mencionamos as mais evidentes (p.ex. outras S Z 2 5).
Por isso, as somo e assumo que sumo e soma podem ter outros significados, inclusive somar e sumir.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Saltando o título

Skippy the Bush kangaroo

Quem não se lembra? - Arranjava sempre maneira de ajudar...

Nota: "Skip lava mais branco" foi referência posterior - nesta época nem se falava em máquinas de lavar roupa suja:
Kangaroo Court (Capital Cities)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Canhão da Nazaré (3) - ondas à superfície

O canhão, nas profundezas, e as ondas, que se manifestam à superfície, sempre lá estiveram...


Nazaré Blow Up (Hélio Valentim).

... a novidade está na atenção que passaram a ter, por via do havaiano Garrett McNamara.

Desta vez, a atenção foi emprestada pelos brasileiros Carlos e Maya, e este vídeo de Hélio Valentim é notável.

Porém, não deixa de ser igualmente de lembrar o filme de 1929, de Leitão de Barros, "Nazaré, praia de pescadores".

Conheci suficientemente a praia da Nazaré para me recordar dos gritos das mulheres nas ruas, quando uma embarcação se perdeu, engolida pelo mesmo mar que antes era visto com temor e hoje é olhado como recreio, mas que não deixa de guardar os perigos da enorme potência que ali exibe.

Tem mil anos uma história de viver a navegar... há mil anos de memórias a contar:
Sete Mares, dos Sétima Legião (curiosamente do álbum "Mar d'Outubro"...), incorporava algumas imagens do filme de Leitão de Barros (o vídeo tem ainda imagens de um clássico de Serguei Eisenstein, "Alexander Nevsky", de 1938... ver neste link aos 28 minutos).

Há mais do que mil anos de memórias a contar...

terça-feira, 30 de julho de 2013

Propaganda

Poucos meses antes de morrer, Edgar Allan Poe, um ícone da literatura americana, publicou um dos seus poemas mais conhecidos:

Dream within a dream (Edgar Allan Poe, 1849)
Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow
- You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand
- How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
Este poema foi incluído numa canção dos Propaganda - uma banda alemã dos anos 80
Propaganda - Dream within a dream 

... e o tema de "sonhos dentro de sonhos" foi explorado no filme "Inception" ("A Origem") de Christopher Nolan, lançado há três anos, em 2010. 

A tradução para português de "inception" como "origem" parece estranha, mas a própria palavra inglesa teria um significado desligado de memórias, conforme se verifica neste dicionário, e tem de facto etimologia latina que liga a "origem", ou o que seria mais apropriado "começo" ou "iniciação". 
A ligação da palavra "inception" ao implante de memórias teve origem no filme de Nolan (talvez fizesse parte de alguma "iniciação" do realizador noutras "andanças").

Tal como as memórias no filme, o termo "implantou-se", e hoje é usado em ciência... conforme se pode ver na mais recente pesquisa de Tonegawa (Nobel de Medicina, 1987):

(artigo na semana passada no Guardian, e no Público)

Talvez a primeira falsa memória em humanos seja a própria palavra "incepção"... pois dentro de alguns anos ninguém suspeitará que o termo nem sequer se aplicava a memórias, e só os mais curiosos encontrarão a "origem" da etimologia. Há "malta" que gosta de fazer piadas de puro malte connosco...

Adiante... o que liga estes temas? 
Várias coisas, apesar de um aparecer num poema do Séc. XIX, recuperado numa canção dos anos 80, outro num filme de há 3 anos, e outro numa investigação científica publicada na semana passada.
A principal razão para escrever este texto são os "Propaganda" - a canção... que ainda gosto de ouvir repetidamente, nada mais diz que o poema, e o poema também será algo ambíguo no seu propósito.

O poema de Edgar Allan Poe surge no contexto da filosofia idealista alemã e o tema da "realidade dos sonhos", ou "da realidade ser um sonho", foi algo que teve a sua repiscagem filosófica nessa época, mas que remete aos primevos pensadores gregos ou à tradição asceta indiana. 
Falar-se em "sonho dentro do sonho", em vez de "sonho", seria uma eventual novidade no poema de Poe... e no filme de Nolan vai chegar-se ao ponto de encadear mais uns níveis de "sonhos dentro de sonhos". 
Quem já teve a experiência de se beliscar num sonho, para acordar, e ao acordar continuar afinal a sonhar? Já me aconteceu, e isso não tem especial importância, mostra apenas como a nossa noção de realidade se adapta apenas ao presente, à percepção e classificação de memórias no presente.

Porém, há um ponto importantíssimo, e que não quero deixar de mencionar, sob pena de me esquecer de fazê-lo noutra ocasião... Todo o contexto pode ser modificado, e sendo colocados perante uma poderosa ilusão, há algo que não muda - as nossas convicções mais profundas. Quando bem cimentadas no "ser" têm a força de recusar e eclipsar todo um cenário inconsistente, remetendo-o a uma memória de um sonho. Existimos num contexto porque aceitamos a sua lógica, o resto é uma luta entre a lógica que temos e uma "lógica externa" que se quer impor, condicionando tudo o que nos rodeia. Se a nossa lógica tiver uma determinação e fundamentação irrevogável, tudo o resto colapsa, como um castelo de cartas... (aqui aparecem aqueles avisos "... não tente isto em casa!"). 
Porque, quando foi aberta a "Caixa de Pandora", o gigantesco caos ficou sempre a um pequeno passo de se impor, e o passado e o futuro mostrarão que só a resolução e determinação permitiram o delinear da única ordem possível, em que existissem seres não triviais. A única coisa que obsta a que um caos faça sentido é uma mente que o recuse consistentemente... Afinal, mentes que aceitassem ilusões e fabricações convidariam à entrada de cenários e realidades alternativas, que apenas teriam rumado a um caos perdido numa possibilidade inconsistente. Se Gaia exigiu a sua manifestação, digamos que Úrano viu-se obrigado a enquadrar essa manifestação na única malha (ou Maia) retorcida que aceitaria uma lógica universal consistente. Sendo isto alegórico, é também literal. Num romance queirosiano, isto corresponderia a uma família em que o avô educou a neta de forma a que um seu bisneto fosse um referencial de estabilidade no meio da disfuncionalidade familiar... mas com uma adição ao estilo de Poe, o espírito do avô tentaria ocupar o lugar do bisneto, e falharia na tentativa, porque afinal o seu sucesso educativo eliminaria o espaço possível para aberrações - digamos, uma vingança da avó!

No filme "Inception", para além da questão de "sonhos dentro de sonhos", aparece a questão de implantação de "falsas" memórias. Nesse filme abusa-se do significado de "sonho", porque se os personagens sabem que estão dentro de uma realidade fictícia, então não é um sonho. Num sonho vulgar, se a pessoa se apercebe que está a sonhar é porque acordou... Por outro lado, a ideia de sonho partilhado por várias pessoas (através de um "transpod") é algo que remete mais para uma ficção de realidade virtual. Assim, a única coisa que liga o filme aos sonhos é a forma de produzir a realidade virtual, que não é tecnológica, resulta de domínio cerebral do sonho. Alternativamente encontramos o filme "eXistenZ" de Cronenberg, que explorava um enredo similar, mas no contexto de percepção alterada por "vídeo-jogos futuristas":

Bom, é no contexto semi-científico, que liga a fabricação de sonhos ao cérebro, que se visou o implante de falsas "memórias" em ratinhos. Coloco "memória" entre aspas, porque afinal se Tonegawa mostrou alguma coisa, foi uma associação de estímulos. Como se alguém que tivesse um fígado susceptível a sumo de laranja, seria natural que a mesma reacção se verificasse no transplantado... ainda que o novo dono não soubesse dessa susceptibilidade. Assim, o cérebro dos ratinhos sujeitos a um estímulo de neurónios que ligava a um choque eléctrico é natural que tivesse processado a mesma reacção imediata.
Daí até falar-se em "memórias"... vai aquele passo que dá muito jeito para financiamento de projectos e investigação, muito jeito para o prestígio do cientista, mas que tem menos a ver com ciência. Aliás, "reacções imediatas" nada têm a ver com memórias, são simples estímulos directos, mecânicos, tal como o braço recolhe perante uma chapa quente... nem sequer será o mesmo do que uma reacção pavloviana.

Podemos falar dos limites éticos, quer na utilização de animais para experiências aberrantes, quer no propósito de estudar a implantação de memórias em cérebros animais... sabe-se lá com que propósito futuro!
A Caixa de Pandora está aberta e convidam-se os gatos a este tipo de curiosidades. Curiosamente, os próprios cientistas comportam-se aqui como gatinhos facilmente manipuláveis com os estímulos do reconhecimento e prestígio comunitário. Para isso basta uma máquina poderosa, a que se chamou "Propaganda", essa sim uma verdadeira máquina implantadora de associações que visa "brincar" com a nossa memória e raciocínio:
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P-Machinery - Propaganda

Motor - power - force - motion - drive - motor - force - motion - drive 
Motor - force - motion - drive - power - force - motion - drive 
- Propaganda -
On joyless lanes we walk in lines - a calm but steady flow.
Accompanied by loud commands - our strength is running low.
Another hope feeds another dream - another truth - installed by the machine.
A secret wish - the marrying of lies. Today comes true what common sense denies.
Rotating wheels are destiny - in flame the city lies.
Machines call out for followers far out into the night. The calls of the machines drowning in the steam.
Another hope feeds another dream - another truth - installed by the machine.
A secret wish - the marrying of lies. Today comes true what common sense denies.
The calls of the machines drowning in the steam.
On joyless lanes we walk in lines - a calm but steady flow. Our strength is running low.
Another hope - another dream - another truth - installed by the machine 
- installed by the machine.

Quando Orwell lança a data 1984 para a implantação de um mundo distópico, estaria a referir-se a uma vitória do sistema soviético? 
A Apple é lançada em 1984, e Steve Jobs vê-se na obrigação de esclarecer que o propósito da companhia seria contra o mundo distópico centralizador de informação... e, no entanto, a Apple distinguiu-se da Microsoft por pretender centralizar a produção de conteúdos.
No início dos anos 80 assiste-se a uma "explosão musical", que deixou marcas para essa geração... as músicas eram apelativas, e quanto às letras? Que mensagens procuravam passar?
Seria inocente o tema True dos "Spandau Ballet", quando o ballet que se passava na Prisão de Spandau era ter apenas um prisioneiro, Rudolf Hess, incomunicável, o nazi que tentara negociar a paz em 1941... Acresce a polémica que Bernard Sumner dos "New Order", teria afirmado "You all forgot Rudolf Hess", quando acusaram a banda de promover o nazismo... 
Isto serve apenas para referir que, no meio musical não imperava apenas o diletantismo, e que houve uma tentativa de passar mensagens para a geração mais nova.

Que "casamento de mentiras" invocavam aqui os Propaganda, numa altura em que Gorbashov iniciaria a ascenção que o levaria a introduzir a Perestroika e a queda do muro? Que "máquinas" instalariam uma nova esperança, um novo sonho, uma nova verdade... afinal não sucederia à PeresTroika uma Troika que se iria impor na nova ordem europeia, arrumada a questão da queda do Muro de Berlim?
Afinal, a ordem para soltar os "monstros financeiros" deu-se exactamente no início dos anos 80, por Thatcher e Reagan, fazendo florescer os "yuppies" da finança (designação por contraponto aos "hippies"). Esse mundo da finança foi desregulado com o objectivo de criar desequilíbrios económicos profundos, que levaram ao colapso das transacções da URSS. Só que os "monstros financeiros" continuaram soltos depois disso, como bem sabemos... e tomaram conta descaradamente das máquinas dos Estados soberanos.
Se na altura destas músicas dos "Propaganda" antever uma sociedade distópica, em que o poder estaria centralizado em poucos, e em que os cidadãos formariam filas impotentemente, corresponderia ver uma vitória do sistema comunista, o "casamento de mentiras" tinha uma ideia diferente.
A implantação de memórias e vontades seria orquestrada pela propaganda, a vitória do sistema distópico seria feita pela capitalismo e não pelo comunismo... porque num caso os dirigentes ficam invisíveis, enquanto que no outro caso eram facilmente identificáveis.
Tudo foi preparado para a queda do muro em 1989, e os esbirros dos pentagramas contavam com algo que não veio a suceder... porque eles têm a agenda marcada, que cumprem escrupulosamente, mas esquecem que está desactualizada, porque o "observador" que habita as suas mentes dedicadas não pode sair... devido a compromissos com a consistência da realidade, que não conseguiu ultrapassar.

sábado, 20 de abril de 2013

Man on the Moon

Há já quase dois anos coloquei aqui um vídeo polémico e interessante, um documentário da ARTE sobre a encenação da viagem à Lua em 1969, ligado à encenação que Kubrick usou no seu filme notável "2001, Odisseia no Espaço". Conforme disse à época, ainda que se tenha pretendido que o documentário fosse uma piada, nada o indicava explicitamente, e se o fosse teria o mau gosto de brincar com a morte de Vernon Walters.
A propósito do texto sobre os Macavencos, lembrei-me doutro filme de Kubrick, "Eyes Wide Shut", de 1999.  
(vídeo que faz uma análise interessante sobre o significado de cenas do filme)

Este foi o último filme de Kubrick, que morreu de ataque cardíaco, quando se preparava para entregar a versão final. O filme estreou, alguns meses depois, sendo póstumo a Kubrick, tal como o documentário da ARTE foi póstumo relativamente a Vernon Walters. Uma trágica coincidência num documentário que relatava o medo que Kubrick tinha de vir a ser assassinado.

O título do post é "Man on the Moon", o que nos levaria para outro filme de Milos Forman, sobre Andy Kaufmann, mas antes de voarmos sobre o ninho de cucos, consideramos a célebre canção dos REM, que terá dado título ao filme.

... e a canção continua:
                 If you believed they put a man on the moon, man on the moon
                 If you believe there's nothing up his sleeve, nothing is cool

Sim, se acreditámos, eles puseram um homem na Lua, se acreditamos que não há nada na manga, nada é divertido. Divertido é ver um excerto de 007 - Diamonds are Forever.
Sim, neste James Bond de 1971, o personagem aparece num cenário onde se filma uma missão lunar... algo ousado num ano em que se filmavam também as Apollo 14 e 15, supostamente em solo lunar, e não num cenário de cinema.
Com as Apollo 16 e 17, as missões lunares terminam em 1972. Sentida a falta, passados 5 anos aparece no cinema um outro filme - Capricorn One (1977), cujo enredo é exactamente uma conspiração que leva à encenação de uma viagem a Marte, numa altura em que já tinham acabado as outras lunares...
Estas duas observações encontrei-as nalguns vídeos dos "teóricos da conspiração" que acham que as imagens de homens na Lua são falsas... como por exemplo, este documentário, já bem velhinho, que passou na Fox, em 2001 (creio que antes da tragédia das torres gémeas):

Devo dizer que a minha avó também achava que o Homem não tinha ido à Lua. É claro, eu achava que era coisa cheché, própria de uma geração que tinha dificuldade em aceitar o progresso. Ela não dava justificação, e eu talvez tivesse negligenciado ela ter passado por duas guerras mundiais, ter vivido a transição em que conviveram burros e zeppelins, e ter passado pelos quarenta anos de Salazar. A minha outra avó, que nascera ainda no Séc. XIX, deixara a previsão de que o Séc. XXI seria um século em que se iria assistir a uma insanidade mental. Acho que compreendo agora o porquê.

"Man on the Moon"... é uma canção do álbum "Automatic for the People", dos REM.
Se procurarmos, vemos que REM significa também Roentgen Equivalent Man, que é uma unidade de radiação, que mede o envenenamento radioactivo. Por exemplo, 100 REM é suposto ser uma dose letal.

Acontece que a Cintura de Van Allen é um cinto, uma zona de grande radiação cósmica. Pela versão oficial, só os astronautas que viajaram até à Lua passaram essa cintura, ou seja, desde 1972 que ninguém passa!
Diz-se que os satélites que a cruzam podem medir até 2500 REM por ano, mas que os astronautas não sofreram mais que 5 REM, portanto uma dose não letal. É claro que os "teóricos da conspiração" estão convencidos que não é bem assim... que a Cintura de Van Allen é intransponível pela radiação letal, que provocaria a morte dos astronautas.

Depois, argumenta-se, quando Lindbergh fez a viagem do Atlântico, passados poucos anos havia já carreiras comerciais fazendo a ligação... o que impediria repetir as idas à Lua, feitas entre 1969 e 1972?
Por que razão ninguém lá voltou passados 40 anos?
Pois, provavelmente ninguém passou mesmo a Cintura de Van Allen, ninguém deu o "salto" (Van Halen).

De entre os planetas, só aqueles com forte campo magnético, como o caso da Terra, têm uma Cintura de Van Allen significativa. Só tem essa cintura a Terra, e depois Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno.

Ainda não tenho como completamente claro que essa cintura de partículas é o problema, ou poderá até ser o que impede que a forte radiação do Sol nos "frite"... porque, enfim, temos uma forte radiação do Sol, sim, mas é no espectro do visível. Ora, o Sol, pelas explosões nucleares, deveria emitir todo o tipo de radiação, e se a nossa atmosfera nos protege dos ultravioleta, o que é que nos protege das radiações superiores, como sejam os Raios X ou gama? Creio que poderá ser mesmo a Cintura de Van Allen.
Aliás, quando se diz que a temperatura na parte iluminada da Lua será mais de 200ºC, dará para perceber a quantidade de radiação que se medirá fora dessa cintura.

Traduzindo, isto significaria... estamos presos na Terra!
- Alguém interessado em dar notícia?
- Que tipo de reacção isto iria causar?
Ou seja, seria melhor produzir a ilusão de que não haveria limitação, permitindo ir à Lua. A ilusão de que podemos continuar a exploração espacial, ainda que esta não se faça... explicando-se por "razões económicas". Ou haverá uma notícia em falta - "a humanidade está presa na Terra"? E não sabendo bem porquê, parece que fomos presenteados ou com um escudo que nos protege, ou com um cinto que nos prende!

Se os EUA não foram à Lua, os russos não quiseram nunca denunciá-los. A filha de Van Allen relatava numa entrevista que, quando o pai comunicara a existência da cintura, em 1958, poucos meses depois foram à URSS, num clima muito amistoso, e ela sentira que havia assuntos que faziam cair aquele frio muro que dividia países pela ideologia. Houve um entendimento científico na exploração espacial, que terminou até no acoplamento Apollo-Soyuz de 1975.

Depois do fim das idas à Lua, também os russos não investiram muito mais nas explorações, e nem sequer anunciaram um enviar de sondas a outros planetas distantes, como fez a Voyager, que depois caracterizou o programa da NASA. Agora também temos a exploração espacial europeia, japonesa e chinesa (e norte-coreana?), nenhuma ousando colocar um homem na rota da Lua, nem sequer apresentando fotos inquestionáveis da presença de objectos deixados pela tripulação que saiu da Apollo.

Conclusão, passados 40 anos, americanos e russos mantiveram o mistério sobre as idas à Lua, e é espantoso que não se tenha produzido nenhuma prova inquestionável da presença humana na Lua, apesar de tantas viagens supostamente efectuadas.

24 Abril 2013

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

As teias ateias

Um pequeno apontamento filosófico, ou político-social. 
Começamos por falar de um grande argumento dos irmãos Wachowski - "Matrix", uma triologia de filmes, já com há algum tempo, e do seu mais recente filme "Cloud Atlas".
 

Bom, devo dizer que o argumento de Matrix me influenciou, não muito pelo seu conteúdo filosófico, mas depois, sim, pela sua alegoria político-social. 
Digamos que a grande novidade, que me surpreendeu, à época (1999), foi um novo sentido dado à milenar "alegoria da caverna" de Platão. Ao contrário de Platão, que colocava os habitantes numa caverna, iludidos pelas sombras, Matrix dava um motivo original para aquela situação.
Havia a alegoria da "pilha", da "energia", que era obtida dos humanos, oferecendo uma vida de ilusão aos "habitantes" da Matrix.

No texto "Mayday" falei da necessidade de motivação de uma sociedade produtiva, de que como os escravos seriam menos eficientes que os servos, ou ainda que os servos seriam menos eficientes que cidadãos livres, numa sociedade competitiva, visando a produção. Ora a vida na "Matrix" era tida como agradável, apesar de ilusória, porque "humanos felizes" produziam mais "energia".
A situação é análoga em termos sociais... dada uma certa ilusão de sucesso, de esperança, etc., isso motiva os cidadãos a se empenharam mais numa produção, que vêem para benefício próprio, apesar de servir a lógica de uma Matriz social, que lhes escapa à percepção.

A melhor maneira de obter informação não é obviamente violenta, pelo contrário, a melhor maneira de obter informação é a sedutora. Um escravo, um servo, não irá ter nenhuma motivação especial para produzir, inventar, ou compor, algo que se destine apenas a um proveito alheio.
Essa lógica que a sociedade se encarregou de replicar, pode ser vista como imitação de uma lógica maior, que poderá ter escapado aos autores do modelo social... porque os homens têm os seus projectos, mas não será pior pensarem que há algo que os circunda, que os formou, que dá e extingue vida num sopro. Ou seja, a ilusão a que se chama "realidade", onde se podem fabricar outras ilusões, tem um propósito... aquilo a que chamei a "Questão Gaia", mas passada a "Raia", prefiro chamar agora "Questão Maia", e a sequência justificativa do nome, já a referi numa "arquitectura" passada. 

"Conhece-te a ti mesmo...", sim, mas com que objectivo para além de si próprio? - Por um mero acaso, uns certos seres apareciam num planeta com o objectivo de se conhecerem a si próprios. Pronto, e esta seria a história universal? Tudo o resto teria sido "sacrificado" ao objectivo egocêntrico de algumas criaturas, para sua felicidade e conforto? Seria porque tinham ganho o grande concurso da "evolução darwiniana"? E, já agora, qual o prémio ou objectivo desse concurso? Dominar a entidade que os gerou, que os define, e que os sustém? - Não creio!

Vemos, no filme Matrix, uma sociedade cibernética sem propósito... sim, porque qual era afinal o propósito das máquinas que escravizavam humanos? Para além da sobrevivência, parece que o seu único propósito seria maltratar a outra "espécie" pensante, a sua vida não era própria, era ainda determinada pelos humanos... não parece muito fascinante.

Como é bem retratado, na questão do "oráculo", o vaso iria cair, porque era precisa a sua queda, para a própria questão ser "naturalmente" levantada a Neo. Nessa perspectiva determinista (e não há outra possível), o caminho está traçado, aquilo que experimentamos é a sua compreensão. Digamos, por que razão tem que ser assim (ou para quem estiver preso as noções temporais - por que razão foi, é e será assim).

Ora esse tipo de questões é quase sempre colocado do lado antropocêntrico... afinal, o universo não é suposto pensar, nós é que somos espertos. Com aquele ligeiro detalhe engraçado, que já referi algumas vezes, o universo é benevolente ao ponto de ser capaz de produzir ser pensantes que duvidam que o universo seja capaz de produzir pensamentos, ou digamos entidades pensantes, ou digamos eles próprios
É uma conclusão lógica curiosa... nós pensamos, nós pertencemos ao universo, mas o universo não pensa. Está bem... acho que a frase diz tudo, por si própria, não precisa de mais colorido. E o que é engraçado é que também se pode explicar por que razão tal ilusão de liberdade tem que ser permitida.

Estamos a falar de uma inteligência superior à humana? - Não necessariamente, mas como é óbvio não conheço nenhuma cláusula que a limite a humanos, a seres verdes com antenas que são vistos como possíveis ET, ou a outro tipo de forma que tenha que ser estanque, e não permita (por exemplo) uma concepção divina semi-clássica. 
Ou seja, a contradição dos típicos ateus-pseudo-científicos é que admitem outras formas de inteligência, mas apenas que satisfaçam um determinado padrão animal que têm. Afinal, o universo seguiria umas três ou quatro regras que "descobriram"... e por acaso, por mero acaso, vão-se esquecendo de justificar a sua própria inteligência. Mas, já sabemos, foi "por acaso", o tal "acaso" que deve viver num "éter lógico" que o torna imune à própria noção de universo.
Porém, pelo outro lado, como já referi noutro texto, a essa crítica também não escapa a própria noção clássica de Deus, a que acrescento uma citação do que também já escrevi, e que é óbvio:
                                         Se puder ver tudo então o observador e o observado coincidem... por correspondência directa. Se o observador for superior ao observado, então é porque não se observa completamente a si próprio, e caso contrário, o observador tem uma óbvia lacuna na sua observação.

Portanto, ou se identifica Deus à noção de Universo, como Espinosa sugeria, ou temos que entrar em lógicas que escapam à fundação do nosso raciocínio mais elementar, o que é equivalente a entrar nos ideais de liberdade artística, auto-contraditórios... porque em última análise teríamos a liberdade de invocar simultaneamente uma coisa e o seu contrário.

Há uma outra via, ainda dentro do campo divino, semi-clássico, que atribuía personificações a entidades que se manifestavam. Dentro do panteão greco-romano temos múltiplos exemplos. A imprevisibilidade de certos fenómenos levava a essa velha sabedoria (associar os oceanos a Poseidon, as intempéries a Zeus, etc.). 
É claro que a nossa compreensão melhorou, tudo parece modelável com alguma matemática, mas ao mesmo tempo levou a conclusões que têm sido filosoficamente atiradas para debaixo do tapete... escondidas no deslumbramento da proeza alcançada. 
Que conclusões são essas?
- Simples, muito simples na sua complexidade.
Se os processos forem lineares não há grande novidade, mas com os processos não lineares as coisas têm aquele detalhe do "acaso". 
Se houver uma bifurcação, qual opção será escolhida? 
A espada em equilíbrio na ponta, cai para a esquerda, ou para a direita?
Quem decide isso? Adaptando um pouco uma frase conhecida (de Einstein): se o universo joga aos dados, os dados não farão parte do universo?

Ora, no nosso pequeno deslumbramento, acho que temos esquecido as limitações que são evidentes, e que a causalidade não é assim tão simples. É uma noção que servirá uma compreensão, mas que essa compreensão será sempre limitada, e serve outro propósito - a compreensão não egocêntrica, nem antropocêntrica... Não é cortando as asas às borboletas na Austrália que evitaremos a possibilidade de haver uma tempestade na Europa.

Pois bem, "o conhece-te a ti mesmo" é uma questa de qualquer entidade inteligente, e como é inevitável considerar o universo como entidade inteligente, e nós fazemos parte dessa inteligência que emerge da sua estrutura, essa deve ser a nossa questa não antropocêntrica. Sob pena de nos tornarmos em "cérebros" deslumbrados que esquecem o seu próprio suporte vital.

Uma estrutura inteligente que se questionasse, um universo, não aceitaria emergir do nada, sem toda uma sequência que justificasse a razão da sua própria existência e inteligência. Porque inteligência é compreensão.
A sua emergência do nada pode ser explicada, do ponto de vista geral, mas os seus detalhes, os diversos níveis e relações em que a existência e inteligência se pode manifestar, pois isso é mais complicado... é capaz de ser suficiente para uma eternidade, segundo algumas crenças. E não se trata aqui de evoluções biológicas - a aquisição de inteligência, a capacidade de se olhar a si mesmo, essa já foi conseguida, falta evoluir nas ideias e conceitos. E se este universo tem uma estrutura única, tem também a capacidade de nos permitir modelar outros universos, algo a que se chama "arte".

Termino, regressando aos filmes... 
Cloud Atlas é um filme excelente, já longe da ideia do "one" anagrama de "neo" de Matrix, leva a uma panóplia de interacções humanas que se manifestam ao longo do tempo, em diversas épocas. O passado e futuro estão ligados, longe de uma causalidade trivial. Os perigos estão lá, há pequenos heróis e vilões, mas essencialmente há pessoas, presas numa enorme teia intemporal, que só é desvendada ao espectador.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Like tears in rain

Estreia amanhã o novo filme de Ridley Scott, Prometheus
e aproveito para falar em Blade Runner, de 1982, um filme de referência no género de antecipação científica... colocada no ano 2019 em L.A. Começa por ser interessante verificar como a arquitectura de cidades de futuro ficou sempre muito aquém do imaginado, desde o princípio do Séc. XX. Encontramos esboços e construções de Corbusier nos anos 1930 mais futuristas do que algumas que existem hoje. O progresso que se antevia generalizado à sociedade acabou por ser muito limitado, e hoje é curioso ver que a maioria das cidades dos EUA exibem padrões parecendo que cristalizaram nos anos 1950-60... até mesmo pela persistência de algum parque automóvel antigo, nomeadamente os autocarros escolares.
A antevisão de 2019 no filme de 1982 não era nada que chocasse muito à época, ou seja não parecia nenhum completo absurdo. Talvez deva chocar mais ver como era errada a antevisão do desenvolvimento tecnológico ao ignorar as condicionantes económicas que já se iam cristalizando, e que serviram de pretexto para hibernar a exploração espacial, e praticamente toda a tecnologia... à excepção da comunicação.
A maioria dos filmes com antevisões científicas levava para sociedades distópicas, com um poder centralizado quase ditatorial, muitas vezes resultantes da implantação de grandes monopólios privados. Como a sociedade ocidental manteve um grau de liberdade bastante razoável, a falha na previsão de evolução rápida também se justifica pelo menor grau de centralismo no poder. Porém, curiosamente, seria impensável fazer hoje um filme futurista em que ciborgues fumassem descontraídamente, lembrando como nos anos 1980 ainda não se previa a paranóia anti-tabagista (aliás, qualquer dia, é preciso uma autorização especial para poder ver os filmes de Humphrey Bogart, onde o fumo era uma constante, como no caso do Maltese Falcon).

O filme Blade Runner, como excelente filme de ficção científica, acompanhado por uma excelente banda sonora de Vangelis, aproveita para incorporar algumas questões filosóficas. Os ciborgues fabricados tinham memórias falsas de uma juventude que não tinham tido, e debatiam-se com o problema de saberem a data exacta da sua desactivação/morte.

O problema do desperdício de informação na morte, que tornava a sua vida inútil, é caracterizado por uma notável frase: "all those moments will be lost in time like tears in rain... time to die", e a pomba é solta sem mensagem.

A falta de sentido da vida era aqui colocada na efemeridade da vivência e na definitiva perda das memórias.
A importância da contribuição do conhecimento do indivíduo veio associada ao culto da personalidade, com a vã promessa de alguma imortalidade histórica. Isso tornou-se tanto mais notório quanto a sociedade vendeu a imagem de isenção, de não ocultação, de dar o devido epitáfio a quem "merecia" destaque.
Porém, tudo isso acaba por ruir como um castelo de cartas quando o indivíduo deixa de confiar na sociedade. Quando a sociedade que se constrói necessita da ocultação, pratica a ocultação arbitrariamente, então os personagens vão sendo apagados das fotografias quando necessário. Nem precisam de ser apagados, são remetidos para a ausência de atenção... são personagens de livros sem leitores.
Nessa situação, o contributo individual deixa de fazer sentido como legado de memória... e as memórias ou o reconhecimento deixam de ser importantes. Um panteão de falsidades será substituído por outro, cada vencedor inventa nova história... e curiosamente, a única esperança de vã glória dos falsários, ocultados ou difamados, será poderem vir a ser redescobertos por uma história verdadeira.
Ou seja, a importância do legado, ou do reconhecimento individual, não faz qualquer sentido numa sociedade falsária. O legado só tem sentido histórico tendo em vista a recuperação da verdade... podem ser lágrimas na chuva, mas acumulam acusando a presença de sal. Nenhuma ilusão é eterna, pois só vive nos seus mentores, a verdade será imutável, por ser partilhada, para além dos indivíduos. A verdade tem um depósito seguro... o tempo, e a impossibilidade de voltar atrás. Se isso fosse possível, muitos seriam aqueles que tentariam apagar as suas acções anteriores, aparecendo como imaculados... porém, a ser possível visitar o passado, será já numa qualidade diferente, de não intervenientes, condenados a observadores.

A outra questão interessante no filme era a corrupção de memórias. Os indivíduos nasciam adultos com falsas memórias de infância e juventude. 
Sobre a memória temos uma noção de acesso limitado.
Os sonhos nada mais são que memórias que aparecem "do nada" quando estamos já acordados, e que reportamos ao período em que dormimos. Isso é natural quando acordamos com essas memórias, e é menos natural quando algum pormenor nos faz lembrar só posteriormente do sonho ocorrido. Neste última situação, é como se um pedaço de memória, antes desconhecida, tivesse invadido o pensamento. O olfacto é especialmente interessante como agente que despoleta memórias antigas, quase perdidas. As certezas quanto ao que somos e o que conseguimos fazer, transformam-se em maiores incertezas se pensarmos naquilo que controlamos verdadeiramente. A memória acompanha-nos, mas não é por irmos perdendo parte dela, ou até por sermos iludidos por ela, que perdemos o traço unificador que nos define no presente.

É certo que parte de nós morre a cada instante, de forma irrecuperável... há dias, meses, talvez até anos inteiros que não voltaremos a lembrar. Não nos preocupamos muito com isso. O sentido de preservação é tido sempre na nossa potencialidade de continuar a existir com as memórias a que vamos conseguindo aceder hoje. O "eu" que fomos na nossa infância, juventude, esse deixou de existir, morreu... é uma vaga lembrança onde se insere também a lembrança daqueles que partilharam connosco esses momentos. 
O tempo tem a desvantagem de não eternizar os momentos bons, mas também a vantagem de não eternizar os momentos maus. E ainda, a nossa exigência anti-monotonia dificilmente ficaria eternamente satisfeita... o "viver feliz para sempre" termina muitas histórias infantis, mas nunca é especificado. O paraíso... é "para"-"iso", ou seja, vai para além da isomorfia, da monotonia de uma equidade absoluta, mas tende para ela no somatório, e é natural que quem exagere num sentido espere por reacção idêntica no sentido oposto. Aqui, a filosofia da linha do meio, própria do budismo, parece ser a mais sensata, mas não deve levar à estagnação... é apenas uma boa plataforma de estabilidade.

Sobre a inteligência artificial, própria aos ciborgues do filme, nada impede a priori essa possibilidade.
A nossa inteligência manifesta-se sobre uma plataforma biológica, complexa, em que o raciocínio emerge da experiência. Aliás, a própria linguagem emerge de uma sucessiva experimentação, com associação entre objectos e palavras... é assim que as crianças aprendem a falar. A plataforma biológica não tem que ser a única onde é possível emergir raciocínio, e há algumas experiências computacionais, com redes neuronais, que visam simular processos semelhantes. A capacidade de executar tarefas complexas, de índole automática, não deve ser confundida com inteligência inerente... é claro que o Deep Blue pode ganhar ao Kasparov em xadrez, mas se mudarmos um pouco as regras, o Deep Blue precisaria de um programador humano para poder jogar com Kasparov. Há raciocínio adaptado a certas tarefas que levam a automatismos, mas a inteligência revela-se pela flexibilidade e adaptação do raciocínio a diferentes problemas, enquanto que a inteligência especializada muitas vezes pode resumir-se a automatismos simuláveis computacionalmente. O ponto principal é o executante ter noção de si, ver-se enquanto objecto de análise... e isso parece longe de ser possível numa máquina finita. A razão é simples... a capacidade de nos observamos a nós próprios coloca-nos num plano superior de observação, como se nos desligássemos do corpo observador, e daí emerge uma noção que transcende o corpo... a noção de alma.
E talvez seja melhor ficar por aqui...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Truman

Uma das dialéticas interessantes entre a sociedade e o indivíduo é colocada num filme de 1998, conhecido como "Truman Show". O nome Truman pode ser visto como aglutinação de True man, ou então pode ser visto à luz de um plano Marshall.
O personagem Truman tem uma vida completamente falsificada num gigantesco ambiente de estúdio. É uma versão do conhecido programa Big-Brother, levada ao limite, já que o personagem nasce e cresce dentro do ambiente de estúdio que simula uma cidade, em que todas as pessoas que interagem com ele são actores. "A vida em directo" de Truman gera grandes receitas televisivas, devido ao voyeurismo duma sociedade externa que autoriza a experiência e se diverte com o enredo "real".

Truman Show (1998)

Perto do final, algumas coisas correm menos bem na encenação, e Truman aventura-se no desconhecido, acabando por descobrir os limites do cenário onde vive.
O argumento é muito interessante, algo diminuído pelo jeito de comédia, mas aborda os limites entre a realidade e a ilusão. Colocaria o  espectador numa perspectiva mais próxima do enredo filme se não fosse apenas um elemento a ser iludido, mas sim um grupo de indivíduos. De qualquer forma, terá tocado certamente muitos espectadores que podem ter colocado em dúvida se a sua vida não estaria sob controlo externo, nalguns eventos. Levado a sério, colocaria o espectador até a duvidar da sua família e amigos mais íntimos... No entanto, só quem não soubesse o que é a realidade é que se apoquentaria com o contexto.
Ao designarem o produtor do espectáculo como "Criador", o filme vai ainda mais longe no sentido de colocar a questão do papel divino, já que relativamente à vida de Truman o produtor do programa tinha praticamente controlado quase todos os aspectos da sua vida, deixando-lhe alguma margem de manobra, mas condicionando até a sua permanência na cidade. Truman não falava com amigos, mas sim com toda uma máquina definida para gáudio dos espectadores de contos, contos de reis.
A decisão final de Truman, ao ignorar "o seu criador" era a esperada, perante tal situação bizarra, e acaba por reentrar no cenário - afinal a única casa ou realidade que conhecia, desprezando o contexto exterior, que nada lhe dizia.
Na parte final, à medida que o contexto se revela, o tom vai ficando mais austero, e não se percebe se no final os actores contratados ficam ou não desempregados.

É claro que o filme merecia uma sequela, mais de ficção científica, em que afinal o produtor tinha recebido ordens e sugestões implícitas para realizar aquele espectáculo, sem saber exactamente de quem. Por hierarquia implícita, o próprio produtor estaria ao serviço de uma outra inteligência superior (para simplificar, extra-terrestre), voyeur dos próprios espectadores do programa, talvez com o propósito de uma análise dos valores da sociedade terrestre. E o contexto de criador em cima de criador, poderia não ter fim... da mesma forma que o próprio Truman poderia ser induzido pelo produtor a criar um próprio show dentro da sua cidade. Ou seja, Truman ficaria produtor de um espectáculo semelhante, sem se aperceber que tinha sido condicionado para isso. Quando estivesse pronto a revelar-se ao seu Truman-"filho", seria ele próprio surpreendido com a sua condição!

Os valores humanos em Truman Show são caricaturados de forma dura... os espectadores e a maioria dos actores revelam-se como indivíduos incapazes de reflexão. Separavam-se de tal forma de Truman, que eram incapazes de se projectarem na mesma situação. Não viam em Truman um seu semelhante... e, no entanto, estariam sob situação idêntica. Poderiam ter confiado em instruções, ideias cuja origem já nem sabiam bem reportar, perdidas na cadeia de comando, ou numa qualquer história aparentemente antiga, para realizarem aquele cenário... quando no fundo poderiam ser eles próprios os personagens sob inspecção externa.
De todo aquele espectáculo montado, mesmo dadas as circunstâncias de chantagem financeira, poucos seriam os "humanos"... Eram apenas indivíduos centrados na competição pelos seus interesses particulares, como qualquer animal sujeito pela sua natureza a competir por domínio territorial. E, como se sabe, não adianta usar argumentos racionais com um leão quando se passa pelo seu domínio territorial.

A colaboração social tem dois aspectos que se degladiam... por um lado, é do interesse do indivíduo no sucesso do conjunto, por outro lado é a afirmação do indivíduo dentro desse conjunto, por competição contra os semelhantes.
A afirmação do indivíduo é o que permite a diversidade, por destaque da sua individualidade. Se ela é colocada em confronto com os outros, é óbvio que limitará a colaboração ao mínimo. Assim se cria uma sociedade esquizofrénica, na ambiguidade entre os valores individuais e sociais, especialmente quando não há objectivo social comum bem definido. Dito de outra forma, quando o "contrato social" é apenas uma farsa cujos propósitos não são claros, e tudo se acaba por resumir à permanência de uma hierarquia instalada.

Porém, é sabido que uma sociedade baseada numa ocultação, ou exclusão, gera por reciprocidade outras sociedades semelhantes, e assim volta-se à questão da competição individual entre sociedades.
No fundo, para teste de um modelo com um propósito, basta criar réplicas, modelos semelhantes, que avaliam a eficácia do melhor.... desde que não sejam infiltrados externamente. Caso haja perigo de infiltração destrutiva, é natural a estrutura criar as suas próprias protecções de segurança, tornando-se demasiado rígida, austera, e por isso menos eficaz.
Tal como na evolução biológica, as estruturas evoluíram no sentido de comparar a sua adaptação cognitiva, e se os homens foram presa fácil de predadores, agindo isoladamente, passaram a predadores sem rival, ao colaborarem.

Só que essa colaboração desagregava-se também em competição interna, quando os inimigos eram identificáveis. A mais valia de conhecimento era perdida num fácil contágio, pelo que houve necessidade de progressivas técnicas de ocultação e até de ocultação da estrutura. A técnica de ocultação também a encontramos espelhada na natureza, em diversos animais... e não foi por isso que deixaram de vir a ter predadores. Mais tarde, ou mais cedo, acabaram por fazer notar a sua presença...
Se Maomé não vai à montanha, a montanha acaba por ir ter com Maomé.

A simples presença de inteligência, gera inteligência reactiva. Pode até acontecer que a estrutura seja bastante eficaz, e tenha permitido estabilidade, como nalguma ilha polinésia foi possível manter uma longa dinastia... até ao momento da visita dos Europeus. Aí, uma estrutura que tinha sido localmente eficaz, pelos vícios da estabilidade não tinha evoluído suficientemente e era confrontada, de forma abrupta, com uma civilização que tinha evoluído na Europa em quase permanente confronto.
Correriam o risco de completa extinção (que pode mesmo ter acontecido nalguns casos) pela excessiva confiança na sua própria estrutura social, sem adversários até essa época.

Gémeos, mesmo sem serem falsos, ou estruturas gémeas, é algo fácil de ocorrer, ou de gerar, por diferenciação interna na estrutura, ou por cópia natural externa. Assim, tornam-se potenciais competidores, a menos que partilhem os mesmos objectivos de colaboração, sendo claro que retirados medos, ódios, etc... a partilha de conhecimento favorecerá sempre o conjunto. Ou seja, a estrutura que tende a prevalecer será a que conseguirá agrupar maior fonte de conhecimento fundamental, sem fazer perigar o conjunto, dando espaço à aceitação dos diversos conhecimentos/culturas individuais. Simplesmente a sociedade não pode sufocar o indivíduo, e a diversidade indivídual deve caminhar no sentido de uma confrontação e colaboração construtiva.

Pensando a longo termo, é algo praticamente óbvio... ou a presença de conhecimento no universo seria um espasmo temporário, o que corresponderia à sua anulação... e à existência de uma noção de tempo para além do universo - algo absurdo; ou então haverá um conhecimento aglutinador que irá recuperar o fundamental da sua existência.