quinta-feira, 27 de junho de 2013

The show must go on

Numa daquelas habituais iniciativas popularuchas, a NASA anunciou que vai tirar uma fotografia da Terra, a partir da Sonda Cassini, que é suposto estar a orbitar Saturno... o evento decorre no dia 19 de Julho de 2013, e parece que a NASA sugere que todos "acenem para o boneco":

... em troca a NASA devolverá a sua fotografia nesta forma:
... sim, basta acreditar que vai ficar naquele pontinho de luz. Pode pedir uma imagem de maior resolução, e mesmo assim não passará de um pontinho... talvez o façam um bocadinho maior e ponham azul.

A NASA teve o cuidado de avisar que a imagem acima se trata de uma simulação, indica o programa:
Solar System Simulator v.4.0

... e é bom que o faça, porque entretanto já há vários programas a correr simulações. Encontrei um deles, chama-se Celestia, pode ser feito download a partir daqui:

A partir desse momento, pode-se começar a competir com a NASA no envio de imagens de Saturno, ou do planeta que quiser. Não, não precisa de enviar uma Sonda Cassini, nem de investir milhões de dólares em foguetões e equipamentos sofisticados. 
Não, a partir deste momento qualquer governo pode ter o seu programa espacial baratinho. Pode cobrar muitos impostos, dividir com o pessoal amigo, e depois para orgulho da nação mostrar imagens destas:
Sombra de Saturno nos seus anéis... vista por uma qualquer sonda inexistente.
Simulação no Programa Celestia 

Pode-se escolher uma imagem nesta galeria de imagens que fazem inveja a qualquer NASA:

Bom, e a descrição que a NASA faz das suas imagens também não é de nenhuma realidade:
This marvelous panoramic view was created by combining a total of 165 images taken by the Cassini wide-angle camera over nearly three hours on Sept. 15, 2006. The full mosaic consists of three rows of nine wide-angle camera footprints; only a portion of the full mosaic is shown here. Color in the view was created by digitally compositing ultraviolet, infrared and clear filter images and was then adjusted to resemble natural color.  
A ideia da NASA é evitar dizer que a imagem é maravilhosamente falsa (embora isso se veja a anos-luz).
Então diz-se que a imagem foi composta de muitas imagens (verdadeiras? - claro!), neste caso 165, com longa exposição... sim, não há estrelas no fundo, mas não interessa. Convém ser-se um bocadito criativo e dizer que vêm do infra-vermelho ou ultra-violeta... e depois como isso não tem cor, põe-se uma maquilhagem, para uma cor, um tom, natural. 
Bonito? - O que é que interessa se é maquilhada, real ou ficção? 
Chama-se a isso a longa aprendizagem de efeitos especiais de Hollywood e associados...

Quanto a estas imagens de Saturno, estava à procura de ver uma imagenzita da difracção da luz do Sol através dos anéis de Saturno. 
Claro, não há... ou, sejamos optimistas - só não encontrei. 
Seria obviamente uma imagem que deveria fazer parte do clássico. Mas, imagens do Sol, tiradas por aquelas sondas que usam o Sol para tirar fotos de outros planetas, pois isso é coisa que não vi. 
A câmara embica no planeta, e não há quem a vire para o Sol... (claro, dirão, queimaria "o filme"... sim, mas só quando há atmosfera dispersiva, senão será um disco de luz).
Quando "se foi à Lua", sempre o mesmo problema... não há imagens do Sol, um filme de eclipse, nem de um pôr de Sol, nem de estrelas! Só na Terra é que nos lembramos de fazer essas coisas.

Vale de Marte
Agora a moda é Marte. Quando me sinalizaram esta imagem
 
(Sonda Curiosity em "Marte" - artigo do Expresso - 20/6/2013)

... mais uma vez achei que parecia uma fotografia de um deserto terrestre, talvez o Atacama ou outro. A sombra da antena está muito bem definida, indica semelhanças com um deserto "escaldante", coisa que não se teria em Marte (o Sol perderia metade do tamanho visível do disco, e com a maior distância, a intensidade solar reduz-se a 1/3 da terrestre).

Bom, fui procurar imagens no deserto do Atacama, e dei com o chamado "Vale de Marte", e outro "Vale da Lua", e dá para pensar no que podem querer significar aquelas designações (a imaginação acaba por encontrar semelhanças com tudo, e pode ver-se em Marte no Chile, pelo menos no vale de Marte!):
Vale de Marte - deserto do Atacama, Chile (panoramio) - à direita, imagem adaptada às "cores da estação".
Vale da Lua - deserto do Atacama, Chile (a preto e branco)

O que tem o deserto chileno a ver com a NASA? 
Parece que muito pouco, é mais a ESA que tem telescópios no Chile. 
Bom, mas há 3 anos atrás, em 2010, houve um acidente numa mina de Cobre no Atacama.
Então o número 33, a Fénix, e o Cobre, foram bastante falados. Acabou por ser a NASA a desenvolver uma cápsula "Fenix" que resgatou os "33" mineiros soterrados na mina de "cobre", entretanto "descobertos".

Como diria o Freddy - the show must go on... mas se pagamos bilhete, ao menos que seja bom:

Nota posterior [28/6/2013]_________________________
Por lapso, ontem não incluí imagens de "pôr-do-sol" marciano, mas podemos encontrar na wikipedia.
A imagem da esquerda é o "original" que se encontra na wikipedia, onde podemos ver um pequeno ponto de luz perto do horizonte. Isso corresponde ao esperado... mas a NASA ao apresentar imagens destas corre os habituais riscos de credibilidade. Uma pequena inspecção, feita através imagem à direita, revela afinal um foco de luz azulado(!) que nem sequer coincide com o suposto disco solar... pois, não bate certo!

Numa outra imagem de "pôr-de-sol", fizémos a mesma análise e encontramos agora um grande disco solar amarelado, serve como foco de luz, mas com um efeito de câmpanula oposto ao normal...

Posso imaginar que se invente uma desculpa relacionada com as partículas de poeira em suspensão, ou algo pouco específico e ambíguo. No entanto, qualquer uma das imagens não tem justificação aparente.
No caso desta última imagem, a NASA tenta precaver-se. No canto inferior direito lê-se afinal:
By making all the raw data available to the public, beautiful images such as this are made possible. Freelance imagers compile the data and generate color images not attempted by official NASA/JPL teams.
Portanto a NASA só assume imagens a preto-e-branco, as "lindas cores" são feitas por "freelancers". 
Deve ser grave o problema de orçamento que impede que os aparelhos enviados tirem fotos a cores...
É caso para dizer, mais valia ficarem calados!
A desculpa anexa é talvez a maior prova de manipulação, tentando passar erros para terceiros, pela ausência de fotos coloridas... mas que depois usam, porque são "lindas" e o que se gosta é de "artistas".

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Os véus e as velas

Há uma boa quantidade de invenções que são tidas como modernas, mas que não têm nenhuma razão especial para não existirem desde remotos tempos, pelo menos desde a Antiguidade.

Como um desses casos encontramos os "veículos de vela terrestres":
Simon Stevin (1649)
Hendrik Gerritsz (1637)

Um artigo da wikipedia apresenta referências que remetem a originalidade aos Chineses, a Xiao Yi, no Séc. VI d.C., constantes na representação de atlas de Ortelius, Mercator, J. Speed...
Nas grandes extensões planas, este transporte poderia ter utilidade, ainda que limitada. O veículo desenhado por Simon Stevin acabou por ser mesmo construído e usado pelo Príncipe Maurício de Oranje como veículo de entretimento... tal como hoje tais veículos são usados em desporto:

Bicicletas...
Se estas imagens correspondem a uma realidade confirmada, o mesmo já não se passa com algumas imagens fabricadas de bicicletas, que se pretenderam associar à época medieval. 
No entanto, nada seria mais plausível... a tecnologia de um monociclo, bicicleta, ou de um triciclo, esteve disponível para poder ser usada praticamente desde que há rodas... o maior problema seria a existência de estradas compatíveis com o esforço. A bicicleta acabou por se popularizar com o advento das estradas de macadame, depois de McAdam, e após a derrota de Napoleão em Waterloo.
Essa observação é feita num livro de 1867, de Velox (um pseudónimo), sob o título "Velocipedes, bicycles, and tricycles: how to make and how to use them":
Like the coach, they [chariots] were of rude workmanship; but the mind that designed and constructed them probably dreamed of some mode of dispensing with the cattle necessary to move them. Even then canoes moved on the face of the waters and ships on the sea; and it is more than probable that a similar motive power was looked for land.
É natural que um escritor do Séc.XIX se interrogasse sobre a razão do invento aparecer tardiamente, em 1819, já que seria natural o homem procurar usar a roda mesmo sem recurso a animais, como acontecia com as canoas nos rios, e os veleiros no mar. 
Simplesmente o génio humano estava preso na garrafa, e só teve autorização para sair no Séc. XIX, quando subitamente todas as invenções pareciam ser possíveis e naturais. Mesmo assim, Velox consegue encontrar um registo francês de um triciclo, de Blanchard (1779), quarenta anos anterior ao registo habitual:

Também seria natural invocar simples brincadeira de crianças, que tiveram diversas variações... ao meu tempo consistiam em fazer carrinhos de rolamentos, que perigosamente desciam a grande velocidade as colinas. Para esse tipo de coisas, bastavam rodas e colinas suaves... dois factores disponíveis desde os tempos mais primevos.

O bloqueio mental percebe-se lendo alguns textos cristãos. Uma roda dentro de outra roda era associada a uma visão do profeta Ezequiel, e como o Padre António Vieira explicava haveria votos associados a rodas. A duas rodas, o voto de pobreza e castidade, e depois às outras duas votos de obediência. Este género de associações prestavam-se a interpretações proibitivas.

Relógio fora do tempo
Terminamos este pequeno apontamento com um pequeno mistério, que apesar de pouco divulgado, parece ser fidedigno, e nada vi que o desmentisse... 

Trata-se de um relógio do início do Séc. XX, que seria tão miniaturizado que poderia ser usado como anel, mas foi encontrado numa sepultura Ming que deveria estar fechada desde o Séc. XVII. 
Portanto, tal como a máquina de Anticitera é um achado de relógio fora do tempo e lugar.

O pequeníssimo relógio terá "Suiça" escrito nas traseiras (não sei em que língua). Tanto pode revelar que o túmulo foi visitado incognitamente no início do Séc. XX, como revelar uma tecnologia suiça já capaz de produzir peças miniaturizadas por volta de 1600 d.C. Há ainda quem seja logo aliciado para teorias de viagens no tempo... neste caso seria uma viagem passada (c.1900) ao passado (c.1600)!

O mais natural é uma eventual visita "anónima" que deixou aquele vestígio incómodo. Porém, os véus que caíram sobre o progresso tecnológico também nos podem fazer supor que nada impediria que no Séc. XVII houvesse tecnologia capaz de produzir tal proeza, que um imperador Ming não resistiu em levar para o seu túmulo.

Não parecendo ser este o caso, é natural aparecerem cada vez mais registos dúbios, que se verificam serem falsos. Basta uns tantos para descredibilizar tudo o que não tenha a "chancela oficial". Por isso, é mais seguro procurar registos que nos foram chegando do passado, do que seguir novas descobertas publicitadas nas redes sociais, que podem ser resultado de simples tentativa ocasional de conduzir opiniões. Essas novas descobertas podem aparecer como promissoras e certificadas, para depois serem rapidamente descredibilizadas. Os registos do passado têm a vantagem de já terem sofrido a resistência dos tempos, mantendo o seu mistério.

sábado, 15 de junho de 2013

Bisnau

Já tinha abordado a questão da Santa Cláusula e a possível ligação de São Nicolau à Cláusula da Trindade Cristã, pela sua oposição às teses Arianas (de Arius de Alexandria).  Esta Santa Clause defendia justamente uma identificação cristã Pai-Filho, ou seja que o nascimento cristão seria do Filho mas também, pela identificação, do Pai, ou seja um Pai Natal.

Em paragens arianas, na Índia, encontramos um outro elemento interessante.
Há uma filosofia religiosa fundada em 1485, conhecida como Bisnau, fundada pelo guru Jambheshwar, após as guerras dos muçulmanos com hindús. Este guru terá sido contemporâneo com a chegada dos portugueses à Índia.
guru Jambheshwar (1451-1536)

Os seguidores desta filosofia religiosa Bisnau seguiam 29 princípios, seleccionados do Hinduísmo, denotando um carácter monoteísta (centrado em Vixnu), e também uma protecção ambiental que foi levada ao limite.

Massacre do Corte das Árvores (Khejarli, 1730)
Em 1730, colocou-se a perspectiva de, para a construção de um palácio no Rajastão, serem cortadas árvores khejri (Prosopis), tidas como sagradas pela comunidade Bisnau. 
Muitos elementos Bisnau decidiram agarrar-se a elas para impedir o corte.
Porém isso não impediu a determinação dos executores, e conjuntamente com as árvores foram cortadas as vidas de 363 mártires.
A protecção das árvores no Massacre de Khejarli, 1730

Árvore de Natal
Não deixa de ser irónico ter a figura do Guru Jambheshwar tão semelhante à figura popularizada do Pai Natal.... porque, nessas celebrações cortam-se Árvores de Natal em todo o Mundo, exactamente o oposto do que professava. Parece uma ironia algo sádica para as vítimas do Massacre de Khejarli.

No entanto, a tradição da Árvore de Natal acabou por se estabelecer no mundo protestante, especialmente no Séc. XVIII e XIX, ao contrário do que se fazia no mundo católico, onde o Presépio foi mantendo o seu lugar. A figura que conhecemos do Pai Natal, com as suas longas barbas brancas, as suas vestes vermelhas, que incluem o gorro vermelho, essa parece ser mais recente. Tem até constado ter sido manobra publicitária da Coca-Cola, para promover as suas cores... 

Não podemos deixar de reparar na semelhança e ligação.
O aspecto de devoção, e até um fio de contas que se assemelha a um terço, podia melhor integrar-se numa figura católica do que o habitual ar bonacheirão. Se o nome terço se liga à trindade, há ainda todo um aspecto de renascimento integrado. No caso da filosofia hindú remeteria para o renascimento noutras formas de vida, que a seita Bisnau procuraria proteger a todo o custo. Foi considerado também que esta filosofia de renascimento derivaria da expansão que a filosofia pitagórica tomou em diversas partes do globo.

Pássaro Bisnau
No século XIX era habitual usar-se a expressão "pássaro Bisnau", e não encontrei nenhuma ligação à seita Bisnau. 
Não sei se poderia retirar-se de uma alusão a "passar o Bisnau", pela forma como foram passadas a machado as dificuldades com as árvores do Bisnau. Tem a conotação de um "pássaro bisnau" ser alguém que está em controlo, que do exterior pode provocar discórdias por artimanhas. Pode sugerir que a discórdia lançada no Rajastão era motivada por asas externas, pelas Companhias das Índias que depois iniciariam a colonização com a derrota do nababo bengalês na batalha de Plassey, em 1757.

Rafael Bordalo Pinheiro numa ilustração do seu periódico "António Maria", em 1884, colocava alguns "pássaros bisnau" ingleses, pousando sobre a "árvore da liberdade, do civismo e alimentação". Portugal, na sua perspectiva, estaria em harmonia com um Zé Povinho servindo com prazer a refeição aos detentores do poder (excepto um "empossado" colocado à margem). Passados menos de dois anos, os ingleses iriam borrifar-se noutra mesa, na que tinha o mapa Cor-de-Rosa.