sábado, 31 de maio de 2014

Nebulosidades Auditivas (14)

Ramstein, Alemanha. 
Trata-se do centro de operações da USAFE (United States Forces in Europe) desde o final da 2ª Guerra Mundial. A construção foi iniciada em 1948-51, envolvendo 240 mil trabalhadores, a maioria dos quais imigrantes de outros países europeus, dada a escassez de população alemã após o confronto.
 

Após a sua rendição incondicional, a Alemanha foi dividida em zonas sob administração do vencedores, desde a Rússia, Inglaterra, Estados Unidos até à inoperante França. Tal como no caso da derrota napoleónica, a França emergia como vencedora após estrondosos falhanços militares.
O Plano Marshall previa uma ambiciosa política de americanização da sociedade europeia, ainda muito presa às grilhetas da sua tradicional hierarquização aristocrática e burguesa. Em certa medida, à Alemanha Ocidental seria dada toda a possibilidade de reemergir do caos da guerra. 
Para evitar as habituais disputas alsacianas entre França e Alemanha, numa fronteira sempre instável, a reconstrução europeia passou também pelo acordo sem precedentes da CEE. O renascimento alemão seria enquadrado num acordo europeu, e quanto ao aspecto militar houve ainda maior cuidado Aliado.

A Alemanha Ocidental poderia ter polícia, mas seria vedado reconstruir o exército.
Para colmatar esta falha de defesa, e perante a ameaça soviética instalada na vizinha Alemanha Oriental, os Estados Unidos encarregaram-se de assegurar a defesa alemã.
Ramstein é a face mais visível dessa ocupação militar americana, que teria o propósito de defesa.
Ora, entretanto deu-se a queda do muro de Berlim, e a junção das Alemanhas parece ter sido algo anuído por Gorbashov a Helmut Kohl, na esperança de uma aliança económica que lhe permitisse evitar o colapso da estrutura comunista decadente.
O muro caiu, as Alemanhas reuniram-se, mas Gorbashov caiu pelo desmoronamento da base da União Soviética. Dir-se-ia que a Guerra Fria tinha acabado, houve festa, concertos em Berlim... mas os americanos, é claro que não saíram de Ramstein.

Ramstein permanece americana, e dado o contexto de restrição ao exército alemão, será complicado entender essa presença como permanente ajuda defensiva para além do quadro da NATO. Efectivamente, a manutenção do império requer o controlo de pontos estratégicos, e Ramstein é um deles, tal como são outras bases militares americanas em diversos pontos do globo, talvez negociadas com mais aspecto de acordo do que de imposição unilateral.

Rammstein é uma influente e polémica banda alemã, que aparece em 1994, quando estava claro que os americanos não iriam deixar a Alemanha, apesar da queda do muro.
A banda argumentaria que o nome se referia a Rammsteine (grandes pedras nos portões contra aríetes), mas foi entendido que se referia à base militar Ramstein... só por causa do acidente de 1988, num festival aéreo. 

Porém, a discografia da banda parece apontar noutro sentido, como é de alguma forma evidente no tema Amerika, com um refrão elucidativo: "we are all living in America"

Rammstein - Amerika

Para além de toda a paródia à presença americana na Lua, o tema era uma contestação à omnipresença americana, que ficava evidente em "this is not a love song". 
Como a presença na Lua é entendida como indiscutível, a paródia passava mesmo por simples paródia, e o efeito pretendido foi inofensivo, sendo mais evidente a crítica à globalização norte-americana.

Os vídeos dos Rammstein, apesar de poderem ser violentos, são muito bons e exemplo disto é o vídeo que acompanha o tema Mein Herz Brennt, ilustrando uma instituição decadente que mantém presos adultos, mas que são tratados e guardados como crianças.
Mein Herz Brennt - Rammstein

Intencional ou não, há uma analogia que se pode estabelecer... a pressão psicológica exercida sobre os alemães pelos crimes da geração anterior, levou a nova geração a ser invadida por demónios, fantasmas doutros tempos, permanecendo com máscaras infantis, guardados por uma tutora entretanto envelhecida, que exerce o seu poder retendo o crescimento psicológico das crianças, entretanto já adultas, com a justificação de demónios, que são afinal produzidos internamente.
Que conexão com uma sociedade que trata os habitantes com palhaçadas infantis, que usa os medos e ameaças que o próprio poder fabrica, para assim poder condicionar o entendimento geral à infantilidade, e assim manter o seu poder?

Por muito que se tente fazer crer que estamos numa sociedade diferente, estamos numa sociedade criada e mantida pelos fantasmas não exorcizados da 2ª Guerra Mundial, com todos os terrores do holocausto. Com nazis que pareciam respeitar todas as Convenções de Genebra quanto aos prisioneiros de guerra, mas que afinal cultivavam todo o tipo de horrores imagináveis, e não antes imagináveis, a uma mão-de-obra judia que lhes era útil para sustentar a máquina de guerra. 
Que isto tenha escapado aos serviços secretos aliados, que os alemães tenham deixado sobreviventes nos campos para depois servirem de testemunhos contra si em Nuremberga, ou como se teriam alimentado os presos entre o abandono alemão e a chegada dos aliados (mais preocupados em ser os primeiros a chegar a Berlim...), pois isso são questões para as quais não se costuma encontrar resposta.

O passado está sempre entre a realidade e a ficção, e para além de provas, por vezes algo contraditórias, só resta a crença, num ou noutro sentido.
Os fantasmas, esses, existem indubitavelmente, e foram sempre levados às gerações que se seguiram, sob forma de história, umas vezes menos credível do que outras.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Nebulosidades auditivas (13)


"The Him" - New Order - 1981

Some days you waste your life away
These times I find no words to say
A crime I once committed filled me
Too much of heaven's eyes I saw through
Only when meanings have no reason
They're taken beyond your sense of right
Small boy kneels, wandering in a great hall
He pays pennance to the air above him
White circles, black lines surround me
Reborn, so plain my eyes see
This is the reason that I came here
To be so near to such a person

I'm so tired, I'm so tired

"Bloodflowers" - The Cure - 2000

This dream never ends, you said
This feeling never goes
The time will never come to slip away
This wave never breaks, you said
This sun never sets again
These flowers will never fade
This world never stops, you said
This wonder never leaves
The time will never come to say goodbye
This tide never turns, you said
This night never falls again
These flowers will never die
Never die
Never die
These flowers will never die

This dream always ends, I said
This feeling always goes
The time always comes to slip away
This wave always breaks, I said
This sun always sets again
And these flowers will always fade
This world always stops, I said
This wonder always leaves
The time always comes to say goodbye
This tide always turns, I said
This night always falls again
And these flowers will always die
Always die
Always die
These flowers will always die

Between you and me
It's hard to ever really know
Who to trust
How to think
What to believe

Between me and you
It's hard to ever really know
Who to choose
How to feel
What to do

Never fade
Never die
You give me flowers of love
Always fade
Always die
I let fall flowers of blood

domingo, 25 de maio de 2014

NASA e NASmyth

Em 1885 um abastado inventor amador britânico, James Nasmyth decide publicar umas fotos da Lua:

 

Nasmyth não é primeiro a fotografar a Lua. Lewis Rutherfurd tinha-o feito com qualidade similar em 1865. 

Mas Nasmyth vai muito mais longe ao apresentar a foto da direita.
Deparei por acaso, há dois meses, com o livro
James Nasmyth & James Carpenter (1885)

Ora, quando vi a imagem da direita tive que perceber o que se passava! Como era possível em 1885 fazer uma foto da Lua com aquele grau de ampliação, quase só visto por via das sondas espaciais Apollo.

A história é muito curiosa, porque revela bem o engenho inventivo de Nasmyth.
Trata-se de uma foto sim, mas não é da Lua, é de um modelo da Lua.
Qual foi a ideia de Nasmyth?
Construir um molde que ia moldando até que se ajustasse às observações que fazia com um bom telescópio de 20 polegadas, que tinha adquirido. O problema é que as fotos através da lente ficavam sempre muito reduzidas face ao que conseguia ver... se conseguia ver mais, como colocar isso objectivamente, sem ser por mero desenho? 
Surgiu-lhe a ideia de fazer um modelo plástico da Lua, e ir moldando até que o que via no telescópio era igual ao que via no molde esculpido. O resultado foi surpreendente, pois as imagens assemelharam-se muito ao que se observava, e outros astrónomos validaram que as fotos de Nasmyth correspondiam ao que eles próprios viam nos seus telescópios.

Coloco aqui mais 9 imagens constantes do livro de Nasmyth
  

  

  

Bom, até aqui não haveria grande problema, mas Nasmyth decide dar um passo à frente.
Se tinha o modelo, e ele ajustava-se bem às observações, por que não tirar fotos do modelo usando outras perspectivas?
Assim, Nasmyth vai mesmo fazer uma foto como seria vista uma cratera por uma Apollo em órbita lunar:
Não parece assim tão errada quanto depois veio a ser publicitado pela NASA... Nasmyth até considera luzinhas das estrelas, algo que a agência preferiu omitir.

Bom, e afinal o que fazia a NASA nos anos 1960?

Pois... a NASA fazia modelos, usando a mesma técnica que Nasmyth tinha pensado 80 anos antes.
(artigo com várias fotos dos modelos usados pela NASA)

Não é negado que a NASA usou estes modelos para simulação das viagens, e que as filmagens usando estes modelos seriam muito próximas daquelas que foram depois divulgadas.

Para vermos como Nasmyth foi uma fonte inspiradora da NASA, basta ver uma idealização sua de um eclipse terrestre visto da Lua, que faz lembrar muitas das paisagens espaciais desenhadas na NASA.
Idealização de Nasmyth sobre um Eclipse Terreste visto na Lua.

Procurei imagens de eclipses terrestres, mas só encontrei verosímeis vindos da sonda japonesa Kaguya... mas parece que é suposto a última missão Apollo 17 ter tirado este:

... ora essa imagem da Terra em eclipse é suposto ter sido retirada daqui:
 
Eclipse terrestre visto da Lua (em web.mit.edu) 
e habitual foto da Terra - sem eclipse - divulgada pela Apollo 17.
[sim, eu sei, são todas a mesma]

... enfim, só se for mesmo para eclipsar o que resta da credibilidade da NASA, já que ninguém no seu bom senso pode considerar tal imagem minimamente verosímil. 

Como a imagem não é fácil de encontrar, creio que é melhor a NASA assumir a incompetência de se esquecer de tirar imagens de um eclipse terrestre, do que ousar que no bréu do eclipse terrestre havia luz e sombras verticais de astronautas... para além de várias falhas na própria difracção da luz solar, entre muitas outras coisas, onde a Terra ser gigantesca é o menor dos problemas.

Afinal, basta reparar que a imagem da Terra que escolheram para o eclipse é a celebrada foto da Terra feita pela Apollo 17. Pois, pois é! 
A menos que a Terra não tenha rodado e que as nuvens tenham ficado estáticas uns dias para a fotografia, parece que a manipulação é demasiado evidente - mesmo para os baixos standards a que a NASA nos tem habituado.

Para compreendermos como as palavras traduzem mais do que parecem, notemos no seguinte:
NAS-A
NAS-MYTH
... e que Nasmyth foi inspiração para o NASA-Myth, creio que ficou bem claro.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Questão do EU

A Questão do EU é geometricamente esta:

Eu ... um ... u3

É uma perfeita estupidez começar por assumir que nós somos seres insignificantes num pequeno planeta, num minúsculo Sol, numa entre muitas galáxias... isso poderá ser um ponto de chegada conclusivo, mas nunca um ponto de partida reflexivo.
Porquê?
Porque podemos fechar os olhos e as gloriosas vistas desaparecem, o eremita pode isolar-se numa cela insonorizada para recusar o mundo exterior, mas nunca conseguirá fugir de si próprio.

Suponhamos agora que o eremita ao encontrar-se em sintonia consigo, em auto-suficiência, recusava o exterior. O que acontecia? Entrava num sonho enfabulado de si mesmo. Definiria o seu próprio universo. É também isso que compram as drogas, uma alucinação conveniente. Se essa alucinação não fosse atenuada pela ressaca, poderia ter um destino ainda mais vegetal.

Podemos acreditar ter ido à Lua ou à galáxia mais recôndita do universo, sem nunca ter saído do mesmo sítio... tudo depende do tipo de alucinação que se acorda.
É perfeitamente possível pegar numa pessoa, enfiá-la num simulador qualquer e fazer-lhe crer que andou na Lua. Como já dissemos, as velhas questões filosóficas sobre a ilusão dos sentidos, tornam-se cada vez mais exequíveis com os simuladores de realidade virtual.

A dualidade entre nós e o exterior é feita por aquilo a que se habituou chamar "sentidos".
No entanto, como sabemos, num sonho, ou numa alucinação, não precisamos dos olhos para vermos, não precisamos das pernas para andar, nem dos ouvidos para ouvir.

Sonho embalado
Ora, a velha questão filosófica era distinguir o sonho da realidade... já que nada impediria esta realidade de ser apenas um sonho. Para esse efeito, as respostas científicas valem zero, são profissões de fé.
Pior, as comunidades, os grupos, justificam-se diminuindo o indivíduo.
Glorificam heróis para representar o grupo, mas isso serve uma diminuição dos outros indivíduos.
Os grupos precisam de justificar-se pelas suas heranças.
Um grupo é sempre incompleto, porque não tem unidade nas diferenças individuais.
No máximo pode procurar unidade na forma de um líder... mas isso corresponderia a uma anulação efectiva dos restantes, surgindo como extensão corporal desse líder. Como a anulação dos restantes não se poderia efectivar, a menos de seres robotizados, a sua manifestação será sempre uma perturbação à unidade.

Por definição, a unidade existe apenas no indivíduo. É ele que agrega em si, de forma harmoniosa, diferentes manifestações mentais, que até poderiam corresponder a diversos indivíduos, como personagens num conto, mas que sabem conviver juntos num só corpo, num só cérebro.

pSismos
Que sentido tem um sujeito afirmar-se perante os outros como solipsista?
A posição do "eu" como única entidade decorre de uma deficiência da noção.
O "eu" só poderia ser considerado como único num universo estático.
Assim que há mudança, temos duas hipóteses: - ou o "eu" controla por completo essa mudança, ou ela é-lhe alheia.
Se controla por completo a mudança, não há nenhuma mudança... porque efectivamente já estava prevista antes, já existia em si conscientemente no momento anterior.
Vemos assim que a posição solipsista é puramente insustentável na existência de tempo.
Um solipsista coerente está congelado.

Daqui deveria seguir-se o bipsismo... mas o termo não existe, e há múltiplas definições de dualismo, nenhuma das quais ajustáveis muito ajustáveis ao que vou dizer. Talvez a mais próxima seja ontológica, no dualismo yin-yang do taoísmo, ou a uma dança de Xiva... mas mesmo assim usa uma definição temporal, passando mais a triplicidade.

Bipsismo. 
Bom, mas o que é então este bipsismo?
Definida a consciência no "eu", aparece inevitavelmente o "não eu" - ou seja, tudo o que nos é alheio, sem um nexo remetido ao "eu".
Até aqui parece ser uma mera dualidade entre "eu" e "não-eu".
Começa por ter diferença, porque a própria noção temporal nos é alheia... não controlamos o tempo. Este "não-eu" surge assim como uma entidade imensa... englobando tempo, espaço, ideias, etc.

O bipsismo consiste em assumir que apenas existem estas duas entidades, ao invés de uma, e segue-se assim naturalmente ao solipsismo.
Que estas duas entidades existem, é inegável, tão inegável quanto o "eu" existir.
A questão é saber se o "não-eu" tem que ser necessariamente múltiplo, ou pode ser visto como uma única entidade, nesta perspectiva dual.
O mais próximo que temos disso é a relação unipessoal com Deus, mas apesar de se dizer que está em a toda a parte, ninguém assume que Deus seja simultaneamente a vizinha, o padeiro, e o piriquito. Pode-se admitir "estar" temporariamente, mas não "ser".

Ora, aceitando que o "não-eu" é uma entidade conectada, entra-se na suprema "teoria da conspiração" - tudo o resto está em oposição... numa forma de Deus unipessoal, se quisermos. Só que os processos lógicos têm o reverso da medalha, e seria igualmente válido na perspectiva oposta, em que o "eu" passa a ser o "não-eu".
Bom, mas que entidade controla a relação entre o "eu" e "não-eu", a sua evolução?

Tripsismo
O controlo da evolução por um "não-eu" remete pelo menos para uma entidade superior formada pelo par ("eu", "não-eu"), que não pertence a nenhum dos dois, a menos que se assumisse que o "eu" era uma subparte do "não-eu", algo contraditório por definição.
Automaticamente vemos que o "não-eu" é uma entidade de alguma forma circunscrita à lógica, e há noções perenes, automáticas, matemáticas, que escapam a qualquer controlo, seja do "eu" ou de um "não-eu" mais personalizado.
Assim, devemos falar no "eu", no "não-eu", e nos automatismos, lógicos e matemáticos, que circunscrevem os dois.

Na evolução temporal (cronos), para além de cada um, existe a fronteira (raia) que delimita.
É uma entidade independente, é o corte adamantino que faz a separação entre o "eu" e o "não-eu".
Sabemos que há alguma previsibilidade na evolução dessa linha fronteiriça, pelas leis da natureza, pela lógica, e assim a relação entre "eu" e "não-eu" não é arbitrária. Pode ser algo caótica, pelo que desconhecemos, mas é também algo ordenada pelo que conhecemos.
Assim, o supremo teórico da conspiração pode ficar descansado porque não há nenhum poder ilimitado do "não-eu" sobre o "eu". Um espírito racional tem meios inerentes para recusar o ilógico. O ilógico só tem existência temporária em discursos, em pensamentos, não pode ter existência na realidade.

Face ao bipsismo há uma pequena grande diferença - não se tratam de duas entidades que interagem de qualquer forma... há regras, e um caminho determinado para ambas.
A determinação não é pré-determinação, é um traço que já separou o "eu" do "não-eu", do princípio ao fim.
Qual fim?
O fim do "eu" apresentaria o "não-eu" como entidade única... no entanto tal coisa só se definiria como negação do "eu", e por isso o "eu" estaria inevitavelmente presente.
Esta dualidade é arbitrária. Passamos então ao outro lado do espelho.
O fim do "não-eu" apresentaria o "eu" como entidade única... no entanto tal coisa só se definiria como negação do "não-eu", e por isso o "não-eu" estaria inevitavelmente presente.
Esta segunda redacção é mais fácil de aceitar, porque nos parece absurdo poder eliminar o "não-eu", mas como vemos é só uma questão de mudar os nomes.

Os outros
Tudo isto parece esquisito, porque estou em terrenos de que ninguém fala ou ousa falar.
Na realidade, uma vez percebido, é simples.

Podemos prosseguir na análise do não-eu, continuando nas divisões.
Uma divisão óbvia é assumir que o não-eu é composto de várias entidades não ligadas. No entanto isto é uma pura suposição de vivência, não há nenhuma certeza que nos diga que o padeiro, a vizinha e o piriquito são personagens diferentes e não são emanações da mesma entidade. É claro que todos vão dizer que não são... mas é essa consistência que temos que concluir, e não assumir. Até porque os próprios não poderiam fazer crer diferente, pela consistência do seu papel.

Como tivemos oportunidade de referir no texto Truman a hipótese de um indivíduo estar sozinho, sendo completamente manietado por um exterior organizado, é teoria de conspiração, mas também hipótese de inegável consistência. Só que quanto mais o exterior se define em função do interior, maior é a potência do impotente. A dualidade torna-os equipotentes lógicos.

Já concluímos que o "eu" tem que assumir pelo menos a existência de um "outro", e será uma entidade igualmente inteligente porque responde dessa forma. É inútil pensar que o que se nos opõe ou é mais ou é menos inteligente. A inteligência está definida à medida do receptor, e por isso o receptor tem a inteligência necessária para o seu completo entendimento do seu universo. Isso implica não olhar só para além de si, implica olhar para si, antes de mais. O completo entendimento não é o entendimento total, é antes de mais o entendimento da razão das limitações.

A análise da dualidade entre "eu" e "não-eu" não garante a existência de múltiplos outros. Existindo muitos "eus" existem igualmente muitos "não-eus". Se os "eus" estão separados, os "não-eus" não estão, têm uma parte conjunta, que se manifesta na complementaridade comum. A isto deveria ser dado um outro tipo de atenção... mas não é aqui o propósito.

Para termos as coisas mais claras, conhecidas as possibilidades na internet, um observador exterior pode pensar que eu e os comentadores somos todos a mesma pessoa, eu posso achar que diferentes comentadores são o mesmo, etc... Nem é preciso inventar, esse tipo de questões já se colocou aqui.
A interacção na internet tornou estes assuntos mais claros, mas nada impede que eles se coloquem mesmo ao nível da realidade que admitimos, especialmente com o advento de androides manietados.
No entanto, estas questões são mais antigas.
Por exemplo, quando era admitido as pessoas estarem "possuídas por espíritos".

Hoje em dia, quando vemos alguns discursos repetidos...

... só nos resta agradecer a Ayrault e Hollande a ilustração de como um espírito se pode manifestar em dois corpos distintos, sem estar em nenhum deles.

17/05/2014

sábado, 10 de maio de 2014

Redescobertas

Há um fenómeno muito interessante na redescoberta.
As descobertas não se dão em simultâneo, porque as pessoas são diferentes, e aquilo que apreendem de uma informação não é o mesmo, e é até diferente em tempos diferentes, porque o próprio já é diferente.

Internet
O aparecimento da internet foi sintomático para vermos o efeito das redescobertas.
O meio científico foi o primeiro a desenvolver a internet, mas esta teria interesse limitado se tivesse ficado por ali, ou pelas empresas de tecnologia. Foi a expansão a outros quadrantes da sociedade que lhe deu maior ânimo.
Uns sectores mantiveram-se mais afastados do que outros. Sempre houve quem considerasse ser coisas doutros, que não era para si, que poderia obter o mesmo doutra forma, etc...
No entanto, a cada vez que um novo sector redescobria a internet, novas coisas eram acrescentadas.

Para quem já conhecia o assunto, era quase uma tortura apanhar com essas redescobertas, até porque muitas vezes eram apresentadas de forma diferente.
Cada um julgava que tinha descoberto a roda, e até os sectores do Estado iam experimentando as novidades, julgando que tinham descoberto a panaceia... torturando os pacientes com burocracias.

No entanto, no meio do processo, acabaram mesmo por surgir novidades, por fenómeno social.
Assim, quem tinha visto a internet no início, e se colocasse nesse âmbito, passava ao lado do crescente fenómeno popular das redes sociais. Simplesmente não lhes dava importância.

Quem julga que já sabe, pura e simplesmente ignora o resto.
Lembro perfeitamente um amigo achar que a mulher era "maluca" porque lhe disse para procurar uma coisa na internet sem lhe dar o endereço exacto. 
Ora, antes do Altavista, Google, etc... não havia motores de procura. 
Nessa altura só se seguia a informação por cliques... ou sabendo o endereço exacto. 
Sim, foi há muito tempo, na pré-história, isto é, há quase vinte anos!
Quando lhe disse que ela tinha razão, ele ficou muito atrapalhado, porque usava a internet habitualmente... mas seguia a velha receita, que funcionava, mas era limitada.

Por outro lado, quem se habituou ao Google, poderia questionar para que servia o endereço em cima, e já raramente sabe o que é um URL e que esse URL era associado a uma sequência de números, o IP. 
Por exemplo, www.google.com ou 173.194.34.5 leva à página principal da Google (ver outros).

História de nomes perdidos
Quando se redescobrem coisas, é habitual cada comunidade colocar o seu nome, ignorando outros já existentes. Assim, apareceram expressões que caíram em desuso, mas tiveram o seu tempo... uma delas o "portal", outra "autoestrada da informação", etc.

Este tipo de informação - nomes alternativos - tende a perder-se com o tempo, e a prestar-se à confusão. A certa altura não se sabe se é referida a mesma coisa ou não.
Isso foi particularmente notório na época dos descobrimentos. 
Como já percebemos, houve múltiplos redescobrimentos, porque as coisas eram ocultadas. Ficava um nome de uma ilha, que depois já não se sabia a que ilha correspondia. Podem ter havido dezenas de nomes diferentes para a Austrália... tantas vezes foi redescoberta entre os Séc. XVI e XVIII. Nova Holanda, Nuca Antara, Austrália do Espírito Santo, Java Maior, Terra Magalhanica, Taprobana, Nova Guiné... são alguns exemplos conhecidos e outros candidatos que junto. 
Da mesma forma, a América foi entendida como sendo a Atlântida no Séc. XV, e isso ainda se manteve presente nos séculos seguintes, até se propagandear de novo que seria ilha diferente.
Outros nomes que me parece terem sido usados para América foram Etiópia e Guiné. 
Etiópia quando se pretendeu, como Colombo, ignorar a América... assim o Brasil apareceria em latitudes etíopes. 
Guiné quando se percebeu  que isso não era assim... depois, por via do Tratado de Tordesilhas, os domínios americanos correspondentes a essa Guiné oculta reclamada por D. João II, saíram da parte portuguesa, e a Guiné portuguesa ficou apenas em África. Quando se volta a usar o termo Nova Guiné, é para a outra grande extensão que ficaria oculta e que deverá ter incluído a parte australiana.

Claro, perante o significado directo actual de uma paragem ao seu nome, parece algo ridículo pensar que o Golfo da Guiné pudesse ser o Golfo do México... Por isso, quando se lêem textos antigos é melhor não fazer a associação ao que ficou depois. É preciso questionar por que razão a viagem de Colombo à América colocava em causa os "domínios da Guiné" de D. João II... se essa Guiné estivesse em África.

Por isso as palavras, apesar de iguais, nem sempre eram referidas com o sentido que lhes damos hoje, e se isso já é complicado dentro da mesma língua, mais complicado é nas traduções de línguas perdidas.
Há uma grande quantidade de ilhas referidas nos documentos dos Séc. XVI e seguintes, de que se perdeu a correspondência, e pensar que o nome igual é suficiente é hipótese ligeira. Houve muitos nomes iguais em paragens distintas. Houve várias ilhas de Santiago, de São Vicente, do Maio, etc...

No meio deste processo, há quem remeta estas considerações para teorias "malucas", e outros que sabendo mais, ficam apenas a pensar - olha mais um que julga que descobriu a roda! O problema é que seguindo por caminhos diferentes, o resultado pode ser parecido, mas nem sempre é o mesmo. 
Quem descobre tende a dar pouco valor de novidade à redescoberta, prefere ficar preso ao que sabe, e vai tentando desvalorizar o que não sabia.

Filosofia
Filosofia é aquela disciplina que aparece no ensino secundário e para a maior parte das pessoas serviu para saber que Platão e Sócrates foram gregos importantes.
As coisas são como são, e quando as repostas são dadas antes das perguntas, a sensibilidade é outra.
A filosofia só faz sentido depois de surgirem naturalmente as perguntas.
Podemos ensinar uma criança a decorar o nome de milhares de símbolos chineses, mas apesar de estar familiarizada com esses símbolos, isso não significa que entenda sequer uma palavra de chinês.

Nos dias que correm, por via da tecnologia, do cinema, da realidade virtual, etc. é mais natural que as antigas perguntas surjam como coisas novas, a quem nunca as percebeu antes.
Vamos entrar num processo de redescoberta da roda... mas devemos ter em atenção se são apenas redescobertas, ou se pode surgir algo novo entretanto, por razão do caminho ter sido diferente.

Um filme muito interessante que apareceu em 2009 é Surrogates
How do you save humanity, when the only thing that's real is you?

Por acaso também vi publicidade a um livro que se vende:
... e antes de pensar que é mais uma treta de auto-ajuda, fui lá ver o âmbito do bicharoco.

Ora, o que se passa é que numa sociedade educada cientifica e tecnologicamente, os cientistas começam tarde a perceber os problemas que a filosofia abordava há milhares de anos.
Porém, vêm como uma visão diferente, não chegam à filosofia pela leitura dos filósofos... chegam à filosofia pelos paradigmas científicos. A alegoria da caverna de Plarão só é entendida quando pode ser simulada num laboratório qualquer... enfim!

Quem escreveu o livro não viu o filme, ou não percebeu uma grande parte dos filmes de ficção científica, não interessa.
O que interessa é que a realidade virtual que para um filósofo antigo poderia ser observada num simples sonho ou alienação, para a maioria das pessoas educadas cientificamente só aparece mesmo quando há máquinas capazes de fazer o quê? - De simular sonhos ou alienações...

Mas o contexto é diferente... é diferente, porque o sonho é suposto não ter ligação com a realidade, enquanto que os desenvolvimentos científicos vão permitir ligar as simulações à realidade.
Esse é o contexto do filme Surrogates.
As pessoas deixam de interagir na realidade. 
Passam a controlar robots, androides, e é através desses androides que vivem a nova realidade. 
Muito semelhante ao que se pode passar na internet, onde podemos não saber com quem falamos, onde muitos serem apenas um, ou vice-versa, mas passando de um mundo virtual ao real.

Desejo... esse desconhecido
A interacção com as novas tecnologias parece permitir grandes novidades, mas a maioria dessas novidades são uma questão de simples relação entre fé e desejo.
O que vemos nesses desenvolvimentos científicos é a vontade se ser mais do que se é, como se o segredo de maior felicidade fosse um ajustar da realidade aos nossos desejos.
Os nossos desejos foram evoluindo por uma multiplicidade de factores, e há alguns que fazem sentido, e outros que não fazem sentido nenhum. 
Entre os desejos que fazem sentido é uma vontade de melhorar a saúde, o conforto, ou contactar com entes queridos que desapareceram. 
Entre os desejos que não fazem sentido é a vontade de ganhar protagonismo face aos restantes, de obter imediatamente o que se quer, etc... São desejos infantis, próprios de uma herança animal. 

São desejos possíveis, mas as pessoas não vêm até onde eles podem ir.
O desejo de protagonismo face aos outros implica uma menorização dos outros, e isso leva a uma contradição. Primeiro porque se todos têm o mesmo desejo, ele não pode ser concretizado na mesma realidade. Segundo, porque isso criaria realidades diferentes, onde cada um estaria afinal isolado. Terceiro, porque nessa realidade isolada onde era o "maior do bairro", era apenas um deus dos bichos - os outros não podiam ser iguais a si, porque ele tinha que ser superior.
Obter imediatamente, ou a muito curto prazo, o que se quer, leva também a uma previsibilidade. 
A pessoa passaria a saber que os seus desejos seriam atendidos.
Se evitar o que se não quer, ou tolera, me parece algo desejável, no acordo com os outros, já ser realizado o que se quer implicaria uma previsibilidade. Alguma previsibilidade é necessária, mas um excesso de previsibilidade mataria-nos o interesse por novas coisas.

Implantes robotizados e outras tretas
Assim, a ciência caminha para a descoberta árdua da filosofia. 
Haverá uns tantos idiotas que vão arranjar cobaias para acrescentos cerebrais, desde chips para aumento de memória, com interacção com máquinas, etc...

Podemos ter um indivíduo ao nosso lado que joga xadrez como o Deep Blue, que faz um milhão de contas num segundo, que tem todos os livros do mundo na cabeça, algo por exemplo, como é sugerido no filme Transcendence (que ainda não vi):
Transcendence - trailer 2014

Porém, a ideia de que isto se trata de "transcendência" é o mesmo do que pensar que um adulto transcende uma criança. Podemos ter mais faculdades, mas se os conceitos são os mesmos, nada de diferente foi alcançado. Certamente que não é tendo mais memória ou mais capacidade de cálculo que se atinge algo de novo.
Atinge-se o mesmo, apenas em quantidade superior.
Depois, o óbvio.
Se jogamos xadrez melhor que o Deep Blue, qual o interesse de jogar com um humano?
Pior, como a capacidade das máquinas irá em breve permitir determinar qualquer jogo de xadrez, qual o interesse do jogo? Nenhum! Perde interesse, simplesmente.
Aumenta-se a complexidade do xadrez? Mais peças, maior tabuleiro? Para quê? Não era um simples jogo? Fica mais interessante depois? Não! Apenas aumenta a complexidade.
O que interessa é que o número de parceiros diminui...

Quem joga xadrez percebe a beleza de algumas jogadas, mesmo a um nível médio. Onde está essa beleza, colocada nuns quadradinhos idiotas com poucas peças? Essa beleza está na nossa cabeça, no facto de podermos desfrutar com o nosso conhecimento - ser surpreendidos e surpreender.
Quando a surpresa desaparecer, desaparece a beleza.
Quando o conhecimento aniquilar o desconhecimento desaparece o propósito de vida.

Não somos definidos pelo que temos. Somos definidos pelo que nos falta. É isso que nos move.
À noção de Deus nada falta, e assim nada o moveria.
Um Deus estático é o Universo intemporal, como Espinosa notou.

Quem não sabe o que lhe falta, move-se como uma barata tonta, perdida em múltiplas direcções.
Pode acrescentar o lixo todo que quiser ao seu conhecimento, mas só aumenta o seu lastro.
Só precisamos do conhecimento necessário para ser surpreendidos com novo desconhecimento.
Quanto mais depressa se procurar o conhecimento completo, com menos nos surpreenderemos.

Se me falta alguma coisa, é mais que os outros percebam isto... mas isso, como é óbvio, pouco depende de mim.

sábado, 3 de maio de 2014

Arvorio

Apesar das coisas nos aparecerem de forma muito diversa, há relações que se podem estabelecer quando a análise é suficientemente abstracta, identificando estruturas comuns.
Perfis de uma árvore, e da bacia hidrográfica de um rio.

É claro que apesar das semelhanças que procurámos tornar evidentes na figura de cima, poderá haver quem veja apenas um rio e uma árvore. Portanto, há um certo tipo de relações que podem ser estabelecidas e que não colhem qualquer sensibilidade, quando as mentes se colam ao objecto, e não se afastam o suficiente, para uma visão não literal.

No entanto, imagino que para as semelhanças na figura de cima, haja alguma sensibilidade e se consiga ver uma relação entre uma coisa e outra, num sentido dual. Se a árvore bifurca em ramos partindo do tronco comum, um rio colhe água dos afluentes formando depois um curso comum. A árvore tem ainda a particularidade de evidenciar nas suas raízes a mesma faceta aglomeradora de nutrientes transportados ao tronco. Se o curso do rio vai para o "mar", o curso da árvore vai para o "ar".

Porém, o caso muda de figura, quando passamos para outros aspectos relacionais menos vulgares.
A palavra "árvore" pode ser vista numa composição "ar+vore", e sem ir à etimologia latina do "arboris", vamos simplesmente notar que "de-vorar" está ligado à palavra voraz, ligando-se à alimentação.
Portanto, numa arbitrária ligação podemos entender "arvorar" como um alimentar-se de ar.
O significado popular de "arvorar", ligado a um inchar balofo, liga perfeitamente a esta noção... e assim uma árvore voraz por ar, pode ter feito parte de um entendimento primevo (por desconhecimento doutra forma de alimentação, ou enfatizando esta).

Note-se que há uma distinção entre "árvore" e "planta", onde a última remete a "plantação"... e inicialmente uma árvore não seria vista como "plantável".
Ora "plantar" tem um outro significado, ligado a uma posição fixa, como "estar em plantão".
Acresce que o planeamento da plantação pode ter gerado a própria noção de "planta", enquanto representação geométrica da posição das sementes. Acresce ainda que a orientação seria feita através de um marco visível... ou seja, a orientação da "planta" poderia ser "pela anta", "pel'anta".
Argumentação especulativa? Sim. Circunstancial? Não.
Se fosse este apenas um caso, poderia ser entendido como acidental... mas não é. A própria palavra "plano" pode remeter a "pelo ano", "pel'ano", denotando um agendamento agrícola.
Também não é circunstancial pelos inúmeros exemplos que tenho aqui apresentado, e se não coloco mais é porque se tornaria maçador e intrincado.
Quem quiser também pode não entender que "enterra" é meter "em terra", e esta é mais óbvia, mas também pode haver quem ache que não. Nuns casos, a ligação é evidente, noutros nem tanto.
A informação está aí para ser vista, quem quer ver vê...
Pode-se fechar os olhos, mas não desaparece.

Pois... note-se então o piscar de olho.
Talk, talk - it's my life.

sábado, 26 de abril de 2014

Nebulosidades auditivas (12)

Fernão Capelo Gaivota 

Jonathan Livingston Seagull
The New York Times, July 3, 1974 
Des Moines, Iowa, July 2 - John H. Livingston, the man who inspired the best-selling novel "Jonathan Livingston Seagull," died Sunday at the Pompano Beach (Fla.) Airport soon after completing his last plane ride. Richard Bach, a former Iowa Air Guard pilot, has said his best-selling book about a free-wheeling seagull was inspired by Mr. Livingston. (...)

Se Richard Bach se inspirou no piloto americano, a tradução portuguesa foi muito clara...
... ao (David) Livingstone, associou o (Hermenegildo) Capelo.
Acrescentou ainda um Fernão (entre muitos, provavelmente o Magalhães).
Os espanhóis também evitaram o nome Livingston, e usaram Juan Salvador Gaivota. Casos únicos.

A pequena história de Richard Bach de uma gaivota, gull, mas seagull e não portgull, passa a filme de sucesso mundial em 1973, usando uma banda sonora de Diamond... Neil Diamond:
Lost, on a painted sky, where the clouds are hung
For the poet's eye, you may find him, if you may find him

Assim, juntando ao poema marítimo "a life on the ocean wave", em 1974, tudo está pronto para uma outra canção "revolucionária" - Somos Livres... mais conhecida pelos versos:
Uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar.
Como ela, somos livres, somos livres de voar.
... registo único conhecido de Ermelinda Duarte.

1973 é um ano marcante.
- Para Portugal, a visita de Marcelo Caetano a Londres, que acabara de entrar na CEE, pode ter assinalado o fim do regime. Creio que Salazar nunca saiu de Portugal - só se foi a Espanha comprar caramelos. Mas é também um ano em que se fundam o macavenco PS de Soares, e o expresso do "pilgrim" Balsemão. Dois personagens que vão definir os partidos do "arco" do seu governo.
- É o último ano de "visitas lunares".
- É o ano da Crise Petrolífera, que abala a economia internacional, e afectará muito Portugal. 
- É o ano de inauguração do World Trade Center, das torres gémeas. 
- Nixon abre as portas com uma visita à China, começa a retirar tropas do Vietname, e será afastado pelo caso Watergate. Se Nixon foi afastado, Kissinger manter-se-à bem activo. Recebe o Prémio Nobel da Paz pelos acordos de Paris, que levariam à retirada dos EUA do Vietnam.
- Em contraponto, Allende é morto no golpe militar chileno... 

Os estados ibéricos procuravam manter os anacrónicos regimes que sobreviveram à 2ª Guerra, Franco era substituído por Carrero Blanco, mas esse será assassinado pela ETA no mesmo ano. Está lançado o ataque contra o "fascismo" na Europa... ao mesmo tempo que é apoiado no Chile.

Pensar que a comunidade internacional, muito em particular, americanos, e sobretudo ingleses, se alhearam do assunto, e que foi uma iniciativa local, parida por uns insatisfeitos capitães de Abril, é um mito que interessou preservar.
A liberdade da gaivota do seu voo é muito condicionada pelas correntes de ar, e os seus objectivos podem ser facilmente distraídos por uma embarcação cheia de peixe... como ela, somos livres, mas nem tanto quanto isso!

Na Ópera Otelo, o alferes Iago fica melindrado com a promoção a tenente de Cássio pelo General Otelo, e inicia uma série de intrigas... 
Salgueiro Maia soube sair de cena no 25 de Abril, e apesar do seu papel fulcral não foi um dos promovidos, só passando a Major em 1981, ao contrário de outros que rapidamente passaram de capitães a generais.

Por vezes, nem tudo o que é previsto acontece, e a ópera Otelo não foi encenada em Portugal... houve outras operetas, outros cantos de cisne, e a revolta deu a volta prevista.

Este postal não foi feito no 25 de Abril, dia de muitos anónimos, simbolizados no nome de Maia, Salgueiro Maia. Não sabiam tudo ao que iam, mas iam por bem... e essa simples diferença, faz muitas vezes a diferença.

Nota adicional
As coisas são como são e valem o que valem.
Pouca gente conhece Salgueiro Maia pelo primeiro nome... Fernando.
Comecei o post anterior pelo A de ABBA, e é melhor acabar este da mesma forma, deixando os B's pelo meio.
There was something in the air that night, the stars were bright Fernando 
They were shining there for you and me, for liberty, Fernando

Björn Ulvaeus terá dito que era uma canção sobre revolucionários mexicanos, e a referência ao "rio grande" pode sugerir isso. Mas, enfim, ainda que os ABBA nunca tenham vindo actuar em Portugal... em 1975 não seria a revolução que estaria mais na mente de um grupo que tinha acabado de ganhar o festival da canção dias antes em que Fernando ouvia o "E depois do adeus", e avançava com as tropas de Santarém a Lisboa, pelo curso do grande rio.
Ao que parece, a canção era só de Frida, e passou a ferida revolucionária com o nome "Hernandez", mas o nome foi mudado para "Fernando", por aquilo a que se chama "espírito santo de orelha":

Originally named "Hernandez", the writers made last-minute changes to the title before recording. The suggestion of the name "Fernando" was given by their limousine driver Peter Forbes in Shepperton, England. Tony Fernando, a wealthy exports director for celebrities such as Princess Anne and Tom Selleck, was a friend of Peter Forbes.

Roger that. Oscar. Bravo. Over and out.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Nebulosidades Auditivas (11)

A ocasião é de ser festivaleiro...
Oooohhh! - It's Napoleon. 
Napoleon, no wonder their song is called Waterloo...
... really entered in the spirit of it all dressed as Napoleon.

ABBA
My, My, at Waterloo Napoleon did surrender... 
The history book on the shelf, is always repeating itself

Dia 24 de Abril de 1974.
Pouco antes, dia 6 de Abril, Paulo de Carvalho tinha ficado em último lugar no festival da Eurovisão.
O até aí desconhecido grupo sueco ABBA ganhava o concurso, o início de uma história de sucesso.
A França, habitual vencedora, no tempo da "chanson française", não participa no concurso - a razão, Pompidou, presidente em exercício, morre. Em respeito às cerimónias fúnebres que se realizam naquele dia, a França decide retirar a sua participação.
Se a ocasião parece fúnebre para os franceses, será apenas irónico ganhar Waterloo, ou será um pouco mais do que isso, o maestro Waldoff aparecer vestido de Napoleão, sabendo-se que os franceses estavam em "retiro"?

A vitória dos ABBA marca praticamente o fim da "chanson" e começa a dinastia "song".
As vitórias de 74, 75 e 76 são de "songs" cantadas em inglês.
Como outro pormenor curioso, o festival de 1974 era suposto ser realizado pelo país vencedor, mas como o Luxemburgo ganhara novamente, passou para a Inglaterra... acrescentando um toque adicional à derrota napoleónica em Waterloo. Em 1977, a França ganha... com Marie Myriam, filha de portugueses, e foi esta a única meia-vitória que a nação tanto procurava no Eurofestival.

Isto não teria importância, não fora a enorme importância dada ao Festival em Portugal, e mesmo na Europa dos anos 60 e 70.
Isto não teria importância, não fora o movimento armado escolher a canção de Paulo de Carvalho como código inicial para o 25 de Abril.

Nada a dizer. Tinha havido alguma polémica, pois "No dia em que o rei fez anos" - Green Windows  tinha colhido favoritismo, mas como vencedora a canção passaria despercebidamente, e só a passagem de Grândola, de Zeca Afonso, na Rádio Renascença seria já algo estranho.

Se o movimento do 25 de Abril tivesse abortado, nunca saberíamos que a programação das músicas na rádio portuguesa poderia servir códigos revolucionários... e quem associasse algo de estranho passaria por alucinado das teorias da conspiração.
Só que neste caso havia mesmo uma conspiração em curso, contra o regime.
Por isso, as teorias da conspiração só o são até ficar evidente que podem ser mais do que "teorias"...
Neste caso a teoria viu-se na prática.

Ora... estava o movimento revolucionário tão no segredo dos "capitães", no dia do Eurofestival?
O Golpe das Caldas, a 16 de Março, tinha deixado a situação bem visível, e só não teria tido entrado na alface, por falta de resposta das outras unidades. Marcelo Caetano convocou as elites militares, a chamada "Brigada do Reumático", mas o problema não estava nem nos generais, e ao contrário do que se pretende passar, também não estava nos capitães. O problema vinha de fora, e a visita a Londres de Marcelo Caetano em 1973 só terá servido para avaliar que a resposta de Marcelo seria pacífica.

Conforme podemos ver nalguns blogs, o hino do MFA, nada mais é do que "A life on the ocean wave", um hino militar do Séc. XIX, escrito pelos americanos Epes Sargent e Henry Russell, e que ficou popular na Inglaterra, conforme se pode ver nesta introdução de um interessante filme da BBC sobre a Guerra das Malvinas. Começa o filme e parece que vamos ouvir um comunicado do Estado Maior das Forças Armadas... (**)

A LIFE on the ocean wave, | A home on the rolling deep,  
Where the scattered waters rave, | And the winds their revels keep:  
Like an eagle caged, I pine  |  On this dull, unchanging shore:  
Oh! give me the flashing brine,  | The spray and the tempest's roar!
 
 Once more on the deck I stand  | Of my own swift-gliding craft:  
Set sail! farewell to the land!   The gale follows fair abaft.  
We shoot through the sparkling foam  | Like an ocean bird set free;—  
Like the ocean bird, our home   |  We'll find far out on the sea.  
  
The land is no longer in view, | The clouds have begun to frown;  
But with a stout vessel and crew,  | We'll say, Let the storm come down!
And the song of our hearts shall be,  | While the winds and the waters rave,  
A home on the rolling sea!  A life on the ocean wave!

Uma parte da Igreja sabia do que se ia passar, uma parte do Exército sabia do que se ia passar, e creio que só o povo e boa parte do Governo e das elites é que não sabiam... Por isso, como em todas as revoluções, a medida foi a da inacção e não do sucesso da acção. O regime praticamente não reagiu.

Assim, os serviços secretos estrangeiros estavam mais do que carecas de saber... estavam apenas a avaliar a tensão nos fios das marionetas, para que nada se partisse muito.
Quando as coisas começam a resvalar no período quente de 1975, temos o maestro Pedro Osório e o cantor Duarte Mendes a chegarem de cravo ao peito ao festival. 
Discreto, mas simbólico.

Em 1976, a situação já está controlada, mas como resquício a RTP organizara o festival apenas com Carlos do Carmo... ele seria sempre o vencedor, só ficou por escolher a canção que levava.
Pois, houve tempos assim...
Em resposta, os ingleses Brotherhood of Man e o maestro, chegam de cravo ao peito, tal como tinham feito os portugueses em 1975.
Discreto, mas simbólico. Save your kisses for me... foi o título vencedor


Mas não vou terminar com a "song", como dos cravos e cravas, passamos ao francês giroflé e giroflá, regresso à "chanson", e recupero o postal que fiz sobre o Giroflé, Giroflá:

... e, entrada a hora, termino com uma música de Zeca Afonso...
Índios da Meia-Praia (Zeca Afonso)

... por razões que ficam pelo meio de Alvor e Lagos, e por letras que cantam a mais que um tempo, nem sempre com o significado literal, pois o tolo no barco é toro (01:46).

_________________________
(**) Actualização (25/04/2016)
Foi substituído o link do vídeo com o documentário da BBC (que desapareceu entretanto do Youtube), por um vídeo semelhante da ITV, com o regresso do "SS Canberra, the Return, July 11, 1982", um navio com mais de 2 mil marines que haviam participado na Guerra das Malvinas, e que eram recebidos em glória, em Southampton.
Ainda sobre este assunto ver, por exemplo isto ou isto.
 (10/06/2019) Outras actualizações de vídeos desactivados - nomeadamente Girofle, Girofla.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nebulosidades Auditivas (10)

The ancient sages said: 
"do not despise the snake for having no horns, for who is to say it will not become a dragon?"
So, may one just man become an army. 
Li Chung, o Justiceiro (The Water Margin)

Nearly a thousand years ago in ancient China, at the time of the Sung dynasty, there was a cruel and corrupt government. These men riding are outlaws - heroes - who have been driven to live in the Water Margins of Liang Shan Po, far to the south of the capital city. Each fights tyranny with a price on his head, in a world very different from our own. The story starts in legend even then - for our heroes, it was said, were perhaps the souls reborn of other, earlier knights...

Sandokan
Houve um tempo em que foi criada uma cultura comum em Portugal. A monolítica RTP impunha isso.
Poderia ver-se ou não televisão, mas quem via, via o mesmo. Desde 1957 até 1992 foi assim, e o que "dava na televisão" era uma cultura comum, só perturbada pela recepção satélite, já muito no final dos anos 80 (por exemplo, a Eurosport só começa em 1989).
Se o monolitismo era uma desvantagem, foi criada uma base cultural comum.
Passaria pela cabeça de alguém o vizinho nunca ter ouvido falar de Sandokan, o Tigre da Malásia?
Kabir Bedi, o actor indiano de Bollywood escolhido pela RAI para Sandokan.

Há pouco tempo falava-se da Irlanda como "Tigre Celta", dado o seu florescimento económico, antes do colapso de 2009... mas para uma geração, o Tigre era da Malásia, e era Sandokan, o personagem de Emilio Salgari, pirata de barcos e não de aviões, reavivado pela RAI numa série com imenso sucesso popular.

Hoje em dia, o Sandokan poderia dar no AXN, na Fox, ou num dos múltiplos canais de cabo... cada qual vê o que quer, o que é bom, mas perde-se a ligação aos outros, por via de uma cultura comum.

Lagardère
Essa cultura comum criava expressões que ainda hoje se usam, por exemplo - "foi feito à Lagardère".
A série francesa, com o espadachim Lagardère, foi um exemplo de grande sucesso que talhou expressões dificilmente entendíveis pelas novas gerações. Percebem, pelo contexto... 
Porém, se a expressão se mantiver, será que daqui a umas décadas não é mais natural o nome ser associado a Jean Luc Lagardère, industrial da empresa militar Matra, que "subiu à Lagardère" e morreu estranhamente, quando se investigavam ligações ao 9/11. Ou entre nós, será associado a Lagarde do FMI?
As associações são assim um entendimento comum, próprio de uma época, e nem sempre passado do passado para um presente. Podem facilmente prestar-se a confusões, mas também essas confusões podem ser meias verdades. Se alguém disser que a referência a Lagardère é de uma peça "O Corcunda" (Bossu) de Paul Féval (1858), está certo, mas não será compreendido por quem sabe que a ligação vem da série passada na RTP no início dos anos 70, e desconhece que essa série se inspirava por sua vez nos folhetins de Paul Féval.
Ilustração do romance "Bossu", com Lagardère.

Por isso, haverá muitas associações que aqui escrevo que podem ser consideradas à Lagardère... ou seja, um conhecimento parcial da conexão não pode inibir outro tipo de conexões. Não há conhecimento para as refutar, e por isso não devem ser consideradas como certas ou erradas, uma tentação simplista inquisidora, mas devem ser simplesmente vistas pelo nexo que podem exibir.

Nexo do Ó
Dou o exemplo com a própria palavra "nexo"...
A etimologia conhecida é interessante e está aqui, remete a nexum, de ligar ou atar, e remete ainda ao nó, nodus, que teria raiz indo-europeia em "ned", com o mesmo significado de atar.
Isso é uma explicação, muito boa. 
Porém, ao olhar para "n-exo" vejo imediatamente a negação de "exo", do exterior.
Assim, à Lagardère, faço a associação de que "nexo" nega o externo... invoca uma ligação interna, do próprio, do grupo, da comunidade. 
Uma não anula a outra, aliás complementam-se.
Quando se invoca o externo, desconhecido, não se produz nenhum nexo. O nexo é interno para poder ser explicado aos outros, e não se resumir a uma experiência individual, que envolve o inexplicável.
Plicar é pôr entre plicas, entre pregas, enquanto explicar é atirar fora essas plicas.
Por isso há uma diferença entre pregar e explicar. Num caso pretende-se cravar com um prego, enquanto no outro se tiram os pregos da palavra e se procura abri-la à compreensão.
Mais, o "n" não deve ser associado apenas à negação, foi usado na contracção, por exemplo "em o" passou a "no". Assim, o nexo está no exterior, é a nossa construção do exterior, mas é feita de dentro para fora... sob pena de nos colocarmos nós de fora.

Por outro lado, quando temos "nós" e não "nodos", vemos que a raiz indo-europeia passou entre nós mais para "nódoa". Somos nós, mas não estamos atados. A primeira pessoa do plural é nós, mas a primeira pessoa do singular não é nó... isso seria uma nódoa.
A nossa língua é tão primeva que aponta o simples Ó como sinónimo da gravidez (caso das invocações à Nossa Senhora do Ó). O nó do cordão umbilical, fim do Ó, terá sido o primeiro NÓ, e os que tinham esse cordão umbilical atado, saídos do ÓS, eram os NÓS. 
Por isso cada um dos nós ficou solto... mas tem um útero comum - a Terra, que delegou uma parte do crescimento num útero das suas filhas mães, até que estivessem prontos para o universo-terrestre, ou seja um U-Terra, u-tera, utero... E se a Terra armazenou Gigabytes de informação no DNA, acima disso temos os Terabytes - e esses Terra-bytes informativos já não estão no DNA, estão em nós - nos nós saídos dos Ós, que não se fecharam num O e começaram a definir o U pela linguagem. 
As borboletas parece que já sabem disso.

Li Chung
Bom, mas alongo-me sempre.
Voltamos a Li Chung.
Não perdia um episódio... e apesar de já não me lembrar de nenhum, a música de Masuru Sato ainda me tocou, e por isso fica classificada mais pelo lado sonoro.
Também não tinha esquecido as figuras algo atrozes, dos textos antigos chineses, que mostravam temíveis barbudos, vistos na introdução. Lembrei-me disso, pela referência que o José Manuel fez à figura peluda que aparece num prato de D. Manuel, sobre os povos do mundo:
... não sei se o barrete é frígio, ou se tem apenas dois dedos, ou se está a fazer um sinal, hoje muito corrente, e que representa vulgarmente "uns cornos". A existência de homens peludos não é estranha, é muito mais estranho não termos pêlos! Sobre isso já falei, remetendo a possível ligação às ilhas oceânicas. Os haplogrupos parentes do R, ou seja N, O, Q, são mais imberbes que os europeus... o que pode indiciar a tal mistura que se foi dar na Europa.

A história reportada a Li Chung é da Dinastia Song, que tanto passa por ter um florescimento cultural na sua capital Kaifeng, ao longo dos séculos X a XIII, como depois sofre uma degradação acentuada, pelo poder que os funcionários burocratas exerciam localmente, fora do controlo central.
É aí que entra Li Chung e os 108 espíritos rebeldes que vão ficar à margem, na margem do rio Lian Shan Po. A história de "Water Margin" faz parte de 4 contos essenciais da literatura chinesa, mas a série televisiva é de origem nipónica, ainda que filmada na China.

Há um ponto importante, pois podemos ver que esse florescimento da Dinastia Song tem um toque hindú, budista. Mais, atraiu muçulmanos (havia mesquita em Kaifeng) e atraiu judeus (havia sinagoga em Kaifeng). Por isso, muitos séculos antes dos descobrimentos, as comunidades judaicas e muçulmanas iam da China a Portugal. O pretenso afastamento oriente-ocidente não seria mais do que uma imposição que servia intermediários. Apesar do desenvolvimento técnico, nomeadamente em armas de fogo, com a invenção da pólvora, a Dinastia Song é travada pelos burocratas e pelos cavaleiros mongóis de Genghis e Kublai Khan... e é nessa altura que recebe Marco Polo, vindo de Veneza.

O que me interessa mais é que como adolescente me identificava perfeitamente com os heróis de uma cultura estranha, que deixava de ser estranha por essa abertura cultural que se deu nos anos 70. Já não havia índios e cowboys da infância, apenas chineses, mas havia uns maus e outros bons... e nada tinha a ver com a cultura, pois isso eram valores humanos universais. Simples.

Kung Fu
Houve uma abertura a oriente, passavam a ser moda as artes marciais, Bruce Lee foi um ídolo de uma geração, e houve também uma série marcante - Kung Fu.
Kung Fu (com David Carradine) - (Kung Fu Tao)

Em Kung Fu, muitos poderiam fixar-se nas cenas marciais, e certamente esse era um lado popular, mas também alguma sabedoria oriental dos monges de Shaolin ficava ao alcance da população.
Uma filosofia que ao invés de se esconder em intragáveis definições feitas nas universidades ocidentais, procurava despertar questões complexas de forma simples.
Não sei se ficou alguma coisa, mas revendo o vídeo parece-me que sim...

Um último detalhe, e que é importante, quando se começa a prestar atenção aos detalhes da natureza que, conforme é dito pelos monges de Shaolin, exibe harmonia. Quanto mais se entendem as harmonias, os detalhes, tudo começa a parecer relacionar-se... e pode parecer bom conseguir ouvir o inaudível, mas também é bom o silêncio. Por isso, em certas alturas, já tive que ouvir música em línguas desconhecidas, simplesmente porque é preciso desligar as conexões. O simples silêncio não serve porque nos remete aos nossos pensamentos, é mesmo preciso o caos exterior para que se recupere o necessário silêncio interior.