sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Língua d'Ó (A1)

Letra A
(a: prefixo com o mesmo sentido da preposição a)

01. abaixar ... a baixar (ver baixam: vai chão)
02. abordar ... a bordar (ver borda, bordo)
03. acabar ... a cabo (ver cabo, cavo)
04. aceder ... a ceder (ver ceder: se der)
05. aceitar ... a ceita (ver seita)
06. acidente ... a cedente (ver ceder: se der)
06. acima ... a cima (ver cima)
07. aconselhar ... a conselho (ver conselho: com selho, com selo)
08. acontecer ... a com tecer (ver tecer: te ser)
09. acorda ... a corda  (ver corda)
10. acreditar ... a creditar (ver creditar: crê ditar, cré ditar)
11. acrescer ... a crescer (ver crescer: crês ser)
12. adequar ... ad equar, há-de ecoar (ver ecoar: eco - o mesmo)
13. adorar ... ad orar, há de orar (ver orar, horar)
14. adormecer ... a dorme ser (ver dormir)
15. afazer ... a fazer (ver fazer)
16. afectar ... a fé estar, a fé tocar
17. afiar ... a fiar (ver fiar)
18. afinar ... a fino (ver fino)
19. afirmar ... a firmar (ver firmar, firme)
20. agarrar ... a garra (ver garra)
21. agora ... a-ora, à hora
22. agradar ... a gradar, (bom grado, ver graça)
23. aguardar ... a guardar (ver guardar)
24. ali ... a li, a vi
25. aliar ... a ligar (ver ligar)
26. alinhar ... a linha (ver linha)
27. amanhã ... a manhã (ver manhã)
28. amanhar ... a manha (ver manha)
29. amigo ... a-migo, migo: foca em mim.
30. amostra ... a mostra (ver mostra)

Incluo aqui apenas 30 exemplos que vão do "AB" ao "AM", podendo dar algumas explicações adicionais:
  • Abaixam é claro, e "baixam" parece ser um "vai chão", onde o chão condiz com ir baixo. 
  • Abordar, é pelo bordo, pelas bordas. Abordar alguém não é impetuoso. Uma abordagem naval é também por uma das bordas, dos lados, do navio.
  • Acabar é o mesmo que "levar a cabo", terminar. Numa tarefa rural pode ser entendido "acabei" reduzindo "a cavei".
  • Aceder, para ver se cede. Ceder no sentido "se der", ou seja, se algo "se der" de si, então vai "ceder".
  • Aceitar, no sentido de ceder à "ceita". É um aceitar forçado por uma "ceita".
  • Acidente, pelo latim "ad cadere", um certo há-de cair, ou há-de ceder.
  • Acima, em cima, sendo "cima" mais complicado...
  • Aconselhar, onde o conselho pode ser visto "com selho". Este "selho" ou "senho" liga-se a "sé", ao centro, ou ainda à "senha" ou "selo", à chancela.
  • Acontecer, onde o "com tecer" resulta de "tecer" algo. Acontecido será algo tecido, urdido, e não teria o significado casual, mas sim de um complot.
  • Acordar, ou concordar, vêm de uma união como numa corda. (ver acordar)
  • Acreditar, onde crédito é dito pela cré (pelo giz, escrito), ou pelo crê (pela fé, pelo fiar).
  • Acrescer, onde foneticamente o crescer é um "crês ser", no sentido de que crês ou queres que será. A criança "crê ser" homem.
  • Adequar, no sentido de ficar igual, ecoar como num eco. O prefixo "equo" resultará deste "eco".
  • Adorar, onde o prefixo latim "ad" (em direcção) é um "há-de", neste caso "orar", relacionado com oração religiosa, às Hora, ao Dia (Zeus, Jove, Rá).
  • Adormecer, no sentido dormir, "a dor me ir", ou "a dor me ser", como maneira dormente de evitar a dor.
  • Afazer, onde "a fazer" se liga "a faz ser" (transforma em existir).
  • Afectar, o "c" pode mudar o sentido de a-fé-tar, para a-fé-tocar. O que "afecta" será o que "a fé toca". 
  • Afiar ou Afinar, no sentido de fazer uma ponta fina como um fio.
  • Afirmar, tornando firme, como fala de um falo que é firme antes de (v)irme.
  • Agarra, como a garra, uma garra que prende.
  • Agora, em castelhano ahora, como em a-hora, a-ora, à hora (tempo, o-Rá: o Sol).
  • Agradar, a "gradar", como em "bom grado".
  • Aguardar, a "guardar", ou "aguar-dar", guardando água ou gado.
  • Ali, no sentido de "a li", a um sítio que li, onde entendi o que vi.
  • Aliar, ter como "aliado", onde "liado" é redução de ligado.
  • Alinhar, na "linha", onde li a linha, que vi como vinha.
  • Amanhã, pois a manhã define o próximo início de dia.
  • Amanhar, usar uma manha, uma técnica.
  • Amostra, objecto que mostra.
Outros exemplos... mais dúbios, e não derivando apenas da preposição "a":

31. abrir ... aferir ... a ferir (ferir é abrir)
32. aberto ... a ver tu (tudo)
33. abrigar ... a briga (ver briga, citânia) abrigo na citânia
34. abundar ... a bom dar
35. aço ... asso - (aço é cozinhado no forno, tal como o assado) asso temperado / aço temperado
36. acção ... há que são: existem os que são, os que agem
37. acham ... a chão (ver chão) encontrar o que está no chão
38. adição ... há-de içam - juntar para içar algo
39. advertir ... há-de verter (ver verter: ver ter)
40. agir ... a gir(ar), giro, que roda sobre mesmo
41. agudo, agulha ... a "gu" (ver quo, gume, cume
42. ainda ... a ida (algo na ida)
43. ajudar ... a Ju dar (Ju - chu, chuva; Ju: Jupiter - Ju pater) dar a Jupiter.
44. ala ... a lá (alar significa também içar, ter asas, alado)
45. alcançar ... ale cansar (ver cansar) ale (ir) até cansar
46. alegria ... ale cria (ver crer) (?)
47. além ... al-em : a lá (após) em (aqui).
48. algo ... ale "gu" (ver gume) alego algo
49. alguém ... al-quem (ver quem) a lá de quem.
50. alimenta ... ali me entra (?)
51. alterar ... al-tirar (tirar algo, ver tirar)
52. alto ... além (al) de ti (tu).
53. amor ... a mor (a maior)
54. amo, ama ... ama (a má), amo (a mó, que moi) (?)
55. amarelo ... amar elo (ver elo)
56. amarrar ... a marrar, a me agarrar (ver garra)
57. ambiente ... ambi-ente, ambos (em bi) entes (ver ente: em ti)
58. ambíguo ... ambi-quo, ambos (em bi) "gu" (ver quo, cume, gume)
59. ambos ... em vós
60. ameaçar ... a me assar (ameaça de assar alguém)

Como é facilmente observável, esta tarefa é "enorme", prontamente criticável, e dificilmente justificável... mas pessoalmente muito interessante. Estão aqui alguns exemplos que encontrei, usando uma lista de palavras, obviamente muito incompleta... nem me interessa que seja completamente exaustiva, sob pena de perder qualquer ideia de a completar. 
Quem quiser experimentar, contribuir, ou criticar, esteja à vontade!

Etimologias vindas do latim ou do grego... todos podemos consultar etimologias online
Dou um exemplo com ameaçar, que supostamente virá do latim minacia (ameaça). E daí? 
Não será mais interessante ler "ameaçar" como "a me assar"?
Afinal no tempo de gregos e romanos, poderia não haver perigo canibalesco... mas e antes?
Ok. Depois pode ser criticado ler "ameaça" como "a me assa", mas "a ti assa" não ter ligação... só que não é bem assim, temos "atiçar" como redução de "a ti assar".
Isto já entra na filosofia... se for para me assar é "ameaçar", se for para te assar é só "atiçar"!
Que tal?
Em resumo, para malta "séria" que não "se ria", nunca seria nada. 
Por isso, este Língua d'Ó, conforme falado nesse "estado da arte" é um certo linguado, que não é nenhum "french kiss", e tendo aroma, ou a Roma, do passado, usará mais aromas do futuro, que não saem de nenhuma etimologia... são apenas "espíritos santos de orelha", que não habitam em livros.
Livra... não prendem um livre em livro!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A cerca de Mesquinhos e Sacanas

Indo directamente ao assunto, diz-nos Pinho Leal, acerca da freguesia de Mesquinhata (Baião):
O nome d'esta freguesia provém de "mesquinhade" - significa - povoação dos servos adstritos a certa propriedade (meskinos) que eram com razão, considerados infelizes pela sua triste posição na sociedade, que pouco se distinguia dos escravos. 
É a palavra árabe masquinat, que significa, lugar da pobreza. Deriva-se do verbo sácana, que na oitava conjugação, significa - ser pobre, indigente, necessitado, etc. 
O senhor da mesquinhata, quando a vendia, ou trocava, passava-a ao novo possuidor com os seus meskinos, ou servos de gleba. Ainda havia outra barbaridade na legislação gothica - a condição de meskino era hereditária! O filho do meskino, também o era, e todos os seus descendentes. 
Na Europa setentrional ainda há d'estes servos de gleba; mas o actual imperador da Rússia, areou contra os senhores, e tem quasi aniquilado esta bárbara e anacrónica instituição. 
Notemos porém que os nossos primeiros reis, e particularmente D. Afonso I, D. Sancho I, D. Afonso III, e mais do que nenhum, o grande rei D. Diniz, trataram de quebrar os grilhões dos meskinos, e quarctar a prepotência e extorsões dos grandes. 
Depois de D. Diniz, D. Pedro I, acabou com quasi todas as mesquinhatas, e D. João II as aboliu, de facto e direito, por uma vez.

citando o 5º Volume do Portugal Antigo e Moderno (edição de 1874, pág. 199).
Aliás esclarece mesmo com a definição:
MESKINO: portuguez antigo - o servo que trabalhava nas herdades do senhor donatário. Era synonimo de infeliz. Hoje diz-se mesquinho. É a palavra árabe masquino - pobre, mísero, indigente, etc. Deriva-se do verbo sácana — ser pobre, indigente, etc. 
Portanto, mesquinhos e sacanas eram afinal vítimas de proprietários, esses sim, claramente sacanas e mesquinhos... pelo menos até D. João II ter acabado com essa legalidade mesquinha e sacana
Interessante, a evolução de significado aplicar-se apropriadamente agora aos infelizes de alma que fazem uso da exploração humana.

Mesquinhata
Interessou-me o brasão da freguesia de Mesquinhata...
Freguesia de Mesquinhata - que, devido à mesquinhez de diversos sacanas,
foi integrada na aberração que definiu o agrupamento de antigas freguesias. 
Pinho Leal nada diz sobre o brasão de Mesquinhata, mas refere:
A João Paes, deu D. Afonso V, brazão d'armas, em 20 de abril de 1476 —  são — em campo azul, 9 laranjas, veiradas e coutra-veiradas de púrpura e ouro, em 3 palas  — elmo de aço aberto, e timbre, um pavão da sua côr. 
Laranjas
Ora, o acima escrito deixei com rascunho em 13 de Março de 2016... ou seja, há alguns meses atrás.
Não completei, muito provavelmente por falta de tempo.
Agora, fui olhar para os diversos rascunhos, e ficou-me a pergunta, por que razão interessava aquele brasão?
Já nem me lembrava, mas afinal era simples.
Era o velho problema das laranjas.
Afinal, se é suposto "as laranjas terem chegado à Europa no Séc. XVI, depois dos portugueses as terem ido buscar à China", conforme se pretende fazer passar, e ensinar; como é que D. Afonso V dá um brasão com 9 "laranjas", em 1476, no Séc. XV, quarenta anos antes da suposta chegada à China?

Conforme acabei também por fazer um postal sobre o Milho, ainda indaguei topónimos antigos com referências a "laranjas", mas sem grande sucesso.
De qualquer forma, e sem outra maior relevância, fica aqui o apontamento.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (42)

Num postal antigo - Mayday, já tinha sugerido um tema dos Dead can Dance, o grupo australiano de Lisa Gerrard. Volta à baila o álbum de 1988 com o título "o ovo da serpente" (também título de um filme de Ingmar Bergman).

Dead Can Dance (album: The Serpent's Egg)

In the Kingdom of the Blind the One-Eyed are Kings.
(No reino dos cegos, quem tem olho é rei...
... ainda que só dois olhos permitam a perspectiva)


Se estivesse, se estivesse em nosso poder,
Além do alcance do nosso orgulho escravo,
Não mais acolher descontentamentos,
Atrás da máscara, e da face oportunista.

Poderíamos receber a Responsabilidade,
Como recebemos um amigo perdido,
E reestabeleceríamos o Riso
De novo, nesta casa de bonecas.

Porque o tempo aprisionou-nos,
Na ordem dos nossos anos,
Na disciplina dos nosso modos,
E na passagem da inércia momentânea.

Podemos ver o nosso caos em movimento,
O nosso caos em movimento,
Podemos ver o nosso caos em movimento,
Vejam o nosso caos em movimento...

(... e a subsequente colisão de idiotas, 
bem versados na subtil arte da escravatura)

Dead Can Dance - The Carnival is over

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (41)

Em 12 de Setembro de 1980, o General Kenan Evran liderou um golpe de estado na Turquia, e foi depois eleito presidente do país, em 1982, onde se manteve no poder até 1989. Este foi o último assinalável golpe de estado na Turquia, até estes acontecimentos da noite de 15 de Julho de 2016.

Curiosamente, passado um ano, em Outubro de 1981, Rod Stewart (o cantor que gostaria de ter sido futebolista) lançava um dos seus maiores sucessos "Young Turks".
Young Turks - Rod Stewart (1981)

"Jovens turcos" foi uma designação muito particular na história da Turquia, que teve a ver com o movimento político no início do Séc. XX, que transformou o decadente Império Otomano num estado com uma Constituição, procurando copiar os restantes modelos europeus, e de certa forma ainda os ideais da revolução francesa.
O termo ganhou conotação com uma rebeldia impetuosa, e por vezes desmedida... afinal, é durante o governo dos "jovens turcos", que se dará o genocídio na Arménia, em 1915, para além da aliança estratégica com a Alemanha, ter levado à dissolução do império otomano após a derrota na 1ª Guerra Mundial.

É no sentido de rebeldia juvenil que a canção de Rod Stewart irá buscar o título da canção, em nada se referindo à Turquia, que estava então sob controlo dos militares, com a constituição suspensa.

De entre os diversos países de orientação muçulmana, a Turquia foi sendo vista como uma certa excepção, onde o factor religioso não influenciava muito o funcionamento laico do estado, e de certa forma isso foi sendo tomado como missão dos próprios militares, desde Ataturk.
A subida ao poder de Erdogan veio mudar essa tendência laica, passando a figurar uma tendência de regresso aos velhos valores morais religiosos. A influência dos militares foi sucessivamente questionada, pelo novo poder islâmico, a ponto do velho General Kenan Evran ter sido julgado e condenado a prisão perpétua em 2014, quando já contava 96 anos.

Tal como no Egipto ou na Argélia, é o poder ditatorial dos militares que tem evitado que estes estados de confissão islâmica tenham degenerado em repúblicas religiosas, como aconteceu no caso do Irão.
Quanto ao golpe ocorrido, ao mesmo tempo que se reuniam os representantes dos negócios estrangeiros dos EUA e Rússia (Kerry e Lavrov), levantou algumas suspeitas de anuência, para regresso a um estado laico. Após o falhanço da insurreição, coloca-se a questão de ter sido o próprio Erdogan a orquestrar um golpe fictício, com o objectivo de aumentar os seus poderes e fazer agora uma purga na administração mais laica - militares e juízes, que caíram no erro de apoiar o golpe e assim explicitarem a sua oposição. Só que as coisas nunca são simples, e a ausência de identificação clara da hierarquia que apoiou o golpe pode também indiciar que esta encenou um primeiro golpe para ver a resposta militar, aguardando para fazer um segundo golpe mais contundente... tudo dependendo da atitude que Erdogan irá adoptar. Afinal, convém não esquecer que antes do 25A também houve uma fidelíssima brigada do reumático, após o 16M.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

"2016 Nice Attack" na Wikipedia

Há certos cuidados que são de bom tom... na página da Wikipedia inglesa escreveu-se:

2016 Nice Attack

e apesar das milhares de visualizações, ninguém terá ainda reparado que a leitura "Nice Attack" é bastante sórdida, sendo claramente preferível mudar para "2016 Attack in Nice".

As informações, que neste tempo deveriam ser rápidas e fiáveis, permanecem numa quase completa nebulosidade. Inicialmente falava-se em 3 terroristas, num camião cheio de armas... Acabo de ouvir o procurador-geral e nesta altura reconhece-se que foi um único condutor, com uma pistola, sendo o restante duas ou três armas de brincar.

Depois é claro, há toda uma associação imediata ao terrorismo islâmico, feita pelo facto de se ter identificado o condutor como sendo residente em França, de origem tunisina.
Ora, o que disseram os vizinhos? (FranceInfo)
-"c'était un homme peu religieux, ne priant pas, n'allant pas à la mosquée, aimant la salsa et les gonzesses"
- "le mois dernier il avait commencé le ramadan mais ne l'avait pas terminé".
- "un homme seul et en rupture avec ses proches, notamment fâché avec sa famille en Tunisie où il n'était pas retourné depuis des années".
- "récemment divorcé ou en instance de divorce"
- "avait pris un appartement distinct de celui de sa compagne et de ses trois enfants"
- "Il joue de la salsa, fait de la musculation et fréquente des gonzesses… Pour moi, il a pété les plombs"
Portanto, um homem pouco religioso, que não ia à mesquita, e que só no último mês tinha iniciado o Ramadão... algo que não configura alguém cometido a fundo com uma organização fundamentalista islâmica. Estava sinalizado pela polícia, mas por desacatos vulgares.

Configura-se poder ter razão o vizinho que dizia - "Para mim, fundiu os fusíveis".

No entanto, não foi esse o curso que a história tomou... e não é a primeira vez que vemos este filme, de ser conveniente alinhar num enredo diferente.

Em 11 de Março de 2004, logo após os atentados de Madrid, o primeiro ministro José Maria Aznar decidiu culpar imediatamente a ETA, para evitar ser ligado a uma consequência do seu apoio à Invasão do Iraque. Realizavam-se eleições no fim de semana, e não foi considerado conveniente admitir um ataque islâmico. Esta versão foi tentada ser mantida pelo governo, nos órgãos de comunicação, durante dois dias.

Talvez se venha a estabelecer a ligação terrorista, porque o homem visitou um ou dois sites na internet, ou porque "podem" aparecer emails "comprometedores". A partir desta fase, o que fica dentro do conhecimento restrito da polícia, pode prestar-se a todo o tipo de associações, dependendo da história que se quiser passar. 
O que é certo, depois das declarações do procurador, é que nenhuma organização terrorista reivindicou o atentado, e que o homem terá agido sozinho na execução do crime.

Poderia ser isto apenas um acto singular tresloucado, antecedendo uma vontade suicida?
Seria caso único? 
- Não!
- Nem sequer é preciso considerar o caso do norueguês Anders Breivik, que tomou em sua conta 77 vidas, também invocando o Islão, mas em sentido contrário... por islamofobia. A polícia norueguesa tomou o cuidado de o apanhar vivo e o condenar. Ao contrário, e de acordo com um relato de um português, testemunha ocular, foi só depois do camião parar que a polícia chegou, e o decidiu abater, alegando troca de tiros.  

- Um outro caso ocorreu, no ano passado, curiosamente também perto de Nice, nas montanhas.
O vôo 9525 da GermanWings vitimou os 150 passageiros e tripulação, alegadamente por decisão suicida do co-piloto Andreas Lubitz.

Se o co-piloto não fosse alemão, se fosse de origem turca, ou de outra nacionalidade islâmica, se se chamasse Mohamad, ou similar, não se teria aí também associado imediatamente uma conexão terrorista?

Ora, é nesta contradição que vive a Europa do "politicamente correcto".
A Europa "politicamente correcta" critica facilmente a xenofobia alheia, mas estala o seu verniz quando apenas com base na nacionalidade de um atacante faz todo o discurso recair numa condenação terrorista.
Foi terror, mas provavelmente foi um tresloucado acto individual, sem outra conotação.

____________________
Nota (17/07/2016)
Entretanto, o Estado Islâmico (Daesh) decidiu colar-se ao atentado, reivindicando que Mohamed Bouhel teria agido sob inspiração dos seus apelos. Porém, conforme logo foi notado (euroweeklynews)
 However there are doubts as to whether DAESH is really responsible as it had failed to prepare propaganda in advance of the attack as occurred on previous occasions.
... ou seja, ao contrário de casos anteriores, o Estado Islâmico apenas esboçou uma atitude reactiva, conveniente, não mostrando conhecer o que se iria passar.
As autoridades francesas, com a reputação de rastos, pela sua incapacidade de evitar a chacina, parecem também preferír atribuir mérito a um atentado do Estado Islâmico, do que reconhecer a sua incapacidade de travar as intenções suicidas de um louco num camião.
Mesmo que Bouhel tenha alinhado à última hora no apelo do Estado Islâmico, nada muda que o atentado poderia ter sido simplesmente realizado por um louco isolado, fosse por que motivação fosse. Ter inimigos de acordo sobre uma versão da realidade, conveniente para ambos, não significa minimamente que esta esteja mais próxima da verdade.
Afinal, se um condutor inglês atropelasse um indiscriminado número de transeuntes no "Promenade des Anglais", no dia seguinte ao novo governo britânico tomar posse, isso ligar-se-ia ao Brexit?
Que ao Daesh interesse a ligação ao incidente, ainda se entende, agora que o governo francês alinhe nisso, será miopia, pois a longo prazo irá apenas favorecer expectativas terroristas, de dar sentido a vontades suicidas.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (40)



Massive Attack - Butterfly caught (100th Window, 2003)


Acherontia atropos 
(no filme Silêncio dos Inocentes, ver ainda foto Halsman)


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (39)


Paris, 10 de Julho de 2016
(Daily Mail @AFP Getty Images)

David Guetta & Sia - Titanium


terça-feira, 28 de junho de 2016

Do Grexit ao Brexit (2) - o filme

Num comentário ao postal anterior, João Ribeiro indicou um documentário da campanha do Brexit que penso ser muito instrutivo, apesar de poder ser encarado apenas como uma excelente propaganda que serviu para o voto de saída da União Europeia.
Para seleccionar a legendagem em Português clique na [roda dentada] (entre [CC] e [YouTube]).
Escolha "SubTitles" e depois "Auto-Translate", nessa lista escolha "Português". 
(É apenas uma tradução automática, mas funciona bem... ou quase sempre bem) 

Muitos de nós já viram documentários parecidos, mas isso não altera a pertinência do que é dito. Marinho e Pinto terá sido dos poucos entre nós que terá falado do escândalo do que se passava no Parlamento Europeu... mas para além de não ter prescindido das principescas regalias, no que foi duramente atacado pelos seus compagnons de route, não tornou explícita a completa inutilidade do Parlamento Europeu, que aqui é dita - ou seja, serve apenas para ratificar leis da Comissão Europeia. O parlamento não tem poder para revogar ou propor novas leis. Ou seja, é um completo teatro de fachada, destinado a subsidiar principescamente uma elite, que é mesmo financiada para nem sequer comparecer às sessões... 

O documentário é ainda ilustrativo para mostrar como o sector de pescas do UK sofreu praticamente o mesmo destino que o português - foi subsidiado o seu declínio. Mostra também como a verborreia legislativa da UE serve como forma de proteccionismo, destinada a impedir concorrência, já que novas empresas não conseguem cumprir exigências que requerem um arsenal de advogados. É dado como exemplo que há 1246 leis para o pão, e 12 653 leis para o leite... Montanhas de comida foi armazenada a apodrecer para criar a ideia de que havia falta de comida, permitindo assim aumentar o preço até 20%. Enfim, são múltiplos os exemplos, que ilustram como o Brexit foi uma decisão informada de muitos votantes conscientes, e não intoxicados com os meios de comunicação completamente controlados.

Porquê?
Essa pergunta não é respondida no filme, mas não é difícil de conjecturar.
Uma visão idealista do que seria um objectivo da elite que nos governa, é dado no filme Elysium, estreado em 2013 e que é suposto antever o futuro a 150 anos de distância... ou seja, a construção de uma Estação Espacial paradisíaca, que permite afastar a elite de toda a populaça terrestre. E se chegar à Lua coloca problemas, saindo do escudo protector da Cintura de Van Allen, a criação de uma estação espacial em órbita nem sequer se trata de ficção científica!
Elysium (2013)

O grande problema de uma elite é manter o seu estatuto, nada mais... para além de definir algumas regras inquebráveis para que a competição interna, dentro dessa elite, não a ameace. O resto é o medo da populaça - o demo.
Para esse efeito é necessário manter necessidades artificiais, crises, para manter a população entretida.
A população não pode ser eliminada, porque, por azar, precisará sempre de trabalho e especialmente de motivação para manter um arsenal de invenções e criações, que lhe garantam melhoria da qualidade de vida. Assim, apesar de haver condições para toda a humanidade poder viver já num paraíso terrestre, a competição é estimulada para os assuntos mais preocupantes... doenças, envelhecimento, longevidade, etc. Algumas das poucas coisas em que estamos sujeitos ao mesmo fado, independentemente do nascimento. Curiosamente, é praticamente certo que quanto mais isso for procurado ocorrer apenas como benefício de poucos, não ocorrerá como benefício de nenhuns... porque isso seria um passo irreversível condenatório.

A maior diferença da elite dos últimos séculos, face à aristocracia anterior, foi abrir a entrada do clube a novos membros, desde que aceitem as regras de desequilíbrio como inevitáveis. Assim, o que se pretende das políticas dos estados nada tem de racional. É uma pura questão de manter um enorme show em funcionamento, enganando 99.99% da população, que trabalhará afincadamente no meio de crises, para combater assimetrias e necessidades fabricadas.
Tudo o que vemos se destina a manter o ascendente das grandes empresas e empresários existentes, e combater energicamente a ascensão de uma nova burguesia ao topo do poder.
Essa prisão feita ao homem moderno, conforme é descrito no filme, é feita pela imposição de regras, regulamentos em cima de regulamentos, e pela criação de necessidades pelo efeito de crises artificiais. Assim, enquanto nos congratulamos com a boa decisão britânica, tal efeito irá provavelmente servir de enredo para mais uma crise financeira, que afectará mais uns tantos milhões...

domingo, 26 de junho de 2016

Nebulosidades auditivas (38)

Referi antes o vídeo Language is a Virus, de Laurie Anderson, que remete para uma frase do escritor americano William Burroughs - "A linguagem é um vírus, do espaço exterior", a que terá dado importância Philip K. Dick, conforme abordado neste link. Curiosamente, isto acaba por ser uma forma bastante diversa de chegar a conclusões sobre linguagem que fui aqui partilhando (por exemplo, associando a linguagem a um novo código genético que foi transmitido entre humanos). 
No entanto, a linguagem é muito mais que uma suspeita de invasão alienígena. A linguagem, não tem a ver com a língua em que se manifesta, mas sim com as noções comuns a todas as linguagens. Correligiona homens para o mundo de ideias abstractas, que não tendo outro espaço de disputa que não seja o espaço abstracto de ideias nas cabeças humanas, saem de um espaço abstracto para se manifestarem no nosso espaço físico. Mas não vou repetir algo que já escrevi de diversas formas - por exemplo aqui.

Sou um fã de Laurie Anderson, especialmente desde o álbum Mister Heartbreak, mas interessou-me trazer aqui alguns temas de um álbum posterior The ugly one with the jewels, que começa com esta história sobre a sua avó, uma baptista missionária que anunciava o "fim do mundo". Afinal, convém não esquecer que já sobrevivemos a dois "fins do mundo" (31/12/1999 e 21/12/2012), supostamente previstos há séculos ou milénios atrás.
Laurie Andersen - "The End of the World"
Ladies and gentlemen, please welcome back to London, Laurie Anderson.
Hi. This evening I'll be reading from a book I just finished and since a lot of it is about the future, I'm going to start more or less on the last page, and tell you about my grandmother. Now, she was a Southern Baptist Holy Ruler and she had a very clear idea about the future, and of how the world would end.

In fire. In fire. Like in Revelations. Like in Revelations.

And when I was ten, my grandmother told me the world would end in a year. So I spent the whole year praying and reading the Bible and alienating all my friends and relatives. And finally the big day came. And absolutely nothing happened. Just another day.
Ooooaaaah!
Now, my grandmother was a missionary and she had heard that the largest religion in the world was Buddhism. So she decided to go to Japan, to convert Buddhists.
And to inform them about the end of the world. And to inform them about the end of the world.
And she didn't speak Japanese. So she tried to convert them with a combination of hand gestures, sign language and hymns, in English.
Ooooaaaah!
The Japanese had absolutely no idea what she was trying to get at. And when she got back to the United States she was still talking about the end of the world. And I remember the day she died. She was very excited. She was like a small bird perched on the edge of her bed near the window in the hospital. Waiting to die. And she was wearing these pink nightgowns and combing her hair, so she'd look pretty for the big moment when Christ came to get her.
Ooooaaaah!
And she wasn't afraid but then, just at the very last minute something happened that changed everything. Because suddenly, at the very last minute she panicked. After a whole life of praying and predicting the end of the world, she panicked. And she panicked because she couldn't decide whether or not to wear a hat.
Ooooaaaah!
And so when she died she went into the future in a panic, with absolutely no idea of what would be next.
Interessou-me trazer esta história, porque revela bem o desconforto de uma pessoa segura nas suas ideias, no seu modelo idealizado, mas sem saber porquê, ou sequer atender à verificação de que as suas anteriores previsões falhavam. O pânico final da avó, no leito de morte, sem saber se haveria de receber Cristo com ou sem chapéu, é ilustrativo de uma crença arbitrária, baseada em pouco mais do que convicções comunitárias, resultantes de tradições. As tradições e convicções sociais podem oferecer um conforto numa comunidade, mas quando se embarca na última viagem solitária, a experiência é individual, e só ficam as certezas individuais, sem o conforto da chancela comunitária.

Laurie Andersen "recalls The End of the World" - entrevista NFFA
(música/relato - The Geographic North Pole)

Neste outro vídeo, numa entrevista a um movimento anti-nuclear, Laurie Anderson relata uma experiência que teve em 1974, quando decidiu ir à boleia até ao Pólo Norte... mas como isso é vedado ao cidadão normal, acabou por se contentar em deslocar-se apenas até ao Pólo Norte magnético.
Tendo sido surpreendida por uma Aurora Boreal, terá considerado a hipótese, então habitual em tempo de Guerra Fria, de ter ocorrido um holocausto nuclear, da qual seria a única sobrevivente. Concluindo, como só conclui quem pensa verdadeiramente no assunto, sobre o pânico que seria estar completamente sozinha. Porque, estar sozinho não é afastar-se dos outros... é procurar os outros ao ponto de perder a esperança de os encontrar. E só perante essa perspectiva é que se dá verdadeiro valor ao outro, e à forma de comunicação que podemos ter... a linguagem.
Laurie Andersen - "Same Time Tomorrow" - World Without End

Mas há algo pior... quando não nos apercebemos de que nos alimentamos do desconhecido, ou do nosso interesse por ele.
Na ânsia de tudo controlar, de tudo dominar, no fundo para terminar com o medo do desconhecido, não nos lembramos que chegados ao ponto de nada nos surpreender, perdemos esse alimento.
Com uma grande, enorme, incomensurável, diferença... se podemos combater a falta de conhecimento, conhecendo mais; não podemos combater o excesso de conhecimento, porque não conseguimos deixar de saber o que sabemos. E é quando sabemos demais, e percebemos que não queríamos saber tanto, ao ponto de perder o interesse por novo conhecimento, quando já não nos conseguimos alimentar da surpresa do desconhecido, só aí é que percebemos como é também importante o esquecimento.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Do Grexit ao Brexit, em um ano

A forma como o poder instalado na UE tratou da questão grega, desconsiderando os resultados eleitorais na Grécia, ao ponto da completa redundância da votação, repetida de forma ainda mais grotesca no resultado do referendo efectuado no ano passado, terá pesado bastante nos votantes ingleses. 
Nesta altura, quando faltam menos de metade dos votos, a vantagem do Brexit é já razoável e considerável, com aproximadamente 3% de vantagem e sempre a aumentar...
BBC news 24/06/2016 circa 4h30
Ao contrário do que aconteceu com a Grécia, ou do que aconteceu com vários outros referendos feitos para validar a UE... que foram repetidos até a população votar conforme previsto (caso irlandês), o resultado do referendo britânico irá abalar a conjuntura mundial, de forma muito significativa.
A vitória do Brexit será um atestado de caducidade, e de óbito anunciado à UE.
É claro que inicialmente os mercados vão tentar penalizar o infractor, penalizando a libra, mas pela forma como está organizada a face visível do poder, será praticamente incontornável que a breve termo a situação se inverta por completo, e será o euro a perder sucessivamente para a libra. Porque a partir do momento em que a Inglaterra abandonar, só os mais teimosos e desesperados é que tentarão agarrar o barco da UE. Uma Europa continental, sem a Inglaterra, mas com o inglês como língua oficial, será uma aberração demasiado grande para durar muito tempo.
Não será pelas efectivas consequências económicas que se instalará a instabilidade financeira, será pela simples perspectiva de instabilidade que os mercados irão reagir.
Feitas as contas pelos votos partidários, de trabalhistas e conservadores, a vitória da permanência na UE seria absoluta e esmagadora... no entanto, ao contrário dos que acham que os votos do PSD e PS também servem cá de aprovação à UE, a população britânica decidiu surpreender. À excepção de Londres e da Escócia, houve uma clara maioria que votou pela saída da UE... como provavelmente também poderia ocorrer noutros países da UE, dada a sua política plutocrática mais recente.
Saindo a Inglaterra, a UE é um Titanic a afundar, mas enquanto isso, a orquestra dos governantes burocratas dependentes até à medula das benesses de Bruxelas, continuará a tocar alegremente.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Crateras (2) Xico

A Cidade do México é hoje das metrópoles mais populosas do mundo, e ergue-se praticamente em cima do assoreamento de um grande lago, o Texcoco. A capital Azteca era já uma grande metrópole, mesmo para os padrões europeus da época, e sua localização lacustre, com múltiplas pequenas ilhas, fariam dela uma espécie de Veneza americana.
Tenochtitlan - a cidade do México, ao tempo dos Aztecas, segundo um mural de Diego Rivera
Esquematicamente, na wikipedia encontramos a configuração do que seria a região dos lagos que rodeavam Tenochtitlan (a maior ilha interna, actualmente centro da Cidade do Mexico), onde se distinguiam duas partes - uma parte do lago seria de água doce, e outra de água salgada.

Um mapa de 1847 (ver ainda mapa de Rasmusio, Séc. XVI) permite observar como o lago foi progressivamente perdendo terreno, começando pela parte central de Tenochtitlan, então já completamente arrasada e assoreada, tendo dado lugar ao centro da Cidade do México.
Interessa-nos aqui focar o Lago de Chalco (canto inferior direito) de que resiste uma pequena parte, e notar especialmente a referência ao nome Xico.
Lago Chalco no Mapa de 1847 de Bruff-Distrunell 

Desse corpo de água resta muito pouco, já que a cidade foi avançando, ocupando praticamente todo o espaço disponível... os lagos foram assoreados, e apenas as montanhas, de origem vulcânica foram mantidas.
Ora, surpreendente é mesmo a Cratera Xico, com uma forma circular quase perfeita, conforme se pode ver no canto inferior direito do Google Maps, e especialmente na imagem aérea seguinte.

Google Maps - Cratera Xico (Parque Xicotencal)
Cratera Xico - na Cidade do México - vista aérea (imagem
Portanto, pela análise do mapa de 1847, podemos concluir que esta cratera estava completamente rodeada de água, pelo Lago Chalco, lago de água doce, de que resta agora apenas uma pequena parte.
Toda a região circundante está repleta de vestígios de vulcões extintos, mas este é o mais perfeito em forma circular, parecendo muito mais uma cratera de impacto, do que uma cratera vulcânica.
Por exemplo, mesmo ao lado, na denominada Serra de Santa Catarina, há igualmente outros restos de vulcões, mas cujo aspecto exterior é razoavelmente distinto:
Cidade do México - vulcão Yuhualixqui, Serra de Santa Catarina
Aliás, olhando esta última imagem, poderá conjecturar-se que estes vulcões extintos possam ter servido de modelo, ou inspiração, para as pirâmides que os povos mexicanos construíram.

Parece inquestionável que os Aztecas reservaram para si um pequeno paraíso lacustre, que foi depois brutalmente terraplanado por um punhado de conquistadores espanhóis liderados por Hernando Cortés. Os registos que nos chegaram dos Aztecas, e que foram notavelmente caracterizados por Mel Gibson, no filme Apocalypto, apenas indiciam que uma brutalidade foi depois terminada com outra ainda mais eficaz.
Para além da total submissão e destruição, registou-se uma quase completa perda cultural, mais acentuada recentemente. Mesmo assim, apesar de proibições no Séc. XVIII e XIX, a língua Náuatle ainda mantém cerca de um milhão de falantes, e não se terá perdido por completo.
Normalmente estas perdas não ocorrem por imposição à força, mas muito mais por imposição de vontades, através da moda, e aceitação social. O espanhol é simplesmente muito mais útil, tornando o náuatle uma excentricidade para as novas gerações. 

A questão mais complicada, dado o carácter de violência extrema que caracterizou os Aztecas, seria a de saber de que forma teriam estes realizado uma transição cultural para os tempos modernos... mas afinal, se os Aztecas realizavam sacrifícios humanos, por razões religiosas, os Espanhóis iriam trazer os autos-de-fé, em que substituíam o arrancar de corações, pelo brando lume das fogueiras inquisitórias.
Se houve uma constante nas civilizações humanas foi nunca conhecer limites para trazer formas de terror para a Terra, e por muito que se invocasse que haveria um Inferno que seria pior, essa vontade de fazer na Terra um Inferno para os seus inimigos, esteve presente em praticamente todas as elites reinantes. 
Esse culto do terror, agora deixado essencialmente nos écrãs de cinema, nunca foi combatido, e a sua divulgação sempre foi acarinhada, com monstruosidades que retiravam o sono às crianças. Nunca houve propriamente nenhuma figuração de terror que tivesse sido banida pela Igreja, sempre se procurou desenhar da forma mais brutal os diabretes, e se não conseguiam apresentar pior, não foi porque não o tivessem encomendado, aos mais inspirados artistas... Aliás, ainda hoje é caricato ver a perseguição que se faz a imagens de nus, quando se toleram imagens de pura violência.
Conforme era retratado no filme Apocalypto, por muita hegemonia que os Aztecas exercessem sobre as outras tribos, na forma de terror, tentando inibir a vivência pela glorificação do medo, tinham à espera uma outra civilização, os Europeus, capazes de elevar ainda o nível de terror e submissão, a novos patamares.

Dado o contexto de cidade lacustre de Tenochtitlan, não se pode dizer que os Aztecas fossem avessos à água, e quando os Espanhóis chegam, o seu domínio no México chegava já a uma boa parte da região costeira. Também o império Inca estava num certo apogeu, havendo registos de primeiras viagens marítimas feitas pelos incas. Em ambos os casos, é a chegada dos conquistadores espanhóis que terminará definitivamente essa ascensão... como se tivesse havido a coincidência de terem chegado a tempo de parar o progresso dessas civilizações. Afinal, tal como no caso chinês, poderia ter-se dado a situação inversa - os descobrimentos terem sido realizados no sentido oposto... e não seria muito agradável aos europeus ter navios Aztecas a desembarcarem nas suas costas!
Assim, pode ter sido o próprio progresso dos Aztecas e Incas (ou Chineses) que fez tocar as campainhas europeias para uma intervenção em larga escala no globo. Afinal, as grandes campanhas de descobertas europeias, poderiam ter ocorrido em qualquer altura, e será jovial pensar que na Europa não se conhecia o resto do globo, desde a Antiguidade. 
Dado o desnível tecnológico, Aztecas e Incas tiveram pouca ou nenhuma hipótese, seria o mesmo que tentarmos resistir a uma civilização alienígena com tecnologia capaz de colocar uma frota militar de naves espaciais em órbita terrestre... as hipóteses de sobrevivência seriam a sua condescendência.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Crateras (1) Tunguska

Como o incidente trágico do postal anterior ocorreu na Sibéria, lembrei-me naturalmente do 
ocorrido numa remota região siberiana em 1908.
Tudo indica ter-se tratado do maior impacto de um meteoro registado na história, sendo especialmente surpreendente por ter sido associado a observação de auroras boreais abaixo da latitude habitual - por exemplo, em Londres, e o jornal The Times publica diversas cartas dos leitores datadas de 1 Julho de 1908. 
Curious Sun Effects At Night To the Editor of the Times Sir, -- Struck with the unusual brightness of the heavens, the band of golfers staying here strolled towards the links at 11 o'clock last evening in order that they might obtain an uninterrupted view of the phenomenon. Looking northwards across the sea they found that the sky had the appearance of a dying sunset of exquisite beauty. This not only lasted but actually grew both in extent and intensity till 2:30 this morning, when driving clouds from the East obliterated the gorgeous colouring. I myself was aroused from sleep at 1:15, and so strong was the light at this hour that I could read a book by it in my chamber quite comfortably. At 1:45 the whole sky, N. and N.-E., was a delicate salmon pink, and the birds began their matutinal song. No doubt others will have noticed this phenomenon, but as Brancaster holds an almost unique position in facing north to the sea, we who are staying here had the best possible view of it.Yours faithfully, Holcombe InglebyDormy House Club, Brancaster, July 1 (1908)
Segundo o leitor do The Times, as luzes dessa aurora boreal de 1908, eram tão intensas que permitiriam ler um livro. Pouco depois, segundo ele, os pássaros, igualmente surpreendidos com o evento, começavam a despertar com o chilrear anunciando a madrugada.
Inicialmente, conforme ainda se pode ler no The Times, o efeito associava-se a uma eventual erupção vulcânica de grande magnitude, como a que ocorrera com o Cracatoa em Agosto de 1883. Então, os efeitos na atmosfera no Outono de 1883 foram associados à dispersão de cinza vulcânica a grande altitude. Na habitual teoria especulativa climática, o Cracatoa foi ainda responsabilizado por uma baixa de 1.2º C na "temperatura global". Foi ainda um pouco na linha do que se pretendeu ocorrer em 2010, na erupção islandesa do Eyjafjallajökull, mas com a diferença de que em 1883 é mesmo capaz de se ter visto alguma coisa, e não apenas "enxames de gambuzinos", que serviram para fechar aeroportos, como aconteceu em 2010 por toda a Europa.

Bom, mas voltando a Tunguska, uma coisa só ficou associada à outra, muito depois.
Ou seja, o impacto do meteoro na região de Tunguska não levou o Czar Nicolau II a enviar uma equipa exploratória para avaliar o ocorrido. Na wikipedia aparece um relato num jornal russo "Sibir", indicando a ocorrência do evento a 17 de Junho do calendário juliano russo, que seria 30 de Junho, no gregoriano, ou seja, na véspera dos avistamentos boreais em Londres, a 1 de Julho.
No entanto, a primeira expedição ao local só foi enviada formalmente quase 20 anos depois, em 1927. É nessa altura que se deparam com o panorama de árvores arrasadas, mas sem nenhuma cratera de impacto (ainda que se conjecture que o Lago Cheko pode ser o resultado desse impacto).
Tunguska, 1908 - impacto de meteoro
A ausência de cratera de impacto, no centro das árvores tombadas, é associada a uma explosão do meteorito ainda no ar, como aconteceu recentemente, em 2013, com o Meteoro de Chelyabinsk, cujo principal dano resultou do impacto da onda de som, que partiu diversos vidros.
No entanto, para o efeito de devastação ter levado à queda de tantas árvores em Tugunska, estamos a falar de uma onda de choque de intensidade muitíssimo mais potente... e se alguma pessoa estivesse na zona, tal efeito de choque poderia produzir fracturas internas.
O efeito do choque em Tugunska foi replicado com explosões (Operation Blowndown), quer pelo lado americano, quer pelo lado russo... e portanto, no caso dos montanhistas do grupo de Dyatlov, seria algo indiferente terem sido apanhados por um choque acidental vindo de um meteoro, ou de uma experiência militar soviética, se isso for suficiente para explicar o que se passou.

Outras teorias especulativas relativas ao evento de Tugunska (buracos negros, ovnis, etc...) parecem-me forçadas e injustificadas, dado que a ocorrência deste tipo de fenómenos tem esta explicação resultante de impactos de meteoros. O caso da visualização de auroras boreais a latitude mais baixa, pode ainda ser justificado por uma abertura na cintura de Van Allen, resultante da penetração de um grande objecto, como teria sido o asteróide que colidiu com a Terra em 1908.

domingo, 12 de junho de 2016

Tragédia da Passagem de Dyatlov

Em 1959, um grupo de dez montanhistas russos, experientes, dirige-se para uma montanha dos Montes Urais denominada Kholat Syakhl ou "Monte da Morte", um deles acaba por ser forçado a regressar cedo, devido a problemas de saúde... seria o único sobrevivente.
Os restantes 9 irão morrer em circunstâncias que permanecem misteriosas até hoje, num caso que é conhecido como Dyatlov Pass Incident.
Fotografia do grupo de Igor Dyatlov, que iria explorar os Montes Urais.
Nada tenho a acrescentar ao que se sabe, mas o incidente é deveras estranho, e terá sido mais conhecido por um filme "Devil's Pass", que é baseado nessa história, e que foi realizado por Renny Harlin (que também realizou o filme "Long Kiss Goodnight", mencionado num comentário ao postal anterior, e daí a ligação que segui).

A descrição do episódio que envolveu este grupo de montanhistas é suficiente, para evitar acrescentos artificiais de terror. Não tendo havido sobreviventes, o que se sabe resulta das conclusões do grupo de salvamento que partiu à sua procura. Tivesse ocorrido no período de Estaline, e o desaparecimento de 9 pessoas na URSS não era suposto ser considerado "estranho", pelo menos de acordo com a mitologia desenvolvida no Ocidente... extrapolada muitas décadas depois das denúncias internas feitas pelo próprio Nikita Kruschev.
Restos da tenda do acampamento do grupo de Dyatlov.
O que o grupo de salvamento encontrou foi uma tenda abandonada, rasgada do interior, para permitir uma fuga rápida dos montanhistas, tendo saído descalços ou em peúgas, para temperaturas negativas de -30ºC. Os primeiros corpos a terem sido encontrados, separados, a centenas de metros da tenda, tinham apenas sinais de morte por hipotermia, havendo sinais de terem tentado fazer fogo. Passados dois meses de buscas foram encontrados os restantes três, que apresentavam sinais de morte mais traumática - lesões internas (costelas partidas) sem qualquer sinal de lesões exteriores no corpo, acrescendo-se o estranho caso de Lyudmilla Dubinina, que foi encontrada sem olhos nem língua.

O caso foi arquivado secretamente, e só tornou a público depois da queda do muro de Berlim, nos anos 90. Diversas teorias foram avançadas desde aí, mas mesmo as mais exóticas, que incluíam um ataque de yeti, um ataque de tribos locais, um incidente com ovnis, etc... todas elas acabam por deixar pontas soltas, sem grande explicação. 
Um investigador russo, Lev Ivanov, escrevera no relatório terem sido vítimas de "uma desconhecida força elementar que tinham sido incapazes de ultrapassar", e afirmaria depois pensar que se tinham tratado de ovnis, dado o relato de outro grupo de montanhistas, afastado, que reportara ter visto "bolas de fogo no céu".
Uma teoria mais aceite é que poderiam ter sido vítimas de uma experiência militar soviética, envolvendo um novo tipo de arma (ultrassons, radiação), que desconheceria a presença do grupo no local. Mas ainda que isso pudesse explicar uma parte do sucedido - o pânico, dificilmente explicaria o caso do corpo que foi encontrado mutilado.

sábado, 4 de junho de 2016

Mééé (3) Altura: 9' 11''

Uma das primeiras coisas notadas aquando dos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001, é que a designação "9-11" (Setembro, 11) correspondia ao número de emergência usado nos EUA. Isso foi procurado ser entendido com uma mensagem subliminar enviada pelos terroristas, de certa forma acrescida com os atentados de Madrid em "3-11" (Março, 11 de 2004), e se o impacto dos atentados na Índia em Mumbai (Julho, 11 de 2006) fosse o mesmo que em Londres (Julho 7, 2005), dir-se-ia que os dias 11 ficavam perigosos... (especialmente na cadeia das lojas 7/11).
Porém, esse suposto padrão não foi propriamente repetido - a menos que consideremos o tsunami de 11 de Março de 2011, no Japão... já que segundo alguns, teria sido um terramoto produzido por tecnologia humana (~ Haarp).

Como é bem sabido não faltam possibilidades de associação e argumentos de teorias de conspiração, porque uma boa parte da população americana simplesmente não quis engolir a pílula sem adicionar um bocadinho de água... pois toda a história era mesmo difícil de engolir, excepto para os crédulos europeus, que praticamente estiveram longe de esboçar as mesmas suspeitas. No caso dos presidentes Bush (pai e filho), acrescia a circunstância de pertencerem à sociedade secreta de Yale, denominada Skull and Bones 322, fundada em 1832. Como se isso não bastasse, curiosamente as presidenciais de 2004 foram disputadas entre dois membros desta associação, já que John Kerry, depois Secretário de Estado de Obama, também era um Skull and Bones, e foi o candidato democrata.
O símbolo dos Skull & Bones,
lembrando os tempos de pirataria.
Talvez mais interessante é que houve quem tivesse encontrado umas "coincidências estranhas", nomeadamente que o 9-11 já apareceria "avisado" nalguns filmes de Hollywood. 
Escolho aqui os três mais significativos, do vídeo 9/11 Predicted in Movie's & Television:

(i) Exterminador Implacável 2 (1991)
O filme é de 1991, o que até ajuda à ligação com o 9/11, sendo 10 anos anterior. Neste caso, no filme, numa cena de perseguição, que termina em explosão, vê-se a mensagem segundos antes:
Exterminador Implacável 2 (1991)
Caution 9'11''
Ora este "Cuidado" referia-se à altura de 9 pés e 11 polegadas (ou seja, 9.91 pés), que são 3 metros e 22 milimetros - uma altura perfeitamente standard para a passagem.
Mas, não deixa de ser notável a correspondência 9' 11'' = 3 m 22 mm, dado o número 322 ser usado pelos Skull and Bones... suspeitos de "orquestrar o golpe interno". 

(ii) Matrix (1999)
No caso do filme Matrix de 1999 (também um ano com noves e uns) a coincidência ainda parece ser maior, já que o herói "Neo" apesar de nascer em 13/9/1971, tem o passaporte a expirar exactamente em 11 de Setembro de 2001.

Matrix (1999) - o passaporte de Neo (Thomas Anderson)
termina no dia 11 SEP / SEP 01
(iii) Simpsons (1997)
Nos Simpsons de 1997, a pequena Lisa Simpson exibe uma revista de Nova Iorque com o preço 9$ e o 11 é sugerido exactamente pelas Torres Gémeas.
The Simpsons (1997) a revista de Nova Iorque sugere $9 e 11.

Estas são as associações mais "estranhas", que qualquer um pode indicar como coincidências, mas mesmo enquanto meras coincidências não nos deixariam de surpreender. Há outros exemplos, mas parecem-me menos conseguidos. 

Lembrei-me disto, porque estando a pensar na Nebulosidade auditiva (38) com Laurie Andersen, reparei  num vídeo antigo que também ela tinha colocado em letras gigantes no palco o nº 911... e não seria referente à marca do Porsche.
Imagem no video "Language is a Virus" de Laurie Anderson
Ora, parece-me claro que o uso de 911 num vídeo de 1985 de Laurie Anderson refere-se claramente ao número de emergência americano, e apenas isso. 
Mesmo o uso de Caution 9'11'' no Exterminador 2 deve ser entendido como uma piada referente à altura da passagem. Já o caso do passaporte de Thomas Anderson terminar exactamente na data do atentado, dois anos depois, e atendendo à temática do filme, é uma grande coincidência mesmo!

Laurie Andersen "Language is a virus"

________________
Nota (10/06/2016):

Acrescento aqui um filme "A Profissional" (Long Kiss Goodnight, 1996), conforme sugerido pelo comentador "Bate n-avó"
Extracto do filme Long Kiss Goodnight (1996) [trailer]

O filme aborda o atentado ao World Trade Center em 1993, na perspectiva da "teoria da conspiração", ainda pouco em voga à época. 
Sendo um de filme de 1996, anterior ao atentado de 2001, não deixa de invocar o número de vítimas (4 mil) semelhante ao que ocorreria no atentado de 11 de Setembro (3 mil mortes).

Excerto do diálogo relevante:
- 1993... Atentado ao World Trade Center, lembram?
   Durante o julgamento, um do terroristas disse que a CIA sabia de tudo.
   O diplomata que emitiu o visto do terrorista era da CIA.
   Não é de estranhar que tenham mesmo ajudado no bombardeamento, puramente para justificar um aumento de fundos.
- Você está me dizendo que vai fingir um ato terrorista só para tirar dinheiro do Congresso.
- Infelizmente, Sr. Henessey, eu não sei fingir a morte de 4000 pessoas.
   Então, nós teremos que fazer isso de verdade.
   Ah, e pôr a culpa nos muçulmanos, naturalmente.
   E depois recebo os meus fundos.
______________

terça-feira, 31 de maio de 2016

Mééé (2) Barack Hussein Osama

As coincidências rodeiam a nossa vida, mas há limites, digamos...
Após o 11 de Setembro de 2001, duas figuras foram eleitas como principais inimigos dos EUA, através do inenarrável presidente cowboy, G. W. Bush. A saber, foram eles:
... e entre parêntesis estão os nomes dos conflitos que tiraram dezenas de milhares de vidas durante a primeira década do Séc. XXI.

Claro que seria uma absoluta paródia, se o presidente dos EUA, a ser eleito imediatamente a seguir a G. W. Bush, se chamasse digamos:
Barack Hussein Osama
(ou então Adafi Saddam Bin Laden.)
Isso era praticamente impossível de acontecer, e mesmo os mééé... mais crédulos não iriam nessa conversa. 
Mas, como o nome do actual presidente dos EUA é afinal:
Barack Hussein Obama

vemos como o b em vez do s fez toda a diferença, e todos ficámos mais descansados.
Nos cartazes Obama-Biden (vice-presidente) alguém podia relacionar BidenBin Laden
- Mudar uma letra é estranho, ok... mas tirar 3 letras é exagero de forçar relações.

Mesmo assim, não sei bem qual seria a reacção dos americanos se, após a 2ª Guerra Mundial, tivessem que eleger um Barack Adolf Mussorini como presidente... provavelmente também só estranhariam o nome "Barack". Com razão, porque aí é uma questão de múúú...Barack, e o presidente egípcio Mubarak só foi alvo de Barack, muito mais tarde, no decurso da "primavera árabe".

Bom, e para quem acha que este múúú... barack é tão infantil quanto o mééé...todo, devo notar que houve uma longa lista de acusações republicanas dizendo que o seu nome oficial seria Barry Soetoro, que havia falsificação de identidade, etc... Ora literalmente, este Barry Soetoro é facilmente transcrito como "bá ri, só é touro". Ele certamente não terá achado muita piada, pois até a sua meia-irmã Maya Soetoro, foi incluída neste assunto. No entanto, o próprio Barack foi apanhado a admitir que era antes tratado como "Barry".

Foto-Chope
Para além destes aspectos, mais ou menos sarcásticos, houve episódios sem muita piada para muita gente. Um desses episódios ocorreu com um diplomata espanhol, Gaspar Llamazares.
Se Gaspar chama azares, ver a sua cara escarrapachada como modelo para Bin Laden foi um deles:

O uso de PhotoShop bacoco (ao centro) para falsificar a imagem de Bin Laden.
E portanto, quem a isto chama azares, ou acha que a coisa aconteceu apenas porque o homem era do Partido Comunista Espanhol, e portanto "estava a pedi-las"... é porque não faz a mínima ideia de qual é a sensação de imaginar que terá a sua cara afixada em cartazes ou noticiários televisivos como sendo o Inimigo Público Nº1. Quem sabe, percebe que isso não tem piada nenhuma... nem foi só questão de chama azares

Outra sessão de "Foto-Chope" terá ocorrido aquando da suposta morte de Bin Laden:
Composição Photoshop
da morte de Bin Laden (à direita).
... onde mais uma vez "alguém" decidiu compor duas imagens, para dar a imagem de um Bin Laden morto "em Maio de 2011". 
O The Guardian veio depois dizer que - nunca tinha feito capa daquilo, o Daily Mail é que tinha!
Mas a situação era tanto mais grotesca quanto a imagem falsificada em PhotoShop já existiria antes da anunciada morte, e seria publicada como real na imprensa internacional.

Bom, e de facto Benazir Bhutto, cometeu o erro de dizer numa entrevista à BBC, umas semanas antes de ser assassinada, em Dezembro de 2007, que Bin Laden já tinha sido morto há uns anos:


Bhutto diz: "... the man who murdered Osama Bin Laden" (2:22) 

Para além de Bhutto estar perfeitamente certa da morte de Bin Laden, isso foi mesmo noticiado durante o ano de 2000 - Bin Laden estava a morrer, ou que tinha mesmo morrido de um problema de rins (li notícias que referiam num hospital egípcio).
http://web.archive.org/web/20010212010328/http://www.cbsnews.com/now/story/0,1597,172666-412,00.shtml
Portanto, o duelo Obama vs. Osama, que foi encenado em 2011, pouco mais terá sido do que fechar o caixão de um morto, que tudo indica já tinha morrido em 2000 ou 2001, antes da demolição das Torres Gémeas no 11 de Setembro, com problemas nos rins.
Tudo é certamente nebuloso, mas nada disto surpreenderia, porque afinal os motivos para a invasão do Iraque foram as chamadas e nunca encontradas "armas de destruição maciça". 

Porém, percebe-se perfeitamente que em 2010 precisassem de novas imagens do homem... não porque não pudessem vasculhar o terreno do Afeganistão metro a metro, com imagens de satélite, drones, etc... mas simplesmente talvez porque ainda não conseguissem dar vida a um morto. 
Mais facilmente o assunto foi arrumado, com uma morte em que os US Seals se livraram rapidamente de "um corpo", sem nunca disponibilizar qualquer imagem do sucedido, ao contrário do que fizeram, divulgando imagens das mortes de Khaddafi ou Saddam Hussein.