quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Nebulosidades auditivas (30)

Irei retomar o Tratado dos Descobrimentos, de António Galvão... do qual disse Manuel Faria e Sousa:
Sua fama durará enquanto houver mundo, pois nela não têm jurisdição reis fracos, ministros maus, fortuna cega, idades caducas...

Galvanize - The Chemical Brothers (2005)
galvanize (v.) 
1801, "stimulate by galvanic electricity," from French galvaniser, from galvanisme (electricity produced by chemical action," 1797, from French galvanisme or Italian galvanismo, from Luigi Galvani (1737-1798), professor of anatomy at Bologna, who discovered it c. 1792 while running currents through the legs of dead frogs). 
Figurative sense of "excite, stimulate (as if by electricity)" first recorded 1853 (galvanic was in figurative use in 1807). Meaning "to coat with metal by means of galvanic electricity" (especially to plate iron with tin, but now typically to plate it with zinc) is from 1839.

«Dos néscios leais, se enchem os Hospitais», disse João de Barros, a propósito da máquina política lisboeta que condenava os heróis da Ásia, ao descrédito ou à miséria, no seu regresso à capital cortesã. A passagem é mesmo colocada sobre este herói das ilhas Malucas, que foi tratado de forma maluca, tendo a sua obra sido apenas posteriormente reconhecida como crucial pelos ingleses.

A passagem proibida na Antiguidade, da qual o Cabo Bojador foi símbolo, era o limite do Trópico de Cancer, que está hoje 3 graus mais a sul desse cabo. Nem o Reino do Egipto se desenvolveu mais para Sul, ficando os seus limites acima do Trópico de Cancer. Havia grande preocupação com os "climas do Mundo", e as zonas tórridas chegaram a ser consideradas "não habitáveis". Claro que esta "preocupação" era apenas ocidental, enquanto na Ásia, da Índia ao Sião, uma boa parte da terra mais habitada, estava justamente abaixo dessa latitude. 

Porém, devemos considerar que, para populações da Idade do Gelo, que assistiram à subida do nível dos mares, submergindo muitas ilhas e linhas costeiras, o clima ideal não era "quente". As populações no enquadramento europeu que quiseram viver no mesmo tipo de clima não poderiam ficar no mesmo lugar... teriam que acompanhar a subida dos gelos, para Norte.

Um argumento que Galvão expõe, para contrariar os que pretendiam que nunca se tivesse perdido o contacto entre as populações no globo terrestre, é que se assim fosse, se houvesse conhecimento de todo o globo, a malícia humana teria confrontado os homens com o seu fim.

Um dos perigos trazidos com os descobrimentos, abaixo do Trópico de Cancer, era já sancionado pelos cartagineses. Para evitar a constituição de reinos formados por desertores das embarcações, o Senado de Cartago instituíra a pena de morte, para os que tentassem "não regressar".

Ou seja, o medo da cabeça do reino era a possibilidade dos governadores ganharem protagonismo, e tal protagonismo seria visto como semente de um cancro, de uma nova cabeça, contra a organização regente. Assim, os heróis da Ásia foram vistos como perigosos cancros para a cabeça cortesã, especialmente nos casos em que os chefes locais os consideravam, ou os queriam tomar, como efectivos reis de seus povos - e esse foi o caso de Albuquerque ou de Galvão. 
Pouco importou que Galvão não tivessem aceite, que tivesse cumprido as ordens da corte, regressando vassalo e pobre perante o seu rei (tendo aliás gasto a sua fortuna familiar em proveito do reino). Apenas ficou com a sopa dos pobres do Hospital de Lisboa.

Aos jovens que nascem numa sociedade são-lhes mostradas estrelas, pontos individuais brilhantes, que servem a muitos como guias para um caminho de sucesso. Vêem-nas como independentes, com luz própria, e julgam que o seu caminho também poderá traçado nessa independência, reconhecida naturalmente pelos outros. Desconhecem que se tratam apenas lâmpadas, holofotes, luzes alimentadas por uma fonte de energia oculta, luzes que se extinguem ao simples premir de um botão. Assim, quando se procuram mostrar, evidenciar o seu talento, esperam reconhecimento, mas são simplesmente remetidos ao funcionamento mecânico da sociedade (... no caso do vídeo, entregues ao cuidado da polícia).

Agora, é claro que um corpo social estabelecido despreza a individualidade. Só tem interesse em enaltecê-la, porque ao longo dos tempos os corpos sociais que mais reprimiram a individualidade foram também aqueles que rapidamente definharam, por falta de criatividade. Assim, o corpo social vê-se forçado a ter que conviver com os excessos da individualidade, e a reprimi-la para que o corpo social se mantenha coeso acima de qualquer individualidade. Os casos de revoluções podem ser vistos como infecções temporárias, das quais o corpo irá recuperar... ou mesmo perecendo, pela substituição de ideias ou estrutura, será caso temporário. Afinal as células da sociedade anterior estão programadas para funcionar na lógica de um corpo social, e aceitarão outra cabeça, desde que haja lugar no corpo. 

No entanto, convém notar que a evolução não privilegiou os seres multicelulares... e ainda hoje temos como recordista de comprimento de ADN uma simples ameba, um ser microscópico unicelular. Aliás, a quantidade de seres unicelulares excede brutalmente aqueles que abdicaram da sua individualidade e optaram por formar corpos multicelulares. No desenvolvimento desse organismo multicelular uma sua célula desconhece por completo a consciência do corpo, que se desenvolveu numa diferente dimensão.
E o erro será pensar que essa consciência é resultado da estrutura... a contrario, devemos pensar que a estrutura apenas serviu para albergar de maneira satisfatória uma consciência externa. Ora, não há nenhuma razão particular para essa estrutura biológica ser um organismo derivado do macaco... se esquecermos o tamanho do cérebro que cresceu nos seus derivados humanos. Ou seja, podemos vir a ser confrontados com manifestações de consciência externa noutros animais... e isso tanto mais quanto mais os humanos reduzirem as manifestações individuais, fechando ao caos os limites da sua expressão, ou quanto mais os humanos não quiserem abrir os olhos e ouvidos ao que a Natureza tem para dizer. A evolução dos corpos sociais, no sentido do seu mero aumento, não leva a nenhuma abertura de possibilidades, apenas segue o caminho dos dinossauros - grandes bestas dirigidas no seu único propósito digestivo.


Corvos... (outros exemplo, exemploexemplo)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Afinal o mar estava flat

Após ver tanta notícia acerca das "ondas gigantes" do canhão da Nazaré, decidi ir este domingo ver o que se passava... não havia muito que enganar : 
No domingo, uma grande fila a dirigir-se ao Sítio da Nazaré, ou à Praia do Norte, e para quê?

Canhão da Nazaré - Praia do Norte - 27 de Dezembro de 2015... Afinal o mar estava flat!
Agora reparei que a notícia da Surf Portugal já não falava em "ondas gigantes", falava em "ondas grandes". Ora, quem já foi várias vezes à Nazaré, espera ver ondas grandes na zona do Forte, ou na Praia Norte. Nunca tinha visto, nem ouvido falar por lá de "ondas gigantes", antes do Garrett McNamara aparecer. 

No entanto, desta vez as ondas nem sequer eram grandes, pode-se dizer que "o mar estava flat"... e ainda não foi desta que vi «a coisa». De quinta para domingo parece que o mar se cansou de puxar pelas ondas, e dir-se-ia que ficou um dos dias mais calmos em termos de ondulação. 
Canhão da Nazaré - Praia do Norte - 27 de Dezembro de 2015... ondas de menos de 3 metros.
Portanto, para apanhar as ondas gigantes pode ser tanto questão de sorte, como questão de fé... algo muito apropriado à conjugação do nome Nazaré com a natividade de Jesus.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Every thing in its left place



Quem vê a repetição, nunca está na repetição.
Resposta a pergunta doutrem, com custos que serviriam para filmes doutras dimensões.
Não se sente a perda do que é subtraído pela amnésia de uma pancada, mas presumo que o que nos é inerente segue o seu caminho de reencontro, nem que demore uma década. A mesma inquietação, a mesma solução. Mais outra década para perceber que a resposta já tinha sido dada, porque afinal a amnésia não afecta rascunhos escritos. Porque as coisas importantes têm datas, e o resto são co-incidências que seguem o caminho de se colocarem no sítio certo da atenção.

Everything in its right place - Radiohead (Vanilla Sky Soundtrack)

As coisas não estão no sítio certo, estão no sítio que lhes sobra, para poderem ser.
No momento em que entendessemos que tudo estava no sítio certo, não sobraria espaço para a nossa relevância, ou seja, a nossa presença seria irrelevante. Podemos considerar que tudo está no sítio certo, mas não podemos entendê-lo por completo.

O filme Vanilla Sky teve estreia a 14 de Dezembro de 2001, praticamente quatro anos depois do original espanhol, denominado Abre los Ojos, de Alejandro Amenábar (19/12/1997). Um é praticamente a cópia do outro, tirando detalhes próprios da produção americana.
O título foi justificado pela cor baunilha dos céus de Claude Monet, em particular do quadro
 The Seine at Argenteuil (Claude Monet, 1873) - quadro presente no filme, ilustrando um "Vanilla Sky"

Mas, tirando esses e outro detalhes, podemos ver como as cenas são praticamente as mesmas, inclusivé a cena final, no topo do arranha-céus. Também é claro que a interrogação sobre a realidade enquanto imagem de um "sonho lúcido" não era em nenhum dos filmes propriamente uma novidade, e pode até encontrar-se nos primeiros filmes, do tempo do preto-e-branco, mesmo talvez ao tempo do cinema mudo. 
Abre los ojos - cena final, onde também contracena Penélope Cruz

Agora, como este é um blog pessoal, e do que me lembro desse dia, por volta das 4h30 da manhã, uns doze anos antes, a lua estava cheia, já bem alta, iluminando os campos de trigo andaluzes, com cores mais ao jeito dos quadros de Van Gogh:
Paisagem com lua nascente em campos de trigo - Vincent van Gogh
Talvez a paisagem fosse melhor ilustrada pelo último quadro desse pintor, se entendermos que depois da chuva, o céu estava claro com uma lua branca, e em vez dos corvos, vimos a silhueta de algum carvalho ou sobreiro no meio do campo.

Campo de trigo com corvos - Vincent van Gogh.
E no argumento faltam muitas coisas, porque bebendo da ficção, não se ousa tanto quanto a realidade, na forma como ela se pode manifestar e surpreender. Porém, a confusão entre sonho e realidade raramente se coloca no sonho, é muito mais assunto que envolve a recordação do sonho, quando podemos comparar as duas versões - uma dada pela memória, e a outra dada pelo sentimento actual.
O sonho termina quando deixa de ter coerência, ou simplesmente porque não temos lugar na sua coerência. Aí, somos conduzidos a outro universo, onde a coerência é retomada, e é sempre a esse universo, onde reencontramos o nosso lugar, que passamos a chamar realidade. Mas, uma coisa não parece oferecer dúvidas, mesmo quando é segredada em sonho - acima de qualquer dilúvio é onde está a nossa casa.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Snowmageddon (2)

Em Fevereiro coloquei aqui um postal chamado Snowmageddon, que falava sobre o recorde de temperatura negativa (-22ºC) atingida em Chicago em 2015 (houve outros Snowmageddons recentes, por exemplo o de Atalanta de 2014).

Perante sucessivas evidências de que não há nenhum perigoso "aquecimento global", assistimos à difusão do Concerto de Paris, chamado COP 21 (um acrónimo tão bom quanto seria BOFIA 21)... porque o que interessa não são factos reais.
Ao concerto das vontades interessa o conserto das verdades, com factos políticos, propalados pelos media, usando uma chancela de comunidades científicas paupérrimas, de dinheiro e espírito.

Quando a pretensão do imperador Snow (ver filme Hunger Games) é um planeta bem fresquinho, pois todos os actores do teatro político mundial, cantam males ao CO2 e declaram guerra ao aquecimento global.

Foi sempre assim?
O que se passaria nos anos 1970, em plena "Guerra Fria"?
- Em plena guerra fria, temia-se pelo frio, pelo "inverno nuclear" (pois... e também devido ao "efeito de estufa"), e em termos de meteorologia não era diferente:

Arrefecimento Global

The Cooling World - Newsweek em 28 de Abril de 1975: ver texto integral

Nesta página da revista Newsweek, de Abril de 1975 (em vésperas do "Verão Quente" em Portugal), o que preocupava a imprensa, apoiada nos estudos científicos da época, era a clara evidência de um acentuado "arrefecimento mundial" - The Cooling World.

Os dados deveriam ser os mesmos, e portanto o gráfico de temperaturas que vemos ali a descer acentuadamente de 1945 até 1975, com perda média de 0.5ºF, deveria ser exactamente o mesmo - porque - espantem-se as gentes - os dados anteriores a 1975 já existiam em 1975. Mas, parece que não, parece que não... e são-nos mostrados novos gráficos que no presente negam estas afirmações do passado. A ponto de haver agora alterações nos gráficos, seleccionando apenas valores que apontem para um crescimento da temperatura... ou seja, não é apenas má fé, é falsificação, é burla consciente.

Este excerto da Newsweek fui encontrá-lo por indicação da revista Time que se queixava de uma manipulação de imagem que inventara uma capa inexistente. E como se chamava o artigo da Time em Junho de 1975?
Pois, pois... de facto, a revista Time foi exageradamente caricaturada em ter dado eco às frias previsões de 1975, quando o que agora interessa são as várias capas de 2002, 2005, 2006, 2008, 2009, que enfatizam os perigos do aquecimento global, para as décadas seguintes... mesmo que nada se confirme na década seguinte!

Foi assim que hoje ouvi um comentadeiro televisivo falar de que esta conferência COP 21 em Paris tinha servido para refutar todos aqueles que ainda negavam o "consenso científico"... enquanto outro notava que "em Novembro não tinha chovido", talvez esquecendo a intensa chuva do mês de Outubro. E quando vemos alarvidades desta dimensão, só podemos entender que o teatro vive mais o improviso dos palhaços do que da qualidade substantiva do argumento do presidente Snow.

O que quer dizer afinal "aquecimento global"?
Qual é o problema "ambiental"?

Não escrevo uma história, para perder tempo, ou fazer perder quem a quisesse ler. Mas, se optasse por tal argumento, o personagem seria confrontado com um entendimento enviesado das notícias.
- Quando lia sobre "o cuidado com o ambiente" entendia que "havia mau ambiente nas relações entre os actores políticos", havendo "alterações de clima" nas expectativas dos agentes;
- Quando lia sobre "o aquecimento global" entendia que "o ambiente estava a aquecer, podendo escaldar para os detentores de cargos públicos";
Enfim, é muito fácil dar outro significado a notícias vulgares. Por exemplo, uma "greve dos controladores (TAP)", poderia ser protesto do pessoal que controlava a populaça, ou a "greve dos revisores (CP)", o protesto dos revisores dos textos autorizados pela censura, etc...

Num tempo que se caracteriza por um mar de informação, um dos grandes medos dirigentes é a possibilidade de "inundação" descontrolada com notícias que provocam alterações no clima, um mau ambiente, poluído com factos incómodos, que levam a temperaturas escaldantes nos gabinetes diplomáticos. Quando isso acontece, sente-se a necessidade de um "conserto" para arrefecer as coisas, para manter o ambiente morno e pouco ameaçador.
No entanto, não se pense que esta narrativa tem nexo com alguma inteligência dirigente mundial, o nexo é aproveitado aqui e ali, mas a sua criação é de verdadeira supervisão... e por isso a leitura alternativa, quando apropriada e entendida, espantará tanto uns, quanto outros.

Agora, para além destas divagações, uma coisa parecerá clara... ou esta paranóia de "alterações climáticas", vulgo "aquecimento global", entra no esquecimento, como entrou o "arrefecimento global" de 1970-75, ou será a própria ciência a pagar o descrédito de ter uma elite que alinhou nisto de olhos fechados e mão estendida. Ora, uma consequência lateral muito perigosa seria ver a ciência descredibilizada ao nível das evidências visíveis - porque cairia num ridículo de que dificilmente recuperaria.

domingo, 22 de novembro de 2015

Gaios e Gaiatos

Estreou ontem(*) o último filme da saga "Jogos da Fome", e o notável cartaz publicitário não deixou de fazer lembrar uma pose de Diana, como a estátua feita por Saint-Gaudens, que esteve no topo do edifício do Madison Square Garden, no início do Séc. XX.


Para além de todo o desconto que se devem dar a filmes que visam plateias de gaiatos, há por vezes algumas informações que são transmitidas, colocando o peso da ficção como ilustração de outra realidade.

O nome "Jogos da Fome", tradução literal de "Hunger Games", recupera uma tradição de filmes futuristas que viam uma evolução para sociedade distópica... normalmente após um certo evento global devastador.

O que é curioso é que este modelo acaba depois por levar para uma concepção de sociedade medieval, um tempo de príncipes e princesas, reis ou imperadores, que nunca deixou de preencher o imaginário de histórias infantis.
Tanto é assim que, como armas de eleição, vai-se recuperar a mística de armas antigas como a espada ou o sabre (que passou a ser um sabre de luz, de laser, na saga Star Wars), o arco e a flecha (convencionais neste filme), ou uma simples pistola... que apenas passa a disparar um laser, como em Star Trek. Também as naves espaciais requerem a destreza do piloto, tal como requeria um avião caça.
A razão é essencialmente evidenciar alguma destreza dos heróis no manuseamento de armas, porque não serve ao enredo de um herói ter um grande poder centrado num simples premir de um botão, ou pelo simples exercício de pensamento, como vimos no filme Lucy.

Interessa-me dar aqui relevo a uma pequena conversa entre a líder rebelde (Alma Coin, protagonizada pela actriz Julianne Moore) e o seu conselheiro (Plutarch Heavensbee, tomando o nome de Plutarco pelo falecido actor Phillipe Seymour Hoffman). Essa conversa é informativa e surpreende ser colocada num filme deste tipo:
- Quando a protagonista escapa da influência de ambos, fica combinado que tudo o que ela fizer será transmitido como fazendo parte de um plano do comando.

Ao poder interessa sempre manter nos súbditos a ideia de que tudo controlam, quando tudo lhes começa a escapar, assim como em sinal oposto, interessa passar a ideia de que nada controlam, quando efectivamente estão a controlar a situação. É neste jogo de ilusões que reside grande parte do seu poder...
Isto é uma actuação bem antiga, existente mesmo nos animais, que iludem a sua presença furtiva apanhando as presas desprevenidas, ou aparecendo como figuras ameaçadoras, quando na realidade estão frágeis. Normalmente não vemos é ambas as capacidades colocadas no mesmo animal.

A fome revolucionária
Estes filmes são interessantes como manipulação dos afectos dos espectadores. A pessoa é conduzida a colocar-se do lado da revolta contra o poder despótico da classe dominante, indignando-se com as suas aberrações e atrocidades. Coloca-se do lado da jovem e dos rebeldes, aceitando a contagem de vítimas que produz, como um mal necessário com vista a um bem maior.
Chegada ao conforto do lar, a mesma pessoa é conduzida a indignar-se contra quaisquer rebeldes que ataquem um poder que vêem como despotismo universal, chamando-lhes o nome que a chancela lhes quer dar.

Na França ocupada pela Alemanha nazi não havia actos de terrorismo, nem terroristas. Havia apenas resistentes, sabotagens, destruição de objectivos, vítimas colaterais, etc... Líderes como Samora Machel, passaram de turras, de terroristas, a respeitáveis presidentes, a símbolos de independência nacional dos respectivos países. Os franceses viam Kaddafi como um execrável terrorista, até que o pragmatismo da real politik os levou a múltiplos negócios lucrativos com o visionário líder árabe. Mas quando os ventos da Prima Vera árabe sopraram, voltaram a demonizar o personagem, o velho terrorista... e abateram-no de tão forma cruel que faria muitas falsas carpideiras rasgar as vestes de indignação, tivesse sido o executor o executado. Kaddafi deveria ter percebido a mudança de sabores quando passou a ser unânime escrever o seu nome como Gaddafi, banindo de vez o Kaddafi ou Qaddafi como versões alternativas. Se a ONU nomeara a sua filha, Ayesha Kaddafi, como "embaixadora da boa vontade" em 2009, depressa lhe retirou todas as honrarias em 2011, quando foi decretada a caça a toda a prole do ditador líbio.
Ah! Como é fácil manipular, e mudar rapidamente solidariedades e vontades... da "maralha" pela "maralha".

Os jogos da fome estão sinalizados em diversos distritos deste planeta. Abundância e desperdício de um lado, fome recorrente e sistemática noutro. Se não é pela guerra, a escassez vem pela ditadura económico-financeira, e o distrito africano só preocupa verdadeiramente as consciências internacionais quando se pode tornar num foco de transmissão de doenças contagiosas.

As migrações são travadas por muros, quando se ouve em documentários migrantes africanos suplicar: "apenas pedimos que nos adoptem e cuidem como adoptam e cuidam de um cão ou de um gato"... e fica isto à atenção do deputado do PAN, recentemente eleito.

E o espectador sabe de tudo isso, sabe de todas as contradições da real politik, mas aceitando o conforto passivo da sua posição, não deixa de torcer pela jovenzinha no filme, que defrontou com o seu arco e flecha o poder de uma sociedade despótica. Ao mesmo tempo condenará de seguida quaisquer atentados contra o poder que o sustenta, e aceitará restrições de liberdade para aumentar a sua segurança. Afinal há um sentimento que se desenvolve - o medo.

Antes que o leitor pense que tenho qualquer simpatia por acções rebeldes, sejam elas a do Distrito 13 contra o presidente Snow, ou quaisquer outras que visaram atacar uma distopia social, informo que isso é irrelevante. Nenhuma acção de força derrota uma ideia, mesmo que se aniquilem todos os adeptos com "bombardeamentos cirúrgicos", ou com "atentados simbólicos".
Só ideias derrotam ideias.

Uma ideia atacada pela força apenas se torna mais reseliente e, se enfraquecida no corpo, ficará adormecida, até reaparecer de novo na mente de outros, com maior intensidade e mais audaz no desafio. Os corpos que transportam as ideias são completamente irrelevantes para as ideias que se apoderaram das cabeças que os comandam.
É inútil ir ao dicionário procurar adjectivos sonantes para repudiar actos atrozes, querendo passar a mensagem de que nada justificaria certas acções, quando certas acções têm uma lógica e razão perfeitamente clara. Isso só serve para distinguir terroristas que têm protagonismo, de terroristas que o pretendem alcançar. Ambos tentam usar o medo, terror, como forma de condicionar as populações aos seus actos.
Quando uma pessoa está disposta a morrer por uma ideia, só há uma força capaz de o impedir - uma ideia que neutralize esse intuito. Não será o medo, porque esse foi perdido na disposição. Ao contrário, a ausência de medo é a principal força que têm contra uma população assustada.

Epílogo
Gaia, a mãe terra, tem duas formas muito simples de juntar os seres - uma é cruel, outra é o oposto, mas servem ambas o mesmo objectivo para educar gaios versus gaiatos:
- amor;
- temor.
Se a sociedade não evolui na forma de amor fraternal, então obrigatoriamente cairá numa evolução de temor crónico. Não vale a pena pensar em erguer muros, com vista ao isolamento. O temor não desaparecerá. Porque, não havendo entendimento e partilha, haverá desconfiança e medo. Por muito grande que seja a assimetria, é perfeitamente claro que os humanos não ficam descansados sabendo de uma evolução separada de outros. Se existisse uma população em Marte, mesmo que estivesse num grau de desenvolvimento inferior, haveria medo na Terra face à evolução para competição posterior. Portanto, o erguer de muros, é sempre um erguer de medos... porque o medo é o que serve para unir o que se quis separar recusando uma partilha fraterna. Em sentido contrário, as épocas em que o medo foi desaparecendo foram aquelas em que o contacto foi maior e houve uma partilha para um grande entendimento global.
Tudo isto é muito simplesmente lógica, fácil de entender, mas muito difícil de aceitar.
No entanto, há outra coisa com que temos que aprender a conviver... - com a burrice crónica!

______________
(*) Quando mencionei "ontem" referia o dia 20 de Novembro, conforme o cartaz, mas o texto só foi completado mais de um dia depois de ter sido iniciado.

Já agora, é interessante a escolha de 20 de Novembro, porque é o início do signo Sagitário, que é representado por um centauro com arco e flecha! Dificilmente será uma mera coincidência... embora haja sempre quem prefira considerá-lo.

Nebulosidades auditivas (28)

A propósito do comentário de hoje que o José Manuel colocou no Alvor-Silves, falando no filme Cloud Atlas, cujo título se baseava no nome de uma obra musical, fica aqui o tema Atlas dos Coldplay.

Este tema fazia parte da banda sonora do filme "Jogos da Fome" - Catching Fire.

Normalmente, sendo raros, evito colocar dois postais no mesmo dia... mas como estava a escrever um apontamento sobre o último filme da série, estreado há dois dia - a Segunda Parte do "Mimo-gaio" (Mocking-Jay), pareceu-me indicado juntar ambos os temas, não num mesmo postal - porque o assunto é diferente, mas sim aparecendo no mesmo dia - porque a circunstância é a mesma, e a coincidência o sugere.

Sendo Maia e as pombas Peleiades as filhas dedicadas do pai Atlas (um titã rebelde condenado por Zeus a suportar o mundo nas colunas de Hércules), há dois anos que considerei colocar aqui nestas "nebulosidades" esta canção dos Coldplay... o que se justificaria também com outras músicas.
No entanto, a minha interpretação racional do vídeo sobrepôs-se à emocional, e optei por não o fazer... até porque no final de 2013 as circunstâncias ainda eram diferentes, para embarcar numa lírica ambígua oferecida ao ouvinte.

Transportaremos todos os mundos que sucumbiram, vendo e vi-vendo, no único universo que os pôde conter de forma autoconsistente. E caímos aqui, porque para quem chegou ao fim dos tempos, sem disso saber, este era o único tempo que restava para continuar... começando num princípio a meio do tempo anterior. Esse tempo anterior tinha toda a inteligência do universo, mas ninguém para a contemplar. Existir é assim um recordar do que foi sem ser.

domingo, 15 de novembro de 2015

Ba-ta-clan, 150 anos

Na sequência do ataque armado a Paris, reivindicado pela operação do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e Síria), o nome Bataclan ficará associado ao maior drama recente que atingiu Paris.

Teatro do Bataclan, por volta de 1900, quando ainda era visível
a inspiração como pagode chinês na sua construção. 
Esta sala de espectáculos, tal como o Folies Bérgeres, ou o Moulin Rouge, tinham-se tornado ícones parisienses, vindas da Belle Époque do final do Séc. XIX, e que resistindo às transformações da cidade, mantiveram-se em funcionamento até ao Séc. XXI. Estiveram ligadas a um modo de vida burlesco exportado pelo imaginário cultural parisiense que se espalhou pelo mundo. Por exemplo, em Portugal, o nome Bataclã esteve ligado ao cabaré da popular novela brasileira "Gabriela", estreada há 40 anos.

O teatro terá sido inaugurado a 3 de Fevereiro de 1865, e assim terá comemorado 150 anos no início deste ano, numa altura em que Paris estava ainda atormentada pelo ataque ao Charlie Hebdo.

Estes 150 anos fazem do Bataclan uma das salas de espectáculos mais antigas deste género, e o seu nome resulta de uma pequena paródia, uma "chinesice", escrita por Ludovic Halévy em conjunto com Jacques Offenbach, e que esteve na origem do sucesso inicial do compositor germano-francês:

BA-TA-CLAN 
a opereta
composta por Offenbach (com libreto de Halévy)

Esta opereta, grande sucesso de Offenbach, não foi estreada no Bataclan, mas sim numa outra sala de espectáculos histórica:

... inaugurada em 1855, justamente com esta peça Ba-ta-clan, cujo enredo justificaria ainda o aspecto de pavilhão chinês para o teatro que seria inaugurado dez anos depois. 

Este tipo de operetas ligeiras, associava o nome de "opera bouffe" ao estilo italiano de óperas bufas, e o enredo desta opereta Ba-ta-clan é bastante curioso, ligando-se ao período conturbado que antecedera o fim da segunda república, e a inicial restrições de liberdades com o imperador Napoleão III, sobrinho de Napoleão Bonaparte.

O nome soletrado de Bataclan é o de uma canção de rebeldes, localizados num cenário de um império semelhante ao chinês, que são apanhados no meio de uma conspiração contra o imperador Fè-ni-han.
Emprisionados, dois deles descobrem afinal que são ambos parisienses, e têm como principal objectivo regressar a França. Ela, Fé-an-nich-ton, era uma cantora em digressão, raptada pelos soldados do imperador, e ele, Ké-ki-ka-ko, era o visconde Cérisy, um náufrago mantido em cativeiro.

Numa charada típica destas operetas, o imperador Fé-ni-han, acaba por revelar que afinal também ele era francês, que para escapar à morte tinha assumido o papel do verdadeiro imperador, e que por não perceber nada da língua local, tinha por engano condenado homens justos à morte, o que gerara uma rebelião comandada por Ko-ko-ri-ko. Também Fé-ni-han apenas queria regressar a França...
Para não terminar... o próprio comandante da rebelião era francês, e como era o único que não pretendia regressar, a sua subida ao poder permitirá o regresso de todos os outros!


Esta historieta é entendida como uma crítica à França de Napoleão III, que começa por ser eleito para o poder pela 2ª República após a revolução de 1848 - um ano em que as revoluções populares se estendem por toda a Europa (em Portugal é o ano da revolta da Maria da Fonte)... num período que foi curiosamente apelidado Primavera dos Povos - de onde as pretensas primaveras árabes quiseram beber o nome, como cópia de má qualidade.
Vendo terminar o seu mandato em 1852, Napoleão III vê-se forçado a mudar a Constituição no ano anterior... uma técnica sobejamente conhecida - ainda hoje muito tentadora. Dá-se início ao 2ª Império que prolonga a extensão do seu poder enquanto imperador, até ser deposto em 1870, quando as tropas de Bismarck entram em Paris, perante uma França completamente humilhada na Guerra Franco-Prussiana.
Se no início Napoleão III contou com apoio popular que lhe garantiu a eleição, a sua auto-nomeação como imperador levou a um período onde tudo estava reprimido e sujeito à vigilância estatal, tal como era descrito na ficção do Ba-ta-clan de 1855.

Talvez a crítica mais subtil à influência chauvinista residisse no facto de toda a trama se resumir a acções inconsequentes de personagens - todas elas francesas, enredadas num contexto de um poder estranho que iam influenciando caoticamente, por mera condicionante de salvação pessoal.


A palavra Bataclan terá sido popularizada com esta opereta, mas o seu uso é anterior, referindo-se talvez como sinónimo de "tralha" (podendo ser usado como "maralha")... ou de acordo com a definição (pág. 75 de Dictionnaire Languedocien-François, 1785, autoria anónima - Mr. L.D.S.):

  • Bataclan, ou frusqin; ce qu'une persoune a d'argent et des nippes.
remetendo-se assim a origem da estranha palavra para a região Occitana de França.

Por outro lado, o nome escolhido para o imperador Fè-ni-han faz lembrar fainéant (não fazer nada), e o som "kokoriko" pode ser uma simples onomatopeia de galináceo.

Este apontamento sobre o Bataclan remete para alguma coincidência trágica nas circunstâncias que levaram à escolha daquele local para um ataque terrorista, trazendo o período da Primavera dos Povos das Revoluções de 1848 para um período que se manifestou 150 anos depois, começando com a revolução tunisina em 2010.
Tem sido salientado o carácter algo aleatório na escolha dos locais, e não se vislumbrará nada de muito concreto em contrário, sendo até mais natural ter prevalecido uma escolha mórbida no pragmatismo da sua execução e resultado.

No entanto convém não esquecer uma questão lateral, que só intriga pelo facto de ser mesmo demasiado lateral... se o problema do Estado Islâmico está ali implantado, parece nunca ter incomodado um estado que dá pelo simples nome de "Israel"...

Israel não é o alvo da ira descontrolada deste Estado Islâmico, porque parece haver finalmente radicais fanáticos que não se preocupam em combater os opressores dos palestinianos. Israel também não se preocupa em bombardear posições do Daesh, quando antes sempre se dispôs a atacar o Iraque de Saddam Hussein, ou até o Irão.

De tanto silêncio, parece claro que o Estado Islâmico incomoda os Estados Unidos, a Rússia, a França, e toda a Europa, mas isso não faz descolar um avião israelita, nem para salvar os legados históricos de Palmira... já para não falar em salvar as populações de refugiados, que seguem um caminho bem determinado... que não incomoda Israel.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Grândola vs NATO

Como decorreu o exercício da NATO na praia de Pinheiro da Cruz em Grândola?

"Enquanto caças russos bombardeiam terroristas, 
NATO atola-se num areal de praia."

Porém, o jornalismo português foi mais ainda sarcástico no relato, comparando-o a um desafio de bola, em que a areia de Grândola derrotaria os visitantes, a NATO, por 3 a 1.

Eis o excerto da notícia:
A NATO estava em festa e para comemorar chamou jornalistas. A ocasião merecia: quatro mil militares, exercícios conjuntos entre fuzileiros e marines, poderio militar nunca visto em Portugal e convidados de honra para ajudar.
O tenente-coronel Eric Hamstra, dos United States Marine Corps, tinha avisado: “Isto é algo que preparámos nos últimos dois anos. E isto é uma oportunidade para os fuzileiros e os marines aprenderem uns com os outros. Vão partilhar táticas, técnicas e procedimentos.
Só não houve aviso prévio quanto à falta de colaboração do areal de Grândola. Vamos por partes. Tudo começava com a chegada dos dois hovercraft que tinham saído do USS Arlington e vinham a alta velocidade em direção à praia. Mas a travagem na rebentação foi tão forte que impediu a chegada e, vergonha das vergonhas, foi preciso voltar a ganhar balanço para chegar enfim à praia. Grândola 1, NATO 0. O balanço reforçado equilibrou as contas e os anfíbios lá chegaram ao areal.
Para acabar com as brincadeiras, deram-se ordens de desembarque aos Humvees, jipes robustos que devem estar habituados a areias mais espessas. Porque assim que puseram as rodas em Grândola pararam para não mais de lá sair. Primeiro um de dentro de um hovercraft, depois outro de dentro do outro, ambos revelaram-se incapazes de avançar nas areias da praia. Grândola 3, NATO 1.
Por outro lado, a agência noticiosa russa RT, deixa mais ou menos claro como a Rússia encara estes exercícios da NATO, os maiores depois da Guerra do Golfo e Afeganistão. Como sentimento natural de quem centra todo o desenrolar exterior na sua pessoa, a Rússia pretende ver aqui uma provocação destinada a si mesma:

Portanto, as praias portuguesas não serviam para simular nenhum desembarque na Síria para combater o ISIS, ou Assad. Não, a ideia seria provocar a Rússia com este exercício!
Tanto mais que o exercício teve o cuidado do planeamento de 2 anos, ao ponto de não prever que os Humvees poderiam ficar atascados no areal.
Com o mesmo exercício de auto-projecção de todos os acontecimentos exteriores sem si mesmo, o comité do PCP poderá ter pensado que a coisa foi marcada para depois das eleições, para evitar um governo de esquerda. Coisa ainda mais clara quando Cavaco excluía da governação partidos que não respeitassem a NATO, e a força foi logo escolher o desembarque num concelho emblemático do imaginário do PCP, ou seja, Grândola. 
Sempre em linha com a Rússia, e com esse imaginário, o PCP apressou-se a condenar este exercício:
Com a encenação da vitória do areal, algo tão ridículo que correria o risco de passar por incompetência natural, os responsáveis do eixo Moscovo-Grândola podem estar satisfeitos, porque pelo menos a praia portuguesa serviu para uma vitória no espectáculo mediático, servindo-nos de bandeja uma imagem atascada da US Navy.
Agora, é claro, convém não misturar o cerco real com o circo surreal.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Abade Faria - é do mundo dantes

Há coisas assim.
Não temos a capacidade hollywoodesca de efeitos especiais, mas não seja esse pequeno detalhe que nos impede de ter bons argumentos, dados os personagens disponíveis.

Na imagem do post "O dia da marmota"
em delitodeopiniao.blogs.sapo.pt vemos
Sócrates a sair do nº33 da R. Abade Faria.
Em cena, lembrámo-nos do Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

É do mundo dantes que Edmond Dantès esteve preso no Castelo de If, sob o número 34, ou citando a Wikipedia:
  • Number 34: The name given to him by the new governor of Château d'If. Finding it too tedious to learn Dantès real name, he was called by the number of his cell.

Este 34 lembrou-me o preso nº 44, em Évora, liberto para o nº 33 da rua Abade Faria, porque o nome da rua é ainda interessante:
  • Abbé Faria: Italian priest and sage. Imprisoned in the Château d'If. «Abbé Faria existed and died in 1819 after a life with much resemblance to that of the Faria in the novel.»

Quem foi o Abade Faria que inspirou o personagem de Alexandre Dumas, e que foi um grande aliado do Conde de Monte Cristo?
- José Custódio de Faria, nasceu em Goa, em 1756, e depois de um envolvimento na revolução francesa, ficou especialmente conhecido pelos trabalhos pioneiros em Hipnotismo... tem mesmo o nome numa teoria que relaciona ao sonambulismo, denominada "Faríismo".

O grande aliado de Dantès no cativeiro ligava-se assim ao hipnotisador goês, Abade Faria, tal como podemos ir buscar essa origem goesa ao advogado, aliado do preso nº 44 de Évora, residente agora no nº33 da Abade Faria. 
Há ainda um Abade Delille, pedreiro livre, se isso interessa à conta dos 33. Mas aqui vejo apenas coincidência banal com o nome do outro advogado. Delille era abade contemporâneo de Faria, e ambos aparecem mencionados na página 369 de La hermite de la Chaussee d'Antin. É talvez instrutiva uma frase de Delille
 "O destino escolhe os pais, nós escolhemos os amigos";
que já sabemos ser argumento de defesa.
Aliás a fortuna de Dantès resulta justamente da revelação do tesouro da ilha de Monte Cristo, feita pelo Abade Faria, seu amigo no cárcere de If durante os 6 anos de cativeiro, que alguns diriam ser a recompensa do tempo de prisão numa legislatura e meia.

Dantès dispôs assim de uma enorme fortuna, à sua disposição em Paris, graças à generosidade do amigo que lhe passou o segredo do tesouro. A questão de dever ser declarado ao fisco francês nunca se coloca na novela de Dumas.

Em vez do rival Mondego interessado em Mercedes, paixão de Dantès, este caso d'agora correu pelas águas do rio Lena (também um grupo concessionário da Peugeot e outras marcas).
Que faria? - É d'mundo d'antes.
Uma coisa é clara... o hipnotismo tem servido de charlatanice, e se o poder da sugestão é grande, como se pode ver nesta sequência de associações que fiz, a captura da atenção do outro só é possível se ele perder a sua maior capacidade humana - a capacidade de se seduzir pelo caos, pelo imprevisível, que é afinal a única cura contra uma captura pela ordem, por uma qualquer ordem.

domingo, 4 de outubro de 2015

Pelo meu relógio são oras de votar

Este apontamento segue na continuação de
e começava então com a escolha de pílulas do filme Matrix... aplicável à eleição grega do Syriza,
que deu no que deu, sem mais ou menos espanto, do que o espanto do não espantar.

Agora vou começar antes do começo, de forma algo diferente.
"Pelo meu relógio são horas de matar" foi um álbum lançado há praticamente ano e meio (Maio de 2014), por uma das bandas que mais estimo no panorama musical português - os Mão Morta:
"Pelo meu relógio são horas de matar" 
é a história de um individuo de classe média que vive solitário...

Adolfo Luxúria Canibal é o carismático líder da banda minhota. Criou esse nome engraçado, e sempre ficou no ponto ambíguo em que pessoa e personagem se misturam.

O tema revolucionário está "fora de moda", como mostrou a necessidade de Garcia Pereira recuar na frase "Morte aos Traidores", tão emblemática de um "partido revolucionário" como o MRPP, como foi emblemática no dia 1 de Dezembro de 1640 - feriado de Restauração de Independência, tão simbolicamente extinto.
Curiosamente, é também conhecido da má-língua alfacinha, que este aspecto revolucionário de Garcia Pereira colide com a imagem de gestor de luxuoso gabinete de advogados e proprietário de grande iate. Mas isso são eventuais contradições que cada qual gere, sendo certo que, para ser solidário com a fome em África, parecerá tão contraproducente passar fome, quanto encomendar doses duplas.

De certa forma, foi no tema "Morte aos Traidores" que a banda nacional decidiu agitar consciências, indo ao ponto de colocar em vídeo simulações de assassinato de três classes de "traidores", tendo escolhido imagens de um financeiro, de uma política, e de um religioso.

Talvez para se precaver de eventuais processos judiciais, e outras ferocidades que a sociedade rapidamente dispara em resposta, a mensagem foi encapsulada como "obra de arte".
Mais que isso, prevendo uma reacção condenatória veemente, a banda decidiu introduzir o tema com declarações de Marcelo Caetano:

- Quando neste país se faz algo de mais audacioso, já se sabe que se levanta logo a poeirada dos interesses lesados, os despeitos amuados, os comodismos sacudidos, tudo a tender logo para a crítica derrotista, para a maledicência gratuita, e até às vezes para as suspeições torpes! 
- Que se há-de fazer? Desistir? Parar? Cruzar os braços?
- Claro que não!

Seria natural e legítimo que os Mão Morta pensassem que o vídeo teria impacto pelas "redes sociais", e levantasse algum brado, sendo audacioso e dirigido contra interesses e comodismos de uma sociedade anestesiada por fedores putrefactos.
Seria natural que pensassem - "depois do vídeo, as coisas não podiam continuar como se nada fosse".
Mas as coisas podiam continuar como estavam, porque não estavam a lidar com meninos mimados, estavam a lidar com putas sabidas (puta remete aqui para a ligação mitológica Puta-Putti).

O menino mimado irrita-se com a crítica que lhe é dirigida, enquanto uma puta reconhece-se como tal, e eleva a questão a um patamar acima. Querem os clientes abdicar da puta e da progénie dos putti?

Artisticamente os Mão Morta foram desflorados como virgens vestais.
Foi-lhes dado espaço e destaque nos jornais, e até na televisão, naquele dia de lançamento.
Ou seja, as putas de sacerdócio convidaram as virgens a ofendê-las no seu próprio templo.
Se o vídeo do irmão que morde o dedo do outro teve 700 milhões de visualizações, qual seria o impacto do vídeo dos Mão Morta? Creio que não chega às 70 mil visualizações, que são números mais próprios de espaços obscuros como este, e não são números de quem teve todo o foco da comunicação social.

O que se passa então?
Sim, as virgens podem ofender as putas, mas se não planearem nada mais, o evento é como se não existisse no dia seguinte. Não é novidade que as putas são putas. O espanto de se verem virgens atacar putas é encenação... especialmente se a virgem assume a obra de arte, para evitar processo legal.

Há a ideia de que basta aparecer algo na praça pública, na TV, nas "redes sociais", para que as pessoas reajam... para que se gere uma onda de indignação, para que as coisas mudem, etc.
- Errado, completamente errado!

As pessoas reagem conforme o contexto do "dia seguinte".
Se virem que o dia seguinte é igual ao dia anterior, não reagem... é só "fumaça".
Se virem que no dia seguinte o poder pode mudar, e ser diferente do dia anterior, então aí pode esboçar-se uma reacção perigosa.

Há muito que o poder aprendeu a usar a indignação a seu favor.
Como?
Quando uma indignação é exposta toda nua e crua, como aconteceu no vídeo dos Mão Morta, e nada se passa no dia seguinte, o que acresce é uma tomada de consciência que o poder das putas é grande e que por muito que as virgens o queiram expor, o templo dos putti continua sólido.
A tentativa falhada reforça o poder instalado.

Fraude eleitoral na eleição de Cavaco Silva em 2011
Não foi notícia, porque não foi conveniente ser, mas a maioria de Cavaco Silva, obtida em 2011, foi contabilizada com um pequeno detalhe fraudulento:
  • desaparecimento de 120 mil eleitores e 60 mil votos, no distrito de Setúbal
  • 40 mil eleitores e 20 mil votos a mais, no distrito de Viseu
Apesar de não ter sido notícia, ter sido abafado nos meios de comunicação, com toda a cumplicidade do regime de fantochada democrática conduzido pelos nossos jornalistas assalariados do poder, a informação até está pública na Acta Nº33/XIII (aliás, números muito cabalísticos):

A Comissão Nacional de Eleições tinha 6 membros a deliberar:
  • Dois votaram contra a aprovação do acto eleitoral (Dr. João Almeida, Eng. José Victor Cavaco)
  • Dois abstiveram-se (Dr. Jorge Miguéis e Drª Carla Freire)
  • Dois votaram a favor (Dr. Manuel Machado, e o presidente, o Juiz Fernando Costa Soares)
Apesar deste resultado, apenas com 2 votos favoráveis em 6, as eleições foram aprovadas, usado o voto de qualidade do juiz presidente... porque "podia prejudicar a data de tomada de posse do candidato eleito".
Este argumento é especialmente notável, porque o juiz assume que o Cavaco estava eleito, quando ele só estaria eleito depois da comissão validar as contas das eleições!

Um extracto da Acta nº33/XIII e início da declaração de voto do juiz presidente.

Outro extracto da Acta nº33/XIII - declaração de voto contra do Dr. João Almeida.

Outro extracto da Acta nº33/XIII - declaração de voto contra do Dr. José Victor Cavaco.

Isto é apenas um dos inúmeros casos de erros contabilísticos eleitorais.
Os valores apresentados são aqueles, como poderiam ser outros quaisquer... se atendermos a que se ignoraram 120 mil eleitores e 60 mil votos num distrito, enquanto noutro distrito (apelidado "Cavaquistão") apareceram 40 mil eleitores e 20 mil votos a mais.

Quando se ignoram com esta displicência milhares de votos, como deverá cada eleitor ver cuidado o seu voto singular?
Esta questão esteve no cuidado de dois elementos da comissão, mas imperou a pressa de dar poder ao poder, retirando o poder ao voto individual, desprezado e menorizado face à conta global, e como se essa conta global pudesse ser achada ou considerada, sem a correcção completa do voto individual.

O argumento no sentido de aprovar logo os resultados foi o argumento de que não influenciaria a maioria de Cavaco à primeira volta. Porém, isso é só parcialmente sugerido, já que dos 53% de votos então contados, retirando eleitores e votos em causa, essa maioria poderia passar a apenas 50,1% - ou seja, um número no limite da maioria. Curioso, muito curioso... especialmente porque nenhuma razão foi ali adiantada para o problema se ter verificado apenas em Setúbal e Viseu, e pior, se ter verificado em sentido convenientemente oposto - "votos que desaparecem em Setúbal" versus "votos que aparecem em Viseu". Nenhuma explicação é dada para tão singular fenómeno eleitoral, ocorrido apenas em dois distritos.

Curiosamente, desde a entrada na CEE, na União Europeia, que é bem conhecido que as listas de eleitores estão erradas, com nomes repetidos e nomes de mortos.
Nunca houve nenhum interesse em mudar esta situação, e os partidos que nos aparecem, de uma ponta à outra, desde o PCP ao CDS, são coniventes e pactuam com a falta de respeito pelo acto eleitoral.

O cidadão pode ir votar, para estar em paz com a sua consciência, votando no que julgar melhor.
O resultado que daí sai pode influenciá-lo, mas como não é o cidadão que controla o seu voto, dada a displicência ou fraude, fica em débito na consciência de quem achar por bem sustentar e manter um regime de falsidade instituída. 
Num equilíbrio matemático, que é bom não negligenciar, as contas que desaparecem num lado, irão aparecer noutro. Mais tarde ou mais cedo. E cada vez é mais cedo do que mais tarde... ainda que a cegueira possa ditar o contrário a quem não quer ver.

Pessoalmente, o personagem Cavaco Silva, enquanto informador da PIDE registado em 1967
... é um cidadão como outro qualquer, até porque ninguém é julgado criminoso por ter pertencido à PIDE, ou por ter sido sócio dos Bombeiros. Aliás, assim compreende-se perfeitamente que tenha dado condecorações a membros colegas da PIDE, ao mesmo tempo que rejeitava uma subvenção ao Capitão Salgueiro Maia. Conviver com pulhices faz parte de certa natureza desumana.
Tudo isto é perfeitamente natural, e que o regime vá mudando de cara, mas mantenha os seus poderes de bastidores, manifestando uma ditadura branda na prática de democracia fantoche, acho que é uma evolução, e será mais agradável a ilusão, aos olhos da maioria.

Caso Camarate
Convém não esquecer que Portugal não está isolado, e desde 1980, quando caiu  "misteriosamente" o avião com Sá Carneiro e Amaro da Costa, ficou bastante claro que poderia haver intervenções externas em Portugal ao mais alto nível, quando fosse caso disso.
Claro que contavam com "traidores" internos para o efeito.

A confissão assinada por Farinha Simões, envolve os serviços secretos americanos, e alguns personagens famosos, que vão desde Kissinger a Balsemão, poderia ter abalado o regime... mas não foi caso para tanto.

Neste país, o culto às putas mantém-se estável, e as virgens que cuidem do sua retaguarda.
Cumpriu-se calendário, abriu-se mais uma comissão de inquérito, e entretanto a coisa vai ficando arrumada.
Para cumprir calendário, e como nunca aqui tinha trazido estes assuntos, deixo este registo:

Para quem se lembra do personagem inventado por Herman José - o "Esteves", não estranhará a figura, que apesar de cúmplice assumido e ter apanhado com parte do bolo de 1 milhão de dólares, destinado à operação, foi sendo abafado por esta comunicação social que tanto nos instruiu.

Faço votos de bons votos.

Quem sabe, se sabe alguma coisa, sabe que as contas não se fazem sem um... e isso complica tudo, quando sem uma pequena coisa, tudo é nada.

[O texto foi reeditado no mesmo dia]

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Gramas

Grama liga-se a unidade de peso, mas a origem grega da palavra grama é letra.
É por esse peso que gramática se liga às letras, e o peso do grama é leve.

Um texto com um mil letras terá um quilograma, e um milhão de letras serão uma tonelada, fazendo sentido falar literalmente em "textos pesados".

A caixa de comentários assinala como máximo 4096 caracteres, que é o mesmo que dizer 4096 gramas (contando espaços e sinais como letras).
- É um limite indicativo de carrego ligeiro... 4 quilos de texto!
Muitas vezes escrevi textos com mais de 10 ou 20 quilos, e certamente que foram demasiado pesados para uma leitura útil. Pode não parecer, mas preocupo-me sempre em ser o mais poupado possível, e várias vezes deixei de publicar textos por estarem demasiado longos ou maçadores. Este texto estava quase há um ano para ser publicado...

Quando pensamos em obras grandes, pensamos por exemplo em "os Lusíadas", mas a obra tem menos de 325 quilogramas, não chega a uma tonelada. Em contraponto, "os Maias" de Eça de Queirós juntam a esses quilos mais uma tonelada de gramas, de letras. Porém, apesar dos mil e trezentos quilos, "os Maias" são muito mais levezinhos do que "os Lusíadas", cuja densidade é enorme.


Erros da Gramática
Tenho uma certa aversão aos correctores de serviço. Estão à coca, e atiram à mais pequena falha, como se estivessem à caça aos patos.

Corrigir é uma actividade importantíssima.
Colocar-se acima dos outros por essa actividade, é um deslumbre de simplórios.
Quanto mais entendemos o português, mais vemos a ignorância dos seus gramáticos de serviço.
Note-se que nem sequer abordo o "aborto ortográfico".

Vejamos duas hipóteses de sabedoria:
(i) Haver alguém que saiba.
(ii) A ver alguém que saiba.

O gramático de "cartilha" só entende a primeira frase, e desdenhará a segunda.

O verbo "haver" resulta directamente de "a ver" - teve o mesmo significado, originalmente.
"Haver" tem o significado de existir.
- "A ver" também é existir, porque estando "a ver", existe.
"Haver" tem o significado de ter crédito.
- "A ver" também tem crédito, porque ficamos de "a ver" de volta.

Assim, para entendermos o português, a sério, e não a brincar aos "pimpões gramaticais", devemos procurar ir à raiz. Ir à raiz, significa ir às sílabas, e só raramente ao latim e ao grego... distracções convenientes, porque ao longo de séculos, os gramáticos torturaram a nossa língua com manias - mas não lhe tiraram as sílabas fundamentais.

Os verbos foram as principais vítimas das regras, mas alguns impuseram-se pelas excepções.

A conjugação de "haver" é semelhante à de "a ver", pelo passado e futuro:
- eu havia, eu "a via"; tu havias, tu "a vias"; ele havia, ele "a via"; ...
- eu haverei, eu "a verei"; tu haverás, tu "a verás"; ele haverá, ele "a verá";...

No entanto, convém notar que "houve" misturas, e o "Houve" é "Ouve" de "ouvir" e não de "a ver" ("a viu" seria "haviu" - forma que não existe)!

As misturas levaram ao erro mais frequente na língua portuguesa:
- a confusão entre o "Há" e o "À"!

A conjugação de "Haver" no presente misturou significados.
- "Há aqui." pretende significar "Existe aqui."
Mas isto verifica-se apenas na terceira pessoa!!

Ninguém diz:
- "Hei aqui!" para significar "Existo aqui!"
Ninguém diz:
- "Hás aqui!" para significar "Existes aqui!"

Por isso, o erro apontado a muita gente, começa por ser um erro de significado dos gramáticos, porque nenhuma das outras formas de "haver" no presente:
hei, hás, havemos, haveis, hão
tem verdadeiro significado de existir. Apenas "" tem esse significado de existência.
A prova adicional desta falha verbal é que nem o plural ocorre.
Não dizemos "Hão aves raras", diz-se "Há aves raras".
No entanto, este "há" significa "Existem aves raras" e não significa "Existe aves raras".
O "" é uma excepção gramatical de terceira pessoa indefinida - sempre conjugado na forma "ele há" qualquer coisa - seja plural ou singular.
Não é um verbo, no sentido normal, porque não se conjuga com o mesmo significado nas outras pessoas. Isto parece ter escapado aos "sábios" gramaticais que nos (des)ensinam... inventando o termo "verbo impessoal".

Nas outras pessoas... o uso de "hei" está quase sempre ligado a "hei-de", tal como "hás" se usa em "hás-de" (com "erro" popular em "hádes"), ou "há-de", "havemos-de", "haveis-de", "hão-de" (com "erro" popular em "hádem").

Agora, no AO-90, é dito para tirar o hífen... como se "hei" se pudesse ligar a outras preposições, quando é usado exclusivamente com "de".
Dizemos "hei-de fazer", mas alguém diz "hei a fazer", ou "hei por fazer", ou "hei com dizer"?...
O despudor autoritário nem sequer se dá conta do que "há por fazer"!

Isto não é acidental.
As formas "hei", "hás", "há", são primitivas do verbo "ir".
Aquilo que estou a dizer é que antigamente dir-se-ia:
- "eu hei", ao invés de "eu vou";
- "tu hás", ao invés de "tu vais";
- "ele há", ao invés de "ele vai".
- "nós hemos", ao invés de "nós vamos";
- "vós heis", ao invés de "vós ides";
- "eles hão", ao invés de "eles vão";

Estas formas primitivas resistiram apenas na conjugação do futuro, onde ficaram plasmadas:
- ir hei (irei), ir hás (irás), ir há (irá), ir hemos (iremos), ir heis (ireis), ir hão (irão);
- saber hei (saberei), saber hás (saberás), etc...

É claro que o "h" não faz nada na língua portuguesa, coloca-se apenas para distinção.
Portanto quando se escreve "ele há" ou "ele à" quem se atreve a falar em incorrecção?... a não ser simplesmente porque se decretou por decreto.

Acresce que...
... esta forma de "há" é a mesma que ocorre na contracção da preposição "a" com o artigo "a".
Esta contracção é a mesma que induz a acção do verbo "ir".

"Há errar" ou "à errar"?
Quem quer usar a excepção do verbo haver como "há" de existir, vê um erro, que é um erro dogmático, instituído por gramáticos míopes.
Ninguém diz "hei errar" para assinalar que tem erro, nem no pretenso "português arcaico", que foi no tempo onde se fizeram mudanças gramaticais.

Por isso, a forma "à errar" é uma variante primitiva de ir na direcção de errar, e seria até correcta se disséssemos "hei errar" ou "hás errar", pois "há errar" teria assim outro significado.

Breve conclusão.
Conheço muita gente que escreve mal, mas pouca gente que fala mal.
Interessa corrigir erros com o propósito de unificar e não de diferenciar.
Corrigir erros visa concordar numa verdade comum, enquanto os censores de erros visam distinguir-se dos comuns pela sua actividade censória.
Essa actividade censória, movida por egos pessoais e não por apegos globais, merece-me sempre a mais feroz crítica.

Eu pouco sei de gramática, mas conheço de muito, o suficiente para levar a cabo um projecto de rever as coisas de alto a baixo. Não me preocupa estar errado, e reconhecerei erros. Preocupa-me mais este silêncio dogmático, do que se toma por certo por decreto, e não se discute.

Em textos seguintes irei mostrar, como se pode ler português de forma completamente diferente do que é habitual. Já o fui fazendo muitas vezes, mas serei mais sistemático, introduzindo uma rubrica regular, pelo menos semanal.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nebulosidades auditivas (27)

GAIA - live at State of Trance 650
Ultra Music Festival (Miami 2014)

Música em contínuo, sem baixar o ritmo durante horas e horas... é basicamente uma iniciativa de vários DJ's, em particular promovida por Armin Van Buuren, que aqui aparece no duo "Gaia".

Outra sequência igualmente recomendável com sete pecados: - Transmission - "Seven Sins", onde destaco três desses DJ's:

Solarstone
Photographer
John O'Callaghan


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Havia um avião - Reunião 515 dias

Na sequência de dois textos anteriores "Aviam Avião":


parece-me que podemos iniciar uma série sob o tema "Havia um Avião".

As palavras chave que foram escolhidas para as notícias de ontem (5 de Agosto), sobre a descoberta de um resto de uma asa de um Boeing, foram notoriamente duas:
- Reunião
- 515 dias
Que uma palavra seja "Reunião", parece inevitável, já que o destroço seria encontrado nas Ilhas de Reunião. Já dar eco ao número 515 dias parece-me menos vulgar, até porque ninguém se lembrou de dar foco ao número exacto de 131 dias, passados entre o primeiro e o segundo acidente dos aviões da Malaysia Airlines. 

Só refiro isto, porque para quem leu algumas coisas esotéricas e cabalísticas, o número 515 é daqueles que não passa completamente despercebido.

Num estranho "artigo científico" de 1989 (!), Lima de Freitas dá algumas pistas sobre este número. O artigo chama-se 

... e parece mais um artigo de blog do que um artigo científico (mas, enfim, à época não haviam blogs). Na introdução diz o seguinte:
After stressing the fact that the paradigm of the mirror is common to oriental as well as western traditional metaphysical and religious speculation, he comes to mention the mysterious use of the number 515 by means of which Dante Alighieri, in his Divine Comedy, prophesies the advent of God's Envoy. 
e acaba quase no mesmo estilo (sendo um verdadeiro mistério a aceitação do artigo naquela revista, ou talvez não, lendo os manos):
All this is very much in the spirit of Dante. I think for the reasons above and because of other clues, that the "Apparition of Christ to the Virgin", the masterpiece of (probably) Master Jorge Afonso now in the Janelas Verdes Museum of Lisbon, commissioned by Queen Leonor in the first quarter of the sixteenth century, exhibits the cipher 515, with the same intention and meaning that Dante gave to it two centuries before. This belief of mine grew stronger when I realised that, at the entrance of the church of Templars in Tomar - the centre of the Templar Order in Portugal and one of the most important monuments in Europe - the Master who built the porch engraved in the stone - once again! - the cipher 515.
Só por curiosidade natural fui ver o tal quadro de Jorge Afonso:
Aparição de Cristo Ressuscitado à Virgem, de Jorge Afonso
(detalhe, onde se evidencia o 1515)
Peço imensa desculpa, mas dada a curvatura dos 5, o que leio ali não é 1515, mas sim ISIS.

Eu sei, comecei este artigo apenas com a intenção de cumprir calendário com a notícia do avião desaparecido, e já chegámos à variante do Estado Islâmico... o ISIS, de 1515 para 2015, com quinhentos anos de diferença. Sem comentários!

No entanto, a oportunidade da menção que o mação Lima de Freitas faz ao 515 de Tomar (não seria apenas o ano da obra?), permite agora falar da Igreja de Santa Maria dos Olivais, que o José Manuel fez referência num comentário (... até essa altura apenas associava Stª Maria dos Olivais à freguesia lisboeta dos Olivais), e ao seu pentagrama associado:
Igreja de Santa Maria dos Olivais, igreja matriz dos templários com um pentagrama
E acrescento que no retábulo de Jorge Afonso, parece-me que o velho Adão coberto apenas com a parra, segura uma maçã e nenhum pomander... esse de 1505:

Todo este interlúdio para realçar que quando se lança um número como 515 para as notícias, as mentes cabalísticas, plenas de espírito esotérico, não serão totalmente insensíveis, e não o lerão da mesma forma que o comum dos mortais (já tivemos o 115 como número de emergência, mas passou a 112, provavelmente por causa destas confusões...).

Só um pequeno acrescento relativamente a estes delírios correntes.
O 1 é visto como a unidade divina, assim com o 3 é visto como a sua trindade, e o 5 é entendido como sendo o número do homem (o que se compreende pelos cinco dedos, e não só - ver texto Abraçadabra). Portanto, escrever 515 é como entender uma passagem de homem (5) ao divino (1) e o regresso como homem (5). O habitual uso de 3 dígitos teria a ver com o número de eras (era do Pai, do Filho, e do Espírito Santo).  Mas, passando a 4 dígitos e de forma semelhante, 1515 seria equivalente, mas começando antes pela parte divina. Na mesma pseudo-lógica, devemos entender 2 como a dualidade (por exemplo, feminino e masculino) e 0 como o vazio, a ausência. Portanto, 2015 poderia ser entendido como sequência iniciada numa dualidade, desaparecida, da qual emerge parte divina, e depois humana. 
Mas enfim, tudo isto serviria para rir, se não fosse para chorar.

Voltando ao assunto de interesse.
Passado um ano sobre o desaparecimento do MAS 17, a BBC juntou o que se tinha "apurado" neste artigo:
... e uma das coisas que se pode reparar nesta figura
Partes recuperadas do avião abatido na Ucrânia (MAS 17, em 17 de Julho de 2014)
... é que foi recuperado pouco do avião "destruído pelo míssil". Uma boa parte parece ter-se evaporado ou volatilizado. Assim, digamos que há muito por recuperar daquele avião, e não sendo normal que tenha entrado em órbita e caído na ilha da Reunião, eu não estaria assim tão seguro disso.

Uma teoria que circulou o ano passado é que o vôo MAS 370 teria sido desviado para a base americana de Diego Garcia, no Oceano Índico. Os proponentes desta teoria poderiam ter ficado mais convencidos com o aparecimento de destroços na Ilha da Reunião, pois essa base está bem mais próximo do local de recolha do destroço. Ainda assim, devido a toda a teoria de correntes que poderiam ter levado os destroços da asa, tudo é possível, ou como se diz no título da revista Wired:
e conclui com esta certeza - "Well, at least we know the plane’s not hiding in Kazakhstan."

Mas eu não estaria assim tão certo que o Cazaquistão será um local a excluir das buscas, seja pelo que falta do MAS 370, seja pelo que falta do MAS 17... insistindo que não é claro que o que falta não seja exactamente o mesmo!
Portanto, o que temos agora é apenas mais música sobre uma parte de uma asa...

Asas - GNR

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Aditamento (9/08/2015):
Por via desta notícia cheguei a uma teoria avançada também no ano passado, uns quatro dias depois de ter colocado aqui a hipótese do MH17 e MH370 serem o mesmo, e que também seguia na mesma linha:

Aliás convém salientar que isto nada tem de especial, já que a semelhança dos dois aviões deveria automaticamente disparar a pergunta - se seriam o mesmo ou não? Tão preocupados estavam os jornalistas em serem politicamente correctos, que ninguém se atreveu a comentar ou estranhar essa semelhança. O que só fez tornar tudo ainda mais suspeito.

A minha suspeita não se fundava em dados muito objectivos, mas o site em questão compilou alguns:

1. A missing window on the wreckage, which appeared in some pictures over the internet.
2. The flag does not properly align to the window, as compared to recent pictures of the original MH17 (no new information here).
3. Rebel leader describes the MH17 victims: rotten corpses, drained of blood (no new information here). 
4. ALL the videos were created before MH17 was allegedly shot down (no new information here).
5. Flight MH17 was cancelled, according to flight radar screen (no new information here).
6. Invalid and pristine passports at the crash site
...
É relevante, e foi uma informação veiculada logo nos dias seguintes, que o voo MH-17 tinha sido dado como cancelado.