terça-feira, 28 de junho de 2016

Do Grexit ao Brexit (2) - o filme

Num comentário ao postal anterior, João Ribeiro indicou um documentário da campanha do Brexit que penso ser muito instrutivo, apesar de poder ser encarado apenas como uma excelente propaganda que serviu para o voto de saída da União Europeia.
Para seleccionar a legendagem em Português clique na [roda dentada] (entre [CC] e [YouTube]).
Escolha "SubTitles" e depois "Auto-Translate", nessa lista escolha "Português". 
(É apenas uma tradução automática, mas funciona bem... ou quase sempre bem) 

Muitos de nós já viram documentários parecidos, mas isso não altera a pertinência do que é dito. Marinho e Pinto terá sido dos poucos entre nós que terá falado do escândalo do que se passava no Parlamento Europeu... mas para além de não ter prescindido das principescas regalias, no que foi duramente atacado pelos seus compagnons de route, não tornou explícita a completa inutilidade do Parlamento Europeu, que aqui é dita - ou seja, serve apenas para ratificar leis da Comissão Europeia. O parlamento não tem poder para revogar ou propor novas leis. Ou seja, é um completo teatro de fachada, destinado a subsidiar principescamente uma elite, que é mesmo financiada para nem sequer comparecer às sessões... 

O documentário é ainda ilustrativo para mostrar como o sector de pescas do UK sofreu praticamente o mesmo destino que o português - foi subsidiado o seu declínio. Mostra também como a verborreia legislativa da UE serve como forma de proteccionismo, destinada a impedir concorrência, já que novas empresas não conseguem cumprir exigências que requerem um arsenal de advogados. É dado como exemplo que há 1246 leis para o pão, e 12 653 leis para o leite... Montanhas de comida foi armazenada a apodrecer para criar a ideia de que havia falta de comida, permitindo assim aumentar o preço até 20%. Enfim, são múltiplos os exemplos, que ilustram como o Brexit foi uma decisão informada de muitos votantes conscientes, e não intoxicados com os meios de comunicação completamente controlados.

Porquê?
Essa pergunta não é respondida no filme, mas não é difícil de conjecturar.
Uma visão idealista do que seria um objectivo da elite que nos governa, é dado no filme Elysium, estreado em 2013 e que é suposto antever o futuro a 150 anos de distância... ou seja, a construção de uma Estação Espacial paradisíaca, que permite afastar a elite de toda a populaça terrestre. E se chegar à Lua coloca problemas, saindo do escudo protector da Cintura de Van Allen, a criação de uma estação espacial em órbita nem sequer se trata de ficção científica!
Elysium (2013)

O grande problema de uma elite é manter o seu estatuto, nada mais... para além de definir algumas regras inquebráveis para que a competição interna, dentro dessa elite, não a ameace. O resto é o medo da populaça - o demo.
Para esse efeito é necessário manter necessidades artificiais, crises, para manter a população entretida.
A população não pode ser eliminada, porque, por azar, precisará sempre de trabalho e especialmente de motivação para manter um arsenal de invenções e criações, que lhe garantam melhoria da qualidade de vida. Assim, apesar de haver condições para toda a humanidade poder viver já num paraíso terrestre, a competição é estimulada para os assuntos mais preocupantes... doenças, envelhecimento, longevidade, etc. Algumas das poucas coisas em que estamos sujeitos ao mesmo fado, independentemente do nascimento. Curiosamente, é praticamente certo que quanto mais isso for procurado ocorrer apenas como benefício de poucos, não ocorrerá como benefício de nenhuns... porque isso seria um passo irreversível condenatório.

A maior diferença da elite dos últimos séculos, face à aristocracia anterior, foi abrir a entrada do clube a novos membros, desde que aceitem as regras de desequilíbrio como inevitáveis. Assim, o que se pretende das políticas dos estados nada tem de racional. É uma pura questão de manter um enorme show em funcionamento, enganando 99.99% da população, que trabalhará afincadamente no meio de crises, para combater assimetrias e necessidades fabricadas.
Tudo o que vemos se destina a manter o ascendente das grandes empresas e empresários existentes, e combater energicamente a ascensão de uma nova burguesia ao topo do poder.
Essa prisão feita ao homem moderno, conforme é descrito no filme, é feita pela imposição de regras, regulamentos em cima de regulamentos, e pela criação de necessidades pelo efeito de crises artificiais. Assim, enquanto nos congratulamos com a boa decisão britânica, tal efeito irá provavelmente servir de enredo para mais uma crise financeira, que afectará mais uns tantos milhões...

domingo, 26 de junho de 2016

Nebulosidades auditivas (38)

Referi antes o vídeo Language is a Virus, de Laurie Anderson, que remete para uma frase do escritor americano William Burroughs - "A linguagem é um vírus, do espaço exterior", a que terá dado importância Philip K. Dick, conforme abordado neste link. Curiosamente, isto acaba por ser uma forma bastante diversa de chegar a conclusões sobre linguagem que fui aqui partilhando (por exemplo, associando a linguagem a um novo código genético que foi transmitido entre humanos). 
No entanto, a linguagem é muito mais que uma suspeita de invasão alienígena. A linguagem, não tem a ver com a língua em que se manifesta, mas sim com as noções comuns a todas as linguagens. Correligiona homens para o mundo de ideias abstractas, que não tendo outro espaço de disputa que não seja o espaço abstracto de ideias nas cabeças humanas, saem de um espaço abstracto para se manifestarem no nosso espaço físico. Mas não vou repetir algo que já escrevi de diversas formas - por exemplo aqui.

Sou um fã de Laurie Anderson, especialmente desde o álbum Mister Heartbreak, mas interessou-me trazer aqui alguns temas de um álbum posterior The ugly one with the jewels, que começa com esta história sobre a sua avó, uma baptista missionária que anunciava o "fim do mundo". Afinal, convém não esquecer que já sobrevivemos a dois "fins do mundo" (31/12/1999 e 21/12/2012), supostamente previstos há séculos ou milénios atrás.
Laurie Andersen - "The End of the World"
Ladies and gentlemen, please welcome back to London, Laurie Anderson.
Hi. This evening I'll be reading from a book I just finished and since a lot of it is about the future, I'm going to start more or less on the last page, and tell you about my grandmother. Now, she was a Southern Baptist Holy Ruler and she had a very clear idea about the future, and of how the world would end.
In fire. In fire. Like in Revelations. Like in Revelations.
And when I was ten, my grandmother told me the world would end in a year. So I spent the whole year praying and reading the Bible and alienating all my friends and relatives. And finally the big day came. And absolutely nothing happened. Just another day.
Ooooaaaah!
Now, my grandmother was a missionary and she had heard that the largest religion in the world was Buddhism. So she decided to go to Japan, to convert Buddhists.
And to inform them about the end of the world. And to inform them about the end of the world.
And she didn't speak Japanese. So she tried to convert them with a combination of hand gestures, sign language and hymns, in English.
Ooooaaaah!
The Japanese had absolutely no idea what she was trying to get at. And when she got back to the United States she was still talking about the end of the world. And I remember the day she died. She was very excited. She was like a small bird perched on the edge of her bed near the window in the hospital. Waiting to die. And she was wearing these pink nightgowns and combing her hair, so she'd look pretty for the big moment when Christ came to get her.
Ooooaaaah!
And she wasn't afraid but then, just at the very last minute something happened that changed everything. Because suddenly, at the very last minute she panicked. After a whole life of praying and predicting the end of the world, she panicked. And she panicked because she couldn't decide whether or not to wear a hat.
Ooooaaaah!
And so when she died she went into the future in a panic, with absolutely no idea of what would be next.
Interessou-me trazer esta história, porque revela bem o desconforto de uma pessoa segura nas suas ideias, no seu modelo idealizado, mas sem saber porquê, ou sequer atender à verificação de que as suas anteriores previsões falhavam. O pânico final da avó, no leito de morte, sem saber se haveria de receber Cristo com ou sem chapéu, é ilustrativo de uma crença arbitrária, baseada em pouco mais do que convicções comunitárias, resultantes de tradições. As tradições e convicções sociais podem oferecer um conforto numa comunidade, mas quando se embarca na última viagem solitária, a experiência é individual, e só ficam as certezas individuais, sem o conforto da chancela comunitária.

Laurie Andersen "recalls The End of the World" - entrevista NFFA
(música/relato - The Geographic North Pole)

Neste outro vídeo, numa entrevista a um movimento anti-nuclear, Laurie Anderson relata uma experiência que teve em 1974, quando decidiu ir à boleia até ao Pólo Norte... mas como isso é vedado ao cidadão normal, acabou por se contentar em deslocar-se apenas até ao Pólo Norte magnético.
Tendo sido surpreendida por uma Aurora Boreal, terá considerado a hipótese, então habitual em tempo de Guerra Fria, de ter ocorrido um holocausto nuclear, da qual seria a única sobrevivente. Concluindo, como só conclui quem pensa verdadeiramente no assunto, sobre o pânico que seria estar completamente sozinha. Porque, estar sozinho não é afastar-se dos outros... é procurar os outros ao ponto de perder a esperança de os encontrar. E só perante essa perspectiva é que se dá verdadeiro valor ao outro, e à forma de comunicação que podemos ter... a linguagem.
Laurie Andersen - "Same Time Tomorrow" - World Without End

Mas há algo pior... quando não nos apercebemos de que nos alimentamos do desconhecido, ou do nosso interesse por ele.
Na ânsia de tudo controlar, de tudo dominar, no fundo para terminar com o medo do desconhecido, não nos lembramos que chegados ao ponto de nada nos surpreender, perdemos esse alimento.
Com uma grande, enorme, incomensurável, diferença... se podemos combater a falta de conhecimento, conhecendo mais; não podemos combater o excesso de conhecimento, porque não conseguimos deixar de saber o que sabemos. E é quando sabemos demais, e percebemos que não queríamos saber tanto, ao ponto de perder o interesse por novo conhecimento, quando já não nos conseguimos alimentar da surpresa do desconhecido, só aí é que percebemos como é também importante o esquecimento.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Do Grexit ao Brexit, em um ano

A forma como o poder instalado na UE tratou da questão grega, desconsiderando os resultados eleitorais na Grécia, ao ponto da completa redundância da votação, repetida de forma ainda mais grotesca no resultado do referendo efectuado no ano passado, terá pesado bastante nos votantes ingleses. 
Nesta altura, quando faltam menos de metade dos votos, a vantagem do Brexit é já razoável e considerável, com aproximadamente 3% de vantagem e sempre a aumentar...
BBC news 24/06/2016 circa 4h30
Ao contrário do que aconteceu com a Grécia, ou do que aconteceu com vários outros referendos feitos para validar a UE... que foram repetidos até a população votar conforme previsto (caso irlandês), o resultado do referendo britânico irá abalar a conjuntura mundial, de forma muito significativa.
A vitória do Brexit será um atestado de caducidade, e de óbito anunciado à UE.
É claro que inicialmente os mercados vão tentar penalizar o infractor, penalizando a libra, mas pela forma como está organizada a face visível do poder, será praticamente incontornável que a breve termo a situação se inverta por completo, e será o euro a perder sucessivamente para a libra. Porque a partir do momento em que a Inglaterra abandonar, só os mais teimosos e desesperados é que tentarão agarrar o barco da UE. Uma Europa continental, sem a Inglaterra, mas com o inglês como língua oficial, será uma aberração demasiado grande para durar muito tempo.
Não será pelas efectivas consequências económicas que se instalará a instabilidade financeira, será pela simples perspectiva de instabilidade que os mercados irão reagir.
Feitas as contas pelos votos partidários, de trabalhistas e conservadores, a vitória da permanência na UE seria absoluta e esmagadora... no entanto, ao contrário dos que acham que os votos do PSD e PS também servem cá de aprovação à UE, a população britânica decidiu surpreender. À excepção de Londres e da Escócia, houve uma clara maioria que votou pela saída da UE... como provavelmente também poderia ocorrer noutros países da UE, dada a sua política plutocrática mais recente.
Saindo a Inglaterra, a UE é um Titanic a afundar, mas enquanto isso, a orquestra dos governantes burocratas dependentes até à medula das benesses de Bruxelas, continuará a tocar alegremente.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Crateras (2) Xico

A Cidade do México é hoje das metrópoles mais populosas do mundo, e ergue-se praticamente em cima do assoreamento de um grande lago, o Texcoco. A capital Azteca era já uma grande metrópole, mesmo para os padrões europeus da época, e sua localização lacustre, com múltiplas pequenas ilhas, fariam dela uma espécie de Veneza americana.
Tenochtitlan - a cidade do México, ao tempo dos Aztecas, segundo um mural de Diego Rivera
Esquematicamente, na wikipedia encontramos a configuração do que seria a região dos lagos que rodeavam Tenochtitlan (a maior ilha interna, actualmente centro da Cidade do Mexico), onde se distinguiam duas partes - uma parte do lago seria de água doce, e outra de água salgada.

Um mapa de 1847 (ver ainda mapa de Rasmusio, Séc. XVI) permite observar como o lago foi progressivamente perdendo terreno, começando pela parte central de Tenochtitlan, então já completamente arrasada e assoreada, tendo dado lugar ao centro da Cidade do México.
Interessa-nos aqui focar o Lago de Chalco (canto inferior direito) de que resiste uma pequena parte, e notar especialmente a referência ao nome Xico.
Lago Chalco no Mapa de 1847 de Bruff-Distrunell 

Desse corpo de água resta muito pouco, já que a cidade foi avançando, ocupando praticamente todo o espaço disponível... os lagos foram assoreados, e apenas as montanhas, de origem vulcânica foram mantidas.
Ora, surpreendente é mesmo a Cratera Xico, com uma forma circular quase perfeita, conforme se pode ver no canto inferior direito do Google Maps, e especialmente na imagem aérea seguinte.

Google Maps - Cratera Xico (Parque Xicotencal)
Cratera Xico - na Cidade do México - vista aérea (imagem
Portanto, pela análise do mapa de 1847, podemos concluir que esta cratera estava completamente rodeada de água, pelo Lago Chalco, lago de água doce, de que resta agora apenas uma pequena parte.
Toda a região circundante está repleta de vestígios de vulcões extintos, mas este é o mais perfeito em forma circular, parecendo muito mais uma cratera de impacto, do que uma cratera vulcânica.
Por exemplo, mesmo ao lado, na denominada Serra de Santa Catarina, há igualmente outros restos de vulcões, mas cujo aspecto exterior é razoavelmente distinto:
Cidade do México - vulcão Yuhualixqui, Serra de Santa Catarina
Aliás, olhando esta última imagem, poderá conjecturar-se que estes vulcões extintos possam ter servido de modelo, ou inspiração, para as pirâmides que os povos mexicanos construíram.

Parece inquestionável que os Aztecas reservaram para si um pequeno paraíso lacustre, que foi depois brutalmente terraplanado por um punhado de conquistadores espanhóis liderados por Hernando Cortés. Os registos que nos chegaram dos Aztecas, e que foram notavelmente caracterizados por Mel Gibson, no filme Apocalypto, apenas indiciam que uma brutalidade foi depois terminada com outra ainda mais eficaz.
Para além da total submissão e destruição, registou-se uma quase completa perda cultural, mais acentuada recentemente. Mesmo assim, apesar de proibições no Séc. XVIII e XIX, a língua Náuatle ainda mantém cerca de um milhão de falantes, e não se terá perdido por completo.
Normalmente estas perdas não ocorrem por imposição à força, mas muito mais por imposição de vontades, através da moda, e aceitação social. O espanhol é simplesmente muito mais útil, tornando o náuatle uma excentricidade para as novas gerações. 

A questão mais complicada, dado o carácter de violência extrema que caracterizou os Aztecas, seria a de saber de que forma teriam estes realizado uma transição cultural para os tempos modernos... mas afinal, se os Aztecas realizavam sacrifícios humanos, por razões religiosas, os Espanhóis iriam trazer os autos-de-fé, em que substituíam o arrancar de corações, pelo brando lume das fogueiras inquisitórias.
Se houve uma constante nas civilizações humanas foi nunca conhecer limites para trazer formas de terror para a Terra, e por muito que se invocasse que haveria um Inferno que seria pior, essa vontade de fazer na Terra um Inferno para os seus inimigos, esteve presente em praticamente todas as elites reinantes. 
Esse culto do terror, agora deixado essencialmente nos écrãs de cinema, nunca foi combatido, e a sua divulgação sempre foi acarinhada, com monstruosidades que retiravam o sono às crianças. Nunca houve propriamente nenhuma figuração de terror que tivesse sido banida pela Igreja, sempre se procurou desenhar da forma mais brutal os diabretes, e se não conseguiam apresentar pior, não foi porque não o tivessem encomendado, aos mais inspirados artistas... Aliás, ainda hoje é caricato ver a perseguição que se faz a imagens de nus, quando se toleram imagens de pura violência.
Conforme era retratado no filme Apocalypto, por muita hegemonia que os Aztecas exercessem sobre as outras tribos, na forma de terror, tentando inibir a vivência pela glorificação do medo, tinham à espera uma outra civilização, os Europeus, capazes de elevar ainda o nível de terror e submissão, a novos patamares.

Dado o contexto de cidade lacustre de Tenochtitlan, não se pode dizer que os Aztecas fossem avessos à água, e quando os Espanhóis chegam, o seu domínio no México chegava já a uma boa parte da região costeira. Também o império Inca estava num certo apogeu, havendo registos de primeiras viagens marítimas feitas pelos incas. Em ambos os casos, é a chegada dos conquistadores espanhóis que terminará definitivamente essa ascensão... como se tivesse havido a coincidência de terem chegado a tempo de parar o progresso dessas civilizações. Afinal, tal como no caso chinês, poderia ter-se dado a situação inversa - os descobrimentos terem sido realizados no sentido oposto... e não seria muito agradável aos europeus ter navios Aztecas a desembarcarem nas suas costas!
Assim, pode ter sido o próprio progresso dos Aztecas e Incas (ou Chineses) que fez tocar as campainhas europeias para uma intervenção em larga escala no globo. Afinal, as grandes campanhas de descobertas europeias, poderiam ter ocorrido em qualquer altura, e será jovial pensar que na Europa não se conhecia o resto do globo, desde a Antiguidade. 
Dado o desnível tecnológico, Aztecas e Incas tiveram pouca ou nenhuma hipótese, seria o mesmo que tentarmos resistir a uma civilização alienígena com tecnologia capaz de colocar uma frota militar de naves espaciais em órbita terrestre... as hipóteses de sobrevivência seriam a sua condescendência.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Crateras (1) Tunguska

Como o incidente trágico do postal anterior ocorreu na Sibéria, lembrei-me naturalmente do 
ocorrido numa remota região siberiana em 1908.
Tudo indica ter-se tratado do maior impacto de um meteoro registado na história, sendo especialmente surpreendente por ter sido associado a observação de auroras boreais abaixo da latitude habitual - por exemplo, em Londres, e o jornal The Times publica diversas cartas dos leitores datadas de 1 Julho de 1908. 
Curious Sun Effects At Night To the Editor of the Times Sir, -- Struck with the unusual brightness of the heavens, the band of golfers staying here strolled towards the links at 11 o'clock last evening in order that they might obtain an uninterrupted view of the phenomenon. Looking northwards across the sea they found that the sky had the appearance of a dying sunset of exquisite beauty. This not only lasted but actually grew both in extent and intensity till 2:30 this morning, when driving clouds from the East obliterated the gorgeous colouring. I myself was aroused from sleep at 1:15, and so strong was the light at this hour that I could read a book by it in my chamber quite comfortably. At 1:45 the whole sky, N. and N.-E., was a delicate salmon pink, and the birds began their matutinal song. No doubt others will have noticed this phenomenon, but as Brancaster holds an almost unique position in facing north to the sea, we who are staying here had the best possible view of it.Yours faithfully, Holcombe InglebyDormy House Club, Brancaster, July 1 (1908)
Segundo o leitor do The Times, as luzes dessa aurora boreal de 1908, eram tão intensas que permitiriam ler um livro. Pouco depois, segundo ele, os pássaros, igualmente surpreendidos com o evento, começavam a despertar com o chilrear anunciando a madrugada.
Inicialmente, conforme ainda se pode ler no The Times, o efeito associava-se a uma eventual erupção vulcânica de grande magnitude, como a que ocorrera com o Cracatoa em Agosto de 1883. Então, os efeitos na atmosfera no Outono de 1883 foram associados à dispersão de cinza vulcânica a grande altitude. Na habitual teoria especulativa climática, o Cracatoa foi ainda responsabilizado por uma baixa de 1.2º C na "temperatura global". Foi ainda um pouco na linha do que se pretendeu ocorrer em 2010, na erupção islandesa do Eyjafjallajökull, mas com a diferença de que em 1883 é mesmo capaz de se ter visto alguma coisa, e não apenas "enxames de gambuzinos", que serviram para fechar aeroportos, como aconteceu em 2010 por toda a Europa.

Bom, mas voltando a Tunguska, uma coisa só ficou associada à outra, muito depois.
Ou seja, o impacto do meteoro na região de Tunguska não levou o Czar Nicolau II a enviar uma equipa exploratória para avaliar o ocorrido. Na wikipedia aparece um relato num jornal russo "Sibir", indicando a ocorrência do evento a 17 de Junho do calendário juliano russo, que seria 30 de Junho, no gregoriano, ou seja, na véspera dos avistamentos boreais em Londres, a 1 de Julho.
No entanto, a primeira expedição ao local só foi enviada formalmente quase 20 anos depois, em 1927. É nessa altura que se deparam com o panorama de árvores arrasadas, mas sem nenhuma cratera de impacto (ainda que se conjecture que o Lago Cheko pode ser o resultado desse impacto).
Tunguska, 1908 - impacto de meteoro
A ausência de cratera de impacto, no centro das árvores tombadas, é associada a uma explosão do meteorito ainda no ar, como aconteceu recentemente, em 2013, com o Meteoro de Chelyabinsk, cujo principal dano resultou do impacto da onda de som, que partiu diversos vidros.
No entanto, para o efeito de devastação ter levado à queda de tantas árvores em Tugunska, estamos a falar de uma onda de choque de intensidade muitíssimo mais potente... e se alguma pessoa estivesse na zona, tal efeito de choque poderia produzir fracturas internas.
O efeito do choque em Tugunska foi replicado com explosões (Operation Blowndown), quer pelo lado americano, quer pelo lado russo... e portanto, no caso dos montanhistas do grupo de Dyatlov, seria algo indiferente terem sido apanhados por um choque acidental vindo de um meteoro, ou de uma experiência militar soviética, se isso for suficiente para explicar o que se passou.

Outras teorias especulativas relativas ao evento de Tugunska (buracos negros, ovnis, etc...) parecem-me forçadas e injustificadas, dado que a ocorrência deste tipo de fenómenos tem esta explicação resultante de impactos de meteoros. O caso da visualização de auroras boreais a latitude mais baixa, pode ainda ser justificado por uma abertura na cintura de Van Allen, resultante da penetração de um grande objecto, como teria sido o asteróide que colidiu com a Terra em 1908.

domingo, 12 de junho de 2016

Tragédia da Passagem de Dyatlov

Em 1959, um grupo de dez montanhistas russos, experientes, dirige-se para uma montanha dos Montes Urais denominada Kholat Syakhl ou "Monte da Morte", um deles acaba por ser forçado a regressar cedo, devido a problemas de saúde... seria o único sobrevivente.
Os restantes 9 irão morrer em circunstâncias que permanecem misteriosas até hoje, num caso que é conhecido como Dyatlov Pass Incident.
Fotografia do grupo de Igor Dyatlov, que iria explorar os Montes Urais.
Nada tenho a acrescentar ao que se sabe, mas o incidente é deveras estranho, e terá sido mais conhecido por um filme "Devil's Pass", que é baseado nessa história, e que foi realizado por Renny Harlin (que também realizou o filme "Long Kiss Goodnight", mencionado num comentário ao postal anterior, e daí a ligação que segui).

A descrição do episódio que envolveu este grupo de montanhistas é suficiente, para evitar acrescentos artificiais de terror. Não tendo havido sobreviventes, o que se sabe resulta das conclusões do grupo de salvamento que partiu à sua procura. Tivesse ocorrido no período de Estaline, e o desaparecimento de 9 pessoas na URSS não era suposto ser considerado "estranho", pelo menos de acordo com a mitologia desenvolvida no Ocidente... extrapolada muitas décadas depois das denúncias internas feitas pelo próprio Nikita Kruschev.
Restos da tenda do acampamento do grupo de Dyatlov.
O que o grupo de salvamento encontrou foi uma tenda abandonada, rasgada do interior, para permitir uma fuga rápida dos montanhistas, tendo saído descalços ou em peúgas, para temperaturas negativas de -30ºC. Os primeiros corpos a terem sido encontrados, separados, a centenas de metros da tenda, tinham apenas sinais de morte por hipotermia, havendo sinais de terem tentado fazer fogo. Passados dois meses de buscas foram encontrados os restantes três, que apresentavam sinais de morte mais traumática - lesões internas (costelas partidas) sem qualquer sinal de lesões exteriores no corpo, acrescendo-se o estranho caso de Lyudmilla Dubinina, que foi encontrada sem olhos nem língua.

O caso foi arquivado secretamente, e só tornou a público depois da queda do muro de Berlim, nos anos 90. Diversas teorias foram avançadas desde aí, mas mesmo as mais exóticas, que incluíam um ataque de yeti, um ataque de tribos locais, um incidente com ovnis, etc... todas elas acabam por deixar pontas soltas, sem grande explicação. 
Um investigador russo, Lev Ivanov, escrevera no relatório terem sido vítimas de "uma desconhecida força elementar que tinham sido incapazes de ultrapassar", e afirmaria depois pensar que se tinham tratado de ovnis, dado o relato de outro grupo de montanhistas, afastado, que reportara ter visto "bolas de fogo no céu".
Uma teoria mais aceite é que poderiam ter sido vítimas de uma experiência militar soviética, envolvendo um novo tipo de arma (ultrassons, radiação), que desconheceria a presença do grupo no local. Mas ainda que isso pudesse explicar uma parte do sucedido - o pânico, dificilmente explicaria o caso do corpo que foi encontrado mutilado.

sábado, 4 de junho de 2016

Mééé (3) Altura: 9' 11''

Uma das primeiras coisas notadas aquando dos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001, é que a designação "9-11" (Setembro, 11) correspondia ao número de emergência usado nos EUA. Isso foi procurado ser entendido com uma mensagem subliminar enviada pelos terroristas, de certa forma acrescida com os atentados de Madrid em "3-11" (Março, 11 de 2004), e se o impacto dos atentados na Índia em Mumbai (Julho, 11 de 2006) fosse o mesmo que em Londres (Julho 7, 2005), dir-se-ia que os dias 11 ficavam perigosos... (especialmente na cadeia das lojas 7/11).
Porém, esse suposto padrão não foi propriamente repetido - a menos que consideremos o tsunami de 11 de Março de 2011, no Japão... já que segundo alguns, teria sido um terramoto produzido por tecnologia humana (~ Haarp).

Como é bem sabido não faltam possibilidades de associação e argumentos de teorias de conspiração, porque uma boa parte da população americana simplesmente não quis engolir a pílula sem adicionar um bocadinho de água... pois toda a história era mesmo difícil de engolir, excepto para os crédulos europeus, que praticamente estiveram longe de esboçar as mesmas suspeitas. No caso dos presidentes Bush (pai e filho), acrescia a circunstância de pertencerem à sociedade secreta de Yale, denominada Skull and Bones 322, fundada em 1832. Como se isso não bastasse, curiosamente as presidenciais de 2004 foram disputadas entre dois membros desta associação, já que John Kerry, depois Secretário de Estado de Obama, também era um Skull and Bones, e foi o candidato democrata.
O símbolo dos Skull & Bones,
lembrando os tempos de pirataria.
Talvez mais interessante é que houve quem tivesse encontrado umas "coincidências estranhas", nomeadamente que o 9-11 já apareceria "avisado" nalguns filmes de Hollywood. 
Escolho aqui os três mais significativos, do vídeo 9/11 Predicted in Movie's & Television:

(i) Exterminador Implacável 2 (1991)
O filme é de 1991, o que até ajuda à ligação com o 9/11, sendo 10 anos anterior. Neste caso, no filme, numa cena de perseguição, que termina em explosão, vê-se a mensagem segundos antes:
Exterminador Implacável 2 (1991)
Caution 9'11''
Ora este "Cuidado" referia-se à altura de 9 pés e 11 polegadas (ou seja, 9.91 pés), que são 3 metros e 22 milimetros - uma altura perfeitamente standard para a passagem.
Mas, não deixa de ser notável a correspondência 9' 11'' = 3 m 22 mm, dado o número 322 ser usado pelos Skull and Bones... suspeitos de "orquestrar o golpe interno". 

(ii) Matrix (1999)
No caso do filme Matrix de 1999 (também um ano com noves e uns) a coincidência ainda parece ser maior, já que o herói "Neo" apesar de nascer em 13/9/1971, tem o passaporte a expirar exactamente em 11 de Setembro de 2001.

Matrix (1999) - o passaporte de Neo (Thomas Anderson)
termina no dia 11 SEP / SEP 01
(iii) Simpsons (1997)
Nos Simpsons de 1997, a pequena Lisa Simpson exibe uma revista de Nova Iorque com o preço 9$ e o 11 é sugerido exactamente pelas Torres Gémeas.
The Simpsons (1997) a revista de Nova Iorque sugere $9 e 11.

Estas são as associações mais "estranhas", que qualquer um pode indicar como coincidências, mas mesmo enquanto meras coincidências não nos deixariam de surpreender. Há outros exemplos, mas parecem-me menos conseguidos. 

Lembrei-me disto, porque estando a pensar na Nebulosidade auditiva (38) com Laurie Andersen, reparei  num vídeo antigo que também ela tinha colocado em letras gigantes no palco o nº 911... e não seria referente à marca do Porsche.
Imagem no video "Language is a Virus" de Laurie Anderson
Ora, parece-me claro que o uso de 911 num vídeo de 1985 de Laurie Anderson refere-se claramente ao número de emergência americano, e apenas isso. 
Mesmo o uso de Caution 9'11'' no Exterminador 2 deve ser entendido como uma piada referente à altura da passagem. Já o caso do passaporte de Thomas Anderson terminar exactamente na data do atentado, dois anos depois, e atendendo à temática do filme, é uma grande coincidência mesmo!

Laurie Andersen "Language is a virus"

________________
Nota (10/06/2016):

Acrescento aqui um filme "A Profissional" (Long Kiss Goodnight, 1996), conforme sugerido pelo comentador "Bate n-avó"
Extracto do filme Long Kiss Goodnight (1996) [trailer]

O filme aborda o atentado ao World Trade Center em 1993, na perspectiva da "teoria da conspiração", ainda pouco em voga à época. 
Sendo um de filme de 1996, anterior ao atentado de 2001, não deixa de invocar o número de vítimas (4 mil) semelhante ao que ocorreria no atentado de 11 de Setembro (3 mil mortes).

Excerto do diálogo relevante:
- 1993... Atentado ao World Trade Center, lembram?
   Durante o julgamento, um do terroristas disse que a CIA sabia de tudo.
   O diplomata que emitiu o visto do terrorista era da CIA.
   Não é de estranhar que tenham mesmo ajudado no bombardeamento, puramente para justificar um aumento de fundos.
- Você está me dizendo que vai fingir um ato terrorista só para tirar dinheiro do Congresso.
- Infelizmente, Sr. Henessey, eu não sei fingir a morte de 4000 pessoas.
   Então, nós teremos que fazer isso de verdade.
   Ah, e pôr a culpa nos muçulmanos, naturalmente.
   E depois recebo os meus fundos.
______________