domingo, 30 de setembro de 2018

Ode Maia

Há duzentos anos, no 1º de Maio de 1818, John Keats escreveu o poema "Ode to Maia", que fez parte deste blogue desde o início. "Baiae" refere-se a uma cidade afundada, a cidade de Baia, que mencionámos no texto CSI Gaiola.


Passados 8 anos, pareceu-me tempo de fazer uma adaptação/tradução do escrito.

Mãe de Hermes! e ainda jovial Maia!
Poderei cantar-te,
como foste cantada nas margens de Baia?
Ou poderei cortejar-te 
num luso siciliano? Ou, aos teus sorrisos,
procurá-los como foram procurados, em gregos frisos,
por bardos falecendo agradados ao belo escrito,
deixando grandes versos a um pequeno clã?
Oh, receba eu o antigo vigor! inaudito
Salvo do silêncio da prímula, do afã
celeste e sem ouvinte.
Rodeado por ti, a minha canção se desvaneceria,
satisfeita como sua seguinte,
rica na simples adoração do dia.


MOTHER of Hermes! and still youthful Maia!
May I sing to thee
As thou wast hymned on the shores of Baiae?
Or may I woo thee
In earlier Sicilian? or thy smiles
Seek as they once were sought, in Grecian isles,
By bards who died content on pleasant sward,
Leaving great verse unto a little clan?
O give me their old vigour! and unheard
Save of the quiet primrose, and the span
Of heaven, and few ears,
Rounded by thee, my song should die away
Content as theirs,
Rich in the simple worship of a day.



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

No olho do furacão americano

Um ciclone, furacão, ou tufão, são exactamente a mesma coisa com nomes diferentes.
Antigamente designavam-se por furacões os que atingiam a América, e por tufões os que atingiam a Ásia. Na metereologia ninguém dizia que Portugal ia ser atingido por um furacão, normalmente dizia-se que se aproximava um ciclone, e era bom tomar cuidado.
Como o nome "furacão" está associado a devastações maiores na América, serve o intuito de dar à manivela que agora também temos furacões, na ideia das "alterações climáticas". Se a moda continua, seguidamente iremos ter tufões. Para já serviu apenas para baptizar tempestades.
Entretanto, também herdámos a escala de ameaça do furacão que vai basicamente de 3 a 5, os que são de categoria 1 ou 2, enquadra-se naquilo que era chamado "ventos fortes".

Foi assim com alguma surpresa que a abrir os nossos noticiários vi o governador da Carolina do Norte lançar o pânico, e palavras como "chuvas épicas", perante o furacão Florence, de categoria 4. Afinal tinham havido no ano passado outros de categoria 5 (o Irma e o Jose), sem tanto alarme ou dramatismo no prelúdio. 
De facto, este ano não tinha havido nenhum furacão de categoria 4 ou 5, e faltando notícias climáticas, aquele era o maior. Como esperado, o furacão passou, fez os estragos previsíveis, mas sem mais do que o isso (o número de vítimas do Irma foi 5 vezes maior, isto já para não falar do Katrina que em 2005 causou 50 vezes mais vítimas ~ 1500 mortos).


O olho do furacão é uma designação usada para denominar a área circular no centro do ciclone que não é afectada pelos ventos do furacão. Esta aréa do olho pode ter entre 30 e 60 Km de diâmetro, e pode estar aí um tempo excelente - céu limpo, ameno, e sem vento. O problema é que, à sua volta, os ventos atingem os 300 Km/h... e o centro vai-se deslocando. Porém, quem aguentar os ventos e entrar no olho do furacão, "só" tem que segui-lo, para se manter com bom tempo, e seguir o rasto de destruição, que este vai deixando à passagem.

Ora, é curioso que este tipo de movimento espiral é também observado em diversas galáxias que podemos ver com maiores ou menores telescópios. Um desses muitos casos é a Galáxia M101 (Pinwheel), que faz parte do grande grupo das galáxias espirais:
Galáxia espiral M101

Não se vê aqui nenhum "olho", mas a imagem não deixa de apresentar notáveis semelhanças. A questão de não se ver nenhum olho, não significa que não exista, porque ao contrário dos ciclones que se desenrolam sobre a superfície atmosférica da Terra, as galáxias não estão sobre nenhuma superfície. É mais natural que o olho não seja um disco, seja uma esfera, e por isso nunca seria visível por nós. Ou seja, este tipo de formações sugere um tipo de movimento típico de fluidos, e eventuais suspeitas de buracos negros... caso fossem fotografados, poderiam revelar esse olho, sem que isso correspondesse a nada de especial - talvez apenas a uma zona de ausência de gravidade.

Vem esta pequena divagação decorativa a propósito da tempestade em copo de água que começou por ser o caso Trump-Rússia. Essa tempestade tropical foi formada a propósito da campanha eleitoral americana, visando levantar ventos que abanassem a eleição republicana. Depois passou à fase de furacão, em que o presidente americano se viu alvo de um embaraçoso processo judicial. Agora, parece ter subido de categoria, já que Trump decidiu fazer algo novo - solicitou a divulgação dos documentos secretos relativos ao processo:


Claro que isto de revelar documentação secreta é complicado, e um representante dos democratas diz:
 "With respect to some of these materials, I have been previously informed by the FBI and Justice Department that they would consider their release a red line that must not be crossed as they may compromise sources and methods."
... portanto Trump, dando-lhe jeito aqui o mote da transparência, está a cruzar linhas vermelhas do FBI, ou seja, está a elevar o grau da tempestade. Resta saber se está no olho do furacão ou não...

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Incêndio e desabamento em S. Paulo

Em 1 de Maio de 2018, num edifício abandonado, degradado, e ocupado ilegalmente, ocorreu um incêndio de grandes proporções, que levou a um desabamento rápido, lembrando um pouco os desabamentos da duas torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, no 11 de Setembro.

Reportagem vídeo sobre o incêndio e desabamento do edifício.
Imagem do colapso do prédio em S. Paulo (1 de Maio de 2018)

Tratava-se do edifício Wilton Paes de Almeida, inaugurado em 1968 em São Paulo, e que durante anos serviu de sede a uma companhia vidreira, tendo depois servido como sede da polícia federal, até ter sido abandonado.
Não há qualquer comparação com o estado em que o prédio foi deixado, relativamente a outros prédios, a que aqui fizémos referência há dois anos:
Por exemplo, a já inexistência de elevadores tornou esses poços como fáceis correntes de convecção proporcionando uma situação extrema.
As pessoas que ocupavam ilegalmente o prédio foram rapidamente evacuadas antes do desmoronar, e o número de vítimas foi reduzido.

No entanto, acreditando que mais nada esteve envolvido, temos aqui um exemplo de desmoronamento que tem algumas semelhanças com o das duas torres gémeas, acrescido por a data de construção ser idêntica, e também pela semelhança de algumas ideias arquitectónicas aí presentes.
Neste caso a situação era agravada pela aparente existência de apenas 4 pilares principais.

Não querendo expor apenas uma versão, e tendo aparecido este exemplo, fica para confrontação.
Na minha opinião, este não é um caso semelhante. É preciso notar que a degradação de estruturas leva à sua queda, como foi agora o caso da ponte Morandi em Génova, ou tinha sido antes o caso da ponte Hintze Ribeiro em Entre-os-Rios.
De qualquer forma, retira o argumento de que não se conheciam casos semelhantes...

Ainda relativamente à tragédia das torres gémeas, em 11 de Setembro de 2001, convém notar que não foram apenas estas as torres afectadas, desabou ainda o edifício WTC 7, e uma pequena igreja ortodoxa (St Nichols Greek Orthodox Church) também despareceu nos escombros.

No entanto, o caso mais estranho terá sido o da Torre Millenium, muito próxima de uma das torres, e que sofreu pesadamente o efeito do desabamento. A figura seguinte compara a forma rectangular da Torre Millenium com o monólito do filme "2001 Odisseia no Espaço".

Não deixa de ser curioso que os atentados, tendo sido realizados em 2001, no primeiro ano do 3º milénio, isso coincidisse com o nome da torre (Millenium), e com o aspecto semelhante ao monólito do filme de Kubrick "2001".
(continuação)



Trata-se de um vídeo num artigo que apareceu o ano passado no Daily Star.
Engineers Steven Jones, Robert Korol, Anthony Szamboti and Ted Walter are part of the growing community of experts who say evidence indicates the towers were brought down in a controlled demolition.
They wrote a paper for Europhysics News – released last year – highlighting four important pieces of evidence pointing to this conclusion.
These were:
– Fires are not normally hot enough to heat a massive steel structure enough for it to collapse
– The majority of high rise buildings have sprinkler systems that prevent a fire from getting hot enough to heat steel to a critical level
– Skyscrapers are protected using flame-proof materials
– And they are designed so that if compromised, they do not collapse.
O caso do desabamento do edifício de São Paulo acabaria por questionar todas estas assumpções, pois lê-se ainda no artigo:
  • Its conclusion was that the “WTC Towers and WTC 7 [were] the only known cases of total structural collapse in high-rise buildings where fires played a significant role.”
Ou seja, para além dos 3 edifícios do WTC que desmoronaram melhor do que muitas implosões programadas e controladas (vejam-se alguns falhanços), veio juntar-se à lista um edifício que mesmo estando abandonado e degradado, usava uma arquitectura semelhante, e portanto deveria ter resistido ao incêndio...

Argumentar que os únicos casos conhecidos de desabamento de arranha-céus pelo fogo eram os 3 exemplos do WTC era um argumento demasiado simples e forte, para ser rebatido com ligeireza.
A queda do edifício de S. Paulo apareceu assim como providencial, para terminar com esse argumento - assumindo que a única causa do colapso foi o fogo, é claro.

A doença do 11 de Setembro
O número de vítimas dos atentados às torres gémeas vai crescendo por via dos problemas respiratórios que trouxeram um grande número de cancros pulmonares.
Contavam-se já mais 1000 vítimas há dois anos:
e este número foi aí estimado como podendo ultrapassar o próprio número de vítimas directas dos atentados no dia 11 de Setembro de 2001, no espaço dos próximos cinco anos, atendendo a que se poderiam contabilizar até 35 mil pessoas afectadas pelo problema.
O facto dos responsáveis terem garantido então aos nova-iorquinos que não haveria problema nenhum em respirar próximo do "Ground Zero", já teve um reconhecimento de erro pela responsável à época. Este reconhecimento de erro nem sequer poderá ser considerado homicídio por negligência, porque foi uma decisão de topo, retirada do "consenso científico" dos responsáveis.

sábado, 8 de setembro de 2018

Snowmageddon (6) coiros e coros científicos

Terá começado ontem uma conferência na Universidade do Porto que reunia cépticos sobre as "alterações climáticas", ou pelo menos sobre as suas causas. 

Como o assunto é um "dogma científico" da moda, reunindo um grande consenso, criou-se rapidamente um "grupo de apedrejamento", de fervorosos zelotas nacionais, destinado a impedir que tal conferência se realizasse num espaço universitário. Felizmente, a Fac. Letras não seguiu os zelotas, e a Profª. M. A. Araújo pôde iniciar a conferência. 

Abrimos este tópico "Snowmageddon" em Janeiro de 2014, e a paranóia continua, tornando a vida complicada a quem ousar duvidar de tamanha certeza. 
Afinal, como podemos duvidar de tamanha certeza?

Costumava (no passado) verificar-se a razão quando as previsões acertavam.
Há um problema com o número 2020. 
Era uma data distante em 2000, e pensava-se que chutar para 2020 era suficiente para alarmar caos.

Vejamos então algumas previsões colocadas em 2020 (falta pouco mais que um ano):

O Pentágono avisava Bush que em 2020 - "as maiores cidades europeias ficarão afundadas pelo aumento do nível do mar, e a Inglaterra seria mergulhada num clima siberiano":


Isto já para não falar dos "conflitos nucleares, mega-secas, fome, e grandes motins".
Era isto que os jornais e televisões anunciavam em 2004, e assim foram enchendo o nosso espaço informativo durante mais de duas décadas com esta conversa persistente.

(2) Ver por exemplo o artigo do mesmo jornal em 11 de Setembro de 2004 que considerando a previsão para 2020 tinha como título "The drowning world" (o afogamento do mundo), prevendo que navios já usariam já um Ártico descongelado para atalhar caminho, que o estreito de Bering estaria sempre sem gelo, entre muitas outras alarvidades.

Foi ainda em 2004 que foi lançado o filme "The day after tomorrow" com um cartaz sugestivo:

(3) As neves do Quilimanjaro iriam desaparecer... (Telegraph, 18 de Outubro de 2002)
"As neves do Quilimanjaro" era um bom título, baseado no romance de Hemingway. Ficando em África, era um ponto quase seguro para este tipo de especulações de aumento de temperatura. 
Assim vamos encontrando uma variação das previsões:
(i) Em 2002 dizia-se que iriam desaparecer em 2020 - artigo do Telegraph (já mencionado).
(ii) Em 2003 dizia-se que provavelmente em 2010 só haveria lama - artigo do New York Times.
(iii) Em 2009 iriam desaparecer dentro de 20 anos - artigo do Guardian.
(iv) Em 2011 começavam os problemas da previsão (o desaparecimento até 2015 não se verificaria):
AMHERST - If there is a poster child for global warming, it may be the vanishing snows of Kilimanjaro, which were predicted to disappear as early as 2015 in a widely-publicized report a decade ago.
(vi) Entretanto em 2018 - aparece o maior nevão em muitos anos... 


Mas o que é que isto interessa?
Não interessa nada!
Porque deixou-se de confrontar as previsões com o que aconteceu de facto!
Os dogmas são assim.
Não há discussão, cada um acredita ou não no dogma instaurado.
A ciência servia uma ponte de entendimento, que era confirmada ou desmentida pelos factos.
A religião não serve ponte de entendimento, é dogmática, baseada na fé - acredita-se ou não!
Cada vez mais a ciência comporta-se como religião fundamentalista.

Daí ter aparecido o nome "Alterações Climáticas" que substituiu o "Aquecimento Global"... porque alterações climáticas existem desde que existe tempo na Terra, desde que existem estações do ano. E por isso tanto o "frio" com o "calor" serviam à narrativa, para conformarem políticas, e mais do que isso apostas de casino... porque tudo isto será esquecido com políticas europeias de "direito ao esquecimento", e muito outras tangas, que querem massacrar a memória, para poder tratar toda a gente como crianças, acabadas de nascer.

Portanto, apesar de toda a evidência científica ter deitado por terra todos os alarmes catastrofistas das previsões bacocas, nada disso parece afectar a corja científica que gosta de fazer da ciência uma religião. 
Nem todos, porque ao menos o prémio Nobel da Física (1973), Ivar Giaever, por causa disto decidiu abandonar a American Physical Society, um dos coros onde queriam agremiar os coiros do unanimismo:

Ivar Giaever (prémio Nobel) discursa contra o "Aquecimento Global"

É claro que Ivar Giaever é logo atacado, dizendo-se que está ligado ao lobby dos petro-dólares.
Assim já ninguém vai ver o que diz, a "inquisição" cataloga-o como "pagão" e já está!
Numa religião não interessa a evidência, interessa o clube de que se é adepto.

Então, e não houve interesse em vender a propaganda do CO2 (o gás que todos nós respiramos)?
Contra os carros que poderiam ser fabricados na Índia e na China a preços arrasadores, o que foi feito pela UE?
Colocou normas cada vez mais reduzidas, que obrigavam a uma alta tecnologia inexistente.
Nem interessou nada a Volkswagen ter sido apanhada pelos EUA, mostrando que também não conseguia acompanhar o que exigia, nada isso interessa, quando não há nenhuma punição, já que os governos europeus servem apenas para enfeitar.

Eu faço aqui ênfase neste ponto, porque o que está em causa não é apenas o "aquecimento global", que é claro que se pode ter manifestado em quantidades reduzidíssimas. A poluição é um problema global, que deve ser tratado... mas seriamente! Beneficiámos no ar das nossas cidades com a redução dos poluentes, mas confundir tudo no mesmo saco, não é a mesma coisa.

Interessa que esta corja científica que se reúne para apedrejamentos, para ameaçar e desonrar quem quer que seja que não alinhe nas suas tretas, está a crescer, porque o interesse monetário tratou de ser paradigma mundial no financiamento da investigação e nas universidades.

Isto leva à crescente inquisição científica... cheia de certezas de coisa nenhuma.
Com a vontade de explicar tudo, e não conseguir explicar muito, entra a matar onde está insegura, e onde as evidências de total incompetência aparecem.

Senão, vejamos alguns exemplos:

(1) Como apareceu o Universo?
Usa as equações da relatividade geral de Einstein no Big-Bang.
Então o Universo já sabia das equações para se formar em conformidade?

(2) Como apareceu a Vida?
Por acaso, apareceram umas moléculas que permitiram a vida.
Substituindo "acaso" por "vontade divina" e temos uma explicação religiosa.

(3) Como apareceu a Inteligência humana?
Por acaso, os neurónios começaram a desenvolver uma coisa a que se chama "inteligência".
Outra vez, substituindo "acaso" por "vontade divina" e temos uma explicação religiosa.

O facto de ter aqui apresentado explicações claras e simples, isso não interessa nada.
Não interessa nada, porque quando a ciência se faz por fé e grupos religiosos, nada o que não pertença ao clube, interessa.


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Nebulosidades auditivas (63)

Música electrónica foi um nome inicial, depois foi-se chamando "dance", "house", "techno", "rave", e agora será mais conhecida pelo nome "trance". Há distinções para os puros de ouvido, mas neste campo, eu continuo a classificar como faria há trinta anos atrás - para mim, é tudo música electrónica, sucessora dos velhinhos Kraftwerk.

Trago aqui um vídeo do tema "Domino" do DJ Oxia (Olivier Raymond)


... mas em termos musicais, prefiro a versão alargada da remix feita por Morten Granau:

Oxia - Domino (Morten Granau remix)


(4:00) we wanted... a new life... a new world... to us that was freedom

E lembrei este vídeo porque vai buscar a velha ideia do monolito, como solução misteriosa do início e futuro da humanidade, conforme presente no filme 2001 Odisseia no Espaço, mas agora numa versão "douradinha" :

Isto porque não vi ainda muito difundida a ideia (óbvia) de que os telemóveis actuais copiam o design do monolito que aparecia no filme. Fui procurar e encontrei um blog onde se fala um pouco do assunto (aparentemente há cópia até na proporção das dimensões):


O papel do monolito no filme "2001 Odisseia no Espaço"

Isto é apenas um apontamento de curiosidade, sem nenhuma intenção especulativa. É claro que podem dizer que Kubrick era um visionário, que antevia os telemóveis, ou que nos queria revelar o futuro que se preparava para nós, etc... Nada disso me parece fazer sentido, ou teríamos visto os macacos a partilharem imagens de bananas num fuçaboca qualquer.
Estou convencido que da mesma forma que o desenho do monolito era apelativo para o espectador, o desenho do telemóvel também o procura ser para o utilizador, e daí a cópia... mas é razoavelmente estranho todos os fabricantes terem optado por um formato único.

Como idolatração rápida de um objecto, de facto o telemóvel é um caso de expansão e dependência impressionante, pelo que visto à distância de 50 anos em que o filme foi feito, revê-lo acaba por trazer uma outra ideia, agora crítica sobre o próprio monolito, propagador de uma monocultura.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Fonte da Vida

Questão paralela à pintura Fons Vitae, é a própria noção do sangue de Cristo como fonte de vida.
Trata-se de uma noção teológica alegórica, de transubstanciação, enquanto identificação cristã do corpo ao pão e do sangue ao vinho, na cerimónia católica da eucaristia (do grego, boa graça).

Nesta circunstância, para além da boa graça, não encontramos nada mais de substantivo. A fonte de vida existia desde a "Criação", e manteve-se inalterada, sob os mesmos processos. Neste mundo, para além do ritual social, não existe diferença entre baptizado e não baptizado.
Os apóstolos que beberam do cálice não apenas figurativamente, mas concretamente, com Jesus Cristo, não tiveram uma vida facilitada, sofrendo mortes igualmente cruéis e impiedosas.
Como a fé não deve nada à lógica, o Graal, enquanto simples taça da Última Ceia, não deixou de ser procurado como objecto com poderes transcendentes, apesar de nada ter ajudado à vida terrena dos apóstolos que com Cristo cearam.

A ciência, ou filosofia, são neste assunto igualmente pouco ou nada claras, com a desvantagem de não usarem nenhuma boa graça, mas requererem igualmente uma fé - a fé de que as definições que têm são as "melhores possíveis"...

Uma das características engraçadas neste aspecto é que não há normalmente uma oposição entre vida e morte, porque há ainda uma enorme classe de entidades que, como não experimentaram vida, não se pode dizer também que estejam mortas...

Começamos com uma pequena observação.
Suponhamos que a partir de uma data vemos um animal de estimação desenvolver uma rotina, sempre a mesma rotina, sem qualquer alteração notada de dia para dia. O dono deixa comida, o animal come, de seguida faz sempre os mesmos movimentos, e aguarda o dia seguinte, sem esboçar a mínima interacção com o dono ou com o exterior. 
Nesta situação, se o animal não exibe a mínima imprevisibilidade, é o que se poderá dizer de um "morto-vivo". Não significa isto que esteja morto, porque os processos biológicos podem manter-se sem alteração. Simplesmente, se não tem qualquer interacção com o exterior, que não seja assegurar automaticamente a sua sobrevivência, deverá considerar-se que o seu cérebro está ainda neste mundo?
Isto é bastante diferente do que se passa com os humanos, porque sob vigilância os humanos podem adoptar uma estratégia de sobrevivência passiva, em que a sua interacção com os outros seja reduzida ao mínimo, quase a procedimentos automáticos.
Simplesmente não é crível que um animal opte por uma atitude dessas. O que pode acontecer em certas circunstâncias agrestes é que alguns animais "definham" antecipando quase um suicídio.

O que aqui pretendemos associar é a vida, ou a alma da vida, a uma certa imprevisibilidade.

Acontece que há muitos fenómenos imprevisíveis a que não associamos a noção de vida.
Os gregos identificavam Zeus na imprevisibilidade dos fenómenos atmosféricos. De certa forma, era como se o tempo tivesse uma vontade própria, que se manifestava climaticamente. Acontece que essas transformações climáticas, apesar de serem na sua globalidade ainda completamente imprevisíveis, obedecem a algumas leis físicas, estando num limbo entre uma possível previsibilidade futura e a imprevisibilidade.

Estão a ser criados programas de computador, ou robots, que tentam simular o comportamento de pequenos animais. Se esses robots realizam tarefas programadas, então são normalmente previsíveis, ao fim de um certo número de observações. A partir do instante em que antevemos as acções desses robots, deixamos de considerá-los como novidade, e consideraremos a sua acção com entendemos a accão de tantos programas automáticos - como uma vantagem ou como uma praga.
Poderá haver uma parte aleatória, em que a escolha entre possíveis decisões pode ser fruto de um qualquer acaso, contextual ou interno. Mas ainda assim, essa aleatoriedade corresponderá mais a um aspecto desgarrado, a que falta uma continuidade visível, por exemplo, uma empatia - que não é necessariamente constante, nem é manifestada sempre da mesma forma.

Podemos ver o caso mais simples, ou mais complicado... das plantas. 
Não é difícil encontrar programas que simulem produções de colheitas, um pouco mais sofisticados que o Farmville, podendo aparentemente oferecer o mesmo tipo de previsibilidade ou imprevisibilidade que se espera no desenvolvimento de plantas. Só que aí estamos a considerar um outro tipo de vida, a vida vegetal, que é diferente quando em caso de laboratório - em que está praticamente em condições ideais, estanque, e imune a influências exteriores. 
Essa vida vegetal deve ser considerada como um todo, e aí perderá muito do seu aspecto de previsibilidade, entrando no conjunto de interacções entre todos os seres vivos no planeta Terra. Esse grande organismo que, à maneira dos antigos gregos, é muitas vezes chamado Gaia, é de modelação impossível (ou praticamente impossível, mesmo que consideremos apenas a parte vegetal).

A fonte da vida reside numa imprevisibilidade, mas não numa imprevisibilidade qualquer, é requerido que essa imprevisibilidade se manifeste em empatia com o ambiente circundante, com o mundo.

De onde surge a imprevisibilidade?
Há diversas situações em que a probabilidade de sair um resultado ou outro é considerada igual.
Não interessa que seja exactamente igual, interessa que os observadores não têm hipótese de antecipar o resultado que vai sair (por exemplo, quais são as bolas que saem no Euromilhões, se admitirmos que não é um esquema montado!).
Quando aquilo que permite determinar um resultado e não outro está fora da previsibilidade possível, é denominado imprevisível.
Porém quando dizemos aqui que está fora da previsibilidade possível, isso significa que não é observável neste universo. Acredite-se ou não que o resultado das bolas que saem resulta das micro ou nano interacções moleculares, atómicas, da corrente de ar, da tinta das bolas, ou do que se quiser juntar, isso é apenas fé de querer acreditar em algo.
Na prática, resultados imprevisíveis não estão dentro do universo a que temos acesso.
De resto, é tão válido usar a palavra sorte, a palavra milagre, ou qualquer outra.

Somos pois forçados a concluir que há um universo não observável que determina uma grande parte das ocorrências observadas neste universo. Isto não é nada de novo, e as teorias físicas admitiram-no a partir do momento em que começaram a incluir probabilidades, ou até "princípios de incerteza".

Um outro aspecto em que o espírito humano é forçado a admitir a existência de não observáveis, é a partir do momento em que constata que há ideias que não têm origem no mundo material. Isto é uma dialética antiga, entre o mundo material e o mundo espiritual, mas a ciência foi de tal forma envolvida no aspecto material que se esqueceu que as ideias que usava não estavam soterradas em nenhum baú debaixo de terra. Continua nessa senda insana, agora pensando que as ideias estão num qualquer baú escondido dentro do cérebro.

Na Antiguidade havia uma boa graça para a origem das ideias, atribuindo-as a musas inspiradoras, reconhecendo que, para além do esforço, havia uma imprevisibilidade que permitiria ter boas ou más ideias (não há propriamente um antónimo de musa, mas não deixou de estar implícita a influência de mocreias ou diabretes maus conselheiros).

Fonte de vida
Em resumo, todos os processos que possam previstos, ou simulados computacionalmente por nós, não são fontes de vida. Não haverá nada na vida que possa ser reduzido a um pequeno conjunto de instruções operante. Quando deduzimos um determinado conjunto de "leis da natureza", a vida está no grande universo que escapa à modelação por essas "leis".
Podemos antecipar que processos definidos por simples leis assumem uma complexidade tão grande que os torna impossíveis de prever, e que isso não invalidaria que a vida não fosse resultado delas... não invalidaria, mas também não validaria, pelo que se trataria de uma afirmação de fé, sem outro significado objectivo. O significado objectivo seria de novo um equivalente à imprevisibilidade.

Conforme dissémos há uns tempos, a vida propagou-se como um fogo, resultante de uma chama que evoluiu até ao incêndio presente. Ou seja, até aqui a vida não tem outra fonte que não seja a própria vida! Não nascem seres vivos de entes inanimados, mesmo que nos limites da ciência se produza vida com os progenitores já mortos.
Nesse sentido, mesmo sendo uma imprevisibilidade, foi uma imprevisibilidade singular.
Isto é uma questão interessante, porque tal como se acha que deveriam existir milhares de planetas habitados, também não há aparente razão para a vida surgir de um único ser primordial (denominado LUCA ou LUA - last universal ancestor), mas assim parece ter acontecido. Será complicado pensar que somos primos afastados da mosca ou do pinheiro no parque, mas o DNA exibe uma mesma raiz primordial.

A questão é também saber se seria necessário haver mais que uma raiz comum.
Do ponto de vista bioquímico podemos pensar nas múltiplas diferenças que se estabeleceriam com raízes de vida diferentes, feitas de outros compostos químicos. Porém, do ponto de vista prático, sem ser uma outra particularidade física, o que de substantivamente novo poderia aparecer?
Será que nos sentimos mais próximos de um fungo do que de uma alga ou uma esponja?
Uma enorme multiplicidade de formas vivas foi possível com o nosso DNA, a ponto de surpreender a nossa imaginação, pelo que até hipotéticos seres vivos de outros planetas só surpreenderiam mais pela dimensão do que pela forma ou aspecto.

Ao contrário, a raiz comum traz um factor de ligação - uma mesma origem biológica, uma mesma fonte. Essa mesma fonte terá evoluído de acordo com um princípio antrópico, que não será apenas uma etapa evolutiva, mas sim a própria finalidade da evolução - produzir uma inteligência capaz de entender o universo que a criou. Ou seja, essa evolução permitiu que o sangue saísse de um coração tendo em vista alimentar uma cabeça.
Tudo porque, sem essa cabeça de humanidade, o universo não poderia ver-se a si mesmo.

domingo, 26 de agosto de 2018

Desafinações visuais (5)

"Now you see me"... foi um interessante filme sobre magia e mágicos lançado em 2013.
 
"Now you see me" (2013) e a cena com o truque inicial.

Começando por notar que a cena do truque inicial, que é um velho clássico, resulta também na maioria dos espectadores do filme que vão escolher a mesma carta que a menina (... and now you don't).

Há sempre quem simpatize com ideias de "magia" ou "milagres", que levados ao extremo, remetem para universos de ilusão, de total fracasso. 

Não é difícil saber de casos de pessoas que foram dadas como mortas e recuperaram na morgue (ou no caixão, como acontecia por vezes no Séc. XIX). Esses casos de "Lázaros" modernos não são associados a um nenhum curador, ou a nenhum milagre sobrenatural. Acontecem! 
Também não é difícil saber de ilusionistas que caminham sobre a água, como foi o caso de Dynamo, que em 2011 apareceu a caminhar sobre o rio Tamisa, em Londres. Transformar água em vinho, pode até ser visto como mera curiosidade científica, para além da sua execução mais credível por mágicos profissionais.

Truques de levitação eram apresentados na Índia aos caminhantes, e são exibidos hoje nas ruas diversos truques de levitação, ou outros, sem que isso impressione muito os transeuntes, ou sem que as pessoas vejam ali magos com um poder sobrenatural. Simplesmente sabem que se trata de algum truque, mesmo que não percebam imediatamente qual é.

Um caso típico de levitação na rua ...

Na imagem que aqui apresentamos podemos ver a fotografia de um homem que está em levitação, ou pelo menos essa é a sensação que podemos ter, até que com um simples dedo se tape a sombra que está no chão. Será que teríamos a mesma sensação se desde o início do texto estivessemos a falar de solos com manchas de água? O contexto que circunda qualquer acontecimento é de sobremaneira importante para a conclusão que retiramos de um mesmo facto. Como normalmente o contexto de cada pessoa é diferente, grande parte dos ilusionismos, artimanhas, ou enganos, passam por conduzir a pessoa para o contexto desejado, de onde depois a conclusão será natural, ou naturalmente errada.

À excepção de charlatões, os mágicos identificam os seus truques como meras ilusões, o que lhes afastou um fascínio perigoso que poderiam explorar perversamente, como tantos outros fazem.
Pior, nalguns casos explicam mesmo em que consistem os truques, e aí todo o fascínio desaparece. Dou um exemplo - quando vi que o truque de atirar facas contra uma pessoa presa, a rodar num disco, consistia em fazer saltar facas que estavam espetadas atrás do disco, acabou por ser uma certa desilusão, destruindo a ilusão de infância...

Tal como crianças, a maioria das pessoas não se importa de ser enganada por mágicos, porque o espaço de diversão está bem definido, e os mágicos têm normalmente o bom tom de não ofender ou gozar com alguém no palco.
Com as crianças deve também definir-se bem o tempo de brincadeira, sob pena de não entenderem quando o adulto está ou não pronto para brincar, ou o que é e o que não é brincadeira.

É razoavelmente frequente não ver essas fronteira entre a "seriedade" e o "faz de conta" bem estabelecidas, o que leva a uma confusão entre a ilusão e realidade. Não só, faz com que não se distinga a diferença entre brincar e gozar.
O gozar ocorre quando a brincadeira se coloca apenas de um lado.
Hoje mistura-se "bullying" com "gozo", sendo que o "gozo" é tolerado, porque mesmo que as vítimas  não achem piada à brincadeira de que são alvo, acha-se que tudo não passam de brincadeiras.
A leviandade com que é tratada esta matéria resulta de uma tradição de infantilidade que passa para os adultos, que também acham normal exercerem uma superioridade assente em esquemas sobre a ignorância ou boa fé alheia.

É responsabilidade dos adultos, que vem do seu maior conhecimento, informar as crianças da diferença entre ilusão e realidade. Quando mantêm uma ilusão fora disso, como o caso do mito das prendas do "Pai Natal", não se deve prolongar excessivamente no tempo; esclarecendo o assunto como uma praxe tradicional, única e irrepetível. Caso contrário, perdida a confiança numa mentira, dificilmente será restabelecida.

Isto para referir que a Igreja Católica há muito que deveria ter uma atitude responsável para com o seu rebanho, que chega a tratar com uma infantilidade que mete dó.
Que foi praticante de um bullying atroz durante a sua adolescência (séc. XII a XVIII), pois para isso basta lembrar uma outra palavra - inquisição.
Mas cresceu, e deveria ter uma teologia suficientemente adulta para banir o uso de infantilidades, o que parece algo difícil de reconhecer. Talvez creia na infantilidade como forma fácil de congregar fiéis, mas esse facilitismo tem competidores que não se importam de usar magia charlatã, publicidade, e outros meios mercantis, como forma de angariar vontades.

Para um observador externo, o que mais impressiona é todo o tempo perdido em estudos teológicos que deram em nada, ou ficaram fechados numa douta gaveta, enquanto se vai mantendo um enrolo de dois mil anos, que nem sequer impressiona pelos números de magia, cuja única diferença face aos actuais é a sua veracidade ser uma questão de fé.

No embate entre "mundo material" e "mundo espiritual", a Igreja Católica aparece como uma fraca força de outros tempos, procurando manter elos frágeis a uma tradição que a arrastou até ao Séc. XXI. Os seus padres, que vão se refugiando nos velhos textos como leitura de alegorias, vão ficando perdidos nas antigas contradições próprias, como se o tempo tivesse parado na Idade Média, sem dar respostas que façam sentido aos seus fiéis. Vai restando a fé... como se tudo o resto não fosse também uma outra fé.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O negro do buraco negro

"Buraco negro" é uma expressão e noção que saiu da ciência e ficção científica, para cair numa amálgama meio confusa, quando ao mesmo tempo se pretende que a noção seja objectiva.

Estamos mais ou menos no domínio da fé científica, até porque se trata de uma concepção teórica, que nunca foi observada na prática. Como o nível de crença no que eu digo é felizmente nulo e o nível de crença no que diz o "establishment" é enorme, quase numa proporcionalidade inversa, deixo a coisa colocada nas suas palavras, neste vídeo:

Why every picture of a black hole is an illustration (MIT, S. Doeleman, 04.04.2016)

A maior parte destes anúncios procuram massa, não massa de matéria, nem de esparguete, mas sim massa, cacau, pilim, dinheiro... e vêm como se fossem descobrir algo nunca antes visto ou pensado, fazem-no com grande aparato, com enorme estapafúrdio, e os resultados são normalmente pouco mais que zero... o que requer outro aparato estapafúrdio, para fazer crer que algo foi conseguido.

Ou seja, segundo o vídeo, em 2017 saberíamos das boas... iríamos ver a foto de um "buraco negro", mas primeiro precisavam em 2016 de convencer toda a gente que ainda ninguém tinha visto - e digamos essa seria de facto a maior novidade para a maioria das pessoas.
Estamos em Agosto de 2018, e népias!
É claro que da forma que o processo é feito, poderiam até tirar dali a cara do rato Mickey se quisessem, mas como alardearam demasiado a coisa, será menos fácil, mesmo com os ilustradores da NASA a ajudar.

Dentro desta mitologia científica, estamos a falar das concepções do semi-deus Einstein, que está para a mitologia científica, mais ou menos como Hércules esteve para a mitologia grega. Extrapolado para a formação do universo, e similares, são teorias que não valem o papel em que são escritas! São excelentes, isso sim, para entreter pseudo-talentos jovens.
Basta entender que isto é malta que faz de galinha para explicar o aparecimento do ovo sem galinha. É, aliás pior que isso... porque no papel de galinhas, põem imensos ovos na capoeira científica. E é claro, toda a gente se está a borrifar para o ovo, porque o interessa é o processo de passagem de cocós a galos, tendo em vista o poleiro.

Tudo o que é visto naquele vídeo, poderia ser explicado pela teoria da atracção gravítica de Newton, se estivesse na moda... e não houvesse uma catadupa de interpretações laterais despropositadas ou pré-concebidas.

Um saco negro que é transparente em infravermelho 
(e os óculos... que de transparentes passam a negros) JPL-Caltech

Mas este texto não é sobre buracos negros ou outras fantasias... é sobre a  cor negra.
A cor negra pode ser um problema para todos os que pretendam o sigilo absoluto.

A teoria acerca das cores é razoavelmente simples... do Sol chega-nos cor branca, porque é uma sobreposição de cores. As cores originais visíveis são as do arco-íris. No sentido inverso as gotas de água podem decompor a luz branca nos diferentes comprimentos de onda e mostrar-nos um arco-íris.

Vemos apenas radiação com comprimento de onda entre 0.0004 e 0.0007 mm (menor que um milésimo de milímetro), e as cores naturais não são mais que sensibilidade animal a essas frequências (correspondentes a valores entre 770 e 430 THz - terahertz: o que significa até 770 biliões de fotões por segundo). Quase todos os animais vêem neste espectro de frequências, sendo que os pássaros podem ver no ultravioleta, e as cobras no infravermelho, por exemplo. De alguma forma, a evolução determinou que este era o espectro ideal para os olhos avaliarem a matéria disponível na Terra.

A cor com que vemos um objecto é exactamente aquela que foi menos absorvida pela sua camada exterior. Se a camada exterior, digamos a tinta, for branca, então reflecte praticamente todas as cores... mas poderá não reflectir infravermelho, ou frequências inferiores. Se a cor for vermelha, então essa é a única cor que é reflectida, sendo as outras absorvidas. Finalmente, quando a cor é negra, isso significa que todas as cores visíveis foram absorvidas. Curiosamente, no exemplo mostrado na foto, o saco negro já será translúcido ao infravermelho.

Mas o que significa dizer que "uma cor é absorvida"?
Falamos de raios de luz, de fotões, que ao embaterem na tinta não saem, e por isso não os vemos.
Assim, num objecto negro devemos considerar que todos os fotões de luz visível ficaram nessa tinta, escapando poucos para o seu exterior.

Daí surge a ideia corrente de que as roupas negras absorvem a energia dos fotões, e por isso são mais quentes que as roupas brancas. Digamos que uma T-shirt preta nos deixa em brasa no Verão, e que o ideal é uma T-shirt branca...
Para vermos que isto é mais um mito urbano, deixamos o link:
o que deixa, mais ou menos em causa, qualquer evidência prática do contrário.
Sendo que o Sol é mais intenso nos trópicos, a natureza seria particularmente anti-natura e cruel ao colocar a cor negra como tez habitual da pele. Nem eu nunca notei que ao sol uma T-shirt preta estivesse particularmente mais quente que uma branca.

Mas o problema existe, e não é difícil encontrar certezas com dissertações longas sobre o assunto.
Tenho é mais dificuldade em encontrar estudos sérios sobre o problema.
Da mesma forma que a imagem em cima mostra que o saco preto é translúcido ao infravermelho, também indica que o saco preto não fica minimamente mais quente devido à sua cor, já que a maior intensidade de calor vista pelo infravermelho está justamente no corpo do homem, e zero no saco.

Ora o problema é saber para onde vão os fotões que são absorvidos... ou pelo menos, para onde vai a sua energia. É que se não servir para aumentar a temperatura do objecto, então perder-se-ia energia, e isso representava um pequeno problema para a lei de conservação de energia.

É razoavelmente conveniente pensar que os fotões desaparecem, num processo de bilhar atómico, que aumenta a vibração, a entropia e temperatura do corpo, e como esse processo é tão caótico nunca mais se poderá recuperar a informação que levavam. Isso é reconfortante, face a outra hipótese... os fotões ficam presos nesse bilhar, num ping-pong infindável. Porque razão seria mais reconfortante? Porque ninguém está à espera, ou deseja, que os objectos negros na sua presença, tenham lá dentro fotões com possíveis imagens de tudo o que fez no espaço circundante.

Digamos, uma coisa é ter um espelho na sala, que cumpre exemplarmente a sua função... reflecte tudo o que lá cai, e nada fica guardado. Ora, um espelho negro não reflectiria nada e guardaria toda a imagem. Pior, não apenas uma imagem, mas todas as imagens ao longo do tempo.
A mera possibilidade de um bibelot negro conter imagens do quarto onde se encontra, assustaria qualquer ferveroso adepto da privacidade... ao ponto de mandar pintar tudo de branco. Se valesse a pena, porque não falamos apenas do visível, falamos de toda a radiação... e qualquer pedaço de matéria absorve/guarda sempre radiação, da mesma forma que os objectos vermelhos apenas reflectem o vermelho, mas guardam o restante.

Como é óbvio, não dou um chavo por esta hipótese, mas é interessante e muito instrutivo notar que o único bicho que preza ao máximo a sua privacidade é justamente o Homem. A privacidade é um eufemismo social para manter segredos, algo que a Natureza nunca cuidou de acontecer com mais nenhum outro bicharoco.
Digamos que os leões não matam zebras e depois tentam eliminar o rasto, como se tivessem tido um lapso de comportamento que não pretendem que mais ninguém saiba... nem sequer vemos os rasgos amorosos entre animais serem tidos num quarto fechado num motel. Há também diversas manobras de engano, mantidas pela Natureza, mas são em campo aberto, e não em gabinetes fechados...

quinta-feira, 12 de julho de 2018

O futuro do passado

Existem moedas ditas "janiformes" que representam o deus Jano, ou Janus, que dá nome a Janeiro, e que tem duas cabeças - uma olhando o passado (cabeça mais nova) e outra olhando o futuro (cabeça mais velha). Simboliza assim a transição entre anos, entre o ano velho e o ano novo, entre o passado e o futuro, e por isso é natural a sua colocação como o primeiro mês do ano novo. 
Na tradição celta, a divindade Lugo era representada por três cabeças, talvez considerando a face voltada a nós, como sendo a face presente.
Moeda janiforme, supostamente da cidade de Tarsus (c. 400 a.C.)

A nossa compreensão habitual leva-nos a considerar que o passado influencia o futuro, e normalmente não há compreensão para a influência no outro sentido...
Por isso, em jeito de tema de férias, deixo à consideração algumas linhas.

Não vou falar do passado que está na nossa memória, mas sim do passado histórico que nos chega através de registos escritos, e conclusões científicas.

Convém lembrar que antes do estabelecimento da Ciência como método válido, as informações ou conclusões acerca do nosso passado resultavam exclusivamente de histórias... na melhor das hipóteses, de documentos ou monumentos históricos. Assim, até ao Séc. XVIII, o passado era basicamente o informado pela fiabilidade desses documentos, sendo tomada a Bíblia como o mais fiável de todos. Foi basicamente o método científico que alterou toda a percepção do passado, indo ao ponto, que até aí seria escandaloso, de contestar a própria Bíblia.

Portanto, o que sabemos do passado depende de forma significativa do futuro. 
Uma evolução científica poderá chegar ao ponto de sabermos exactamente o que ocorreu no passado?
A minha resposta será sim... se a ciência em causa for fidedigna.
O problema é que a credibilidade da comunidade científica, quando se rege por outros interesses, tem tanta, ou até menos validade, que a credibilidade dos mitos, das religiões, e de tantas outras historietas que nos foram sendo impigidas.

Há com efeito dois tipos de Ciência.
- Uma é a Ciência comunitária, que ainda que possa estar cheia de boas intenções, é essencialmente vendida, ou oferecida, como uma crendice igual a tantas outras. Em vez de devermos acreditar nos padres, bispos, etc., devemos acreditar no que dizem os cientistas, mesmo que a população não tenha o mínimo de formação para ser crítica relativamente aos factos, ou pseudo-factos.
- Outra é a Ciência individual, que é algo completamente diferente, e basicamente ausente como disciplina instituída. Ou seja, raramente foi dado ao indivíduo o privilégio de ter acesso facilitado à Ciência, e de poder por si mesmo chegar às mesmas conclusões. Dá muito trabalho, e crê-se ser um desperdício de recursos, tempo, e dinheiro.

A Ciência comunitária continuará a fazer o seu percurso, colocando comunidades dominantes com acesso privilegiado aos recursos. No entanto, irá basear-se sempre numa questão de fé... de fé nos cientistas, nos seus bons intuitos, na sua honestidade, etc. Em suma, irá colocar a fé nalguns homens, sem pecados, moralmente incorruptíveis, agindo para o bem, em nome da humanidade... Claro que, mais tarde ou mais cedo, saberemos onde essa fé vai levar - ao mesmo ponto onde levaram as outras.

A internet permitiu uma difusão do conhecimento sem precedentes, tornando basicamente acessível o conhecimento científico à maioria da população. A falta de maior conhecimento resulta de um misto de desinteresse, ou desmotivação, para coisas complicadas, por parte da maioria dos cidadãos, juntamente com um interesse silencioso em manter as coisas nesse ponto.
Mas a questão não se trata de tornar cada um num cientista de vanguarda, está praticamente na diferença entre acreditar nas imagens da NASA dos satélites de Júpiter, ou pegar num telescópio e vê-los. O problema começa por ser que a esmagadora maioria das pessoas nem tão pouco seria capaz de identificar Júpiter no céu. Mas isso não é apenas um problema da sociedade, é ainda uma disposição do indivíduo em não considerar a actividade como interessante ou relevante.

Sendo claro que a Ciência comunitária evoluirá sempre à frente da Ciência individual, uma não pode anular a outra, sob pena de se colocar toda em risco.

Interessa que as hipóteses alternativas que se colocam em História muito se devem à oclusão, condicionamento de dados e processos, à maioria dos cidadãos. A maioria dos historiadores conformam-se à posição de simples burocratas, que chancelam certos documentos ou teorias como verdadeiras, e outras como falsas, na maioria dos casos "porque sim"... nem sequer se preocupando com a total palhaçada de contradições que apresentam, porque nem têm que ser lógicos, nem sequer têm que ter bom senso. Têm apenas que se conformar à função burocrática instituída.

Aquilo que era considerado como dados indiscutíveis há 500 anos atrás, arregimentava a Bíblia e os seus crentes. Hoje não é considerado Ciência, mas a questão é saber se aquilo que é hoje indiscutível pela Ciência comunitária, não estará também em risco de cair pelos seus pés de barro, sendo claro que a História foi baseada numa geopolítica de interesses locais, circunstanciais, que se foram cimentando como interesses mesquinhos.

Quando a análise histórica é feita com essas lentes distorcidas, é claro que o que vemos são apenas sombras do passado, coloridas em tons cor-de-rosa e negros, dependendo da perspectiva.

Não há dúvida que o futuro, assumindo uma evolução, caminhará no sentido de eliminar todos esses traços difusos e confusos, mas teremos a certeza que serão repostos por traços claros artificiais, pintados por uma Ciência artística, ao estilo da NASA, ou que serão repostos por traços genuínos?
É nesse ponto que será imprescindível a evolução da Ciência individual, livre, para que não fique sujeita à fé em ídolos dourados, agora pintados como "grandes cientistas", que cimentam uma nova religião comunitária.

Tudo isto parece um "wishful thinking", mas é mais que isso.
Todo o avanço científico, uma vez presente, tanto determina o futuro, como também clarifica o passado. É indiferente terem sido bem ou mal classificadas as datações pelo processo do Carbono 14. O que interessa é que a descoberta do decaimento radioactivo condicionou o passado para um nível de certeza, quando antes estava num nível de incerteza. Haveria milhares de possibilidades que seriam possíveis sem essa descoberta, que passaram a ser impossíveis pela descoberta.
O futuro condicionou o passado. 
A cada progresso científico que façamos, mais ficará determinado o passado. 
Chegará ao ponto em que as ouviremos as paredes falar, contar histórias que se julgavam para sempre confinadas, e perdidas no tempo. Será inútil caminhar no outro sentido, a menos que se pretenda deixar a pegada no local do crime.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

As moedas de Cartago e de Cirene encontradas na ilha do Corvo em 1749

Há mais de um mês, MBP deixou aqui num comentário um link para o seguinte artigo:


referindo, bem, a dificuldade de reportar que o DNA encontrado apontava para uma ligação directa a Portugal. Não deixam de ser antecessores europeus, ou ibéricos, mas o autor do estudo dizia a certa altura:
"most closely matches that of the sequence of a particular modern day individual from Portugal".

Como fenícios e cartagineses andaram pela península ibérica, tal não seria propriamente uma grande novidade, mas é complicado porque se tratava da primeira análise completa do haplogrupo mitocondrial (... first complete mitochondrial genome of a 2500-year-old Phoenician dubbed the "Young Man of Byrsa"). Portanto dir-se-ia que foi azar... até porque por volta de 500 a.C. não é conhecida grande presença cartaginesa, ou fenícia, que se concentrou posteriormente (uns 3 séculos depois) pela região de Cadiz, e na região do Algarve e Alentejo. 

No entanto, se atendermos ao que dizia Bernardo de Brito, havia grande colaboração entre os habitantes da península ibérica e os fenícios, ao ponto dos ibéricos terem ido ajudar nos cercos da cidade de Tiro, quer por Nabucodonosor, quer por Alexandre Magno.

Dado o material encontrado, será de considerar um pouco mais que isso... e pensar que as cidades fenícias, ou mesmo cartaginesas ou cirenaicas, fossem cidades fundadas, ou largamente participadas, por uma comunidade ibérica. Afinal a posição da cidade de Cadiz seria muito mais estratégica no controlo da navegação no Mediterrâneo, do que as cidades fenícias, que pouco mais seriam que praças-forte no meio de território "inimigo", dada a pressão constante que sofriam por mesopotâmicos, egípcios, ou hititas.

Acresce a isto a estranha descoberta de moedas que terá ocorrido em 1749 na ilha do Corvo, que é descrita da seguinte forma (cf. Moedas fenícias no Corvo - Enciclopedia Açores XXI):
Em 1761, o numismata suéco Johann Frans Podolyn relata o seguinte: "No mês de Novembro de 1749, após alguns dias de ventos tempestuosos de oeste, que puseram a descoberto parte dos alicerces de um edifício em ruínas na costa da Ilha do Corvo, apareceu uma vasilha de barro negro, quebrada que continha um grande número de moedas, as quais, juntamente com a vasilha, foram levadas a um convento" [ seria o Convento de São Boaventura, em Santa Cruz das Flores? ], "onde as moedas foram repartidas por pessoas curiosas residentes na ilha. Algumas dessas moedas foram enviadas para Lisboa e dali mais tarde remetidas ao padre Enrique Flórez, em Madrid. O número de moedas contidas na vasilha não se conhece e nem quantas foram mandadas de Lisboa, mas a Madrid chegaram 9 (nove) moedas. ... O padre Flórez fez-me presente destas moedas quando estive em Madrid em 1761, e disse-me que no todo do achado havia apenas moedas destas nove variedades." (Achados Arqueológicos nos Açores, José Agostinho, em Açoreana, Vol. 4, fasc. 1, 1946, pág. 101-2 - O padre Enrique Flórez de Setién y Huidobro, (1701-1773), foi um conhecido historiador e numismata espanhol que pertenceu em vida à Ordem de Santo Agostinho.)
Num artigo da APIA encontra-se a seguinte imagem dessas moedas: 
:

Notamos que as imagens condizem com o tipo de moedas cartaginesas, algumas evidenciando um cavalo, conforme uma que aqui já tinhamos colocado. As moedas também seriam de Cirene (ou Curana), uma cidade grega perto de Tripoli na Líbia.
Xéquel de Cartago com um cavalo.

Já tinhamos falado da estátua equestre do "Cavaleiro do Corvo", e tendo ontem abordado o tema Mustang (sobre os cavalos americanos), surge à interrogação a razão do uso do cavalo como símbolo, por parte dos fenícios ou cartagineses. Aliás, se Aníbal ficou conhecido na História, foi por conduzir um exército com uma forte componente de elefantes, através dos Alpes, até Roma.
Parece um pouco estranho que um povo, conhecido especialmente pela sua capacidade naval, usasse o cavalo como símbolo. No caso de Cartago, dada a ligação que Virgílio estabeleceu entre Eneias e Dido, poderia referir esse elo perdido com Tróia? 

Por outro lado, haveria a possibilidade real dos fenícios ou cartagineses terem efectuado viagens transatlânticas, a que Humboldt deu especial crédito, tendo reconhecido os achados na ilha do Corvo - a estátua e as moedas. Ora, conforme mencionámos no texto sobre o Mustang, não é de excluir uma possibilidade comercial fenícia de importação de superiores raças de cavalos, que as velas e o vento Zéfiro permitiam ligar à América.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nebulosidades auditivas (62)

Porque todos os outros têm ouvidos a menos. (António Sérgio, Som da Frente, Rádio Comercial)

Faleceu hoje Ricardo Camacho, um dos principais elementos dos Sétima Legião, e produtor de vários outros projectos (António Variações, Xutos e Pontapés, etc.)

No princípio dos anos 80, quando começavam a aparecer as bandas rock nacionais em catadupa, os Sétima Legião foram o principal projecto alternativo, com uma sonoridade claramente influenciada pelos Joy Division / New Order, mas indo também buscar influências tradicionais - neste tema a gaita de foles e o bombo. Essas influências tradicionais seriam depois exploradas pelos Madredeus, que alcançaram um significativo sucesso internacional.

"Pois que Deus assim o quis" - Sétima Legião - do álbum "A um deus desconhecido".
(concerto 30 anos - 2012, Coliseu de Lisboa)

Talvez porque o ponto fraco dos Sétima Legião fosse o vocalista (um caso em que usar a palavra cantor seria um manifesto exagero), Ricardo Camacho apontou como favorito este tema instrumental.
Logo a seguir, podemos ver Ricardo Camacho dedicar o tema "Glória" a António Sérgio, falecido uns anos antes. Para benefício do ouvinte, fica a voz em versão de estúdio.

Glória - Sétima Legião - A um deus desconhecido (1982)
A morte não te há-de matar, nem sorte haverá de eu viver, sem amar sem te ter, sem saber se rezar
Amor oxalá seja amar, ter prazer sem poder nem sequer te tocar
Os deuses não te hão-de levar, sem que eu der a mão p'ra ser par, sermos dois a partir, e depois a voltar
Não vais-me deixar sem o céu, ser o chão onde vão se deitar os mortais
E a Glória será não esquecer, memória de tanto te querer, sem razão meu amor, com paixão sem morrer
Talvez ao luar, possas ver o olhar, que lembrar fez nascer Português

domingo, 24 de junho de 2018

Anais de Contige - a senhora dos anéis

Numa altura em que começam os incêndios e se fala sempre da desmesurada proliferação do eucalipto em Portugal, raramente se fala do eucalipto de Contige:

O eucalipto de Contige (imagem em Ruralea.pt)

O eucalipto de Contige é famoso pela sua desproporcionada dimensão, especialmente pelos 12 metros em perímetro, junto ao solo, já que em altura terá "apenas" 43 metros.

A pergunta surge naturalmente... que idade terá uma árvore com aquela dimensão?
É aqui que as coisas se tornam engraçadas!

Segundo a historieta que li em vários lados, aqui ou em wikipedia - Contige, a árvore teria existência na altura de um casamento de famílias locais no século XIX. Diz-se ainda “aquando da construção da estrada, e da expropriação do terreno, a monumentalidade deste exemplar terá contribuído para a sua salvaguarda, não tendo por isso sido cortada”.

Porém, ao mesmo tempo, como se as duas coisas não fossem contraditórias, diz-se também:
Localizado à beira da antiga EN 229, no cruzamento da estrada municipal que liga ao centro de Contige, esta árvore, cuja plantação remonta, segundo aquela universidade [de Aveiro], “provavelmente, a 1878, quando se abriu a Estrada das Donárias, é um dos maiores eucaliptos classificados até ao momento em Portugal” sendo mesmo “recordista com 11 m de perímetro à altura do peito”.
O artigo termina referindo que a Universidade de Aveiro dá 139 anos, e o ICNF dá 126 anos.

Não se nota nada de estranho? 
Releiam-se as citações que coloquei.
Por um lado "a monumentalidade do exemplar" evitou que fosse cortada aquando da inauguração da estrada, por outro lado "a sua plantação remonta a 1878,  abertura da Estrada das Donárias".

Em que ficamos, já existia e era monumental em 1878, ou foi plantada em 1878?
Com erros deste tipo, chumbava muita gente em provas de leitura da 4ª classe... porém é perfeitamente aceitável que os peritos da Universidade de Aveiro, ou do ICNF, achem que esta datação é a única admissível.

O problema é que se a árvore já fosse grande em 1878, e tivesse digamos 100 anos, nessa altura, isso remeteria a plantação para 1778... e nessa altura a Austrália tinha acabado de ser descoberta, e ainda não havia oficialmente eucaliptos na Europa (cuja plantação começou aí após 1820).

Então que idade tem a árvore?
Bom, se estivéssemos noutra época, as coisas seriam bastante mais complicadas, eu teria que ir pedir a agrónomos que me dessem uma estimativa do crescimento dos eucaliptos, etc, etc. Iriam enredar-me numa retórica bacoca, e só serviria para me chatear - e isto acontece com amigos ou não.
Nos dias que correm, porém, não demora mais do que ser persistente.

O eucalipto de Contige terá entre 340 e 370 anos.
Pois, é um senhor problema para a historiografia nacional e mundial.

O que se terá passado?
Bom, provavelmente após a restauração da independência, em 1640, os portugueses voltaram à Austrália, numa altura em que por lá andavam também os holandeses, a fazer de conta que só exploravam o lado ocidental, e deixando o lado oriental intocável. 
No entanto, por essa altura, em 1642, Abel Tasman declarou a Tasmânia, ilha a sul da Austrália, que ficou com o seu nome. Terminaram as explorações por mais 120 anos, onde se fez de conta que a Austrália não existia, até Cook e Sandwich trazerem esses pratos para cima da mesa. 

A espécie do eucalipto de Contige parece-me ser a nativa da Tasmânia, a tal ilha descoberta há 376 anos. Assim, poderíamos pensar que algum senhor de Contige embarcou com Abel Tasman, e trouxe uma semente que plantou na sua terra natal. Porém, não me parece que tenha sido isso. Simplesmente, os portugueses iam com alguma frequência a Timor, e à Austrália, e não deixaram de trazer eucaliptos. Esses eucaliptos não eram autorizados ser plantados, mas creio que terá havido excepções, que passaram ao lado dos oficiais responsáveis, e os eucaliptos crescem bem.

O problema só terá sido detectado em 1878, quando a árvore já teria uns 7 a 8 metros de perímetro, ou seja, já era um belo colosso, e ainda que a Junta das Estradas tivesse pensado em eliminar o mal pela raiz, fazendo passar a estrada a direito contra a árvore, a resistência da população ao corte terá obrigado a fazer um "S" na estrada, evitando o seu corte.

Como saber a datação do eucalipto sem fazer uma extracção dos seus anéis?
Acontece que o crescimento dos anéis tem uma média, que não muda muito, e andei à procura de saber qual seria o quociente no caso do eucalipto, até que encontrei uma página simples, feita à medida do interessado, escrita por Teo Spangler:
onde ela refere um processo simplificado - e naturalmente sujeito a erros - que consiste em determinar o diâmetro do tronco da árvore à altura do peito (DBH- diameter at breast height). Curiosamente, usando centímetros, isso dá logo uma estimativa da idade:
For a rough estimate, use the diameter of the tree's trunk in centimeters. The number is an approximation of the years the tree has been alive. For example, a eucalyptus with a diameter of 30 centimeters at breast height is approximately 30 years old.
Se usarmos, o perímetro de 11 metros, isso dá 350 cm de diâmetro, e portanto 350 anos de idade, como estimativa grosseira. 
Claro que o céptico militante, preferirá acreditar na história do ICNF ou da Univ. Aveiro, porque não exige pensar, exige apenas acreditar nos "peritos". E na dúvida, aceita ser enrolado uma e outra vez, descansando no conforto de pertencer à opinião autorizada da maioria instituída.
Por uma questão higiénica, e por respeito ao ensino primário, deixo uma versão alternativa.
Só por curiosidade final, faço notar que de acordo com Teo Spangler (que se baseou em estudos universitários documentados), para uma idade de 130 anos, o diâmetro da árvore deveria ser 1 metro e 30 cm, e o seu perímetro 4 metros (e não 11). Mas o que interessa isso para o ICNF?

Especialmente, espero que a árvore, que está nos anais de Contige nunca precise de ver cortados os anéis. Porque alguém - propositadamente ou não, deixou essa prova da presença portuguesa na Austrália, e quem quiser ver vê, quem não quiser, basta-lhe continuar a fechar os olhos.