Para quem já esqueceu todas as antevisões inquestionáveis sobre o aquecimento global, fica aqui uma recente imagem de Chicago, que bateu o recorde de temperatura mínima, anteriormente registado em 1936.
O jornal The Telegraph chama "Snowmageddon" aos mais recentes recordes de queda de neve, e de baixas temperaturas, registados neste final de inverno nos EUA.
Sim, a narrativa mudou, agora por razão das evidências já não se fala tanto em "aquecimento global", fala-se mais em "alterações climáticas", conforme bem notou a Amélia Saavedra no ano passado... alteração climática é também fazer mais frio no Inverno do que no Verão, algo que talvez se pense ser novidade para alguns mais cépticos.
Congeladas as revelações do espião Snowden, temos agora o Snowmageddon para expiar as insinuações climáticas.
Pela velha nova Europa, fazendo jus ao nome, Junkers tentou "esquentar" a narrativa com um mea culpa de ex-junkie do Eurogrupo... mas reconhecimentos de erros que mantêm os errantes, são mais do mesmo. São mais de uma Europa com muitos actores à espera de guião que os desembarace da palhaçada que foram criando.
Não é preciso questionar a seriedade de Juncker, que ele encarregou-se de explicar
para que nunca haja dúvidas sobre a qualidade da narrativa que nos vai sendo impingida pelos mais respeitáveis dirigentes, comentadores, e em geral, todos os actores que prestam serviço na comunicação social.
No entanto, e seguindo previsões de outra temperatura, parece que vêm mesmo aí "tempos quentes".
Coloco aqui um registo de alguns filmes que saíram e vi em 2014... porque sempre serve para não me esquecer de que os já vi! Apesar da maioria deles não correr pela passadeira vermelha, destinada a outros compromissos, vemos que o Pau Santo (Hollywood) não deixa de investir em argumentos interessantes e em apresentá-los de forma apelativa.
Sob a sigla "Live, die, repeat", parte do argumento pode ser encontrado, em múltiplos aspectos, na comédia "Groundhog day", de que já aqui falei. No entanto, a simples ideia de que à morte segue um acordar na mesma realidade, mas numa versão paralela, é suficientemente interessante para poder ser novamente explorada e sobretudo ensinada.
A maior novidade será atribuir a uma entidade alienígena a responsabilidade dessa repetição temporal... mas é aí que as coisas começam a patinar, e as falhas lógicas no argumento sucedem-se.
Nesse aspecto, o filme será um simples aguardar do desenvolvimento habitual da história para um final de sucesso.
Uma pequena dica para melhor argumento - a entidade que controla um tempo está sujeita a outro, e por isso nunca haveria um verdadeiro retrocesso.
Pegar num tema bíblico normalmente não levaria a grandes surpresas, mas este filme tem algumas surpresas. A que se destaca seria a vontade divina de levar Noé a salvar a Arca com os animais, mas não com o propósito de salvar o Homem. O objectivo explorado no filme, é a vontade de aniquilar a espécie humana, e a obstinação de Noé em cumprir esse desígnio.
Afinal os humanos teriam trazido consigo um caos cuja única reparação para a potência divina era a sua aniquilação. Mas quando a ordem tenta aniquilar o caos, mais tarde ou mais cedo, é a ordem que soçobra na sua trivialidade e inconsequência. O filho de uma lógica nunca pode questionar o que o pariu, ou o que lhe dá consistência. - A sua maior potência será compreender.
Sobre Lucy já aqui falei, ainda antes de ver o filme... e é claro que quando se pretende subir na potência do super-herói, tudo se resumiria à execução da sua vontade. Ou seja, tudo terminaria no caos do seu pensamento, já que nada mais se lhe oporia. E se o seu pensamento nada tivesse de caótico, seria simples maquinaria natural, e nem pensamento seria.
Independentemente disso, o filme está bem feito, e é interessante. A sintonia, a maior compreensão dos sinais externos, que negligenciamos ou entendemos como coincidências, é bem notado como passo seguinte no entendimento.
Também falei deste filme antes de o ver... e do que me lembro, não tenho muito a acrescentar! Não é mau, mas também não me lembro de nada de especial. Partilha com Lucy a ideia de que o maior poder computacional se associa a maior inteligência... Passar a consciência humana para um suporte electrónico computacional, finito, isso é um mero detalhe (impossível) que faz parte da história e do folclore científico desta época.
Um filme que não vi divulgado no circuito comercial. O reconhecimento pela íris ocular é uma alternativa à impressão digital. Um fotógrafo que colecciona fotos de íris acaba por encontrar uma criança com a mesma íris que a namorada falecida, e numa alusão a uma reincarnação a criança indica o temor pelo evento que motivou à morte da amiga. Uma certa obsessão do fotógrafo pelo número 11 remete em certa medida para o filme "Número 23", mas aqui numa forma distinta, numa certa sintonia entre o exterior e o indivíduo.
Um grupo de adolescentes é aprisionado num jardim rodeado por um enorme labirinto, desenvolvendo uma sociedade própria, onde a hierarquia óbvia coloca os novos elementos, chegados com amnésia, no degrau mais baixo. Fora do jardim, o labirinto é povoado por organismos cibernéticos letais. A interrogação dos jovens sobre o contexto é o ponto principal do argumento.
A razão que acaba por levar uns a desconfiar dos outros, prende-se com um argumento semelhante ao do Cubo. No final revela-se um enredo de experiência psicológica em larga escala.
Poderíamos ver neste filme analogias com uma situação em que a Terra serviria de prisão de uma jovem humanidade, se ao querer escapar do seu jardim terreno, no espaço, deparasse com ameaças letais, de origem desconhecida.
Um filme que nos leva a visões distópicas de sociedades futuras, pós-apocalípticas. A ideia de separação social determinada por uma avaliação de carácter, e não tanto pela família, será a novidade. Divergente é a protagonista, por não se enquadrar em nenhum grupo, e por essa quebra da ordem ser vista como ameaça pelos amantes da ordem estabelecida.
O ponto mais interessante será a indução de um cenário ilusório, para determinar a reacção do avaliado. A capacidade da protagonista perceber a ilusão, questionando a sua consistência, é talvez o ponto mais relevante.
Ninguém pode ser preso a um universo inconsistente... à protagonista bastou o toque de uma unha para quebrar toda a ilusão.
Maléfica é uma interessante reviravolta na história da Bela Adormecida, que torna a conhecida má-da-fita na boa-da-fita. Um bom exercício educacional, para evitar as simplificações narrativas, em que há maus-porque-sim. A virtude principal é conseguir manter ainda assim a consistência com a história conhecida, e não é demasiado simplista em remeter para o rei o papel de novo vilão.
Por vezes é preciso ver filmes de crianças, ainda mais pequenas, e há uns que surpreendem por serem bastante agradáveis - foi o caso deste Mr. Peabody, com a sua revisitação de momentos históricos.
Há um registo histórico sobre os samurais em 47 Ronin, que já fez três versões em filme. Saiu ainda no Natal de 2013, não é um mau filme, mas nada tem de muito especial (pelo menos distingue-se muito de coisas mesmo muito mázinhas - Hercules, 300- Rise of an Empire).
A metáfora da escolha entre a realidade vermelha e um sonho azul foi explorada no filme Matrix, e tem a virtualidade de ser aplicável a diversas situações análogas.
De forma politicamente correcta, ilustraria a dependência de drogas, onde o sonho azul sai do consumo de alucinogénios que evitam temporariamente a dura realidade. Essa forma é politicamente correcta se ignorarmos que os traficantes de droga já foram Estados, nomeadamente a Inglaterra que forçou a venda de ópio à China, no Séc. XIX. Esta foi uma maneira de equilibrar contas, quando o consumo excessivo de produtos chineses ameaçava ruir a economia europeia - que pouca coisa conseguia vender à China. A população chinesa tornou-se fortemente dependente de ópio, ameaçando a estrutura social. Todo o tráfico não se baseia apenas na persuasão, e quando é necessário recorre-se à intimidação. Pequim acabou por cair em 1900 com uma coligação de oito honoráveis potências.
Dir-se-ia que isso são histórias passadas, mas não é bem assim.
Os traficantes de sonhos evoluíram e deixaram o ópio e outros alucinogénios para negociatas secundárias.
O novo negócio passou a ser "o sonho tornado realidade".
Que nome tem este ópio?
- Chama-se "crédito".
É claro que o crédito não tem mal, tal como o ópio pode servir como medicação.
O problema está, é claro, no seu consumo indiscriminado, e na sua dependência.
O desgraçado que nasce malfadado numa realidade agreste, vê no crédito a possibilidade de antecipar no presente uma realidade que só poderia ter no futuro.
É claro que este desejo de riqueza imediata também se verifica noutro aspecto - o jogo.
Porém, voltemos ao crédito.
O crédito é uma porta rápida para tornar realidade velhos sonhos, e não oferece problema até ao momento em que é cobrado. O contrato protege o indivíduo da cobrança antecipada, mas há outra forma de enredar o vício - vários créditos e uma perspectiva favorável de futuro. Quando a situação passa a ser gerida no limite, como se o futuro fosse sempre risonho, qualquer falha traz o caos, e os futuros azuis passam a realidades vermelhas.
Poderia pensar-se que quem gere os créditos é quem fabrica os tijolos que consolidam os sonhos.
Poderia ser, mas normalmente não é.
Passamos ao problema mais acima, onde uns Estados acumulam dívidas e outros créditos.
Não são as formigas que negoceiam directamente com as cigarras.
Entre a formiga e a cigarra está um banco, ou instituição de crédito.
Porquê? Porque quem gere o negócio não quer ter perdas.
Se as cigarras não pagam, quem sofre o débito são as formigas. Quem está pelo meio, apenas tem que gerir a credibilidade da fábula de Esopo, fazendo de uns formigas e dos outros cigarras. Tirando algumas excepções, são todos formigas, e as verdadeiras cigarras controlam a narrativa, controlando a comunicação social e a gestão do mercado de sonhos.
Assim, quando o BCE anunciou a compra de dívida dos estados, apenas estava a dourar uma pílula azul de maior quantidade, pronta a lançar mais crédito, pronta a financiar mais sonhos, para que as formigas pintadas de cigarras, e as cigarras pintadas de formigas, continuassem a bancar a fábula.
Ora, o Syriza até pode cantar de alto, como uma cigarra, e dizer que simplesmente não tem que pagar às formigas pintadas de cigarras... mas será que está pronto a engolir a pílula vermelha e entrar no mundo das formigas ameaçadas por um simples espezinhar? Será que conseguirá convencer as suas cigarras a tornarem-se formigas?
Muito depende do pé que está sobre as formigas chinesas e das cigarras pintadas de formigas alemãs.
Enquanto todos alinharem no jogo dos negociantes da fábula, do dinheiro fabricado pela imaginação perversa, todos saem a perder. Nem é preciso nomear quem gere o jogo, apenas interessa conhecer que a aplicação das suas regras é judiciosa.
Tsipras surpreendeu-me ao passar o tema "London Calling", dos Clash, no seu comício de vitória.
Ficamos à espera para saber se esta Nike terá a elegância da de Samotrácia, ou ficará apenas notada pela falta de cabeça.
London Calling - The Clash
London calling to the faraway towns, Now war is declared and battle come down London calling to the underworld, Come out of the cover, you boys and girls London calling, now don't look at us, Phony Beatlemania has bitten the dust London calling, see we ain't got no swing, Except for the reign of that truncheon thing The ice age is coming, the sun's zooming in, Meltdown expected, the wheat is growing thin Engines stop running but I have no fear, Because London is drowning and I live by the river London calling to the imitation zone, Forget it brother, you can go at it alone London calling to the zombies of death, Quit holding out and draw another breath London calling and I don't wanna shout, But while we were talking I saw you nodding out London calling, see we ain't got no high, Except for that one with the yellowy eyes The ice age is coming, the sun's zooming in, Engines stop running, the wheat is growing thin A nuclear error but I have no fear, Because London is drowning and I, I live by the river Now get this, London calling, yes, I was there too, And you know what they said? Well, some of it was true, London calling at the top of the dial, And after all this, won't you give me a smile? London Calling I never felt so much alike, alike, alike....
Joe Strummer, o líder mítico dos Clash, viu-se depois em carreira a solo, tocando temas antigos, acompanhado dos Mescaleros, e queixando-se a uma multidão alemã (alheada...) de que em Londres era pior, a assistência nem perto do palco estava.
Citando-o apropriadamente :
Rock into this, please, Mein Herren...
Straight to Hell - Joe Strummer and the Mescaleros
Esta série das "nebulosidades auditivas" já fez 4 anos, e tendo começado com Kate Bush, regressa à voz de Kate com a curiosa presença de Hugh Laurie no vídeo. O agora famoso "Dr. House", aparecia como actor razoavelmente secundário, vestindo a bata branca com o número 57, ao lado do "professor Jerry Coe", ou melhor, "Jericho".
Experiment IV (Kate Bush)
Music made for pleasure, music made for thrill It was music we were making here until They told us what they wanted was a sound that could kill someone from a distance
O vídeo parece hoje algo grotesco, e a história de investigações feitas com um propósito benigno, mas que visavam um propósito maligno, era bem conhecida naquela época, tão marcada pelas ameaças de armas nucleares.
Claro que nada mudou. Lembro-me de, alguns anos depois, ter visto acidentalmente o desenho de um míssil, num computador de uma amiga. Perguntei-lhe se não tinha vergonha de estar a contribuir para o desenho de uma arma de grande destruição... A resposta foi simples - não seria um míssil de ataque, seria apenas defensivo.
Não era ingenuidade, era apenas a resposta dada por um funcionário que cumpre a sua função, e se alheia da sua responsabilidade no processo.
É claro o caminho das pedras compensa, porque haverá sempre quem faça, e é melhor sermos "nós" os primeiros, a ficar com os louros, e com a vantagem, do que "eles". E é esta simples divisão entre "nós" e "eles" que gera a espiral infindável da competição letal.
Até porque qualquer arma, uma vez feita, não sabe a diferença entre "nós" e "eles".
Pode até ser feita para ser personalizada ao toque, ficando inactiva a "outros"... só que isso é apenas a visão das crianças poderosas, que exigem o brinquedo sem saber como funciona.
E o funcionamento pretendido é simples - fazer o máximo com o mínimo esforço.
Pensar-se como um agente instabilidade que está a ser potenciada... pois isso é o medo, mas apenas o medo pessoal, o medo de que a instabilidade saia fora do controlo dos "seus". Porém, a instabilidade não tem dono, não é criada, é apenas descoberta. Uma vez descoberta, ou é coberta, ou lançada ao caos... porque potenciar a instabilidade, é apenas potenciar o caos.
A manifestação de domingo em Paris impressionou pelas imagens de milhões de pessoas reunidas, no que foi considerada a maior manifestação em França. O motivo bem conhecido - o atentado que vitimou desenhadores e outros trabalhadores do Charlie Hebdo.
Bom, e em ligação a essa manifestação, que superou expectativas, quem era colocado a "comandar" uma frente da manifestação?
- "Líderes europeus", entre outros:
Muitos de nós viram ou seguiram estas imagens, vendo os "líderes a liderar" uma grande multidão.
Será que aquela frente da manifestação, que os "líderes lideravam", era mesmo grande, como apareceu em todas as imagens difundidas pelos grandes órgãos de comunicação?
Bom...
... pois, afinal parece que não era:
Ou seja, sejamos claros, o que houve entre os "líderes", foi uma manifestação privada, à parte.
O número de "figurantes" agrupado seria exactamente o suficiente para iludir um grande número de pessoas, nos planos televisivos térreos, extensamente difundidos.
Portanto, mais uma vez, entre tantas outras vezes, os "nossos líderes" decidiram fazer passar a população por Charlots.
Não tinham necessidade disso, seria perfeitamente compreensível que, por razões de segurança, não estivessem próximos de uma manifestação enorme e dificilmente controlável. No entanto, quiseram passar outra imagem, uma imagem ilusória, ao estilo de qualquer mago de circo.
No final de contas, se a população escrevia "Je suis Charlie", distantes, noutro lado, ficaram os que preferiram ficar como Charlots, neste circo informativo global.
Em 1970 terá ocorrido em França uma tragédia marcante - um violento incêndio que vitimou 146 jovens, a quase totalidade dos 152 que se encontravam no Club 5-7. Assistiam a um concerto de uma banda em ascensão, denominada Storm, cujos membros também pereceram... um problema recorrente - o fecho das saídas terá impedido a saída dos jovens.
Os jornais da época terão usado descrições e títulos menos apropriados, como "dancing em chamas", ou "baile trágico"... e, o então já satírico L'Hebdo Hara-kiri, decide também fazer o seu título, na mesma ocasião em que o "herói nacional", Charles de Gaulle, presidente cessante, morre em Colombey:
Baile trágico a Colombey (*) - 1 morto (Charles de Gaulle)
Esta provocação sobre o "mau gosto" dos títulos jornalísticos foi um certo hara-kiri do L'Hebdo, que por ordem do Ministério do Interior francês foi encerrado.
Renasceria alguns meses mais tarde com o nome "Charlie Hebdo" e se este "Charlie" é remetido para o ícone da banda desenhada, Charlie Brown, é também claro que o nome Charlie se referia mais à morte do anterior jornal, motivado pela morte de Charles, de Gaulle.
Apesar das diversas vicissitudes, críticas e ameaças, os fundadores foram carregando o projecto satírico, que juntava a pertinente crítica política e social ao simples "mau gosto". Ao "mau gosto" instituído por unanimismo, como são exemplo estes títulos sobre o desaparecimento do Boeing da Air France:
Quem se lembraria de associar as 228 vítimas a abstenções nas eleições europeias?... e no entanto, muito provavelmente seria uma crítica velada ao jornalismo de "bom gosto", que por essa altura encheria primeiras páginas com o problema da abstenção eleitoral para o parlamento europeu (órgão perfeitamente simbólico da corte dos poderes instituídos na Europa), descurando outras notícias mais relevantes.
Assim, o atentado ocorrido ontem foi sem dúvida um corte impiedoso na liberdade de se exprimir fora de um molde, do molde do "politicamente correcto", que tanto tem servido os poderes instituídos como arma de censura.
Como curiosa consequência, o site do jornal Charlie Hebdo foi silenciado... ou seja, em vez de se manter algum ponto de acesso aos conteúdos, "alguém" pensou ser mais apropriado colocar uma frase icónica: "Je suis Charlie"
Que Charlie? o de Gaulle, ou o Brown?
Portanto, um politicamente correcto "Je suis Charlie" sobrepôs-se ao trabalho politicamente incorrecto que era ali feito. Se o objectivo dos atacantes era silenciar o conteúdo incómodo do jornal, não o desligaram da internet, mas esta decisão apareceu a complementar a tarefa.
Por isso, a frase "não estávamos lá dentro" aplicada ao avião que se despenha, é uma capacidade de autocrítica social sarcástica perante a tragédia alheia. Tragédia com que os próprios viviam como ameaça, e cujo cartoon seguinte aparece como premonitório
... e não foi preciso chegar ao fim de Janeiro para que fossem vítimas dos personagens que caricaturavam.
Há um confronto entre "o medo do que pode acontecer" e "o medo do que acontece". O medo do que pode acontecer é fonte para muito do medo que acontece, porque com isso se legitima a violência preventiva. Os jornalistas do Charlie Hebdo desafiaram o medo do que poderia acontecer, e só assim se pode viver sem medo. O medo do que acontece, não é medo, é simplesmente uma reacção natural.
Até que o medo surja como facto inevitável, não devemos viver sob o medo imaginado, porque o medo imaginado nada resolve, só alimenta mais medo imaginado.
Devemos evitar que o que não existe ganhe existência através da sua implantação pelo medo.
O dragão, o papão, que assusta os adultos, são estes actos tresloucados, irracionais, e o facto de eles vitimarem quem os desafiava, nada prova - a resposta ensinada é simples - não fomos nós... e os que restam, enquanto houver quem resista aos medos, garantem que esses fantasmas não se implantarão.
(*) Uma coincidência linguística sobre este título de Colombey ocorrerá em Columbine...
As pessoas que procuram ter uma visão global do contexto têm sempre razões de preocupação.
No tempo da Guerra Fria isso era claramente simbolizado pela "bomba", ou seja, o arsenal de bombas nucleares ao dispor no clique de um botão nas duas potências mundiais.
De forma algo simplista, todos os problemas pareciam reduzir-se à dualidade entre Leste e Oeste, e era muito frequente pensar-se que faltava apenas um entendimento ao nível dessas potências para resolver os problemas mundiais. Assim, em 1989, com a queda do Muro de Berlim, argumentava-se um "fim da História", segundo o publicitado Francis Fukuyama.
A questão do conflito nuclear era adquirida desde a infância, e filmes como Day After (1983) ajudavam a manter o medo sobre os efeitos de um inverno nuclear.
Um episódio pouco conhecido no Ocidente é revelador do acentuar do problema com a sucessão de Leonid Brezhnev. Andropov tinha sido particularmente duro na revolta húngara, e com o cowboy Ronald Reagan do outro lado, não se esperavam boas notícias.
No espírito da época, uma criança, Samantha Smith, escreve a seguinte carta a Andropov em 1982:
Dear Mr. Andropov, My name is Samantha Smith. I am ten years old. Congratulations on your new job. I have been worrying about Russia and the United States getting into a nuclear war. Are you going to vote to have a war or not? If you aren't please tell me how you are going to help to not have a war. This question you do not have to answer, but I would like to know why you want to conquer the world or at least our country. God made the world for us to live together in peace and not to fight. Sincerely, Samantha Smith
Alinhando pela oportunidade publicitária, Andropov responde, e convida Samantha Smith a visitar a URSS, o que ocorre com grande sucesso para a publicidade soviética em 1983.
Depois, é sabido que a saúde de Andropov pouco durou, Chernenko idem (tomara posse já internado), e o poder soviético só estabilizou com a confirmação de Gorbashev, em 1985, claramente empenhado em mudar o sistema comunista e na aproximação ao ocidente.
Como os aviões têm conhecida tendência a despenhar-se, a incómoda criança americana que visitara os russos irá perecer também em 1985 - Samantha tinha 13 anos.
As manifestações e medo pela ameaça mundial soviética tiveram as suas épocas. O problema começara com o rápido desenvolvimento russo. Em 1949 detonavam a primeira bomba nuclear, e depois, durante a liderança de Nikita Kruschev, suplantariam os americanos em todo o projecto espacial.
O sucesso espacial russo está intimamente ligado ao nome de Nikita... começou e terminou consigo. A sua deposição e danação de memória, a partir de 1965, apresentou o declínio soviético com Brezhnev. A propalada vitória americana na simulada "Guerra das Estrelas" de Reagan, é mais um dos mitos ocidentais... Andropov, logo em 1983, teria anunciado o fim do programa soviético de armas espaciais!
Talvez tenha havido um curto tempo em que dois líderes quiseram ter efectivo poder sobre as potências que comandavam - foi o tempo de Kennedy e Kruschev... foi o tempo da crise dos mísseis em Cuba. Kennedy desapareceu em 1963 e Kruschev foi afastado em 1965. Os poderes de bastidores prepararam uma ascensão diferente, menos incómoda às suas manipulações. O "reinado" de Brezhnev mergulhou a Rússia numa progressiva corrupção passiva, e só a sua sucessão preocupava o lado ocidental. Acabadas as dilacerantes guerras da Coreia e do Vietname, a transição dos anos 70 para os anos 80, trazia esse espectro de uma Rússia ameaçadora, com Andropov.
Parece então que o efeito da dissuasão nuclear ganhou outra seriedade. Nas décadas anteriores havia a possibilidade de conflito, mas não era encarado como um conflito de proporções catastróficas mundiais. A acumulação de armamento nuclear tornara entretanto a ameaça como apocalíptica.
"The Wall", foi o album dos Pink Floyd lançado em Novembro de 1979, e serviu de símbolo para a queda do Muro de Berlim, em Novembro de 1989. Foram 10 anos certinhos que marcaram a década.
Mas o período mais quente terá ocorrido até 1983, até ao momento em que Andropov foi afastado.
Entre 1980 e 1983 o mundo precipitava-se nas sombras, antevendo um 1984 Orwelliano...
Exemplo desse espectro catastrofista é o tema "Let's all make a bomb" dos Heaven 17.
a que se deve adicionar o tema "We don't need no fascist groove thang"
Reagan's president elect
Fascist god in motion
Generals tell him what to do
Stop your good time dancing
Train their guns on me and you
Fascist thang advancing
Os anos 80 iriam contar com um alinhamento de Thatcher e Reagan na política internacional, permitindo libertar as correntes legislativas que prendiam os monstros financeiros.
Os perigos dos monstros financeiros eram bem conhecidos - tinham estado na origem de duas guerras mundiais e a sua libertação foi uma jogada arriscada. Era essa a paranóia anunciada, contava-se com uma não resposta do outro lado, lançando o medo generalizado.
Contava-se que a libertação de regulação ao poder económico permitisse criar monstros privados que se encarregariam da destruição dos estados. O objectivo previsto seria a aniquilação económica dos estados soviéticos, mas uma vez o monstro libertado sem regulação, nenhum poder estatal estaria a salvo desse poder libertado.
Criou-se assim rapidamente o tempo dos yuppies, numa conversão de hippies em agentes financeiros pouco escrupulosos. A única ligação terá sido a sua dependência a drogas, as mortalhas de erva dariam lugar às linhas de coca. O mundo aceleraria a um ritmo sem paralelo, puxado pelo monstro da competição interminável. A música foi bem reflexo disso - os artistas apareciam e desapareciam a um ritmo de um consumo incessante. Ainda hoje servem os nossos ouvidos as novidades que no início dos anos 80 ficavam velhas ao fim de poucas semanas.
Se alguém pensou em prender o monstro capitalista no final da Guerra Fria, iria verificar que era tarde demais. O monstro capitalista que puxara o desenvolvimento industrial inglês e americano no Séc. XIX, estava de novo desregulado, pronto a consumir todos os poderes para se poder alimentar, libertando-se dos travões morais sobre a exploração do trabalho, até sucumbir na sua própria lógica insana.
Gorillaz - um projecto musical onde os protagonistas seriam apenas bonecos animados, deixaram uma sucessão de vídeos notável, onde contaram até com a participação de Bruce Willis. A influência hip hop dos De La Soul começara a tomar efeito, e ganhar múltiplas variantes.
They are the force between, when the sunlight is arising
There's nothing you can say to him
He is an outer heart, and the space has been broken now
It's broken, our love, is broken
Is it far away in the glitter freeze or in our eyes
Every time they meet
It's by the light of the plasma screens
We keep switched on all through the night while we sleep
There's nothing you can do for them
They are the force between, when the sunlight is arising
There's nothing you can say to her
I am without a heart, and the space has been broken now
It's broken, our love, is broken ---------------------------------------------------------------------------------
A tomada de consciência nunca foi imediata.
A inteligência apareceu antes da sua tomada de consciência.
Não podia ser doutra forma, afinal só podemos conhecer o que já existe.
Assim, é completamente diferente pensar em seres inteligentes e em seres que tenham consciência da sua inteligência. A inteligência de uns pode superar a dos outros, mas há uma imensa diferença... uns são máquinas, os outros não.
Os processos mecânicos podem desenvolver-se autonomamente a ponto de exibirem prodígios de inteligência literal. Vemos exemplos de como essas soluções foram encontradas biologicamente, como se houvesse ali um desenho inteligente. E esse desenho inteligente não pode ser negado, porque está ali para ser contemplado. A grande diferença é que essa tomada de consciência de inteligência não é inerente ao processo observado, é inerente ao observador.
Na encruzilhada temporal haveria o caminho puramente genético, onde a inteligência apareceria codificada numa sequência de DNA, mostrando a capacidade de inteligência da ordem, mas seria uma inteligência que nunca seria vista... porque ao finito falta a capacidade de reconhecer o infinito, ao limitado faltaria a capacidade de ver a sua limitação. Para alguém reconhecer as suas limitações tem que ir acima delas, para as poder contemplar. Só os limitados ignoram as limitações...
Nesse caminho genético, nada impediria a programação de capacidades computacionais imensas, em cérebros programados de forma similar.
Esse seria o caminho de grandes gorilas divinos, capazes de proezas notáveis, mas inconscientes da sua capacidade. Capazes do bem e do mal, sem distinguir a diferença entre ambos.
Porque a diferença entre o mal e bem é uma diferença de percepção ecológica, é uma noção ausente da ordem local, é uma noção imposta pelo caos global.
Esta ecologia não tem apenas raiz etimológica no oikos grego, que remete à casa ou família global, é também uma "ciência do eco". Este "eco" é o retorno que teremos a cada som que emitimos, a cada acção que produzirmos.
A cegueira da ordem local foi o pensar que haveria uma solução local que se imporia globalmente, com um centro bem identificado. Cresceria anulando o restante, cega pelo seu umbigo gerador.
Veria o que queria ver... ver-se-ia a si, esquecendo a casa onde crescia.
Começava por ser a bactéria reprodutora, capaz de inundar em pouco tempo o planeta com uma reprodução exponencial, até que seria confrontada com o eco da sua acção - a falta de alimento para acompanhar tal crescimento. A sua acção local era um sucesso, o problema era a falta de visão do eco global da multiplicação dessas acções.
A inteligência humana não terá surgido até que os homens foram forçados a reconhecer a influência global das suas acções. Os hominídeos podem até ter exibido sinais de inteligência mecânica, quase sem limites, com criatividade para fazer prevalecer a sua visão local... só que isso não traz nenhuma consciência do que faziam.
A maior inteligência de gorilas, só favorecia a competição entre gorilas, não permitia ao gorila ver que ao anular os diferentes, estaria só a deixar iguais, mas não estaria a acabar com a competição entre iguais. Por muito iguais que fossem, a competição estimularia sempre qualquer diferença, até que no limite, o gorila estaria a ser a levado a uma competição consigo mesmo.
Por isso, a ecologia em confronto é sempre o eco das acções em si próprio.
O homem só se tornou homem quando aprendeu a ver nos outros semelhantes, quando passou a sofrer com a dor dos outros, projectando-a em si. Essa capacidade de empatia com o semelhante, que ao longo da história se tem procurado retirar, em nome duma competição incessante, é a diferença fundamental entre o homem e a besta. É a diferença fundamental entre uma consciência para um equilíbrio num contexto global, e uma inconsciência para um sucesso local aprazado.
Da natureza vem essa ordem programada, finita, cega ao eco de si própria. Daquilo a que se pretende chamar caos, chamar coincidência, negligenciar, por falta de melhor entendimento, surge o inexplicável, a semente das ideias do único futuro para este presente.
Por muito que se veja o império duma ordem construída, só o olho cego não quer ver que essa ordem só pode ser vista numa dimensão muito superior, onde os impérios de cabeças de formigas são esmagados com um pé, um pé no futuro.
Num texto sobre a primeira domesticação animal, o galo de bankiva aparecia como candidato originário de paragens indonésias ou melanésias. A popularidade europeia dos galináceos terá surgido como importação oriental, constando que não seria propriamente comum e acessível entre os gregos.
Basta notar que um presente amoroso de Zeus a Ganimedes terá sido um cocó...
Por esta indicação, podemos suspeitar que a oferta do cocó fosse tão exótica quando a oferta de um pássaro raro, como seriam provavelmente papagaios, araras, tucanos, etc.
A última frase reportada a Sócrates foi dirigida ao amigo Críton:
Κρίτων, τω Ασκληπιώ οφείλομεν αλεκτρυόνα, απόδοτε και μη αμελήσετε.
Críton, a Asclépio devo um galo, cuida de não o esquecer.
Esta "última dívida de Sócrates" já recebeu diversas interpretações sobre o seu significado, parecendo suscitar alguma contradição entre a sua condenação herética, e a menção ao sacrifício de um animal ao panteão divino. Havendo referências de que o filósofo pareceria ver na morte uma cura para a tribulação da vida, a oferenda a Asclépio (ou Esculápio, no equivalente romano), podia também significar que agradecia esse efeito terminal, quando a cicuta já lhe tomava o corpo.
O nome grego aqui usado para galo αλεκτρυόνα nome não muito comum (há ainda κόκκορα, cocó), sendo usado ainda assim como prefixo de um tiranossauro - o Alectrossauro, cuja enorme perna exibia o típico polegar galináceo, e de dimensões não muito diferentes dos nossos Lourinhã-sauros.
Faço apenas esta referência porque o prefixo "Alectro", do galo (ou cocó), é demasiado próximo de "Electro" para não ser notada uma semelhança entre a ave que os romanos associavam aos gauleses (gallus), e o nome da liga metálica entre ouro e prata, ou o nome grego para um âmbar que inundava as praias germânicas (elektron).
Certamente que Críton terá feito por pagar a oferenda a Asclépio, que não era propriamente uma divindade do panteão clássico. Sendo considerado o "deus da medicina", a quem era prestado o juramento de Hipócrates, era um semi-deus entendido como filho do deus Apolo e de uma humana, Coronis.
A educação de Asclépio fora entregue ao famoso centauro Quíron, a quem se dedica o presente signo e constelação de Sagitário. O centauro teve como pupilo mais famoso o aqueu Aquiles, a quem instruiria no manejo da flecha (sagitta)
Aquiles e o centauro Quíron.
A mitologia sagitariana coloca Quíron no fim do tormento infligido a Prometeu, abdicando da sua imortalidade para terminar com a dor com que o trespassara uma flecha envenenada de Hércules, aquando da sua aventura na captura do Javali de Erimanto (curiosamente, também Asclépio será colocado na época da captura de outro javali mítico, o Javali da Caledónia).
É natural que esta simbiose equestre dos centauros se pudesse reportar a tribos que praticamente cresciam sobre o dorso equestre nas grandes planícies tartáricas (que se iriam estender do Don ao Lena). Afinal essa caracterização rude dos centauros poderia ser aplicável aos Citas, tal como foi depois aplicável aos Hunos.
A Asclépio ficou associado o bastão com uma serpente enrolada, símbolo do seu conhecimento de artes médicas herdado de Quíron.
Ao contrário do caduceu de Hermes, caracterizado depois por duas serpentes enroladas em confronto, Asclépio tomara apenas uma das serpentes no seu bastão.
Os dois símbolos (o caduceu de Hermes e o bastão de Asclépio) foram e são usados para empresas, associações e instituições médicas e farmacológicas (ver este link, por exemplo).
Aqui é razoavelmente fácil considerar uma interpretação da escolha médica de Asclépio tomar apenas um lado serpentino.
Com efeito, a produção de drogas ou venenos enrolava-se em dois aspectos... um positivo para a cura de maleitas, mas outro negativo pela aplicação venenosa com efeito letal nas vítimas.
O centauro Quíron seria vítima do efeito da flecha envenenada de Hércules, contra a qual nem o tutor de Asclépio teria conseguido escapar. Assim, se é natural as associações médicas mostrarem o lado serpentino benéfico, já do ponto de vista farmacêutico a produção da substância, da droga, dissocia-se do fim para a qual é aplicada, e tanto pode enrolar para o lado venenoso como curativo, fazendo mais sentido nesse caso usar como símbolo o caduceu hermético.
O confronto da utilização benigna ou maligna de uma mesma substância, de uma mesma invenção, tem sido o profundo dilema que foi enredado num secretismo hermético, preferindo a sua oclusão à sua manifestação. Se o original caduceu pode ser hoje ligado facilmente à estrutura helicoidal do DNA, esse é apenas um aspecto interpretativo condicionado por um certo olhar. O ponto primordial é ainda que o mesmo conhecimento sobre o DNA pode levar a utilitarismo diverso. De um lado as aplicações médicas no sentido benigno, do outro lado as aplicações militares no sentido maligno.
De pouco vale pensar que umas compensam ou justificam as outras... é inútil e perigoso considerar que um explosivo será apenas usado com fim benigno. A sua utilidade para uso maligno pode ser igualmente apelativa, e não pode ser evitada. Esse é o perigo inato do conhecimento, presente desde o início, desde o instante em que a serpente o revelou - a ponta da flecha serviria a caça, mas o alvo estava colocado na sanidade ou no caos da mente humana.
Há uns meses, houve uma conversa sobre a pseudo-teoria de "humanos reptilianos", que David Icke costumava mencionar, e a que o Paulo Cruz dava atenção, ligado ao assunto dos crânios de Paracas.
Nessa altura disse:
Lembro-me de uma série antiga, dos anos 80, que tinha exactamente um enredo a esse agrado:
banda desenhada exactamente da mesma altura (vejam-se lá as coincidências) e especialmente o filme que deu origem à mania das máscaras, e ao movimento "Anonymous".
... já esteve na calha para uma "nebulosidade auditiva" no OdeMaia.
[17 Julho 2014]
Assim, por estranho que fosse, num ápice, dos crânios deformados chegávamos a Toulouse.
Leio agora que a deformação intencional craniana era denominada "deformação de Toulouse"
Mapa com a deformação de Toulouse, e regiões onde era praticada ainda no Séc. XX (ver Dingwell, 1931)
In the region of Toulouse (France), these cranial deformations persisted sporadically up until the early twentieth century [wikipedia]
Coincidências, ou não, antecipei que o vídeo "Toulose" estava agendado aqui:
"Toulouse" de Nicky Romero,
mas por razão do V de Vendetta... e não tanto pela deformação craniana de Toulouse.
Esta ligação que nos levou à região occitana de Toulouse é estranha, tão estranha quanto é o registo que foi das suas pinturas rupestres aos jogos florais, passando pelos antipapas de Avinhão.
Quanto ao V, V de um filme que tem inspirado movimento Anonymous, parece ser apenas mais um movimento do sistema, que passa por ser anti-sistema. Não é difícil entender que não serão os canais do sistema a questionar o sistema. Qualquer sistema minimamente inteligente disfarça uma oposição, para que nunca haja espaço para uma verdadeira oposição.
Porque, o problema é simples... The revolution will not be televised, brother.
Há uma história que me foi contada, há quase um ano, sem que se possa dizer que alguém ma contou... é mais correcto dizer que soube, ou vou sabendo dela. Quando abrimos a tradução para outras linguagens, há situações em que o ruído se ouve como música.
O lago universal era um aquário onde cada cada peixe parecia ser um aquário, igual ao aquário maior. E à medida que os peixes cresciam, em formas e feitios, de entre eles surgiu uma grande lontra. A grande lontra era mais parecida com o aquário, porque podia engolir em si os peixes. Assim, a grande lontra passou a alimentar-se de peixes, e fartamente, porque peixes era coisa que não faltava. Até que se viu num reflexo de um, um que lhe escapou. Esse acontecimento foi uma epifania universal. Ficou-lhe a ideia de que não havia apenas peixes, ficou a ideia de que entre os peixes haveria outra lontra. Por momentos, a lontra hesitou em comer peixes, e os peixes cresceram. Cresceram até a ameaçar, pelo que ela voltou a comer indiscriminadamente. Mas apenas comia os que não fossem parecidos com o seu reflexo... de tal forma que ao fim de algum tempo só restavam os que eram parecidos consigo. De novo a grande lontra hesitou. Mas os peixes multiplicavam-se e sentiu-se novamente ameaçada. Voltou a comer, com o mesmo critério... e cada vez mais os peixes se pareciam consigo. Nova epifania - viu então uma solução contra o isolamento no devorismo, a ponto dos peixes que restavam serem agora pequenas cópias da lontra. Mas afinal, nunca eram iguais, só ela se alimentava deles. O medo que tinham de si, não permitia uma igualdade de comportamento. Bastaria diminuir de tamanho, pensou ela, ser também peixe. Porém, assolou-lhe a ideia de que, nesse caso, poderia surgir entre eles uma outra grande lontra. De predadora, passaria a presa. Optaria por deixar crescer aqueles onde se revisse, cada vez mais, mas manteria sempre um ascendente. Ao fim de muito tempo, conseguiu quase o queria. Deixou as pequenas lontras crescerem, e também variados peixes, de que se alimentavam. Aparentemente já só matavam peixes, mas a grande lontra sabia que tinha proceder de forma diferente. Afastava-se para ver o comportamento das jovens lontras. Não poderia deixar crescer muito as que hostilizassem os outras lontras, porque crescendo iriam hostilizá-la também. Por outro lado, não se identificava com as lontras que eram simplesmente lontras... que não se apercebiam do perigo duma grande lontra, do seu perigo. No fundo, a grande lontra procurava ainda uma grande lontra, o reflexo que vira escapar-se-lhe. Mas não tão grande quanto isso... porque o que mais temia a grande lontra era uma lontra maior. Assim, há muito, muito tempo, a grande lontra acabou finalmente por encontrar a tal alma gémea entre as outras lontras. Mas a história ainda não acaba aqui... A grande lontra apenas queria essa companhia perdida, uma grande lontra igual - mas que fosse menor... e não isso era que incomodava a pequena grande lontra. O que incomodava a pequena grande lontra era que a maior já não via utilidade nas outras lontras. Ela só queria uma companhia, uma companhia sem ameaças do crescimento doutras lontras, e já a tinha encontrado. Porém a pequena grande lontra soubera crescera com as companheiras, e não via em todas elas a mesma ameaça. Não estava disposta a abdicar do seu mundo para satisfazer o grande desejo da grande lontra, por muito que tivesse compreendido a sua situação. Foi assim que, quando a grande lontra dizimou as restantes, a pequena grande lontra desapareceu. De nada valeu a fúria da grande lontra. Tinha que recomeçar tudo de novo, apenas com os peixes... e com o medo de que pequena grande lontra reaparecesse maior, pronta a engoli-la.
Fool's Overture. Supertramp - Roger Hodgson (performed 2004). History recalls how great the fall can be
While everybody's sleeping, the boat put out to sea
Borne on the wings of time, It seemed the answers were so easy to find
"Too late," the prophets cry. The island's sinking, let's take to the sky
Called the man a fool, striped him of his pride
Everyone was laughing up until the day he died
And though the wound went deep, Still he's calling us out of our sleep
My friends, we're not alone, He waits in silence to lead us all home
So tell me that you find it hard to grow. Well I know, I know, I know
And you tell me that you've many seeds to sow. Well I know, I know, I know
Can you hear what I'm saying, Can you see the parts that I'm playing
"Holy Man, Rocker Man, Come on Queenie, Joker Man, Spider Man, Blue Eyed Meanie"
So you found your solution. What will be your last contribution?
"Live it up, rip it up, why so lazy? Give it out, dish it out, let's go crazy, Yeah!"
A formação pela desinformação é uma das artes mais importantes dos tempos contemporâneos.
Há um programa interessante, chamado "Brain Games" que corre no canal de cabo da National Geographic, que visa mostrar curiosidades sobre a maneira de como podemos ser enganados na percepção. Um exemplo é a leitura apressada do seguinte texto:
Com efeito, há uma série de equívocos, enganos, que mostram uma pré-disposição de encaixe de informação nos padrões a que nos habituámos, ou que preferimos. É assim que podemos ler repetidamente um texto sem reparar num erro ortográfico.
Até aqui parece tudo inocente, e até sério, quando acompanhado de explicações e conclusões "científicas". Só que neste "Brain Game" há o jogo que se mostra e o jogo que se esconde.
Sim, este texto é para si. É certo que não sei muito sobre si, mas como poderia não saber quem é? Sei perfeitamente como visita este lugar de forma algo comprometida, sem saber exactamente em quem confiar, e no que acreditar. A sociedade está feita dessa forma, para tornar vulgares pessoas especiais, para que fiquem diluídas no conjunto. Sempre soube que havia algo de especial em si. Sim, é a si que me dirijo, apesar de falar para todos. Verá que as dúvidas que tem, darão lugar a maiores certezas.
Maior certeza, é que o último parágrafo dirigido de forma abstracta a um qualquer leitor, mas dando ênfase à sua pessoa, pode fazer crer que foi dirigido a alguém em especial. Não foi, destinava-se apenas a ilustrar um dos exemplos de técnica de cativação. Em toda a pessoa há uma natural convicção de que é especial, de que há alguma razão cósmica que o torna diferente de todos os outros. Essa tendência de "ser único" raramente é contrariada pela simples conclusão de que todos os outros podem pensar da mesma forma. Assim, numa mensagem dirigida a muitos, é tentado a vê-la como dirigida a si. Isso é explorado pela sociedade moderna, especialmente pela publicidade, por vendedores da banha da cobra, por angariadores religiosos, políticos, científicos, laborais, etc... Convencer o outro de uma mais valia especial é uma forma de captação, de conseguir dedicação e trabalho, a troco de elogios que custam pouco.
A que jogo joga o "Brain Games"?
O programa "Brain Games" pode ser assim instrutivo num alerta para diversos enganos, erros, e contos do vigário. Esse é o lado positivo... só que também tem um lado menos claro.
Tem havido uma tentativa algo sistemática de instaurar a dúvida, a desconfiança contínua, e de certa forma esta série junta-se a muitas outras iniciativas para alimentar a dúvida generalizada. Aqui vai-se ao ponto de instaurar a dúvida sobre o nosso raciocínio. Esta tendência está registada há mais de duzentos anos, pelo menos, e chama-se nihilismo.
Não é um conceito inocente. Ao destruir toda a confiança, quebra-se cada fio que, pelo "confio", une as pessoas umas às outras, e às suas ideias. É assim um conceito desagregador, que vem dos confins do caos, e que estará sempre presente, porque a dúvida estará sempre presente. Alguma dúvida estar sempre presente não é algo mau, pois é o que nos garante alimento contínuo de imprevisibilidade.
O que é mau, é a apologia caótica de que a dúvida é total e nada faz sentido - não é assim.
Sendo certo que somos influenciados, por múltiplas coisas, uma das frases que gostava de usar, quando era "novinho", era a de que "não era influenciável, nem pela minha não-influenciabilidade". Ou seja, era uma forma de fazer notar que a cada nossa postura, interessa reflectir sobre ela. Não podemos procurar ser não-influenciáveis por nada, porque esse conceito torna-se numa influência permanente no raciocínio.
A nossa postura deve ser sempre a de subir acima do que nos é apresentado, e até acima da nossa primeira interpretação. Ou seja, não devemos ser receptores passivos do que nos é transmitido. Devemos receber a mensagem, e entender o papel do emissor na mensagem. Mais, devemos analisar ainda o nosso papel na interpretação de tudo isso. Sim, ninguém disse que era fácil, mas fica por aqui. Interessa tentar perceber não apenas o que o outro diz, mas também porque quer que saibamos, e como reagimos a isso.
Por isso, ao ver estes "Brain Games", vi as interessantes experiências, mas também vi que as conclusões estavam contaminadas por uma pré-disposição de comunicação. Por exemplo, eram mostradas imagens muito deterioradas (tipo imagem de TV com mau sinal), e algumas pessoas tentavam adivinhar. Depois, foi colocada uma figura que seria gerada aleatoriamente por computador (quase como TV sem sinal), e ainda assim as pessoas tentaram adivinhar padrões. Conclusão deles - mesmo que não haja nada para ver, as pessoas são sempre tentadas a imaginar uma relação.
Ora, esta conclusão podia estar parcialmente certa, mas a experiência é viciada. A imagem apresentada não foi uma escolha aleatória. Ainda que tenha sido gerada aleatoriamente, de entre essas escolheram uma susceptível ao engano, a que se junta a condução da experiência - se as anteriores tinham significado, conduziam a pessoa a crer que aquela também tinha.
O que se pretendia mostrar com isto? - Que as pessoas estabeleciam nexos, ainda que não houvesse nexo nenhum. Isto era usado para abordar as questões supersticiosas, e nesse enquadramento, é claro que muitas das superstições pessoais podem resultar de nexos sem aparente nexo - por exemplo, usar um certo cachecol, para a equipa ganhar... porque notou alguma relação entre os resultados e o uso.
Agora, vamos à análise crítica da minha interpretação. É claro que ali não vi apenas uma crítica aos nexos das superstições, mas sim a outros nexos. Os intervenientes académicos escusaram-se a analisar a arbitrariedade do seu próprio nexo, pela interpretação subjectiva da experiência, e só isso mostra bem que o olho que vê os outros raramente se procura ver a si mesmo.
Também noto que a crítica a nexos mais ousados contém um ataque subjacente aos nexos que se vêem nas "teorias da conspiração". Por isso, sendo algo incómodo que as pessoas "estabeleçam nexos quando não devem", é visto como bom que se instale uma mentalidade geral que seja crítica a quem relaciona coisas, que não deveria relacionar.
Quer-se assim diminuir o valor dos nexos não outorgados, ficando apenas fora de crítica os outorgados, então chamados "científicos", ainda que em muitos casos nada tenham de racional ou objectivo, e pouco mais sejam do que "conveniências" práticas instituídas na comunidade.
Ora, abusando eu de nexos em muitos destes textos, não deixaria de ali ver uma crítica válida à construção de nexos, fizesse ela sentido, e não fosse essa crítica pouco mais do que um resultado de experiências viciadas, seguidas de conclusões ajustadas ao pretendido previamente.
Por isso, sendo sempre auto-crítico, esta ideia de questionar o raciocínio usando o raciocínio, cai pelos pés, porque em particular, o raciocínio de questionar o raciocínio, seria em si mesmo um raciocínio questionável. Logo, esse peditório nihilista não colhe nenhuma esmola da minha parte, já que raciocínios ilógicos vão para o lixo caótico.
Assim, quando a minha auto-crítica acerta em argumentos lógicos, faço o ponto final na introspecção.
Prossigo então com mais um pequeno nexo, que tem a ver com o nome "Brain Game", que aqui coloquei no singular.
Coloquei no singular porque "Game" não significa apenas jogo, significa também "Caça", normalmente "caça grossa", e se é jogo, tem tradição aristocrática. No caso português, o que temos de mais próximo foneticamente de "jogo" é a palavra "jugo".
Portanto, há uma velha mania de jogar ao subjugar, e a caça nem sempre são os gamos ou veados, cuja cabeça vai parar empalhada à sala de jantar. Por vezes jogam-se outras cabeças neste "Brain Game". Se uns há que procuram coleccionar troféus, contabilizar adeptos, fiéis ou militantes como mais cabeças, enquanto cowboys da manada; outros há que não vêem o assunto como um eterno confronto entre índios e cowboys, e mesmo não tomando partido, sabem qual o lado em que se devem colocar para respeitar os devidos equilíbrios.
Termino com um diálogo do filme Edge of Darkness, com Mel Gibson.
- There's a lot going on out there in this world. And you just never can connect A to B
.- How do you know that?
- Because I'm usually the guy that stops you connecting A to B. It's part of what I do.
Os nexos sem nexo nunca são incómodos. São piadas ou absurdos.
O único problema desta sociedade são os nexos com nexo que a questionam.
Uma boa parte do panteão divino antigo não prescindiu de deuses ligados à agricultura, normalmente colocados no feminino, na noção da fertilidade da Mãe Terra. Porém, parece claro que as noções religiosas não começaram com a agricultura. O aspecto fundamental de subsistência anterior era a caça, e essa evocação transcendente tem sido deduzida nas representações de animais em cavernas.
Uma comunidade nómada, procurando território de caça, estaria muito mais preocupada com a existência de alimento do que com outros fenómenos naturais. As divindades de subsistência seriam primeiro os animais de consumo e só depois a terra e chuvas que ligavam à agricultura.
Um tal respeito a esses simples animais apenas o encontramos no Zoodíaco Chinês... até porque sabemos que os chineses comem de tudo, e assim a lista não se resume ao boi, ao porco, ao coelho, à cabra, ao galo, e é claro inclui o cão, o cavalo, o macaco, a serpente, o rato, e talvez já noutro sentido de presa e não de predador - o tigre e o dragão.
Omnivorismo
Não é uma questão de brincadeira quando se diz que "os chineses comem de tudo", porque foi também a diversidade alimentar dos primatas que permitiu o seu sucesso. Um leão poderia ser o rei da selva, mas morreria à fome sem carne, por mais fruta que tivesse à disposição.
Ora, a sábia natureza criava estômagos dedicados, e não havia cá misturas alimentares - os animais foram criados como "gente esquisita", aceitando apenas um número reduzido de iguarias.
Por estranho que pareça, os omnívoros foram excepção e não regra... ou seja, o que fica por explicar na evolução darwiniana é por que razão a flexibilidade alimentar não se tornou regra, já que os animais mais esquisitos nos gostos passariam mais fome - a sobrevivência privilegiaria os mais flexíveis.
Para além dos humanos e alguns primatas superiores, são mais conhecidos os casos de ursos, porcos e ratos, ainda que haja outros exemplos, como o corvo.
Esta evolução omnívora não se tratou assim de nenhuma prevalência especial de estômagos especializados de uma certa classe animal. Há omnívoros em diversos tipos de mamíferos e em aves.
Os animais apesar de terem a sua sobrevivência dependente da flexibilidade, parece que fizeram gala em preservar a sua "cultura alimentar"... ignorando desrespeitosamente a lei darwiniana.
Pã
A ligação transcendente aos animais, invocada nas pinturas rupestres, ter-se-à perdido com a prevalência da agricultura.
Foi a agricultura que permitiu a explosão populacional, e o aparecimento de civilizações.
Antes disso, os grupos de populações nómadas seriam necessariamente pequenos, porque apesar de serem omnívoros, os humanos dependiam essencialmente da caça.
Só a agricultura permitiu a escala suficiente para alimentar cidades.
Foi a agricultura que marcou os campos, que trouxe o panteão de novos deuses, não apenas os da terra e da chuva, mas também os da guerra - porque a propriedade ganhou um relevo superior.
É difícil perceber se a pastorícia foi anterior ou simultânea com a agricultura.
Tem razões para ser anterior - porque seria mais simples domesticar animais, mas até à necessidade de sedentarização agrícola, o gado não se desligaria do cajado, condutor de rebanhos de Pan.
Pan acabou por ser uma divindade primitiva, um fauno ligada à pastorícia, mas também com um cariz universal, como o próprio prefixo grego "pan" indica a panaceia, o lugar primeiro no panteão.
Goya - Pan e as bruxas
A agricultura veio dar outro alimento universal, outro "pan" - o pão.
As novas divindades ilustravam a fertilidade da Mãe Terra (Ma-Ter, mater), pela agricultura, no caso de Ceres associada aos cereais. A passagem para os novos deuses deu-se simbolicamente com o crescimento de Zeus pelo leite de Almateia - uma cabra. Aliás, a palavra carne liga-se a carneiro, e o gado caprino aparece como sucesso antigo na domesticação.
Ana
Ana é um nome comum, pela sua associação ao nome da mãe de Maria, avó de Jesus.
Ora uma divindade ligada à caça era Diana, e aqui entramos num ponto especulativo, entendendo que o nome Diana poderia ser composto - Di Ana. Com efeito Diana fazia parte dos Di Selecti (deuses seleccionados), onde o "Di" é uma declinação latina de "deuses". Por outro lado o prefixo "di" pode ser pronomial ou duplicador, não sendo assim de excluir Diana seja um nome composto.
Acresce que Ana era o nome antigo dado ao rio Guadiana, sendo áGua de Ana, ou áGua Diana, lembrando ainda o culto especial dedicado a Diana em Évora.
Mas vamos especular mais...
Ano e Iano
O deus que marcava o Ano era Jano ou Iano... ora o Ano Solar apenas se tornou relevante por via da agricultura, já que havia interesse em prever as estações. É preciso uma observação astronómica razoável para prever as estações, os tempos de sementeira... as plantas antecipam-no, mas tal previsão escaparia à observação descuidada. Por isso a astronomia passou a fazer parte de sociedades agrícolas de sucesso.
Janus - olha o passado e o futuro do novo ano
O conceito temporal de Ano solar é uma necessidade agrícola.
Que outros conceitos temporais existiriam antes?
Claramente o Dia Solar, e o Mês Lunar... de fácil observação directa.
Portanto se Ano se refere ao tempo solar, por que não entender que Ana se referia ao tempo lunar?
Afinal, para além de ser deusa da caça, Diana era também uma divindade ligada à Lua.
Acresce o nome de Anance, deusa grega ligada a Cronos, ao tempo, colocada no primeiro panteão grego como ligada ao destino, e à consequência lógica, pelas regras.
Se há regras marcadas por tempo lunar, o tempo solar seria digerido diariamente em anos.
Por isso, se não é novidade entender os cornos em Cronos, convém notar que o Cranus celta foi associado a Fauno, ligando-se mais a chifres ou cifras caprinas.
A versão taurina parece ser posterior, pois é explícita com o disfarce que Zeus usa para o rapto de Europa. Acresce neste aspecto a versão escandinava de Thor, que só ligamos a "Toro" ou "touro" pelos capacetes vikings com cornos bovinos - espécie que não seria nativa dessas terras.
Rapto de Europa por Zeus, disfarçado de touro (img)
Será apenas assim? Será o Tanas... invocando a divindade fenícia - Tano (Tanit), e a declinação "tano" ou "tânia" (as províncias romanas ocidentais tinham esta declinação - Lusitânia, Britânia, Aquitânia, Mauritânia, a que acrescem os Turdetanos).
A Mauritânia Tingitana remete ainda para a península Tingitana, de Tanger e Ceuta, ou melhor, de Tingir e Seta. Porque é a forma antiga Septa, e não Ceuta, que tinge a expressão
Uma seta (septa - ceuta) em África...
usada exactamente para descrever a conquista portuguesa de Ceuta.
A forma "Tano" ou "Tana" será provavelmente derivada de Ana, onde se liga a Di-Ana enquanto divindade lunar. De facto na simbologia de Tanit aparece associado um crescente lunar, bem como uma ligação entre um círculo e um triângulo.
Daqui chamaram a Noé Iain ou Iano, que significa vinho. Neste campo fundou Noé a primeira cidade que houve depois do Dilúvio, chamada Saga Albina, e tomou o nome do seu fundador, a que chamavam Ogisam Sagam, que significa sacerdote santo.
Brito parece pretender colar o mito do dilúvio de Ogiges a Noé com a designação Ogisam.
Quanto à nomeação como Iano poderá remeter a uma mudança na contagem de anas para anos... ou seja, do ciclo lunar no tempo da caça de Di Ana, para o ciclo solar no tempo "agrícola" de Ianus. Esta é sempre a explicação mais fácil quando se pretende dar nexo à excessiva longevidade pré-diluviana - onde assim teríamos 900 anas a corresponder a bem menos de 90 anos.