sábado, 24 de junho de 2017

As chamas e as chamadas

Um amigo brasileiro disse-me um dia: "não é possível distinguir a corrupção da incompetência".
A frase deixou-me momentaneamente surpreendido, porque em Portugal há o hábito de culpabilizar a corrupção e desculpar a incompetência. Ele simplesmente acrescentou que no Brasil a situação tinha atingido tais proporções, que tinha ficado claro que era impossível distinguir uma coisa da outra. 
Os sujeitos que entregam 500 milhões de euros do estado, em troca de um sistema de comunicações de emergência cujas chamadas dependem das chamas (do fogo queimar ou não os postes de ligação), mesmo que se tentem fazer passar por idiotas, nunca poderiam deixar de ser acusados de corrupção. 
Mesmo que os idiotas mostrem que não usufruíram de nenhuma compensação, e que nem passaram a ter amigos a emprestar-lhes milhões de euros, um idiota é corrupto ao aceitar tomar decisões contra a mais básica evidência, por muito que invoque pareceres de "peritos", contra o interesse do estado.
Tais idiotas teriam alguma competência, talvez, para ajudar a limpar as matas...

Porém seria injusto isolar o contexto, e não ver o panorama global.
Uma parte do panorama global é mais ou menos ilustrado no filme Goodfellas (1990):

... onde, depois da introdução dos membros do gang, se explicita a filosofia subjacente:
For us to live any other way was nuts. To us, those goody-good people who worked shitty jobs for paychecks and took the subway to work every day and worried about their bills were dead. I mean they were suckers. They had no balls. If we wanted something, we just took it. If anyone complained twice they got hit so bad, believe me, they never complained again.
E é basicamente isto que temos! Os actores de confiança não são muitos... não pela falta de candidatos, mas muito mais pela falta de confiança, e porque o bolo ficaria pequeno sendo dividido com demasiados.
Usando nomes dos "wiseguys", o Nicky Eyes tanto poderia ser secretário de estado da saúde, como depois ser nomeado para administrador de uma construtora civil. O Fat Andy poderia ser CEO de uma empresa nutricionista, depois ministro do desporto, e de seguida regressar à mesma empresa, garantindo pelo meio contratos de alimentação às federações desportivas, etc.

No meio de tal compadrio, e opulência vista de fora, os rapazitos sonham um dia pertencer à pandilha. E entrando, ficam demasiado emocionados com a admissão, para questionar o funcionamento. Se lhes derem um papel para assinar, eles assinam... todos sabem disso, afinal é assim que funciona, e pronto. E os rapazitos contam com apoio, com os pareceres certos, com prémios, se alinharem, porque a malta os apoiará se a coisa der para o torto... mas também devem saber que podem ser sacrificados se a coisa der para o muito torto.

Não se trata aqui de estabelecer quaisquer relações directas com aristocracias, maçonarias, judiarias, máfias ou partidos. O compadrio funciona habitualmente, quando se subentende uma relação de confiança suficientemente grande e estável entre os membros. Por isso, durante muito tempo, a aristocracia que se aproveitava do povo, tentava manter e fortalecer relações familiares, a bem da união do grupo. Quem detinha o poder podia fazer tudo, e os restantes, a populaça, eram apenas vistos como imbecis, alimárias, enredados pela obediência à teia social. O sistema tendia a preservar-se e perpetuar-se, porque as famílias que já estavam instaladas usufruíam da vantagem de deterem o poder, beneficiando por isso da deferência dos restantes. As aparentemente profundas revoluções sociais, em pouco afectaram as relações de poder já existentes, numa lógica "do mudar tudo, para tudo ficar na mesma".

Tal como os sicilianos nos demonstraram, a partir do Séc. XIX, este tipo de controlo local pode ter ramificações globais, instalando-se na imigração que partiu para os EUA durante esse século. 
Mas esse é apenas um exemplo, que estabelece um poder paralelo ao estado, sendo visto como ilegal, e desafiando o poder da lei italiana. Num nível mais sofisticado, a actuação não é ilegal, já que seriam os próprios a fazer a lei à sua medida.

Mesmo assim, dificilmente o topo da cadeia de poder termina em alguém conhecido. O poder sendo visível, revela o alvo, preferindo por isso esconder-se em bastidores de influência, e usar actores conhecidos para aparecerem em sua substituição. Ou seja, organizações mais ou menos conhecidas, como a maçonaria, com os seus rituais e fantasias, servem apenas como uma porta de entrada para um mundo menos visível. Não encerram nada de substancialmente misterioso, nas suas tradições anacrónicas. As tradições, os rituais, as cerimónias, servem muito mais para manter uma aura misteriosa que remete a um poder maior, vindo de tempos imemoriais. Celebrações de mascarilhas, que lembram os tempos dos druidas, não servem para reunir grupos operacionais, mas podem servir para fidelizar os membros, e fazer entender que há poderes maiores, que os ultrapassam.
Uma operacionalidade efectiva, nos tempos que correm, assenta muito mais no campo das comunicações, e será entre grupos de hackers que se recrutam operacionais que permitem implementar políticas, e controlar a informação. Será também entre grupos de marketing e publicitários que se procuram definir programações e manipulações de opinião. Uma associação como a maçonaria serve muito mais para juntar diversas competências distintas dentro de um mesmo contexto, dentro de um mesmo grupo, facilitando o contacto operacional. 

Bom, e tudo isto para quê? - Basicamente, para definir um grupo com controlo sobre a restante população que pode, dentro de poucas restrições, fazer basicamente tudo o que entender. 
Claro que uns utilizam a estrutura para proveito próprio, e esse será o grande aliciante... mas o pretexto será definir o rumo da civilização ocidental, para a manter com predominância global.
Portanto, por um lado, haverá as guerras entre famílias para partilha do bolo, mas o ponto que deixará as cisões mais profundas será na definição do rumo a seguir... coisa que tem gestão simples, no processo de manter tudo como está, ou até em regredir, e que será muito mais complicado na definição de alguma evolução social, como aconteceu desde os Descobrimentos, e em especial na transformação liberal que ocorreu especialmente a partir do Séc. XIX, até à 2ª Guerra Mundial, ao libertar a maioria dos cidadãos da prisão feudal.

O equilíbrio pretendido será manter uma pequena percentagem de predadores para um enorme número de presas. Mas esse sistema só seria estável se a natureza de uns e outros não fosse flexível à mudança. No caso de predadores e presas é a própria natureza que define a condição do corpo, ao passo que a condição da mente sofre mutações apreciáveis, e não há propriamente um problema de estômago em passar de presa a predador, o único estômago que muda é o da disposição moral para perder os escrúpulos. 

domingo, 18 de junho de 2017

A tragédia florestal agravada

Com temperaturas anormalmente quentes para Junho, o incêndio que se estendeu pelos três concelhos orientais do distrito de Leiria - Figueiró dos Vinhos, Pedrogão Grande e até Castanheira de Pêra, teve já um número de vítimas inaudito - 19 mortos (que entretanto passaram a 24), tendo 16 vítimas perecido nas viaturas, no troço do IC8 entre Figueiró dos Vinhos e Pedrogão Grande. 
O presidente da câmara de Pedrogão avançava desde logo uma estimativa muito pior, devido à falta de contacto com aldeias apanhadas no percurso do incêndio, podendo a tragédia atingir dimensões de catástrofe nacional, com o desaparecimento de povoações.
 

A situação de 16 vítimas serem meros automobilistas, apanhados na passagem do fogo por uma grande via de comunicação, mostra que a situação saiu completamente fora do controlo dos responsáveis pela Protecção Civil, Bombeiros, GNR, etc... 
Independentemente da presença no local do secretário de estado, da ministra, e até do presidente da república, não se pode falar em "dificuldade de acesso" ao IC8, pelo menos precavendo que estivesse interrompida a circulação perante a proximidade da passagem do incêndio.
A concentração dos meios de socorro ter ficado a cargo do comando da Protecção Civil (com meios tecnológicos sem par, face a décadas anteriores), em nada parece ter aumentado a eficácia do combate a incêndios... e cada vez mais se refere o negócio do eucalipto, o negócio dos incêndios, e o negócio do seu combate por meios aéreos privados, tornando Portugal num país onde se constata arder mais floresta do que no resto da Europa:

No entanto, apesar destas constatações, uma conjugação do empenho dos bombeiros, do voluntariado, de uma capacidade de lutar em circunstâncias adversas, e de alguma sorte, tinham evitado até aqui um pior cenário... A tudo isto se juntou uma certa resignação das populações ao fado sazonal dos incêndios, que se presumem ser, na sua maior parte, resultado de acção criminosa. Ou então, no habitual processo de remeter a culpa para o cidadão - pela falta de cuidado na limpeza do mato.
Tudo isto pressupunha até aqui... um número de vítimas pequeno, quase sempre bombeiros, e onde com sorte se conseguiam salvar as casas e os civis. Todos esses pressupostos foram hoje abalados.

Com a barragem do Cabril anexa a Pedrogão Grande, nem sequer se poderia falar de dificuldade em abastecer meios aéreos para o combate ao incêndio... se os houvesse, e se não estivessem apenas alguns contratados para um Verão, que ainda nem começou!
Se é um escândalo mundial, Donald Trump não reconhecer o perigo de "aquecimento global", não será maior escândalo esperar que a época de incêndios tenha início em data fixa, esquecendo até os avisos de subida térmica, em particular nesta semana?

Quando a presidência da república tenta minimizar a imagem governativa, fazendo crer que pouco mais poderia ser feito... reconhece uma completa incompetência para agir diligentemente perante uma ameaça sistemática e generalizada, que se verifica todos os anos, e que só foi diferente agora no resultado em número de vítimas.
A responsabilidade deixa de ser de quem coordena os meios ao dispor, e parece passar a ser das populações que vivem em "zonas de risco", e agora até "circulam em risco" (como o inqualificável presidente dos bombeiros tentou descartar). Chega-se ao ponto mínimo do governo, que é o desgoverno, acomodando-se em palavras de lamento e remetendo o desfecho para "situações excepcionais". 
Escusado será pensar que o que é excepcional é a convivência, todos os anos, com incêndios que chegam a consumir metade da área ardida na UE, e que a inoperância governativa em resolver o assunto nem tão pouco pode ser classificada como mera corrupção passiva, é um assunto de completa inoperância da defesa nacional, onde as forças armadas nem cuidam da integridade e segurança da população em território nacional.
A simples constatação que emerge desta tragédia, é que circular, mesmo nas maiores estradas nacionais, passou a ter o risco acrescido de ser apanhado por um incêndio, quando a estratégia nacional de combate a incêndios parece ser uma conformação com um "deixa arder".


Aditamento (às 22h00)
Como todo o país acabou por saber, ao longo do dia, o número de vítimas foi aumentando até se cifrar em 61 mortos e 62 feridos, em especial devido às 30 vítimas apanhadas pelo fogo na EN236.

A atribuição do fogo ter origem natural, numa "trovoada seca", não deixa ninguém mais descansado, pelo contrário... o incêndio foi declarado às 14h00 e só no final da noite, passadas 8 horas, a protecção civil deu conta da dimensão da tragédia. Durante esse espaço de tempo, a reacção dos meios, perante a "rapidez" dos acontecimentos, foi de uma lentidão trágica. Simplesmente as pessoas ficaram cercadas por chamas, fugiram sem ter nenhuma informação, sem terem nenhum apoio, sem saber se iam numa direcção pior ou melhor. Tudo foi deixado ao acaso... e continua a tentar-se fazer passar a ideia de que foi feito o melhor possível - talvez tenha sido o melhor, dentro da incompetência, que continua a funcionar hoje com lógicas de processos usados há 50 anos. Pior que isso, até com simples rádios de pilhas, seria possível manter as pessoas informadas, sobre a evolução dos incêndios, sobre as estradas que estariam ou não sob ameaça... mas isso seria num estado em que a informação não fosse tratada como um segredo vedado à população!
O resultado de se conseguirem cunhas para empregos e cargos políticos na função pública, não se vê nas suas consequências imediatas, é medido pela inoperacionalidade efectiva, por não se poder contar com nada, nem com ninguém, nas situações de emergência. 
Evitando assumir incompetência, a situação adquire outros nomes - imprevisibilidade, excepcionalidade, etc, etc.

Nota adicional (23-06-2017)
As informações iniciais apontavam para o troço da IC8, só depois se passou a falar exclusivamente da EN-236-1. 
De acordo com testemunhos vistos, a situação foi tão singular que a GNR desviou condutores do IC8, que tinha vedado (devido ao incêndio), para a EN-236-1, levando-os a enfrentar uma situação tenebrosa, de onde 47 não escaparam vivos. 
O número de crianças mortas e feridas é significativo, mas os registos de fatalidades falam apenas de 64 mortos e 247 feridos, deixando praticamente claro que a ausência de comunicações do sistema SIRESP, que durou ali praticamente um dia, terá sido a principal razão da desinformação entre os diversos agentes no terreno, elevando o número de vítimas para valores nunca antes registados.
Que o sistema SIRESP funciona muito pior que uma rede de telemóveis, e tinha sido mais uma negociata da politiquice nacional, envolvendo o BPN, está documentado numa antiga reportagem da TVI de Ana Leal:
e envolverá uma boa parte dos políticos do regime, não escapando o primeiro-ministro António Costa, que enquanto ministro de Sócrates, foi quem o introduziu no Estado. 
Pode ver-se na reportagem como os Açores, usando da sua autonomia regional, prescindiram de tal elefante branco, que ao usar cabos de transmissão fica inoperante em qualquer incêndio que consuma os postes e os fios. Vê-se na entrevista o secretário de estado a procurar coagir o governo dos Açores a adoptar o sistema, responsabilizando-o em caso de inoperância, numa calamidade. Pois bem, a inoperância em caso de calamidade ocorreu diversas vezes com o SIRESP, e onde fica a responsabilidade? 
A factura da corrupção BPN, já foi paga em milhares de milhões de euros, chegou agora ao ponto de ser cobrada em dezenas de vidas humanas, e esta sociedade domesticada, mais dócil que um cabrito pascal, continuará passiva?
Parece que sim. Falhando o F de Fátima, por ausência de milagre para as vítimas, devem rezar os políticos ao CR7 para que funcione agora o F do futebol, naquele campeonato lá pelas bandas da Rússia, enquanto o pessoal não esquece. 


sábado, 17 de junho de 2017

O incêndio de Londres

O incêndio ocorrido na madrugada de 14 de Junho, na Torre Grenfell, em Londres, é mais uma situação de grande tragédia que ocorre numa Inglaterra especialmente afectada nestes últimos dois meses.
Perante as imagens da rápida propagação do grande incêndio, que afectou a torre de 24 andares, houve quem questionasse se o prédio iria resistir estruturalmente, talvez por influência de informação errónea, propagandeada como causa de colapsos de estruturas de ferro - e relembramos o assunto do 9/11 que já tratámos. No entanto, mesmo com chamas de proporções gigantescas, consumindo o prédio durante quase 20 horas, também este prédio não cedeu estruturalmente.
Incêndio da Torre Grenfell em Londres (14/06/2017) após 3 ou 4 horas do início. 

De novo, os responsáveis tentaram conter a informação e minimizar a estimativa do número de mortos, inicialmente apontando para 17, depois para 30, reconhecendo só dois dias depois que o destino dos "desaparecidos", não deveria ser dissociado duma contagem final do número de vítimas mortais, ultrapassando uma centena.

Independentemente de considerações sobre a qualidade do novo revestimento, que actuou como um pavio incendiário, tudo indica que o maior número de vítimas ocorreu entre as pessoas que confiaram nas instruções da polícia, aguardando o socorro no seu apartamento, sem procurar escapar quando o incêndio podia ainda permitir uma descida, que salvou os restantes sobreviventes, mesmo dos últimos andares. 
A polícia terá seguido o manual de instruções de emergência para o edifício, sem cuidar que os pressupostos eram verificados. Apesar do prédio ter sido inspeccionado pelos bombeiros na semana anterior, estas inspecções de rotina são muitas vezes uma burocracia de assinaturas.
Facilmente as pessoas depositam a sua confiança no sistema, tanto mais quanto é complicada essa burocracia, fazendo-as crer num grande cuidado e controlo profissional. Essa confiança na polícia foi aqui testada ao ponto de irem contra o bom senso, que seria abandonar o edifício rapidamente. 

Certamente que haverá responsabilidades apuradas a posteriori, mas o sistema não quererá reconhecer responsabilidades a priori - ou seja, que os habitantes deveriam obedecer às instruções policiais, sem questionar a sua lógica, quando o bom senso indicava um caminho oposto - o caminho de se porem a salvo do progresso das chamas.

O Grande Incêndio de Londres em 1666 mudou por completo a percepção da sociedade inglesa, levando a grandes transformações na sua organização. Tratando-se este de um incêndio restrito, e reduzido a um prédio, não deixa de mostrar falhas graves, aplicáveis a tantos outros edifícios do mesmo tipo, que simplesmente não permitem o socorro a vítimas encurraladas em andares superiores, até porque as maiores escadas de bombeiros chegam apenas até 10 andares, quando outros meios não são viáveis.

terça-feira, 6 de junho de 2017

A bala da lei

É bastante mais provável alguém ser morto por um polícia do que por um terrorista... 

Esta foi a conclusão de um estudo nos EUA, que contou por base em registos oficiais, 8882 mortes pela polícia americana (supostamente mais de metade desnecessária), à data (2016) e desde o 11 de Setembro. A média ronda as 1000 mortes por ano, o que levou a que um analista tivesse dito em 2012 que era 8 vezes mais provável ser morto por um polícia, do que por um terrorista. Ou como, Snowden terá dito, era mais provável morrer pela polícia, ou até pela queda na banheira, do que por um terrorista.
No entanto, as mudanças para leis que infernizaram a vida dos cidadãos exigia um argumento persistente de medo, e uma forma eficaz de o passar - os jornais e as televisões.

No passado sábado, as televisões (SIC-N, RTP-3) interromperam a programação habitual para iniciar em directo a transmissão de mais um episódio da série de "terror". Começou a história por ser um atropelamento com feridos, e antes de qualquer notícia de mortes ou esfaqueamentos, logo toda a programação parou... o que é especialmente caricato em Portugal, que nunca teve qualquer registo terrorista, e onde o atropelamento mortal é uma tragédia constante das nossas estradas. Simplesmente foi dado o aviso noticioso internacional de que aquele caso era para reportar, e as televisões cumpriram imediatamente o seu papel obediente.

É notável que a posteriori, passados quase 3 dias sobre o incidente, contadas 7 vítimas mortais (para além dos 3 atacantes), apenas se conhece a identidade de duas delas - uma noiva canadiana atropelada, e um francês esfaqueado (ver por exemplo, Who are the victims of the London attack?). Procurei saber ontem, e os vários artigos que vi, que falavam das vítimas, faziam praticamente o mesmo - davam a história da noiva com detalhe, e ignoravam por completo o que se tinha passado com os restantes, enrolando a notícia com factóides. 

Ora, não me parece que seja muito difícil distinguir, em poucas horas, entre quem foi atropelado e quem foi esfaqueado, mas não havia informação acerca da causa da morte das restantes vítimas.
Ao contrário, havia a informação de que a polícia tinha feito uma vítima com um tiro na cabeça, e de que os agentes policiais tinham descarregado as armas sobre o local do ataque, havendo 18 feridos ainda em estado grave, sem ser especificada a causa.
Parece haver algum embaraço policial em identificar "quem foi vítima do quê"... mas é fácil distinguir ferimentos de balas, de facas, ou atropelamentos... quando os atacantes apenas teriam facas. Ao manter tudo em segredo, com cumplicidade de não inquirição pelos órgãos de informação, seria de questionar se a maior parte das vítimas não poderá ter sido causada pela própria intervenção policial... independentemente do tiroteio (relatado pela própria polícia como "tiroteio sem precedentes") ter sido mais ou menos justificado.
Não encontrei nada num sentido ou noutro, mas passando o período de 48 horas em que o caso é notícia de primeira página, entra-se numa selecção noticiosa ainda maior do que será sabido, e do que ficará por saber... e parece que este caso tem todo o aspecto de ir deixar muita coisa por saber.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

FFF

O tripleto Fátima, Fado e Futebol, fazia os auspícios do sucesso nacional nos anos 60.
Em particular, em 13 de Maio de 1967, na altura das comemorações dos 50 anos de Fátima, ocorre a primeira visita de um Papa a Portugal, por outro lado, no Futebol, o sucesso da selecção de 1966 com o 3º lugar no campeonato do mundo, ou as vitórias do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, emparelhavam com o Fado, no sucesso internacional de Amália Rodrigues, nas digressões de 1966 e 68, que incluíram a França e os Estados Unidos.
Também havia o Hóquei em Patins, mas como Portugal e Espanha partilhavam sucessivamente os títulos mundiais, foi modalidade que nem sequer conseguiu obter o estatuto olímpico. Os países ibéricos não percebiam que não lhes seria outorgada mais nenhuma divisão do mundo, em nenhuma modalidade. Digamos que não tiveram o bom senso de deixar à França e Inglaterra obter uns sucessivos campeonatos, para integrar a lista do elenco olímpico, e só depois dessa integração autorizada é que manifestariam a sua supremacia...

Bom, mas este tripleto FFF, voltou a ocorrer a 13 de Maio de 2017, numa altura em que eu estava por outras paragens do oriente, onde o assunto passou completamente despercebido. 
Se a visita do Papa Francisco na comemoração dos 100 anos de Fátima estava prevista, já a vitória do Festival da Eurovisão foi uma completa surpresa, a que se juntou o inédito quarto campeonato consecutivo do Benfica, um ano depois de Portugal ter vencido o Campeonato Europeu... tanto mais que o treinador benfiquista iniciou o seu sucesso no clube de Fátima, e Rui Vitória sagrou-se campeão vencendo o Vitória, o clube de que era treinador antes de ser contratado pelo Benfica. Para completar a coisa, o intérprete da canção vencedora, sendo Salvador, tinha o nome apropriado à mensagem de Fátima.

Se na comemoração dos 50 anos, a invocação do FFF tinha o problema de Portugal não ter ganho nenhuma competição, e em especial o Festival da Eurovisão, que era coisa na altura tão desejável quanto um campeonato de futebol, nesta comemoração dos 100 anos, foi o tripleto completo, ao ponto de coincidir a satisfação no mesmo dia, para os cristãos benfiquistas.

A junção dos 3 eventos nesse sábado de 13 de Maio, não sendo milagre, deu todos os ares de parecer ser uma revelação do 3º segredo, não fosse conhecerem-se os arranjinhos do Festival da Eurovisão, e em não muito menor escala, do futebol nacional e internacional.

Para quem apreciar, fica aqui a comparação entre 1967 e 2017:
Eduardo Nascimento - "O vento mudou" (12º lugar, Eurovisão, 1967) 

Salvador Sobral - "Amar pelos dois" (1º lugar, Eurovisão, 2017)

No final, na performance do vencedor, Salvador convida a irmã, e diz no meio da canção (5:25):
"Um abraço para Portugal!.... isto estava tudo comprado, na verdade!" 
... ou, menos ironicamente, como Luísa Sobral referia em 2011, 

... ou como é salientado na wikipedia: «This was Portugal's first win – and first top five placing – in 53 years of participation, the longest winless run by a country in Eurovision history.» 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Pré visões de Fátima

Comemora-se em 1917 o centenário de Fátima, mas também o centenário da revolução bolchevique em 25 de Outubro, e da tomada de poder por Sidónio Pais em 12 de Dezembro. 
Mas, antes disso, mais marcante em Portugal terá sido o envio do Corpo Expedicionário para a 1ª Guerra Mundial, que pouco depois de chegar tem uma baixa, em Abril de 1917 - o soldado António Gouveia Curado, o único a fazer a capa na Ilustração Portugueza (revista associada ao jornal Século) a 14 de Maio de 1917.
Ilustração Portugueza  capa em 14 de Maio de 1917.

Como é óbvio, a data 13 de Maio de 1917 só teria importância depois de se espalhar a notícia das aparições de Fátima, e só constará de referências (algo jocosas) na revista Ilustração Portugueza (na parte Século Cómico) em Outubro de 1917.
"A aparição da Virgem" - Notícia do Século Cómico - 22 de Outubro de 1917

Reportagem na Ilustração Portugueza de 29 de Outubro:

Curiosamente, no entanto, houve anúncios em jornais que anteviram a data 13 de Maio de 1917.
O Diário de Notícias, ao comemorar-se o centenário, noticiou de novo o assunto.
A 10 de Março de 1917 (dois meses antes) aparecia no espaço publicitário um muito pequeno anúncio com o número "13 5 917" (13-5-917) dizendo:
135917 
Não esqueças o dia feliz em que findará o nosso martírio. 
A guerra que nos fazem terminará. A. e C."

O Diário de Notícias publicou a notícia referindo o anúncio:

Não se trata propriamente de uma novidade, mas não tinha visto o anúncio em particular. 
Aliás, este anúncio foi repetido em outros jornais (Jornal de Notícias, Primeiro de Janeiro, Liberdade), insistindo no dia 13 de Maio, e no tema do final da guerra. 
O anúncio foi enviado por uma sociedade espírita, onde A. corresponderia a um certo "António" - elemento do Porto que envia para os jornais dessa cidade, e o C. corresponderia ao cantor Carlos Calderon, que estará ainda ligado à fundação da Sociedade Portuguesa de Autores. Esta informação é dada pelo Diário de Notícias, na sua investigação sobre o assunto.

Outra notícia, que aparece no Jornal de Notícias, é publicada justamente na edição de 13 de Maio (no dia das primeiras aparições), e diz o seguinte:
________________________________
A guerra e o espiritismo 
Revelação sensacional
Recebemos ontem um postal cujo texto passamos a reproduzir:
   Porto, 11 de Maio de 1917
   Srs. Redactores
   Foi participada pelos Espíritos a diversos grupos espíritas que no dia treze do corrente há de dar-se um facto a respeito da guerra que impressionará fortemente toda a gente.
  Tenho a honra de me subscrever Espírita e dedicado propagandista da verdade - António.


Acresce uma mensagem assinada por uma Stella Matutina (estrela matutina - Vénus), metade escrita em reflexo, dizendo "Sempre a vosso lado tereis os vossos amigos que guiarão os vossos passos e vos auxiliarão na vossa tarefa. Ego sum Charitas" e outra parte dizendo "A luz brilhante da Estrela Matutina vos alumiará o caminho. Stella Matutina"

Coincidência ou não?
Pode pensar-se no descontentamento crescente na sociedade portuguesa, devido ao envio de forças militares em Fevereiro de 1917 para a frente de batalha comandada pelos ingleses. 
Esse descontentamento foi um dos motivos para a revolução liderada por Sidónio Pais, que ocorreria em Dezembro de 1917, e que instalou uma "segunda república", permitindo a eleição directa do presidente da república.
No início de 1917 os sectores mais religiosos portugueses estavam fartos de uma perseguição sofrida com a implantação republicana, e poderiam ter sido estes a apoiar e financiar um golpe de estado interno.

É tese antiga que todo o contexto das aparições de Fátima poderá ter sido encenado por movimentos religiosos, ligados à Igreja Católica, ainda que não oficialmente... tendo em vista um recuperar do sentimento religioso da população, levando a uma mudança de regime - que ocorreu de facto nesse ano, e a revolta de Sidónio terá tido grande apoio popular.
Se tal coisa foi preparada nos bastidores, pois será de considerar que a data de 13 de Maio circulasse, e pudesse fazer parte de previsões "espíritas", ao ponto de figurar como notícia em jornais.

A substituição de Lúcia
Dos "três pastorinhos" associados às aparições, apenas sobreviveu Lúcia. Se a Igreja Católica não se associou ao fenómeno no início, mais tarde, especialmente após a mudança de regime com a instauração do Estado Novo em 1926, veio a associar-se de forma clara às peregrinações a Fátima, cada vez em maior escala, na construção de um sumptuoso santuário.
Fotografia de Lúcia dos Santos (nos anos 40)

Lúcia foi colocada sob reclusão quase total, tendo praticamente contacto nulo com o resto da sociedade, e sendo as suas visitas alvo até de decisão papal. Acontece que há uma clara mudança do rosto que aparece nas fotografias antes e depois de 1960 (altura do Concílio do Vaticano II).
Isso tem levado a teses de que houve uma substituição, por possível morte da Lúcia original, antes de 1960 - veja-se por exemplo o site www.igrejacatolica.org/irma-lucia-impostora

Mas não haverá grandes dúvidas que estamos na presença de uma mudança de identidade. Os rostos da Lúcia original e da Lúcia posterior, apesar de exibirem alguma semelhança genérica, são mesmo muito diferentes, e a sósia não foi bem escolhida. Uma análise detalhada pode encontrar-se aqui:

 ... mas é especialmente fácil verificar que as bocas são completamente diferentes. A Lúcia original tinha um lábio inferior saliente, que nada tem a ver com os lábios praticamente inexistentes da substituta encontrada. Diria mais que isso, estamos a falar de pessoas que seriam de índoles diferentes... e se é possível olhar para o retrato da Lúcia anterior, e ver aí até alguma bondade latente, tal parece falhar por completo no rosto substituto.

Fátima acabou por servir durante um século turbulento a inúmeras especulações. Apesar de Lúcia ter sido retirada para um convento em Tuy, não se lhe conhecem previsões sobre o morticínio espanhol na guerra cívil, e as previsões da segunda guerra mundial são algo adaptadas às circunstâncias.
As referências ao comunismo, ocorrem apenas numa visão de Lúcia em 1929. É ainda significativo referir que houve visões anteriores de um "anjo", reportadas aos anos de 1915 e 1916, mas só as do ano de 1917 mereceram referência especial posterior, por incluírem a Virgem.

terça-feira, 25 de abril de 2017

A revolução do dia de São Marcos

Há poucas semanas, morreu um dos capitães envolvidos no 16 de Março de 1974... tratava-se do capitão Virgílio Varela, e conforme consta da notícia da sua morte, ficando então preso, o próprio foi avisado que em breve estaria livre:
"No dia 9 de abril, na prisão, veio um soldado oferecer-se para me cortar o cabelo. Achei estranho, não era habitual. Sentei-me na cadeira e o barbeiro sussurrou-me ao ouvido: 'O compadre do meu capitão diz que vai jantar consigo no dia dos seus anos'. O meu compadre era o capitão Alberto Ferreira e sabia bem o dia dos meus anos: 27 de abril", afirmou.
A coluna das Caldas avançou para Lisboa, a 16 de Março, tal como a coluna de Santarém, depois veio a avançar para Lisboa no dia 25 de Abril, liderada por Salgueiro Maia, possibilitando o jantar aos compadres no dia 27, conforme prometido.
Agora, há uma diferença assinalável, que creio ter passado desapercebida aos promotores do golpe das Caldas - o dia de São Marcos, padroeiro de Veneza, era a 25 de Abril.

A sublevação das Caldas pode ter sido uma precipitação de oficiais que não terão entendido que o golpe caseiro estava a ser urdido, com calma e ponderação, muito fora das suas fronteiras. Uma coisa teria sido a não participação e demissão de Spínola e Costa Gomes, no dia 15 de Março, após a convocação da "Brigada do Reumático" (ver cronologia), outra coisa eram planos feitos a longo termo.
Assim, as forças saídas das Caldas, sem ninguém a acompanhar o golpe, voltam para trás, para o quartel, onde assumem uma posição defensiva...

... até à rendição negociada entre o brigadeiro Serrano e os majores Casanova e Monge, o que levaria à prisão cerca de 200 insurrectos:
Imagens do livro "Portugal en revolución" (1977) de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso.

Bom, mas talvez uma melhor descrição dos preparativos que se faziam nos bastidores, e que levaram a que revolução estivesse planeada para Abril, e não pudesse ocorrer em Março, possa ser entendida pela descrição feita na revista espanhola "Gaceta Ilustrada" em Maio de 1974 (transcrição retirada daqui):
“Discretamente, ao amanhecer do dia 25 de Abril, as unidades militares da NATO, chegadas no dia anterior ao porto de Lisboa, deixam o Tejo com rumo ao Atlântico e regressam às suas bases. Trata-se de navios, incluindo submarinos, de alguns dos onze países atlânticos que deveriam tomar parte no grande exercício aeronaval “Dawn Patrol 74”, programado para o dia 26, no Mediterrâneo e na costa atlântica, com operações submarinas, de defesa aérea e de assalto de forças inimigas. Aviões ingleses e norte-americanos, destacados para as manobras, encontram-se estacionados na base do Montijo, a trinta quilómetros de Lisboa. Mas um pouco antes da Junta derivada do golpe anunciar a mudança de regime, através da televisão, as manobras atlânticas foram anuladas: os navios portugueses que estavam no alto mar puderam assim voltar ao Tejo e ancorar pacificamente em frente a Lisboa. Às quatro horas da tarde, o comando da Marinha estava em condições de proclamar a sua adesão à Junta de Salvação Nacional.
  Esta foi uma das muitas manobras secretas, ocorridas nos bastidores, que acompanharam a queda do regime de Caetano. Nos dez dias que precederam o golpe ocorreram outros factos determinantes que agora estamos em condições de revelar. Estes factos provam que o Golpe de Estado conseguira o seu objetivo antes da noite do 25 de Abril; do mesmo modo mostram quais eram os apoios internacionais de que gozava o general Spínola.”
  “No plano internacional, o general Spínola volta a reativar os contactos internacionais que já tinha solicitado, quando conjuntamente com Caetano pensava em reformas.”
  “Nos primeiros dias de Abril, os seus pontos de contacto nas capitais mais importantes do Ocidente obtêm as mesmas respostas. Os financeiros: “Sim, seria bem-vinda uma solução política do problema colonial português”; os políticos: “Sim, uma liberalização controlada do regime português facilitaria a sua integração na Europa.”
  “Em Roma, monsenhor Pereira Gomes, chefe da ala liberal da igreja portuguesa, defende o plano de Spínola, perante o cardeal Villot. Pereira recebe estímulo do Santo Padre, muito preocupado quanto à paz e bem-estar dos seus filhos africanos. A tensão entre o Vaticano e Lisboa por causa das atrocidades de guerra em Moçambique e da expulsão dos missionários deu os seus frutos
.”
Portanto, vemos que para além da presença de grandes forças da NATO, as negociações envolviam o seu aspecto ecuménico, com o Vaticano dando a benção revolucionária.
Outro aspecto, é ainda a reunião do grupo Bilderberg, que dará a benção dos cravos, e da finança internacional:  
"Resta apenas o problema da NATO: Spínola promove o contacto com o próprio Secretário da Nato, Joseph Luns, [através] de um dos seus amigos da Finança — o Director dos Estaleiros Navais Portugueses, Lisnave, Thorsten Anderson — que participa em Megève, França (de 19 a 21 de Abril) numa misteriosa reunião de importantes homens da política, da diplomacia e do mundo dos negócios internacionais reunidos num igualmente misterioso clube: o Clube de Bilderberg. 
De 19 a 21 de Abril, Megève é zona vigiada pela polícia francesa como se o visitante fosse um Chefe de Estado. De facto, no Hotel Mont Arbois, propriedade de Edmond Rothschild, reúne-se a flor e a nata da política e das Finanças ocidentais. A reunião é discreta, à porta fechada: os jornalistas não falarão dela; mas é ali que será decidido o destino do mundo ocidental. Desde 1954, e do dia da primeira reunião no Hotel Bilderberg, na cidade holandesa de Oosterbeek, sob a presidência do Príncipe Bernardo da Holanda, que os homens mais influentes do Ocidente se reúnem anualmente para estudar a situação 'política e financeira e estudar ou aprovar programas para o futuro'.
Bastam os nomes dos participantes daquele ano na reunião do Clube para que possa compreender-se a sua importância. São os seguintes: Nelson Rockefeller, Governador do Estado de Nova York; Frederick Dant, Secretário Norte-Americano do Comércio; General Andrew Goodpaster, Comandante das Forças Aliadas na Europa; Denis Healey, Ministro da Fazenda inglês; Joseph Luns, Secretário Geral da NATO; Richard Foren, Presidente da General Electric na Europa; Helmut Schmidt, Ministro da Fazenda alemão, actualmente chanceler, após a demissão de Brandt; Franz Joseph Strauss, definido como homem de negócios alemão; Joseph Abs, Presidente do Deutsche Bank; Guido Carli, Governador do Banco de Itália; Giovanni Agnelli, Presidente da Fiat; Eugénio Cefis, Presidente da Montedison e além destes Thorsten Anderson, homem de negócios português que sonda Joseph Luns sobre as possíveis reacções da NATO perante a possível mudança de regime em Lisboa.
A resposta de Luns, certamente positiva, vem a ser confirmada pelo comportamento, já citado no início, dos navios da NATO defronte da capital portuguesa durante as primeiras horas do golpe de Estado. A sua presença actuou como um silencioso dissuasor contra quem, entre os generais ultras, tivesse tentado opor resistência a Spínola. Os generais sabem da presença dos navios e sabem muito bem interpretar a sua saída de Lisboa na madrugada de 25 de Abril. É evidente que a NATO julga saber quem são os iniciadores do movimento, conhece o seu programa e aprova-o. A reunião do Clube de Bilderberg cumpriu os seus objectivos e neste momento Spínola tem o caminho livre
".
No livro "Os planos Bilderberg para Portugal", Rui Pedro Antunes dá a este episódio o nome:
- "Nem Abril escapou a Bilderberg" (pág. 176)

... mas sejamos claros, é óbvio que nada terá havido de muito significativo decidido em Megève, França, 5 dias antes da revolução ocorrer. Há muito que estava planeada a passagem da NATO por Lisboa, e a única questão seria ter o "ok" definitivo à operação... o resto seria a festa de flores.
Por isso, até o soldado que cortou o cabelo ao capitão Virgílio Varela, sabia a 9 de Abril que a revolução tinha já a data marcada - que seria o dia de São Marcos, tão caro aos banqueiros venezianos.

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Nota adicional (28 de Abril de 2017):
Festa del bocolo (do botão de rosa vermelha) - Veneza, 25 de Abril de 2014

Acerca do dia 25 de Abril, de cravos, papoilas, bilderberg, etc... ver também:

domingo, 9 de abril de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Pano de fundo

Num artigo de ontem, do Sunday Express é feita a seguinte questão:


... que é como quem diz, nem sequer se deram ao trabalho de mudar o pano de fundo das imagens, quando diziam que filmavam de sítios muito diferentes:
As montanhas no fundo destas duas imagens da Apollo 15 são idênticas.

A NASA argumenta que apesar das imagens terem sido tiradas com quilómetros de distância, o pano de fundo era o mesmo, porque estava muito distante... Parece-me que tinha sido mais fácil dizerem que tinham sido tiradas do mesmo sítio (do estúdio), uma atrás do módulo lunar, outra à frente... e que se tinham enganado a classificá-las na localização, mas cada um é livre de usar as desculpas mais parvas que tem à mão.

Mars bugs
Ok, mas onde é que são feitas as filmagens, agora para os rovers de Marte?
A pergunta em inglês tem mais piada: "Where on Earth are the pictures from?"
Já tinha sugerido que a Antárctida poderia ser uma boa localização...
Afinal parece que alguém descobriu (ou digamos, suspeita...) que as filmagens se processam numa ilha canadiana do Árctico. É mais perto!
Um artigo é do mesmo Sunday Express, mas pode ser encontrado noutros "tablóides".


citando a notícia:
The shocking conspiracy theory echoes the long-held belief NASA faked all the moon landings footage, and no man has ever set foot on the lunar surface.
The so-called Mars "truthers" claim NASA is actually filming all its alleged Martian footage from Devon Island in Canada.
A large uninhabited island, NASA has previously admitted the scene “resembles the Mars surface in more ways than any other place on Earth”.
Truther Harold Saive claims NASA’s Mars Exploration Rovers – robots which are supposedly scouring the Martian landscape for signs of water, and possibly alien life – never reached their target.
Instead, they allegedly “fell short” – and landed on Devon Island, where confirmed NASA has a base to test out rovers.
Portanto, a NASA confirmou que tem na ilha de Devon uma base para testar rovers, e que por acaso a paisagem aí é a que mais se assemelha ao que vemos da paisagem marciana...
E também há bicharocos que parecem confirmar ter chegado a Marte antes da NASA (de entre uma lista de "anomalias" que a CNN resumiu):

- Uma delas será o famoso "esquilo marciano", que numa viagem sem precedentes, rumou até Marte, ou pronto... se calhar, foi só até à Ilha de Devon:

(uma outra hipótese engraçada, de incondicionais crédulos é tratarem-se de cobaias lançadas em Marte... sem capacete)


Pano de fundo lunar
Ainda antes das missões espaciais, nos anos 1950, artistas como Chesley Bonestell desenhavam a Lua com montanhas íngremes, para corresponder às sombras que eram vistas da Terra (algo que também já tinha feito Nasmyth no Séc. XIX)... algumas delas muito pontiagudas.
Eis uma imagem de Bonestell, onde ele coloca uma escalada a uma íngreme montanha, e agora imagine-se... tudo isto à noite, à luz do reflexo da Terra (que presumo ser o disco branco).

Ora, ora, mas as missões nunca ocorreriam à noite, quando poderiam vislumbrar o céu estrelado, ou a Via Láctea, como se mostraria no desenho. Ocorreriam sempre sem estrelas no céu... Seja, por missões tripuladas, seja por missões não tripuladas, nunca nos foi dado ver estrelas no céu lunar, ou aliás de um modo geral, em qualquer imagem de um céu estrelado (excepto se alegadamente obtida pelo telescópio Hubble).
Um outro facto curioso é que ao ocorrerem de dia, os astronautas teriam que aguentar temperaturas de 200 graus Celsius, um pequeno detalhe para a NASA, que argumenta que os fatos eram brancos e reflectiam a luz solar... já se vê que os problemas de raios ultra-violeta, ou outra radiação mais letal emitida pelo Sol, nunca foi problema... especialmente se as filmagens fossem em Devon Island.
Acresce que diz-se ainda que as filmagens ocorreram com a Lua em quarto crescente, e com o propósito de ter os astronautas entre as temperaturas de -200ºC à noite (temperatura que não causaria tantos problemas), e as temperaturas de 200ºC do lado iluminado, seria aconselhado terem sido realizadas sempre no lusco-fusco... só que isso não impediu que a maioria das fotografias tivessem sombras pequenas, não correspondendo minimamente às sombras alongadas, se estivessem com o Sol na linha do horizonte.
Enfim... qualquer análise que não seja superficial, mostra que o público alvo da divulgação da NASA tem duas ou três características principais - infantilidade, pouco conhecimento técnico ou muita credulidade. Ou ainda, muito mais que isso, ninguém gosta de ser apelidado de lunático por vigaristas.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Zeunice

Eunice significa: Boa (Εὐ) vitória (νίκη).
Zeus de Artemiso (foto na wikipedia). Vitória (Nike) de Samotrácia (foto na wikipedia)
Repare-se na sombra da estátua da Vitória.

estátua da Vitória (Nice), encontrada em Samotrácia, e que encima uma escadaria do Museu do Louvre, será a que facilmente considero como a mais bela estátua esculpida. 
Juntei a esta uma outra bela estátua de bronze, encontrada no Cabo Artemísio, que provavelmente  retrata Zeus... simplesmente porque reparei na sombra projectada pela Nice, e os contornos dessa sombra na foto fizeram-me lembrar a outra.
Curiosamente, enquanto a sombra de uma asa faz lembrar um braço estendido, a sombra da outra asa, fez-me lembrar o perfil do rosto nas estátuas de Zeus.
É claro que suprimi o braço direito que arremessaria um raio, pois a sombra sugere mais que um braço esquerdo segura um livro. 
Curiosamente, ainda... se à estátua de Vitória lhe falta a cabeça, ela pareceu desenhar-se na sombra.

Ora, este postal não seria sobre as estátuas, nem sobre Eunice - uma ninfa nereida, ou uma das jovens oferecidas ao Minotauro (em conjunto com Timóteo), nem sobre a mãe de São Timóteo, que também se chamava Eunice. Porém, dadas as circunstâncias passou a ser...


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Nebulosidades auditivas (48)

George Michael - Cowboys and Angels
... no reino dos óculos escuros (vídeo por Kate Cat , "Hollywood" - Alex Malka)



domingo, 15 de janeiro de 2017

Snowmageddon (4)

Vender frigoríficos a esquimós...
Tarefa de grandes vendedores, tem sido basicamente passada para os apologistas do "aquecimento global", durante os últimos frios invernos, conforme temos vindo a repetir aqui desde o inverno de 2014/15. 
Se seria ineficaz a um vendedor de frigoríficos anunciá-lo com a vantagem do frio a esquimós, também aos vendedores do "aquecimento global" passou a ser conveniente anunciá-lo como "alteração climática"... dado o frio que se foi sentido. Sendo que uma alteração climática, seria alteração das estações, e só faria o mínimo sentido se tivéssemos visto invernos muito mais quentes e verões muito mais frios.  

Depois dos recentes "Snowmageddon" (ou Snowpocalypse) nos EUA, que seriam afinal uma boa venda para um "arrefecimento global", publicitado nos anos 70 (conforme relembrámos), foi agora a Europa atingida com vagas de frio polar que gelaram as praias gregas:

More people die as European chill maintains its grip  (Sky News, 9 de Janeiro de 2017)

O que vemos não é areia branca, mas sim neve, em praias gregas, neste inverno.
Como a vaga de frio polar afectou a  Europa central, incluindo até Itália, Grécia e Turquia.


Apesar da vaga de frio lhes afectar a vista, como cataratas congeladas, não é de esperar que nada mude nas mentalidades mais empedernidas que o gelo mais duro. 
Os vendedores de banha-da-cobra têm sempre um rol de argumentos contra a realidade.

Porém, ao ver o antigo mapa nazi de NeuSchwabenLand a linha dos gelos há 80 anos (a vermelho) indicava menos gelo do que a linha dos gelos actual (a azul):
Linha de gelos no mapa nazi (a vermelho) era geralmente mais recuada do que actualmente (a azul).
Ou seja, ao contrário do que é propalado, o gelo terá aumentado bastante nos últimos 80 anos.

Portanto, se a linha dos gelos aumentou, de um modo geral, a conversa que serviu para sustentar o "arrefecimento global", nos anos 1970, tinha mais pernas para andar que o teatro do "aquecimento global", em cena nos últimos 20 anos.

Pós da verdade
Curiosamente, acusando o mundo de estar a viver numa época de "pós-verdade", por via de resultados eleitorais (Brexit, Donald Trump, ...), que iam contra o politicamente correcto (Trump criticou as teorias de aquecimento global), e no sentido de teorias de conspiração.... são agora os fortes críticos das teorias de conspiração a inventar e divulgar a nova "teoria de conspiração":
- A Rússia estará por detrás da eleição de Trump...
... e não só! 
Já se diz que o Sr. Putin, afinal o grande conspirador sentado em Moscovo, mexe os cordelinhos, fazendo os americanos eleger Trump, fazendo os ingleses votarem no Brexit, e prepara-se para fazer os franceses eleger Marine Le Pen... tudo parte de um grande plano conspirativo.

Estes teóricos do politicamente correcto, são os mesmos que caricaturavam as "teorias da conspiração" como coisas de maluquinhos, mas que agora inventam sem problemas a sua "teoria da conspiração" em que Putin condiciona Trump, e espante-se.... por haver vídeos sexuais deste com prostitutas russas. Pois, e Putin também é capaz de condicionar a política italiana com os vídeos pornográficos da ex-deputada, Cicciolina.
Não que Trump ou Putin sejam figuras muito agradáveis, mas os agentes dos pós da verdade politicamente correcta, estão a entrar em parafuso, e a cair nos limites do ridículo!

Temperatura de Casino
Bom, mas o que a maioria do povo não saberá é que o negócio da Temperatura entrou nas Bolsas há praticamente 20 anos. Para isso é preciso notar na definição de "Derivados de Temperatura" (Weather derivatives):
Weather derivatives are financial instruments that can be used by organizations or individuals as part of a risk management strategy to reduce risk associated with adverse or unexpected weather conditions. (in wikipedia)
A ideia não deixa de fazer sentido. O aumento ou baixa de temperatura tem repercursões económicas directas. O aumento do calor, ou do frio, faz disparar o consumo de electricidade/gás, pelo simples ligar de aquecedores, ou ar condicionado. Com mais calor, bebe-se mais cerveja... por isso o custo de produção é diferente se for atempada a vaga de calor, e as companhias protegiam-se com as seguradoras, para eventuais falhas de produção, etc...
Em 1996 foi feito o primeiro contrato sobre Temperatura entre companhias eléctricas, para caso de necessidade suplementar no mês de Agosto de 1996. A ideia espalhou-se rapidamente e em 1997 havia já múltiplas transacções de negócios envolvendo "previsão de temperaturas". Em 1997 o vice-presidente Al Gore começou a envolver-se directamente no assunto e em Dezembro de 1997 foi assinado o Protocolo de Quioto, para controlar a emissão de CO2
Em 1999 já havia uma bolsa de valores em Chicago dedicada às transacções sobre a variação dos valores da temperatura. Pouco depois, em 2001, Al Gore, na sua candidatura, apareceu como grande estrela, paladino da luta contra o aumento de temperatura global.

Apostando no controlo do CO2 imposto pelo Protocolo de Quioto, os fabricantes de automóveis passaram a desenvolver tecnologia de controlo de poluentes para incorporar nos veículos (além do conversor catalítico), o que era também vantajoso para manter fora competidores sem acesso a essa tecnologia e que poderiam fazer veículos baratos (caso de países em desenvolvimento, como Índia ou China). Por exemplo, a UE legislou em 2001 sobre o controlo de emissões.
Toda uma enorme negociata passou a depender do clima... e o clima era bom para apostadores, porque batia certo com o politicamente correcto - baixar a emissão de poluentes.

Não significa isto que a aposta seja num aumento de temperatura... porque se há agora a moda do "aquecimento global", financiada por múltiplos interesses, os maiores especuladores tanto podem ter interesse em aumentar ou baixar a temperatura.
Simplesmente havendo grande interesse financeiro em jogo, apostando num sentido ou no outro, todo o resto dos argumentos são mera retórica decorativa, destinada a não revelar diversos propósitos subjacentes.