quinta-feira, 31 de maio de 2018

Nebulosidades auditivas (61)

Acontece, mais frequentemente do que seria expectável... apagam-se as luzes dos candeeiros da rua quando passam os transeuntes.
Não é caso de um candeeiro particular, nem de nenhuma cidade em particular. 
Acontece tanto, que a pessoa pode ser levada a pensar que tem alguma interferência com o sistema, ou até que alguém está a gozar consigo. Há quem não ligue, ou nem se aperceba do assunto, mas o fenómeno está espalhado, conforme podemos ver neste artigo (e comentários a ele):

IO9 - por Esther Inglis Arkell

ou ainda, neste vídeo. A explicação que encontramos no artigo, é totalmente insuficiente, aplicável talvez num ou noutro caso. Não se tratam de lâmpadas de sódio que estão em fim de vida, e começam a falhar intermitentemente, por vezes estão mesmo associadas ao simples passar do transeunte, ou não estão associadas a coisa nenhuma. Aliás, sempre me lembro de haver um ou outro candeeiro onde isto ocorria. A razão pela qual se mantem este tipo de lâmpadas de sódio, e não se passa para LED, como todos somos aconselhados a fazer em nossas casas... com tanta preocupação energética, pois é uma outra incógnita interessante, espalhada pelo mundo!

Durante vários anos, o candeeiro do lado esquerdo da minha casa, tinha a candura de apagar quase sempre que eu chegava à varanda, depois voltava a acender, apagando de novo, etc... depois o da rua nas traseiras começou a fazer a mesma coisa. Creio que no final do ano passado isso acabou, até que neste mês começou a falhar o da frente do lado direito. Enquanto escrevia isto, apagou várias vezes, enquanto ia à varanda fumar. Houve outro no início da rua, que se apagava quando alguém passava, mas depois ficou bom! Noutra cidade, onde costumo passar fins-de-semana, o mesmo tipo de ocorrência com um candeeiro em frente, e com dois na praça ao lado. A minha mulher faz o esforço de não achar nada disto estranho.
Uma outra ocorrência bizarra - nunca me lembro de ver tantas gaivotas em certas cidades - não costeiras, quanto aconteceu nos últimos anos. Aliás, antes havia o ditado "gaivotas em terra, tempestade no mar"... Perguntei sobre isto, e disseram-me que era devido às lixeiras (... como se não existissem lixeiras antes)! 
Bom, mas o que é certo é que as gaivotas já disputavam o território com os pombos, e menos polidas que estes roubavam comida das esplanadas de forma espalhafatosa. Uma gaivota pousava sistematicamente em cima do candeeiro do lado esquerdo. Quando deixava o carro por baixo, tinha um presente. Numa outra casa, a quase 10 Km da costa, pousavam no telhado, e não havia noite que não ouvisse o seu constante grasnar. Agora, subitamente, de um ano para o outro, ou foram todas exterminadas, ou acabou a tempestade no mar... porque já não as vejo.

Do tempo em que as coisas começaram a ficar estranhas, ou em que passei a dar outra atenção à sua estranheza, fica uma canção dos Keane:

Keane (2009) Everybody's Changing

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Berlenga - VAR e BAR

Num comentário de MBP, surgiu a indicação para um texto sobre a etimologia da Berlenga, publicado por António Augusto Batalha Gouveia, em 1975, no jornal "A Voz do Mar", numa rúbrica intitulada  a "História esquecida das palavras", dedicado à origem do topónimo "Berlenga":


Como a transcrição do texto do jornal está com inúmeros erros, que comprometem seriamente a leitura, que é aliás uma leitura interessante, deixo aqui o texto já corrigido.
Após isso incluo alguns comentários sobre este assunto, nomeadamente sobre a existência do forte, ou palácio, das Berlengas ao tempo de D. Afonso Henriques, e ainda sobre "BAR", uma sílaba de prefixo, que deve ser ligada a "VAR" (... mas não enquanto abreviatura de videoárbitro!)

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BERLENGA

O escrivão da esquadra flamenga e saxónica dos cruzados que auxiliaram D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa aos mouros, Osberno ou Osborne, descreve nestes termos a chegada dos navios a Peniche vindos do Porto (1143):
«No dia seguinte aportámos com felicidade à ilha de Peniche, distante do continente oitocentos passos. Abunda esta ilha em veados e coelhos; também se encontra nela a planta do alcaçuz. Os tírios chamaram-na Eritreia e os cartagineses Gadir, que quer dizer «sebe», porque para além dela já não há mais terra; por isso se diz o extremo limite do mundo conhecido. Junto dela há ainda duas ilhas a qual o vulgo chama Berlengas, corrupção de Baleares, e numa delas existe um palácio de maravilhosa arquitectura com muitos alojamentos de arrecadação, o qual, segundo dizem, serviu outrora de agradabilíssimo retiro particular de certo rei.» 
Admitindo a existência de um ou outro leitor de «A Voz do Mar» interessado nestes assuntos vou, tão resumidamente quanto o permite a clareza, proceder à investigação etimológica dos nomes atrás transcritos começando pelo nesónimo Berlenga.

A procura dos étimos dos nomes não pode deixar de tomar em consideração os doutos princípios enunciados pelo reputado etimologista francês Turgot, os quais se podem sintetizar nestas três alíneas:
a) Procurar o étimo na língua indígena a fim de se adquirir o conhecimento da derivação.
b) Reencontrar a raiz achada através do derivado produzido pela alteração fonética;
c) Reencontrar o sentido determinado pelas mudanças semânticas.

Deste modo, e através de raciocínios apoiados em dados linguísticos bem determinados, chegar-se-á ao reconhecimento dos «fósseis» linguísticos e sua significação.

Ao falar dos antigos habitantes de Peniche o cruzado Osborne refere apenas dois povos, aliás, originários da mesma etnia: os tírios e os cartagineses ou, como também são conhecidos, os fenícios e os púnicos.

Na realidade, os exames antropométricos realizados em naturais de Peniche corroboram aquela informação porquanto neles foram detectadas características somáticas afins daqueles antigos povos (General João de Almeida, Relação das Estações Arqueológicas do Continente). É pois baseado na área linguística a que tais povos pertenciam que irei pesquisar o nesónimo Berlenga que o supracitado escrivão diz, equivocadamente, ser corrupção do nome Baleares.

O nome Berlenga aglutina os dois elementos lexicais aramaico-cananeus Bar e Laha significativos, respectivamente, de «filho» e «deus». Anotarei, por mera curiosidade, que o país a que se dá hoje o nome de Síria era outrora conhecido por Túria, Tyria e Tíria e daí o chamar-se indiferentemente sírio ou tírio ao povo que habitava a estreita faixa de terra situada entre os contrafortes do Anti-Líbano e o litoral mediterrânico.

Síria ou Túria (literalmente «terra dos touros ou dos deuses») era pois aquele pequeno país cuja principal cidade, Turo, Tyro ou Tiro, deu o nome à região. Tiro, à semelhança de Peniche, era igualmente uma ilha fortificada.

Alinharei seguidamente algumas considerações relativas aos supracitados temas Bar e Laha. Na obra, a todos os títulos notável de Adolphe Lods, Israel, das Origens até Meados do Século VII a.C., pág. 316, aquele autor refere alguns teónimos dos panteões fenício-palestinianos onde entra o elemento Bar: Baraté (filho da deusa Até), Bargôs (filho de Qôs), Bardesdn (filho do deus do rio Daisdn) e, repare-se, Barlaha (filho de Deus).

A voz bar apresenta-se saturada de significação religiosa por remontar a sua origem lexical àquela fase cultural em que o homem concebeu as águas marinhas como a fonte de todas as formas de vida inclusivé a própria. Para os arameus a palavra bar enterrava o conceito de «filho primogénito», tendo os árabes perpetuado no seu léxico amesina palavra (grafada bahr) como denominação do mar.

Os antigos cretenses ornamentavam a sua olaria com diversos motivos marinhos dentro os quais sobressaía o polvo. Porque este molusco como decoração dos vasos sagrados utilizados nas libações às divindades? Porque o polvo representava para aquele indómito povo, que antes de qualquer outro dominou o Mediterrâneo, o primogénito divino, isto é, o «filho», (bar) da «água» (Nu ou Na em egípcio).

Foi da junção das vozes bar e na que se formou o basco barna e o latim e português perna. A dicção polvo vem, como se sabe, do grego polypous que naquela língua queria dizer «de muitos pés». Este ser marinho, por ter oito pernas foi pelos gregos chamado oktôpous (oito pés), nome que transitou para o inglês sob a grafia octopus.

Segundo Philon de Biblos, Bahturo, Baeturo ou Baetulos era um dos grandes deuses fenicios, «filho do Céu e da Terra, irmão de El, de Dagon e de Atlas. Ora é deste nome Baeturo ou Baetulos que derivou o grego Bartolomaios - literalmente, «filho» (bar) do «deus» (turo) «grande» (de maios) — donde o actual antropónimo português Bartolomeu.

Na escultura e pintura religiosa do Antigo Egipto as divindades apresentam-se, por vezes, sentadas com as pernas cruzadas. Acontece que em grego os senhores ou deuses do Olimpo eram chamados Kurios, palavra entrada no latim para denominar, quer a «perna» (crus) quer a «cruz» (crux) que com ela se fazia.

No próximo artigo irei investigar o tema Laha que, como acima disse, é o nome árabe de «deus».


BATALHA GOUVEIA
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_____________________________________________________ (imagens do artigo)


O Forte de S. João Baptista, em Berlenga (etimologia)

Forte ou Palácio das Berlengas?
Segundo a descrição citada de Osborne, já existia na Berlenga "um palácio de maravilhosa arquitectura com muitos alojamentos de arrecadação", e esta descrição antecede em quase 400 anos, a possível instalação de monges jerónimos, feita em 1513, com o auxílio da Rainha D. Leonor, no reinado do seu irmão, D. Manuel.

Uma adaptação para forte foi feita no decurso da Guerra da Restauração, por D. João IV, onde serviu uma resistência heróica de 30 soldados, comandados pelo cabo Avelar Pessoa, na Batalha das Berlengas em 1666, contra uma numerosa força invasora espanhola.

Ainda no reinado de D. Sebastião foi edificado ou terminado o Forte de Peniche.
Ora, as típicas guaritas de soldados estão presentes no Forte de Peniche, assim como estão na Torre de Belém, e em praticamente todas as fortalezas portuguesas da época, do Séc. XVI ao XVIII.
Onde estão essas guaritas no Forte das Berlengas?

O que se vemos, sim, são múltiplas janelas, talvez indicando "muitos alojamentos de arrecadação", e vemos uma estrutura arquitectónica que não se assemelha a mais nada que se veja em Portugal, ou até mesmo fora de Portugal.
Não se questiona que o forte tenha sido parcialmente destruído, e reconstruído, mas aparenta ter sido sempre preservada alguma traça original.

Essa traça original leva-nos para ambientes mediterrânicos, talvez de origem árabe, talvez ainda mais remotamente, de origem fenícia ou púnica. Nota-se ainda, bem marcada, uma linha horizontal, à mesma altura em toda a fortaleza, e se fosse uma possível altura máxima de água, estamos a falar de perto de 8 metros de diferença. No entanto, o mais natural é ter sido construída com uma altura de água semelhante à de hoje, e convém dizer-se, que é uma construção notável.

Seja como for, dando crédito ao cruzado inglês, conforme é dado, então existiu ali um "Palácio das Berlengas", durante a presença árabe, e talvez mesmo muito antes disso, podendo ter origem púnica, ou mesmo nacional, na primitiva Lusitânia dos Turdúlos.

BAR ou VAR?
Há uns anos atrás, num comentário, e num texto "Aletheia" deixei comentários sobre o prefixo "bar", que significa "filho", conforme é mencionado por Batalha Gouveia. Parece-me estranho que Batalha Gouveia, nos múltiplos exemplos que deu para o prefixo "bar", não tenha invocado "barão", ou mesmo "varão", que significa o primogénito masculino... e dispenso repetir os argumentos, mas acrescento que o "varão" era o primeiro de "vários", e a "vara" era um cajado para conduzir a "vara", que não sendo porcos, numa versão menos antropófaga, seria de carneiros (como vara de Aarão). O mesmo pode ser dito para um "barão" à frente da "barra", notando ainda que o primeiro homem era natural ser filho, ser "bar", ser "barro".

Concordando com o etimologista em várias menções, como a semelhança entre Síria e Túria (e recordando aqui como a "Atouguia" poderá vir da "A Touria"), não sigo a sua derivação de Berlenga da forma "Bar-laha", preferindo manter as razões que invoquei na etimologia sobre a Berlenga.

domingo, 6 de maio de 2018

Nebulosidades auditivas (60)

O filho de Afrodite é Eros, mais conhecido por Cupido, enquanto filho de Vénus, na vertente romana.
Aphrodite's Child foi o nome da banda de Vangelis e Demis Roussos, que faria um considerável sucesso entre 1968 e 1972. Esse nome foi escolhido pelo representante da Mercury Records, e a ligação entre Mercúrio e Vénus, é próxima... ainda que Mercúrio ou Hermes, tenham maternidade em Maia (na vertente romana ou grega).

Com a Grécia mergulhada na Ditadura dos Coronéis, em 1967, a caminho de Londres, Vangelis (Evangelis) e Demis (Artemios) ficaram retidos em Paris, apanhados pelo Maio de 1968, de que se comemoram agora 50 anos.
O seu primeiro sucesso, "Rain and Tears" (uma adaptação de um tema barroco do Séc. XVII do compositor alemão Pachelbel), tornou-se um sucesso ligado aos protestos de 1968, segundo Demis Roussos, porque "rain and tears" lembrava aos jovens o gás lacrimogéneo usado pela polícia.

Aphrodite's Child - Rain and Tears (1968)

Face à figura magra que aparece no vídeo, pode não ser fácil reconhecer Demis Roussos, sendo mais volumosa a presença de Vangelis no teclado (de óculos escuros).
Ambos tiveram um sucesso enorme. Especialmente Vangelis, já que Demis Roussos, tendo um sucesso estrondoso na sua carreira a solo nos anos 70, não se adaptou bem à dinastia song que reinaria a partir dos anos 80. Fora desses circuitos mais juvenis, Demis Roussos tornou-se numa estrela incomparável para a geração de 40/50, eclipsando o circuito que distribuía então a música francesa e italiana - e que dominava uma certa distribuição discográfica europeia (neste caso a Philips).

Demis Roussos - Forever and Ever

Não era difícil ouvir dizer que a sua voz era "divina", de tal forma as musas do monte rodopiante deixaram ali a sua marca. Mas, a partir dos anos 80 e 90, já praticamente só repetia os seus sucessos dos anos 70, e os delicados trinados que as musas lhe tinham deixado já não entravam numa cultura musical onde a bateria dominava.

Nesse aspecto, foi Vangelis muito mais bem sucedido, não porque abusasse da batida... aliás quer um, quer outro, não desdenharam a herança das puras melodias, mas especialmente porque se soube enquadrar bem no circuito anglo-saxónico, especialmente em bandas sonoras que lhe valeram prémios em Hollywood, nomeadamente o Óscar com "Chariots of Fire" (e o que é esse filme, sem a música?)...
Figura muito mais discreta do que espalhafatosa, ao contrário de Demis, aparece num vídeo da sua colaboração com o vocalista dos Yes, Jon Anderson. O álbum The friends of Mr. Cairo é um exemplo menos conhecido da genialidade de Vangelis.
Jon & Vangelis - The friends of Mr. Cairo (1981) - [versão completa aqui]

Mr. Cairo era um personagem secundário do filme The Maltese Falcon, com Humphrey Bogart, de que já falámos a propósito de Malta e Santelmo.

Mas, mesmo para os personagens mais abençoados pelas musas, Mercúrio pode ser hermético na divulgação do seu trabalho, e se Demis Roussos já nos deixou, Vangelis continua a produzir, ainda que não tenha necessariamente a divulgação que se esperaria, e que é tão bem gerida pelos mercadores dos nossos ouvidos.
Fica aqui o seu último trabalho de 2016, de nome Rosetta, a propósito da missão da ESA, que redundou no "estrondoso" sucesso de que aqui falámos (aliás ainda hoje deveríamos estar extasiados com as imagens que transmite do calhau onde caíu).

Vangelis (2016) Rosetta Mission - Origins

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Busíris de Isócrates

Busíris é uma das oratórias de Isócrates.
Isócrates, que conheceu Sócrates, dedicou-se à retórica, sendo apelidado "Pai da Retórica".
Qual é o Busíris em questão?

Diodoro Sículo coloca Busíris como fundador da linha dos faraós do Egipto, que reinavam em Tebas. Mas, além disso aparecia num contexto mítico mais alargado, envolvendo Osíris e Hércules. Por exemplo, Bernardo de Brito toma-o como rei da Fenícia, numa aliança que os Lomínios produziram no sentido de se verem livres de Osíris. 
 
Vasos gregos, que ilustram Hércules matando Busíris.

Esta oratória de Isócrates é dedicada, não tanto à história, mas sim ao bom uso da retórica, numa situação que se afigurava complicada - defender o tirano Busíris, que passava por ter morto convidados para jantar, e deles ter feito refeição. 
A cargo da defesa do tirano, Isócrates inventa um personagem, Polícrates, no intuito de mostrar como a sua retórica, e não a de Polícrates, permitiriam uma melhor defesa do sujeito.

O busílis na defesa de Busíris, é que todos sabiam perfeitamente os crimes de que estava acusado, e para Isócrates não valia a pena estar a encontrar justificações artificiais para esses crimes. 
Na sua opinião, o uso da retórica era mais eficaz focando nas virtudes de Busíris, que Isócrates chega a argumentar como fundador da civilização egípcia.

Seria o equivalente de termos um antigo dirigente acusado de corrupção, e os seus advogados estarem mais entretidos em argumentar a sua inocência - algo em que ninguém acreditaria, ao invés de procurarem argumentar que, sem a sua direcção iluminada, o país se teria afundado numa crise. Bom, no caso de Busíris parecia ser mais fácil a Isócrates argumentar pelos aspectos positivos.

Poderá pensar-se que estou a falar de Sócrates e não de Isócrates (ver por exemplo: "O Galo de Sócrates" e "Abade Faria - é do mundo dantes"), mas aí a retórica tem já outra escola, onde uma linha de defesa é o contra-ataque. Ou seja, divertir do assunto em questão, atacar os acusadores, invertendo os papéis de vítimas e criminosos. 

Manobrar a retórica foi uma arte política com sucesso, quando os políticos ainda conseguiam inventar estórias razoáveis, com que iludiam os votantes. Dispensado isso, descuidando na argumentação, na conversa necessária para vender gato por lebre, a arte política resume-se a uma simples tirania de imposição do status quo. As pessoas já sabem que é gato, os políticos pouco tentam iludir, e simplesmente tentarão convencer, no futuro, que lebres foram um mito.

Este texto é sobretudo sobre Busíris e Busílis.
Na minha opinião são a mesma palavra, tal como já se escreveu "simpres" em vez de "simples", ou "blando" em vez de "brando", etc.
Leio a etimologia oficial de "busílis", e enfim...
Na minha opinião, a expressão foi usada de forma erudita, referindo-se à oratória "Busíris" de Isócrates. 
O busílis da questão, seria o uso oportunista da retórica, para iludir verdade num julgamento.
A retórica da falsidade ganhou muito mais adeptos e argumentos ao longo do tempo. 
A verdade passa por ser uma descrição tão honorável quanto a mentira, tendo a verdade a desvantagem de não poder usar da imaginação para poder ser embelezada e colorida com as cores da moda.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Desafinações visuais (3)

"An Occurrence at Owl Creek Bridge" é uma curiosa história de Ambrose Bierce, escrita em 1890.
O enredo passa-se na Guerra Civil Americana, onde aliás Bierce também combateu, e assenta basicamente num momento de execução por enforcamento. O homem parece escapar, porque a corda à volta do pescoço parte, conseguindo finalmente regressar à sua quinta... mas quando se prepara para abraçar a sua mulher, sente uma pancada no pescoço, e invade-o a escuridão. O autor revela então que a pancada era a da corda a partir o pescoço, e todo o enredo anterior do livro, após "a corda se partir à volta do pescoço", era uma ilusão da consciência, em negação do fim inevitável.

Algo semelhante está no enredo do filme "BZ, Viagem Alucinante" (no original "Jacob's Ladder").

BZ Viagem Alucinante (1990) - Jacob's Ladder

A razão de mencionar este assunto:
Um laboratório suíço negou que a substância, denominada BZ, utilizada para envenenar o ex-espião russo, Sergei Skripal e a filha Yulia no Reino Unido tenha sido produzida na Rússia. A conclusão surgiu através da análise de amostras previamente enviadas pelo Reino Unido.        (Artigo no Correio da Manhã)
Também podemos ver que está em curso um remake de Jacob's Ladder, iniciado em 2016, e previsto estrear em 2018... bom, se é que não tivemos já uma ante-estreia!

O filme de 1990 é alucinante (conforme a oportuna tradução portuguesa fez transparecer), e com as coisas a 30 anos de distância, o filme foi para mim marcante, já que não percebi bem como saí quase ileso de um acidente letal à época, e a perspectiva filosófica do filme era desconfortável.

A substância BZ é uma droga com efeitos psíquicos funestos, tendo sido "alegadamente" usada pelos russos na resposta ao ataque terrorista num teatro de Moscovo, em 2002, e tendo resultado na morte dos terroristas... e também de muitos reféns. Portanto, por esse lado, os russos não ficaram mais salvaguardados do seu uso.
No entanto, o uso reportado no filme era o uso experimental no sentido de aumentar a agressividade para combate dos soldados americanos na Guerra do Vietname. O seu uso experimental pela CIA, entre 1955-75 foi atestado por documentos entretanto desclassificados. Por este lado, também não há inocentes, mas há a vontade infindável de lhes ir dando todos os descontos e contos.

No sentido explicado pelo Major-General Carlos Branco, constituindo-se a Rússia como alvo a abater, pela política externa norte-americana (... e aliados), faltariam pretextos para agravar a tensão, fizessem pouco ou nenhum sentido. As false flag operations precisam apenas de cavalgar um pretexto, nem precisam que este seja bom. Sendo claramente falso, vê-se mais nitidamente a fidelidade incondicional dos aliados, sendo independente da solidez do pretexto.
O caso do espião Skripal foi um, e o alegado enésimo ataque químico na Síria, outro... e as coisas não tendem a diminuir. Até porque, não tendo tido nenhum resultado prático, testaram a obediência das suas nações vassalas. À medida que as alegações do caso Skripal, ou da Síria, vão ficando mais absurdas ou estapafúrdias, os ingleses pensam agora em calar a RT (a televisão russa), e as notícias desaparecem, como se nada tivesse acontecido. Entretanto, a filha de Skripal já está fora do hospital, e os russos alegam que o coma induzido foi desnecessário, propositado para a notícia conveniente...

Uma vontade, que tem estado bastante clara, seria arranjar um pretexto para boicotar o Mundial de Futebol, a realizar em 2018 na Rússia. Uma oportunidade de Putin fazer o seu show internacional, algo que incomoda especialmente o lado politicamente correcto ocidental, a quem estragou o espectáculo degradante que Ieltsin proporcionava à festa do fim soviético.

Para se entender melhor o problema do Mundial de Futebol de 2018, sugerimos:
até porque a contra-resposta russa foi logo inquirir sobre a ida à Lua... ou melhor, alegada ida à Lua.
Digamos que, Portugal boicotar o Mundial de 2018, basicamente o último em que Ronaldo poderá jogar em condições, seria impensável. Há que perceber as razões profundas da diplomacia internacional.

Quem estiver mais atento às explorações espaciais, poderá anda reparar que o fim do Space Shuttle, em 2011, tornou o cosmódromo de Baikonur o único ponto de ligação com a Estação Espacial Internacional, e os astronautas americanos têm que fazer uma visita à Rússia (ou Cazaquistão), se quiserem brincar no espaço. Esta suspensão foi, mais ou menos, pela mesma altura que Obama anunciou Marte como objectivo para 2037 (... para Trump - daqui a 3 anos!). Isto, para não falar dos planos detalhados que a NASA anunciou em 2004, que incluíam uma estação lunar a construir de 2012 a 2020 (sim, faltam menos de dois anos para concluir)!

Claro que a situação é ignorada, tentada passar como se nada existisse, porque não existe nada... ou seja, o programa espacial americano terá sido suspenso por completo, algo que desagradará de forma incontornável aos americanos, mas que poderá ter o contraponto vantajoso da não revelação de provas sobre a não ida à Lua em 1969-73.

Big Bang Theory - episódio em que Howard sai de Baikonur, em direcção à Estação Espacial.

Claro que o que seria mesmo impensável.... seria Putin anunciar a chegada dos russos à Lua, porque entretanto já poderá haver tecnologia suficiente para o fazer (sem a realização cinematográfica de Stanley Kubrick).

domingo, 15 de abril de 2018

Nebulosidades auditivas (59)

Antes de os anos 80 serem confundidos com a década de 80, sabia-se que o período mais significativo de afirmação da música popular, e das discotecas, ia aproximadamente da segunda metade da década de 1970 à primeira metade da década de 1980.
Um filme marcante do disco-sound foi Saturday Night Fever, de 1977, que contou integralmente com música dos Bee Gees. 
Talvez porque se queira esquecer um tempo em que os bigodes eram populares, os pêlos no peito eram requisito de qualquer macho, tempos em que se usavam calças com boca de sino, e camisas com desproporcionadas golas pontiagudas, talvez por isso, sejam menos considerados.

Mas, o estilo de vida que veio a tornar-se corrente nas décadas seguintes, foi formado ainda nos anos 70, tendo como ponto alto da juventude as saídas ao sábado noite em direcção à discoteca da moda... discotecas que basicamente foram inventadas nessa altura, seguindo mais ou menos o modelo da discoteca que se via em Saturday Night Fever, e distinguindo-se das anteriores "boites". A principal diferença é que a música aumentava para níveis ensurdecedores, o número de mesas e cadeiras era reduzido praticamente a zero, e a decoração era focada na pista de dança. Segundo as mães, os filhos iriam todos ficar surdos cedo... mas a maior conquista da discoteca foi tirar a má conotação das boites - sítio pouco recomendável para boas meninas.

Em Portugal, a transição dos anos 70 para os anos 80 foi enorme... nas mesmas aldeias em que nos anos 70 praticamente só víamos burros e mulas, no final dos anos 80, com os subsídios vindos da CEE (... para desmantelar a agricultura), abundavam os Mitsubishis Pajero e os Toyotas Land Cruiser. Se Portugal mudou pouco na última década, teve uma transformação enorme entre os anos 70 e os anos 80, que se viu especialmente em pequenas vilas e aldeias. O estilo de vida citadino, que era um modelo dos olhares campestres, foi invadindo o país. Os emigrantes, que faziam vista nos verões com os seus carrões, foram regressando, percebendo que os conterrâneos já viviam melhor que eles, e os putos que aos 15 anos já trabalhavam, passaram a frequentar universidades - coisa que antes era só para "ricos".

A discoteca, enquanto espaço agregador de centenas de pessoas, e a música enquanto ponto alto da criação e recriação humana, tornou-se ainda mais popular, porque ninguém sabia dançar... simplesmente mexia-se! Os que se armavam em John Travolta, eram tão raros, que passavam por ridículos. 

A música ganhou um papel tão grande na vida das pessoas, que um ponto central na casa era a "aparelhagem"... algo que foi desaparecendo com o aparecimento do Youtube. 
Se há 30 anos investi numa boa aparelhagem, e assim pensava quase toda a malta, especialmente aqueles que distinguiam o som do vinil do som dos CDs (havia muita gente com excepcional orelha)... agora ouço apenas música no computador, e deixei de a comprar.
Sim, o computador pode ter som Bang & Olufsen, mas não é a mesma coisa, ainda que não sinta a falta das 8 colunas distribuídas pela sala.

Bee Gees (1976) - You should be dancing (Saturday Night Fever, 1977)

Recupero aqui a voz de falsete de Barry Gibb, um pouco a propósito da voz de falsete que os media internacionais estão a fazer a propósito da Síria... 
Finalmente, vi na RTP3, o Major-General Carlos Branco fazer uma análise sensata da situação, colocando o assunto dentro dos novos objectivos prioritários da defesa norte-americana, que passou a ter Rússia e China como principais preocupações, relegando o terrorismo para segundo plano. E as coisas são de tal forma, que estranhamente apenas um investigador do ISCTE estava no registo de falsete dos media internacionais, acusando sistematicamente os restantes de estarem a fazer voz da propaganda do regime sírio (... talvez por avença da Fundação Luso-Síria). 

Um registo a não perder, mostrando que há pessoas com cabeça nas nossas forças armadas:

Tendo ficado esclarecido quanto aos novos planos de fazer a Rússia novo inimigo global, do "mundo livre", nada melhor que regressar aos anos 70, com o mesmo mote de entretenimento... you should be dancing, yeah!

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Teogonia (1) Monte Helicon

A Teogonia de Hesíodo começa com o "Monte Rodopiante", tradução livre de "Monte Helicon", uma montanha que se situa perto de Delfos, na Grécia.

Este rodopiar está também na estrutura helicoidal do DNA, e curiosamente podemos encontrar essa estrutura não apenas em escadas, ou parafusos sem fim, e noutras obras arquitectónicas, mas também em poses singulares de bailado, ou em simples poses de modelos... porque em qualquer um destes casos, o rodopiar helicoidal, confere uma ideia de elegância, no nosso sentido estético. De certa maneira, é como se a própria estrutura helicoidal do DNA programasse o nosso gosto pela sua forma geométrica.

Gostei de fazer o pequeno exercício de traduzir os primeiros versos da Teogonia numa perspectiva diferente, em que as divindades são associadas ao seu significado, e não a simples nomes, o que torna a enumeração enfadonha.
Por exemplo, em grego, podemos ler Dia, exactamente assim, mas depois é traduzido, nas múltiplas versões, como uma designação de Zeus. Se lemos Cronos, devemos lembrar que está associado ao Tempo... por muito que queiram separar letras posteriormente inventadas. Esta tradução vai assim chamar fonte profunda à fonte Hipocrene, associada a Pégaso, muitas vezes traduzida como fonte do cavalo. Como "hipo" tanto serve "cavalo" ou "abaixo", a tradução procura um conveniente sentido do conjunto, e não qualquer literalidade.


Teogonia, de Hesíodo 
(1-62)

Cantemos com as moças do Monte Rodopiante, de grande e divino rodopiar, e que, com pés suaves, dançam em redor da Fonte Iodina, altar do Dia, o potente filho do Tempo.
Quando banham os seus ternos corpos nos permissivos rios, ou na fonte profunda, atingem o mais alto rodopiar, movendo-se em rápidos passos. 
Assim se erguem e emergem da noite, e pelo véu da espessa neblina saúdam o Dia quando desponta. Saúdam a Era de argumentos caminhando sobre sandálias duradouras, as Aves de acutilantes olhos, e a Luz que pelo Arco do Sol dispara os primeiros raios.

Quadro de Peruzzi (Séc. XV) - Apolo, com o Arco que dispara Raios de Sol, e as nove musas:
Calíope, Clio, Erato, Melpómene, Terpsicore, Polímnia, Euterpe, Tália, Urânia.


Saúdam o Mar que envolve a Terra, veneram o Temer, o Amor e olhos doces, a Jovialidade duradoura, o belo Crepúsculo, a Ferida, o Esquecimento, e o Tempo conselheiro. A Alvorada, com o grande Sol e a brilhante Lua, também são saudadas, tal como a Terra, o grande Oceano, a escura Noite, e toda a raça de entidades imortais.

Certo dia, quando Hesíodo pastoreava os seus carneiros, nas encostas do sagrado Monte Rodopiante, ensinaram a bela canção, dita pela deusa às filhas d'O limpo Dia que tem a égide:

- Pastores silvestres: Vis infâmias, ventres balofos, sabemos alimentar, tal como falsidades por verdades passar, mas ensinando, sabemos a verdade desvelar.

Assim disseram as filhas do grande Dia, dando-me um bastão e uma coroa de louros, segredando em voz divina as coisas que antes foram e serão, mas não para falar de si, do princípio ao fim. 
- Falo na pedra ou no carvalho?
"Alla ti e moi tauta peri drun e peri petren?" - irrelevância - divagar sobre a pedra e o carvalho?

Venham com as musas que alegram o espírito d'O limpo Dia com palavras que foram, são e serão. 
Assim corre o fluxo doce das suas bocas, ressoando e alegrando a morada gelada de Zeus e dos imortais do Olimpo. Elas, com a sua voz imortal celebram em canção o Início, saindo os deuses da Terra e do Céu (ou seja, de Gaia e d'Ourano).
Depois falam de Zeus, pai de deuses e homens, e de como ele é excelente entre os deuses. Cantam da raça de Homens e Gigantes, e as moças filhas da égide do Dia, alegram o coração d'O límpido Dia.

Entre as Danadas, a Memória, que reina nas colinas Libertadoras, gerou a união com o filho do Tempo, em esquecimento de males e repouso de lamento. Pois, durante nove noites esteve o Dia consigo, entrando no sagrado leito, longe dos imortais. E, quando o ano passou, e as estações se formaram do desvanecer dos meses e dos dias contados, ela gerou nove filhas, em harmonia de pensamento, cujos corações estão em canção, e cujo espírito é livre, como topo d'O limpo nevado.
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PS ... umas estão mais literais que outras, "entre as Danadas" resulta de "em Pieria", mas Pieria não é apenas um local, é o nome da mãe das Danaides. Além disso, Eleutério significa libertador.

Falo em pedra (nota: sobreiros são carvalhos).   Falo em carvalhos (imagem: bolota).


sexta-feira, 6 de abril de 2018

Lei - sai Carles, entra Lula, não Lulia

Sai Carles Puigdemont... porque os tribunais alemães não quiseram repetir a história, e desta vez consideraram inadmissíveis as acusações de rebelião e alta-traição, pedidas pelo judicialismo espanhol.
Num comentário, escrevi que estava "com alguma curiosidade para perceber o que a Alemanha iria fazer, porque tinha independência económica para fazer o que lhe apetecesse à Espanha, e não iria ficar muito bem na fotografia se participasse directamente na entrega do Puigdemont para o cárcere." Acabaram por decidir bem, para surpresa geral, especialmente dos Torquemadas espanhóis, que nem se atreveram a criticar a decisão alemã... 

Entra Lula... porque já falámos aqui sobre o juiz brasileiro Sérgio Moro, 
e portanto, não é de espantar que tenha decidido a rápida prisão de Lula, dada a sua apadrinhada ascensão pela novela político-judiciária brasileira.

Não Lulia, porque Michel Temer Lulia (sim, o apelido é Lulia...) foi gravado a autorizar um suborno. Ora, um detalhe, que pouco impressiona o justicialismo exemplar de Brasília, capaz de destronar e prender presidentes.
Quando a população prefere esmagadoramente Lula a Lulia, nada como uma justiça selectiva, para completar o sistema democrático. Não nos esquecemos das exemplares democracias, onde o Politburo conhecia melhor o bem para o povo, do que a maioria do próprio povo.

Lei
A lei do leitão é a do leite - mama ou morre.
A porca - no leito, e a lei do leite entre leitões, que se deleitam.

A coisa complica-se quando são muitos a mamar, e há mais leitões que tetas ou leite.
Aqui funciona a lei preferida dos bacorinhos - a lei dos "mais aptos", normalmente os mais velhos, que tendo acesso às primeiras tetas, crescem e vão remetendo os mais novos para as mais pequenas... ou para nenhuma.
A celebração do poder judicial como não escrutinável...

Lei na pedra
É mais conhecida a lei da pedra, em apedrejamentos, praticados pelos judeus.
Porém, para a mitologia religiosa, ficou a lei escrita na pedra, como Mandamentos.
Há um pequeno detalhe, um eventual Moisés é colocado historicamente no Séc. XIII a.C., portanto uns 300 a 600 anos antes de serem encontrados os primeiros escritos hebraicos. 
O paleo-hebraico, que é fenício pintado pelos judeus como "hebraico antigo" é do Séc. X a.C., e pelo menos estamos com 300 anos de diferença.
Os mandamentos em francês - Phillipe de Champagne (1648)

Ou seja, havendo algo escrito na pedra, não seria em hebraico... mas também não é relevante, porque acreditando em milagres, nada é impossível, e o racional não interessa. Ou para grandes racionalistas, como os franceses, obviamente, teria sido escrito em francês...

Leitura
Lei aparece como forma imperativa do verbo ler. 
Agora dizemos irregularmente "lede", mas a sua forma regular seria "lei".
Isto é um indicador da forma escrita da lei, e terá sido essa a novidade... especialmente se escrita em pedra, porque seria mais dificilmente falsificável.

Quando vemos em latim "legis", e os diversos prefixos que herdámos - legislar, legislação, legítimo,... devemos notar que o "g" foi uma letra usada como o "h", muitas vezes sem valor fixo, variando, confundindo-se ainda com o "c".
Assim, também "legis" poderá ser lido como "lehis", ou seja, "leis".

Quanto ao leite, aparece na forma latina como "lacte", e conforme já referi, muitas são as palavras latinas onde o "ct" foi substituído por "it" (direito - directo, respeito - respecto, eleito - electo, ...).
Se aqui fizermos o mesmo, obtemos "laite" e a diferença para "leite" é mínima.


Interessa que há uma conexão entre as palavras, que é mesmo reconhecida, remetendo-a a um termo indo-europeu primitivo "leg" que significaria colectar. Interessando referir que "colecta" pareceria ter a variante "coleita", que é como quem diz "colheita", só que nesse caso ambos vêm de "colher"... 

A relação da lei com os leitões, explanada acima, fica ao leitor... ou lector.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Fossar no passado

Lluís Companys foi presidente da Catalunha de 1933 a 1939.
Barcelona, provisoriamente capital, caiu em Janeiro de 1939 na "Operação Catalunha" e pouco depois, em Março, caía Madrid, ficando o General Franco senhor de toda a Espanha.

Lluís Companys exilou-se em França, até que em 1940, as forças nazis ocuparam grande parte do território francês. Encontraram-no e prenderam-no. 
Estando acusado de rebelião, foi rapidamente extraditado pelos alemães, e sumariamente executado em Espanha, em Outubro de 1940, por um pelotão de fuzilamento na prisão do Castelo de Montjuïc.

Monumento de homenagem a Lluís Companys, monumento vandalizado ontem (3 de Abril)

A história tem estas pequenas coincidências.
Actualmente, Puigdemont está igualmente acusado de rebelião, ou sedição, foi preso pelos alemães e presta-se a ser extraditado para Espanha... para ser preso.

As comparações foram inevitáveis, e não caíram bem...
Alguns manifestantes colocaram um bigode hitleriano a Merkel que, apesar de estar à frente da Alemanha há mais tempo do que Hitler esteve, não controla os tribunais da mesma forma. Claramente não poderá mais, do que influenciar uma decisão judicial. Também convenhamos que Rajoy e Franco sendo ambos galegos, o que têm mais em comum é a falta de bom senso.

Em Maio de 2017, há quase um ano, Puigdemont inaugurava uma estátua de memória a Companys, talvez não imaginando a semelhança que viria a ocorrer nesta particularidade.

Fossar de la Pedrera - cemitério de Montjuic - monumento a Companys.

No tempo de Franco, foram abolidos os presidentes das regiões, em particular da Catalunha, e existiram então os "presidentes da Catalunha no exílio". 
Após Companys, Irla e Tarradellas estiveram nesse cargo, exilados em França, regressando finalmente Tarradellas em 1977, após a morte de Franco. 

Novamente, passados quase 80 anos, a Catalunha viu o seu presidente partir para o exílio, mas nestes tempos democráticos... Puigdemont nem sequer se pôde exilar em França, e só encontrou refúgio na Bélgica. 
Até que... voltam os fantasmas com 80 anos, e acaba novamente preso pelos alemães.  

A Espanha "constitucionalista" continua inconstitucionalmente sem Presidente da Catalunha, após realizadas as eleições constitucionalmente previstas. 
Nenhum inquisidor se preocupa a falha constitucional.
Rajoy sonha com a andaluza Inés Arrimadas, como representante máxima dos catalães.

Entretanto, as virgens internacionais não rasgam vestes, porque afinal Rajoy não se chama Putin, e acima de tudo, porque a crença na virgindade materna é um acto de fé do bom filho.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Nebulosidades auditivas (58)

Nobody does it better, makes me feel sad for the rest...

Carly Simon, uma das minhas vozes preferidas, começava assim o tema do filme "The spy who loved me", da saga James Bond, aqui com Roger Moore, e Barbara Bach como "Bond girl" (e que depois se casaria com Ringo Starr).  
Carly Simon - Nobody does it better (James Bond - "The spy who loved me", 1977)

É interessante que no final desta introdução, M diz "Send me an agent, AAA"...
Fala-se bastante em AAA, enquanto rating de crédito de agências financeiras, e durante a "crise" também em Eurobonds (European Bonds) como possível solução. O nome Bond também significa "obrigação" e as três letras são um sistema da sua classificação. 
Assim, uma alusão a AAA e Bond, é uma piada subtil, certamente propositada. 
Note-se que tal como 007 seria o código de James Bond, aqui AAA seria o código de Miss Moneypenny (nomenclatura igualmente económica).

Estes filmes faziam especial sentido no tempo da Guerra Fria, em que o espião de Sua Magestade fazia melhor que os espiões americanos, contra russos e outros "malvados", de serviço.

A ideia de ver os russos no papel de "inimigos de serviço", deixou de estar na moda, até ao momento em que Vladimir Putin arranjou uma esquema "democrático" de se manter indefinidamente no poder.
Putin, com 18 anos no poder, distancia-se assim de Angela Merkel, apenas com 13 anos consecutivos.
Mesmo assim, Putin teve que usar Medvedev para alternar como presidente, enquanto o cargo de chanceler alemão não tem limitações no tempo. 
Enquanto isso, pelos Estados Unidos passaram 4 presidentes (Clinton, Bush, Obama, Trump), e pelo Reino Unido 4 primeiros ministros (Blair, Brown, Cameron, May)... bom mas a recordista de tempo no cargo é claramente Isabel II, com 66 anos enquanto rainha.

Isto, a propósito da história absurdo-caricata de relações internacionais, envolvendo uma tentativa de assassinato do ex-espião Sergei Skripal, e que afectou também a sua filha.
Quando se tratou do envenenamento de Litvinenko, com Polónio 210, no ano de 2006, a situação também teve um grande mediatismo internacional, mas nada que se assemelhe à desproporcionada escalada global que agora envolveu expulsão de diplomatas, pela maior parte dos países europeus:

Países que expulsaram diplomatas russos devido ao caso Skripal (info)

Esta situação começa por ser caricata, porque nenhum faleceu, e a filha parece estar a recuperar bem.
Não tem nenhum precedente.
Ou seja, nunca em simultâneo tantos países decidiram expulsar diplomatas.

Que o Reino Unido tomasse uma atitude, seria expectável, mas enfim... tudo fraquíssimo, pois não exibiu provas publicamente. Que isso levasse à expulsão de diplomatas russos do UK, enfim...
Que, por arrasto, Trump quisesse assumir uma posição anti-Rússia, enfim... percebe-se porque tinha sido acusado de ganhar as eleições com expedientes informáticos russos... whatever!
Agora que, sabe-se lá porquê, mais 20 países tenham querido fazer o mesmo, só faz sentido se estivermos a jogar o jogo "Follow the leader".
Das múltiplas acusações que têm vindo a ser lançadas contra a Rússia, e houve muitas, especialmente desde a anexação da Crimeia... podiam ter escolhido muitos pretextos, mas este pseudo-envolvimento numa tentativa de assassinato, não faz sentido.

Skripal foi acusado de traição e preso em 2006, justamente no ano em Litvinenko morreu.
Em 2010 a Rússia fez uma troca de prisioneiros espiões com os EUA e UK, pelo que Skripal não teria grande interesse para os russos (nem deveria ter para os britânicos, que não o vigiavam).
Tendo isto acontecido na semana anterior à reeleição de Putin, tal acto só o desfavoreceria... e os eventuais interessados nisso seriam opositores internos ou externos.
Com "provas" de ligação à Rússia, que fazem lembrar as provas de armas de destruição massiva no Iraque, ou seja - que são invocadas mas não são conhecidas... a posição inglesa tornou-se aberrante, mas não tão aberrante quanto a de todos os carneirinhos que a seguiram. 

Acresce a toda esta situação as acusações de que o Facebook permite usar informação pessoal dos utilizadores... e parece que estamos a viver num mundo de crianças, que acreditavam no Pai Natal, e que não sabiam que podem ser manipuladas ou enganadas. 
Provavelmente as acusações à Rússia de interferências no Brexit, na eleição de Trump, nas eleições da Catalunha, e em qualquer outra em que os resultados sejam diferentes dos esperados, resumem-se a essa notável descoberta sobre o Facebook.

As coisas chegaram a um ponto em que já faltam os bons argumentistas para a narrativa dos media internacionais, sendo vendidas agora histórias da carochinha, sem sentido nenhum.

Em fim, enfim, outro vídeo da Carly Simon, apropriadamente com uma letra infantil Itsy bitsy spider:

Carly Simon (1987): Coming Around Again / Itsy bitsy spider 
(concerto em Martha's Vineyard... a ilha "chique", onde tinha casa de férias)

segunda-feira, 26 de março de 2018

Madrid, é cada vez menos Espanha

Madrid, estando com saudades de ver os catalães na rua em protesto, conseguiu prender Puigdemont ontem, por meio da polícia alemã, quando o "presidente catalão" regressava à Bélgica, onde estava exilado.


Madrid, é cada vez menos Espanha, e cada vez mais uma capitalzinha castelhana.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Nebulosidades auditivas (57)

Este texto é também sobre Stephen Hawking, que faleceu há uns dias.

O uso de sintetizadores foi popularizado no final dos anos 60 - por exemplo, era famoso o órgão de Ray Manzarek nos Doors. No entanto, bandas que usassem exclusivamente sintetizadores, só apareceram com o movimento New Wave, na transição do final dos anos 70 para o início dos anos 80, quando passaram a fazer sucesso as baterias electrónicas. Como a fartura deu em excesso, no final dos anos 80, voltou-se à formação tradicional de bandas pop.

Pioneiros na música electrónica, minimal repetitiva, levando o conceito até ao limite robótico, estiveram os alemães Krafwerk. Este "Trans-Europa Express" de 1977 é um bom exemplo:


 Kraftwerk (1977) - Trans-Europe Express

Uma particularidade menos conhecida, é que apesar de ter sido razoavelmente simples simular música electronicamente, por exemplo, num computador, foi alguma surpresa a dificuldade em simular a voz humana. Não deveria ter sido surpresa... porque afinal de contas, cada pessoa tem uma voz diferente, e há milhões de pessoas! Passar um texto a voz era simples, mas ficava estranho, e muito mais difícil era passar voz a texto (ainda hoje existem múltiplas dificuldades e falhas).

É neste contexto, do lado simples, que aparece a voz de Stephen Hawking... muito similar à voz sintetizada que podemos ouvir na faixa "Computer World" (1981), e que ele teria a possibilidade de operar, a partir de 1986.

Inicialmente o sistema era controlado pelo premir de um botão, associado à escolha de palavras, mas tendo ficado evidente que não havia aí nenhum movimento perceptível, a partir de 2005... foi dito que o sistema reconhecia o movimento do queixo por infravermelhos (entre outras coisas, como a previsão de palavras, que é usada nos telemóveis).

Há até um programa online que permite simular a mesma voz:
Durante estes 30 anos não conheci a utilização do mesmo sistema, ou similar, em mais ninguém, limitado fisicamente. E há diversos casos, nomeadamente em pessoas que são vítimas de AVCs, ou de acidentes limitadores da mobilidade. Tornando-se caso único, até a voz sintetizada acabou por ser uma característica associada a si.
Por muita destreza que Hawking tivesse no controlo dos dedos, e ao contrário da progressiva falta de destreza associada à doença, conseguir com um simples clique falar a uma velocidade aceitável, seria proeza de Guiness... e não vi sequer exemplos de pessoas normais a tentar fazer o mesmo. 
Cada um acredita no que quer.

Faço apenas notar que quando a voz perde a tonalidade individual, pode ser usada por qualquer um para o mesmo efeito. Ou seja, qualquer um com acesso remoto ao computador de Hawking poderia dizer o mesmo. A garantia de que era dito por Hawking é apenas a garantia dos crentes, e mais nenhuma outra. Na prática, as instituições que albergavam Hawking podiam colocar no sintetizador o que queriam que Hawking dissesse... e se o fizeram ou não, não sei.

A importância de Hawking seria mínima, mas foi grande o mediatismo científico. Foi alimentada uma figura proeminente, no espaço estratosférico da divulgação mediática, onde a sua incapacidade foi usada a favor da fama. 
Nem tão pouco teve nenhuma teoria minimamente comprovada, perdendo a sua última aposta com Higgs, na descoberta do bosão. Higgs recebeu o prémio Nobel, Hawking não... mas acabou por ter fama como se tivesse recebido vários.
Poderia perder-se tempo a falar da "teoria de tudo" que era um básico nada. Um vício habitual de físicos que se esforçam por não perceber mesmo nada do mínimo de racionalidade filosófica.
Há quem o faça, nos circuitos onde o parecer é mais que o ser, e onde as complicações da linguagem simplificada de "buracos negros" e outras fantasias como "matéria negra", servem o propósito de uma comunicação que visa um enorme buraco negro social.


sexta-feira, 16 de março de 2018

Agroglifos (2) - o candelabro de Paracas

Já há uns tempos escrevi aqui sobre Agroglifos, mas não mencionei os desenhos no solo em Nazca, porque o assunto é sobejamente conhecido.

Ora, um aspecto salientado é que as figuras de Nazca seriam apenas visíveis para visitantes aéreos, e daí a questão do seu propósito, que alimentou a ligação à teoria dos "deuses astronautas". Acontece que algumas figuras são visíveis dos montes em redor, e foram reportadas por Pedro Léon em 1553, mas é certo que só mereceram atenção mais significativa com o início da aviação peruana no início do Séc. XX, e depois com a exploração sistemática por Maria Reiche a partir dos anos 1940, que lhes atribuiu um significado astronómico.

Porém, aqui gostaria de notar que há outras figuras. Em Paracas, junto à costa peruana, a 200 Km das linhas de Nazca, encontra-se um desenho que tem sido identificado a um "candelabro". A técnica do desenho é diferente, mas a particularidade mais interessante é que parece dirigido aos viajantes do mar, e não a viajantes do ar!

O candelabro de Paracas (Perú), que é visível do mar.

Acerca da cultura de Paracas já mencionámos o aspecto dos crânios elongados, e também as famosas pedras de Ica (que são encaradas como falsificações).

Ao que consta a figura tem 180 metros (semelhante à dimensão em Nazca), e é visível no mar a 20 Km de distância. Tem também sido identificado a uma possível "árvore da vida", e foi datada ao Séc. II a.C.
Nesse aspecto é interessante referir uma pintura rupestre no interior argentino, em Cerro Colorado (Cordoba, Argentina), que apresenta algumas semelhanças.

Cerro Colorado - pintura rupestre semelhante. À direita - mapa com Cerro Colorado, Paracas e Nazca.

Convém notar que sendo de uma região bastante diferente, a mais de mil quilómetros de distância, não se poderá concluir muito, e além disso as pinturas rupestres foram datadas como sendo mais recentes (circa Séc. V d.C.). No entanto, poderia identificar um mesmo tipo de símbolo comuns às culturas de Paracas e do Cerro Colorado.

Interessa aqui o propósito destes grandes agroglifos, dos Nazca e de Paracas, que podemos presumir poderem ter intenções semelhantes, até porque a datação é próxima, com cerca de 2 mil anos (entre o Séc. II a.C. e II d.C.).

Se a ideia era uma comunicação com os deuses, então se no caso Nazca as divindades viviam no ar, no caso de Paracas, seriam deuses marítimos. Claro que isto pode referir-se não a deuses, mas também a ET's, conforme tem sido popular no caso Nazca... mas um pouco mais difícil de convencer neste caso de Paracas... a menos que as naves espaciais fossem apenas navios!

Essa é outra possibilidade - estas culturas terem sido visitadas por embarcações, e naquele intervalo de datas poderiam ser chineses ou romanos (ou mesmo cartagineses). A perspectiva de visitantes aéreos, pois essa não encontra explicação com a nossa historiografia, mas não seria nada impossível de ocorrer. Basta seguir a tradição chinesa, que refere Zhuge Liang como inventor dos balões aerostáticos, para repararmos que a datação prevista coincide com a dinastia Han, onde ficou a tradição das lantenas de Kongming, chamados entre nós - balões de S. João.


domingo, 11 de março de 2018

Desafinações visuais (2)

Os tempos seguintes ao 25 de Abril de 74 foram curiosos, porque nos apresentaram uma versão diferente das coisas. Quem nasceu com a exploração espacial, não deixou de ser bastante influenciado pelo assunto, e pior, a partir de 1973, ficou frustrado, porque terminaram as missões Apollo.

Astronautas eram americanos, porque os russos eram Cosmonautas.
Só percebi a subtil diferença no título, quando fui perder o meu tempo numa publicitada exposição sobre a "história da cosmonáutica". 
Nessa história em filme, os astronautas não existiam... só havia cosmonautas (russos), como Yuri Gagarine e Valentina Tereshkova. Não me lembro se era falado sobre a ida russa à Lua, que foi feita em missão não tripulada, mas certo foi que de Neil Armstrong ou Buzz Aldrin, não se ouviu falar, nem das missões Apollo. 
Não percebi qual foi a ideia (do PCP, certamente o patrocinador do evento, por via da URSS), mas ao ver a manipulação descarada, não esqueci o golpe. Poderiam até ter dito que as explorações americanas eram uma treta, e que o homem nunca tinha ido à Lua, etc... Mas não! Simplesmente ignoravam a exploração espacial americana, que sabiam ser a única publicitada antes do 25 de Abril.

O aparecimento dos Space Shuttle em 1981, fez-me seguir em directo novas transmissões, ouvindo os ignotos comentários de Eurico da Fonseca... um dos pseudo-especialistas, tal como depois aconteceu com Carvalho Rodrigues. A televisão sempre teve o dom de escolher os piores, para os maquilhar como melhores. Cada frase que diziam, era "cada tiro, cada melro", dificilmente acertavam uma que fosse. Não havia dúvida que eram os melhores agentes para uma política de desinformação.

Bom, mas o Space Shuttle foi uma boa jogada publicitária da NASA... durante os anos 80 ainda se pensou que a razão da suspensão do programa Apollo tinha sido a mudança de filosofia na aeronáutica, pois fazia algum sentido a lógica do "vai-e-vem". Claro que nos anos 90 já não era convincente... e a partir daí foi sempre a piorar, até restar hoje como uma questão de fé. 
Mas, isso é outra história, de que falei várias vezes, e da última vez aqui:

Vamos então concretamente ao assunto deste post.
Nesse texto estava uma referência a "uma série em que as naves espaciais levantavam do mar"...
Não fazia ideia de quando tinha passado na RTP1, mas fazendo uma pesquisa um pouco mais atenta pelo Google, cheguei finalmente ao "Raumpatrouille Orion":

Raumpatrouille Orion (1966) - série de ficção científica alemã.

Depois é possível verificar neste site, que o título português foi "As fantásticas aventuras da Nave Órion", e passou na RTP1 em 1977.
Tudo o que me lembrava, passados mais de 40 anos (mas seria indiferente há 20 anos atrás), basicamente reduzia-se ao remoinho do mar, de onde a nave espacial saía:

A série era filmada ainda a preto e branco, mas isso não serve para disfarçar os péssimos efeitos especiais que tinham sido usados então.
Que ideia tinham então os adolescentes desses maus efeitos especiais?
- Nenhuma...

Era basicamente esse ponto que gostava de salientar!
Aquilo que nos parecia "bem feito" à época, passado algum tempo depois, chega a parecer ridículo!

Ficámos mais espertos?... ou éramos menos sensíveis?

Podemos dizer que era um problema de idade, mas a questão é que estas séries eram também apreciadas por "malta mais velha", que igualmente não detectava nenhuma anormalidade.
Mais, podemos verificar o mesmo com outros filmes que foram produzidos posteriormente, onde os efeitos especiais até ganharam prémios na altura, e que hoje vemos com deficiências notórias (por exemplo, o Total Recall de 1990, que ganhou o óscar de melhores efeitos visuais).

Aquilo que me parece que se passa, é simples... ganhámos muito maior sensibilidade!
Ficámos muito mais "esquisitos", ao passar de televisões com má definição, para televisores HD, e agora UHD 4K, etc...
Qualquer coisa que antes era uma "perturbaçãozinha", passou a ser uma "enorme perturbação", porque a política comercial agressiva tornou-nos mais exigentes, e queremos perfeição no detalhe.
Por isso, é um exercício curioso ver esses filmes de ficção científica antigos, com os olhos actuais.
Sm, ficámos mais sensíveis e exigentes... e talvez mais espertos, por isso.

Não será à toa que "se perderam" os originais dos filmes das "alegadas idas à Lua"... e que foram feitas novas versões com "melhor qualidade", ou seja, para não serem notados eventuais problemas!
De qualquer forma, nota-se que em "2001, Odisseia no Espaço", os problemas de tecnologia do filme não são propriamente uma falha de qualidade na resolução, talvez porque Stanley Kubrick tivesse uma sensibilidade mais ajustada ao nosso tempo, do que ao tempo em que viveu.